{"id":8997,"date":"2014-12-03T12:06:58","date_gmt":"2014-12-03T14:06:58","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=8997"},"modified":"2018-12-05T11:45:31","modified_gmt":"2018-12-05T14:45:31","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-31","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-31\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Claudio Parreira<\/strong> \u00e9 um destemido. Ele acaba de lan\u00e7ar um livro influenciado pelo realismo fant\u00e1stico num pa\u00eds que subestima a literatura de Murilo Rubi\u00e3o e de J. J. Veiga. Um livro de contos, g\u00eanero que causa arrepios nas grandes editoras, pois n\u00e3o vende, \u201csalvo se voc\u00ea for um Rubem Fonseca ou um Dalton Trevisan\u201d, como, certa vez, desastrosamente declarou a representante de um selo. Contos estes, em grande maioria, brev\u00edssimos, quando acaba de ser laureado com o Pullitzer um calhama\u00e7o de 800 p\u00e1ginas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claudio Parreira \u00e9, de fato, um artes\u00e3o. Percorridas as primeiras p\u00e1ginas de \u201cDelirium\u201d (Editora Penalux\/2014), \u00e9 poss\u00edvel reconhecer o lapidar das frases, o tempo gasto para o encontro da conson\u00e2ncia entre as palavras, a cultura paciente de um bonsai. Tal processo acaba por cobrir seus contos com um verniz po\u00e9tico que suaviza o estranhamento inerente ao terreno do ins\u00f3lito, por\u00e9m n\u00e3o o destitui da capacidade de impacto. H\u00e1 uma fronteira muito estreita entre sonho e pesadelo, entre o cotidiano que nos acomoda e a realidade que dele se mimetiza, na qual prevalece a absurdeza. Parreira a conhece bem e prepara a armadilha para o leitor. A linguagem \u00e9 a isca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa entrevista, o escritor e jornalista experiente, com colabora\u00e7\u00f5es na Revista Bundas, Caros Amigos Online e O Pasquim 21, aceita o convite de transitar por caminhos dentro e fora do universo liter\u00e1rio, mas que se relacionam diretamente \u00e0 sua fic\u00e7\u00e3o. Rotina criativa, formato digital, autores contempor\u00e2neos, mercado editorial, o papel do leitor; uma estamparia de temas analisados com destreza e seguran\u00e7a, que ratificam o poder de encarar a vida e a arte, mesmo que de vi\u00e9s. \u201cN\u00e3o consigo imaginar literatura a favor do vento. Sempre escrevi na contram\u00e3o. Se os meus temores se concretizarem, estou em plena rota de colis\u00e3o. Sei disso, e sigo. N\u00e3o aprendi a voltar\u201d. Venham, caminhem junto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15738\" aria-describedby=\"caption-attachment-15738\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/INTERNA-4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15738 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/INTERNA-4.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/INTERNA-4.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/INTERNA-4-300x240.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15738\" class=\"wp-caption-text\">Claudio Parreira \/ Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 \u201cDelirium\u201d, seu rec\u00e9m-lan\u00e7ado volume de contos, tem influ\u00eancia direta do realismo fant\u00e1stico, cujos expoentes na literatura brasileira s\u00e3o o mineiro Murilo Rubi\u00e3o e o goiano J. J. Veiga. Na condi\u00e7\u00e3o de leitor, qual a sua rela\u00e7\u00e3o com esses autores e por que decidiu transitar por esse g\u00eanero ao tecer sua fic\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLAUDIO PARREIRA &#8211;<\/strong> S\u00f3 fui conhecer Murilo Rubi\u00e3o e J. J. Veiga l\u00e1 pela metade dos anos 80, depois de ter lido muito Cort\u00e1zar, Borges e Gabriel Garcia M\u00e1rquez. Eu simplesmente n\u00e3o sabia que se produzia realismo fant\u00e1stico no Brasil. Li pouco de Rubi\u00e3o, apenas \u201cO Pirot\u00e9cnico Zacarias\u201d, mas