{"id":9222,"date":"2015-01-31T20:43:13","date_gmt":"2015-01-31T22:43:13","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9222"},"modified":"2018-12-06T09:05:51","modified_gmt":"2018-12-06T12:05:51","slug":"aperitivo-da-palavra-i-9","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-9\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p><strong>HIPERTROFIA HIPERTENSA &#8211; Alexandre Guarnieri contra os cr\u00edticos de festim<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Igor Fagundes<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/capamenor2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9225\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/capamenor2.jpg\" alt=\"Corpo de Festim\" width=\"279\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/capamenor2.jpg 279w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/capamenor2-209x300.jpg 209w\" sizes=\"auto, (max-width: 279px) 100vw, 279px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li>DEVEREI MORRER ANTES DE ESCREVER<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sala de espera por um m\u00e9dico, por um cr\u00edtico, com o qual se consulte, um livro se exibe em rija anatomia de signos. Dada a disciplina, a precis\u00e3o, a lucidez com que contrai e alonga a crueza supostamente doente de seu corpo, parece prescindir de socorro. Talvez, justamente por isso, pela sa\u00fade com que paradoxalmente d\u00f3i, tenha mesmo de ir a consult\u00f3rio para socorrer o socorrista; fazer doer o analista, enlouquecendo o que este tem de <em>Prometeu Moderno<\/em> obstinado por certeza, consci\u00eancia cr\u00edtica e predicativa de tudo \u2013 tal petul\u00e2ncia que, inflando-o de poder, deve sempre faz\u00ea-lo no fim impotente, enfermo de si quando se imagina imune e bem armado her\u00f3i. Talvez por inverter ou embaralhar as rela\u00e7\u00f5es m\u00e9dico-paciente, examinador-examinado; por emba\u00e7ar os diagn\u00f3sticos, desafiando e desfiando os receitu\u00e1rios decorados da liter\u00e1ria medicina, seja mesmo necess\u00e1rio o encontro com os doutores. No sentido de suspender as prescri\u00e7\u00f5es deste ou daquele rem\u00e9dio te\u00f3rico, classificat\u00f3rio, <em>gen\u00e9rico<\/em> ou <em>de refer\u00eancia<\/em>; desta ou daquela ultrassonografia est\u00e9tica; desta ou daquela resson\u00e2ncia magn\u00e9tica, quer dizer, desta ou daquela alta tecnologia exeg\u00e9tica; desta ou daquela an\u00e1lise cl\u00ednica a listar quais e quantos gl\u00f3bulos po\u00e9ticos se fazem presentes ou ausentes nas veias, nas linhas, nas entrelinhas, identificando a seguir o grupo sangu\u00edneo, o estilo de \u00e9poca, a escola ou fam\u00edlia a que pertence; por fim, deste ou daquele exame de fezes, indicador da boa ou m\u00e1 digest\u00e3o das obras lidas e influentes, suspeitando quais autores de ontem e hoje s\u00e3o nutrientes bem ou mal absorvidos e quais permanecem parasitas, protozo\u00e1rios de uma escrita. Parafern\u00e1lia supostamente imbat\u00edvel para a obten\u00e7\u00e3o da s\u00edntese, da resolu\u00e7\u00e3o do problema-livro na medida em que, a partir dos resultados anal\u00edticos obtidos, facilmente localiz\u00e1vel o tratamento a ser-lhe aplicado, sem que a peculiaridade de uma literatura ponha o cr\u00edtico na berlinda. Sem que este ausculte os sil\u00eancios de um corpo que, pondo-se em obra, instaura (e, por que n\u00e3o, ostenta) suas pr\u00f3prias e ins\u00f3litas, e intransfer\u00edveis, e assim poeticamente saud\u00e1veis, patologias. De tal maneira que suspenda os estere\u00f3tipos judicativos; que ponha fora-do-ju\u00edzo a medicina do po\u00e9tico, a fim de que esta, em \u00faltima inst\u00e2ncia, em estado cr\u00edtico, autocr\u00edtico, autopo\u00e9tico, abismado, se pergunte de novo pelo que \u00e9 isto, o ju\u00edzo. A cr\u00edtica. O crit\u00e9rio.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Todo esfor\u00e7o da tradi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica est\u00e1 em fundamentar justamente o crit\u00e9rio, ou a medida, a partir da qual emite seus ju\u00edzos sobre a realidade. (&#8230;) Conhecemos in\u00fameras teorias das quais poder\u00edamos lan\u00e7ar m\u00e3o para justificar uma <em>an\u00e1lise <\/em>de determinada obra. Em geral, isso \u00e9 o mais comum, recolhem-se, dos te\u00f3ricos, seus conceitos e se aplicam, for\u00e7ando a obra a aceit\u00e1-los. Usam-se, inclusive, os mesmos conceitos em in\u00fameras obras, organicamente, sistemicamente, confrangendo-as a um modelo e um sistema pr\u00e9vios, como vemos no caso de muitos trabalhos historiogr\u00e1ficos que se consagraram na cr\u00edtica contempor\u00e2nea e na tradi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica brasileira. Elaboram-se os conceitos de poesia e literatura, tomando-os como crit\u00e9rios para a cr\u00edtica, para depois se aferirem as obras propriamente.