{"id":8808,"date":"2014-10-30T17:53:17","date_gmt":"2014-10-30T19:53:17","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=8808"},"modified":"2014-12-08T18:57:48","modified_gmt":"2014-12-08T20:57:48","slug":"dedos-de-prosa-i-31","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-31\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Marina Ruivo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_8884\" aria-describedby=\"caption-attachment-8884\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA9.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8884 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA9.jpg\" alt=\"Tom\u00e1s Casares\" width=\"500\" height=\"344\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA9.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA9-300x206.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8884\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Tom\u00e1s Casares<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No carrossel<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quer saber? Eu quero mesmo \u00e9 um tigre pra me comer. Valente, potente, crescente, varando a noite da cidade com seu brilho de tigreperigoso, feroz e desabrido, mas tamb\u00e9m mavioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheguei a v\u00ea-lo s\u00e1bado, no parque, pela manh\u00e3. Coincidentemente, ou nem tanto assim, nos encontramos l\u00e1, eu e o tigre. Abobalhados que ficamos, mal conversamos. N\u00e3o pude decifrar com as sutilezas necess\u00e1rias os seus rugidos e balbucios. Acho at\u00e9 fui grossa. Raiva de ele ter dado pra tr\u00e1s, recuado, desistido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso agora quero outro, outro tigre, mais valente, mais feroz, mais impetuoso. Mais estrondoso e mais doce. De pelo estonteante, pra me lanhar o rosto e os calcanhares. Caninos fortes, incisivos, pra me deixar marcada da posse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De papel? Sim, pode ser um tigre de papel, n\u00e3o h\u00e1 restri\u00e7\u00f5es quanto a isso. O fundamental \u00e9 que desempenhe bem seu papel. E que fa\u00e7a surgir flores e bichos onde (aqui dentro) s\u00f3 h\u00e1 aus\u00eancia. Podem ser bichos pe\u00e7onhentos, venenosos pra valer, n\u00e3o importa. Mas que sejam bichos vivos, esvoa\u00e7antes, com movimentos leves e r\u00e1pidos, intr\u00e9pidos. \u00c9 isso que eu quero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um tigre que plante em mim a vida que n\u00e3o tenho mais. Que fa\u00e7a a seiva do sonho me preencher de energia nova, e que eu abandone de vez o melodioso chamado da sacada doce, a rua profunda l\u00e1 embaixo me acenando, oferecida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um tigre que n\u00e3o seja um tigre de verdade. Seja s\u00f3 o desejo do tigre, o enigma do tigre, a imagem do tigre. Signo oco mas fecundo, pleno. Carregado por dois ou at\u00e9 tr\u00eas homens mascarados, atores, que o fa\u00e7am se movimentar pelas ruas e avenidas. Eu quero \u00e9 isso mesmo. Atores. Que finjam com emo\u00e7\u00e3o pungente e suficiente para me envolver, me enla\u00e7ar, me aprisionar e assim quem sabe me libertar do feiti\u00e7o do tigre primeiro, menino do parque, com sua juba que mais parece de le\u00e3o e que cravou fundo em mim suas garras, rasgando-me o peito, deflorando-me a carne, deformando meus olhos, inchados e atordoados do espanto de tanto chorar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tigre ator, ainda por cima. Por isso quero outro. N\u00e3o igual, mas mais avassalador, mais ator, e que n\u00e3o me leve para os abismos e penhascos da alma dolorida nem da natureza ressequida, e sim projete em mim o brilho luminoso dos pain\u00e9is e dos carross\u00e9is meninos, onde eu possa sentar nos cavalinhos e girar sob o olhar de sua prote\u00e7\u00e3o. E vez em quando um elefante branco&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tigre ator, ordeiro, atroz. Desestabilizador das certezas que a ang\u00fastia obsessiva da parede de pedra procurava evitar fossem vistas. O sintoma: toctoctoc. Mas com voc\u00ea n\u00e3o h\u00e1 toc, s\u00f3 que tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 mais toque. Eu quis te beijar, falei: Posso? E voc\u00ea: Ai, parece uma crian\u00e7a pedindo posso, mas n\u00e3o, n\u00e3o pode n\u00e3o. Por qu\u00ea? N\u00e3o quero mais, somos amigos a partir de agora, nada mais, mas eu gosto de voc\u00ea, tigresa, gosto sim. N\u00e3o me chame assim que \u00e9 vulgar. U\u00e9, voc\u00ea n\u00e3o gosta da m\u00fasica do velho mo\u00e7o baiano? Gosto, mas