esse pequeno livro, por uma raz\u00e3o misteriosa &#8211; ou seria fant\u00e1stica? &#8211; ainda se faz presente na minha experi\u00eancia como leitor. J\u00e1 o Veiga, esse eu li mais. \u201cOs Cavalinhos de Platiplanto\u201d e \u201cA Estranha M\u00e1quina Extraviada\u201d, mas pouco perdura na minha mem\u00f3ria afetiva. Quanto ao g\u00eanero que pratico na minha fic\u00e7\u00e3o, creio que, depois de ler tantos autores nacionais e hispano-americanos de literatura fant\u00e1stica &#8211; ou realismo fant\u00e1stico, que seja -, sem contar um punhado de europeus e norte-americanos, esse acabaria sendo mesmo o caminho natural. \u201cDelirium\u201d nada mais \u00e9 que o resultado dessa mistura louca e prazerosa, uma maneira de devolver ao mundo dos livros aquilo que os livros trouxeram pra mim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Curioso mencionar Cort\u00e1zar e Borges antecedendo Rubi\u00e3o e Veiga na sua escala de leitura, pois essa parece ser uma via de m\u00e3o \u00fanica. Ali\u00e1s, h\u00e1 muitos leitores e autores que ainda desconhecem o quilate liter\u00e1rio desse g\u00eanero no Brasil, dando conta de que o realismo fant\u00e1stico cabe unicamente aos hispo-americanos. Por que acha que o g\u00eanero \u00e9 t\u00e3o subestimado no Brasil? Por que Rubi\u00e3o e Veiga n\u00e3o det\u00eam a mesma exalta\u00e7\u00e3o cultivada por autores cujo extrato, por exemplo, prov\u00e9m do regionalismo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLAUDIO PARREIRA &#8211;<\/strong> Acho que o g\u00eanero ainda n\u00e3o atingiu a popularidade que merecia no Brasil, mas creio que isso est\u00e1 mudando; basta ver a quantidade de autores contempor\u00e2neos que de certa forma est\u00e3o resgatando o realismo fant\u00e1stico e acrescentando ao g\u00eanero curiosas misturas e experi\u00eancias que v\u00eam sendo muito bem recebidas pelo leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Murilo Rubi\u00e3o e J.J. Veiga deixaram uma literatura que causava \u2014 e ainda causa, de certa forma \u2014 estranhamento. O leitor brasileiro n\u00e3o conseguia se ver refletido nela. Isso, com certeza, impediu que suas obras fossem apreendidas na devida profundidade e inten\u00e7\u00e3o. Mas elas ainda est\u00e3o a\u00ed, cada vez mais, no meio do caminho, do nosso caminho. Acredito que o devido reconhecimento \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Diante das narrativas de \u201cDelirium\u201d, podemos dizer que &#8220;seu caminho&#8221; \u00e9 uma vertente que Italo Calvino, organizador da colet\u00e2nea &#8220;Contos fant\u00e1sticos do s\u00e9culo XIX&#8221;, classificou de \u201cfant\u00e1stico cotidiano\u201d. Perceber por tr\u00e1s da apar\u00eancia corriqueira um outro mundo, colher do processo criativo o poder de conformar figuras. Empenho semelhante \u00e9 atribu\u00eddo \u00e0 busca por reificar sentimentos, materializar sentidos que deveriam povoar unicamente o plano das abstra\u00e7\u00f5es. E isso, penso, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel mediante uma forma muito sens\u00edvel e diferente de observar o que est\u00e1 a nossa volta. Essa percep\u00e7\u00e3o, no seu caso, \u00e9 o mais pr\u00f3ximo que se pode chamar de inspira\u00e7\u00e3o? Como um jornalista, que trabalha com fatos, quebra essa fronteira e transita por esse universo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLAUDIO PARREIRA &#8211;<\/strong> N\u00e3o gosto muito da palavra inspira\u00e7\u00e3o. Isso me parece algo bem pr\u00f3ximo do clich\u00ea do escritor que sofre, sofre e finalmente se redime com um presente da Musa. Eu trabalho com ideias e as transformo em texto, fic\u00e7\u00e3o. \u00c9 um processo bem objetivo. Acredito no fazer liter\u00e1rio, na disciplina. Talvez a\u00ed esteja a experi\u00eancia do jornalismo: objetividade, prazos, metas a cumprir. Sou bem isso. A grande diferen\u00e7a \u00e9 que os fatos com os quais trabalho s\u00e3o de natureza po\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Por falar em poesia, um dos contos mais singelos e com um verniz retinto de lirismo \u00e9 o brev\u00edssimo &#8216;A Flor&#8217;. Perceber todas as nuances que o comp\u00f5em \u00e9 justamente trazer \u00e0 tona essa per\u00edcia, essa habilidade incans\u00e1vel e quase cir\u00fargica que significa o exerc\u00edcio da escrita. Como isso funciona para voc\u00ea? Nem sempre o texto mais curto \u00e9 o mais f\u00e1cil de se escrever?