{"id":8456,"date":"2014-09-07T11:19:41","date_gmt":"2014-09-07T14:19:41","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=8456"},"modified":"2014-09-07T20:47:58","modified_gmt":"2014-09-07T23:47:58","slug":"dedosa-de-prosa-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedosa-de-prosa-ii\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Pedro Reis<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_8458\" aria-describedby=\"caption-attachment-8458\" style=\"width: 375px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/INTERNA4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8458 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/INTERNA4.jpg\" alt=\"Luciana Bignardi\" width=\"375\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/INTERNA4.jpg 375w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/INTERNA4-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8458\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Luciana Bignardi<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cap\u00edtulo \u00d3sseo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O travesseiro estofado de carpos e metacarpos tiritava ao movimento do cr\u00e2nio, me obrigando a levantar o tronco, insone. Como que por costume, viro os olhos, esperando que o breu me oferecesse alguma luz que fosse para ver o rel\u00f3gio a minha esquerda. O ponteiro menor permanecia entre os n\u00fameros 4 e 5, enquanto o maior, algo como no 36. O dos segundos, n\u00e3o havia, ou me despistava em sua velocidade. Esse dia haveria de ser uma segunda-feira, nada antes, nada ap\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem olhar para o ch\u00e3o, evitando a vertigem, pouso os p\u00e9s nas ossadas que encarpeteavam meu aposento. Ou\u00e7o o estalar dos mais fr\u00e1geis enquanto sacudia-os, cavando o ch\u00e3o por debaixo das mand\u00edbulas a mordiscar meus tornozelos. Dou passadas firmes e lentas para n\u00e3o me ferir, e alcan\u00e7o por fim a mesa. O rel\u00f3gio agora se atrai\u00e7oava atr\u00e1s da nuca, e, como se n\u00e3o houvesse mesmo o ponteiro dos segundos, a engrenagem &#8211; podia jurar &#8211; n\u00e3o se ouvia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sono ainda ofuscava a fome daquele dia ainda n\u00e3o nascido, mas, sem acender as luzes, tateio as t\u00edbias e r\u00e1dios amontoados na altura de minhas canelas, \u00e0 procura de algo com que ocupar os dentes. Encontro um f\u00eamur levemente poroso e chupo um restante de cartilagem que se desprendia de sua extremidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abri a primeira gaveta \u00e0 direita e iniciei a checagem dos relat\u00f3rios da noite anterior. Era um sem n\u00famero de casualidades, anula\u00e7\u00f5es, aniquila\u00e7\u00f5es, espancamentos, mutila\u00e7\u00f5es, depreda\u00e7\u00f5es e mais um tanto de hipotermias, n\u00e1useas, v\u00f4mitos, tremores, cefaleias, mal estar, cansa\u00e7os, dores musculares, diarreias e outros sintomas inespec\u00edficos a preencher p\u00e1ginas e p\u00e1ginas lidas com um desconforto causado por aquela restolhada que assomava \u00e0 minha cintura, me perfurando o tecido das cal\u00e7as, beliscando as coxas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No intuito de libertar minhas pernas do ac\u00famulo de esc\u00e1pulas, quase derrubo minha caneca de leite deitada \u00e0 mesa. Era uma caneca longa, resistente e impec\u00e1vel, feita com um tipo de cer\u00e2mica incomum. Naquela segunda-feira, ela me era perfeita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 n\u00e3o sinto mais meus p\u00e9s. Afogados naqueles restos extintos, n\u00e3o consegui mov\u00ea-los e nem imaginar-lhes a situa\u00e7\u00e3o. Minha cama certamente foi tomada pelo ajuntamento que me anavalhava as axilas, tilintando entre si ao mais leve movimento. Salvei os arquivos dentro das gavetas antes que estes fossem tamb\u00e9m engolidos, e levantei da mesa a insepar\u00e1vel caneca, prontificado a dar o \u00faltimo gole.