{"id":9053,"date":"2014-12-04T17:47:14","date_gmt":"2014-12-04T19:47:14","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9053"},"modified":"2018-12-05T11:00:56","modified_gmt":"2018-12-05T14:00:56","slug":"aperitivopalavra-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavra-4\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TETELESTAI -sobre GLACIAL, o novo livro de Jorge Elias Neto<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por W. J. Solha<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/capa-menor.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-9055 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/capa-menor.jpg\" alt=\"Glacial\" width=\"334\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/capa-menor.jpg 334w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/capa-menor-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 334px) 100vw, 334px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como diz T.S.Eliot, <em>no meu come\u00e7o est\u00e1 meu fim e em meu fim est\u00e1 meu come\u00e7o, <\/em>da\u00ed ot\u00edtulo acima, que encontrei encerrando a obra em pauta, como se o volume editado pela Patu\u00e1 fosse resultado de muito sofrimento:<em><br \/>\n<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Tetelestai<\/em><\/strong><strong> *<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jo\u00e3o, 19:30,<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;<\/span>*Est\u00e1 consumado!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Descobri, ali, o fio da meada: a f\u00e9 e sua perda est\u00e1s empre ostensiva ou dissimuladamente presente em todo o GLACIAL. O poema \u201cPaisagem\u201d, por exemplo, tem como ep\u00edgrafe trecho de um poema de Lu\u00eds Garc\u00eda Montero:<\/strong><\/p>\n<p><em>Cada tiempo de dudas<\/em><br \/>\n<em>Necesitaunpaisaje<\/em><\/p>\n<p><em>O c\u00e9u se fecha.<\/em><br \/>\n<em>Nuvens se entrela\u00e7am<\/em><br \/>\n<em>\u2015 \u00edntimas .<\/em><br \/>\n<em>Onde encontrar<\/em><br \/>\n<em>um caminho sem cruzes?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>V\u00ea a montagem?:<\/strong><em>\u201cCada tempo de d\u00favidas\u201d, \u201cO c\u00e9u se fecha\u201d. <\/em><strong>E, com <\/strong><em>\u201cNuvens se entrela\u00e7am \u2013 \u00edntimas\u201d<\/em><strong>, percebe-se que h\u00e1 <\/strong><strong>no estilo de Jorge Elias uma certa combina\u00e7\u00e3o de palavras \u00e0 maneira de Lorca: <\/strong><em>\u00c1rbol de Sangre, <\/em><em>la tristeza sinojos, m\u00e9duladel alma, <\/em><em>Verde viento, silencios de goma oscura, \u00a0rosa de lacircuncisi\u00f3n, <\/em><strong>etc. O surrealismo \u2013 movimento a que o espanhol pertenceu \u2013 foi fortemente influenciado pelas teorias de Freud, enfatizando a fun\u00e7\u00e3o do inconsciente na atividade criativa. Justamente como uma rea\u00e7\u00e3o a uma arte que estava destru\u00edda \u2013 olha a pedra no sapato do poeta capixaba \u2013 pelo racionalismo. O tom, aqui bem <\/strong><strong>leonardesco &#8211; todo <em>non finito<\/em> e <em>sfumato &#8211; <\/em>se torna mais po\u00e9tico, <em>fala mais<\/em>. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cOnde encontrar\/ um caminho sem cruzes?\u201d <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O tr\u00e1gico \u00e9 que o poeta sabe, todos sabemos, que isso n\u00e3o existe. Passei minha mui distante inf\u00e2ncia ouvindo Orlando Silva cantar:<\/strong><\/p>\n<p>Sou um covarde e bem sei<br \/>\nque o direito<em> \u00e9 levar<\/em><br \/>\n<em>a cruz at\u00e9 o fim,<\/em><br \/>\nmas n\u00e3o posso,<br \/>\n\u00e9 pesada demais<br \/>\npara mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 um poema de GLACIAL,\u201cR\u00eas\u201d, em que Jorge Elias assume o papel da v\u00edtima, j\u00e1 que o dito uso da raz\u00e3o lhe \u00e9 doloroso, <em>uma cruz. <\/em>Como se tivesse nascido em local demarcado pela estrela de Bel\u00e9m, diz:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Eis o meteoro \/da impaci\u00eancia \/ que destrincha a carne,\/que fratura\/o tempo e\/me descobre\/tenro,\/palat\u00e1vel,\/em meio\/aos estilha\u00e7os\/da urg\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cTenro\u201d e \u201cpalat\u00e1vel\u201d, porque est\u00e1 pra virar h\u00f3stia na pr\u00f3pria Ceia. Por que, se perdeu a f\u00e9? Justamente porque <\/strong><em>resfriado nas \/evid\u00eancias da raz\u00e3o \/ \u2013 que n\u00e3o basta.