{"id":9068,"date":"2014-12-07T11:37:43","date_gmt":"2014-12-07T13:37:43","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9068"},"modified":"2018-12-05T10:56:05","modified_gmt":"2018-12-05T13:56:05","slug":"dedos-de-prosa-ii-29","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-29\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>Myriam de Carvalho<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_15718\" aria-describedby=\"caption-attachment-15718\" style=\"width: 353px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/interna-5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15718 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/interna-5.jpg\" alt=\"\" width=\"353\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/interna-5.jpg 353w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/interna-5-212x300.jpg 212w\" sizes=\"auto, (max-width: 353px) 100vw, 353px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15718\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Cristina Arruda<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mon\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este ar irrespir\u00e1vel. Quente. A chuva, o vento. Pela janela, olha a agita\u00e7\u00e3o que vai no Mar de Java. Onde ela veio parar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Que raio de homem, maldito an\u00fancio, maldita a hora em que respondi. <\/em>Mais tem\u00edvel que a aproxima\u00e7\u00e3o da mon\u00e7\u00e3o, mais asfixiante que a atmosfera sulfurosa do Krakatoa que ainda paira sobre a cidade, <em>a tempestade que ele veio cravar na minha vida. Uma mulher nativa, e uma concubina \u2013 o que eu vim encontrar. V\u00e1 para o inferno \u2013 mais a posi\u00e7\u00e3o, o ex\u00e9rcito, a carreira, e mais o dobro da minha idade. <\/em>Alco\u00f3lico. Violento<em>. O que \u00e9 que eu fa\u00e7o? Meus dezanove anos, que mal empregados&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas ela n\u00e3o perde tempo. E esta sensualidade esculpida nos deuses e deusas que bailam nos portais e paredes dos templos hindus, o corpo \u00e9 sagrado, o amor para ser completo, tem rituais a cumprir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Gostei do templo de Krishna. Experimentar a escola do templo. Aprender as tradi\u00e7\u00f5es, tudo o que \u00e9 daqui. As dan\u00e7as, a m\u00fasica, \u00e9 que me fascinam.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Regresso \u00e0 Europa. Decide-se. O div\u00f3rcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paris \u00e9 e ser\u00e1 sempre a cidade dos ex\u00edlios famosos, dos grandes recursos. A cidade das artes, do livre pensamento. Lady MacLeod. Um nome ex\u00f3tico, bom para uma amazona de circo. Ou uma modelo de artistas. Usar o nome do ex-marido? <em>Que \u00e9 que isso importa? Funciona.<\/em> Funciona muito bem. Mas n\u00e3o chega.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7a a ganhar fama como bailarina ex\u00f3tica. V\u00ea que pode competir com Isadora Duncan, ou Ruth St Denis. Toda a gente vai procurar inspira\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00c1sia, ou ao Egipto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Felizmente, n\u00e3o perdi tempo enquanto estive em Jakarta. \u201cPrincesa de estirpe sacerdotal, educada nas artes hindus desde a mais tenra idade\u201d. Oh, como fui prevista. <\/em>E como o p\u00fablico gosta de ser enganado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mata Hari, <em>o olho do dia, ou do sol<\/em>, na realidade, o sucesso das noites. A ostenta\u00e7\u00e3o do corpo com uma m\u00edstica \u00fanica, a cativar o p\u00fablico em geral, e um mundo mais privado, restrito, cada vez mais no c\u00edrculo dos poderosos, <em>quanto mais abastados, melhor. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem na Europa est\u00e1 preocupado com as long\u00ednquas \u00cdndias Orientais Holandesas?