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Para que a tarefa da cr\u00edtica obede\u00e7a a um crit\u00e9rio apropriado e n\u00e3o se funde em representa\u00e7\u00f5es que mais a afastam do que a aproximam das obras, \u00e9 necess\u00e1rio buscar o crit\u00e9rio que a pr\u00f3pria obra j\u00e1 nos anuncia atrav\u00e9s daquilo que a sustenta como obra. Partindo daquilo que inaugura, sustenta e faz permanecer a obra como obra, teremos inquestionavelmente a garantia de um crit\u00e9rio apropriado para nos empenharmos na tarefa do criticar (FERRITO <em>in <\/em>CASTRO et alli, 2014, p. 127).<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dever\u00e1 o m\u00e9dico, o cr\u00edtico, deixar que em seu jaleco branco respinguem as hemoglobinas gotejadas nas diversas p\u00e1ginas em branco de um livro ora chamado <em>Corpo de festim<\/em>. Dever\u00e1 confrontar-se urgente e ironicamente com o festim epist\u00eamico, o truque conceitual, que j\u00e1 n\u00e3o lhe cabe ser ou no qual j\u00e1 n\u00e3o cabe a um corpo <em>vivo <\/em>se adequar; abrir-se, pois, \u00e0 concreta corporeidade que o cientista tamb\u00e9m \u00e9, ao corpo-a-corpo em que sempre vir\u00e1 a perder-se, para ganhar a poesia. Sem mais se iludir e iludir quem quer que seja com progn\u00f3sticos viciados, diagn\u00f3sticos liter\u00e1rios tediosamente pasteurizados e simplificadores. A ci\u00eancia (?) da poesia (!) \u2013 a ci\u00eancia, grosso modo, de tudo; a que perde de tudo, de toda a realidade, o po\u00e9tico \u2013 deve aceitar, no desafio-livro, a agonia de pressentir agoniz\u00e1vel seu corpo demasiada e falsamente munido, entulhado de tecnicopatias e sistematiza\u00e7\u00f5es, desde que a raz\u00e3o se fez o Mito contra a (e n\u00e3o tanto a favor da) palavra po\u00e9tica bendita, da vida n\u00e3o dita e s\u00f3 diz\u00edvel no interdito dos verbos vertiginosos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nome de alguma poesia <em>na<\/em> ci\u00eancia, dever\u00e1 o discurso te\u00f3rico, cr\u00edtico, m\u00e9dico n\u00e3o redundar como o corpo de festim <em>tratado<\/em> pelo paciente-livro, por talvez ser-lhe a pr\u00f3pria doen\u00e7a (a de ambos) que ironicamente comemora em autoden\u00fancia. Por talvez ser a loucura ocidental \u2013 cientificista e egolatrada heran\u00e7a \u2013 pela qual a humanidade intentou e intenta sua soberania. Como se a imagem estampada na capa j\u00e1 fosse, da cr\u00edtica, o primeiro dos m\u00faltiplos espelhos a surgir. Na estampa da obra, Houdini \u2013 o ilusionista \u2013 tenta driblar a morte com algemas e cadeados constru\u00eddos com apuro e afinco. Nesse processo de nega\u00e7\u00e3o da finitude, da nega\u00e7\u00e3o cultural do pr\u00f3prio corpo (signo, por excel\u00eancia, do finito), todo um ocidente <em>anticorpo<\/em> (anti-corpo: vacinado contra as corporeidades) sedimentado, mediante o j\u00e1 citado projeto do ego-centrismo, da proclama\u00e7\u00e3o do <em>eu<\/em> como o seu \u00faltimo e moderno \u2013 iludido e ilus\u00f3rio \u2013 fundamento: seu perturbado novo deus, crente fan\u00e1tico na imortalidade. Dever\u00e1 o m\u00e9dico-cr\u00edtico combater \u2013 diante de um livro em corpo cru \u2013 tal sanha egoica, sua divina onipot\u00eancia: queimar-se prometeicamente. Ref\u00e9m do pr\u00f3prio monstro que inventou e inventa nos laborat\u00f3rios, quer dizer, da rela\u00e7\u00e3o sujeito-objeto, houvesse nas p\u00e1ginas por vir toda uma rebeli\u00e3o da objetividade contra a subjetividade que lhe foi a autora \u2013 Frankenstein que foi difundido epidemicamente e agora literariamente se dedura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dever\u00e1 o analista aprender a morrer. Fazer-se morto por seus monstrengos. Deles virar a cobaia. Sobretudo, aprender a matar o cientista que n\u00e3o raro o p\u00f4s, o p\u00f5e, em c\u00e2mara fria. Tudo no sentido de, a partir da poesia que corta com bisturi a barriga das palavras, vir o cr\u00edtico renascer como um poeta-obra-filho destes signos que rebentam e o examinam manchando de sangue suas m\u00e1scaras, lupas, \u00f3culos. Para tal, ter\u00e1 de descartar luvas antes mesmo de us\u00e1-las, tocando a carne s\u00edgnica exposta e sendo por ela tocado. Tocado, vale dizer, pela ferida, pelo di-ferimento, enfim, pela diferen\u00e7a de um livro n\u00e3o menos feito em laborat\u00f3rio, mas rindo, \u00e9 claro, de toda instrumenta\u00e7\u00e3o cir\u00fargica por onde se arrisca. Nesse monstro al\u00e7ado, o m\u00e9dico diferido poder\u00e1 se tornar diferente, passar a <em>paciente<\/em> (enfermo, o analista) e finalmente pronto para escrever.