{"id":9249,"date":"2015-01-31T21:25:51","date_gmt":"2015-01-31T23:25:51","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9249"},"modified":"2018-12-06T09:00:58","modified_gmt":"2018-12-06T12:00:58","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-32","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-32\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escrita criativa rende bons paralelos. O escritor <strong>Rafael Mendes<\/strong> encontra o seu melhor em Hemingway, nas p\u00e1ginas salubres de \u201cO velho e o mar\u201d: \u201cSantiago lutou por dias para pescar o grande peixe. Ele queria pesc\u00e1-lo para mostrar aos amigos, aos demais pescadores, dizer que havia conseguido. Contudo, depois de ter finalmente pescado, ele j\u00e1 n\u00e3o se preocupa tanto se levar\u00e1 ou n\u00e3o o peixe para a praia, para mostrar para os outros. Com o escritor \u00e9 da mesma maneira: \u00e9 melhor se preocupar em fazer um bom texto, com uma linguagem apropriada, personagens bens desenvolvidos, enfim, se preocupar com a pesca em si. Se conseguir\u00e1 ou n\u00e3o publicar, ou, nessa analogia, levar o livro-peixe at\u00e9 \u00e0 praia, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De peixes tamb\u00e9m trata seu novo romance, \u201cF\u00f4lego\u201d. Os peixes-fantasma, os peixes-mentira produtos das pescarias de um pai que oculta um segredo. Traduzi-lo ou, de certa forma, exorciz\u00e1-lo \u00e9 o motor que embala o fluxo de consci\u00eancia do filho, agora adulto, a revisitar a inf\u00e2ncia marcada por momentos intransitivos de suspeitas e de afli\u00e7\u00f5es. O n\u00e3o-dito \u00e9 o que provoca a ru\u00edna familiar. De fato, o desmoronamento inaudito de todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mendes tem, em sua literatura, a simplicidade que significa o trato da pesca. Tal qual o velho Santiago, sabe que fisgar o peixe grande requer paci\u00eancia e per\u00edcia. Levar o tempo necess\u00e1rio para conformar o universo ficcional, esmerar seus detalhes, desenvolver os personagens e suas motiva\u00e7\u00f5es, escalar a melhor maneira de contar suas hist\u00f3rias. Chegar \u00e0 praia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta entrevista, Mendes fala do fazer ficcional, do exerc\u00edcio de procura que cativa seus anseios e objetivos na composi\u00e7\u00e3o de suas tramas. Mas tamb\u00e9m de educa\u00e7\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o de leitores, mercado editorial, primeiro livro, autores contempor\u00e2neos e qual escritor convidaria para tomar umas cervejas. Tudo com a lucidez de quem defronta a imensid\u00e3o do mar e sabe de suas certezas e de seus perigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNingu\u00e9m pede pra gente escrever, a gente escreve porque gosta, porque n\u00e3o pode viver sem escrever. Portanto, se \u00e9 para escrever por paix\u00e3o, que se fa\u00e7a isso sem pressa, com cuidado e em busca, sempre, da excel\u00eancia, ainda que ela seja inalcan\u00e7\u00e1vel. E tem que saber que pode n\u00e3o dar certo, que a carreira por um motivo ou outro pode n\u00e3o vingar\u201d. Embarque nesse papo e deixe que o curso das palavras lhe conduza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15746\" aria-describedby=\"caption-attachment-15746\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna-i-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15746 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna-i-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna-i-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna-i-1-300x242.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15746\" class=\"wp-caption-text\">Rafael Mendes \/ Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Nos contos de &#8220;A melhor maneira de comprar sapato&#8221;, antologia que marca sua estreia liter\u00e1ria, h\u00e1 uma forte presen\u00e7a da inf\u00e2ncia como um per\u00edodo transformador, de ruptura, e at\u00e9 mesmo de forma\u00e7\u00e3o precoce. Esse efeito se repete agora em &#8220;F\u00f4lego&#8221;, romance rec\u00e9m-lan\u00e7ado. A que ponto existe a\u00ed o assombramento de elementos factuais? Partindo da premissa de que todo escritor recorre \u00e0 mem\u00f3ria em algum momento do processo criativo, de onde s\u00e3o resgatadas suas hist\u00f3rias?