{"id":8647,"date":"2014-10-04T13:29:02","date_gmt":"2014-10-04T16:29:02","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=8647"},"modified":"2018-12-04T08:36:03","modified_gmt":"2018-12-04T11:36:03","slug":"gramofone-30","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/gramofone-30\/","title":{"rendered":"Gramofone"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Daniela Galdino<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>ROZE \u2013 ACORDE<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Capa-Roze.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8649\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Capa-Roze.jpg\" alt=\"Capa Roze\" width=\"350\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Capa-Roze.jpg 350w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Capa-Roze-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Capa-Roze-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>\u00a0\u201cquanto mais eu ando mais vejo estrada<br \/>\nmas se n\u00e3o caminho n\u00e3o sou \u00e9 nada\u201d<br \/>\n(Plantador, Geraldo Vandr\u00e9 e Hilton Acioli)<br \/>\n<\/em><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acorde. Palavra amb\u00edgua, t\u00edtulo do primeiro disco solo da cantadora baiana Roze. Acordar \u00e9 de dentro, primeiramente. Acorda-se em explos\u00e3o interior e o estopim ultrapassa o deslimite do corpo (em si). Mas acordar, sendo de dentro, pode dilatar a percep\u00e7\u00e3o e gerar um desacordo com tiras, peda\u00e7os, fragmentos do mundo. N\u00e3o digo com o mundo inteiro porque hegemonismos transformam particularidade em totalidade&#8230; e bem sabemos que mundo \u00e9 vastid\u00e3o (melhor seria dizer nos plurais). De modo que acordar para o desacordo vem acompanhado da encena\u00e7\u00e3o, da constru\u00e7\u00e3o de outros mundos poss\u00edveis. Roze, sendo artista, parece confirmar isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ado em 1979, <em>Acorde<\/em> impressiona pela avidez misturada com do\u00e7ura. Segundo o estudioso baiano Telito Rodrigues, \u201cRoze canta como se tivesse fome\u201d. Procede. Roze, trazendo consigo as pulsa\u00e7\u00f5es de Tucano (seu lugar de origem), \u00e9 toda apet\u00eancias. Ela canta no limite, espalha ecos poderosos e nos envolve: a fome \u00e9 compartilhada. Em estado emergencial a artista se apresenta com \u00e2nsia de dizer. Somente o canto apazigua ou sacia a fome. Cantar, portanto, \u00e9 crucial, condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia, mas tamb\u00e9m tem algo de c\u00edclico \u2013 quanto mais \u00e9 apaziguada a fome se refaz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Oco, povoa\u00e7\u00f5es, vasculhamentos interiores. Roze chega, toma assento e n\u00e3o vem sozinha. Est\u00e1 acompanhada por rezadeiras, andarilhas\/os, marisqueiras, tropeiras\/os, romeiras\/os, lavradoras\/es, \u00edndias\/os, caboclas\/os. Na visualidade que \u201cAcorde\u201d provoca est\u00e1 essa prociss\u00e3o desses seres que n\u00e3o tomam assento na santa ceia do progresso. Talvez seja por isso que o disco doa e instale v\u00e1cuos, ao mesmo tempo em que desperta esperan\u00e7as no meio do dia abrasante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda sobre \u201cAcorde\u201d \u00e9 importante dizer que traz composi\u00e7\u00f5es de Geraldo Vandr\u00e9 e Hilton Acioli, Candinho de Jesus, Jorge Alfredo e Antonio Ris\u00e9rio, Luiz Gonzaga e Z\u00e9 Dantas, Capenga e Patinhas, Carlos Pita. O resultado \u00e9 um disco que pulsa dores e esperan\u00e7as, exala cheiro de mato seco, poeira de estrada, traz desertos e anoitecimentos por dentro. Correntezas de rios que transportam sonhos n\u00e3o se sabe para aonde. E ouvimos, na \u00edntegra, sem conseguir pular nenhuma das doze faixas. O disco talvez seja uma ampla narrativa de n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prefiro