{"id":9480,"date":"2015-03-05T12:51:58","date_gmt":"2015-03-05T15:51:58","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9480"},"modified":"2016-10-10T09:16:17","modified_gmt":"2016-10-10T12:16:17","slug":"jogo-de-cena-15","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/jogo-de-cena-15\/","title":{"rendered":"Jogo de Cena"},"content":{"rendered":"<p><strong>WOYZECK EM VERSOS EM TERRAS BRASILEIRAS<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Geraldo Lima<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Capa-ii.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12707\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Capa-ii.jpg\" alt=\"capa-ii\" width=\"249\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Capa-ii.jpg 249w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/Capa-ii-166x300.jpg 166w\" sizes=\"auto, (max-width: 249px) 100vw, 249px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Georg B\u00fcchner nasceu em Goddelau, Alemanha, em 17 de outubro de 1813, e, acometido de tifo, faleceu em Zurique, Su\u00ed\u00e7a, em 19 de fevereiro de 1837. Tinha apenas 23 anos de idade, mas j\u00e1 havia defendido tese sobre o Sistema Nervoso dos Peixes, iniciado a carreira como professor universit\u00e1rio na Universidade de Zurique, escrito o drama de \u00e9poca <em>A Morte de Danton,<\/em> a com\u00e9dia <em>Leonce e Lena<\/em>, o fragmento (ou esbo\u00e7o) do drama <em>Woyzeck<\/em>, que iria imortaliz\u00e1-lo e influenciar outros dramaturgos mundo afora, e uma novela inacabada: <em>Lenz<\/em>. Al\u00e9m disso, deixou tamb\u00e9m o hist\u00f3rico de uma atividade pol\u00edtica intensa, de cr\u00edtica feroz \u00e0 realidade social do seu pa\u00eds, tendo amargado, por isso, alguns anos de ex\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fernando Marques nasceu no Rio de Janeiro e, atualmente, reside em Bras\u00edlia, Distrito Federal. \u00c9 professor do Departamento de Artes C\u00eanicas da Universidade de Bras\u00edlia, jornalista, escritor, dramaturgo e compositor. \u00c9 Doutor em Literatura Brasileira pela UnB com a tese sobre teatro musical. Tem algumas obras publicadas, dentre elas <em>Retratos de Mulher<\/em> (poesia, Varanda), <em>Contos Canhotos<\/em> (contos, LGE), <em>A Comicidade da Desilus\u00e3o: O Humor nas Trag\u00e9dias Cariocas de Nelson Rodrigues<\/em> (ensaio, Editora UnB\/Ler Editora), o livro-CD <em>\u00daltimos: Com\u00e9dia Musical<\/em> (Perspectiva). Al\u00e9m disso, tem textos publicados em jornais e revistas impressas e eletr\u00f4nicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dito isso, resta indagar: o que une ent\u00e3o esses dois artistas separados no tempo e no espa\u00e7o?\u00a0 O que justifica o fato de serem colocados, lado a lado, neste texto? Que ponto de contato h\u00e1 entre ambos, j\u00e1 que suas obras s\u00e3o origin\u00e1rias de culturas e \u00e9pocas bem diferentes?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta, embora simples, demanda uma explana\u00e7\u00e3o mais ampla, expondo afetos e meios que possibilitaram essa aproxima\u00e7\u00e3o entre o dramaturgo alem\u00e3o e o brasileiro. Fernando Marques, num lance ousado, empreendeu a \u00e1rdua tarefa de adaptar em versos metrificados e rimados a pe\u00e7a-fragmento <em>Woyzeck<\/em> de B\u00fcchner.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia de adaptar em verso (\u201cReiteiro, afinal, n\u00e3o se tratar aqui de tradu\u00e7\u00e3o em verso\u201d, avisa logo o autor) essa pe\u00e7a de B\u00fcchner surgiu em 1996 quanto Fernando participava, compondo tr\u00eas can\u00e7\u00f5es, da sua montagem em Bras\u00edlia, sob a dire\u00e7\u00e3o de T\u00falio Guimar\u00e3es. Desse primeiro instante em que lhe brotou na mente a ideia-desejo at\u00e9 a sua coloca\u00e7\u00e3o em pr\u00e1tica, com a primeira reda\u00e7\u00e3o do texto em 1999, passaram-se mais de dois anos.