{"id":9288,"date":"2015-01-31T22:22:41","date_gmt":"2015-02-01T00:22:41","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9288"},"modified":"2015-02-01T14:22:35","modified_gmt":"2015-02-01T16:22:35","slug":"dedos-de-prosa-iii-30","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-30\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>Lia Beltr\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9289\" aria-describedby=\"caption-attachment-9289\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna8.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9289 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna8.jpg\" alt=\"Foto: Pedro Alles\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna8.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/interna8-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9289\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Pedro Alles<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A coisa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em algum lugar uma coisa se esconde esperando minha m\u00e3o. Um dia, o acaso me levar\u00e1 para um canto sombrio da casa, onde uma caixa de sapato ou a gaveta de uma antiga c\u00f4moda guarda a coisa que me espera. Vago pelas sombras da casa e minha pele eri\u00e7ada me avisa da proximidade da coisa. Ent\u00e3o me afasto at\u00e9 que a pele sossegue e me permita caminhar sem sobressaltos. Mas o caminho oposto tamb\u00e9m me leva a sombras e novamente sinto o arrepio. A coisa \u00e9 m\u00f3vel. Pisca para mim de sombra em sombra. N\u00e3o sei o que quer de mim nem o que tem para me dar. Sei que me atrai e me repulsa. E \u00e9 grande o medo que tenho de encontr\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Covardia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00fanica vez que ele mentiu pra mim foi quando disse que n\u00e3o me amava. Amava, sim. Do jeito que amam os covardes. Amava a casa arrumada, a roupa limpa, bem passada, o cheiro dos len\u00e7\u00f3is. Amava a comida de todos os dias e amava mais o almo\u00e7o dos domingos. Mas dizer que me amava, nunca disse. Tamb\u00e9m nunca me chamou de meu amor. Nem mesmo antes ou depois do gozo, muito menos nos meus tempos de agonia. Quem visse de fora, podia pensar que era dureza de macho. Mas eu sabia que era pura covardia. Porque se dissesse que me amava, eu podia querer mais coisas dele. Que se casasse comigo, que me desse filhos, que me pagasse as contas. Mas eu nunca dei esse gosto a ele. Sempre tive meu dinheiro. Costuro pra fora, fa\u00e7o bolos, vendo avon. Ele \u00e9 que um dia chegou mais calado do que de costume. Tomou banho, jantou, ligou a televis\u00e3o e ficou ali, um mortovivo. Quando perguntei o que se passava, disse com voz de choro: preciso de dinheiro pra pagar uma d\u00edvida de jogo. Era pouco, eu tinha, entreguei a ele dentro de um envelope. Ele pegou o dinheiro, levantou-se do sof\u00e1 e disse que ia embora e n\u00e3o voltava mais. Eu n\u00e3o te amo, disse. E eu vi nos seus olhos e ouvi na sua voz que ele mentia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>P\u00e9s<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Por muito tempo, meus p\u00e9s serviram para caminhar. Levar-me pra l\u00e1 e pra c\u00e1, pisar na lama, torrar nas pedras quentes do meio-dia. Sempre tive muitas c\u00f3cegas nos p\u00e9s. Voc\u00ea descobriu por acaso e passou a me torturar com os dedos leves. Depois vieram os beijos e depois a l\u00edngua. Aos poucos, meus p\u00e9s n\u00e3o queriam mais caminhar. Desejavam a boca que os tinham desviado dos antigos caminhos. Hoje, meu corpo come\u00e7a pelos p\u00e9s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O estranho que me visita<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu sei quando ele chega. Gosta de me pegar distra\u00edda dentro de um livro, aparando as unhas ou bordando com meus bastidores. Quando me dou conta, ele j\u00e1 sumiu l\u00e1 para os fundos do corredor. Nas primeiras vezes, tremia de medo e me distra\u00eda ligando a tv, cantando alto, telefonando para qualquer pessoa. At\u00e9 que ele sumisse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas teve um dia em que criei coragem e fui ca\u00e7\u00e1-lo pela casa. Entrei no quarto, ele deu sinal de estar no banheiro. Abri de um brusco a porta do banheiro, ele mexeu na torneira da cozinha. Acendi a luz da cozinha, ouvi o seu suspiro l\u00e1 na sala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o tempo, aprendi que ele n\u00e3o queria ser visto. Me acostumei com a sua presen\u00e7a pela casa. Quando ele chega, finjo que n\u00e3o percebo. Continuo presa no livro, na serrinha de unhas ou na agulha que passa de um lado a outro do tecido esticado nos bastidores. Fa\u00e7o falsas poses distra\u00eddas, sabendo que ele gosta de me ver assim, vivendo a vida, passando o tempo, pensando coisas. Gosto desse estranho que me quer assim, na mais banal intimidade. Gosto que vasculhe minha casa, que me vasculhe por fora e por dentro. Gosto que me mostre a estrangeira que eu sou dentro do meu pr\u00f3prio territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>J\u00e1 fui do lar. Hoje fa\u00e7o doces para lares alheios. Fa\u00e7o textos, tamb\u00e9m. Mas n\u00e3o os envio aos lares. Prefiro que andem pelas ruas e encontrem ao acaso quem os leia. Entreguei vinte e tr\u00eas anos de minha vida a um homem, uma casa e uma filha. S\u00f3 depois que o homem se foi e a filha se casou, pude ler o que quis, escrever o que quero. E algumas pessoas gostam do que escrevo. Por isso, sou teimosa e vou aos poucos construindo um olhar novo sobre as coisas do mundo. \u00c0s vezes d\u00f3i, mas sempre me d\u00e1 prazer. Tive alguns textos publicados em Dedo de mo\u00e7a \u2013 uma antologia das escritoras suicidas (S\u00e3o Paulo: Terracota Editora, 2009). J\u00e1 \u00e9 um bom come\u00e7o.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A teia cotidiana dos minicontos de Lia Beltr\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":9289,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2359,2534],"tags":[2395,2396,2399,41,792,2394,276,2398,2397],"class_list":["post-9288","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-98a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-a-coisa","tag-covardia","tag-dedo-de-moca","tag-dedos-de-prosa","tag-escritoras-suicidas","tag-lia-beltao","tag-minicontos","tag-o-estranho-que-me-visita","tag-pes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9288","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9288"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9288\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9362,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9288\/revisions\/9362"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9289"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}