{"id":8790,"date":"2014-10-30T17:20:11","date_gmt":"2014-10-30T19:20:11","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=8790"},"modified":"2018-12-04T16:55:59","modified_gmt":"2018-12-04T19:55:59","slug":"aperitivo-da-palavra-i-8","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-8\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p><strong>Cio lexical<\/strong><\/p>\n<p><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/A_PUTAcapa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-15713\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/A_PUTAcapa.jpg\" alt=\"\" width=\"214\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/A_PUTAcapa.jpg 214w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/A_PUTAcapa-183x300.jpg 183w\" sizes=\"auto, (max-width: 214px) 100vw, 214px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cNo princ\u00edpio era o Verbo (&#8230;) E o Verbo se fez carne\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os fragmentos copiados do cap\u00edtulo primeiro do Evangelho de Jo\u00e3o remontam ao G\u00eanesis. A cria\u00e7\u00e3o do mundo dos homens, a corporifica\u00e7\u00e3o a partir do l\u00e9xico. &#8216;A puta&#8217;, romance-nocaute da paulista Marcia Barbieri, igualmente se vale da plenitude vocabular para compor seu n\u00facleo seminal, uma engenharia onde as palavras t\u00eam a insaciedade de organismos, reproduzindo-se, proliferando-se, compondo um corpo febril, um ser multiforme cujo nome \u00e9 Verbo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo de gesta\u00e7\u00e3o que, por conseguinte \u00e9 o de cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 a que se dedica a trama. A voz que narra, a fala, o dom que nos distingue das bestas. N\u00e3o obstante um fluxo incontido, uma loquacidade voraz que, ao inv\u00e9s de verter sentido, causa o caos. Parece n\u00e3o haver racionalidade, somente o instinto. Portanto tudo \u00e9 mobilizado por um mecanismo primitivo. \u201cN\u00e3o tente me tornar menos animalesca\u201d, repreende a narradora. O Verbo \u00e9 um impulso natural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Continuamos todos feras, n\u00e3o evolu\u00edmos. Somos prole de \u201cuma simples partenog\u00eanese\u201d. Os s\u00edmios nos rodeiam e nos escudamos com a l\u00f3gica e a raz\u00e3o, enquanto escorre pelos trilhos das costelas um suor\u00a0 \u201ct\u00e3o escuro e f\u00e9tido quanto a urina\u201d. Temos de invej\u00e1-los, incita a puta, a voz reinante nesse curso paginado, \u201cseus sexos \u00e0 mostra, a facilidade como fodem e parem sem prestar contas a ningu\u00e9m\u201d. Afinal, existimos ao pagamento de nossas necessidades fisiol\u00f3gicas, da parturi\u00e7\u00e3o. \u201cO prazer e a dor s\u00e3o frutos do mesmo escarro\u201d. A puta expulsa seus fetos pela glote, voc\u00e1bulos encarnados que exibem min\u00fasculos rins, pulm\u00f5es, genit\u00e1lias \u00famidas e intumescidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que \u00e9 o romance, de fato? Uma tempestade de consci\u00eancia, um solil\u00f3quio vazado por vozes incidentais, a um s\u00f3 tempo um r\u00e9quiem e uma ode \u00e0 literatura. Tach\u00e1-lo a um g\u00eanero seria unidimension\u00e1-lo. Para constar, talvez, aparenta-se com o erotismo, o relevo pornogr\u00e1fico, a reifica\u00e7\u00e3o da libido. Um discurso que \u00e9 expl\u00edcito, por\u00e9m n\u00e3o gratuito. Com for\u00e7a imag\u00e9tica capaz de firmar paralelos com &#8216;A hist\u00f3ria do olho&#8217;, de Bataille, e a O., de Anne Desclos, narrativas cujo eixo aciona um confession\u00e1rio de viv\u00eancias sexuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num bloco \u00fanico de texto, Barbieri esquadrinha essa vida mult\u00edvaga. Ou melhor, escava a fundura dos segredos mais escusos, dos rancores, das perdas e das deprava\u00e7\u00f5es. A mem\u00f3ria s\u00e3o os vest\u00edgios deixados pelo corpo, a soma dos pesos dos \u201chomens refrat\u00e1rios\u201d que sujaram sua pele na busca por orif\u00edcios. Parecem gritos rasgados das entranhas, uma