\u00a0 <em>Z\u00e9<\/em> (esse \u00e9 o t\u00edtulo da adapta\u00e7\u00e3o feita por Fernando Marques) passou por uma \u00faltima modifica\u00e7\u00e3o em 2013 ao ser reeditado pela \u00c9 Realiza\u00e7\u00f5es Editora. Todas as reescrituras que o texto sofreu ao longo desses anos foram feitas tendo por base obras de refer\u00eancia sobre a pe\u00e7a do jovem autor alem\u00e3o, como \u201cB\u00fcchner\u201d, artigo de Anatol Rosenfeld publicado no livro <em>Teatro Moderno <\/em>(2. ed., S\u00e3o Paulo, Perspectiva, 1985), <em>Georg B\u00fcchner e a Modenidade<\/em>, livro de Irene Aron (S\u00e3o Paulo, Annablume, 1993), entre outras. Em busca de rigor t\u00e9cnico e fidelidade ao texto do autor de <em>A Morte de Danton<\/em>, Fernando consultou ainda, para a revis\u00e3o feita em 2003, as tr\u00eas tradu\u00e7\u00f5es integrais de <em>Woyzeck<\/em> ent\u00e3o dispon\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00ea-se, com isso, que a tarefa que Fernando Marques se imp\u00f4s n\u00e3o foi f\u00e1cil e custou-lhe anos de leituras comparativas e reelabora\u00e7\u00f5es na busca do texto mais pr\u00f3ximo ao do dramaturgo alem\u00e3o. H\u00e1 em todo esse percurso criativo um labor e uma seriedade que resultaram num texto que traduz, de modo fiel e denso, a mesma realidade de opress\u00e3o e lirismo tr\u00e1gico que desnorteia e esmaga o personagem Franz Woyzeck.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa fidelidade, no caso, n\u00e3o significa que o autor brasiliense tenha se esquivado de impor, em algumas passagens, a sua marca pessoal. Em alguns casos, ele procurou, por exemplo, tornar mais leg\u00edveis algumas passagens do original. Diz ele: \u201cDo ponto de vista da legibilidade, vale dizer que visei tornar mais claras certas passagens caracteristicamente lac\u00f4nicas ou obscuras do original\u201d. Esse seu procedimento vai, no entanto, de encontro \u00e0 opini\u00e3o de S\u00e1bato Magaldi, segundo o qual \u201cO hermetismo de certas passagens engrandece a pe\u00e7a com uma gama infind\u00e1vel de sugest\u00f5es\u201d. Mas essa busca de maior legibilidade n\u00e3o adultera em nada o texto-esbo\u00e7o de B\u00fcchner, pois n\u00e3o o despe do que S\u00e1bato Magaldi chama de \u201cdescarnamento essencial\u201d nem lhe tira o sentido de dramaticidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora mantenha o cen\u00e1rio original da pe\u00e7a de B\u00fcchner, a Alemanha do s\u00e9culo XIX, Fernando Marques faz algumas interven\u00e7\u00f5es bem pr\u00f3prias na tentativa de aproximar a realidade de <em>Woyzeck<\/em> da realidade brasileira. Podemos citar, em primeiro lugar, o pr\u00f3prio t\u00edtulo <em>Z\u00e9<\/em> que o autor deu \u00e0 sua adapta\u00e7\u00e3o. Sendo Woyzeck um z\u00e9-ningu\u00e9m, um soldado raso explorado e oprimido por todos, o t\u00edtulo dado por Fernando mostra bem, do ponto de vista da nossa cultura, esse apequenamento do protagonista diante da realidade opressora. No texto \u201cRecomposi\u00e7\u00e3o Versificada\u201d, publicado em <em>Z\u00e9<\/em> (S\u00e3o Paulo, \u00c9 Realiza\u00e7\u00f5es Editora, 2013), Valmir Santos afirma que \u201cDe fato, os milh\u00f5es de miser\u00e1veis que contracenam pelo pa\u00eds, embarcados no s\u00e9culo XXI, enxergariam facilmente um irm\u00e3o no Z\u00e9 b\u00fcchneriano de Marques\u201d. Ainda nesse processo de aproxima\u00e7\u00e3o da nossa realidade, h\u00e1 a refer\u00eancia hiperb\u00f3lica ao Lago Parano\u00e1 numa das falas do 1\u00ba Aprendiz: \u201cO mundo \u00e9 bonito \u2013 ou parece,\/mas vou chorar um Parano\u00e1!