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLAUDIO PARREIRA &#8211;<\/strong> Como muitos outros autores, comecei escrevendo poemas. Ou algo que eu achava ser isso. Tive a sorte de conhecer Leminski e, por interm\u00e9dio dele, os haicais de Matsu\u00f3 Bash\u00f4. Achei que aquela forma po\u00e9tica era tudo o que eu queria: dar o meu recado da maneira mais breve poss\u00edvel. E tentei, mas logo percebi que o g\u00eanero poesia n\u00e3o era bem a minha praia. J\u00e1 a forma do poema japon\u00eas, a sua concis\u00e3o, isso ficou presente em mim, tanto que passei a aplicar o que aprendi no microconto \u2014 numa \u00e9poca anterior \u00e0 internet, que acabou por popularizar o g\u00eanero no Brasil. Praticando esse formato, foi que aprendi a for\u00e7a de cada palavra, o seu peso, o arranjo harm\u00f4nico do qual surgem pequenos contos como \u201cA Flor\u201d. E sim, concordo: o texto curto n\u00e3o \u00e9 o mais f\u00e1cil de se escrever. Requer, no m\u00ednimo, paci\u00eancia. E um bom conhecimento dos elementos que o comp\u00f5em.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Esse olhar, que \u00e9 \u00edntimo e mundano ao mesmo tempo, de certa forma evoca o embate entre a cr\u00f4nica e o conto. Alguns textos de \u201cDelirium\u201d parecem se localizar exatamente nessa fronteira, revelando-se para o leitor uma sala de multiformes espelhos, algo pass\u00edvel de ser concreto e de ser subjetivo. Essa possibilidade de abalar o leitor \u00e9 uma busca na sua literatura? O quanto a preocupa\u00e7\u00e3o com aqueles que ler\u00e3o o seu livro influencia seu processo criativo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLAUDIO PARREIRA &#8211;<\/strong> Sim, sempre. \u00c9 \u00f3timo quando um texto causa impacto em quem l\u00ea. Significa que a inten\u00e7\u00e3o dele alcan\u00e7ou o seu objetivo, que \u00e9 encantar, ou at\u00e9 mesmo indignar o leitor. Mas a preocupa\u00e7\u00e3o com quem l\u00ea, quando escrevo, s\u00f3 vem depois. No princ\u00edpio do conto \u00e9 tudo nublado, uma estrada escorregadia, bifurcada. Esse per\u00edodo de n\u00e9voa dura horas, dias at\u00e9. Quando finalmente assumo o controle do conto, a\u00ed sim entra a figura do leitor: tudo \u00e9 feito para ele e por ele. Mesmo que seja uma elaborada armadilha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O leitor brasileiro \u00e9 mal formado, mal informado ou mal influenciado?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLAUDIO PARREIRA &#8211;<\/strong> Pergunta complicada essa. E sou levado a crer que \u00e9 um pouco de tudo isso. O bom \u00e9 que estat\u00edsticas provam que o n\u00famero de leitores est\u00e1 crescendo. Mas qual tipo de leitores? Creio que o mal influenciado \u00e9 o que mais se destaca nessa hist\u00f3ria: simplesmente consome aquilo que a m\u00eddia e o mercado lhes enfia goela abaixo. E a\u00ed voltamos aos dois primeiros, que s\u00e3o mal informados porque foram mal formados. Mas isso \u00e9 uma generaliza\u00e7\u00e3o, e toda generaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 perigosa. De qualquer maneira, j\u00e1 podemos falar de leitor brasileiro com mais certezas do que h\u00e1 dez, vinte anos. J\u00e1 \u00e9 um progresso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Digo isso por conta da percep\u00e7\u00e3o de que, apesar de termos hoje um n\u00famero maior de novos autores, n\u00e3o contamos com leitores suficientes para absorver toda essa produ\u00e7\u00e3o. O que me parece \u00e9 que s\u00e3o os autores que acabam lendo os autores, e esse rejuvenescimento da literatura contempor\u00e2nea brasileira passa a ser confinado a um grupo m\u00ednimo, algo com uma enxurrada que desemboca num funil. Qual a an\u00e1lise que faz dessa observa\u00e7\u00e3o? H\u00e1 livros sendo escritos para nenhum leitor?