{"id":8840,"date":"2014-10-31T10:38:24","date_gmt":"2014-10-31T12:38:24","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=8840"},"modified":"2014-11-17T23:54:25","modified_gmt":"2014-11-18T01:54:25","slug":"dedos-de-prosa-iii-28","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-28\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>Caio Russo <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_8914\" aria-describedby=\"caption-attachment-8914\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA12.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8914 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA12.jpg\" alt=\"Tom\u00e1s Casares\" width=\"500\" height=\"352\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA12.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA12-300x211.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8914\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Tom\u00e1s Casares<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cinzas<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Para Pedro, que das baforadas de seu cachimbo tantas vezes aqueceu minha enregelada exist\u00eancia<\/em><\/h6>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deixei-me deitar na irregular sarjeta dos muitos p\u00e9s. Deleitava-me dissipar vagarosamente no delicado ar citadino. Punha-me a devanear sobre os incont\u00e1veis dedos que me pus a passar. Incont\u00e1veis delgados e cil\u00edndricos enleados pelas m\u00e3os de tantos e tantos formatos. Tessituras, marcas e cicatrizes. Eu que estive em tantos e t\u00e3o diversos lugares, a auscultar o mundo. A provar buqu\u00eas de timbres t\u00e3o variegados na boca impregnados. Caminhei nas m\u00e3os da jovem. Soerguia-me como trof\u00e9u pueril. Empertigava-se toda. Esticava as costas. Balan\u00e7ava os cabelos e punha-se a desenhar arabescos no espa\u00e7o tendo-me por pincel \u2014 N\u00e3o sabia que voc\u00ea fumava, Luciana &#8230; N\u00e3o? Comecei faz pouco tempo, gosto do cheiro desde crian\u00e7a, mas n\u00e3o tinha idade, e tem meus pais tamb\u00e9m, sabe como \u00e9&#8230; Em seus l\u00e1bios punha-me fazendo bico. Tragava-me enojada pelo gosto. Soltava-me pelas narinas maravilhada com as formas que a parte de mim transubstanciada em seus pulm\u00f5es tomava. Olhava ao redor na expectativa de me apresentar para um amigo, ou despertar a curiosidade de um andarilho qualquer. Evolava teto acima em cinzas graduados, densos e assim\u00e9tricos. Ali ficava eu a pairar nas lembran\u00e7as. A preencher os sulcos da face envelhecida. Companheiro inestim\u00e1vel nas noites de solid\u00e3o. Dedos experientes a me afagar em seus secos l\u00e1bios. Era-me tamb\u00e9m parte de si. Um dedo. Dedo de se fumar \u2014 Onde minha velha h\u00e1 de estar? Foi e me deixou aqui. Penso que deveria era ter dado um sopapo naquele padreco: at\u00e9 que a morte os separe o qu\u00ea, deixa disso. N\u00e3o est\u00e1 essa minha velha chata a ralhar em todos os c\u00f4modos mesmo depois de morta? Seu cheiro n\u00e3o est\u00e1 por toda parte? Ora essa, h\u00e1 mais dela aqui estando morta do que eu aqui, vivo estando. Pousado ficava no cinzeiro outrora de ambos. Ali acolhido crispava. Chamuscava no algod\u00e3o. Dava-lhe relevo. Argamassa em tela, levemente ia passando. Marcando. Escurecendo \u2014 N\u00e3o m\u00e3e, por favor, foi sem querer. Para m\u00e3e, para, por favor, para, n\u00e3o faz isso pelo amor de deus, d\u00f3i muito. E l\u00e1 ia eu vincando, marcando, abrindo caminho em bra\u00e7o alheio. Creio que nesses l\u00e1bios n\u00e3o tocarei. N\u00e3o hei de ser tragado, a n\u00e3o ser em seu corpo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Campinas<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Beatriz: viva por uma cidade inteira<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acordou cedo sem nem bem ter dormido. Prolongava a noite no arroxeado de suas p\u00e1lpebras carregadas. Lavou o