{"id":8633,"date":"2014-10-04T12:54:39","date_gmt":"2014-10-04T15:54:39","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=8633"},"modified":"2014-10-04T17:28:34","modified_gmt":"2014-10-04T20:28:34","slug":"dedos-de-prosa-iii-27","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-27\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>Yara Camillo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_8634\" aria-describedby=\"caption-attachment-8634\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/interna.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8634 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/interna.jpg\" alt=\"Rebeca Prado\" width=\"500\" height=\"335\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8634\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Rebeca Prado<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CHEGAR JUNTO<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta vez chego sem voltas. Acabo de cortar o par\u00e1grafo que abria este conto, a introdu\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel que escrevi para evocar prima Jaci e nossos jogos-meninos. Explicar quem \u00e9 Jaci, como fomos parar na mesma escola e na mesma casa depois da morte da av\u00f3, como isso e como aquilo, at\u00e9 que o miolo das coisas se perca, se esfarele em minhas m\u00e3os, desta vez n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Digo apenas que eu e Jaci, quando crian\u00e7as, gost\u00e1vamos muito de cantar, e como perturb\u00e1vamos demais os semelhantes e dessemelhantes com esse costume que nos arejava a alma, desenvolvemos uma habilidade not\u00e1vel, de modo que nos passeios com a turma do col\u00e9gio, no \u00f4nibus ou metr\u00f4, consegu\u00edamos \u00e0s vezes cantar uma estrofe inteira de boca fechada ou quase, os l\u00e1bios se movendo de forma impercept\u00edvel, o suficiente para a passagem do som, que como um gato se alongando entre grades flanava pelo coletivo, encafifando uns e outros. No final da estrofe, a coisa come\u00e7ava a pegar. A turma se olhava com ares de quem ouviu o galo cantar, sem saber onde. N\u00e3o haveria, para n\u00f3s, aplauso mais lisonjeiro. Com a corda toda, pass\u00e1vamos para a segunda estrofe, abus\u00e1vamos do volume e da sorte, at\u00e9 que o professor se levantava, olhos e dedo em riste, buscando o criminoso. Acab\u00e1vamos delatados, n\u00e3o pelos colegas, mas por nosso ar de bem cuidada inoc\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 quando tom\u00e1vamos o metr\u00f4 sozinhos, a t\u00e1tica era outra. Busc\u00e1vamos bancos separados e, com um r\u00e1pido olhar, decid\u00edamos a m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7\u00e1vamos baixinho, com o trem ainda parado, mas j\u00e1 de portas fechadas. Depois ele partia, ganhava velocidade e n\u00f3s volume, num crescente, fort\u00edssimo, fortiss\u00edssimo, at\u00e9 o m\u00e1ximo, al\u00e9m do m\u00e1ximo. Da\u00ed cheg\u00e1vamos \u00e0 pr\u00f3xima esta\u00e7\u00e3o, ou ela que chegava a n\u00f3s, de vez em quando era assim que acontecia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o trem de portas abertas e n\u00f3s de goela fechada, esper\u00e1vamos o pr\u00f3ximo ato. Nesse momento, que precedia a continua\u00e7\u00e3o do jogo, aprimor\u00e1vamos nossa arte, exercitando em <em>bocca-chiusa<\/em> a pr\u00f3xima melodia, para que a voz, liberta, fosse de novo o gato que vencendo as grades ganhasse a rua e uma boa farra. Em palavras outras, para que nossa m\u00fasica tocasse o passageiro ao lado que, se portador de bom ouvido, daria um sinal de vida, ou seja, nos olharia de relance, com aquela dissimula\u00e7\u00e3o \u2013 que nunca enganou ningu\u00e9m \u2013 travestida de