{"id":8587,"date":"2014-10-04T11:07:35","date_gmt":"2014-10-04T14:07:35","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=8587"},"modified":"2014-11-04T19:36:25","modified_gmt":"2014-11-04T21:36:25","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-29","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-29\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Clarissa Macedo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Articulador cultural, doutor em Letras, professor universit\u00e1rio, editor e fundador das editoras alternativas Estrada e Tulle, co-fundador da revista Hera (1972-2005), criador das cole\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias Olho D\u2019\u00c1gua (1982) e Bocapio (1991), al\u00e9m da revista de poesia Duas \u00c1guas, com Pablo Simpson (Campinas \u2013 SP, 1997), estudante de flauta doce, compositor (parceiros: o catarinense M\u00e1rcio Pazin, al\u00e9m de Carol Pereyr e Tito Pereira, seus filhos) e, sobretudo, poeta, <strong>Roberval Pereyr<\/strong>, filho de Ant\u00f4nio Cardoso \u2013 BA (1953) que sempre esteve ligado a Feira de Santana, onde reside desde 1964, \u00e9 autor de diversos livros, dentre eles <em>As roupas do nu<\/em> (1981), <em>Ocidentais<\/em> (1987), <em>O s\u00fabito cen\u00e1rio <\/em>(1996) <em>Concerto de ilhas<\/em> (1997), <em>Sagu\u00e3o de mitos<\/em> (1998), <em>Am\u00e1lgama \u2013 Nas praias do avesso e poesia anterior<\/em> (2004), <em>Acordes (<\/em>2010), <em>Mirantes <\/em>(2012) \u2013 pr\u00eamio da Academia de Letras da Bahia (2011) e 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura (2013) \u2013 e <em>110 poemas<\/em> (2013). Publicou, ainda, <em>A unidade primordial da l\u00edrica moderna<\/em> (teoria da literatura, j\u00e1 na 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o). Tem no prelo o livro <em>A m\u00e3o no escuro<\/em> (desenho art\u00edstico).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta vasta lista de feitos, aponto, como mencionei acima, Roberval Pereyr principalmente como poeta. N\u00e3o apenas pela quantidade de livros publicados ou pelas premia\u00e7\u00f5es, mas pela dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 palavra, \u00e0 literatura. Na entrevista que aqui segue, onde arrisco algumas longas perguntas, o car\u00e1ter de cuidador do verbo, da poesia como inst\u00e2ncia fundamental da vida e de algu\u00e9m que n\u00e3o se desvincula da escrita como orienta\u00e7\u00e3o do <em>ser<\/em> em nada do que realiza, fica n\u00edtido. Quando penso na obra de Roberval ou na sua figura em sala de aula, lembro com insist\u00eancia da m\u00fasica de Milton Nascimento, com letra de Caetano Veloso, inspirada no conto rosiano <em>A terceira margem do rio<\/em>. N\u00e3o aventuro fazer qualquer analogia direta com o teor \u2013 enigm\u00e1tico \u2013 da composi\u00e7\u00e3o ou da narrativa. O que acho que penso quando reflito sobre essa lembran\u00e7a evocada pela \u201csimb\u00f3lica\u201d de Roberval \u00e9 na musicalidade metaf\u00f3rica e densa, tanto da can\u00e7\u00e3o de Milton e Caetano quanto da obra de Guimar\u00e3es Rosa como um todo. Nessa estrofe certeira da m\u00fasica <em>A terceira margem do rio,<\/em> \u201cAsa da palavra \/ Asa parada agora \/ Casa da palavra \/ Onde o sil\u00eancio mora \/ Brasa da palavra \/ A hora clara, nosso pai\u201d, a despeito de qualquer interpreta\u00e7\u00e3o, salta de imediato aos ouvidos e ao cora\u00e7\u00e3o um ritmo longil\u00edneo, marcado por asson\u00e2ncias, alitera\u00e7\u00f5es e rimas intrigantes. \u00c9 a for\u00e7a, a gravidade e a influ\u00eancia da palavra \u2013 fora toda uma referencia\u00e7\u00e3o ao universo do conto rosiano \u2013 que emergem de uma poss\u00edvel \u201cleitura musical\u201d dessa pe\u00e7a. Na hist\u00f3ria que inspirou a can\u00e7\u00e3o, o protagonista, que parte para o ermo do rio, tem a palavra silenciada; o que fala s\u00e3o seus gestos, seu vagar pelas \u00e1guas, sua busca pela terceira margem. Na narrativa rosiana, a explora\u00e7\u00e3o