{"id":9411,"date":"2015-03-04T11:15:27","date_gmt":"2015-03-04T14:15:27","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9411"},"modified":"2018-12-06T09:53:01","modified_gmt":"2018-12-06T12:53:01","slug":"dedos-de-prosa-i-34","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-34\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Marieli Becker<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15763\" aria-describedby=\"caption-attachment-15763\" style=\"width: 374px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/interna-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15763 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/interna-1.jpg\" alt=\"\" width=\"374\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/interna-1.jpg 374w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/interna-1-224x300.jpg 224w\" sizes=\"auto, (max-width: 374px) 100vw, 374px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15763\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Alessandra Bufe Baruque<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este espinho que guardo na boca, voc\u00ea n\u00e3o o entende, mas finge. Eu, uma mulher amarrada pelas pernas, tamb\u00e9m finjo. O espa\u00e7o sempre manso com seus odi\u00e1veis p\u00e1ssaros que caem e caem sempre caem como um som que abre um c\u00e9u, um caminho, e tamb\u00e9m aquele barulho que n\u00e3o se sabe o que \u00e9 e \u00e9 tudo o que est\u00e1 no mundo, aquela coisa que os d\u00e9beis chamam de vida e que eu chamo de tempo maldito que nunca cala a boca. Este espinho cuja estupidez de uma revista chama de tpm, a estupidez do psiquiatra chama de depress\u00e3o, a estupidez do poeta de melancolia e toda estupidez sempre chama. Eu com essa chaga maldita a buscar no alcoolismo um reverso medicamentoso, n\u00e3o me enganam aquelas caixinhas com suas faixas medonhas dizendo que podem te matar ou te salvar ou qualquer coisa que te atingisse, e voc\u00ea ainda finge que funcionam, porque dorme, e isso deveria bastar. Por que diabos o mundo tem mil anos e ainda a verdade n\u00e3o \u00e9 coisa que escorra dessa boca espinhenta feito sangue novo e fresco? O cheiro, sempre o cheiro, de morte, de agress\u00e3o, de penetra\u00e7\u00e3o repentina, qual \u00e9 o corpo que est\u00e1 preparado para essa desordem do mundo? A faca cotidiana n\u00e3o pode fazer buracos nos meus pulsos. Algu\u00e9m poderia dizer qual \u00e9 a utilidade deles sen\u00e3o essa ponte pulsando sangue, um toque, uma jun\u00e7\u00e3o, uma coisa sem forma-face-sentido, um caminho disfar\u00e7ado at\u00e9 sabe-se deus onde, porque n\u00e3o sei por que \u00e9 que tenho m\u00e3os. N\u00e3o gosto da poesia. Assim como n\u00e3o gosto de flores pl\u00e1sticas com seus espinhos metaf\u00edsicos pat\u00e9ticos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento do luto\u00a0n\u00e3o \u00e9 um movimento,\u00a0\u00e9 um avesso da a\u00e7\u00e3o,\u00a0\u00e9 um movimento em\u00a0rewind, uma espiral\u00a0entortando seus espinhos\u00a0ao fundo, abaixo,\u00a0sempre em dire\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e0 cova.\u00a0Um velar desfeito do\u00a0olhar do tempo,\u00a0a persistente vig\u00edlia\u00a0desse aparelho card\u00edaco\u00a0ligado ao coma.\u00a0Seu barulho, seu batimento,\u00a0uma tortura japonesa.\u00a0Nenhuma janela \u00e9 aberta\u00a0nesse quarto,\u00a0o vidro sempre emba\u00e7ado\u00a0encobrindo a morte,\u00a0faz crer que os mortos\u00a0n\u00e3o s\u00e3o privados da vida.\u00a0Ningu\u00e9m chega a esse tipo\u00a0de doente.\u00a0O sil\u00eancio \u00e9 a eterna espera\u00a0dessa avalia\u00e7\u00e3o selvagem.\u00a0M\u00e9dicos-monstros ao redor\u00a0da cama, ou da cova,\u00a0segredam uma temida\u00a0desesperan\u00e7a que suja\u00a0os dedos, as unhas,\u00a0e por debaixo das unhas,\u00a0um cheiro que n\u00e3o se lava.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ando cansada de voc\u00ea, fantasm\u00e1tico, de ter voc\u00ea na minha mesa de jantar toda noite. Estou sem voz a gritar que saia. J\u00e1 n\u00e3o me importo. J\u00e1 te olho nos olhos de morto, a te imitar no olhar que nunca pretende, que n\u00e3o percebe o arredor, que n\u00e3o olha nem pra fora, nem pra dentro, mas cravou-se em si, como um embri\u00e3o que se engole pra tentar a vida. Estou machucada de ter voc\u00ea por perto, j\u00e1 n\u00e3o me importo. Desisti de pedir que saia, e agora eu reparto o p\u00e3o nessa mesa, essa trilha cujo p\u00e1ssaro reteve dentro, cruelmente faminto, esse caminho que retornou at\u00e9 onde n\u00e3o havia mais luz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu p\u00e9 preso na cela do cavalo. Meu p\u00e9 quebrado na cela do cavalo. Meu p\u00e9 inchado, impedido, encaixado na cela. O animal dorme e sonha. Eu o observo, amea\u00e7ada. Meu cora\u00e7\u00e3o espera que ele acorde e corra. Minha mente est\u00e1 embaixo d&#8217;\u00e1gua. Sob o falso sil\u00eancio da \u00e1gua. O horror silente aperta meus os ouvidos. Ideias morrem uma a uma, engolindo o sal. Meu peito intoxicado, um componente estranho o engrandece. O