bom-tom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando isso acontecia, quando o passageiro ao lado nos olhava de lado, era uma alegria s\u00f3, porque a ponte estava armada e isso nos franqueava outro est\u00e1gio do jogo, muito mais arriscado, um pulo no vazio, o contato. Para confirmar a legitimidade do dom musical, ou ao menos auditivo, do passageiro, repet\u00edamos o primeiro est\u00e1gio&#8230; O metr\u00f4 parava e n\u00f3s tamb\u00e9m; o metr\u00f4 come\u00e7ava a andar e n\u00f3s come\u00e7\u00e1vamos a cantar; o metr\u00f4 acelerava e n\u00f3s tamb\u00e9m; o metr\u00f4 gritava nos trilhos e n\u00f3s grit\u00e1vamos como loucos; e com o cora\u00e7\u00e3o aos saltos, em contraponto com o ar impass\u00edvel e a boca-de-siri, receb\u00edamos a resposta: se o passageiro nos olhasse de repente, na nota mais aguda e com indisfar\u00e7\u00e1vel estranheza, a confirma\u00e7\u00e3o ali estava. O homem tinha ouvidos mesmo. Se n\u00e3o, se abrisse um jornal ou mexesse na carteira ou apenas consultasse o rel\u00f3gio, indicando uma disposi\u00e7\u00e3o de indiferen\u00e7a<em>&#8230; <\/em>final de jogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dificuldade seguinte resumia-se em controlar o impulso de chutar a canela do pobre idiota, ou gritar um palavr\u00e3o. Era um parceiro que n\u00e3o valia a pena. E quase n\u00e3o havia nada que nos deprimisse mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora: se estiv\u00e9ssemos com sorte, se o parceiro <em>chegasse junto<\/em> \u2013 como costum\u00e1vamos dizer \u2013, mostrando-se mais curioso ainda, a\u00ed sim, o jogo decolava, coisa de veteranos, n\u00e3o de principiantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Divid\u00edamos esse est\u00e1gio em sete tempos: 1, entrega-se o intrigado. 2, posicionam-se os palha\u00e7os. 3, vamos ver essa esperteza. 4, \u00e9 mais que certo que o tipo n\u00e3o tira os olhos de n\u00f3s. 5, que vai fingir-se atento ao geral. 6, menos ao que realmente lhe interessa. 7, porque agora tudo pode acontecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desfechos memor\u00e1veis n\u00e3o faltam para coroar os jogos daquele tempo, desde um maestro que nos levou para um coral formado por ex-delinquentes e bancado pelas bibliotecas municipais, com direito a uma bolsa que era quase o que meu pai ganhava nos Correios, at\u00e9 uma encrenca dos diabos, uma dona dizendo que era professora de violino e n\u00f3s encantados, porque eu sempre quis aprender violino, pinicar aquelas cordas, empunhar aquele arco, seria minha chance, eu pensava, a anos-luz da realidade, mas a mulher s\u00f3 queria nos seduzir, e n\u00e3o estou falando daquela trepadinha r\u00e1pida, isso a\u00ed geralmente me agradava, Jaci n\u00e3o, fazia um drama danado, j\u00e1 eu era tranquilo, a sedu\u00e7\u00e3o que me arrepiou foi o neg\u00f3cio dos escoteiros, a dona era chefe-n\u00e3o-sei-do-qu\u00ea, quando dei por mim havia me empulhado um hino pavoroso; com a desculpa das aulas gr\u00e1tis arrancou-me a promessa de que no dia seguinte, \u00e0s cinco da manh\u00e3, eu estaria na pra\u00e7a para hastear a bandeira e prestar juramento, mas acordei a tempo. J\u00e1 o mesmo n\u00e3o se deu com Jaci, que acabou embarcando na est\u00f3ria a s\u00e9rio, e isso durou meses, com severo preju\u00edzo de nossos jogos a dois, todos eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois, n\u00e3o vi mais a prima Jaci. \u00c9 verdade que nos encontr\u00e1vamos naquelas reuni\u00f5es de fam\u00edlia, todo mundo sabe que quase n\u00e3o h\u00e1 como escapar&#8230; Nos encontr\u00e1vamos, mas n\u00e3o voltamos a nos olhar com aquilo que, para mim, era a mais-valia de nossa inf\u00e2ncia desperdi\u00e7ada por tanta aporrinha\u00e7\u00e3o da ala s\u00e9ria da fam\u00edlia que agora