\u201d. E pode-se ver ainda refer\u00eancia a Nelson Rodrigues num trecho como este, na fala do Judeu: \u201cVai ter uma morte batata,\/mesmo que n\u00e3o seja de gra\u00e7a\u201d. Ao final, Fernando faz um acr\u00e9scimo ao texto original (em algumas vers\u00f5es a pe\u00e7a termina com a cena \u201cna floresta, junto ao rio\u201d), acrescentando-lhe uma esp\u00e9cie de \u201cadendo ou ep\u00edlogo\u201d. Na fala do Velho, essa cena, cantada, refor\u00e7a o car\u00e1ter provis\u00f3rio da nossa vida terrena: \u201cNo mundo n\u00e3o h\u00e1 consist\u00eancia\/Todos vamos morrer\/Sabemos muito bem\/Vamos morrer\/Sabemos bem\u201d. Por\u00e9m, enquanto o Velho canta, expondo a precariedade da vida, a Crian\u00e7a dan\u00e7a ao som da sanfona, como que apontando para o sentido de renova\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia dessa mesma vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que se possam apontar todas essas marcas pessoais do autor na adapta\u00e7\u00e3o do <em>Woyzeck<\/em>, ele exp\u00f5e enf\u00e1tico os limites da sua interven\u00e7\u00e3o: \u201cCom pequenas altera\u00e7\u00f5es, a hist\u00f3ria \u00e9 a de B\u00fcchner; minha contribui\u00e7\u00e3o se d\u00e1 no plano dos versos e das quatro can\u00e7\u00f5es incorporadas \u00e0 pe\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>A pe\u00e7a Woyzeck e as varia\u00e7\u00f5es poss\u00edveis na sua estrutura dram\u00e1tica.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na obra <em>Georg B\u00fcchner \u2013 A Dramaturgia do Terror<\/em> (S\u00e3o Paulo, Brasiliense,1983) Fernando Peixoto informa que \u201cWoyzeck \u00e9 formado por 27 cenas curtas e em certa medida aut\u00f4nomas (&#8230;). Cada instante vale por si mesmo, aprofundando uma situa\u00e7\u00e3o ou uma rela\u00e7\u00e3o\u201d. S\u00e3o cenas que se articulam de forma aut\u00f4noma, justapostas, como no teatro \u00e9pico que ser\u00e1 desenvolvido por Brecht. J\u00e1 S\u00e1bato Magaldi, no texto \u201cWoyzeck, B\u00fcchner e a condi\u00e7\u00e3o humana\u201d, publicado no livro <em>B\u00fcchner na Pena e na Cena <\/em>(S\u00e3o Paulo, Perspectiva, 2004, organiza\u00e7\u00e3o de J. Guinsburg e Ingrid D. Koudela), diz que \u201cWoyzeck comp\u00f5e-se de vinte e cinco cenas, que n\u00e3o guardam unidade de lugar e tempo\u201d. Nesse mesmo livro, h\u00e1 uma vers\u00e3o composta por vinte e sete cenas, iniciando-se com a cena \u201ccampo aberto. A cidade \u00e0 dist\u00e2ncia. Woyzeck e Andres cortam varas nas moitas\u201d. Na sua adapta\u00e7\u00e3o em verso da pe\u00e7a de B\u00fcchner, Fernando Marques optou pela vers\u00e3o com vinte e seis cenas, tendo ele tomado como texto-base a tradu\u00e7\u00e3o feita por Jo\u00e3o Marschner e publicada pela Ediouro. Nessa vers\u00e3o, inicia-se com a cena \u201cQuarto\u201d, em que Woyzeck faz a barba do Capit\u00e3o. Vale lembrar ainda que Fernando cria um ep\u00edlogo, finalizando a pe\u00e7a (se \u00e9 que se pode afirmar isso) com a cena do Velho e da Crian\u00e7a. Em algumas vers\u00f5es, entende-se que Franz Woyzeck morre afogado. Pode-se dizer que teria se suicidado. Noutras, ele continua vivo. Em <em>Z\u00e9<\/em>, o tr\u00e1gico personagem de B\u00fcchner morre afogado, ou pelo menos \u00e9 o que se pode depreender da sua a\u00e7\u00e3o de ir cada vez mais para o meio do rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas essas varia\u00e7\u00f5es s\u00e3o poss\u00edveis porque o texto deixado por B\u00fcchner ficou inacabado e sem a indica\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o sequencial das cenas. Desse modo, cada encenador pode fazer o arranjo que achar mais pertinente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Woyzeck\/Z\u00e9 \u2013 dramaturgia universal.