{"id":8811,"date":"2014-10-30T17:54:55","date_gmt":"2014-10-30T19:54:55","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=8811"},"modified":"2014-12-08T18:58:01","modified_gmt":"2014-12-08T20:58:01","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-30","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-30\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um escritor e a for\u00e7a de sua obra. Nada melhor do que a conjun\u00e7\u00e3o desses dois componentes para conferir sentido a qualquer tentativa de desferir linhas a respeito de um criador. E n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o motor da leitura \u00e9 a g\u00eanese de todo o processo criativo, bem sabemos. No caso de <strong>Anderson Fonseca<\/strong>, o que ousamos denominar por propriedade narrativa vem dotado dessa no\u00e7\u00e3o primeira de que um autor, em mat\u00e9ria de escrita, \u00e9 parte integrante e viva daquilo que l\u00ea. Mas eis que isso n\u00e3o basta e, no caso espec\u00edfico de Anderson, um aspecto chama aten\u00e7\u00e3o em especial: o dom\u00ednio sobre a condu\u00e7\u00e3o das hist\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como todo percurso autoral imp\u00f5e sabermos de suas epifanias, nada melhor do que abordarmos alguma ess\u00eancia que perfaz obras. Com o vigor de quem cria mundos paralelos, refor\u00e7ando dimens\u00f5es poss\u00edveis do humano, Anderson Fonseca estreia em livro com os arremates densos de \u201cNotas de Pensamentos Incomuns\u201d. Naquele instante, fica claro para quem l\u00ea que o territ\u00f3rio complexo e instigante do realismo fant\u00e1stico ir\u00e1 marcar a trajet\u00f3ria do autor com pung\u00eancia. Nesse primeiro momento, al\u00e9m de vislumbrar dimens\u00f5es paralelas ao mundo tang\u00edvel, Anderson mergulha de cabe\u00e7a na vastid\u00e3o de mist\u00e9rios que nos atravessam. Mais tarde, a capacidade inventiva e o controle sobre as estrat\u00e9gias narrativas v\u00eam somar esfor\u00e7os e, ainda com o encantamento proporcionado pelos \u00edmpetos do fant\u00e1stico, surge \u201cSr. Bergier &amp; Outras Hist\u00f3rias\u201d, livro cujo tom confessional e qui\u00e7\u00e1 epistolar envolve o leitor e o conduz como testemunha dos acontecimentos minuciosamente relatados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, o momento que marca essa entrevista feita com Anderson aponta para uma outra faceta importante do escritor, qual seja a de n\u00e3o passar impune sobre os imperativos de seu tempo. E ele o faz, impregnado de lucidez e sensibilidade, quando oferta ao mundo seu mais novo rebento, \u201cO que eu disse ao General\u201d. Os contos presentes ali encerram uma atmosfera de resist\u00eancia e poesia, atrav\u00e9s da qual a voz do autor se insurge contra a tirania universal, que n\u00e3o se restringe \u00e0quela associada a determinados personagens da hist\u00f3ria do mundo, confinados a contextos geopol\u00edticos, mas sobretudo aos pequenos grandes delitos do cotidiano que protagonizamos. Diante desse rico painel de constata\u00e7\u00f5es, esse carioca que hoje reside em Brejo Santo (Cear\u00e1), exp\u00f5e um pouco de si numa conversa regada fundamentalmente aos sabores proporcionados pela Literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_8923\" aria-describedby=\"caption-attachment-8923\" style=\"width: 332px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA-I1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8923 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA-I1.jpg\" alt=\"Anderson Fonseca\" width=\"332\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA-I1.jpg 332w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA-I1-199x300.jpg 199w\" sizes=\"auto, (max-width: 332px) 100vw, 332px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8923\" class=\"wp-caption-text\">Anderson Fonseca \/ Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;O que eu disse ao General&#8221; \u00e9 uma obra que, fazendo alus\u00e3o a figuras e situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, rompe barreiras e se situa num plano bastante amplo, capaz de dialogar com pr\u00e1ticas cotidianas t\u00e3o nossas. Diria que o livro pode ser tamb\u00e9m entendido como um levante contra a tirania sob as suas mais variadas formas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDERSON FONSECA &#8211; <\/strong>Eu diria que sim. Mas a quest\u00e3o central em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tirania \u00e9 a opress\u00e3o do Estado sobre o indiv\u00edduo. O indiv\u00edduo, ao abrir m\u00e3o de seu poder e do\u00e1-lo a outro, permite que este, seja quem ele for, oprima sua liberdade, seu desejo, seu erotismo. Quando o Estado decide e age em vista de refor\u00e7ar essa liberdade (o er\u00f3tico, a frui\u00e7\u00e3o do corpo movente no espa\u00e7o), estabelece-se uma harmonia. Quando n\u00e3o, surge a opress\u00e3o do poder e a morte. A realiza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo est\u00e1 associada intimamente \u00e0 Vida em sua plenitude Er\u00f3tica. Os conflitos que assisto pela TV s\u00e3o uma nega\u00e7\u00e3o do er\u00f3tico, da afirma\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A fr\u00e1gil liberdade que gozamos, sobretudo numa era de abundante informa\u00e7\u00e3o, faz parte de um ciclo transit\u00f3rio ou dificilmente seremos livres para conjugar pensamento e a\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDERSON FONSECA &#8211; <\/strong>Enquanto o homem tiver certeza, ele ser\u00e1 escravo de qualquer ideologia, sofisma, dogma. \u00c9 necess\u00e1rio, para que haja uma liberdade efetiva, de forma pragm\u00e1tica e n\u00e3o conceitual, que a d\u00favida se torne um exerc\u00edcio do pensamento. Para ser mais claro, o homem \u00e9 escravo de suas certezas, porque estar certo de algo \u00e9 mais confort\u00e1vel ao esp\u00edrito. Entretanto, quando a incerteza emerge no pensamento, o homem com todas as suas for\u00e7as, temendo a verdade, ergue contra este terr\u00edvel &#8220;monstro&#8221; as mais fortes muralhas dogm\u00e1ticas, as quais s\u00e3o refor\u00e7adas com novos dogmas. N\u00e3o ter certeza, contudo, seria a plena liberdade, pois a incerteza em sua ess\u00eancia abarca qualquer afirma\u00e7\u00e3o autoconsistente, ela n\u00e3o rejeita e n\u00e3o invalida, apenas desconfia. Entretanto, para que a d\u00favida se torne pragm\u00e1tica, a mudan\u00e7a deve partir da educa\u00e7\u00e3o presente nos sistemas de ensino, deve partir de sua principal base, o professor. O mestre, hoje presente nas escolas, ou defende sua f\u00e9 religiosa, ou seu ate\u00edsmo, e ambos levam como fundamento de suas certezas os livros sagrados ou a ci\u00eancia. O mestre, antes, deveria exercer a d\u00favida para que o aluno escolha seu caminho e, em sua jornada, respeite outros caminhos. Hoje, al\u00e9m da religi\u00e3o e ate\u00edsmo, em que seus defensores tomam como refer\u00eancia livros de autores cujas culturas e vis\u00f5es s\u00e3o ref\u00e9ns do tempo, surgem os fi\u00e9is da m\u00eddia. Vejo muitos crentes da internet e que a usam como meio de propaga\u00e7\u00e3o do \u00f3dio, intoler\u00e2ncia, preconceito contra a diferen\u00e7a. Eles n\u00e3o t\u00eam d\u00favida. N\u00e3o tenho f\u00e9 e nem por isso n\u00e3o tenho paz de esp\u00edrito. Meu pensamento \u00e9 uma porta aberta para outros pensamentos. Busco exercer a d\u00favida como uma forma de abertura para outras percep\u00e7\u00f5es. E, enquanto houver crentes a defenderem com armas seus dogmas, haver\u00e1 guerras e massacres. Enfim,acho que a d\u00favida \u00e9 chave para a toler\u00e2ncia e a liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O cen\u00e1rio de tens\u00f5es presente em &#8220;O que eu disse ao General&#8221; vem tamb\u00e9m revestido por um manto po\u00e9tico.