{"id":8680,"date":"2014-10-04T15:07:34","date_gmt":"2014-10-04T18:07:34","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=8680"},"modified":"2018-12-03T09:36:25","modified_gmt":"2018-12-03T12:36:25","slug":"aperitivopalavra-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavra-i\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os deuses da carnificina<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/interna-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15668\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/interna-1.jpg\" alt=\"\" width=\"284\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/interna-1.jpg 284w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/interna-1-189x300.jpg 189w\" sizes=\"auto, (max-width: 284px) 100vw, 284px\" \/><\/a>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cidade do M\u00e9xico, 1968. Tomando as ruas, centenas de estudantes protestam contra o presidente D\u00edaz Ordaz e seu governo autorit\u00e1rio. Avan\u00e7am, compassados e compactos, uma parede viva que entoa palavras de revolta. Na pra\u00e7a Tlateloco, ocorre uma cilada. Soldados do ex\u00e9rcito bloqueiam todas as sa\u00eddas e, armados com tanques e metralhadoras, atacam parte do grupo. Trezentos s\u00e3o mortos, covardemente. Horas depois, o escritor Jos\u00e9 Revueltas, preso tantas vezes por conta de seus discursos e manifestos, denuncia os donos do poder que acabaram de patrocinar uma carnificina, rasgar em partes jovens desarmados. \u201cOs senhores do governo est\u00e3o mortos\u201d, acusa. \u201cPor isso matam\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relato acima poderia facilmente ter sido extra\u00eddo de uma p\u00e1gina de jornal arquivada nos por\u00f5es da hist\u00f3ria. Contudo, faz parte de \u2018O s\u00e9culo do vento\u2019, \u00faltimo livro da trilogia \u2018Mem\u00f3ria do fogo\u2019, do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Recorrendo a fatos e figuras de diversas naturezas e relev\u00e2ncias para retratar as transforma\u00e7\u00f5es e os conflitos que moldaram o continente sul-americano a partir dos anos 1900, o autor promove uma esp\u00e9cie de colagem verbal onde a verdade latente se sobrep\u00f5e \u00e0 historiografia oficial. A mem\u00f3ria passa a ser a sua guia e, justamente por revisitar o tempo coletivo atrav\u00e9s de pequenos momentos filtrados por um olhar particular, realidade e fic\u00e7\u00e3o se estreitam de maneira indistingu\u00edvel. Um efeito utilizado com semelhante destreza em \u2018O que eu disse ao General\u2019 (Oitava Rima Editora, 68 pgs.), antologia rec\u00e9m-lan\u00e7ada de Anderson Fonseca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 verdadeiro, o que \u00e9 inventado? O que pode ser revisto em favor da literatura? O escritor carioca, radicado no Cear\u00e1, parece n\u00e3o se preocupar com o formato, mas com os temas, suas implica\u00e7\u00f5es e seus alvos; e, neste caso, n\u00e3o resta d\u00favida quem s\u00e3o. Grande parte dos 36 textos, que podem ser rotulados de contos, ou vinhetas, ou aforismos, \u00e9 dedicada a um senhor de estado, de um ditador genocida a um governador fluminense, de Alvaro Uribe a Hosni Mubaraki, de Saddam Hussein a S\u00e9rgio Cabral. Perpetradores da barb\u00e1rie, da fome, da guerra e da injusti\u00e7a. A colet\u00e2nea, de fato, salta da cria\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria para fazer den\u00fancia, criticar o mal do tempo, as mazelas que n\u00e3o mais nos afligem escudados pelo tubo da tev\u00ea, mesmo quando diante da dor dos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Autor de \u2018Sr. Bergier &amp; outras hist\u00f3rias\u2019, volume alimentado umbilicalmente pelo realismo fant\u00e1stico, Fonseca agora tem em m\u00e3os os fatos, ainda que provenientes de um cotidiano infiltrado por uma outra tonalidade de absurdo, epis\u00f3dios de clara virul\u00eancia que conseguem mapear o contexto de onde foram capturados. Um exemplo \u00e9 a narrativa \u2018O tanque\u2019: \u201cA cidade est\u00e1 tranquila. A manh\u00e3 \u00e9 calma. Uns meninos jogam pi\u00e3o\u201d, chega ent\u00e3o o general e sua tropa de guerra; \u201cA cidade permanece tranquila. Tudo \u00e9 o mesmo, s\u00f3 que agora se acrescenta \u00e0 imagem os tanques\u201d. O mesmo ocorre em \u2018Festa\u2019: \u201cHavia uma festa na cidade. Havia sol e alegria\u201d, de repente, surgem homens com armas e m\u00e1scaras; \u201cSim, era uma festa, era a festa dos homens que chegaram\u201d. A normalidade nunca \u00e9 demolida com brusquid\u00e3o, mas minada de maneira furtiva por uma a\u00e7\u00e3o indel\u00e9vel, \u00e0 surdina, um tipo de g\u00e1s t\u00f3xico que s\u00f3 \u00e9 notado quando j\u00e1 se dobra nos \u00faltimos suspiros. \u201cA verdade \u00e9 sempre outra\u201d, alerta. A que vemos tarde demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, por ser incontorn\u00e1vel, o \u00fanico caminho de resist\u00eancia \u00e9 reinventar o mundo com o bisel das palavras. Fonseca trabalha muito bem a linguagem, quando recorre a met\u00e1foras e par\u00e1bolas a fim de amortecer o impacto sum\u00e1rio da perversidade e da vilania. Assim \u00e9 em \u2018Ratos\u2019: \u201cOs ratos invadiram a cidade\u201d, que traz \u00e0 mem\u00f3ria \u2018Maus\u2019, de Art Spiegelman, e em \u2018Davi e Golias\u2019: \u201cHavia um menino e um soldado. O menino segurava um livro (&#8230;) O menino atirou o livro com for\u00e7a acertando o soldado que, em seguida, caiu morto\u201d. Por outro lado, quando se escora