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> Recorro \u00e0 mem\u00f3ria para escrever, sim, mas n\u00e3o conto ou reconto a minha pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Eu diria que \u00e9 mais uma mem\u00f3ria coletiva, da minha gera\u00e7\u00e3o, dos meus amigos e familiares. Tem muito de mim, obviamente, porque s\u00f3 se escreve sobre aquilo que se conhece, mas n\u00e3o posso dizer que meus textos s\u00e3o autobiogr\u00e1ficos. A mim interessa mais as rela\u00e7\u00f5es humanas, v\u00eam da\u00ed as minhas hist\u00f3rias; quando conto um epis\u00f3dio da inf\u00e2ncia, na verdade eu estou contando as rela\u00e7\u00f5es das pessoas em torno da crian\u00e7a-personagem: os pais, os amigos, a primeira namorada, os irm\u00e3os. N\u00f3s n\u00e3o lembramos de toda a nossa inf\u00e2ncia; lembramos de passagens espec\u00edficas, que nos s\u00e3o caras por um motivo ou outro. E nessas passagens sempre h\u00e1 uma pessoa querida envolvida. S\u00e3o a essas rela\u00e7\u00f5es que eu recorro para escrever.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Por\u00e9m, al\u00e9m da incid\u00eancia da mem\u00f3ria, h\u00e1 um intenso poder de observa\u00e7\u00e3o nos seus textos, concorda? O conto que d\u00e1 nome \u00e0 antologia, por exemplo, em que uma mulher humilde resgata a lembran\u00e7a de, quando menina, ir com a m\u00e3e comprar um sapato soa t\u00e3o real que se assemelha a um fato acomodado na fic\u00e7\u00e3o. O quanto de realidade cabe na sua literatura? H\u00e1 esse olhar um tanto de cronista no papel de contista?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES \u2013<\/strong> Concordo. A observa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental no meu processo de escrita. \u00c9 papel do escritor registrar o seu tempo, a sua sociedade, o seu pa\u00eds, embasado no seu olhar. Tchekhov, por exemplo, escrevia essencialmente para o povo russo, sem a preocupa\u00e7\u00e3o em atingir ou n\u00e3o outras culturas. Vem dessa seara o magn\u00edfico conto \u201cOs Mujiques\u201d. A meu modo, tento fazer o mesmo: registrar a minha localidade, as pessoas comuns, gente que encontramos no trem ou at\u00e9 mesmo em uma loja de sapatos. Isto, \u00e9 claro, aliado aos motes universais da literatura, como o amor, a perda, etc. Nesse aspecto, meus textos est\u00e3o muito pr\u00f3ximos da realidade, pois escrevo sobre fatos corriqueiros e conhecidos de muita gente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Onde, ent\u00e3o, voc\u00ea encontrou os integrantes do n\u00facleo familiar de &#8216;F\u00f4lego&#8217;? Para onde precisou olhar para captur\u00e1-los?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> Olhei ao meu redor. A hist\u00f3ria da fam\u00edlia de \u201cF\u00f4lego\u201d \u00e9 na verdade um apanhado de hist\u00f3rias de outras fam\u00edlias, de amigos, de familiares, ou at\u00e9 mesmo de livros, filmes e not\u00edcias de jornal. Por isso referi-me a uma esp\u00e9cie de mem\u00f3ria coletiva. As nossas hist\u00f3rias, alguns fatos da nossa vida de um modo em geral, tendem a se repetir com outras pessoas, outros lares. O que \u00e9 narrado em \u201cF\u00f4lego\u201d n\u00e3o \u00e9 extraordin\u00e1rio: poderia ser a vida de muita gente, inclusive a do leitor. Talvez, por uma suposta empatia do leitor em alguns trechos, para com a fam\u00edlia de \u201cF\u00f4lego\u201d, leva-se a pensar que h\u00e1 no texto mais realidade do que fic\u00e7\u00e3o. Mas, ao aglutinar diversas hist\u00f3rias em uma \u00fanica narrativa, e acrescer a essa narrativa uma linguagem e uma estrutura romanesca, o que prevalece \u00e9 a fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; E, ao retratar um n\u00facleo de personagens humildes, pessoas simples, isso acaba por contaminar sua prosa que, diferente da tend\u00eancia atual da literatura contempor\u00e2nea, prima pela simplicidade, pela linearidade, pelo narrar cronol\u00f3gico. Essa \u00e9 uma busca natural ou h\u00e1 uma motiva\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica nesse processo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> Se eu busco retratar pessoas sem muitos recursos ou ambi\u00e7\u00f5es, pessoas simples, \u00e9 natural que minha literatura tamb\u00e9m caminhe no