{"id":9625,"date":"2015-04-09T09:01:44","date_gmt":"2015-04-09T12:01:44","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9625"},"modified":"2016-11-03T10:04:30","modified_gmt":"2016-11-03T13:04:30","slug":"aperitivo-da-palavra-i-10","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-10\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p><strong>Breve not\u00edcia de literatura renovada<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Marcos Pasche<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_12914\" aria-describedby=\"caption-attachment-12914\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/309219_10151142035836941_565491467_n-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12914 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/309219_10151142035836941_565491467_n-1.jpg\" alt=\"gabriel R Quint\u00e3o\" width=\"500\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/309219_10151142035836941_565491467_n-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/309219_10151142035836941_565491467_n-1-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12914\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Gabriel Rastelli Quint\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a mem\u00f3ria coletiva, 2014 ficar\u00e1 marcado como o ano da Copa do Mundo do Brasil, com seus or\u00e7amentos fara\u00f4nicos, com o ignorar do exoesqueleto de Miguel Nicolelis e com a goleada sofrida pela Sele\u00e7\u00e3o Canarinho, em jogo contra a Alemanha. Por sua vez, \u00e9 prov\u00e1vel que os engajados no debate pol\u00edtico destaquem no ano a pris\u00e3o de manifestantes que se posicionaram contra o que a Copa custou financeira e socialmente, sublinhando tamb\u00e9m o in\u00edcio da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato (<em>sic<\/em>), da Pol\u00edcia Federal, que prendeu muita gente do alto escal\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem me abster da coletividade, a mim pareceu que 2014 \u00e9 um ano literariamente promissor. Reconhe\u00e7o que, nesses termos, promissor qualquer ano \u00e9, como arruinador de esperan\u00e7as todos os anos podem ser. Portanto, a minha impress\u00e3o alvissareira n\u00e3o esconde a obviedade pessoal: chegaram at\u00e9 mim livros que chamam a aten\u00e7\u00e3o pelo misto de juventude e maturidade de seus autores. S\u00e3o eles: <em>a primeira morte<\/em>, de Ma\u00edra Ferreira; <em>Peomas<\/em>, de Leandro Jardim (ambos de poesia); <em>O que eu disse ao General<\/em> (contos), de Anderson Fonseca; e <em>Fagundes Varela, Poeta<\/em> (ensaio), de Juliano Carrupt do Nascimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sublinho a obviedade e o acaso para ir do relato pessoal \u00e0 cr\u00edtica do tempo: os livros de que tratarei aqui n\u00e3o figuraram nem mesmo nas notinhas de lan\u00e7amento de grandes suplementos e jornais de literatura do Brasil. Seria injusto n\u00e3o reconhecer a pletora de lan\u00e7amentos em contraste com a exiguidade de peri\u00f3dicos, mas n\u00e3o se pode ignorar que estes t\u00eam as suas lentes de grande alcance, o que se verifica todas as vezes em que um autor de alguma invis\u00edvel periferia \u00e9 anunciado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Volto ao pessoal, sem dissoci\u00e1-lo da cr\u00edtica: eu sugeri aos jornais e suplementos que leio e com os quais colaboro resenhas sobre os livros em quest\u00e3o, mas houve recusa direta ou eloquente sil\u00eancio, e eu suponho que pelo menos de alguns desses peri\u00f3dicos seria diferente a resposta caso os livros fossem de editoras ricas ou se os autores tivessem guiado sua escrita por aquilo que pede a pauta contempor\u00e2nea: a voz de uma minoria, a escrita em novos suportes de tecnologia, o cruzamento dos g\u00eaneros. A pauta \u00e9 inegavelmente importante, dado que ela reclama aten\u00e7\u00e3o para o que, de modos diferentes, destoa de alguma hegemonia. S\u00f3 que ela \u2013 a pauta \u2013 inegavelmente \u00e9 transformada em moda, e assim \u00e0queles em que n\u00e3o se verifica <em>um determinado tipo de diferen\u00e7a<\/em> n\u00e3o se d\u00e1 a chancela de aut\u00eanticos contempor\u00e2neos, ainda que sejam aut\u00eanticos escritores. Mas aqui estamos num ve\u00edculo n\u00e3o tomado pela tend\u00eancia mercadol\u00f3gica, o que tamb\u00e9m \u00e9 promissor, sobretudo num momento em que a promessa se cumpre pela cent\u00e9sima vez. A abordagem em conjunto inevitavelmente