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Woyzeck<\/em> \u00e9 um caso \u00fanico na hist\u00f3ria da dramaturgia universal: inacabado, ainda um esbo\u00e7o, tornou-se, no entanto, um texto capaz de influenciar dramaturgos como Bernard Shaw, Bertolt Brecht, Beckett e Artaud. \u201cDo naturalismo em diante, e mais especificamente do expressionismo, desenvolve-se um processo ininterrupto de recep\u00e7\u00e3o da obra b\u00fcchneriana que se faz sentir sobremaneira no panorama liter\u00e1rio e cultural da Alemanha\u201d, declara Irene Aron no texto \u201cGeorg B\u00fcchner e a Modernidade Extempor\u00e2nea\u201d, publicado em <em>B\u00fcchner na Pena e na Cena <\/em>(S\u00e3o Paulo, Perspectiva, 2004, organiza\u00e7\u00e3o de J. Guinsburg e Ingrid D. Koudela). O alem\u00e3o Georg B\u00fcchner, embora tenha morrido t\u00e3o jovem, tornou-se precursor do teatro moderno ao conceber uma obra do porte de <em>Woyzeck<\/em>, em que a cr\u00edtica social mescla-se, perfeitamente, \u00e0 indaga\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica, ao mesmo tempo em que rompe com a estrutura do teatro aristot\u00e9lico, impondo a necessidade de que se conceba um novo espa\u00e7o c\u00eanico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Fernando Peixoto, <em>Woyzeck<\/em> \u201cconstitui o instante hist\u00f3rico em que o proletariado surge na qualidade de protagonista na dramaturgia universal\u201d. Nesse caso, ele assume o primeiro plano para viver o drama de uma exist\u00eancia marcada pela explora\u00e7\u00e3o, pela mis\u00e9ria e pela humilha\u00e7\u00e3o. O soldado Woyzeck, por exemplo, sofre sob o comando do Capit\u00e3o, a quem presta pequenos servi\u00e7os, \u00e9 usado por um m\u00e9dico inescrupuloso como cobaia num experimento in\u00fatil, al\u00e9m de ser agredido e humilhado pelo Tambor-mor, amante da sua mulher. A Woyzeck resta deixar-se dominar pelo ci\u00fame ou pelo desejo de vingan\u00e7a, no caso, contra a parte mais fraca ou t\u00e3o desprotegida quanto ele, Marie, sua companheira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No <em>Z\u00e9<\/em> de Fernando Marques, todo esse ambiente opressivo e dilacerante continua a afligir o protagonista, s\u00f3 que agora expresso em versos metrificados, ora em redondilha maior, ora em redondilha menor, ora em decass\u00edlabo, ora misturando um e outro. \u201cA m\u00e9trica varia de cena para cena ou no interior de cada uma delas, como se vai perceber (&#8230;)\u201d, informa-nos o autor. A cena \u201cO quarto\u201d, por exemplo, que abre a pe\u00e7a, \u00e9 toda em redondilha menor. Diante do estado sempre aflitivo do Capit\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 passagem do tempo ou ao que fazer com o tempo que lhe sobra ap\u00f3s conclu\u00edda uma tarefa, esse ritmo acelerado acentua ainda mais esse seu pavor metaf\u00edsico: \u201cCalma, Jos\u00e9, calma!\/Assim fico tonto.\/O bigode pronto\/em tempo t\u00e3o curto\/n\u00e3o vale uma palma.\/Calma, homem, calma! Ganhei dez minutos\/exatos, enxutos.\/Pra que tanta pressa?\/Mais vale \u00e9 a alma&#8230;\/Pensa, Jos\u00e9, pensa:\/s\u00f3 tens trinta anos,\/trinta lindos anos,\/horas, dias, meses&#8230;\/A vida \u00e9 imensa!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como outras obras de vanguarda, <em>Woyzeck<\/em> n\u00e3o encontrou espa\u00e7o nem interlocutores em sua \u00e9poca, tendo sido encenada somente cem anos depois do nascimento do seu autor. Isso em 1913, em Munique. De l\u00e1 para c\u00e1, o texto-fragmento do jovem autor alem\u00e3o ganhou novas encena\u00e7\u00f5es, dentro e fora da Alemanha, e adapta\u00e7\u00f5es, tanto para a \u00f3pera quanto para o cinema.