sentido da simplicidade, da concis\u00e3o. Tento escrever como os meus personagens escreveriam, como eles pensam, com um l\u00e9xico reduzido, sem inova\u00e7\u00f5es, mas com o cuidado para n\u00e3o descambar em um preconceito lingu\u00edstico. Talvez haja a pretens\u00e3o de que pessoas como as que eu retrato tamb\u00e9m possam ler o meu texto sem dificuldade. Isto, contudo, de maneira alguma \u00e9 f\u00e1cil. \u00c9 a m\u00e1xima do Graciliano: \u201cEscrever f\u00e1cil \u00e9 dif\u00edcil\u201d. Assim, al\u00e9m da busca natural, h\u00e1, tamb\u00e9m, uma inten\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica no meu processo de escrita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Interessante essa mescla de pendor natural e t\u00e9cnica, pois acaba por desvelar um procedimento que oculta uma complexidade dentro de um escopo simples, sem cair na pieguice ou ser simpl\u00f3rio. Falando em processo de escrita, conte um pouco da sua rotina. Qual o tempo reservado para sua literatura?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> Eu penso muito antes de escrever. S\u00f3 parto para a escrita, propriamente, quando aquilo que quero contar j\u00e1 est\u00e1 pronto na minha mente. Esse processo pode durar meses, at\u00e9 anos. Observo as pessoas e o cen\u00e1rio que quero registrar. Nesse \u00ednterim vou anotando, pesquisando, lendo. Depois parto para a escrita, que \u00e9 outro processo dispendioso. Sinto-me muito realizado quando consigo escrever um par\u00e1grafo decente, em um dia trabalho. Em seguida, tem a reescrita, que \u00e9 o que mais gosto. O ajuste das palavras, a estrutura dos par\u00e1grafos, o labor. Tamb\u00e9m trabalho com escaletas, plots, resumos. Fa\u00e7o detalhamento dos personagens, tra\u00e7o uma ordem cronol\u00f3gica, uso planilhas. Por fim, fa\u00e7o cortes, aparo as arestas, deleto par\u00e1grafos inteiros. Isto pode dar a entender que o processo \u00e9 puramente t\u00e9cnico, mas \u00e0s vezes a narrativa segue um caminho contr\u00e1rio ao que eu havia planejado, no in\u00edcio. Em F\u00f4lego, por exemplo, h\u00e1 um personagem que, no meu planejamento, n\u00e3o morreria. No entanto, durante a escrita, entendi que somente a morte dele justificaria aquilo que \u00e9 narrado, pois o tema principal do livro \u00e9 a imprevisibilidade da morte e a impot\u00eancia perante ela. Esses desvios no processo, esses descaminhos, me fascinam. Muitos escritores j\u00e1 disseram que alguns personagens ganham vida pr\u00f3pria, enquanto est\u00e3o sendo criados. \u00c9 claro que, tratado de modo leviano, parece surreal; mas, analisando atentamente, \u00e9 isto o que acontece. Qual o tempo reservado para a minha literatura? Eu diria que \u00e9 todo o tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O cumprimento dessas etapas acaba por desmistificar a ideia que condena o escritor a ser ref\u00e9m de uma luz repentina, o poder et\u00e9reo da inspira\u00e7\u00e3o. O que h\u00e1 realmente, como bem disse, \u00e9 labor. Mas existem diferentes tipos de manufaturas? Com uma antologia e um romance lan\u00e7ados, voc\u00ea entende que h\u00e1 uma t\u00e9cnica para se escrever um conto que se distingue daquela utilizada para a constru\u00e7\u00e3o de uma narrativa longa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> A mesma dedica\u00e7\u00e3o que despendo em um romance, aplico na constru\u00e7\u00e3o de um conto. \u00c9 natural que o tempo necess\u00e1rio para terminar um conto \u00e9 menor, mas, ao considerar que tamb\u00e9m penso muito sobre o conto que quero escrever, antes da execu\u00e7\u00e3o, diria que a manufatura \u00e9 a mesma que a do romance. Existem aspectos que distinguem um g\u00eanero do outro: um conto moderno deve conter duas narrativas, uma aparente e outra oculta, nas entrelinhas, ideia defendida por muitos contistas e que eu corroboro. Fazer isto com precis\u00e3o, contudo, requer muita disciplina. J\u00e1 o romance \u00e9 feito de camadas, a passagem de tempo \u00e9 maior, os personagens s\u00e3o mais desenvolvidos, h\u00e1 mais de um tema abordado. Conto e romance s\u00e3o g\u00eaneros distintos; o autor que se predisp\u00f5e a investir na escrita dos dois deve dedicar o mesmo esmero tanto a um quanto a outro, considerando as suas respectivas