na fabula\u00e7\u00e3o, alcan\u00e7a um efeito inverso, potencializando a gravidade das ocorr\u00eancias naquilo que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o aparente. \u00c9 o caso de \u2018Como o poder se conserva\u2019, que traz a hist\u00f3ria de um rei dormente tra\u00eddo por um ministro, que manda mat\u00e1-lo e assume o poder. No trono, este inclui o filho no minist\u00e9rio, garantindo a futura transfer\u00eancia do cargo, numa alus\u00e3o ao governo Kirchner, marcado pela perpetua\u00e7\u00e3o de um revezamento familiar. \u201cAi de quem buscar quebrar o ciclo, a pena \u00e9 a morte\u201d. A viol\u00eancia que serve para destruir igualmente serve para inovar. Tudo depende da capacidade de encontrar o \u00e2ngulo em que a narrativa submersa se revele do tecido social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o por menos, os registros em que o lirismo desloca esse olhar para o plano das subjetividades \u00e9 onde o autor encontra seu arroubo est\u00e9tico. Fonseca \u00e9 detentor de uma prosa fina, lapidada, e textos da estirpe de \u2018Dos que voltam da guerra\u2019, \u2018A tarde\u2019 e \u2018Sinfonia\u2019 incomodam por provocar fasc\u00ednio ao tratar de situa\u00e7\u00f5es tormentosas. \u201cPosso imaginar que as balas s\u00e3o gaivotas de papel deslizando na superf\u00edcie do vento. Posso imaginar que s\u00e3o borboletas e o bater das asas acalme as dores que sinto. Posso imaginar que habito o sil\u00eancio e o sil\u00eancio me habita. Posso negar que as balas rasgam o espa\u00e7o, mas n\u00e3o posso negar que o espa\u00e7o tamb\u00e9m me rasga\u201d. E: \u201cO terror e o medo s\u00e3o iguais ao sonho e a morte habitando-nos involuntariamente, e, por mais que desejemos o refrig\u00e9rio de uma nova vida, a mem\u00f3ria permanece como uma coluna de pedra com nomes gravados\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A morte nasce conosco, morremos a cada dia, temos medo, mas n\u00e3o conseguimos padecer ao presenciarmos a morte alheia. As narrativas examinam este vazio, a cavidade de sentimentos preenchida por um senso de al\u00edvio, por existir algo divino que nos protege de todos os males. Vendas que permitem obliterar os erros fatais, descarregar o impacto do choque nas a\u00e7\u00f5es de destrui\u00e7\u00e3o que parecem distantes, mas que tamb\u00e9m compreendem a nossa hist\u00f3ria. O que remete novamente a Galeano e seus pequenos momentos extraordin\u00e1rios, listados agora no formid\u00e1vel \u2018O livro dos abra\u00e7os\u2019, num epis\u00f3dio intitulado \u2018A linguagem da arte\u2019:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cChinolope vendia jornais e engraxava sapatos em Havana. Para deixar de ser pobre, foi-se embora para Nova Iorque.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>L\u00e1, algu\u00e9m deu de presente a ele uma m\u00e1quina de fotografia. Chinolope nunca tinha segurado uma c\u00e2mara nas m\u00e3os, mas disseram a ele que era f\u00e1cil:<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2014 Voc\u00ea olha por aqui e aperta ali.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>E ele come\u00e7ou a andar pelas ruas. Tinha andado pouco quando escutou tiros e se meteu num barbeiro e levantou a c\u00e2mara e olhou por aqui e apertou ali.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Na barbearia tinham baleado o g\u00e2ngster Joe Anastasia, que estava fazendo a barba, e aquela foi a primeira foto da vida profissional de Chinolope.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Pagaram uma fortuna por ela. A foto era uma fa\u00e7anha. Chinolope tinha conseguido fotografar a morte. A morte estava ali: n\u00e3o no morto, nem no matador. A morte estava na cara do barbeiro que a viu\u201d. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do mesmo modo, \u2018O que eu disse ao General\u2019 exp\u00f5e instant\u00e2neos de nosso tempo, a barb\u00e1rie de cada dia que, de uma forma ou de outra, ser\u00e1 capturada pelo nosso campo de vis\u00e3o. \u00c9 claro que h\u00e1 sempre a op\u00e7\u00e3o de se fechar os olhos. Mas nunca a de ficar indiferente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> \u00e9 jornalista e escritor, autor de \u201cCavala\u201d (Record, 2010), vencedor do Pr\u00eamio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites liter\u00e1rios nacionais e internacionais. \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O olhar de S\u00e9rgio Tavares para o novo livro de Anderson Fonseca<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15669,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2165,2533],"tags":[251,11,419,2222,2223,189,1023],"class_list":["post-8680","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-95a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-anderson-fonseca","tag-aperitivo-da-palavra","tag-contos","tag-o-que-eu-disse-ao-general","tag-os-deuses-da-carnificina","tag-resenha","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8680","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8680"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8680\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15670,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8680\/revisions\/15670"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15669"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8680"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8680"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8680"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}