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Devemos renunciar, portanto, a imediata e pr\u00e9via fixa\u00e7\u00e3o de conceitos, fundamentos e representa\u00e7\u00f5es dados pelos sistemas e teorias, se quisermos de fato acolher e pensar o que a obra tem a nos dar como <em>crit\u00e9rio<\/em> (FERRITO <em>in <\/em>CASTRO et. al., 2014, p. 127;128)<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para transformar-se em m\u00e9dico dos m\u00e9dicos, o livro na sala de espera entra no jogo destes, estuda e difunde seu dialeto, para seduzi-los, tirando-os, com c\u00ednica frieza, da frieza que aprenderam, a que nos ensinaram \u2013 atrav\u00e9s dos formid\u00e1veis defuntos posados em form\u00f3is, para deleite cient\u00edfico, iluminista. Desde as aulas primeiras de anatomia. Trama-se gelada, \u00e0 revelia do derramamento, a carne-osso-livro, fosse um destes corpos mortos e prostitu\u00eddos por e para manuais. Finge-se m\u00e1quina para explorar (e, em sil\u00eancio, explodir) a rela\u00e7\u00e3o maqu\u00ednica com que os corpos vivos n\u00e3o raro convivem. N\u00e3o convivem. At\u00e9 que. At\u00e9 que o gelo revele sua dureza provis\u00f3ria, sua dureza de festim, seu simulacro. Porquanto as geleiras-corpo-palavra trazem um l\u00edquido por dentro, por fora: deixam-no escorrer quando, no entre-verbos, uma alta temperatura latente. At\u00e9 que. At\u00e9 que a m\u00e1quina supostamente sem vida surpreenda com a pilha, a bateria, o combust\u00edvel ou, por que n\u00e3o dizer, com o microorganismo, com o v\u00edrus que j\u00e1 e desde sempre tinha: a poesia. E o consult\u00f3rio cr\u00edtico se renda, <em>pilhado<\/em>, \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o. No queixo ca\u00eddo dos m\u00e9dicos, de todo e qualquer mundano colecionador de objetividade, e tamb\u00e9m de subjetividade, forjar\u00e1 o livro uma pr\u00f3tese do caos. No fim das taquicardias, das paradas card\u00edacas sofridas pelos marca-passos que os prometeus modernos criaram e puseram dentro de si; ap\u00f3s o colapso de toda esta tecnopatia em que se encurralam garbosamente, poder\u00e3o ganhar de volta os cora\u00e7\u00f5es de carne e oco pelas m\u00e3os das palavras inscritas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">( para aplacar a vontade ( in\u00fatil ? ) de habitar<br \/>\num corpo \/<br \/>\n( desde o \u00fatero ) todo esfor\u00e7o \u00e9 doloroso \/ experiment\u00e1-lo<br \/>\naos poucos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O corpo-livro de Alexandre Guarnieri \u2013 eis o nome do sujeito que s\u00f3 agora aparece porque deseja mesmo, a todo tempo, desaparecer, p\u00f4r a <em>subjetividade<\/em> (\u201cmal que tarda a sarar\u201d) em met\u00e1stase \u2013 obriga o corpo-cr\u00edtico ao vel\u00f3rio de muitas e muitas p\u00e1ginas em branco. \u00c0 inst\u00e2ncia em que tamb\u00e9m n\u00e3o seja mais sujeito de. Olhar o papel, a tela de um computador, o teclado, e n\u00e3o conseguir digitar, escrever nada, ou s\u00f3 escrever-digitar muitos e muitos brancos em p\u00e1gina. E demorar, demorar, na travessia pelo deserto; at\u00e9 que chegue, n\u00e3o chegue, ao consult\u00f3rio. At\u00e9 que o consult\u00f3rio seja ainda e, por excel\u00eancia, deserto. E a consulta atrase, at\u00e9 que. At\u00e9 que, recebendo um paciente-livro em dic\u00e7\u00e3o simp\u00e1tica \u00e0 est\u00e9tica m\u00e9dica, o doutor o receba como seu trai\u00e7oeiro redentor; seu cacto promissor de \u00e1gua em meio ao nada, a recrutar paci\u00eancia de camelo para arrancar da superf\u00edcie cortante o l\u00edquido (de festim?) que (n\u00e3o!) matar\u00e1 a sede. <em>Corpo de festim <\/em>p\u00f5e todo leitor, ouvinte, espectador, cr\u00edtico nesses \u00e1ridos contra-espelhos: como um outro e mesmo corpo morto, t\u00e9cnico, e de repente, a um s\u00f3 tempo, vivo, po\u00e9tico, quando se p\u00f5e o objeto-dejeto <em>eu<\/em> em pacto f\u00e1ustico consigo mesmo. Num \u201cdoloroso al\u00edvio, entre a puni\u00e7\u00e3o e o pr\u00eamio\u201d. Mas como? Como? Como ficar <em>doente<\/em> \u2013 chegar a tal m\u00e9todo justo \u2013 para ouvir e deixar uma escrita, toda esta escrita, falar?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9228\" aria-describedby=\"caption-attachment-9228\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9228 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna5.jpg\" alt=\"Alexandre Guarnieri\" width=\"370\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna5.jpg 370w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna5-222x300.jpg 222w\" sizes=\"auto, (max-width: 370px) 100vw, 370px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9228\" class=\"wp-caption-text\">Alexandre Guarniei \/ Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2\">\n<li>DEVEREI ESCREVER ANTES DE MORRER<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cr\u00edtico e obra podem, talvez, se encontrar, se reconhecer, entre a puni\u00e7\u00e3o e o pr\u00eamio, mediante o obsessivo <em>fisiculturismo <\/em>\u00ad\u00ad\u2013 a disposi\u00e7\u00e3o <em>fitness<\/em>, a boa forma f\u00edsica \u2013 com que encobrem e dissimulam as <em>pathos-logias<\/em> que os fundam, precisamente para que tal dissimula\u00e7\u00e3o se descubra como a