{"id":9234,"date":"2015-01-31T20:58:49","date_gmt":"2015-01-31T22:58:49","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9234"},"modified":"2015-03-08T12:44:25","modified_gmt":"2015-03-08T15:44:25","slug":"dedos-de-prosa-i-33","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-33\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>M\u00e1rcia Denser<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_9236\" aria-describedby=\"caption-attachment-9236\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9236 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna3.jpg\" alt=\"Foto: Pedro Alles\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna3.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna3-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9236\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Pedro Alles<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Horizontes<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">porque sou eu quem vai ao encontro do destino que mora \u2013 e continuar\u00e1 morando, esperando \u2013 no Para\u00edso. Mas eu fui e voltei. Eu fui ontem e seriam 23:58 nos rel\u00f3gios da Paulista, 23:55 no farol da Casa Branca com Peixoto Gomide, porra, deviam estar andando ao contr\u00e1rio, contando o tempo que perdi ou j\u00e1 passou e ent\u00e3o devo estar um bocado atrasada para desmanchar esse cirquinho que j\u00e1 se armou antes, muito antes que os rel\u00f3gios da Paulista come\u00e7assem a contagem regressiva apontando o sentido desse passeio noturno \u00e0 tua casa, Marcos, desse desvio, porque sou eu quem vai ao encontro do que praticamente j\u00e1 rodou, o tal cirquinho que se armou com unhas e dentes, embora voc\u00ea me recebesse como se j\u00e1 esperasse, voc\u00ea tamb\u00e9m tem um faro de perdigueiro, meu chapa, I know, I know, voc\u00ea comendo e falando sem pausa para respirar, me deixar falar aquilo que eu vim para te dizer, que n\u00e3o somos n\u00f3s, n\u00e3o h\u00e1 nada conosco, ok, n\u00e3o precisa embarcar no meu sonho, voc\u00ea n\u00e3o tem que se arrebentar junto, voc\u00ea n\u00e3o precisa sofrer, eu tentando falar e j\u00e1 sentindo piedade daquilo que falava ou tentava falar e tamb\u00e9m daquilo que comia e n\u00e3o ouvia, repetindo de orelhada o que algu\u00e9m te orelhou, ora se esse n\u00e3o \u00e9 o gancho perfeito para o teu melodrama espanhol: uma mulher ansiosa por volta da meia-noite passando nesse teu apartamento que tem um vaso com uma arvorezinha seca com uma bandeirinha vermelha plantada na terra seca escrito Benvindo a Parati\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 e observando esse teu apartamento t\u00e3o pequeno, t\u00e3o 21<sup>\u00ba<\/sup> andar, t\u00e3o bloco C, caixinha de f\u00f3sforos pairando no oceano cleptoman\u00edaco dessa Cidade que n\u00e3o \u00e9 para quem n\u00e3o pode conquist\u00e1-la com unhas e dentes, de maneira que ent\u00e3o fica a\u00ed como quem comprou uma vitrine de doces para ficar do lado de fora, o nariz contra as luzes refletidas l\u00e1 embaixo e isto, Marcos, isto\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 me deixa t\u00e3o triste, benvindo, welcome, mas voc\u00ea sem essa de welcome contudo botando filhodaputamente uns cds com aquelas m\u00fasicas tristes e \u00famidas e burras e relembrando (reminds) aquela noite em que voc\u00ea\u00a0 botou os mesmos CDs \u00famidos e burros e t\u00e3o Philip Glass, percebe como a arma\u00e7\u00e3o desse teu cirquinho \u00e9 maluca? Roda, gira, sofrendo antecipadamente de saudades da mulher que voc\u00ea vai mandar embora eu esteja na tua frente e de touca, da mulher que voc\u00ea ama desesperadamente e sofrendo na minha frente, como se eu j\u00e1 n\u00e3o estivesse mais ao alcance do teu abra\u00e7o, dessa mulher que precisa beber para trepar, foi o que voc\u00ea disse rapidamente desviando o rosto e j\u00e1 se sentindo como um v\u00f4mito, mas eu ainda estava de touca e inocente e parada na sua, s\u00f3 que voc\u00ea j\u00e1 tinha dado o pira, a alma e o cora\u00e7\u00e3o em Parati, enquanto eu tirava a roupa, deitava ao lado de voc\u00ea