hist\u00f3ria contada aos murros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passado e presente se alternam ao salto de uma v\u00edrgula, de um ponto final. A puta recorda a inf\u00e2ncia, o pai nulo, a estadia da m\u00e3e no sanat\u00f3rio, a deflora\u00e7\u00e3o, a ciranda de parceiros, pessoas boas, pessoas ruins, o filho n\u00e3o quisto que depois n\u00e3o a quis. Durante esse tr\u00e2nsito desenfreado, algumas contravozes tomam \u00e0s r\u00e9deas da narra\u00e7\u00e3o, deslocando o olhar e revelando outros aspectos do trecho em foco. A autora recorre a uma polifonia que tamb\u00e9m \u00e9 uma orgia lingu\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A essas conjuga\u00e7\u00f5es somam-se camadas que impregnam a estrutura; vislumbres, passagens, viagens on\u00edricas e maquina\u00e7\u00f5es delirantes. Uma guerra num pa\u00eds latino-americano, um territ\u00f3rio nevoso, os efeitos do uso da coca\u00edna, o sexo servindo ao culto ao profano e ao sacro. Com uma prosa que sustenta um verniz po\u00e9tico ainda que deslinde \u201cos dias que nascem na vulva\u201d,\u00a0 o romance se alicer\u00e7a em met\u00e1foras para transcender a mat\u00e9ria e acessar quest\u00f5es metaf\u00edsicas; o cosmo e a autoridade divina, o pante\u00edsmo versus os mitos cotidianos, o livre-alvedrio e a condi\u00e7\u00e3o de b\u00edpedes (onde vale uma men\u00e7\u00e3o ao &#8216;Cock &amp; Bull&#8217;, de Will Self). \u201cAmanhece apesar de Deus\u201d, dispara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo tom \u00e1cido \u00e9 conferido ao papel da escrita sobre a exist\u00eancia humana. O escritor, esse ser arbitr\u00e1rio e tir\u00e2nico, que se apodera dos voc\u00e1bulos, explora-os, corrompe suas naturezas, e mesmo assim fracassa ao traduzir a realidade em fic\u00e7\u00e3o. \u201cA escrita n\u00e3o passa de uma tentativa idiota de dar vida a marionetes, a cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 capaz de suprimir a representa\u00e7\u00e3o e a representa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma banaliza\u00e7\u00e3o do real\u201d. O principio sempre ser\u00e1 o Verbo, a autora parece nos atentar, por\u00e9m todos n\u00f3s vivemos sob o signo do Caos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na abertura da ficha t\u00e9cnica do livro est\u00e1 a seguinte informa\u00e7\u00e3o: \u201cTodo conte\u00fado do texto aqui apresentado \u00e9 de inteira responsabilidade do autor\u201d. Algo posto como alerta, mas que, de fato, lan\u00e7a luz sobre a prosa pujante e bem elaborada de Barbieri, capaz de causar espanto e maravilhamento na mesma medida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> \u00e9 jornalista e escritor, autor de \u201cCavala\u201d (Record, 2010), vencedor do Pr\u00eamio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites liter\u00e1rios nacionais e internacionais. \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O romance \u201cA Puta\u201d, de Marcia Barbieri, \u00e9 alvo das impress\u00f5es de S\u00e9rgio Tavares<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8793,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2229,2533,16],"tags":[2230,11,2231,538,189,496,1023],"class_list":["post-8790","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-96a-leva","category-aperitivo-da-palavra","category-destaques","tag-a-puta","tag-aperitivo-da-palavra","tag-cio-lexical","tag-marcia-barbieri","tag-resenha","tag-romance","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8790","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8790"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8790\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15714,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8790\/revisions\/15714"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8793"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8790"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8790"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8790"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}