da palavra (s\u00edmbolo\/significante\/significado) \u00e9 levada \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. E \u00e9 nisso que penso quando leio <em>Mirantes, <\/em>por exemplo. \u00c9 o impacto de uma constru\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria imbu\u00edda de musicalidade soberana que em momento algum compromete o jogo sem\u00e2ntico do texto ou a fluidez de um dado tema, nem se dilui em excesso ou se pretende herm\u00e9tica. Pelo contr\u00e1rio. A obra desse multi-autor revela uma solidez pouco encontrada, que equilibra vigor sem\u00e2ntico\/tem\u00e1tico e cad\u00eancia r\u00edtmica de modo preciso. Na poesia de Pereyr, h\u00e1 o momento do sil\u00eancio e o tempo do embate:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Duo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Tenho um mestre que n\u00e3o conhe\u00e7o<br \/>\ne que me guia sem saber.<br \/>\nN\u00e3o sabe meu endere\u00e7o,<br \/>\nn\u00e3o sei seu nome: pra qu\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">S\u00f3 sei que me guia, e bem<br \/>\nou mal<br \/>\nme deixo reconduzir<br \/>\naos mesmos v\u00e3os do real<br \/>\nem que me perco sem ir.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">E ele, sem me dizer,<br \/>\nme diz que tudo est\u00e1 certo;<br \/>\nao que eu, sem responder,<br \/>\nrespondo: fique por perto,<br \/>\nmestre,<br \/>\nque estou perdido.<br \/>\nE ele, sem existir, me diz:<br \/>\nsim, meu filho, sim.<br \/>\nE tudo perde o sentido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E em todo o andamento h\u00e1 uma po\u00e9tica de pura m\u00fasica:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>GALOPE<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Meus pensamentos s\u00e3o meus camelos<br \/>\nMeus pensamentos s\u00e3o meus cavalos<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(com uns cavalgo para o sil\u00eancio<br \/>\ncom outros marcho para a saudade).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Meus pensamentos s\u00e3o meus cavalos<br \/>\nMeus pensamentos s\u00e3o meus camelos<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(sou sertanejo, nasci nos matos,<br \/>\nando a cavalo para mim mesmo).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Meus sentimentos s\u00e3o meus desejos<br \/>\nem que me vejo perdido, e calo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Meus pensamentos s\u00e3o meus camelos<br \/>\nMeus pensamentos s\u00e3o meus cavalos<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00fasica feita do extrato da poesia plena, assim como a obra ficcional de Rosa. \u00c9 poesia que n\u00e3o se mede, e que vaza na asa da palavra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_8590\" aria-describedby=\"caption-attachment-8590\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8590 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA-II.jpg\" alt=\"Roberval Pereyr\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA-II.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA-II-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8590\" class=\"wp-caption-text\">Roberval Pereyr \/ Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLARISSA MACEDO &#8211;<\/strong> <strong>Roberval, trilhando uma longa e feliz carreira liter\u00e1ria, conte-nos como tudo isso come\u00e7ou, como a literatura surgiu na sua vida e nela fez morada.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ROBERVAL PEREYR &#8211;<\/strong> Comecei a escrever aos 14 anos, mais ou menos (poemas, narrativas, etc.). Mas, antes mesmo de come\u00e7ar a escrever, me sentia tomado pelo que depois vim a identificar em Drummond como o sentimento do mundo. Sempre escrevi por uma necessidade: inscrever no mundo da linguagem o que o mundo escreveu (ou escreve) em mim. E escrevo porque tenho o que Rollo May chama \u201ca paix\u00e3o da forma\u201d. Entre os v\u00e1rios poemas que criei pela necessidade de dar forma a essa necessidade de escrever (cada um deles trazendo facetas diferentes em torno do assunto), um, que est\u00e1 em <em>Mirantes <\/em>e que se intitula \u201cSilhueta\u201d, \u00e9 assim:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>Escrevo: o t\u00e9dio me amea\u00e7a.