peculiaridades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; No entanto essa passagem do conto para o romance \u00e9 vista, por muitos editores, como um sinal de amadurecimento. H\u00e1 uma ideia de que o conto seria uma pr\u00e9via, um tipo de ac\u00famulo de experi\u00eancia para se angariar f\u00f4lego para a tessitura de um romance. Voc\u00ea se preocupou com isso? Dentro do seu projeto liter\u00e1rio, estava programado o lan\u00e7amento de uma antologia para marcar a sua estreia e, logo em seguida, partir para a narrativa longa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> De modo algum eu programei lan\u00e7ar meus contos primeiro. Costumo brincar que os contos foram publicados no susto. Em 2011, eu havia conclu\u00eddo uma das vers\u00f5es de um romance, que permanece in\u00e9dito, e minha inten\u00e7\u00e3o era public\u00e1-lo. Antes disso, por\u00e9m, eu reuni os meus contos; reli e reescrevi grande parte deles. Como era um volume o suficiente para uma antologia, resolvi enviar para duas ou tr\u00eas editoras. Queria mais testar o mercado, ver como funcionava o processo de submiss\u00e3o de originais. N\u00e3o pensava que alguma editora fosse querer publicar o meu volume; mas a Karla Melo, da Confraria do Vento, leu e gostou. No ano seguinte, \u201cA Melhor Maneira De Comprar Sapato\u201d foi publicado. Depois disso eu me debrucei na conclus\u00e3o de \u201cF\u00f4lego\u201d, que acaba de ser lan\u00e7ado. Quanto ao meu outro romance, que a principio gostaria que marcasse a minha estreia, investi em mais um processo de reescrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Qual foi a sensa\u00e7\u00e3o de ter seu primeiro livro em m\u00e3os e como o enxerga hoje, depois de alguns anos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> A sensa\u00e7\u00e3o, num primeiro momento, \u00e9 muito boa. Ter ISBN, o nome na capa, ver o seu texto com um acabamento, um bom projeto gr\u00e1fico, como s\u00e3o todos os livros da Confraria do Vento, \u00e9 muito legal. Mas antes de publicar eu j\u00e1 escrevia h\u00e1 alguns anos, vinha me preparando, de modo que sabia que mais cedo ou mais tarde sairia alguma publica\u00e7\u00e3o. O escritor in\u00e9dito costuma se preocupar com isso, em ver o seu livro impresso, para mostrar para os amigos, os pares. Eu tamb\u00e9m me preocupava. No entanto, depois de publicado, a gente percebe que isso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante assim. Tra\u00e7o um paralelo com \u201cO velho e o Mar\u201d, do Hemingway: Santiago lutou por dias para pescar o grande peixe. Ele queria pesc\u00e1-lo para mostrar aos amigos, aos demais pescadores, dizer que havia conseguido. Contudo, depois de ter finalmente pescado, ele j\u00e1 n\u00e3o se preocupa tanto se levar\u00e1 ou n\u00e3o o peixe para a praia, para mostrar para os outros. Com o escritor \u00e9 da mesma maneira: \u00e9 melhor se preocupar em fazer um bom texto, com uma linguagem apropriada, personagens bens desenvolvidos, enfim, se preocupar com a pesca em si. Se conseguir\u00e1 ou n\u00e3o publicar, ou, nessa analogia, levar o livro-peixe at\u00e9 \u00e0 praia, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante. \u201cMais importante \u00e9 escrever\u201d, disse o escritor paulista Jo\u00e3o Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Digo isso porque, um pouco antes, voc\u00ea mencionou que tinha no original da antologia uma pe\u00e7a para testar o mercado editorial. Obviamente que, mesmo \u00e0s cegas, voc\u00ea foi bem sucedido, com a publica\u00e7\u00e3o do seu livro. Mas, deixando isso de lado, qual a impress\u00e3o geral que teve. Fazendo uma analogia com a vis\u00e3o do abismo, o mercado editorial brasileiro \u00e9 uma queda tomada pela escurid\u00e3o mais densa, no qual apenas alguns privilegiados t\u00eam o direito de brandir suas lanternas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> N\u00e3o vejo o mercado editorial como um vil\u00e3o, como um abismo. O mercado \u00e9 justamente isto, um mercado, que vive de receita. Se o processo est\u00e1 errado, se existem alguns privilegiados, todas as partes da cadeia possuem uma parcela de culpa: as livrarias, as editoras, os autores e at\u00e9 mesmo o leitor. Tem muita gente publicando atualmente. Existe muita oferta para pouca demanda; por