grande verdade po\u00e9tica em curso. Assim sendo, para ensaiar, conforme o livro, a morte do eu no durante de uma hipertrofia, convoca o m\u00e9dico sua pr\u00f3pria biografia, de modo que tal exposi\u00e7\u00e3o se transforme \u2013 no instante da purga\u00e7\u00e3o ou ru\u00edna da <em>bios<\/em> que grafa \u2013 no apropriado corpus te\u00f3rico: a saber, trata-se de algu\u00e9m que cotidianamente se divide entre o tentar-se poeta e o teimar-se atleta. \u00c0 parte da agenda como cr\u00edtico, horas e horas a malhar os b\u00edceps, quando n\u00e3o a exercitar a palavra. Horas e horas a malhar a palavra, quando n\u00e3o a exercitar os b\u00edceps. O livro que o espera na antessala tamb\u00e9m almeja \u2013 e, de fato, j\u00e1 tem \u2013 perfeita <em>forma<\/em>. P\u00e1ginas e verbos bem torneados, tipografia e projeto gr\u00e1fico trabalhado com obsessivo rigor, nenhuma gordura: todo o volume de signos e sonoridades n\u00e3o abrange mais que massa magra. Talvez, destarte, caiba ao cr\u00edtico retirar ironicamente poesia do <em>atleta<\/em>, da atividade onde, n\u00e3o raro, o julgariam <em>do poeta<\/em> se afastar, devido \u00e0 f\u00fatil insist\u00eancia no culto \u00e0 forma, ao elogio da apar\u00eancia, nela suposta, esquivando-se da s\u00e9ria e essencial perscruta\u00e7\u00e3o do disforme \u2013 of\u00edcio deveras concernente a um literato que se preze. Talvez, talvez, caiba-lhe saltar sobre tal dicotomia e n\u00e3o mais se dividir, assim foi dito, entre o po\u00e9tico e o atl\u00e9tico, mas os somar, confundindo duas pr\u00e1ticas est\u00e9ticas em nome do desvelo desvairado de uma \u00e9tica de vida e de escrita. Alguma em que Dionisio sorrateiramente se infiltre nas engrenagens apol\u00edneas que, afinal, surjam t\u00e3o-s\u00f3 para evoc\u00e1-lo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Corpo de festim <\/em>extrai poesia de um formalismo \u2013 atletismo verbal, pl\u00e1stico, tipogr\u00e1fico \u2013 jamais gratuito, jamais verdadeiramente formalista (e eis o simulacro!): na verdade trai o que parece mec\u00e2nico ao propor-escrever uma \u201cmec\u00e2nica de fluidos\u201d, ou seja, ao guardar e vazar fluidos e flu\u00eancias de um Dionisio transverso \u00e0 secura, \u00e0 conten\u00e7\u00e3o, \u00e0 con-forma\u00e7\u00e3o do Apolo aparentemente aclamado. Toda a destrui\u00e7\u00e3o do <em>eu<\/em> por exerc\u00edcios r\u00edgidos constru\u00edda, toda a desmusicalidade afinada culmina na emo\u00e7\u00e3o e no (des)concerto (des)construtivista de um \u201clivro corporal ( sob o mart\u00edrio de ser escrito )\u201d: \u201conde estar\u00e1 guardado o cora\u00e7\u00e3o das coisas f\u00edsicas?\u201d, pergunta Alexandre Guarnieri \u2013 um nome pr\u00f3prio para o que, neste corpo de p\u00e1ginas, se faz menos autor do que uma corda vocal, uma laringe, uma boca, uma l\u00edngua. E um ouvido. Por onde o livro-corpo se conte. E salive. E resseque. E grite. E goze. E sue. E soe. E excrete, i. e., expulse o ego-c\u00e1lculo renal pela urina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">cometer o \u00fanico crime previs\u00edvel, qui\u00e7\u00e1 um ic\u00f4nico suic\u00eddio<br \/>\npela honra, ritualizado \u00e0 moda nip\u00f4nica, para destituir-me enquanto<br \/>\ns\u00edmbolo terr\u00edvel, do <em>self<\/em> \u00e0 tal persona po\u00e9tica, de toda a libido, do meu<br \/>\n&#8220;<strong>EU<\/strong> l\u00edrico&#8221; (esse <em>serial<\/em> <em>killer<\/em>, ou o meu m\u00edstico<em> inner being<\/em>), lan\u00e7ar-me<br \/>\naos ares num assento ejet\u00e1vel, p\u00f4r o ego em gravidade zero<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hipertrofia das palavras frequentemente em asson\u00e2ncia, alitera\u00e7\u00e3o, rima interna, externa, toante, em Alexandre Guarnieri transporta e transpira, na verdade, um sil\u00eancio hiper-tenso, amea\u00e7ador&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">qualquer soco, avaria \/ a\u00ed cada agulha<br \/>\nse calcula ou se anula \/ balb\u00fardia,<br \/>\nbarulho, algazarra que cada palavra<br \/>\ndeclara, tingindo toda ou alguma<br \/>\n\u00e1rea da p\u00e1gina mais alva<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 neste sentido que um <em>eu<\/em>-cr\u00edtico n\u00e3o menos hipertrofiado precisa repercutir, por entre o calculismo que toda <em>intelligentsia<\/em> dele espera, um discurso tamb\u00e9m hipertensivo, porque levado o corpo ao seu limite. Levado o ego ao limite do corpo. Ao limite das fibras musculares. Ao limite da press\u00e3o nas art\u00e9rias das palavras. At\u00e9 que nesse estresse a que se ofere\u00e7a, o projeto ego-centrista, j\u00e1 ego-exc\u00eantrico, extravie, e o corpo invenc\u00edvel reencontre o corpo finito, deixando \u201ctoda a vida contida numa ex\u00edgua part\u00edcula\u201d. De carbono, de letra, a cumprir a \u201cfant\u00e1stica e bizarra <em>via crucis <\/em>de todos os