sil\u00eancio o engrandece. Meu p\u00e9 quebrado embaixo da \u00e1gua, encaixado no sil\u00eancio do fundo do mar. Minha mente um cavalo assustado que dorme e sonha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O desmaio alco\u00f3lico, a fluidez para o lugar nenhum. Um escorrer de olhos para baixo, as p\u00e1lpebras apenas. O tempo \u00e9 uma macumba mal feita. O meu corpo era o tempo distorcido. Teus dedos sinais enfermos que eu engoli. Um co\u00e1gulo intra-uterino deslocado. N\u00e3o era sexo. N\u00e3o era corpo. N\u00e3o era aquilo que n\u00e3o \u00e9 mat\u00e9ria. N\u00e3o era aquilo que n\u00e3o sabemos. Um tapete manchado na tua sala. Uma hist\u00f3ria feita da fuma\u00e7a do cigarro que eu n\u00e3o fumo. Teu corpo buscando esconder teus segredos. Eu, um dep\u00f3sito. Era um amor de mulher vadia, daquele tipo que te abra\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um grito dentro de um grito, ent\u00e3o mais outro, chupando-se, um a um e em sequ\u00eancia, uma ciranda maldita, e eu nunca alcan\u00e7ava a minha voz primeira. Aquela que tocava a goela, o sangue bem dentro. No m\u00e1ximo, era me dado uma imagem esfuma\u00e7ada dos gritos, meio branca, meio cinza, tudo t\u00e3o leve, e eu a andar a cavalo aos berros, a selvageria sem me entender, mas sem perguntar e era por isso que eu a amava. E quando eu queria pular do cavalo ele nunca parava, eu tinha que me jogar e eu sabia que n\u00e3o tinha ch\u00e3o nenhum embaixo, era apenas essa fuma\u00e7a, n\u00e3o havia nada. Quem \u00e9 que se jogaria? Mas eu escuto um grito, vindo l\u00e1 debaixo. Talvez a minha goela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu tenho os cabelos pretos, naturalmente, quero dizer. Acima do cabelo preto natural, eu aplico uma camada de tinta. Tamb\u00e9m preta. Eu gosto de ser uma farsa, ent\u00e3o eu aplico a m\u00e1scara que \u00e9 id\u00eantica \u00e0 minha cara original, e finjo que sou uma mentira. Eu gosto de entrar na \u00e1gua e ver escorrer a tinta preta cheirando a amon\u00edaco. N\u00e3o quero ser a \u00fanica manchada. Quero que escorra. Eu gosto de escrever mentindo para poder dizer a verdade, porque \u00e9 o \u00fanico modo suport\u00e1vel. Uso a tinta no cabelo, mas aproveito pra manchar um pouco a cara, me d\u00e1 um ar de mulher perdida, o que \u00e9 bastante excitante e adicionado o n\u00edvel certo de \u00e1lcool, consigo at\u00e9 sentir tes\u00e3o. Eu finjo que n\u00e3o acredito em nada porque acredito que os descrentes fodem melhor. Vou tirando minhas m\u00e1scaras, ent\u00e3o, na cama, os pelos pubianos expostos a julgamento, uma m\u00e1scara original que uso para me cobrir da minha nudez identit\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou no corredor de um pr\u00e9dio, que sem pilares, flutua no escuro. Imita\u00e7\u00f5es de portas sem ma\u00e7anetas, nas placas, a minha aus\u00eancia de sonhos.\u00a0Pisei num buraco, e n\u00e3o era um buraco, era um grito a agarrar meu calcanhar. Perdi a aberra\u00e7\u00e3o que\u00a0pariu a minha hist\u00f3ria, a mat\u00e9ria pulsante. Mesmo sem lugar, eu me sento, porque andar e chorar me assusta.\u00a0Pego a foto do meu monstro, penduro na parede que n\u00e3o existe. Meu cativeiro fantasm\u00e1tico feito de fuma\u00e7a. Estocolmo em chamas. Meu corpo carbonizado, o cora\u00e7\u00e3o ainda batendo e sangrando. L\u00edquido vermelho em cima da fuligem. \u00a0T\u00edtulo do meu livro em branco que est\u00e1 muito perto do fogo. E ent\u00e3o, queima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><a href=\"http:\/\/hideinbriarcliff.blogspot.com.br\/\"><strong>Marieli Adriani Becker<\/strong><\/a> (1986) nasceu e vive em Passo Fundo, RS. Atualmente est\u00e1 cursando Psicologia pela IMED, e tem interesse especialmente na \u00e1rea de psican\u00e1lise. Tem na escrita uma via de escoamento para quest\u00f5es internas, sendo que escreve por hobby e com uma frequ\u00eancia mais est\u00e1vel h\u00e1 pouco tempo.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vertiginosa intensidade dos escritos de Marieli Becker<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15765,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2422,2534,16],"tags":[2424,41,2425,2423,595],"class_list":["post-9411","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-99a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-dalia-estes","tag-dedos-de-prosa","tag-hide-in-briarcliff","tag-marieli-becker","tag-prosa-poetica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9411","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9411"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9411\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15764,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9411\/revisions\/15764"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15765"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9411"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9411"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9411"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}