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A raz\u00e3o n\u00e3o lhe basta. E ele diz em \u201cRein\u00edcio\u201d \u2013 entre mensagens cifradas:<\/strong><em>persigo sua imagem,\/ Deus dos homens. <\/em><strong>Da\u00ed que ficamos com um poeta&#8230; relutantemente&#8230; m\u00edstico, feito um Eliot, William Blake, um San Juan de la Cruz &#8230; \u201cgauche\u201d, como que por ordem do mesmo \u201canjo torto\u201d de Drummond. No poema \u2018Cron\u00f3pio\u201d, inclusive, ele se diz \u2013 contrariando Cristo &#8211; ser<\/strong><em>fiel deposit\u00e1rio de um torr\u00e3o de a\u00e7\u00facar<\/em><strong>, mas termina concluindo que Caronte \u2013 o barqueiro o inferno \u2013 <em>aguarda o sal da terra<\/em>. E a\u00ed, curiosamente, entramos no clima que justifica o t\u00edtulo do livro: <\/strong><\/p>\n<p><em>O inverno \u00e9 longo,<\/em><br \/>\n<em>o bastante<\/em><br \/>\n<em>para que a neve<\/em><br \/>\n<em>reaja a esses<\/em><br \/>\n<em>rudimentos de liberdade<\/em><br \/>\n<em>extinta.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que inverno? Suponho que seja o \u201cinverno do nosso descontentamento\u201d(<\/strong><em>the winter of our discontent,<\/em><strong> conforme diz Ricardo III na pe\u00e7a hom\u00f4nima de Shakespeare ). Seguem-se poemas que falam em <\/strong><em>desandada tristeza, desespero <\/em><strong>(\u201cSimetria do Caos\u201d), <\/strong><em>condena\u00e7\u00e3o de loucura <\/em><strong>(<\/strong><strong>\u201cAssim &amp; Assado\u201d) e, doutoralmente, concluo que \u2013 parece-me &#8211; nosso Doutor Jorge Elias Neto j\u00e1 sofreu muito, viu sofrer&#8230; e <em>talvez tenha feito sofrer muita gente&#8230;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Havia uma alternativa \/ em alguma gaveta \/ queimada para n\u00e3o morrer \/de frio.\/\/ Uma aspirina \/entre duas torturas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ele diz, no poema \u201cMatilha\u201d: <\/strong><\/p>\n<p><em>Nomeados<\/em><br \/>\n<em>os lobos,<\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #ffffff;\">desembainhei os caninos<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>\u2013 inc\u00f3gnitos \u2013<\/em><br \/>\n<em>e ensaiei a dan\u00e7a<\/em><br \/>\n<em>solit\u00e1ria<\/em><br \/>\n<em>do uivo <\/em><br \/>\n<em>na imensid\u00e3o austral.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A vida, j\u00e1 dizia Voltaire &#8211; manique\u00edsta &#8211; quando n\u00e3o \u00e9 complica\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cT\u00e9dio\u201d \u2013 t\u00edtulo, por sinal, de outro poema tenso, onde <\/strong><em>O nada \/\u00e9 um cansa\u00e7o\/que d\u00e1 sono. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E eis a\u00ed outra forma do branco eterno, de GLACIAL: o nada. Jorge Elias fala, em \u201cFra\u00e7\u00e3o do indiz\u00edvel\u201d, numa &#8230;<\/strong><em>biografia\/ de ren\u00fancias \/e equ\u00edvocos.<\/em><strong>Fala de solid\u00e3o: <\/strong><em>Minha dist\u00e2ncia \/ n\u00e3o \u00e9 exerc\u00edcio de ret\u00f3rica,\/ apontamento \/de um eg\u00f3latra.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas por que \u00e9 t\u00e3o racional?<\/strong><\/p>\n<p><em>N\u00e3o me cabe<\/em><br \/>\n<em>o sedentarismo da cren\u00e7a,<\/em><br \/>\n<em>o fervor <\/em><br \/>\n<em>no p\u00falpito.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o me envaidece,<\/em><br \/>\n<em>n\u00e3o me encoraja<\/em><br \/>\n<em>(&#8230;) escovar os pelos<\/em><br \/>\n<em>que agasalharam<\/em><br \/>\n<em>erros.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso faz dele um dos &#8220;<em>desterrados Filhos de Eva\u201d \u2013 como diz a antiga ora\u00e7\u00e3o \u2013\u201c<\/em>gemendo e chorando neste vale de l\u00e1grimas\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Amanhecer<\/strong><\/p>\n<p><em>\u00c9 setembro.