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>O t\u00e9dio a que n\u00e3o tomo<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>sequer uma data.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>Escrever n\u00e3o salva<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>mas desdobra em calma<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>o sofrimento, instaura<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>o sil\u00eancio<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>onde enfim me enredo contra o horror da estrada.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>Escrever \u00e9 meu credo:<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>credo que consiste em n\u00e3o crer em nada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas tamb\u00e9m escrevo pelo gosto da \u201cCantiga\u201d (primeiro poema de <em>Mirantes<\/em>):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>Mares do avesso<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>navego.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>Perigoso, o ego<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>mil endere\u00e7os me d\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/span>S\u00e3o falsos, eu sei, s\u00e3o falsos.<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/span>Mas \u00e9 bom navegar.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poderia continuar com a cita\u00e7\u00e3o de muitos outros poemas que fiz na tentativa de traduzir a minha necessidade de escrever, e ainda assim n\u00e3o estaria satisfeito. Sei que se trata de uma necessidade, mas uma necessidade que n\u00e3o se deixa traduzir, jamais, de forma cabal e definitiva. A origem da criatividade (como, de resto, qualquer origem) perde-se no insond\u00e1vel, tem sua reserva de mist\u00e9rio. Mesmo que esse mist\u00e9rio, como queria Fernando Pessoa, n\u00e3o seja, ao final das contas, mist\u00e9rio algum. Mas dizer isso (ou ler isso) pode deixar-nos, paradoxalmente, ainda mais inquietos. Voltando \u00e0 quest\u00e3o proposta, poderia simplesmente dizer: escrevo porque escrevo. E \u00e9 tudo. E \u00e9 s\u00f3. E <em>n\u00e3o<\/em> \u00e9. O problema, assim, se rep\u00f5e inteiro. Por isso, neste ponto sinto-me tentado a calar-me. A prop\u00f3sito, Fernando Pessoa, ele mesmo, \u00e9 o tradutor ex\u00edmio de um livro dif\u00edcil e bel\u00edssimo, inspirado na sabedoria tibetana, intitulado <em>A voz do sil\u00eancio<\/em>. Quem est\u00e1 apto a escut\u00e1-la? Mais ainda: a dar-lhe uma (n\u00e3o)forma? Talvez os poetas e os grandes mestres orientais. Eu, n\u00e3o. Mas espero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLARISSA MACEDO<\/strong> <strong>&#8211; Partindo dessa necessidade mencionada acima, desse \u201cescrevo porque escrevo\u201d, que se alarga e se confunde em sua pr\u00f3pria indefini\u00e7\u00e3o, o homem que n\u00e3o escreve \u2013 por falta de express\u00e3o melhor \u2013, paradoxalmente, busca cada vez menos a epifania liter\u00e1ria. Como voc\u00ea v\u00ea o escritor \u2013 esse ser que n\u00e3o sobrevive sem a escrita \u2013 na sociedade contempor\u00e2nea? H\u00e1 um lugar, ou um entre-lugar, para aquele que escreve?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ROBERVAL PEREYR &#8211;<\/strong> Em primeiro lugar, n\u00e3o acho que, necessariamente, \u201co homem que n\u00e3o escreve busca cada vez menos a epifania liter\u00e1ria\u201d. O leitor criativo, mesmo n\u00e3o sendo escritor, pode muito bem vivenciar, no seu envolvimento com o texto liter\u00e1rio, momentos luminosos e reveladores. Quanto \u00e0 pergunta que voc\u00ea faz, posso respond\u00ea-la dizendo que o lugar do escritor \u00e9, primeiramente, aquele que ele cria com (e na) sua pr\u00f3pria linguagem. O escritor \u00e9 um criador de mundos, que ele