\u00a0 Nessa perspectiva, o exerc\u00edcio da subjetividade entra em cena e conduz as narrativas num contraponto \u00e0s situa\u00e7\u00f5es extremas ali relatadas.\u00a0 O que dizer desse t\u00e3o vigoroso recurso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDERSON FONSECA &#8211;<\/strong>Escrevi essa obra mergulhado em um insond\u00e1vel sil\u00eancio, durante a noite,para ouvir apenas as palavras que sussurrariam em minha mente. A poesia, segundo Bachelard, &#8220;\u00e9 um olhar silencioso que suprime o mundo para fazer calar seus ru\u00eddos&#8221;. A guerra \u00e9 um ru\u00eddo em nossa realidade, a melhor forma de entend\u00ea-lo \u00e9 silenciando sua voz para que as imagens sobressaiam. Se o ru\u00eddo fosse permitido a invadir as letras, as palavras n\u00e3o se fariam ouvir. Bachelard ainda escreve que a poesia &#8220;deixa vivo, sob as imagens, o sil\u00eancio atento&#8221;. O sil\u00eancio emergiu no instante em que, vendo as imagens da guerra, n\u00e3o poderia ser narrado como era diante dos olhos, mas de outro modo, como um s\u00edmbolo do homem, de sua decad\u00eancia moral, metaf\u00edsica e pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu poderia ter escolhido outra forma, mas essa forma n\u00e3o corresponderia \u00e0 necessidade que a minha alma buscava.A linguagem escolhida \u00e9 um reflexo dos conflitos internos que eu sofria naquele momento. Essa mesma linguagem n\u00e3o \u00e9 somente um reflexo, mas a express\u00e3o m\u00e1xima de meu esp\u00edrito. Eu deveria dizer daquele modo, porque de outro, estaria me traindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; De algum modo, escrever \u00e9 um ato de reden\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDERSON FONSECA &#8211; <\/strong>Sinto certa repulsa com palavras cujo significado \u00e9 teol\u00f3gico. A palavra reden\u00e7\u00e3o inevitavelmente me remete ao mito messi\u00e2nico da religi\u00e3o judaico-crist\u00e3. Quando termos como esse s\u00e3o aplicados \u00e0 Literatura, fico apreensivo. N\u00e3o consigo ver a Literatura com uma \u00f3tica teol\u00f3gica e evito termos que carreguem esse sentido. Creio que o escrever n\u00e3o \u00e9 a express\u00e3o do pensamento, mas seu construtor. Acho equivocada aquela frase do Descartes: &#8220;penso, logo existo&#8221;. Descartes n\u00e3o faria tal afirma\u00e7\u00e3o se n\u00e3o fosse pela linguagem, ou seja, a linguagem constitui o pensamento, o elabora. Em seu lugar, eu diria: &#8220;escrevo\/falo, logo existo&#8221;. Portanto, no instante em que me debru\u00e7o sobre o papel, pego a caneta (n\u00e3o tenho o costume de escrever primeiro no computador) e tra\u00e7o a primeira frase, estou aprimorando meu pensamento, estou o construindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em &#8220;Sr. Bergier &amp; Outras Hist\u00f3rias&#8221; voc\u00ea transita pelo instigante e complexo territ\u00f3rio do realismo fant\u00e1stico. Que desafios engendram essa sua vertente criativa?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDERSON FONSECA &#8211;<\/strong>Creio que o realismo fant\u00e1stico n\u00e3o seja t\u00e3o f\u00e1cil para trabalhar, porque \u00e9 preciso distorcer a realidade para revelar sua natureza oculta. Penso em Murilo Rubi\u00e3o, que obsessivamente revisava seus contos at\u00e9 a exaust\u00e3o, penso em Ivan Bunin, outro obsessivo pela revis\u00e3o de suas obras, e Buzzati, mais um obsessivo. Nunca me sinto satisfeito com o texto, e confesso que me sinto mais feliz enquanto estou escrevendo, mas, depois que o conto \u00e9 publicado, fico melanc\u00f3lico e frustrado, pois passo a pensar que poderia estar melhor, e a\u00ed come\u00e7o a revisar. O maior desafio \u00e9 encontrar o argumento adequado para a ideia, e nem sempre \u00e9 f\u00e1cil. Depois se inicia a luta com a palavra at\u00e9 o ajuste final. \u00c9 claro, tudo feito com bastante humor. Lembro que Flaubert escreveu: &#8220;eis o que a prosa tem de diab\u00f3lico, ela nunca est\u00e1 terminada&#8221;. Flaubert foi outro autor obsessivo na tentativa de conciliar o significado que a palavra carrega a uma forma proporcionada pela literatura. Acho que \u00e9 a luta de todo autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Essa, digamos assim, ang\u00fastia criativa \u00e9 capaz de impactar radicalmente as suas convic\u00e7\u00f5es de autor?