vivos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00e2nsia pela supera\u00e7\u00e3o, pela otimiza\u00e7\u00e3o da performance, por resultados maiores e mais r\u00e1pidos em sua di\u00e1ria atividade f\u00edsica levou o cr\u00edtico-atleta \u00e0 hipertens\u00e3o. Vinha, h\u00e1 algum tempo, utilizando estimulantes v\u00e1rios para suportar o tranco dos exerc\u00edcios, como um cientista, um m\u00e9dico, um analista pode se valer exageradamente de f\u00f3rmulas na promessa da efici\u00eancia. Ao saturar a m\u00e1quina-corpo com tais psicotr\u00f3picas subst\u00e2ncias, o atleta-cr\u00edtico queria mant\u00ea-la em m\u00e1xima concentra\u00e7\u00e3o, rendimento, impedindo-a de falhar. Mas, ao contr\u00e1rio, a m\u00e1quina, entupida dos subterf\u00fagios energ\u00e9ticos, passa a rejeit\u00e1-los, vomitando-os em refluxo. Apolo, enfim, nocauteado pelas cafe\u00ednas, taurinas, argininas, citrulinas, efedrinas dionis\u00edacas, as quais enlevam, mas sobretudo elevam a press\u00e3o. E eis uma chave para entender <em>Corpo de festim<\/em>. O de si, do cr\u00edtico <em>malhador<\/em>, mas o do livro de Guarnieri, a partir de alguma dial\u00e9tica instaur\u00e1vel entre a<em> doen\u00e7a do formalismo<\/em> e a <em>sa\u00fade da boa forma<\/em>. No primeiro caso, a atividade f\u00edsica da palavra conspiraria contra um corpo finito, mortal, humano, e na dire\u00e7\u00e3o de uma literatura abstrata, meramente conceitual e que n\u00e3o co-move. No segundo, o \u00e1rduo trabalho visaria a uma obra concreta, art\u00edstica, comovente, forte, em que pululam quest\u00f5es na autossustentabilidade cosmogonia-corpo dos signos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A musculatura verbal de Guarnieri se conquista atrav\u00e9s de uma tens\u00e3o (de uma contra\u00e7\u00e3o de fibras\/signos permanente), em nome de outra, a da alta press\u00e3o arterial, como que para afirmar &amp; negar \u2013 bagun\u00e7ar \u2013 os <em>sistemas<\/em> corporais. O virtuosismo do poeta est\u00e1, longe de opor <em>densidade verbomuscular <\/em>a <em>flexibilidade<\/em>, em alongar e flexibilizar os signos corporais enquanto os contrai; enquanto, por um tempo, os mant\u00e9m contra\u00eddos (um <em>personal trainer<\/em> diria: enquanto os mant\u00e9m em isometria), a fim de estimular, com intelig\u00eancia, a ambiguidade de uma linguagem <em>endurecida<\/em>. Porque, para afirmar &amp; negar \u2013 bagun\u00e7ar \u2013 o formalismo, o anatomismo ou <em>endurecimento<\/em> das viv\u00eancias e conviv\u00eancias, traindo o que no corpo \u00e9 corpo, o que no corpo \u00e9 mat\u00e9ria, \u00e9 disforme, \u00e9 caos por entre todo cosmos, e \u00e9 cosmos por entre todo caos, Guarnieri lan\u00e7a m\u00e3o de um ex\u00edmio e maquinal dom\u00ednio da forma e das f\u00f4rmas: manipula\u00e7\u00e3o de todo modo c\u00ednica. De maneira que o tra\u00e7o de cirurgi\u00e3o pl\u00e1stico (de artista pl\u00e1stico, designer, projetista gr\u00e1fico misturado ao do poeta) e toda a escultura <em>fitness<\/em> da poesia j\u00e1 n\u00e3o suscitem nenhum beletrismo (nada que ver com escans\u00f5es decassil\u00e1bicas, alexandrinas, o <em>ostinato rigore<\/em> a\u00ed impresso&#8230;), porquanto quer provocar a vigorexia ling\u00fc\u00edstica, semiol\u00f3gica, como a doen\u00e7a &amp; a sa\u00fade (a puni\u00e7\u00e3o &amp; o pr\u00eamio) do livro enquanto ser vivo: sua instigante monstruosidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poder-se-ia dizer: Alexandre Guarnieri chega ao celebrado verbo hiper-tensivo atrav\u00e9s de exerc\u00edcios de for\u00e7a, de resist\u00eancia, de pot\u00eancia, de hipertrofia, conforme os diversos tipos de s\u00e9rie encontrados nos receitu\u00e1rios de muscula\u00e7\u00e3o. Todas elas se baseiam em repeti\u00e7\u00f5es de movimentos, atingindo um grupo muscular por est\u00edmulos, contra\u00e7\u00f5es e velocidades variadas. Desse modo, para trabalhar os m\u00fasculos de determinado tema, o poeta realiza (treina) <em>s\u00e9ries<\/em> espec\u00edficas de poemas. Veja-se, por exemplo, a de abertura (\u201cDarwin n\u00e3o joga dados, Mallarm\u00e9 sim\u201d), a qual tem a g\u00eanese dos corpos por mote. Nela, o poeta realiza exerc\u00edcios <em>conjugados <\/em>(outro termo familiar aos profissionais da muscula\u00e7\u00e3o): \u201co \u00e1tomo de carbono (i)\u201d junto a \u201csangue \/ suor \/ e celulose (i)\u201d; \u201co \u00e1tomo de carbono (ii)\u201d junto a \u201csangue \/ suor \/ e celulose (ii)\u201d; o \u201c\u00e1tomo de carbono (iii)\u201d junto a \u201csangue \/ suor e \/ celulose (iii)\u201d, todos eles com 11 repeti\u00e7\u00f5es lentas, desempenhando, pois, trabalho de hipertrofia. Acrescem-se, a seguir, os 2 exerc\u00edcios com 7 repeti\u00e7\u00f5es de \u201c\\\\livre aberto\/\/\u201d, comum em trabalhos de for\u00e7a, mas conjugados \u00e0s 15 repeti\u00e7\u00f5es aceleradas de \u201c\u00e1tomo de caborno (iv)\u201d, t\u00edpicas