isso \u00e9 admiss\u00edvel que as livrarias exponham os t\u00edtulos que mais vendem, as tend\u00eancias do momento. S\u00e3o esses livros que pagar\u00e3o os sal\u00e1rios dos livreiros, dos distribuidores, etc. Da mesma maneira as grandes editoras, que sustentam o mercado, precisam de autores midi\u00e1ticos, que atrair\u00e3o p\u00fablico; s\u00f3 assim se paga um investimento em um ou outro autor iniciante, ou em um autor destinado a um p\u00fablico mais restrito. Se os autores que possuem destaque, por algum motivo que n\u00e3o seja a obra em si, s\u00e3o privilegiados? N\u00e3o sei; talvez eles estejam no lugar certo, na hora certa. O que n\u00e3o \u00e9 certo, para mim, \u00e9 o descaso do governo com a educa\u00e7\u00e3o, que pouco incentiva a leitura. Um autor tamb\u00e9m deve entender esse cen\u00e1rio, \u00e9 mais f\u00e1cil assim. Quem se predisp\u00f5e a escrever literatura, tem que saber que \u201c\u00e9 uma arte feita por poucos, e para poucos\u201d, como diria Autran Dourado. \u00c9 claro que todo escritor quer ser lido pelo m\u00e1ximo de pessoas poss\u00edvel, mas esta n\u00e3o deve ser uma preocupa\u00e7\u00e3o imediata. Um escritor com entendimento disso, para mim, consegue escrever com mais liberdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15747\" aria-describedby=\"caption-attachment-15747\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna-ii-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15747 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna-ii-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna-ii-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna-ii-1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15747\" class=\"wp-caption-text\">Rafael Mendes \/ Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voc\u00ea cita pontos fundamentais para se entender a literatura brasileira, que vou dividir em duas perguntas. A primeira refere-se ao debute liter\u00e1rio. Parece muito dif\u00edcil, e at\u00e9 presun\u00e7oso, convencer um autor n\u00e3o-publicado de que o mais importante \u00e9 trabalhar sua escrita, lapid\u00e1-la, buscar alternativas de publica\u00e7\u00e3o em blogs, sites liter\u00e1rios, revistas, antes de evidentemente se preocupar em lan\u00e7ar o primeiro livro. Essa postura, inclusive, pode ser associada \u00e0 inscri\u00e7\u00e3o em concursos liter\u00e1rios que revelam autores. Preparar um original, visando a exclusiva participa\u00e7\u00e3o em concursos. Voc\u00ea chegou a mandar algum original para um pr\u00eamio liter\u00e1rio? O que pensa dessas oportunidades para escritores in\u00e9ditos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> Para mim, um autor que se convence disso mostra uma postura contr\u00e1ria \u00e0 presun\u00e7\u00e3o. Um escritor deve saber de sua condi\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m pede pra gente escrever, a gente escreve porque gosta, porque n\u00e3o pode viver sem escrever. Portanto, se \u00e9 para escrever por paix\u00e3o, que se fa\u00e7a isso sem pressa, com cuidado e em busca, sempre, da excel\u00eancia, ainda que ela seja inalcan\u00e7\u00e1vel. E tem que saber que pode n\u00e3o dar certo, que a carreira por um motivo ou outro pode n\u00e3o vingar. Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro dizia, sobre escritores iniciantes, que um \u201cescritor tem que ter sorte, perseveran\u00e7a e talento. Talento inclusive para assumir, um dia, se necess\u00e1rio for, que n\u00e3o tem talento\u201d. Se um escritor se preocupar em lapidar a sua escrita, buscar alternativas como blogs, revistas, etc., um dia acontecer\u00e1 a publica\u00e7\u00e3o convencional, em livro. Isso \u00e9 consequ\u00eancia de um trabalho. Eu, particularmente, publico muito pouco em formatos alternativos. N\u00e3o tenho nada contra, acho v\u00e1lido, mas, como eu disse, n\u00e3o tenho pressa em ver meu texto publicado. Sobre os concursos, eu os considero important\u00edssimos. \u00c9 uma forma de balizar uma carreira que est\u00e1 come\u00e7ando, de incentivar. Nunca participei de nenhum concurso porque meus textos costumam n\u00e3o se enquadrar nos formatos que os editais pedem. Normalmente tem que ter um n\u00famero m\u00ednimo de laudas, que meus textos n\u00e3o alcan\u00e7am. \u201cF\u00f4lego\u201d, por