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDERSON FONSECA &#8211;<\/strong>Sobre esta quest\u00e3o colocada, eu diria que se trata da hist\u00f3ria de uma ideia. A ideia que tenho para um conto n\u00e3o surge do nada, mas cont\u00e9m em si uma hist\u00f3ria, ou seja, uma rela\u00e7\u00e3o com outras ideias apanhadas de diversas leituras, essa hist\u00f3ria que a ideia carrega consigo, que a estrutura, eu n\u00e3o posso negar, mas admiti-la. O que acontece comigo \u00e9 que esta ideia ser\u00e1 reformulada, assumir\u00e1 um novo sentido em outro contexto (forma). Nesse sentido, eu reinvento a cadeia de ideias que constru\u00edram esta \u00faltima, quando atribuo a ela um novo formato, o qual \u00e9 a narrativa em que ela se reflete. A d\u00favida, portanto, de se estou sendo original ou n\u00e3o, n\u00e3o me preocupa. Acho importante o di\u00e1logo de uma obra com outra, at\u00e9 porque a pr\u00f3pria hist\u00f3ria em si \u00e9 uma sucess\u00e3o de ideias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se escolhe ser escritor, trazemos conosco a gl\u00f3ria e a mis\u00e9ria. Depois de sermos escritores, apenas o texto carrega nossa gl\u00f3ria e felicidade, tudo demais se torna miser\u00e1vel. Tornamo-nos miser\u00e1veis financeiramente, no amor, na amizade, na vida e na sa\u00fade. A certeza que temos \u00e9 que a obra viver\u00e1. Eis a condi\u00e7\u00e3o que assumimos: sacrificamos as demais coisas (ef\u00eameras)pela perenidade da palavra, e ent\u00e3o nos tornamos miser\u00e1veis. \u00c9 como um deus que assume a forma humana, despindo-se de sua gl\u00f3ria para sofrer as vicissitudes do tempo. Ele se torna miser\u00e1vel para que sua palavra dure pelos s\u00e9culos vindouros. N\u00e3o h\u00e1 gl\u00f3ria em ser escritor, a gl\u00f3ria pertence ao texto.Por isso, a humildade diante do Mundo e do Verbo, o qual veneramos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_8924\" aria-describedby=\"caption-attachment-8924\" style=\"width: 327px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA-II2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8924 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA-II2.jpg\" alt=\"Anderson Fonseca\" width=\"327\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA-II2.jpg 327w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA-II2-196x300.jpg 196w\" sizes=\"auto, (max-width: 327px) 100vw, 327px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8924\" class=\"wp-caption-text\">Anderson Fonseca \/ Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Partindo da ideia de que tudo sempre esteve no mundo, o que confere mais propriedade \u00e0 obra de um autor?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDERSON FONSECA &#8211;<\/strong>Se tudo sempre esteve no mundo, se tudo \u00e9 eterno, se a exist\u00eancia \u00e9 simult\u00e2nea ao espa\u00e7o e ao tempo, o que resta ao autor?As imagens, porque elas surgiram quando o homem surgiu, pois s\u00e3o o fruto de uma rela\u00e7\u00e3o sujeito\/mat\u00e9ria. Lembro-me de uma par\u00e1bola do profeta\/poeta Jeremias. Um dia, Jeremias desceu as escadas da casa e viu o jarro de um vaso quebrado. O oleiro pegou o vaso quebrado, trabalhou o barro, e reconstruiu o vaso. O vaso j\u00e1 estava ali (a forma), assim como o barro (a mat\u00e9ria); foi necess\u00e1ria, contudo, a vis\u00e3o (ideia) de um artista para (re)modelar o barro e dar-lhe a forma imaginada. A mat\u00e9ria preexiste, mas o artista a destr\u00f3i (destr\u00f3i seu signo), refaz (atribui-lhe outro significado) e doa-lhe a forma que lhe &#8220;parece bem aos olhos&#8221; (Jeremias 18:4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se tudo j\u00e1 existe, se a mat\u00e9ria sempre existiu, a propriedade do autor encontra-se no modo como ele trabalha as imagens, como ele atribui a elas um conte\u00fado, uma rela\u00e7\u00e3o de sentido. Este molde \u00e9 um reflexo do sujeito criador, do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O modo como voc\u00ea articula as imagens \u00e9 fundamental na percep\u00e7\u00e3o de um livro como &#8220;Sr. Bergier &amp;Outras Hist\u00f3rias&#8221;, algo que promove aproxima\u00e7\u00f5es com a linguagem cinematogr\u00e1fica. A s\u00e9tima arte \u00e9 um universo de refer\u00eancias que lhe atrai conscientemente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDERSON FONSECA &#8211;<\/strong>N\u00e3o, sou atra\u00eddo mais pelas hist\u00f3rias em quadrinhos como as da editora Vertigo e DC Comics. O que me atrai nelas \u00e9 a ci\u00eancia vista como uma fantasia humana. Al\u00e9m disso, o enquadramento e a sequ\u00eancia de a\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo me chamam bastante a aten\u00e7\u00e3o. Nos \u00faltimos meses, por exemplo, tenho lido <em>Planetary<\/em> e <em>O Inescrito<\/em>, duas revistas espl\u00eandidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O quanto a sua fei\u00e7\u00e3o de educador reflete no seu olhar sobre a literatura? Voc\u00ea busca pontos de converg\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDERSON FONSECA &#8211;<\/strong>Ser um educador \u00e9 um imenso desafio.Diariamente, nos confrontamos com realidades mais absurdas que a fic\u00e7\u00e3o, realidades que nos p\u00f5em a indagar sobre a estupidez humana, como tamb\u00e9m sobre sua gra\u00e7a e beleza. Estou em confronto com a realidade a todo instante. Minha literatura \u00e9 uma forma de devolver o soco que recebo. Quando estou em sala de aula, al\u00e9m de ensinar a l\u00edngua e sua po\u00e9tica, busco apresentar o campo de batalha que \u00e9 a vida. Saio com a vontade de socar o mundo, e a\u00ed a palavra carrega em sua for\u00e7a o soco devolvido. Meus alunos sentem a mesma vontade, mas \u00e9 atrav\u00e9s da escrita que eles, como boxeadores, nocauteiam o mundo que os aflige.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Somos um pa\u00eds de potenciais leitores subestimados?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDERSON FONSECA &#8211;<\/strong>Somos um pa\u00eds de leitores e autores subestimados. Vivemos ainda a velha frase de Lautr\u00e9amont: s\u00f3 os poetas leem poetas. S\u00f3 escritores brasileiros leem escritores brasileiros, ou s\u00f3 os escritores brasileiros se leem. Esta frase necessita sofrer dr\u00e1sticas mudan\u00e7as, porque ainda hoje, embora se veja uma grande produ\u00e7\u00e3o de livros de autores nacionais, n\u00e3o existe projeto de distribui\u00e7\u00e3o desses livros para atingir os leitores brasileiros, de forma a disputar de igual para igual com autores estrangeiros. Percebo a juventude brasileira cultuar estes autores estrangeiros, e menosprezar alguns autores nacionais (nem todos, h\u00e1 quem escape). Isso precisa mudar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Na sua opini\u00e3o, de que forma podemos alterar esse cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDERSON FONSECA &#8211;<\/strong>N\u00e3o sei como alterar esse cen\u00e1rio, sinceramente. Trata-se de algo enraizado em nossa cultura. Talvez dev\u00eassemos come\u00e7ar pela educa\u00e7\u00e3o, atualizando os professores a respeito dos autores brasileiros da gera\u00e7\u00e3o 00 at\u00e9 os mais recentes. O professor \u00e9 o