<em> A hist\u00f3ria que eu conto n\u00e3o oferece d\u00favidas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a t\u00f4mbula da fortuna vai novamente desandar. Ningu\u00e9m ignora que quando se sobe com tanta avidez, se desce com grande estrondo. Antes da guerra, era vista como uma artista livre, independente, bo\u00e9mia. Mas agora, \u00e0 medida que a guerra se aproxima, come\u00e7am a falar da artista. Libertina, devassa, prom\u00edscua. Pior, uma perigosa sedutora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os seus apoios come\u00e7am a afastar-se<em>. Olho-me ao espelho, e s\u00f3 confirmo que a idade come\u00e7a a notar-se&#8230; Ai a beleza vai-se-me diluindo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As suas desloca\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da Europa, em tempo de guerra, chamam a aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 a cortes\u00e3 das muitas altas patentes entre os aliados. \u00c9 interrogada pela espionagem brit\u00e2nica. Diz que trabalha como agente para a espionagem francesa. Os franceses n\u00e3o confirmam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>*<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1917. Da janela da pris\u00e3o, v\u00ea a sua vida deslizar na sua frente. Sabe que n\u00e3o passa da folha de Outono, muito bela, do ocre ao vermelh\u00e3o, mas que cai da \u00e1rvore porque est\u00e1 morta. Ningu\u00e9m a pode suster. Sabe que algu\u00e9m deixa que seja acusada para se ocultar. Foi assim com Dreyfus. <em>\u00c9 o que faz ser mulher<\/em>, mulher s\u00f3.<em> E essa barriga atulhada de leis, in\u00fatil e sem alma, de que \u00e9 que me serve? <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">41 anos.<em> Ser\u00e1 que vivi tudo? E a soturna da sotaina, a dan\u00e7ar ao vento como uma bandeira negra, n\u00e3o me vai salvar das armas&#8230; 41 anos&#8230; J\u00e1?! T\u00e3o depressa?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No Caf\u00e9, com Mrs Robinson<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esqueci-me de apontar na agenda que trago sempre comigo o n\u00famero do seu telefone. Despachei-me cedo, mais cedo do que pensava, entrei no caf\u00e9 para lhe telefonar, quem sabe, talvez voc\u00ea estivesse livre, quem sabe, poderia querer descer aqui ao Caf\u00e9. Poder\u00edamos dar \u00e0 l\u00edngua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas contrariada constato que me esqueci de apontar na agenda o n\u00famero do seu telefone. N\u00e3o percebo por qu\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A alta-fidelidade p\u00f5e no ar can\u00e7\u00f5es dos velhos Beatles. Quanto mais o tempo passa, mais belas s\u00e3o. <em>Mary Lane<\/em>. Cantam em surdina os amplificadores do Caf\u00e9. Abafam-lhes o som os motores dos carros que passam na rua, as m\u00e1quinas das <em>bicas*<\/em>, as conversas das mesas ao lado e as do balc\u00e3o. <em>Mrs. Robinson<\/em>. Acho que vivias sozinha, Mrs. Robinson. H\u00e1 coisas que doem muito, na medula dos ossos da alma \u00e9 que certas coisas doem. Mrs. Robinson. Onde se meteram os filhos que criaste, o homem, ou os homens quem sabe, que tu amaste?! E agora, imagina, poderia falar com este fulano, se ele estivesse livre, claro, mora mesmo aqui por cima. E depois, o que \u00e9 que ele pensaria de mim?! Chi\u00e7a, \u00e9 melhor estar quieta, quer dizer, \u00e9 uma sorte n\u00e3o ter aqui o telefone dele. Oh, Mary Lane, sabes muito bem como odeio os homens. Odeio os homens. E detesto as mulheres! Mesmo assim, eles ainda conseguem ser mais sofr\u00edveis do que elas. Mary Lane, nunca confies numa amiga. Nunca confies em ningu\u00e9m. Olha, Mrs. Robinson, venho das compras. Ouves? \u00c9 o Paul Anka. H\u00e1 quantos mil\u00e9nios n\u00e3o ouvia o Paul Anka! Interessante, n\u00e3o \u00e9? <em>Crazy Love<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Crazy Love. <em>You are my crazy love<\/em>. De facto, minha querida Mrs. Robinson. \u00c9 mesmo uma loucura. Porque um amor morre e uma pessoa procura logo outro. N\u00e3o \u00e9 a for\u00e7a da vida, nem o tanas. \u00c9 auto-destrui\u00e7\u00e3o. Uma pessoa, enquanto tem um pouco de esperan\u00e7a, consome-a. N\u00e3o a utiliza em proveito pr\u00f3prio. Consome-a, desbarata-a. Claro, \u00e9 isso mesmo, destr\u00f3i-se. Depois, quando fica sem nada, vem para aqui como n\u00f3s, senta-se \u00e0 mesa do caf\u00e9 e fala com as cadeiras. Sabes, Mrs. Robinson, tenho pena da Mary Lane. Ainda tem esperan\u00e7a. Ainda tem quem lhe dedique can\u00e7\u00f5es de amor. Ainda tem com que se auto-embalar. Ainda n\u00e3o lhe bateu \u00e0 porta a hora da verdade. <em>Sweet Caroline<\/em>. Sweet Caroline. H\u00e1 pouco eras Mary Lane, agora \u00e9s Sweet Caroline. Mas daqui a pouco ser\u00e1s apenas a velha Mrs. Robinson, a pobre da vizinha a quem algu\u00e9m mandar\u00e1 um pratinho de filh\u00f3s (as que sairem quebradas ou um pouco mais fritas do que a conta) no dia de Natal, coitadinha, consola-se a velhota.