{"id":9050,"date":"2014-12-04T17:21:34","date_gmt":"2014-12-04T19:21:34","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9050"},"modified":"2018-12-05T11:08:12","modified_gmt":"2018-12-05T14:08:12","slug":"dedos-de-prosa-iii-29","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-29\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Louren\u00e7a Bella <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_9129\" aria-describedby=\"caption-attachment-9129\" style=\"width: 355px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/INTERNA6.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9129 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/INTERNA6.jpg\" alt=\"Cristina Arruda\" width=\"355\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/INTERNA6.jpg 355w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/INTERNA6-213x300.jpg 213w\" sizes=\"auto, (max-width: 355px) 100vw, 355px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9129\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Cristina Arruda<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Declive<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com os bra\u00e7os debaixo da cabe\u00e7a, era s\u00f3 ouvidos. Barulhos de passos na escada de madeira, gritos agudos vazando pelas paredes, o grasnar rude da dona das chaves. Motel de terceira \u2013 \u00fanica espelunca que podia pagar. A mulher roncava aquele ronco de vaca saciada de capim verde. O ar era podre, o cheiro era podre, tudo apodrecia. E eu, um porra dum fracassado. Nunca sa\u00eda do meio. Sempre entre o fundo e a borda do po\u00e7o. N\u00e3o servia nem pra chafurdar nas trevas. Levara um par de chifres e s\u00f3 conseguira pegar a primeira puta pra afundar nela toda frustra\u00e7\u00e3o que rasgava minhas entranhas. Cheguei a pensar no tiro. A bala varando o peito e explodindo no colch\u00e3o. Cheguei at\u00e9 a ver a cama chupando, s\u00f4frega, o sangue enquanto a pilantra ia-se de olhos arregalados sem acreditar que eu puxara o gatilho. N\u00e3o suportei a cena. Covarde. Preferi bater a porta e me esconder na escurid\u00e3o. Agora estava ali, de frente pra minha ca\u00edda no purgat\u00f3rio &#8211; o ber\u00e7o dos canalhas sem culh\u00f5es. O lugar onde passaria a vida me arrependendo do ato que n\u00e3o sa\u00edra da imagina\u00e7\u00e3o. Outro ronco alto. Cabelos escuros cobriam o rosto que eu nunca vira. Aquele corpo mexera-se debaixo do meu. Fingida. Gritara como se eu estivesse arrombando o que nem porta tinha. Cuspi nela. De nojo e de raiva. Ela devolveu a cusparada e grudou os dentes em minha boca. Bem na hora em que me livrava do s\u00eamen podre de covardia. E o gosto de sangue invadiu meus sentidos. Lambi o l\u00e1bio e a ferida se fez novamente viva na ardidura. Raiva. Da mulher, da puta, de mim mesmo. Levantei. O cora\u00e7\u00e3o estava mordido, espica\u00e7ado pelo desprezo da mulher. A noite me olhou. Escura e vazia. As estrelas pareciam esconder-se de mentes castradas \u2013 a minha. Sa\u00ed sem fechar a porta, direto pra mureta. Fiquei ali olhando o rio escuro, sentindo seu cheiro f\u00e9tido se misturando aos meus pensamentos. Fiquei ali segurando o saco. E pensando, sentindo e pensando na \u00e1gua inundando-me os pulm\u00f5es. Acordei com dor no peito e tubos no nariz. Nem pra morrer eu nasci.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O voo da mariposa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela estava se revirando internamente. Desde que fizera quarenta anos era s\u00f3 um rodopio frente ao espelho. N\u00e3o compreendia o que lhe acontecia. Os sentidos n\u00e3o chegavam \u00e0 raz\u00e3o. Sabia apenas que dentro dela algo mudava quase que a cada nascer do sol. E o sol ultimamente estava nascendo de um alaranjado quase vermelho. \u00c9 que dentro dela tinha um fogo doido e do\u00eddo. Fogo que adivinhava a chegada do p\u00f4rdosol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia uma urg\u00eancia no ar do banheiro. O espelho mostrava as pequenas rugas que ela ignorava solenemente. Nunca antes se preocupara com o corpo. Agora ele parecia crescer \u00e0 sua frente. E por detr\u00e1s dele a imagem do menino. Aconteceu. O menino. Foi um encontro casual, destes que poderiam acontecer a qualquer pessoa. Entrou nela como for\u00e7as opostas duelando-se. E rompeu a barreira da idade. Deixou-a equilibrando-se \u00e0 beira do precip\u00edcio. Porque havia nele uma parte da vida dela. A parte n\u00e3o vivida. E porque havia naquela esp\u00e9cie de loucura a esperan\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante os dias anteriores esteve numa voragem de expectativa. O fogo dentro dela buscava a carta do menino. O gelo lembrava os vinte anos que os separavam. E era o gelo que fazia afundar-se a linha entre as sobrancelhas. Tinha uma vida dentro da vida dela. Uma vida que se escondia. Vida sem causa ou efeito, mas que parecia querer explodir na pele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amava tudo \u00e0 sua volta. O marido, os filhos, o verde das \u00e1rvores. Ainda assim, sentia-se incompleta. Sabia. S\u00f3 se completaria com esta vida secreta t\u00e3o rec\u00e9m descoberta. A vida que faria o eterno transformar-se em intensidade do momento. E esta vida j\u00e1 n\u00e3o era apenas sonho. Tinha um corpo. E boca. E uma tens\u00e3o que a fazia corda afinada de instrumento musical. Ou mariposa de voo incerto e esfuziante, perseguindo o fogo mesmo sabendo do risco de queimar-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ajeitou os cabelos e foi em busca da bolsa. Ela iria se queimar, sabia. Mas sabia tamb\u00e9m que precisaria experimentar. Nem que fosse uma \u00fanica vez. Viver era imperiosamente preciso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Louren\u00e7a Bella <\/em><\/strong><em>\u00e9 mineira das terras vermelhas de Drummond, passou pela academia de onde saiu professora. Foi s\u00f3 o inicio. Pisciana que \u00e9, descobriu-se muito mais aprendiz. Abandonou a sala de aula, passando a trocar conhecimentos fora dela. Depois de anos trabalhando com Educa\u00e7\u00e3o, virou a mesa. Foi aprender as regras do mundo empresarial onde se equilibra at\u00e9 hoje. Da academia guarda ainda a fome de conhecimento. Especialmente de si mesma. Por isso escreve.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A anatomia das tens\u00f5es nos contos de Louren\u00e7a Bella<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15727,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2298,2534],"tags":[419,2353,41,2215,2354,2355],"class_list":["post-9050","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-97a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-contos","tag-declive","tag-dedos-de-prosa","tag-lourenca-bella","tag-o-voo-da-mariposa","tag-tensoes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9050","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9050"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9050\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15726,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9050\/revisions\/15726"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15727"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9050"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9050"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9050"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}