de s\u00e9ries de resist\u00eancia. Como tal, fadigam mais rapidamente o m\u00fasculo, exigindo um intervalo maior de descanso para a retomada da atividade f\u00edsica, do pr\u00f3ximo exerc\u00edcio\/poema de resist\u00eancia em que consistir\u00e1 \u201c(( ( \u00fatero ~ incubadora ) ))\u201d, com vinte repeti\u00e7\u00f5es em <em>regressiva<\/em> e <em>progressiva<\/em> (outros termos t\u00e9cnicos do campo) e mais vinte em <em>progressiva<\/em> e <em>regressiva<\/em>. Para encerrar, as 16 repeti\u00e7\u00f5es\/versos de \u201cbem-vindo \u00e0 terra firme\u201d, na qual o poeta enfatiza o trabalho de resist\u00eancia face ao de for\u00e7a e hipertrofia do princ\u00edpio. Os tipos de treinamento v\u00e3o se alterando e alternando at\u00e9 o fim do livro, como se v\u00ea nas duas s\u00e9ries que restam (\u201ccorpo-s\u00f3-\u00f3rg\u00e3os\u201d e \u201cvigiar e punir\u201d), mas de maneira que a <em>press\u00e3o <\/em>arterial gradativamente se eleve, at\u00e9 o colapso hiper-tenso, grito final, do \u00faltimo poema: \u201cuma sequ\u00eancia de choques, somente interrompida pela morte\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poder-se-ia, ainda, dizer: uma sequ\u00eancia de contra\u00e7\u00f5es somente interrompida pela morte, as quais, no caso dos m\u00fasculos, compreendem duas fases \u2013 a conc\u00eantrica e a exc\u00eantrica \u2013 desempenhadas de modo <em>sui generis<\/em> pela sinergia das palavras e dos sinais de pontua\u00e7\u00e3o, respectivamente. A fase conc\u00eantrica \u00e9 a contra\u00e7\u00e3o realizada quando se levanta, se puxa, se retira do repouso um peso. Desse modo, \u00e9 quando o sil\u00eancio pesa e pede o empuxo \u2013 a volumiza\u00e7\u00e3o \u2013 da palavra contr\u00e1til. J\u00e1 a inst\u00e2ncia exc\u00eantrica se d\u00e1 quando novamente o m\u00fasculo se estende, se alonga, volta \u00e0 posi\u00e7\u00e3o inicial, mas n\u00e3o para culminar em repouso, em relaxamento (porquanto este s\u00f3 se cumpre no intervalo entre uma s\u00e9rie e outra, um exerc\u00edcio e outro, um poema e outro&#8230;): o retorno desacelerado da palavra\/m\u00fasculo para o sil\u00eancio j\u00e1 \u00e9 <em>significante<\/em>, ainda \u00e9 <em>for\u00e7a<\/em>, <em>linguagem<\/em>, <em>contra\u00e7\u00e3o<\/em>, s\u00f3 que exc\u00eantrica: preparo e imin\u00eancia de novo contrair conc\u00eantrico. Os sinais de pontua\u00e7\u00e3o n\u00e3o desempenham, assim, qualquer fun\u00e7\u00e3o sint\u00e1tica ou mesmo qualquer sem\u00e2ntica respirat\u00f3ria, posto que muscula\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 atividade aer\u00f3bica: des-cadenciando o inspirar e expirar de todo aerobismo, os dois pontos, as v\u00edrgulas, os colchetes, os par\u00eanteses funcionam como a justa dobra das contra\u00e7\u00f5es exc\u00eantricas e conc\u00eantricas das fibras verbais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 curioso \u2013 \u00e9 bizzaro e fant\u00e1stico \u2013 o fato de que, quando <em>Corpo de festim<\/em> se p\u00f5e a esperar por consulta com o m\u00e9dico-atleta, encontra-se o doutor na antessala de outros, a cuidar de seus pr\u00f3prios simulacros, a partir da constata\u00e7\u00e3o oportuna de que \u00e9 <em>de festim<\/em> seu <em>corpo<\/em>, uma vez que o pr\u00eamio da hipertrofia lhe trouxe a punitiva hipertens\u00e3o. Por isso, demora, atrasa-se para a conversa com o livro. Mas como se tal demora e atraso fossem necess\u00e1rios ao di\u00e1logo, pois assim pode a cr\u00edtica finalmente, com o enfraquecimento da \u00e2nsia disciplinar, de <em>vigiar e punir<\/em> as obras, escrever indisciplinada, quer dizer, abalada, abismada. Pode, outrossim, finalmente ouvir e dizer um <em>Corpo de festim<\/em> segundo os crit\u00e9rios que este imp\u00f5e, isto \u00e9, a partir da medida do pr\u00f3prio livro:<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">&#8230; a cr\u00edtica que dever\u00e1 se submeter \u00e0 obra e n\u00e3o mais a obra \u00e0 cr\u00edtica. Esta deve manter-se obediente (<em>ob-audire<\/em>, sob o cuidado do ouvir) para ouvir e corresponder ao que na obra se dar\u00e1, n\u00e3o como fundamento, mas como a pr\u00f3pria possibilidade de um dizer \u2013 apropriado (FERRITO <em>in <\/em>CASTRO et. al., 2014, p. 128).