que j\u00e1 dormia t\u00e3o distante, l\u00e1 longe em Parati, virado para o canto. Como antes. Como sempre. Como toda noite at\u00e9 amanhecer. Da\u00ed eu levantei e me vesti e disse sim, voc\u00ea fez o poss\u00edvel, amor meu, s\u00f3 que eu n\u00e3o programei n\u00e3o engendrei nada disso, foram os rel\u00f3gios da Paulista que marcavam o tempo ao contr\u00e1rio, estavam andando de costas, como se n\u00e3o se importassem para onde iam e sim onde estiveram, ent\u00e3o encontrei aqui o cirquinho armado para amanh\u00e3, de forma que flagrei o destino 24 horas antes: estava marcado para esta noite, eu na frente do tempo. Sim, Marcos, muitos problemas, meus e teus, individualmente, n\u00e3o nossos, claro, clar\u00edssimo. Mas os problemas s\u00e3o como velhos aquecedores: funcionam muito bem at\u00e9 o dia em que explodem na tua cara. Tique-taque, tique-taque, tudo ia t\u00e3o bem, tique-taque, tique-taque. E ele, voc\u00ea n\u00e3o arruma nada, n\u00e3o tem estrutura, joga tudo pela casa, voc\u00ea n\u00e3o tem modos e eu, calada, e ele, voc\u00ea n\u00e3o tem grana, voc\u00ea s\u00f3 tem pose, e eu, enumere, vamos enumere, se n\u00e3o voc\u00ea cai, ent\u00e3o diz, porque n\u00e3o diz logo na minha cara, e ele, misterioso, n\u00e3o antes dessa noite, e eu, mas acontece que meu cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 marcado para esta noite. Estava, quero dizer. E ele, voc\u00ea n\u00e3o tem outra coisa na cabe\u00e7a, garota? N\u00e3o, n\u00e3o tenho saco, \u00e9 isso. E fui descendo, os olhos mareados, porque eu n\u00e3o posso, porque eu n\u00e3o devo, n\u00e3o quero, n\u00e3o preciso, porque meu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 marcado para hora nenhuma, meu cora\u00e7\u00e3o a ti pertence e \u00e0s nove da manh\u00e3 fiz sinal para o Vila Madalena, subi e ent\u00e3o vi aquela muralha de corpos e bancos na minha frente.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como um horizonte de marcos.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span> \u00a0Ou cruzes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A escritora paulistana <strong>M\u00e1rcia Denser<\/strong> publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos mot\u00e9is (1981), Exerc\u00edcios para o pecado (1984), A ponte das estrelas (Best-Seller, 1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II \u2013 obra escolhida (Record, 2008). \u00c9 traduzida em nove pa\u00edses e em dez l\u00ednguas. Dois de seus contos \u2013 \u201cO vampiro da Alameda Casabranca\u201d e \u201cHell\u2019s Angel\u201c \u2013 foram inclu\u00eddos nos Cem melhores contos brasileiros do s\u00e9culo, organizado por \u00cdtalo Moriconi, sendo que \u201cHell\u2019s Angel\u201c est\u00e1 tamb\u00e9m entre os Cem melhores contos er\u00f3ticos universais. Mestre em Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica pela PUC-SP, \u00e9 pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca S\u00e9rgio Milliet em S\u00e3o Paulo. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A via crucis da paix\u00e3o no conto de M\u00e1rcia Denser<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":9235,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2359,2534,16],"tags":[516,81,41,2364,2312,2365,149],"class_list":["post-9234","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-98a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-marcia-denser","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-horizontes","tag-narrativa","tag-paixao","tag-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9234","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9234"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9234\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9257,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9234\/revisions\/9257"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9235"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9234"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9234"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9234"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}