exemplo, \u00e9 um texto bem reduzido; \u00e9 um romance, em sua estrutura, \u201cinacabado\u201d. Por isso ele \u00e9 pequeno. N\u00e3o faria sentido eu aumentar a narrativa, acrescer algo sup\u00e9rfluo, somente para preparar o texto para um concurso. Ent\u00e3o eu estou fora do p\u00e1reo, n\u00e3o concorro. Os autores que submetem os originais a concursos s\u00e3o lidos por autores e cr\u00edticos de renome, e vencem, eu os admiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A segunda cabe \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre leitor e aumento da publica\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma enorme desigualdade a\u00ed, n\u00e3o acha? O que me parece \u00e9 que temos, hoje, uma realidade onde, se muito, autores leem autores. Penso que \u00e9 uma quest\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o, sim, mas n\u00e3o se resume a isso. Um exemplo \u00e9 que livros estrangeiros lideram a prefer\u00eancia de leitura e vendem muito bem. O que pensa dessa equa\u00e7\u00e3o? Por que os autores contempor\u00e2neos brasileiros n\u00e3o despertam o interesse dos leitores daqui?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> O que vende bem no Brasil, salvo exce\u00e7\u00f5es, s\u00e3o os romances norte-americanos. Romances que j\u00e1 saem fadados a virar filme, no futuro. S\u00e3o roteiros adaptados, livros feitos nos moldes para atenderem \u00e0 ind\u00fastria de entretenimento. Este \u00e9 o mesmo fen\u00f4meno que acontece nos nossos cinemas: raramente se v\u00ea um circuito de filme nacional, nas grandes redes, nos shoppings. O que entra em cartaz s\u00e3o os blockbusters. No teatro \u00e9 a mesma coisa: as pe\u00e7as que recebem os maiores investimentos s\u00e3o as adapta\u00e7\u00f5es de musicais da Broadway. Muito se fala em globaliza\u00e7\u00e3o, mas o que \u00e9 feito com a cultura \u00e9 uma americaniza\u00e7\u00e3o. Penso que o governo deveria ser mais incisivo quanto a isto; n\u00e3o com normativas, com imposi\u00e7\u00e3o, mas, insisto, com educa\u00e7\u00e3o. Temos que formar leitores exigentes. Dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o brasileira s\u00e3o analfabetos funcionais, e isto \u00e9 uma vergonha. Os autores contempor\u00e2neos brasileiros escrevem textos aprofundados, que despertam o pensamento cr\u00edtico e exigem uma compenetra\u00e7\u00e3o maior, na leitura. Acontece que a nossa popula\u00e7\u00e3o, em sua maioria, e infelizmente, jamais teve acesso a isto, e prefere uma literatura mais f\u00e1cil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Essa \u00e9 uma discuss\u00e3o muito interessante. Vejo a\u00ed tamb\u00e9m uma influ\u00eancia direta das escolas secund\u00e1rias que, ainda hoje, exigem que o aluno, no per\u00edodo em que est\u00e1 cultivando sua forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, leia os mesmos livros que h\u00e1 30, 40 anos, estes constitu\u00eddos por uma linguagem erudita e tem\u00e1ticas estranhas \u00e0 sua \u00e9poca. Penso que autores como Luiz Vilela, Fernando Sabino, Clarice Lispector, entre tantos outros, seriam muito mais atrativos, mais emp\u00e1ticos do que aqueles cujas leituras s\u00e3o exigidas exclusivamente para a solu\u00e7\u00e3o de uma prova. N\u00e3o acha que, depois de cumprida a alfabetiza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 a\u00ed um outro erro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> Sim, h\u00e1 mais erros. A quest\u00e3o n\u00e3o passa somente pela alfabetiza\u00e7\u00e3o. No Brasil d\u00e1-se muito valor ao ensino t\u00e9cnico, que \u00e9 primordial para a constru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds, mas se esquece um pouco das ci\u00eancias humanas, nos estudos. Em escola p\u00fablica quase n\u00e3o se v\u00ea mais aula de educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica, de filosofia, de sociologia. Essas mat\u00e9rias s\u00e3o primordiais para o desenvolvimento do racioc\u00ednio de um aluno. \u00c9 isto que far\u00e1 com que ele tenha capacidade de compreender um texto constitu\u00eddo de uma linguagem mais apurada, com temas e quest\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o ditas abertamente, mas sim requerem interpreta\u00e7\u00e3o. Machado de Assis, Jos\u00e9 de