habita e que o habitam. No ato criativo, ele se encontra consigo mesmo, e esse encontro inclui o seu mundo e a humanidade. Esse mundo da obra (refiro-me a obras aut\u00eanticas, escritas com engenho e arte, e por necessidade) se ergue estabelecendo tens\u00f5es com o mundo de todos (ou de ningu\u00e9m). Essas tens\u00f5es se traduzem n\u00e3o raro como testemunho, recusa e den\u00fancia. Portanto, \u00e9 de se esperar que o mundo utilit\u00e1rio, agressivo e degradado dos mercados e dos consumismos (retratado e denunciado de muitas formas e em muitas dimens\u00f5es nas obras liter\u00e1rias) retire dos \u00e1lbuns o retrato do escritor e dos cat\u00e1logos os t\u00edtulos dos seus livros. Exce\u00e7\u00e3o feita, \u00e9 claro, aos best-sellers, quase sempre d\u00f3ceis e sempre lucrativos. Assim o escritor, em sua normalidade, vai precisar fazer outras coisas para sobreviver. Ser, por exemplo, professor, como eu. Mas, de uma forma ou de outra, sempre foi assim, e n\u00e3o acho, sinceramente, que as coisas possam mudar. E quando digo \u201cas coisas\u201d, quero dizer: a humanidade. Ao escritor cabe ent\u00e3o levar em conta o que Octavio Paz denomina \u201cas imensas minorias\u201d. Felizmente, elas de fato existem e podem ser encontradas no mundo inteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLARISSA MACEDO &#8211;<\/strong> <strong>O homem que n\u00e3o escreve \u2013 por falta de express\u00e3o melhor \u2013 referido acima, seria esse grande p\u00fablico que n\u00e3o se interessa pelo liter\u00e1rio e que vivencia o \u201c<\/strong><strong>mundo utilit\u00e1rio, agressivo e degradado dos mercados e dos consumismos\u201d, do qual, de alguma maneira, ningu\u00e9m est\u00e1 livre. Nesse sentido, grandes pol\u00eamicas t\u00eam cercado a literatura, como as acusa\u00e7\u00f5es de preconceito racial dirigidas \u00e0 obra de Monteiro Lobato e o r\u00f3tulo de elitista direcionado a Machado de Assis. Por isso, seria necess\u00e1rio simplificar Machado e retirar Monteiro Lobato das livrarias. Tais investidas, por assim dizer, teriam o objetivo de democratizar a literatura. O que voc\u00ea pensa sobre isso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ROBERVAL PEREYR &#8211;<\/strong> Em primeiro lugar, acho que tais investidas n\u00e3o poderiam jamais contribuir para democratizar nada, pois me parecem fr\u00e1geis e autorit\u00e1rias: ao que tudo indica, refletem uma postura daqueles que, em fun\u00e7\u00e3o de seus interesses e de suas ideologias, se acham no direito dizer como as coisas, as pessoas e as obras de arte devem ser, ou <em>t\u00eam<\/em> de ser. Todos n\u00f3s, pelo fato mesmo de lidarmos com conceitos, tendemos a ser preconceituosos, isto \u00e9, a usar nossos conceitos de forma irrefletida e inadequada. Por isso mesmo penso que toda cr\u00edtica, para ser libertadora e produzir conhecimento v\u00e1lido, tem de ser tamb\u00e9m autocr\u00edtica, no sentido de pensar a realidade pensando a si mesma, buscando permanentemente adequar-se \u00e0s situa\u00e7\u00f5es e indaga\u00e7\u00f5es que o seu objeto suscita. Preciso lidar cuidadosamente com meus conceitos e meus preconceitos, sob pena de me transformar na primeira v\u00edtima deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em segundo lugar, essas investidas parecem evidenciar uma ignor\u00e2ncia b\u00e1sica sobre a arte (entre elas, a literatura): qualquer obra de arte que seja didatizada (para \u201cfacilitar\u201d ou \u201csimplificar\u201d o que quer que seja), ou criada colocando em primeiro e \u00fanico plano uma ideologia, tende a virar propaganda. Vira meio <em>para<\/em>, vira instrumento, unilateraliza-se. Ou seja, se transforma em tudo que a arte n\u00e3o \u00e9. A obra de arte, mesmo quando eventualmente incorpora uma limita\u00e7\u00e3o (da sua \u00e9poca, do seu autor, ou de ambos \u2013 o que, at\u00e9 certo ponto, \u00e9 inevit\u00e1vel), existe para, sob certo sentido, tensionar com essa mesma limita\u00e7\u00e3o, ou com quaisquer outras. E isso se d\u00e1 pelo fato