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com muita dificuldade sacrifiquei meu queixo e orelhas aos arranh\u00f5es dos xifoides e sacros que me feriam o pesco\u00e7o, e olhei novamente para o rel\u00f3gio escondido na bruma. O ponteiro menor, o das horas, se encontrava entre o 4\u00ba e o 5\u00ba n\u00famero, enquanto o dos minutos era afogado por f\u00edbulas, talos e mediais. Tive de cuspir alguns trapezoides para libertar minha boca ao derradeiro gole que me descia aos l\u00e1bios. Com um r\u00e1pido movimento dos dedos, pude ao menos limpar meus bigodes. A cor do leite se camuflava na cerra\u00e7\u00e3o, enquanto me queimava a l\u00edngua. Era negra, e tinha gosto de cinzas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mat\u00e9ria Assombrada<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Acordo sem abrir os olhos. Aquela m\u00e3o que me sobrevoa a testa e os cabelos tenta desviar-me do sonho anterior. H\u00e1 como resgat\u00e1-lo, mantendo os olhos fechados. De uma car\u00edcia t\u00e3o leve acima das sobrancelhas, n\u00e3o poderia sequer culp\u00e1-la, pois h\u00e1 anos n\u00e3o sonho, ou n\u00e3o lembro. Sigo a contar. Tenho uma vantagem em rela\u00e7\u00e3o a minutos atr\u00e1s, enquanto dormia. Meio desperto, acalentado por m\u00e3os pacientes, atento com clareza \u00e0 hist\u00f3ria que se passava em minha cabe\u00e7a, e posso control\u00e1-la, controlar-me, com cuidado mover cada cor e gesto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia uma ilha, cuja sinuosidade da costa se esticava de um lado a outro sem ceder \u00e0 sua curvatura de contornos mar\u00edtimos comuns \u00e0s ilhas. E mesmo eu, ali pela primeira vez, a sabia ilha, talvez mais que ela. Sabia de sua cabeleira de folhas imitando com o vento o sussurro do mar, desajeitada, e que de seu topo pendiam pessoas, de l\u00e1 nativos milenares. E olhando em dire\u00e7\u00e3o a ela, com sua folhagem, com seus galhos colidindo entre si no balan\u00e7o constante, guerreando espa\u00e7o no universo acima da areia, t\u00e3o \u00fateis contra as chuvas, vejo que n\u00e3o rebatem a luz. Uma floresta espessa, mas t\u00e3o clara quanto o litoral, refratava perfeitamente o sol. Sobre as \u00e1rvores, n\u00e3o havia sombra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro-me intruso nesta ilha. Sim, mas n\u00e3o hostil, nem hostilizado pelos nativos. Quando, h\u00e1 cinquent\u2019anos, cheguei aqui, vi do alto, despencando aos mil, os moradores daquele lugar. Aproximaram-se amig\u00e1veis, e de seus corpos, como que libertos do arco solar que acima clareava o dia em que cheguei, n\u00e3o possu\u00edam tamb\u00e9m sombra alguma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas talvez o mais interessante seja o modo como me olharam pela primeira vez. Seus olhos tinham uma cor chamuscada, n\u00e3o a cor ba\u00e7a dos cegos, mas uma queimada, fogueira morta, pela exposi\u00e7\u00e3o perene durante o dia. Come\u00e7avam a passear-me em volta, e contornavam cuidadosos a minha sombra indiferente. Uns mais corajosos chegavam muito perto dela, com os p\u00e9s e as m\u00e3os e os olhos e as crian\u00e7as, mas por medo n\u00e3o a tocavam. Alguns come\u00e7aram a brincar com ela, pulavam de um lado a outro, enquanto eu ria. Vi alguns mais velhos reprimirem as brincadeiras, e seus olhos sem express\u00e3o se abriam inseguros. Minha sombra do\u00eda naqueles olhares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diferente das aventuras que li quando crian\u00e7a, n\u00e3o fui feito prisioneiro e muito menos fizeram festa pela minha presen\u00e7a. Puxado pelas duas m\u00e3os pelos nativos mais jovens, fui acolhido, sim, mas como um amigo mudado pelos anos, suficientemente distante para que qualquer tipo de rancor ou confian\u00e7a se tivesse dissolvido no tempo. Para eles eu era um ser virgem, de natureza intocada. Eles me levaram por trilhas entrecruzadas na floresta, necess\u00e1rias apesar da claridade que tonalizava de esmeralda reluzente o teto sobre n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o havia palavras de agradecimento. Havia descoberto muito cedo que n\u00e3o havia palavra sequer por ali. Tive que adequar meus pensamentos aos gestos com os quais eles me envolviam durante os dias e as noites, enquanto as horas passavam, e eles passeavam a minha volta, numa ciranda lenta, comandada pelo sol, girando a minha sombra e consequentemente, eles. Queria falar para eles sobre o tempo, mas n\u00e3o pude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assustavam-se quando ela mudava de tamanho, se afinava e esticava quando o sol nascia ou se punha, e enfraquecia nas noites de lua. Pude jurar uma saudade naqueles olhos, olhando para ela. Via os mais velhos apontando os dedos para a sombra, explicando segredos para os mais novos de olhos curiosos. Perguntas curiosas sobre aqueles assuntos eram constantes, mas n\u00e3o conseguia tradu\u00e7\u00e3o para os gestos que se seguiam, e permaneci ignorante \u00e0quelas hist\u00f3rias. Eu n\u00e3o tinha permiss\u00e3o de entrar nas moradas constru\u00eddas nas alturas. Eles tinham medo de que minha sombra tocasse