{"id":9008,"date":"2014-12-03T12:28:01","date_gmt":"2014-12-03T14:28:01","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9008"},"modified":"2015-02-01T14:19:39","modified_gmt":"2015-02-01T16:19:39","slug":"dedos-de-prosa-i-32","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-32\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Lucia Fonseca<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_9011\" aria-describedby=\"caption-attachment-9011\" style=\"width: 364px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/INTERNA2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9011 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/INTERNA2.jpg\" alt=\"Cristina Arruda\" width=\"364\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/INTERNA2.jpg 364w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/INTERNA2-218x300.jpg 218w\" sizes=\"auto, (max-width: 364px) 100vw, 364px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9011\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Cristina Arruda<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Manh\u00e3<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela madrugada de encantamento e lenda, naquela madrugada atravessada de sombras e press\u00e1gios, Rosa acordou antes de todos. Abriu os olhos ainda nas trevas absolutas do primeiro galo e, s\u00f3 depois de escancar\u00e1-los no escuro e permanecer um instante com o cora\u00e7\u00e3o aterrado e os ouvidos \u00e0 espreita, \u00e9 que escutou, muito longe, o lamento da primeira sereia. Talvez porque, ao longo dos meses que antecederam o prod\u00edgio, ela tivesse se habituado a agu\u00e7ar os olhos e ouvidos e perscrutar o cora\u00e7\u00e3o em busca de vozes e sinais. Porque, desde os primeiros tremores da natureza, foi sempre ela a \u00fanica a perceber que eram avisos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCome\u00e7ou aqui em casa. Pus o leite para ferver, lembro muito bem, n\u00e3o tinha dormido quase aquela noite, as janelas estremecendo, sacudidas por um vento ruim, e me distra\u00ed varrendo o quarto. Quando voltei para a cozinha, corri direto ao fog\u00e3o, vi da porta que o leite j\u00e1 ia derramando, o bal\u00e3o estufado e branco transbordando da panela. Mas logo percebi que n\u00e3o derramava, alvo que nem cam\u00e9lia, a pele cada vez mais fina e esticada, em vez de branco era assim quase transparente, por pouco n\u00e3o se desprendia em dire\u00e7\u00e3o ao forro. E quando, num susto, arredei a leiteira da chapa, ele afundou t\u00e3o depressa, as p\u00e9talas de magn\u00f3lia murcha mergulharam, macias, e uma gota grande respingou no seio esquerdo, \u00e9 essa marca de queimadura e aviso que tenho at\u00e9 hoje. Em cima do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa mesma semana, come\u00e7aram a aparecer as formigas. Nas primeiras horas eram poucas, achei uma na minha cama, outras em cima da mesa, rondando o a\u00e7ucareiro. Logo eram fileiras engrossando, jorravam de todas as frestas da casa, centenas de milhares de formigas mansas. Tamb\u00e9m come\u00e7ou aqui, mas em seguida espalharam-se pelo povoado. Apareciam nos jardins e quintais, n\u00e3o tocavam em nada, em planta nem bicho, algumas subiam num voo cego e tonto, voo pesado de bicho da terra, sem voca\u00e7\u00e3o de asa, j\u00e1 reparou que formiga voa diferente de p\u00e1ssaro e borboleta? Morcego tamb\u00e9m, parece que ele guarda no ouvido o guincho do tempo em que foi rato. Por isso voa espantado. No terceiro dia, a doen\u00e7a da terra se alastrou ainda mais. E cada fresta, cada fenda, cada buraco, por toda a vila, regurgitava golfadas negras de formigas. At\u00e9 que n\u00e3o houve peda\u00e7o de ch\u00e3o ou parede que n\u00e3o estivesse coberto delas. Tentaram veneno, tentaram querosene e fogo, s\u00f3 serviu para matar os ratos e cachorros da vizinhan\u00e7a, as formigas aumentando sempre. E ent\u00e3o resolvemos esperar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A terra passou sete dias vomitando insetos e, ent\u00e3o, na tardinha do \u00faltimo dia, fui ao quintal procurar uma ab\u00f3bora e elas tinham desaparecido. E pelas mesmas fendas e frestas come\u00e7ou a soprar o Terral insistente que crestou o capim, levantou rodamoinhos de p\u00f3 na estrada, chamuscou as \u00e1rvores e deixou o mar transformado numa chapa de a\u00e7o polido onde se refletia, duro, o branco das nuvens mormacentas. A lagoa, ao contr\u00e1rio, encrespou-se toda verde, e subia dela o bafio de enxofre do lodo revolvido.