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLAUDIO PARREIRA &#8211;<\/strong> Eu acredito que temos leitores suficientes, sim, para absorver essa nova produ\u00e7\u00e3o. Mas tudo isso \u00e9 um processo, um trabalho que ainda n\u00e3o alcan\u00e7ou o leitor. Como dito na pergunta anterior, diversos s\u00e3o os tipos de leitores. O quanto essa nova produ\u00e7\u00e3o chega at\u00e9 eles, de qual maneira chega? Esse fen\u00f4meno, se \u00e9 que pode ser chamado assim, de autores lendo autores, j\u00e1 \u00e9 um fato um tanto antigo que continua a\u00ed. Errado? Acho que n\u00e3o, uma vez que se pretende que todo autor seja tamb\u00e9m ele um leitor. Mas \u00e9 insuficiente. O que falta mesmo, e acho que esse \u00e9 o grande n\u00f3 que deve ser desfeito, \u00e9 a distribui\u00e7\u00e3o dessa nova produ\u00e7\u00e3o. Como ela tem sido feita, por quem, quais s\u00e3o as estrat\u00e9gias? As redes sociais t\u00eam facilitado muito esse trabalho, eu mesmo coloco meus livros nas m\u00e3os dos leitores atrav\u00e9s delas \u2013 mas isso, s\u00f3 isso, n\u00e3o \u00e9 o suficiente. N\u00e3o basta publicar o livro, \u00e9 preciso faz\u00ea-lo circular, chegar \u00e0s m\u00e3os dos verdadeiros leitores e n\u00e3o apenas dos nossos pares. Com rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, somos autores pregando no deserto \u2013 escrevendo para ningu\u00e9m, como voc\u00ea diz. \u00c9 muito mais f\u00e1cil publicar hoje do que tempos atr\u00e1s, mas e da\u00ed? Via de regra, as editoras colocam o material no mercado e deixam os autores entregues \u00e0 pr\u00f3pria sorte. Acho que tamb\u00e9m \u00e9 papel das editoras divulgar e investir nos seus autores, torn\u00e1-los vis\u00edveis nesse mercado cada vez mais competitivo. Uma parceria mais abrangente. Caso contr\u00e1rio, os livros continuar\u00e3o sendo escritos para nenhum leitor \u2013 e assim perdemos todos n\u00f3s, hoje e no futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9000\" aria-describedby=\"caption-attachment-9000\" style=\"width: 375px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/INTERNA-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9000 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/INTERNA-II.jpg\" alt=\"Claudio Parreira\" width=\"375\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/INTERNA-II.jpg 375w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/INTERNA-II-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9000\" class=\"wp-caption-text\">Claudio Parreira \/ Foto: Mariana Parreira<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Esse \u00e9 um ponto interessante, pois hoje temos uma gera\u00e7\u00e3o perfeitamente adaptada ao formato digital. Leitores de blogs, e-books, cuja extens\u00e3o da biblioteca \u00e9 medida pela capacidade da mem\u00f3ria interna do dispositivo eletr\u00f4nico. Voc\u00ea, embora da gera\u00e7\u00e3o dos livros f\u00edsicos, relaciona-se bem com esse universo, disponibilizando seus livros em arquivos digitais e divulgando-os nas redes sociais. De que forma essas m\u00eddias t\u00eam sido producentes para sua literatura? Lan\u00e7ar livros em formato digital, no Brasil, \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o ou a falta dela?