<\/em><br \/>\n<em>escorrem<\/em><br \/>\n<em>as primeiras l\u00e1grimas <\/em><br \/>\n<em>das montanhas dos Andes,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Veja &#8211; no final do poema \u201cSobre anjos e blasf\u00eamias\u201d &#8211; o G\u00eanesis numa vers\u00e3o conto de fadas:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>S\u00f3 que um toque atrevido,<br \/>\npor delicado que seja,<br \/>\nfaz desabar o enigma<br \/>\n(Chamam a isso: pecado.)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Enigma = pecado. Isso nos leva \u00e0 velha est\u00f3ria: <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a \u00e1rvore do jardim comer\u00e1s livremente,<\/em><em><br \/>\nMas da \u00e1rvore do conhecimento do bem e do mal, dela n\u00e3o comer\u00e1s;<br \/>\n<\/em><strong><br \/>\n<\/strong><strong>H\u00e1 uma culpa \u2013 m\u00e1xima culpa, talvez- em jogo. E Jorge Elias diz, em Portal dos anjos:<\/strong><\/p>\n<p><em>Anjos &#8230;<br \/>\nDou-lhes de presente<br \/>\nminha sanidade.<br \/>\nSei o que me custar\u00e1<br \/>\nrolar a cabe\u00e7a no acaso &#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Anjos de poeta n\u00e3o implodem,<br \/>\nesvaem-se da cabeceira<br \/>\nda cama do menino.<br \/>\nRetornam para a dimens\u00e3o do sonho<br \/>\nque se teve<br \/>\ne se dispersou com a raz\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Anjos &#8230;<br \/>\nRetribuo com o poema a vig\u00edlia<br \/>\ne pe\u00e7o que devolvam a Paulo<br \/>\no patibulum e a culpa.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cEsvaem-se da cabeceira \/ da cama do menino\u201d. <\/em><strong>Ah, caramba, eu mesmo tinha, em minha&#8230; cabeceira de menino&#8230;, um quadro em que um belo anjo da guarda acompanhava um casal de garotos atravessando uma decr\u00e9pita ponte de madeira sobre o abismo, numa tempestade! <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Anjos de poeta n\u00e3o implodem,<br \/>\n<strong>esvaem-se da cabeceira<br \/>\nda cama do menino.<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Retornam para a dimens\u00e3o do sonho<br \/>\nque se teve<br \/>\ne se dispersou com a raz\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ele sente isso. E o que faz? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Retribuo com o poema a vig\u00edlia<br \/>\ne pe\u00e7o que devolvam a Paulo<br \/>\no patibulum e a culpa.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que tem o ap\u00f3stolo da ep\u00edstola com isso? Creio que Lacan tem parte na est\u00f3ria. Em 1960, em seu <em>Semin\u00e1rio sobre a \u00c9tica da Psican\u00e1lise<\/em>, <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>retoma textos antigos, como a Ep\u00edstola aos Romanos, de S\u00e3o Paulo, \u201ctu, que te glorias na lei, desonras a Deus, transgredindo a lei\u201d(&#8230;) \u201cporque pelas obras da lei n\u00e3o ser\u00e1 justificado nenhum homem diante dele. Porque, pela lei, vem o conhecimento do pecado\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A\u00ed est\u00e1, novamente, o pecado, o enigma que faz o poeta se sentir perdido no<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>gelo intranspon\u00edvel.<br \/>\nDa\u00ed esse tatear \u2013 essa procura.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Adam Smith disse em A Riqueza das Na\u00e7\u00f5es, 1776:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8230;n\u00e3o \u00e9 da benevol\u00eancia do padeiro, a\u00e7ougueiro ou cervejeiro que se pode esperar o jantar, e sim do empenho deles pelo que ir\u00e3o&#8230; lucrar.\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Luis B\u00fcchner,em O Homem Segundo a Ci\u00eancia, 1869, sobre o comunismo:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; Todas as tentativas do g\u00eanero t\u00eam falhado vergonhosamente e afirma-se que, por causa da fraqueza, da <strong>insufici\u00eancia <\/strong>da natureza humana, falhar\u00e3o sempre.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Insufici\u00eancia.<\/em><\/strong><strong> Em GLACIAL, de Jorge Elias Neto, h\u00e1 um poema chamado \u201c<\/strong><strong>Insignific\u00e2ncia\u201d, em que ele fala:<\/strong><\/p>\n<p><em>O c\u00e9u conspira <\/em><br \/>\n<em>dentro de mim,<\/em><br \/>\n<em>ponto<\/em><br \/>\n<em>sujo no \u00fatero<\/em><br \/>\n<em>da neve.