<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao tratar como m\u00e1quina seu corpo, o atleta-cr\u00edtico defrontou-se com o risco de pifar, de falhar no desempenho. Alexandre Guarnieri n\u00e3o escreve um livro sobre o culto ao corpo, mas escreve cultuando com rigorosa educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica \u2013 em alta performance \u2013 o corpo das palavras e das p\u00e1ginas enquanto coincidentemente se refere \u00e0s palavras e p\u00e1ginas dos mundos da ci\u00eancia-anatomia. Inflando-se o humano corpo com tal formalismo epistemol\u00f3gico, tal fisiculturismo\/maquinismo semiol\u00f3gico, sinaliza o escamotear das dores ontol\u00f3gicas pelos hodiernos sujeitos. Da\u00ed, um livro em tom de ci\u00eancia, mas com timbre de poesia. Ou um livro que traz, no timbre do cientista, o tom do poeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guarnieri lan\u00e7a o homem de nosso tempo nesta armadilha: pretendendo tudo controlar (cuidar, curar, <em>sarar<\/em>: definir), j\u00e1 nem controla seu pr\u00f3prio af\u00e3 controlador, remediador, destruindo mais que <em>sarando<\/em>, porque perdendo o que no humano e na vida n\u00e3o \u00e9 corpo <em>definido<\/em>, <em>sarado<\/em>, isto \u00e9, o que no humano e na vida n\u00e3o \u00e9 defini\u00e7\u00e3o. Toda defini\u00e7\u00e3o, objetiva\u00e7\u00e3o, \u00e9 obra da subjetividade. Neste sentido, a ambival\u00eancia de um corpo <em>sarado<\/em>: o corpo bem definido, bem delimitado, cuidado, <em>curado<\/em>, at\u00e9 que. At\u00e9 que o excessivo cuidado ou desejo de cura (o excessivo capricho da subjetividade) seja o grande descuido, a derradeira loucura. Pois, talvez, a desmesurada disciplina\/ci\u00eancia\/defini\u00e7\u00e3o\/delimita\u00e7\u00e3o seja a disfun\u00e7\u00e3o \u2013 a morte \u2013 do corpo. E eis ent\u00e3o tudo o que h\u00e1 de<em> sarado <\/em>\u2013 no cr\u00edtico, nos poemas, na cultura ocidental \u2013 <em>enquanto doente<\/em> de uma ideia\/ideal de corpo, de uma representa\u00e7\u00e3o de corpo, de uma categoriza\u00e7\u00e3o e funcionaliza\u00e7\u00e3o de corpo, de um corpo reduzido a significante e significado, de um corpo perdido de corpo, isto \u00e9, de sua presen\u00e7a inobjetiv\u00e1vel, a-s\u00edgnica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, de alguma maneira, Guarnieri dialoga explicitamente na primeira s\u00e9rie com Darwin e Mallarm\u00e9 (pondo a quest\u00e3o-corpo entre o determinismo evolucionista e a indeterminabilidade \u2013 o acaso \u2013 do lance de dados), implicitamente os fil\u00f3sofos contempor\u00e2neos Deleuze e Foucault ressoariam no t\u00edtulo das outras: \u201ccorpo-s\u00f3-\u00f3rg\u00e3os\u201d e \u201cvigiar e punir\u201d, respectivamente. A partir de uma express\u00e3o cunhada por Antonin Artaud (\u201ccorpo sem \u00f3rg\u00e3os\u201d), Deleuze cria um conceito para dizer n\u00e3o mais de um corpo extensivo, mas intensivo. Uma vez pr\u00e9-fixado, organizado, funcionaria o corpo como m\u00e1quina que trabalha para a produ\u00e7\u00e3o. Quando estamos, assim, reduzidos a um organismo, esgotamo-nos numa utilidade, funcionalidade, causalidade, inserindo-nos na vida e na sociedade para cumprir determinados fins. Neste sentido, o <em>desejo<\/em> \u00e9 reprimido, os \u00f3rg\u00e3os s\u00e3o capturados por uma l\u00f3gica ordenadora, disciplinar, capitalista. Dir\u00e1 Deleuze que o organismo n\u00e3o \u00e9 o corpo, o corpo-sem-\u00f3rg\u00e3os, mas um estrato sobre ele, ou seja, um fen\u00f4meno de acumula\u00e7\u00e3o, de coagula\u00e7\u00e3o, de sedimenta\u00e7\u00e3o que lhe imp\u00f5e formas, fun\u00e7\u00f5es, liga\u00e7\u00f5es, ordena\u00e7\u00f5es dominantes e hierarquizadas, transcend\u00eancias organizadas para extrair trabalho \u00fatil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Guarnieri abre uma s\u00e9rie com a express\u00e3o \u201ccorpo-s\u00f3-\u00f3rg\u00e3os\u201d, \u00e9 a esse organismo-corpo-represado que consciente ou inconscientemente remonta, para que, a um s\u00f3 tempo e ao rev\u00e9s, se profira um corpo liberto, fluente, vazante, sem \u00f3rg\u00e3os. Da\u00ed, a sub-s\u00e9rie \u201cmec\u00e2nica dos fluidos\u201d <em>dentro <\/em>de \u201ccorpo-s\u00f3-org\u00e3os\u201d, como que para (ainda usando duas express\u00f5es deleuzianas) criar <em>linhas de fuga<\/em>, ou ainda, <em>zonas de desterritorializa\u00e7\u00e3o<\/em> de algum corpo-s\u00f3-org\u00e3os cristalizado, ou com ele estabelecer uma dial\u00e9tica, uma <em>m\u00e1quina desejante<\/em>, uma l\u00edrica em meio a todo projeto anti-l\u00edrico das p\u00e1ginas, mediante o extravasamento de l\u00edquidos (suor, s\u00eamen, saliva, l\u00e1grima, urina, bile, pus, fleugma, leite materno) por onde a corporeidade consegue se abrir a imprevistas sensa\u00e7\u00f5es, disposi\u00e7\u00f5es, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o previamente estabelecidas. Deleuze faz s\u00f3 uma recomenda\u00e7\u00e3o no exerc\u00edcio de desorganiza\u00e7\u00e3o do corpo para torn\u00e1-lo pura intensidade: prud\u00eancia, cuidado, medida. Guarnieri parece ouvir o fil\u00f3sofo, laborando uma po\u00e9tica ao mesmo tempo prudente, aprumada e ousada. Decerto que, neste horizonte, a obra <em>Vigiar e punir <\/em>de Foucault apareceria menos parasita do que nutriente do livro: o livro termina com a den\u00fancia da hist\u00f3rica disciplinariza\u00e7\u00e3o dos corpos de nossa cultura; da cesura e censura imposta \u00e0s corporeidades (\u201c\u00e2nus humano (.) \u00f4nus santo\u201d). Esp\u00e9cie de protagonista das disciplinaridades e controles, o pr\u00f3prio <em>eu<\/em> \u2013 monstro fundamentalista \u2013 a ser demitido de sua <em>fun\u00e7\u00e3o<\/em>. Se ele mesmo \u00e9 \u2013 se o ideal da autoria \u00e9, se a subjetividade \u00e9 \u2013 a primeira das modernas constru\u00e7\u00f5es: o <em>construtivismo<\/em> da expressividade que, a todo tempo, Alexandre Guarnieri, com uma poesia <em>[des]<\/em> construtivista (<em>!!!