n\u00e3o dizer que Roze teve uma carreira mete\u00f3rica. De 1979 datam a sua intensa participa\u00e7\u00e3o no \u00e1lbum \u201c\u00c1guas do S\u00e3o Francisco\u201d (de Carlos Pita) e o disco solo \u201cAcorde\u201d. Em 1980 foi lan\u00e7ado o compacto duplo \u201cRoze\u201d, seguido do terceiro disco tamb\u00e9m intitulado \u201cRoze\u201d e datado de 1984. As d\u00e9cadas de 80 e 90 foram marcadas pelas participa\u00e7\u00f5es na colet\u00e2nea musical \u201cSom Brasil\u201d (organizada por Rolando Boldrin) e em discos de Gereba, F\u00e1bio Paes, Jo\u00e3o B\u00e1, dentre outros. Depois disso ela continuou transitando por mostras musicais, cantorias, eventos de celebra\u00e7\u00e3o das culturas populares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Roze, nos tempos atuais, segue cantando com avidez e do\u00e7ura (cantar \u00e9 crucial). N\u00e3o est\u00e1 desaparecida, nem invis\u00edvel. Canta onde \u00e9 imposs\u00edvel. Tem \u201ca boca preta de tanto sonhar\u201d (Acorde, Candinho de Jesus). Se h\u00e1 desconhecimento da sua obra, culpa dos hegemonismos que transformam particularidade em totalidade e imp\u00f5em modos de \u201cconsumo\u201d musical, alastram o mero entretenimento com prazo de validade. Ent\u00e3o, por (im)pura desobedi\u00eancia precisamos ouvir o canto faminto de Roze.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Agrade\u00e7o a Telito Miranda e Renailda Cazumb\u00e1 pelas contribui\u00e7\u00f5es que geraram esse texto. As impress\u00f5es que aqui se apresentam s\u00e3o dedicadas, antes de tudo, a Roze.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"\/\/www.youtube.com\/embed\/5VaOj0hxSMI\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Acorde (1979). Ficha t\u00e9cnica:<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Produtor fonogr\u00e1fico: Grava\u00e7\u00f5es Chantecler LTDA.<br \/>\nDiretor Art\u00edstico de Produ\u00e7\u00e3o: Luiz Mocarzel<br \/>\nAssistente do Produ\u00e7\u00e3o: Candinho<br \/>\nArranjos de Cordas: Wilson Moura<br \/>\nArranjos de Base: O Grupo<br \/>\nEst\u00fadio: Gravodisc<br \/>\nT\u00e9cnico de grava\u00e7\u00e3o e Mixagem: Elcio Alvores Filho<br \/>\nCorte: Adenilton<br \/>\nCapa\/Dire\u00e7\u00e3o de Arte: Sergio Grecu<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o Gr\u00e1fica: Antonio Luiz<br \/>\nPast-up: Trink\u00e3o<br \/>\nFotos: Candinho<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Daniela Galdino <\/em><\/strong><em>\u00e9 Poeta, por vezes Performer. Professora de Literatura na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Nasceu nas brenhas sulbaianas (em Itabuna) e vem se espalhando pelo mundo. Mant\u00e9m o blog <a href=\"http:\/\/www.operariadasruinas2.blogspot.com.br%20\"><strong>Oper\u00e1ria das Ru\u00ednas<\/strong><\/a>. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniela Galdino evoca o canto desperto de Roze<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15680,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2165,2536],"tags":[2203,2200,1111,408,359,14,2201,2202],"class_list":["post-8647","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-95a-leva","category-gramofone","tag-2203","tag-acorde","tag-bahia","tag-daniela-galdino","tag-disco","tag-gramofone","tag-roze","tag-tucano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8647","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8647"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8647\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15681,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8647\/revisions\/15681"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15680"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8647"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8647"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8647"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}