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando come\u00e7ou a rondar o sudoeste, cheirando a tempestade salobra, Rosa correu ao quintal. E enquanto recolhia a roupa, olhou para os lados do mar. O vento soprava agora do fundo dos seus abismos gelados, levantava as ondas em verde e branco, espumando. S\u00f3 no horizonte, uma faixa clara ainda iluminava uns restos de dia. Para cima, os rolos de nuvens que vinham empurrando o vento e rebocando a noite j\u00e1 se espalhavam numa frente que escurecia o c\u00e9u. Nesse momento estalou o raio, Rosa persignou-se, chamou Santa B\u00e1rbara e sentiu no ombro direito a primeira gota de chuva. Soprou outra rajada de vento e ela ouviu ao longe a algazarra dos homens recolhendo as redes e fugindo para casa. E o \u00faltimo grito de p\u00e1ssaro rasgou os ares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Choveu seis meses. E o mar fervilhou de peixes. Os homens n\u00e3o se aventuravam a sair de barco com medo de perder o rumo no meio dos aguaceiros e cortinas de n\u00e9voa, ou estilha\u00e7ar os cascos de encontro \u00e0s ondas de vidro. Mas iam todos os dias \u00e0 beira da praia buscar as corvinas e tainhas que a mar\u00e9 deixava pulando na areia. Quando a coleta era pequena, andavam at\u00e9 a restinga e, debaixo da chuva, jogavam as redes e recolhiam \u00e0 flor das \u00e1guas os cardumes que entravam barra adentro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante cento e oitenta dias os peixes desfilaram numa prociss\u00e3o serena. A lagoa chegou a ficar t\u00e3o cheia que cheirava a peixe, e os meninos esbarravam nos lombos frios quando iam se banhar debaixo do temporal. Do canal, transbordavam vez por outra para as ruas e, num dia de enchente, desfilaram como num aqu\u00e1rio em frente \u00e0s vidra\u00e7as das casas mais baixas. Nos meses seguintes era comum acharem-se conchas, estrelas do mar, restos de sarga\u00e7os e medusas nos canteiros da pra\u00e7a. E um polvo foi encontrado nadando dentro da cisterna do armaz\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Choveu seis meses e todas as casas mofaram. N\u00e3o houve teto, parede ou ch\u00e3o que n\u00e3o amanhecesse com desenhos de borboletas e p\u00e1ssaros infiltrados, castelos de bolores esverdeados, teias de filamentos l\u00edvidos, serpentes e drag\u00f5es de \u00f3xidos alaranjados que avan\u00e7avam mordendo os canos. Nas primeiras semanas, as mulheres se esfor\u00e7aram numa guerra sem quartel, varrendo, esfregando, polindo. Mas no fim do segundo ou terceiro m\u00eas, perceberam que n\u00e3o adiantava lutar contra aquela flora que amea\u00e7ava invadir-lhes tamb\u00e9m os ossos e convenceram-se de que j\u00e1 era uma boa fortuna manterem os cabelos livres de algas, a pele lisa e os dedos enxutos. E em cada cozinha ardia um candeeiro durante todo o dia, \u00e0 volta do qual costuravam e preparavam o alimento, e cuja luz orientava a volta de seus homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00faltima noite do sexto m\u00eas de trevas, Rosa acordou com um sil\u00eancio pavoroso alastrado nos ouvidos. Acostumada ao ru\u00eddo constante das \u00e1guas caindo, fossem os tamborins da chuva mi\u00fada, ou os surdos tambores da chuva grossa, fosse a peneira do chuvisco ou o rolar do temporal, aquele sil\u00eancio de faca penetrava-lhe os ouvidos, abria um clar\u00e3o assombrado, ofuscava como luz cegando um olho habituado \u00e0 penumbra. Em seguida ouviu longe, como um navio distante, o lamento da primeira sereia. Pedro dormia ao lado, e ela empurrou as cobertas com cuidado e cal\u00e7ou os chinelos. Fora, o ar estava fresco e leve, levantou os olhos devagar, e devagar girou a cabe\u00e7a e olhou para cima. E nunca vira tantas estrelas juntas, tantas, tantas, a Via L\u00e1ctea inteira, caminho de leite no c\u00e9u. Estrelas riscavam o horizonte e ca\u00edam no mar, acendendo espumas frias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Acorda, Pedro, olha, vem ver o c\u00e9u, vem, escuta o chamado das buzinas, pode ser um navio perdido, vamos \u00e0 praia, anda, as outras casas est\u00e3o se acendendo, olha, todo mundo nas ruas&#8230; \u2013 Rosa, parou de chover?