Alencar, e at\u00e9 mesmo Fernando Sabino e Clarice Lispector, s\u00e3o autores para se embrenhar depois de j\u00e1 se ter lido pelo menos uns dez ou quinze livros, e n\u00e3o no per\u00edodo escolar, com o indiv\u00edduo ainda em forma\u00e7\u00e3o. Isto s\u00f3 afasta a leitura e a literatura desse aluno, pois ele n\u00e3o tem, ainda, capacidade de entender. Mas \u00e9 claro que esta quest\u00e3o passa tamb\u00e9m por outras esferas, outros campos do ensino; o problema n\u00e3o \u00e9 uma exclusividade da literatura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Por falar nisso, como foi sua forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria? Quais autores seguiram lhe acompanhando at\u00e9 os dias de hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211; <\/strong>Eu ainda estou em forma\u00e7\u00e3o. Tem muito autor essencial que ainda n\u00e3o li. O que aprendi at\u00e9 o momento se deve aos de sempre, os imprescind\u00edveis para quem quer escrever literatura: Machado, Tolstoi, Faulkner, Dostoi\u00e9vski, Flaubert. Gosto muito de Mauriac, do Raymond Carver, de Sandor Marai. Dos contempor\u00e2neos, gosto do Pamuk, do Coetzze, do Milton Hatoum, do Bernardo Carvalho. A lista \u00e9 muito grande. Tamb\u00e9m gosto de ler os caras da minha gera\u00e7\u00e3o, o Rafael Gallo, o S\u00e9rgio Tavares, o Daniel Lopes, o Victor Paes, o Marcelo Nocelli, o Maikel de Abreu, a galera que est\u00e1 viva, que eu posso encontrar de repente no metr\u00f4, na mesa de um bar, ou que eu posso trocar mensagens no Facebook.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Agrade\u00e7o pela men\u00e7\u00e3o. \u00c9 curioso quando fala do autor vivo e dispon\u00edvel, pois somos de uma gera\u00e7\u00e3o em que o escritor era uma figura inalcan\u00e7\u00e1vel ou morta, um tipo de entidade. Hoje, o autor \u00e9 o cara do banco, a mo\u00e7a da padaria, o sujeito que cruza contigo no elevador. Isso acaba por me levar a uma analogia, tomando emprestado a c\u00e9lebre frase do M\u00e1rio de Andrade: &#8216;Conto \u00e9 tudo o que chamamos conto&#8217;. Voc\u00ea acredita que literatura \u00e9 tudo o que chamamos literatura?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> Literatura \u00e9 tudo o que chamamos de literatura. O problema \u00e9 que existe muita literatura ruim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u00c9 mais suport\u00e1vel ler um romance ruim ou um conto ruim?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> Como leitor, \u00e9 mais suport\u00e1vel um conto ruim, se pensarmos que esse conto pode estar dentro de uma antologia. De fato \u00e9 muito dif\u00edcil acertar um livro inteiro de contos. Com um romance ruim \u00e9 pior, porque afinal \u00e9 um livro todo. Mas isso \u00e9 relativo: \u00e0s vezes, o conto ou romance pode ser bom, e \u00e9 o leitor que n\u00e3o o compreendeu, que n\u00e3o era o leitor ideal para aquele texto, naquele momento. Como escritor, a leitura de uma literatura ruim \u00e9 at\u00e9 ben\u00e9fica, pois se pode aprender a como n\u00e3o escrever, atrav\u00e9s dela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u00c9 dif\u00edcil lidar com literatura ruim de amigo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> \u00c9 dif\u00edcil lidar com a minha pr\u00f3pria literatura. Sou muito autocr\u00edtico, n\u00e3o gosto de mostrar nada que escrevi, aos meus amigos, antes de considerar o texto pelo menos leg\u00edvel. Ent\u00e3o escolho uns dois ou tr\u00eas colegas, que se predisp\u00f5em a ler, e pe\u00e7o opini\u00e3o. Com os amigos que me pedem leitura, costumo fazer o mesmo; se o texto ainda n\u00e3o foi publicado, costumo ser bem r\u00edgido, tento apontar algumas falhas pontuais, pois sei que \u00e9 isso o que meu amigo quer. Se o texto j\u00e1 foi publicado, n\u00e3o digo que \u00e9 dif\u00edcil de ler &#8211; pode ser que eu apenas n\u00e3o seja o leitor ideal, naquele momento &#8211; mas, se eu n\u00e3o gosto do texto, prefiro manter sil\u00eancio e esperar pelo pr\u00f3ximo trabalho desse amigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 pouco voc\u00ea mencionou a possibilidade de se encontrar com autores da sua gera\u00e7\u00e3o na mesa de um bar. Se pudesse tomar uma cerveja com um escritor, vivo ou morto, qual seria e sobre o que