reduzir\u00e1 a an\u00e1lise espec\u00edfica, mas tentarei fugir da mera informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comecemos pela poesia, e comecemos por um come\u00e7o. <em>a primeira morte<\/em> marca a estreia de Ma\u00edra Ferreira, e caso se junte o debute \u00e0 idade da autora no momento da publica\u00e7\u00e3o (24 anos), causar\u00e1 espanto o fato de em nada o livro parecer o de uma estreante, dada a coes\u00e3o da linguagem que permeia os poemas. Coesa tamb\u00e9m \u00e9 a ambienta\u00e7\u00e3o dos textos, via de regra num universo do\u00eddo, repleto de desencontros, ainda mais cortantes porque a voz que os anuncia nunca cede ao derramamento emotivo, como se verifica no extraordin\u00e1rio \u201cpequena princesa\u201d: \u201cse voc\u00ea diz que vem \u00e0s nove, por\/ exemplo, desde as sete estarei\/ enrolando os cachos que n\u00e3o\/ nasceram para ser cachos e preparando\/ a comida com receitas que nunca\/ aprendi e retirando os pelos\/ de todos os lugares onde n\u00e3o se\/ pode ter pelos e deixando \u00e0 mostra\/ a pele que precisa ser\/ pelada a pele impelida\/ pelo rel\u00f3gio marcando nove horas\/ e alguns minutos que \u00e9 quando\/ descubro que na verdade voc\u00ea\/ n\u00e3o vem e meus pelos agora\/ entopem o ralo do banheiro\/ desejando n\u00e3o terem sido\/ expulsos da vida por t\u00e3o\/ pouco\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poema propicia um desdobramento: em <em>a primeira morte<\/em> a dic\u00e7\u00e3o geral \u00e9 feminina, sendo alguns textos dotados de fort\u00edssima sensualidade. E se a dor \u00e9 dita com absoluta isen\u00e7\u00e3o de sentimentalismo, a pele pulsa de um modo surpreendentemente er\u00f3tico e sutil, mat\u00e9ria de \u201cn\u00e1ufragos\u201d: \u201cestou bebendo toda a sua \u00e1gua\/ como quem mastiga o seu corpo\/ como quem engole o seu rosto\/ ou chupa\/ a sua voz\/ sem remorso bebo\/ toda a sua \u00e1gua\/ e entrego a minha inteira e intacta\/ pra voc\u00ea\/ beber\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Peomas<\/em> \u00e9 o terceiro livro de poemas de Leandro Jardim, que tamb\u00e9m publicou um volume de contos, <em>Rubores<\/em>, de 2012.\u00a0 No presente trabalho, a escrita aparece mais encorpada, fundindo o que havia de melhor nos livros anteriores \u2013 especialmente o tom despojado e as tiradas criativas \u2013 a uma vis\u00e3o abrangente do tempo em que se encontra. Acerca disso, as investidas metapo\u00e9ticas n\u00e3o tratam apenas da escrita e seus c\u00f3digos, mas sim de uma forma de pertencimento e recusa aos dias que se colocam aos poetas, conforme se l\u00ea no emblem\u00e1tico \u201cDe \u00e9poca\u201d: \u201cEu poderia tornar drama\/ \u00e9pico o meu passado,\/ t\u00e3o simples e prosaico,\/ t\u00e3o contempor\u00e2neo.\/\/ Eu poderia erguer pir\u00e2mides eg\u00edpcias\/ de complexos de \u00c9dipo, palavras\/ \u00e0 sombra do imp\u00e9rio paterno,\/ dourar o meu caderno.\/\/ Mas meu cotidiano foi mais\/ humano, e n\u00e3o menos\/ po\u00e9tico por isso:\/ ser mundano \u00e9 mais prop\u00edcio\u201d. Registre-se com maior \u00eanfase o (antol\u00f3gico) poema que lembra as andan\u00e7as reflexivas de Drummond e Gullar pela rua, na medida em que a express\u00e3o po\u00e9tica, a um s\u00f3 tempo, rumina sobre o fazer do poeta e sobre seu lugar no mundo. Confinado em seu carro, igualado aos que se atolam nos engarrafamentos ub\u00edquos, o poeta, no exato momento em que revela o nascimento do poema, diagnostica seus limites na rep\u00fablica p\u00f3s-moderna \u2013 \u201cNada grave,\/ s\u00f3 mais uma obra,\/ s\u00f3 mais um ve\u00edculo,\/ s\u00f3 mais uma via.\u201d \u2013, sem, entretanto, deixar de flertar com a ambiguidade que instaura uma nova possibilidade, de sentido textual e de via existencial: \u201cN\u00e3o grave nada,\/ s\u00f3 mais uma poema,\/ s\u00f3 mais um poeta,\/ s\u00f3 mais um dia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a poesia est\u00e1 em pauta, conv\u00e9m citar um de seus novos e vigorosos int\u00e9rpretes brasileiros. Falo de Juliano Carrupt do Nascimento, erudito e engajado professor do Ensino M\u00e9dio do Sul Fluminense, em Volta Redonda. Apesar do v\u00ednculo universit\u00e1rio como aluno de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, Juliano \u00e9 um estudioso aut\u00f4nomo, o que se verifica de modo cabal com este <em>Fagundes Varela, Poeta<\/em>, tanto pelo objeto de an\u00e1lise quanto pelo