seus pertences, e pela primeira vez em vida tive de andar guiando minha sombra pelo tempo e pelo espa\u00e7o da ilha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 o dia em que os mais velhos come\u00e7aram a ficar s\u00e9rios. N\u00e3o frequentavam as hist\u00f3rias que eu gesticulava durante o dia, e come\u00e7aram a acordar no meio da noite, sobressaltados por vis\u00f5es bizarras e escuras e inc\u00f4modas. N\u00e3o durou muito at\u00e9 eles chegarem a alguma resolu\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a mim, e isto eu j\u00e1 esperava, dada a franqueza daquele povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era final de tarde quando o grupo, representado pelo anci\u00e3o de nome ingesticul\u00e1vel, iniciou diante de mim um complexo de movimentos, me explicando da forma mais clara e alentadora poss\u00edvel que eu precisava me desfazer da minha sombra. Dei um passo para tr\u00e1s, olhei para ela, para eles, para al\u00e9m das fronteiras de contornos mar\u00edtimos. E com minhas m\u00e3os incipientes \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o dos assombrados, perguntei como poderia fazer o que eles me pediam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele mesmo instante, todos me guiaram at\u00e9 o litoral, de forma que minha sombra me seguia fina e enorme a minha frente, devido ao sol poente \u00e0s nossas costas. Eles come\u00e7aram um coro agudo e dissonante que se dissolveu em segundos nos meus ouvidos. O medo me ensurdeceu, meus p\u00e9s se enterravam na areia, sem querer seguir em frente, a ponta da minha sombra quase a tocar a espuma branca daquele que a engoliria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles colocaram a m\u00e3o em meus ombros, me olharam enquanto cantavam e minhas l\u00e1grimas rolavam e meu peito do\u00eda e minhas pernas n\u00e3o mais me obedeciam, autom\u00e1ticas que estavam em dire\u00e7\u00e3o ao mar. Minha sombra tocou as ondas fracas e calmas que forravam a areia molhada, dispersando os seus limites escuros no abismo. A metade dela j\u00e1 tinha seu destino para al\u00e9m das minhas reflex\u00f5es, mas n\u00e3o sentia nada sen\u00e3o amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando senti a \u00e1gua fria nos calcanhares, j\u00e1 era noite, e afora o sopro das ondas e do coro eterno de meus companheiros, um coro que me espantava as mem\u00f3rias, vi centenas de olhos p\u00e1lidos reluzirem em dire\u00e7\u00e3o a mim. Todos eles me sorriam com os olhos, em c\u00edrculo em volta do novo membro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas em incertas manh\u00e3s, quando durmo com as mar\u00e9s, distante das \u00e1rvores, tenho sonhos revestidos de saudade, e chego a sentir uma m\u00e3o a me acariciar os cabelos, num gesto de calma e seguran\u00e7a. Se esta m\u00e3o pertence a minha sombra antiga, nunca saberei. Sempre preferi manter os olhos fechados e a d\u00favida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Pedro Reis <\/em><\/strong><em>(1987) mora atualmente em S\u00e3o Paulo. Lan\u00e7ou os contos Gorilas e As borboletas de meu pai pelo portal Cron\u00f3pios, tendo participado tamb\u00e9m da Contologia, lan\u00e7ada pelo portal em 2012. Os contos Trancelim, Mosca Diuturna e Desejo voc\u00ea encontrar\u00e1 no peri\u00f3dico Diversos Afins. Com o conto Midas, entrou na Antologia de Literatura Fant\u00e1stica, lan\u00e7ada pela Fliporto no final de 2012. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tra\u00e7o enigm\u00e1tico das narrativas de Pedro Reis<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8457,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2113,2534],"tags":[2142,81,41,278,2143,1072],"class_list":["post-8456","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-94a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-capitulo-osseo","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-literatura-fantastica","tag-materia-assombrada","tag-pedro-reis"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8456","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8456"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8456\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8537,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8456\/revisions\/8537"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8457"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8456"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8456"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8456"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}