ele estava apaixonado por ela, e aqui, se pode haver um paralelo, \u00e9 o inverso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quero, quero sim, um tigre de bocarra. Nada de do\u00e7ura, nem fragilidade. Quero a posse literalmente animal, que n\u00e3o quer saber de mais nada a n\u00e3o ser do desejo dos corpos, desejo das almas-bocas que se procuram e se querem unidas, sem saber do amanh\u00e3, mas inteiras no hoje da natureza como ela \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">C\u00edclica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E por isso, meu tigre, fique em paz que amanh\u00e3 tudo recome\u00e7a, ou depois de amanh\u00e3. E voc\u00ea vir\u00e1, eu irei, e n\u00f3s iremos. E vez em quando um elefante branco&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Comilan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>A Marcelino Freire, que me fez olhar melhor para o t\u00edtulo do livro de Francine Prose<\/em><br \/>\n<em>(Para ler como um escritor), o que acabou originando esta brincadeira, e<\/em><br \/>\n<em>a Francine Prose, autora desta obra deliciosa.<\/em><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ler, como um escritor. Ou uma escritora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes dois ou tr\u00eas ao mesmo tempo. Mas um de cada vez costuma ser mais saborido saboroso gostoso demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De lambedela em lambedela, me lambujo, cravo os dentes. Mordo peda\u00e7o por peda\u00e7o, degluto, engulo ele inteiro. Pasto e repasto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelos, cabelos, axilas, umbigo e cotovelos. Mas tamb\u00e9m p\u00e9s, costas, nuca, esp\u00e1duas, olhos e n\u00e1degas. Nariz, coxas, batata da perna, canela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neur\u00f4nios em movimento, remastigo cada uma de suas sinapses sentimentos, adentro suave sua mente e nela me fa\u00e7o h\u00f3spede por algumas horas, dias, anos. \u00c0s vezes, quando a comilan\u00e7a \u00e9 boa pra valer, por uma vida inteira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contamino-me por ele, deixo que me coma tamb\u00e9m, de dentro pra fora e de fora pra dentro, como quiser, que essa inunda\u00e7\u00e3o fertiliza minhas \u00e1guas, que rebentam aben\u00e7oadas, venturosas, integradas e sempre mais esperan\u00e7osas de haver guardado em meu \u00fatero-flor uma sementinha, pequena que seja, dos olhos do escritor. De sua mirada para o mundo e para as palavras, seu namoro com o mundo que se faz pelas palavras, estas suas palavras que s\u00e3o o seu meu nosso mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E saio satisfeita, plena, devassa, dormida, encontrada, recriada, desfigurada, para o pr\u00f3ximo banquete amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Marina Ruivo<\/em><\/strong><em> \u00e9 doutora em Letras pela USP, professora da Unimonte (Santos\/SP) e colaboradora freelancer de v\u00e1rias editoras. Escreve fic\u00e7\u00e3o desde a adolesc\u00eancia, mas por muitos anos tentou se convencer de que deveria ficar somente no terreno da cr\u00edtica. Como o desejo da escrita n\u00e3o morria, resolveu voltar \u00e0 pr\u00e1tica e vem participando de diversas oficinas de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Seu conto \u201cRiozinho\u201d far\u00e1 parte do n\u00famero 6 da Revista Sexus. \u00c9 m\u00e3e do Pedro, um menino de 5 anos que ainda n\u00e3o sabe ler, mas \u00e9 amante de hist\u00f3rias e livros.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os delicados enredos dos contos de Marina Ruivo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8882,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2229,2534,16],"tags":[2277,419,41,2275,2276,149],"class_list":["post-8808","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-96a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-comilanca","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-marina-ruivo","tag-no-carrossel","tag-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8808","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8808"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8808\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8889,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8808\/revisions\/8889"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8882"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8808"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8808"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8808"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}