rosto com a pressa de quem pouco tem a fazer e por isso adianta-se \u00e0 espera do compromisso que n\u00e3o vem. Ouvia ele na escada os passos da novidade. Parecia poder toc\u00e1-la por detr\u00e1s da porta. N\u00e3o era nada. Ele s\u00f3 morava em Campinas. Lugar dif\u00edcil. Metr\u00f3pole que guarda nostalgia do interior solapado sob o acre cheiro de urina da pra\u00e7a da matriz. Ainda pior. Cidade r\u00e1pida quanto mais parada \u00e9. Desprovida de estrelas para se observar. Campina que se suicidou em asfalto escaldante. Escapamento sufocante. \u00cdris lacrimejante da manh\u00e3 ainda a desabrochar. L\u00e9pido, jogou o casaco em seu corpo esguio. Nem bem escovara os dentes. Sabia que tinha todo tempo. Entretanto, o fluxo das ruas atulhadas de gente desprovida de gente falava-lhe o contr\u00e1rio. Seguiu os passos de um rapaz. Entrou inopinadamente no vel\u00f3rio. N\u00e3o conhecia o defunto. Nem aquelas pessoas iguais, todas de preto por respeito. Curioso, olhou de esguelha. Despreocupadamente, observou o produto daquela embalagem de madeira. Um velho. Acho que j\u00e1 passado do prazo de validade. Bigodes curtos. Acinzentados tal qual a rala cabeleira. Fios espalhados na morena cabe\u00e7a. Nariz mal entalhado. Lasca de toco cortado sem cuidado. Grossas m\u00e3os inchadas da enxada soada em grama seca. Queria fugir aquele terno do peito do homem. Creio que se fosse dado como \u00e0 Sans\u00e3o um \u00faltimo f\u00f4lego ao senhor im\u00f3vel, teria ele rasgado aquela pompa ao meio. Colocado para correr aquelas lombrigas que jamais tomaram leite de vaca. S\u00f3 da caixa. Todos esses parentes estranhos. Pr\u00f3ximos distantes. Ecos de seu sangue repisado. Teria ele chamado as galinhas. Porcos. Cavalos. Vacas. Insetos variegados. T\u00e3o mais gente que essa gente. Desinteressados. Tristes por n\u00e3o mais compartilharem o sil\u00eancio desse matuto. Nada de heran\u00e7a. Fazenda. Divis\u00e3o de bens enquanto o presunto ainda nem endureceu. Queimaria as rosas do caix\u00e3o com seu cigarro de palha. Ench\u00ea-lo-ia de capim molhado de sereno. Sem ter o que fazer, seguiu Azazel no t\u00e9dio alarmante da eternidade sem lembran\u00e7a. Pensava ele: \u2014 Mataram a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Caio Russo<\/em><\/strong><em> estuda Hist\u00f3ria na Faculdade de Ci\u00eancias e Letras \u2013 UNESP &#8211; Campus de Assis. Atualmente pesquisa Hist\u00f3ria da Arte e Est\u00e9tica, com enfoque em Nova M\u00fasica do S\u00e9culo XX e o conceito de Feio na Teoria Est\u00e9tica de Theodor W. Adorno. Dedica-se \u00e0 prosa, com predile\u00e7\u00e3o pelo conto. Escafandrista de nascen\u00e7a, p\u00f5e-se a relatar sobre os microsc\u00f3picos animais, objetos e res\u00edduos, que decantam do fundo do lago, a pairar no vidro do capacete um instante antes de nunca mais serem vistos nas turvas \u00e1guas dos dias. Escreve para n\u00e3o afogar-se em si mesmo.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A densidade dos dias na prosa de Caio Russo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8895,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2229,2534],"tags":[2284,2286,2285,419,41,149],"class_list":["post-8840","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-96a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-caio-russo","tag-campinas","tag-cinzas","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8840","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8840"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8840\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8958,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8840\/revisions\/8958"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8895"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8840"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8840"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8840"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}