\u00a0 A mais famosa adapta\u00e7\u00e3o para \u00f3pera desse texto de B\u00fcchner foi realizada pelo jovem compositor Alban Berg, com a obra-prima <em>Wozzeck<\/em> (a grafia do t\u00edtulo deve-se a um erro cometido pelo escritor alem\u00e3o Karl Emil Franzos, na primeira edi\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a de B\u00fcchner, em 1879, e na qual o compositor alem\u00e3o se baseou). No cinema, ganhou tamb\u00e9m uma vers\u00e3o impactante. Trata-se do filme <em>Woyzeck<\/em>, do diretor alem\u00e3o Werner Herzog (1979). Na magn\u00edfica interpreta\u00e7\u00e3o de Klaus Kinski, podemos visualizar a figura delirante e fr\u00e1gil de Franz Woyzeck em sua jornada cotidiana de perdedor. No Brasil, foi adaptado (ou recriado) em 2002 com dramaturgia do escritor e roteirista Fernando Bonassi e dire\u00e7\u00e3o de Cibele Forjaz, tendo Matheus Nachtergaele como int\u00e9rprete do personagem-t\u00edtulo. Nessa recria\u00e7\u00e3o, ganhou o sugestivo t\u00edtulo de <em>Woyzeck, O Brasileiro<\/em> e apresentou o protagonista n\u00e3o como um soldado, mas sim como um sofrido trabalhador de uma olaria. O <em>Z\u00e9<\/em> de Fernando Marques aguarda ainda por uma montagem que o apresente de fato ao grande p\u00fablico. At\u00e9 o momento, foram feitas apenas leituras dram\u00e1ticas e montagens acad\u00eamicas dessa bela e ousada adapta\u00e7\u00e3o do texto do jovem dramaturgo alem\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos j\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o de textos teatrais compostos em versos, como as pe\u00e7as <em>Se Correr o Bicho Pega, se Ficar o Bicho Come,<\/em> de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gular; <em>Gota d\u2019\u00c1gua,<\/em> de Chico Buarque e Paulo Pontes; <em>A Farsa da Boa Pregui\u00e7a<\/em>, de Ariano Suassuna, entre outras. A adapta\u00e7\u00e3o feita por Fernando Marques do texto de B\u00fcchner filia-se a esse veio de boa dramaturgia nacional e, por isso, faz-se urgente que seja levada aos palcos. N\u00e3o precisamos esperar um s\u00e9culo para que isso aconte\u00e7a; fa\u00e7amos ent\u00e3o coro \u00e0s palavras do autor: \u201cOs versos condensam tamb\u00e9m, no caso das pe\u00e7as brasileiras citadas, a inten\u00e7\u00e3o de articular de maneira l\u00fadica e emp\u00e1tica, em tom popular, a f\u00e1bula, as personagens, os conceitos que o dramaturgo queira transmitir ao p\u00fablico. <em>Z\u00e9<\/em> tamb\u00e9m quer \u2013 por que n\u00e3o? \u2013 ser popular\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Geraldo Lima <\/em><\/strong><em>\u00e9 escritor, dramaturgo e roteirista. Tem algumas obras publicadas, entre elas Baque (contos), Tessel\u00e1rio (minicontos) e UM (romance).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Lima discorre sobre a obra \u201cZ\u00e9\u201d, do dramaturgo Fernando Marques<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12706,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2422,2537],"tags":[1401,2449,250,12,96,2448],"class_list":["post-9480","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-99a-leva","category-jogo-de-cena","tag-fernando-marques","tag-georg-buchner","tag-geraldo-lima","tag-jogo-de-cena","tag-teatro","tag-woyzeck"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9480","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9480"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9480\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12710,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9480\/revisions\/12710"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12706"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9480"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9480"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9480"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}