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem. Ainda bem que n\u00e3o apontei na agenda da minha mala de m\u00e3o o seu n\u00famero de telefone. Sinceramente, gosto de falar com homens inteligentes. Sabem coisas que eu n\u00e3o sei, pensam em coisas que eu n\u00e3o penso, analisam a vida com lentes que eu n\u00e3o tenho nem nunca terei. Aprecio isso. As mulheres n\u00e3o. Mas ainda bem que n\u00e3o apontei nesta agenda o seu telefone. Hoje, estou triste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O meu irm\u00e3o veio visitar a nossa m\u00e3e, com a mulher e o filho. H\u00e1 anos que n\u00e3o me telefona. N\u00e3o sei que bicho lhe mordeu. Foi o bicho da vida. J\u00e1 lhe disse tantas vezes o quanto isso me magoa que hoje preferi ignor\u00e1-lo. Pronto. Fui \u00e0s compras. Comprei muito e gastei pouco. At\u00e9 me portei muito bem. Claro. Depois n\u00e3o tenho aonde levar tanta roupa, n\u00e3o vou a nada, meto-me em casa a fazer festas aos gatos, a ver o canal 7, at\u00e9 fico com a sensa\u00e7\u00e3o que tive algu\u00e9m a conversar comigo sobre coisas que eu gosto. Mas tudo espremido, desliga-se o aparelho, n\u00e3o ficou c\u00e1 nada. Os gatos s\u00e3o mudos, os filmes d\u00e3o saltos nas partes conclusivas, passou tudo muito depressa. \u00c9 s\u00f3 tempo perdido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tempo perdido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem vistas as coisas, meu caro, ainda bem que n\u00e3o apontei o seu telefone nesta agenda, n\u00e3o sei porqu\u00ea, cheira-me a medo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com efeito. Imagine que voc\u00ea percebia como estou triste. Imagine que voc\u00ea se punha a pensar que eu lhe estava a pedir apoio. Qualquer coisa como apoio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chi\u00e7a! Mil vezes melhor \u00e9 ir \u00e0s compras. Gastar dinheiro que n\u00e3o tenho, gastar tempo que me falta, comprar coisas que n\u00e3o preciso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mentir a mim pr\u00f3pria. Imaginar que existo.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">(*) Em Portugal, chamamos <em>bica<\/em> \u00e0 pequena quantidade de caf\u00e9 servida nos caf\u00e9s e restaurantes.<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><a href=\"http:\/\/www.myriamdecarvalho.com\/\"><strong>Myriam Jubilot de Carvalho<\/strong><\/a>, 1944, portuguesa. Foi professora. Representada em v\u00e1rias antologias e revistas. Divulgadora da cultura e poesia do per\u00edodo do Al-Andalus. Colaboradora no jornal \u201cO Autarca\u201d, de Mo\u00e7ambique. Publica no site brasileiro \u201cRecanto das Letras\u201d. Dois livros de poesia publicados. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enigmas do tempo nos contos de Myriam de Carvalho<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":9069,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2298,2534],"tags":[81,41,2336,2334,2335],"class_list":["post-9068","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-97a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-marcas-do-tempo","tag-moncao","tag-myriam-jubilot-de-carvalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9068","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9068"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9068\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15719,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9068\/revisions\/15719"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9069"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9068"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9068"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9068"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}