pr\u00f3prio fazer do livro, que n\u00e3o resulta de uma demanda acad\u00eamica espec\u00edfica, como disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado ou tese de Doutorado. Juliano Carrupt do Nascimento \u00e9 antes de tudo um apaixonado leitor e militante do saber, e se isso j\u00e1 se verificava em sua publica\u00e7\u00e3o anterior \u2013 <em>O negro e a mulher em <\/em>\u00darsula<em>, de Maria Firmina dos Reis<\/em> (2009) \u2013, acerca da desconhecida romancista maranhense, agora se mostra de maneira mais pujante e abrangente, na medida em que o autor percorre com f\u00f4lego a bibliografia cr\u00edtica dedicada a Varela, inserindo seu trabalho nesta como nova e admir\u00e1vel contribui\u00e7\u00e3o. Como Juliano tamb\u00e9m \u00e9 um pensador do Ensino M\u00e9dio, sua cr\u00edtica liter\u00e1ria n\u00e3o dissocia a sala de aula universit\u00e1ria da secund\u00e1ria, fato verific\u00e1vel em seus eloquentes questionamentos: \u201cQual a imagem da vida e da obra de Fagundes Varela que nos chegam via ve\u00edculos institucionalizados de ensino e aprendizagem da poesia nacional, tais como livros did\u00e1ticos, ensaios e pesquisas hist\u00f3ricas de cunho te\u00f3rico e cr\u00edtico? Ou, qual a situa\u00e7\u00e3o de seu p\u00fablico e local de fala, nos XIX?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os meios oficiais de comunica\u00e7\u00e3o e as redes sociais diariamente nos trazem a not\u00edcia de um mundo obscuro, t\u00e3o desenvolvido quanto apegado a todo tipo de barb\u00e1rie. \u00c9 desse mundo estranho, gerenciado por totalitaristas \u2013 sejam ditadores ou democratas \u2013, que se abastece <em>O que eu disse ao General<\/em>, primoroso livro de narrativas curtas com as quais Anderson Fonseca evoca cenas e personagens da pol\u00edtica internacional para escancarar a selva globalizada. A poderosa s\u00edntese entre constru\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e refer\u00eancia hist\u00f3rica confere \u00e0 obra um singular\u00edssimo lugar na literatura contempor\u00e2nea, quer pela originalidade do argumento do livro, quer pelo teor cr\u00edtico estampado pelas p\u00e1ginas. Como exemplo, cito o ir\u00f4nico \u201cSanta Ceia\u201d, dedicado ao ex-presidente do Paraguai, recentemente deposto do cargo. Trata-se de leitura para a cabeceira da presidenta do Brasil: \u201cO presidente amava c\u00e3es. Em sua casa ele criava dez. sempre passeava com os c\u00e3es, \u00e0 tarde, nos jardins da casa presidencial; e a cada um alimentava. Embora fossem de linhagens carn\u00edvoras, n\u00e3o representavam nenhuma amea\u00e7a. Houve um dia, entretanto, que (<em>sic<\/em>) o Presidente enraivecido n\u00e3o deu a eles comida. Os c\u00e3es, em troca, o devoraram\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses quatro livros d\u00e3o boa mostra da qualidade do trabalho de jovens autores no Pa\u00eds. Agora \u00e9 torcer para que a outra parte se cumpra, e que eles encontrem os leitores que suas obras demonstram merecer. Esse gol \u00e9 do Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><em><strong>Marcos Pasche<\/strong> \u00e9 cr\u00edtico liter\u00e1rio e informa que a palavra \u201cfoco\u201d tem sin\u00f4nimos na L\u00edngua Portuguesa.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcos Pasche destaca quatro obras de novos autores brasileiros <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12913,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2479,2533,16],"tags":[251,11,2480,2482,2483,2481,1276],"class_list":["post-9625","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-100a-leva","category-aperitivo-da-palavra","category-destaques","tag-anderson-fonseca","tag-aperitivo-da-palavra","tag-breve-noticia-de-literatura-renovada","tag-juliano-carrupt-do-nascimento","tag-leandro-jardim","tag-maira-ferreira","tag-marcos-pasche"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9625","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9625"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9625\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12917,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9625\/revisions\/12917"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12913"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9625"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9625"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9625"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}