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLAUDIO PARREIRA &#8211;<\/strong> Sempre me relacionei bem com os meios de divulga\u00e7\u00e3o digital. Uma parte significativa do que escrevo e j\u00e1 escrevi passou por blogs, sites, redes sociais e afins. As redes sociais, por exemplo, s\u00e3o ferramentas que considero fundamentais para a divulga\u00e7\u00e3o do que produzo \u2014 sejam e-books ou livros f\u00edsicos. N\u00e3o tenho nenhum tipo de problema com essas plataformas. Lan\u00e7ar livros digitais \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o, sim, no meu entender. Gosto do formato, porque ampliam a visibilidade e n\u00e3o me obrigam a fechar necessariamente um volume de contos ou um romance: costumo lan\u00e7ar contos avulsos, volumes com dois ou mais contos, trechos de romances inacabados. E livros digitais trazem vantagens que eu considero muito importantes: relat\u00f3rios detalhados nos quais voc\u00ea sabe quanto vendeu, o destino das vendas e o melhor: a remunera\u00e7\u00e3o \u00e9 clara e certa!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Falando em remunera\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 mais dif\u00edcil ser no Brasil: jornalista ou escritor?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLAUDIO PARREIRA &#8211;<\/strong> Os dois. Mas os jornalistas, pelo menos, conseguem encontrar trabalho fixo e, na falta disso, os frilas livram um pouco a cara. Conhe\u00e7o muitos que vivem exclusivamente do seu trabalho. J\u00e1 escritores, eu n\u00e3o conhe\u00e7o nenhum.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que acaba por nos levar a uma quest\u00e3o que, a um s\u00f3 tempo, tem in\u00fameras respostas e nenhuma: por que seguir escrevendo? Cort\u00e1zar afirmou que escrevia para suprimir seus medos. E voc\u00ea, o que ainda lhe motiva?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLAUDIO PARREIRA &#8211;<\/strong> Costumo dizer que escrever \u00e9 um of\u00edcio de trevas. Sou um cego em busca de luz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Essa busca, inclusive, \u00e9 reprisada pelas vozes que comandam alguns dos contos de \u201cDelirium\u201d; personagens que tentam lan\u00e7ar luz sobre um dilema circundado por uma desclaridade multif\u00e1ria. Em &#8216;A Terceira&#8217;, em que um homem inventa mulheres, essa escurid\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio processo de cria\u00e7\u00e3o, uma met\u00e1fora para a incapacidade de transferir integralmente a ideia para o papel. Fale um pouco da tarefa de composi\u00e7\u00e3o da antologia, da escolha dos contos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLAUDIO PARREIRA \u2013<\/strong> \u201cDelirium\u201d \u00e9 mesmo o que se pode chamar de colet\u00e2nea de contos, pin\u00e7ados aqui e ali, cobrindo diversas \u00e9pocas e formas de escrever. Um invent\u00e1rio, digamos assim, da minha produ\u00e7\u00e3o recente e mais antiga. \u201cZ\u201d, o conto que abre o livro, por exemplo, \u00e9 o mais antigo de todos eles: foi escrito em 1989, durante uma dolorosa oficina de texto que fiz com Jo\u00e3o Silv\u00e9rio Trevisan. Quanto \u00e0 composi\u00e7\u00e3o da colet\u00e2nea, quis que ela contivesse contos escritos num registro diferente dos quais estamos acostumados a ver e ler por a\u00ed. Fiz quest\u00e3o mesmo do estranhamento \u2014 mas s\u00f3 como superf\u00edcie. O que me interessava na composi\u00e7\u00e3o de \u201cDelirium\u201d era a linguagem, a forma de fazer, a maneira como a maioria dos textos foi escrita. N\u00e3o era a minha inten\u00e7\u00e3o juntar apenas continhos bem escritos. Longe disso. Reuni, portanto, uns 40 contos tortos, dos quais escolhi os 29 que integram o volume. Essa tem sido a minha pegada desde sempre. Deixo a literatura bonitinha e bem comportada para os outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O estranhamento, que voc\u00ea cita, \u00e9 uma das nuances mais retintas do g\u00eanero fant\u00e1stico, cujo poder de criar uma nova realidade, a partir da realidade que povoamos, foi a sa\u00edda encontrada por muitos escritores para canalizar suas cr\u00edticas. No \u00e1pice do movimento, nas d\u00e9cadas de 60 e 70, este tipo de literatura bateu duramente em governos ditatoriais, valendo-se de seus aspectos metaf\u00f3ricos. Hoje a que prop\u00f3sito serve a literatura fant\u00e1stica? Contra quem ou o que novos escritores podem utiliz\u00e1-la?