de que toda aut\u00eantica cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u00e9, constitutivamente, multidimensional, polif\u00f4nica, plurifacetada, n\u00e3o porque suprima a ideologia (o que seria imposs\u00edvel e at\u00e9 indesej\u00e1vel), mas por multiplicar e entranhar em seu tecido as mais diversas vis\u00f5es, e <em>em situa\u00e7\u00e3o<\/em>, isto \u00e9, de forma dram\u00e1tica. A obra que tiver, de fato, essa caracter\u00edstica traz em sua pr\u00f3pria \u201cnatureza\/fun\u00e7\u00e3o\u201d os sinais e as possibilidades da diferen\u00e7a. \u00c9 o que podemos constatar, por exemplo, nesta passagem de um poema de Antonio Brasileiro, que de forma muito oportuna me vem agora \u00e0 cabe\u00e7a: \u201cA verdade \u00e9 uma s\u00f3: s\u00e3o muitas.\/E estamos todos certos. E sem rumo.\u201d Na obra de arte, as \u201cverdades\u201d do seu pr\u00f3prio autor, que porventura nela estejam explicitadas, oscilam, vacilam, e isso \u00e9 suficiente para que o leitor (com suas verdades e limita\u00e7\u00f5es) possa se posicionar, mas ao mesmo tempo sentir a oscila\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es, desde que seja um leitor sens\u00edvel, aberto, flex\u00edvel: desarmado em rela\u00e7\u00e3o ao novo e ao outro, mesmo que com ele n\u00e3o se identifique. A prop\u00f3sito, a literatura \u00e9 uma desarticuladora de identidades fixas, isto \u00e9, artificialmente constitu\u00eddas, e o faz precisamente por encenar e fazer proliferar as vis\u00f5es de mundo e os m\u00f3veis lugares de onde essas vis\u00f5es v\u00e3o se evidenciando e se problematizando. Ou seja: no que se refere ao labor com as palavras, penso que a literatura \u00e9, no melhor sentido, a linguagem mais generosa e democr\u00e1tica que pode existir. Tolera inclusive a contradi\u00e7\u00e3o, quando \u00e9 fecunda, como a que se evidencia, por exemplo, na afirma\u00e7\u00e3o: para ser eu mesmo tenho que ser sempre outro (afinal, ainda hoje repetimos com Her\u00e1clito: ningu\u00e9m desce duas vezes o mesmo rio). O que n\u00e3o significa, evidentemente, que o bode tenha que se transformar em carneiro. Feita a ressalva, podemos dizer que a singulariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o exclui nem a mudan\u00e7a, nem a pluralidade. Indiv\u00edduo \u00e9 aquele que se singulariza porque n\u00e3o se divide, porque est\u00e1 enraizado no todo, e o todo, no caso, \u00e9 o que h\u00e1 de comum a todos. O todo \u00e9 a m\u00e3e invis\u00edvel que pare todas as singularidades. Assim, \u00e0s diferen\u00e7as de superf\u00edcie, penso que devemos associar uma identidade b\u00e1sica, que, no meu entender, est\u00e1 aqu\u00e9m e al\u00e9m das ideologias, sob pena de transformarmos originalidade em intransig\u00eancia, singularidade em identidade fixa, respeito \u00e0 \u201cVerdade\u201d em fanatismo e cegueira. Ou de pregarmos a democracia com um discurso que traz a marca da intoler\u00e2ncia para com a diferen\u00e7a em sua radicalidade. \u00c9 muito comum a aceita\u00e7\u00e3o da <em>diferen\u00e7a<\/em> apenas dentro do enganoso c\u00edrculo do <em>mesmo<\/em>. Para respeitarmos efetivamente a diferen\u00e7a, devemos ter, com Sartre, a coragem de aceitar que \u201co inferno s\u00e3o os outros\u201d. Essa aceita\u00e7\u00e3o me parece ser um ponto de partida sincero que nos far\u00e1 compreender at\u00e9 onde podemos ir no terreno do <em>outro<\/em>, que \u00e9, a um s\u00f3 tempo, fonte inesgot\u00e1vel de fascina\u00e7\u00e3o e repulsa, e n\u00e3o necessariamente uma inst\u00e2ncia da realidade a ser erradicada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante de tudo isso, censurar, excluir, \u201csimplificar\u201d (que muitas vezes, al\u00e9m de uma intoler\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s inesgot\u00e1veis e necess\u00e1rias possibilidades de lidar com as formas e os significados, implica ainda uma subestima\u00e7\u00e3o da capacidade do leitor) s\u00e3o verbos que n\u00e3o t\u00eam nenhum cabimento, embora reflitam posturas que est\u00e3o na moda, e em larga escala, inclusive na academia. Arremato, ent\u00e3o, com um breve poema de minha autoria, intitulado <em>Nudez<\/em>, aparentemente contradit\u00f3rio em rela\u00e7\u00e3o a certas afirma\u00e7\u00f5es que acabo de fazer, e que por isso mesmo vem a calhar: \u201cN\u00e3o quero ser simples.