{"id":8860,"date":"2014-10-31T11:39:43","date_gmt":"2014-10-31T13:39:43","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=8860"},"modified":"2018-12-04T09:21:33","modified_gmt":"2018-12-04T12:21:33","slug":"dedos-de-prosa-ii-28","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-28\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>V\u00e1ssia Silveira<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_8864\" aria-describedby=\"caption-attachment-8864\" style=\"width: 230px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA8.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-8864 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA8.jpg\" alt=\"V\u00e1ssia Silveira\" width=\"230\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA8.jpg 230w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/INTERNA8-138x300.jpg 138w\" sizes=\"auto, (max-width: 230px) 100vw, 230px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-8864\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: V\u00e1ssia Silveira<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Inoc\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tinha vontade de arreganhar a boca e cravar no outro os dentes. Era a chuva. O barulho dela e os rel\u00e2mpagos alimentavam o desejo. Desde pequena os temia. Sentia-se acuada, as pernas tr\u00eamulas na companhia de fantasmas. N\u00e3o gostava da escurid\u00e3o nas noites de tempestade. Perdia o poder de imaginar vaga-lumes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A chuva era a lembran\u00e7a da m\u00e3e, \u2014 \u201cCorra, filha, suba! Esconda-se no arm\u00e1rio\u201d \u2014, dos pingos grossos no teto de zinco, da lou\u00e7a quebrada e da voz dele abafada pelos estampidos do gesto. Era o retrato da menina esqu\u00e1lida, no arm\u00e1rio. A bexiga apertada, a respira\u00e7\u00e3o presa. Era a aus\u00eancia. O p\u00e3o dormido na casa da tia distante, os p\u00e9s descal\u00e7os, o frio sem cobertor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00e3o importava que o telhado agora fosse de barro e que a lou\u00e7a estivesse intacta na cozinha: o barulho da chuva despertava-lhe os dem\u00f4nios. Ouvia os mesmos gritos, sentia o mesmo medo. Queria trancar-se no arm\u00e1rio \u2014 mas lembrava-se que n\u00e3o tinha um em casa. Tapava os ouvidos na esperan\u00e7a de que o sil\u00eancio lhe devolvesse a lucidez. Queria afastar a lembran\u00e7a, a ira guardada nas entranhas e ouvir apenas o ressonar do marido, que dormia inocente, sem suspeitar dos desejos da mulher. Sem saber que um dia, sem explica\u00e7\u00e3o, ela viraria uma cadela enfurecida, rasgaria os len\u00e7\u00f3is, lhe cortaria as carnes e encheria de sangue, a boca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem imaginar que at\u00e9 l\u00e1, em noite de tempestades e na falta do arm\u00e1rio, ela enroscava-se na cama. E esquecendo-se dele, cobria-se com a ponta do len\u00e7ol que restava \u2014 cantando para os fantasmas a can\u00e7\u00e3o de ninar da m\u00e3e: \u201cBoi, boi, boi&#8230; boi da cara preta&#8230; pega essa menina, que tem medo de careta\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O gato<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um gato hist\u00e9rico arranhou o teto. Estava pendurado pelo rabo, o imponente bichano. E sobre ele refletiam-se as \u00faltimas luzes da madrugada \u2013 as estrelas ca\u00eddas de sono, a noite ardendo pela chegada da manh\u00e3: Pobre gato! Pobre mo\u00e7a que ficou a olh\u00e1-lo no teto, enquanto arranhava o ar procurando por sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O colecionador de moscas<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo \u00e9 uma quest\u00e3o de tempo \u2013 ou do que voc\u00ea faz com ele. Aprendi isso na inf\u00e2ncia, enquanto minha m\u00e3e cronometrava os minutos que eu deveria levar para sair da cama, trocar o pijama, escovar os dentes, tomar banho, vestir o uniforme, engolir a comida e entrar no \u00f4nibus que me levava \u00e0 escola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os dias, a mesma rotina. As frases matinais coladas num aviso de recados imagin\u00e1rio e os sorrisos grudados na face gelada da mulher. \u00c9ramos s\u00f3s \u2013 e n\u00e3o me atrevia a perguntar-lhe sobre a aus\u00eancia do pai. N\u00e3o que eu n\u00e3o tivesse curiosidade, mas porque imaginava que a interroga\u00e7\u00e3o lhe custaria um tempo n\u00e3o previsto na mesmice dos dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela trabalhava como secret\u00e1ria num escrit\u00f3rio no centro da cidade e de noite fazia bicos numa lanchonete. Sa\u00eda logo depois do jantar, deixando na geladeira e em cima da mesa, uma variedade razo\u00e1vel de doces. N\u00e3o gostava deles, mas me acostumei a puxar um banco e ficar olhando as moscas que vinham pousar nos glac\u00eas e confetes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que teriam em comum as moscas e essa mulher?