cobrava, de n\u00f3s, a continua\u00e7\u00e3o da novela: t\u00ednhamos crescido e pretend\u00edamos o qu\u00ea? Sempre achei dif\u00edcil, sen\u00e3o imposs\u00edvel, responder a isso. Eles, n\u00e3o. Pareciam ter certeza do que queriam: que atorment\u00e1ssemos os pequenos com a mesma gana que tinham nos dedicado. Recusei-me e, ao que parece, Jaci tamb\u00e9m. Nunca nos casamos. E se tivemos filhos foi por a\u00ed, fora dos sagrados la\u00e7os com que as fam\u00edlias sufocam seus beb\u00eas, manufatura de imbecis em franca progress\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 como escapar, dizem eles a qualquer sinal de rebeldia, por mais t\u00edmido que seja, at\u00e9 que a incans\u00e1vel repeti\u00e7\u00e3o estabele\u00e7a de vez a desesperan\u00e7a, levando a crer que n\u00e3o h\u00e1 porqu\u00ea. E perder o porqu\u00ea (assim falou Jaci, num porre de P\u00e1scoa) \u00e9 perder o eixo. Eu n\u00e3o seria t\u00e3o veemente. N\u00e3o fui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, depois de todos esses anos e eternidades, a caminho de um fim que me assusta quase tanto quanto me seduz, um dia ou outro, quando acordo de bom humor, eventualmente esquecido do desconforto e das dores, arrisco uma viagem de metr\u00f4 e volto a jogar&#8230; \u00c9 verdade que j\u00e1 n\u00e3o sou meticuloso na escolha do parceiro, que me sento em qualquer banco (muitas vezes quase <em>me<\/em> sentam, porque todo mundo sabe o quanto \u00e9 insultuoso um velho recusar tamanha gentileza), enfim, n\u00e3o sou mais aquele veterano. Que falta me faz Jaci, algu\u00e9m a quem piscar um olho. \u00c9 verdade tudo isso. Mas quem \u00e9 rei n\u00e3o perde o cetro, o sestro da majestade, ainda sei cantar de peito aberto e boca fechada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema n\u00e3o \u00e9 esse. O problema \u00e9 que ningu\u00e9m liga para um velho cantando no metr\u00f4. Nesses tempos de obsolesc\u00eancia programada, ou j\u00e1 em qualquer tempo, n\u00e3o h\u00e1 viagem que sempre dure nem loucura que nunca se acabe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Yara Camillo<\/em><\/strong><em> nasceu em S\u00e3o Paulo. Formada em Comunica\u00e7\u00f5es \u2013 Cinema \u2013 pela Funda\u00e7\u00e3o Armando \u00c1lvares Penteado, FAAP. \u00c9 autora de Voli\u00e7\u00f5es (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajet\u00f3ria, fez trabalhos para Teatro, tradu\u00e7\u00f5es, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Liter\u00e1rias, al\u00e9m de ter v\u00e1rios contos premiados. Contato: <\/em><a href=\"mailto:yaracamillo@gmail.com\"><em>yaracamillo@gmail.com<\/em><\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jogos do tempo no conto de Yara Camillo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8634,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2165,2534],"tags":[2196,419,41,647,2197,149,646,644],"class_list":["post-8633","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-95a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-chegar-junto","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-hiatos","tag-massao-ohno","tag-prosa","tag-volicoes","tag-yara-camillo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8633","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8633"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8633\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8638,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8633\/revisions\/8638"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8634"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8633"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8633"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8633"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}