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Insignific\u00e2ncia<\/em><\/strong><strong>, \u00e9 o t\u00edtulo do poema. Insufici\u00eancia, diz o tamb\u00e9m m\u00e9dico B\u00fcchner. E veja isto, em \u201cO Arco e a Lira\u201d, de Octavio Paz: <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8211; A necessidade de expiar, como a n\u00e3o menos imperiosa da reden\u00e7\u00e3o, brotam de uma falta; n\u00e3o no sentido moral da palavra, mas em sua acep\u00e7\u00e3o literal: somos pouco ou nada diante do ser que \u00e9 tudo. Nossa falta n\u00e3o \u00e9 moral: \u00e9 <strong>insufici\u00eancia <\/strong>original. O pecado \u00e9 ser pouco.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Temos a\u00ed, portanto, uma bela corre\u00e7\u00e3o ao G\u00eanesis, que tem a ver com a \u201cinsignific\u00e2ncia\u201d de B\u00fcchner e Jorge Elias. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Veja, mais uma vez, o come\u00e7o do mundo, no primeiro poema de GLACIAL:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Compondo o sitio arqueol\u00f3gico<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A vastid\u00e3o<br \/>\n\u00e9 uma pedra<br \/>\nredonda e fria.<br \/>\nGrande esfera<br \/>\nonde deslizam<br \/>\ne desabam as criaturas.<br \/>\nO horizonte \u2012 gelo<br \/>\nintranspon\u00edvel.<br \/>\nDa\u00ed esse tatear \u2013 essa procura.<br \/>\nA obscura arqueologia de esconder-se.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>E, no sil\u00eancio,<br \/>\n<strong>no cu<br \/>\ndesse branco profundo,<\/strong><br \/>\naguarda,<br \/>\ne se expande,<br \/>\ne fulgura,<br \/>\no jardim das epifanias.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Epifania<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><strong>\u00e9 uma s\u00fabita sensa\u00e7\u00e3o de realiza\u00e7\u00e3o ou compreens\u00e3o da ess\u00eancia de algo. E c<\/strong><strong>om a \u00faltima estrofe, Jorge Elias cria, de cara, um choque est\u00e9tico. Mas, curiosamente, no poema \u201c<\/strong><strong>Insignific\u00e2ncia\u201d, repete a cena com outro palavreado: <\/strong><\/p>\n<p><em>O c\u00e9u conspira <\/em><br \/>\n<em>dentro de mim,<\/em><br \/>\n<strong><em>ponto<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>sujo no \u00fatero<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>da neve.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que faz o Inconsciente! Substitui <em>no cu \/ desse branco profundo<\/em>, pelo Self do poeta, <\/strong><strong><em>ponto \/ sujo no \u00fatero \/ da neve.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A faca yanagui<br \/>\ndespregou da glande<br \/>\na gota de s\u00eamen.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Resgatou da solid\u00e3o<br \/>\no vicio cuspido.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cSolid\u00e3o\u201d, \u201cV\u00edcio\u201d, \u201cfaca\u201d \u2013 \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o pensar em \u201cv\u00edcio solit\u00e1rio\u201d \u2013 masturba\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m em castra\u00e7\u00e3o. Mas estamos&#8230; dissecando um poeta, e &#8211; segundo seu colega Paul Val\u00e9ry &#8211; <\/strong><em>A medita\u00e7\u00e3o \u00e9 um v\u00edcio solit\u00e1rio que cava no aborrecimento <strong>um buraco negro <\/strong>que a tolice vem preencher.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cTolice\u201d? Ou&#8230; \u201cepifanias\u201d? Ficamos pasmos, sempre, com o inter-relacionamento de tudo que \u00e9 humano. Voltemos aos poemas: eles falam em <\/strong><em>\u201cg\u00e9lidos desfiladeiros ladeando avenidas\u201d, \u201cenormes geleiras que sentenciam \u00e0 morte os que ignoram a cronologia do desespero\u201d, \u201ccristais, cristais e mais cristais desabam e lancetam a alvura\u201d,<\/em><strong> um caos, enfim. E a\u00ed lemos:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No caos, chupando manga<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O poeta se debru\u00e7a no caos<br \/>\nchupando manga<br \/>\ne a Lei suprema<br \/>\nse mistura <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 indissoluta \u2014<br \/>\n\u00e0s fimbrias que teimam<br \/>\nem persistir<br \/>\nagarradas<br \/>\nentre os dentes.