gostaria de falar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> Se pudesse escolher um, seria o William Faulkner. N\u00e3o sei se ele beberia cerveja comigo, mas eu fumaria cachimbo ao seu lado. Falar\u00edamos sobre Caddy, personagem de \u201cO Som e a F\u00faria\u201d, sobre a falta de tempo e de estabilidade financeira para escrever, e sobre a sensa\u00e7\u00e3o &#8211; depois de anos, e mesmo recolhido em uma fazenda no sul dos Estados Unidos &#8211; de ver o reconhecimento do seu trabalho, com o pr\u00eamio Nobel de literatura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Nesse papo, voc\u00ea falaria tamb\u00e9m do futuro da sua literatura? O que vem a\u00ed, depois de \u201cF\u00f4lego\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> N\u00e3o me atreveria a falar com Faulkner sobre a minha literatura. Al\u00e9m de F\u00f4lego, como disse antes, tem um outro romance que considero pronto, que tamb\u00e9m trata sobre a perda abrupta de algu\u00e9m, e as consequ\u00eancias que essa perda acarreta. Esse romance continua o panorama da periferia de S\u00e3o Paulo, iniciado em F\u00f4lego, e o retrato \u00e9 ainda mais abrangente. O romance \u00e9 mais social. Um outro romance, que continua a tratar desses temas, est\u00e1 em processo de escrita. E a\u00ed eu encerro esses assuntos, com os tr\u00eas livros. Tem muita coisa na minha gaveta, coisa at\u00e9 demais &#8211; acho que \u00e9 isso que vou fazer agora: jogar fora alguns rascunhos guardados na gaveta do meu criado-mudo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Esse gesto comprova, para voc\u00ea, aquela m\u00e1xima de que livro nunca fica pronto, o escritor \u00e9 que se liberta do texto?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> Sim, comprova. O livro s\u00f3 est\u00e1 pronto se publicado. E, \u00e0s vezes, at\u00e9 publicado, relendo, d\u00e1 vontade de reescrever uma frase ou outra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Se escrever \u00e9 esse exerc\u00edcio incessante que, mesmo depois de conclu\u00eddo, n\u00e3o parece estar pronto, por que ent\u00e3o seguir escrevendo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RAFAEL MENDES &#8211;<\/strong> Escrevo porque n\u00e3o sei fazer outra coisa al\u00e9m disso. Escrevo porque acho que t\u00eam algumas hist\u00f3rias que precisam ser contadas, ou recontadas, para dar voz \u00e0s pessoas que vejo na rua, que escuto falar, que vejo no jornal, e n\u00e3o t\u00eam como se expressar. Escrevo para me calar, para n\u00e3o sair gritando por a\u00ed, feito um louco. Escrevo para me acalmar. Escrevo porque amo escrever. Reescrevo porque sei de uma infinidade de pares que j\u00e1 escreveram muito melhor do que eu, e eu preciso tentar alcan\u00e7ar esses escritores, ainda que seja imposs\u00edvel. Escrevo por um sentimento de inadequa\u00e7\u00e3o. Escrevo para viver. Tamb\u00e9m escrevo para morrer e, quem sabe, um dia, ser lembrado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> \u00e9 jornalista e escritor, autor de \u201cCavala\u201d (Record, 2010), vencedor do Pr\u00eamio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites liter\u00e1rios nacionais e internacionais. \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9rgio Tavares conversa com o escritor Rafael Mendes sobre o laborioso e complexo of\u00edcio das palavras<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":9250,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2359,16,2539],"tags":[419,63,2373,8,2372,1023],"class_list":["post-9249","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-98a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-contos","tag-entrevista","tag-folego","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-rafael-mendes","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9249","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9249"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9249\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15748,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9249\/revisions\/15748"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9250"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9249"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9249"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}