<\/em>), tenta evacuar:<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">[&#8230;] me ausento,<br \/>\naustero e fr\u00edgido, da c\u00f3pula contigo, meu leitor (o rei que deponho<br \/>\ndo trono da alteridade), eu me livro de voc\u00ea a quem dirijo estas<br \/>\npalavras que escrevo sem segredo e nenhum del\u00edrio, enquanto eu<br \/>\nmesmo me incluo (ou excluo) destas inscri\u00e7\u00f5es por alguma convic\u00e7\u00e3o<br \/>\noriunda das teses, da mais seleta baderna, da efem\u00e9ride dos mais<br \/>\ns\u00e9rios intelectos, das disputas da academia sobre esta ou aquela forma<br \/>\nda poesia, sobre se estar decerto derivado ou negando aquela certa<br \/>\nm\u00e9trica palimpsesta, aquela l\u00edrica policialesca de protagonista<br \/>\nperseguido, oriunda dos tantos di\u00e1rios da dor de cotovelo dos mais<br \/>\nc\u00e9lebres poetas jovens de todos os tempos, e como num n\u00famero de<br \/>\nm\u00e1gica t\u00e3o misteriosamente brotado do papel impresso, como a<br \/>\njustificativa mais esdr\u00faxula para a suposta gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea<br \/>\nd\u2019alguma coisa viva em qualquer ambiente mal fechado por descuido,<br \/>\neste aceite que tomado por verdade pela inf\u00e2ncia da ci\u00eancia exigiria<br \/>\nagora, passado o susto, o mais habilidoso passe do escapista (&#8220;ah se<br \/>\nharry houdini voltasse \u00e0s vistas!&#8221;), o artista desaparecido sem deixar<br \/>\nvest\u00edgio, pois quantas vezes, tanto faz se no poema ou no cotidiano,<br \/>\no &#8220;eu&#8221;, essa celeuma tr\u00eamula, essa centelha presa ao medo da morte,<br \/>\nfincada bem no centro de uma mandala tramada no nada contra<br \/>\na ang\u00fastia do esquecimento, se quereria extinguir-se, retirar-se da<br \/>\nestrutura outrora concebida para receber a suntuosa presen\u00e7a da<br \/>\nrealeza no pal\u00e1cio da autoria, este &#8220;em si&#8221; f\u00edsico do pr\u00f3prio criador [&#8230;]<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bibliografia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CASTRO, Manuel Ant\u00f4nio de (et al)<em>. Convite ao pensar<\/em>. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2014.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Igor Fagundes<\/em><\/strong><em> \u00e9 poeta, ator, jornalista, ensa\u00edsta e professor. Doutor em Po\u00e9tica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor de Filosofia e Est\u00e9tica nos cursos de Gradua\u00e7\u00e3o em Dan\u00e7a da UFRJ. Escreveu cr\u00edtica para o Jornal do Brasil, Rascunho, Panorama da Palavra e em peri\u00f3dicos de arte, filosofia e literatura. Foi colaborador da Academia Brasileira de Letras. Publicou Transversais (Pr\u00eamio Estudantes do Brasil, 2000), Sete mil tijolos e uma parede inacabada (2004), por uma g\u00eanese do horizonte (Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Livraria Asabe\u00e7a, 2006) e zero ponto zero (2010). No g\u00eanero ensaio, publicou Os poetas est\u00e3o vivos \u2013 pensamento po\u00e9tico e poesia brasileira no s\u00e9culo XXI (Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Cidade de Manaus, 2008), 33 motivos para um cr\u00edtico amar a poesia hoje (2011) e permanecer sil\u00eancio \u2013 Manuel Ant\u00f4nio de Castro e o humano como obra (2011).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Igor Fagundes vislumbra caminhos em \u201cCorpo de Festim\u201d, novo livro do poeta Alexandre Guarnieri <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15749,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2359,2533,16],"tags":[2362,11,2361,2363,2360,127,189],"class_list":["post-9222","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-98a-leva","category-aperitivo-da-palavra","category-destaques","tag-alexandre-guarnieri","tag-aperitivo-da-palavra","tag-corpo-de-festim","tag-hipertrofia-hipertensa","tag-igor-fagundes","tag-poeta","tag-resenha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9222","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9222"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9222\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15750,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9222\/revisions\/15750"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15749"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9222"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9222"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9222"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}