\/Uma flor n\u00e3o \u00e9 simples:\/\u00e9 uma flor. E n\u00e3o cede.\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_8591\" aria-describedby=\"caption-attachment-8591\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8591 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA-1.jpg\" alt=\"Roberval Pereyr\" width=\"500\" height=\"349\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA-1-300x209.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8591\" class=\"wp-caption-text\">Roberval Pereyr \/ Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLARISSA MACEDO &#8211; Al\u00e9m de escritor, como j\u00e1 foi dito, voc\u00ea \u00e9 professor e tamb\u00e9m investe na produ\u00e7\u00e3o cultural, organizando, por exemplo, parte da Feira do Livro de Feira de Santana. Como conciliar atividades que, ao mesmo tempo em que est\u00e3o relacionadas, exigem tanto? Em que medida o poeta Roberval mergulha em cada uma delas? O que o <em>outro<\/em>, ou <em>outros<\/em>, essa<\/strong><strong> \u201c[&#8230;] fonte inesgot\u00e1vel de fascina\u00e7\u00e3o e repulsa\u201d (aproveito essa fala de forma ressignificada), tem a dizer? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ROBERVAL PEREYR &#8211;<\/strong> J\u00e1 disse em outras oportunidades que tudo que fa\u00e7o \u00e9 como criador. Quando edito o livro de um amigo ou de um aluno, o que tenho feito ultimamente atrav\u00e9s da Tulle, editora alternativa sem fins lucrativos que criei e coordeno, sinto uma grande alegria. \u00c9 a alegria de participar do surgimento de algo. Quando entro numa sala de aula, tenho sempre a sensa\u00e7\u00e3o de que algo novo pode ou vai acontecer. E o que vai acontecer \u00e9 o que Rollo May aponta como algo indispens\u00e1vel a todo ato criativo: o aut\u00eantico <em>encontro<\/em>. A minha participa\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria na Feira do Livro \u2013 Festival Liter\u00e1rio e Cultural de Feira de Santana, por exemplo, \u00e9 tamb\u00e9m motivada pela expectativa de contribuir, ao lado de muitas outras pessoas, para que certas coisas significativas aconte\u00e7am em Feira de Santana, e que aconte\u00e7am como <em>encontros <\/em>desejados, porque criativos. E desejados n\u00e3o s\u00f3 por mim, mas por v\u00e1rias pessoas que organizam e\/ou aguardam o evento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A minha atua\u00e7\u00e3o como orientador no Mestrado (UEFS), para dar mais um exemplo, \u00e9 tamb\u00e9m encarada como uma jornada criativa, que implica encontros, cumplicidades, achados, o que inclui, sem d\u00favida, incertezas, ang\u00fastias, mas tamb\u00e9m momentos luminosos. Tudo, obviamente, com muito trabalho e envolvimento, e esperando, por parte do outro ou dos outros envolvidos, o mesmo grau de empenho e dedica\u00e7\u00e3o. Em tudo isso, \u00e9 preciso frisar, fica impl\u00edcita uma coisa: o que fa\u00e7o com empenho e criatividade \u00e9 o que gosto de fazer. Somente dessa forma podemos nos aproximar do que Henry Miller afirma ter alcan\u00e7ado na maturidade e que expressou com esta frase exemplar: \u201cTudo que fa\u00e7o \u00e9 por pura alegria\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLARISSA MACEDO &#8211;<\/strong> <strong>Falemos um pouco de\u00a0<em>Hera<\/em>\u00a0\u2013 importante revista que por mais de 30 anos divulgou literatura e artes pl\u00e1sticas. Como foi a experi\u00eancia de estar na g\u00eanese dessa que foi\/\u00e9, al\u00e9m de uma revista, um movimento art\u00edstico?