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pergunta me veio aos 12 anos, enquanto eu assistia \u00e0 lamban\u00e7a dos insetos no bolo de anivers\u00e1rio que cortamos, comemos e depois ficou no balc\u00e3o da cozinha para me fazer companhia em mais uma noite de trabalho dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram anos de observa\u00e7\u00e3o at\u00e9 conseguir encontrar uma resposta e quando enfim encontrei-a, era suficientemente maduro para intuir que aquele conhecimento me renderia alegrias fortuitas e nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com as mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque ao contr\u00e1rio do que imaginam os galanteadores de plant\u00e3o, o segredo para conquist\u00e1-las n\u00e3o est\u00e1 em conhecer os melhores vinhos, o cinema de vanguarda, ou alguns poetas e artistas pl\u00e1sticos aclamados pela cr\u00edtica.\u00a0 Dinheiro? M\u00fasculos? Isso tamb\u00e9m \u00e9 balela!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As mulheres gostam de abismos e foram treinadas pela gen\u00e9tica para acreditar que possuem o dom da salva\u00e7\u00e3o. A\u00ed entram as moscas. Foram elas que me ensinaram \u2013 em seus sublimes voos para a morte \u2013 que \u00e9 necess\u00e1rio juntar ao doce, um pouco de tristeza, esp\u00e9cie de amargura disfar\u00e7ada: podem ser lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia ou mesmo uma fraqueza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O importante \u00e9 que elas, as mulheres, sintam-se n\u00e3o s\u00f3 atra\u00eddas pela confessa (ainda que mentirosa) ang\u00fastia, como irremediavelmente presas a ela. Feito isso, voam como as moscas em dire\u00e7\u00e3o ao abismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E por falar em abismo, ia esquecendo o principal: aprendi que as moscas t\u00eam vida curta. \u00c9 uma pena que as mulheres n\u00e3o saibam disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Descoberta<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela acordou e descobriu que estava sem rosto. A cabe\u00e7a estava no lugar. Mas havia algo de morto na face, nos olhos e mesmo no nariz, que antes achava arrebitado. Olhava-se no espelho e n\u00e3o encontrava as rugas nem as mancha escuras que trazia desde a inf\u00e2ncia. A imagem provocou uma sensa\u00e7\u00e3o nova, um desespero sem dor. E quanto mais a olhava, mais sentia a inutilidade das coisas. Por que, afinal, os seus choros? E onde estavam agora, se n\u00e3o os via marcados na pele fina e alva? Lembrou-se da cicatriz do \u00faltimo acidente e levou a m\u00e3o na altura dos c\u00edlios. Estavam inteiros, negros e sem nenhum sinal que denotasse o ocorrido: o natural seria que a express\u00e3o da face se contra\u00edsse e que a boca, por instinto, se mantivesse aberta por alguns segundos. Mas nenhum m\u00fasculo mexeu-se. E como tamb\u00e9m n\u00e3o era mais poss\u00edvel denotar naquele rosto o espanto, deixou-se ficar olhando o espelho como quem assiste \u2013 sem crer \u2013 a um milagre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/todaquinta.blogspot.com.br%20\"><strong><em>V\u00e1ssia Silveira <\/em><\/strong><\/a><em>\u00e9 inquieta, mas por h\u00e1bito diz que \u00e9 jornalista e escritora. J\u00e1 plantou \u00e1rvores e fez filhas. \u00c9 autora de Febre Ter\u00e7\u00e3 (poesias; Selo Off Flip,2013), Indaga\u00e7\u00f5es de Ameixas (cr\u00f4nicas; Multifoco,2011); e dos infantis Quem tem medo do Mapinguari? (Letras Brasileiras, 2008) e Braboletas e Ciuminsetos (Letras Brasileiras, 2007). <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhecidas sensa\u00e7\u00f5es nos contos de V\u00e1ssia Silveira <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15704,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2229,2534],"tags":[419,41,2265,2262,2264,2263,2266,2261],"class_list":["post-8860","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-96a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-descoberta","tag-inocencia","tag-o-colecionador-de-moscas","tag-o-gato","tag-toda-quinta","tag-vassia-silveira"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8860","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8860"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8860\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15705,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8860\/revisions\/15705"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15704"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}