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLAUDIO PARREIRA &#8211;<\/strong> Eis aqui uma pergunta curiosa: pra que serve a literatura fant\u00e1stica, hoje, j\u00e1 que o cotidiano social e pol\u00edtico nos surpreende cada vez mais com fatos e comportamentos gritantemente absurdos? Digo que ela serve para gritar e abrir os nossos olhos e sentidos para outra realidade que n\u00e3o esta, insuport\u00e1vel, \u00e0 qual estamos submetidos. A literatura fant\u00e1stica continua servindo para dizer N\u00e3o! E os novos escritores devem utilizar o g\u00eanero contra tudo o que amea\u00e7ar esse direito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Diante dessa observa\u00e7\u00e3o, o que amea\u00e7a sua literatura?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLAUDIO PARREIRA &#8211;<\/strong> N\u00e3o gosto desses tempos que estamos vivendo, e sinto que paira no ar uma amea\u00e7a muito perigosa, uma amea\u00e7a de sil\u00eancio, de pensamento \u00fanico, um retrocesso em todos os sentidos, diante dos quais os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos nada significam. N\u00e3o consigo imaginar literatura a favor do vento. Sempre escrevi na contram\u00e3o. Se os meus temores se concretizarem, estou em plena rota de colis\u00e3o. Sei disso, e sigo. N\u00e3o aprendi a voltar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; E para onde seguir\u00e1 sua literatura depois de \u201cDelirium\u201d? H\u00e1 caminhos que apontam para narrativas de longo f\u00f4lego?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLAUDIO PARREIRA &#8211;<\/strong> Sim, venho desenvolvendo um romance j\u00e1 h\u00e1 algum tempo. Mais uma vez, n\u00e3o \u00e9 apenas literatura fant\u00e1stica: \u00e9 um grande exerc\u00edcio com diversas vozes, v\u00e1rios focos narrativos, camadas sobre camadas que buscam um resultado surpreendente. Isso, pelo menos, \u00e9 o que espero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Na literatura de hoje, ainda existe a possibilidade de resultados surpreendentes?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLAUDIO PARREIRA &#8211;<\/strong> Sim. Acho que \u00e9 por isso, em busca disso, que escrevemos todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> \u00e9 jornalista e escritor, autor de \u201cCavala\u201d (Record, 2010), vencedor do Pr\u00eamio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites liter\u00e1rios nacionais e internacionais. \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Percorrendo cruciais vias liter\u00e1rias, S\u00e9rgio Tavares entrevista o escritor e jornalista Claudio Parreira<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15740,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2298,16,2539],"tags":[2087,419,2299,63,278,8,149,1023],"class_list":["post-8997","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-97a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-claudio-parreira","tag-contos","tag-delirium","tag-entrevista","tag-literatura-fantastica","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-prosa","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8997","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8997"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8997\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15741,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8997\/revisions\/15741"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15740"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8997"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8997"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8997"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}