canal certo para atingir leitores jovens e famintos de obras boas, mas se eles n\u00e3o estiverem atualizados e propensos a conhecer o cen\u00e1rio atual, os alunos muito menos estar\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que voc\u00ea n\u00e3o endossa nesse estado de coisas chamado p\u00f3s-modernidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDERSON FONSECA &#8211;<\/strong>A quest\u00e3o &#8220;p\u00f3s-modernidade&#8221; \u00e9 amb\u00edgua.Quando a ou\u00e7o, sinto-me lan\u00e7ado contra a frase de Rimbaud: &#8220;\u00e9 preciso ser absolutamente moderno&#8221;. Ter uma posi\u00e7\u00e3o a respeito da p\u00f3s-modernidade deixa-me estranho, pois n\u00e3o sei claramente o que \u00e9.\u00a0Mas quando se fala em mercantiliza\u00e7\u00e3o da arte, penso isso ser necess\u00e1rio, porque a arte \u00e9 uma forma de mercadoria. Nessa \u00f3tica, o livro \u00e9 um produto que deve ser vendido. Entretanto, o artista n\u00e3o pode se despersonalizar e se tornar ele uma mercadoria, isso leva a uma descaracteriza\u00e7\u00e3o de si mesmo, de sua obra e arte. N\u00e3o endosso, portanto,\u00a0 que escritores que hoje assumem uma postura diante de sua obra e arte, amanh\u00e3, depois da fama, mudem essa postura.\u00a0 A cr\u00edtica deve desvincular-se um pouco do jornalismo que, em geral, direciona o discurso a favor de certas obras de duvidoso m\u00e9rito. O artista deve abandonar a Rep\u00fablica, porque ela n\u00e3o o quer dentro de seus muros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;Notas de Pensamentos Incomuns&#8221; marca sua estreia em livro. Depois disso, vieram os outros dois que mencionamos anteriormente por aqui. Diante desses percursos, quem \u00e9 hoje Anderson Fonseca e quais marcas traz consigo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANDERSON FONSECA &#8211;<\/strong>Sou um homem mais paciente\u00a0 gra\u00e7as \u00e0 palavra.\u00a0 E gra\u00e7as \u00e0 literatura conservo alguns sonhos, mas percebi, ao olhar para o mundo, que todo bem s\u00f3 existe em sua rela\u00e7\u00e3o com o mal e, diante disso, n\u00e3o h\u00e1 utopia, tenho que aceitar a realidade como ela \u00e9.Valorizo, hoje, a simplicidade, a beleza e a eleg\u00e2ncia das palavras e das coisas. O universo \u00e9 deslumbrante e fico pasmo ao olh\u00e1-lo.\u00a0 Desde o momento em que passei a olhar o universo com os olhos do poeta, deixei o medo para tr\u00e1s e comecei a ter esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa conversa regada a motiva\u00e7\u00f5es criativas, o escritor Anderson Fonseca fala sobre sua trajet\u00f3ria liter\u00e1ria<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8814,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2229,16,2539],"tags":[251,1761,1130,2287,419,63,254,137,277,2222,8,2289,2291,2288,2290],"class_list":["post-8811","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-96a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-anderson-fonseca","tag-brejo-santo","tag-ceara","tag-contista","tag-contos","tag-entrevista","tag-escritor","tag-fabricio-brandao","tag-notas-de-pensamentos-incomuns","tag-o-que-eu-disse-ao-general","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-realismo-fantastico","tag-rio-de-janeiro","tag-sr-bergier-outras-historias","tag-tirania"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8811","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8811"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8811\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8925,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8811\/revisions\/8925"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8814"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8811"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8811"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8811"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}