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ROBERVAL PEREYR &#8211; <\/strong>Hera (1972\u20132005) foi uma grande experi\u00eancia coletiva. Uma experi\u00eancia que perdura, j\u00e1 que muitos daqueles que constitu\u00edram a base do movimento por ela protagonizado (a exemplo de Antonio Brasileiro, que foi o iniciador de tudo, Assis Freitas Filho, Iderval Miranda, Juraci D\u00f3rea, Luis Pimentel, Luiz Valverde, Nanja, Rubens Alves Pereira, Traz\u00edbulo Henrique Pardos Casas, Washington Queiroz e Wilson Pereira de Jesus) continuam atuando. E s\u00e3o muitos os desdobramentos de sua atua\u00e7\u00e3o, sob a forma de livros, revistas, exerc\u00edcio da doc\u00eancia, encontros, oficinas, projetos de pesquisa, interven\u00e7\u00f5es, disserta\u00e7\u00f5es, teses, artigos, etc. Disso tudo resultam novos desdobramentos, diretos e indiretos, cujas repercuss\u00f5es fogem, felizmente, ao nosso controle. Para mim, esse \u00e9 o primeiro e o maior dos sentidos relacionados \u00e0 Hera, isto \u00e9, ao movimento que ela gerou, para al\u00e9m mesmo da literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto co-fundador da Revista Hera, que dirigi, sempre em parceria, em 17 dos seus 20 n\u00fameros, posso dizer que, sob certos aspectos, e a partir dos meus 18 anos, confundo a minha hist\u00f3ria com a dela. Acompanhei (muitas vezes, em companhia de Brasileiro, Wilson, Cremildo Souza, Gast\u00e3o Correia, Washington, Wilson e Juraci) a prepara\u00e7\u00e3o e a feitura de cada um de seus n\u00fameros (cerca de metade deles impressa em tipografia), em v\u00e1rias gr\u00e1ficas de Feira de Santana (somente 2 n\u00fameros foram impressos em Salvador). Al\u00e9m disso, fui o \u00fanico a publicar em todos os n\u00fameros de Hera. Esses n\u00fameros foram reunidos e publicados em edi\u00e7\u00e3o fac-similar, volume \u00fanico, em 2010, pela Universidade Estadual de Feira de Santana, em parceria com a Funda\u00e7\u00e3o Pedro Calmon. Trata-se de um volume de mais de 700 p\u00e1ginas, que re\u00fane quase mil obras de 100 autores diferentes, cerca de 50% deles ne\u00f3fitos, muitos ainda in\u00e9ditos \u00e0 \u00e9poca em que se candidataram a publicar na revista. E o que mais impressiona, sobretudo por ser uma revista que publicou \u2013 ao lado de poetas consagrados \u2013 muitos autores iniciantes, \u00e9 a sua qualidade. Hera foi, efetivamente, uma revista geradora. Enquanto existiu, plantou e colheu. Ali\u00e1s, continua colhendo. Para mim (e para meus companheiros) ter participado (e continuar participando) desta hist\u00f3ria, desde o in\u00edcio, tem um sentido muito especial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLARISSA MACEDO &#8211;<\/strong> <strong>O\u00a0<em>Mirantes<\/em> ficou entre os vinte finalistas do pr\u00eamio Portugal Telecom 2013, recebeu o <\/strong><strong>Braskem Academia de Letras da Bahia, em 2011, e venceu na categoria Poesia do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura. Um marco e tanto para qualquer escritor. O que essas premia\u00e7\u00f5es significam na sua carreira?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ROBERVAL PEREYR &#8211;<\/strong> Significam que minha obra aumenta suas chances de alcan\u00e7ar um n\u00famero maior de leitores qualificados, num pa\u00eds de poucos leitores e num mundo em que os criadores, no campo da arte, com raras exce\u00e7\u00f5es, s\u00e3o escanteados pela l\u00f3gica do consumismo desenfreado em fun\u00e7\u00e3o do lucro e invisibilizados pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o dessa l\u00f3gica. No lugar dos criadores, a bem sucedida legi\u00e3o da mesmice (que j\u00e1 cheguei a chamar de \u201cmesmice din\u00e2mica\u201d) e da mediocridade. Aos membros dessa legi\u00e3o, basta apenas um atributo: algo que eles mesmos chamam de carisma. Mas voltemos aos pr\u00eamios e \u00e0 minha obra: alcan\u00e7ar um n\u00famero maior de leitores significa a possibilidade de multiplicar encontros com \u2013 e entre \u2013 aqueles que constituem \u201cas imensas minorias\u201d e que, como j\u00e1 disse, podem ser encontrados em todas as partes do mundo. Quando me refiro a encontros, estou querendo dizer que n\u00e3o me interessaria alcan\u00e7ar uma quantidade