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Daqui do Nordeste, de onde escrevo esta resenha, saiu a av\u00f3 de Jorge Elias, a quem ele passava horas ouvindo cantar e recitar cord\u00e9is, como ele diz numa entrevista a Hilton Valeriano. Pois bem: \u201cc\u00e3o chupando manga\u201d, aqui, significa algu\u00e9m muito especial no que faz. \u201cAriano Suassuna? \u00c9 o c\u00e3o chupando manga!\u201d\u201cNo caos, chupando manga\u201d, portanto, \u00e9 uma volta por cima, num h\u00e1bil jogo de palavras. Porque se trata do desprezo pela fonte de seu tormento:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>e a Lei suprema<br \/>\nse mistura <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2014 indissoluta \u2014<br \/>\n\u00e0s fimbrias que teimam<br \/>\nem persistir<br \/>\nagarradas<br \/>\nentre os dentes.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tudo termina como se houvesse, por fim, um acomodamento. O poeta est\u00e1 produzindo&#8230; e basta. Ser\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>In\u00e9rcia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>(\u2026)<\/strong><\/p>\n<p><em>O gelo conservou os corpos.<\/em><br \/>\n<em>Os gestos<\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #ffffff;\">\u00a0&#8230;.<\/span>\u2014 consumidos pelo desespero \u2014<\/em><br \/>\n<em>permaneceram.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas nem Baudelaire, Poe, Augusto dos Anjos&#8230; ou Jorge Elias \u2013 como todos n\u00f3s \u2013 permanecem o tempo todo \u201cpra baixo\u201d. O que os faz, o que nos faz assim? A vida. <\/strong><em>C\u00b4estlavie. <\/em><strong>E isto \u00e9 um belo poema:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um resto de sol no desalento<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ocupo-me de uma febre<br \/>\nsem prop\u00f3sito.<br \/>\nModos existem<br \/>\nde forjar os dias,<br \/>\nprincipiar universos,<br \/>\n<strong>rir do descomunal<br \/>\nsegredo da vida &#8230;<\/strong><br \/>\nMas n\u00e3o nessa noite gelada<br \/>\n<strong>em que persisto centelha.<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Eis a \u00faltima pele <\/em><\/strong><strong><em>\u2015 a palavra \u2015<br \/>\nque se desgarra inapta<br \/>\na prosseguir<br \/>\nafirmando<br \/>\no esplendor da verdade.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>W. J. Solha<\/strong> lan\u00e7ou Relato de Pr\u00f3cula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Pr\u00eamio Graciliano Ramos por sua Hist\u00f3ria Universal da Ang\u00fastia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Pr\u00eamio Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Ark\u00e1ditch, pela Ideia Editora, pela qual tamb\u00e9m lan\u00e7ou seu segundo poema longo, Marco do Mundo, em 2012, a que se seguiu Esse \u00e9 o Homem, em 2013<\/em>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>W. J. Solha escreve sobre o novo livro do poeta Jorge Elias Neto<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15722,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2298,2533],"tags":[11,424,2332,154,189,2331,247],"class_list":["post-9053","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-97a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-editora-patua","tag-glacial","tag-jorge-elias-neto","tag-resenha","tag-tetelestai","tag-w-j-solha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9053","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9053"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9053\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15724,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9053\/revisions\/15724"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15722"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9053"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9053"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9053"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}