\u00a0 O que foi? \u2013 Tanta estrela, o ch\u00e3o est\u00e1 fresco e cheio de frutas, d\u00e1 a m\u00e3o, vamos, n\u00e3o precisa se vestir, olha a Deolinda de camisola, p\u00f5e uma toalha nos ombros, vem Pedro, vamos pra ponta do farol olhar o mar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E quando chegaram, j\u00e1 os botos vinham em bandos, gritando e pulando, e atirando-se, cegos, na praia, em busca dos homens. N\u00e3o havia naufr\u00e1gio no horizonte, mas as sirenes chamavam, e todo o povoado se reuniu no promont\u00f3rio. E Padre Salustiano benzia as \u00e1guas agradecendo a prova\u00e7\u00e3o passada, \u201c&#8230;e n\u00e3o faltou peixe para estes homens, e a chuva passou e agora Deus nos mandou de novo um c\u00e9u cheio de estrelas&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o se ouvia a voz do Padre, as sereias cantavam mais alto, os botos espadanavam \u00e1gua e espuma e as estrelas ca\u00edam em chuveiro. E quando um menino com olhos de son\u00e2mbulo quis se atirar no mar, foi Rosa quem segurou. Logo fez-se um cord\u00e3o dos homens mais fortes. E, sem que o Padre mandasse, ela se benzeu e caiu de joelhos, depois o menino, e uma a uma as mulheres e crian\u00e7as, e depois os homens, todos se benzeram e ajoelharam-se rezando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se sabe quantas horas ficaram assim imantados, entre o sortil\u00e9gio dos ouvidos e o murm\u00fario das rezas, o fasc\u00ednio dos botos e o cuidado de conter os encantados. Mas a for\u00e7a de todos segurou cada um. E os que olharam para o alto viram: um Anjo se despenhou do c\u00e9u, muito branco e leve, cisne e homem de alvas asas, todo plumas. O Padre falou que foi inven\u00e7\u00e3o, cuidado com o sacril\u00e9gio, mas n\u00f3s vimos, os botos j\u00e1 se aquietavam e regressavam em fila para o fundo; e as estrelas se apagavam num c\u00e9u l\u00edvido de espanto. O Anjo se despenhou do alto e as \u00e1guas se tingiram de vermelho. E as sirenes se calaram todas de uma vez.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E ent\u00e3o era o Sol no horizonte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Lucia Fonseca<\/em><\/strong><em> nasceu no Rio de Janeiro, em 1940. Come\u00e7ou a escrever regularmente no in\u00edcio da d\u00e9cada de 70, publicando poemas em suplementos liter\u00e1rios de alguns jornais.Dentre outros livros, s\u00e3o de sua autoria:\u201cInven\u00e7\u00f5es do sil\u00eancio\u201d, pela Livraria Jos\u00e9 Olympio Editora, \u201cRede fluvial\u201d, ainda pela Jos\u00e9 Olympio,\u201cCadernos de geografia\u201d(Editora Mitava\u00ed), \u201cConfiss\u00f5es de penumbra\u201d (Ed. Rosa dos Tempos\/Record), \u201cCantares\u201de \u201cO para\u00edso era antes\u201d (estes dois \u00faltimos pela Editora da Palavra). Mant\u00e9m o site <a href=\"http:\/\/www.vestigios.net.br\"><strong>Vest\u00edgios<\/strong><\/a>. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os sens\u00edveis contornos da narrativa de Lucia Fonseca<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":9010,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2298,2534,16],"tags":[81,41,2310,2311,2312,149,2291,952],"class_list":["post-9008","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-97a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-lucia-fonseca","tag-manha","tag-narrativa","tag-prosa","tag-rio-de-janeiro","tag-vestigios"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9008","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9008"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9008\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9015,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9008\/revisions\/9015"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9010"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9008"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9008"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9008"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}