maior de leitores a qualquer custo, j\u00e1 que, a qualquer custo, quantidade subtrai qualidade. Seria colocar a vaidade e a estupidez (e \u2013 o que n\u00e3o \u00e9 o caso \u2013 o dinheiro) acima, por exemplo, da indescrit\u00edvel alegria que significam os encontros que a arte (no caso, a poesia) pode proporcionar. \u201cUma coisa bela \u00e9 uma alegria para sempre\u201d, j\u00e1 disse um poeta. \u201cTudo que fa\u00e7o \u00e9 por pura alegria\u201d, disse Henry Miller, num importante ensaio em que ele afirma, ainda, que \u201ca arte nada ensina a n\u00e3o ser a significa\u00e7\u00e3o da vida\u201d. Isso me interessa, e espero que para isso os pr\u00eamios atribu\u00eddos a <em>Mirantes<\/em> possam contribuir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLARISSA MACEDO &#8211; E de agora em diante? \u00c9 poss\u00edvel pensar no futuro? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ROBERVAL PEREYR &#8211;<\/strong> Sei que sua pergunta n\u00e3o \u00e9 propriamente filos\u00f3fica. Minha resposta, no entanto, vai ser. Ent\u00e3o digo que sim, \u00e9 poss\u00edvel pensar no futuro. Mas futuro e passado s\u00e3o aqui e agora. Ali\u00e1s, s\u00f3 por isso \u00e9 poss\u00edvel pensar neles. Num vaiv\u00e9m, muitas vezes tortuoso, somos o que j\u00e1 fomos e o que ainda n\u00e3o somos: somos um projeto. Mas sempre no Presente, que, por sua vez, nos escapa incessantemente. \u201cNingu\u00e9m se banha duas vezes do mesmo rio\u201d (Her\u00e1clito). O desafio \u00e9, apesar de tudo (isto \u00e9, apesar do \u00f3bvio), manter-nos atentos, despertos, vivenciando com plenitude o aberto, a clareira \u2013 em estado po\u00e9tico. H\u00f6lderlin (que foi adotado por Heidegger) afirma: \u201c&#8230;poeticamente o homem habita esta terra.\u201d Acho que qualquer projeto s\u00f3 tem sentido se n\u00e3o nos rouba o presente, ou seja, se nos gratifica e nos ilumina, desde a sua gesta\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 poss\u00edvel, por exemplo, na cria\u00e7\u00e3o e na recep\u00e7\u00e3o criativa da arte, t\u00e3o necess\u00e1ria quando se trata de despertar. Acho que \u00e9 nisso (e afins, a exemplo do zen budismo, que associo, entre outras coisas, ao \u00f3cio criativo) que vou mergulhar cada vez mais. O futuro ao Presente pertence. <em>Carpe diem<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Clarissa Macedo<\/em><\/strong><em> \u00e9 licenciada em Letras Vern\u00e1culas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma institui\u00e7\u00e3o e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. Est\u00e1 presente em diversas colet\u00e2neas. \u00c9 autora de \u201cO trem vermelho que partiu das cinzas\u201d (2014). Sua poesia est\u00e1 sendo traduzida para o espanhol. Edita o blog <a href=\"http:\/\/clarissammacedo.blogspot.com.br\/%20\"><strong>Essa coisa que \u00e9 o eu<\/strong><\/a>. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clarissa Macedo entrevista o escritor baiano Roberval Pereyr<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8588,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2165,16,2539],"tags":[94,414,63,2172,8,2171,2173],"class_list":["post-8587","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-95a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-baiano","tag-clarissa-macedo","tag-entrevista","tag-feira-de-santana","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-roberval-pereyr","tag-uefs"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8587","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8587"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8587\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8723,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8587\/revisions\/8723"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8588"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8587"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8587"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8587"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}