{"id":9630,"date":"2015-04-09T09:17:42","date_gmt":"2015-04-09T12:17:42","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9630"},"modified":"2016-11-03T09:48:46","modified_gmt":"2016-11-03T12:48:46","slug":"dedos-de-prosa-i-35","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-35\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>Marcus Vin\u00edcius Rodrigues<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_12908\" aria-describedby=\"caption-attachment-12908\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Gabriel-Rastelli.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12908 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Gabriel-Rastelli.jpg\" alt=\"gabriel-rastelli\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Gabriel-Rastelli.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Gabriel-Rastelli-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12908\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Gabriel Rastelli Quint\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O sabor dos anjos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por tr\u00e1s da vitrine, o olhar e o doce. O sonho brilhava encoberto em a\u00e7\u00facar, min\u00fasculos cristais faiscantes sob a luz da vitrine. Abel, ainda pequeno, com os olhos na altura do doce, uns olhos arregalados para o recheio de goiabada que escorria, olhos de quem adivinha um sabor nunca experimentado. Do outro lado, al\u00e9m do sonho, o filho do padeiro, um pouco mais alto, um pouco mais velho. Eles se viram aquela vez e, por muitos anos, n\u00e3o se conheceram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\">*<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Oi! Me v\u00ea aquele quindim ali?<br \/>\n\u2014 O maior?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta foi um sorriso entre as bochechas gordinhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea eu n\u00e3o conhe\u00e7o.<br \/>\n\u2014 Meu pai \u00e9 o dono.<br \/>\n\u2014 Ah! \u00c9 verdade. Tinha um garoto aqui quando eu era crian\u00e7a.<br \/>\n\u2014 Eu.<br \/>\n\u2014 E&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O outro sorriu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu morava com minha m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abel sorriu um sorriso de compreens\u00e3o. Agradeceu o doce e foi saindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Meu nome \u00e9 Amaro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abel se virou da porta interrogativo e apontou para o alto. Amaro fez um gesto conformado. Padaria Santo Amaro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A padaria ficava numa esquina e o letreiro se repetia para cada uma das ruas. Letras vermelhas sobre um fundo amarelo claro. H\u00e1 muito j\u00e1 n\u00e3o tinha a imagem do santo, de quem Abel tinha uma lembran\u00e7a apenas vaga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\">**<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 J\u00e1 pensou se fosse Santo Expedito?<br \/>\n\u2014 Ou S\u00e3o Bas\u00edlio.<br \/>\n\u2014 Santo Ant\u00e3o.<br \/>\n\u2014 Sabia que tem um S\u00e3o Frutuoso?<br \/>\n\u2014 Nossa! Ia ser muito pior.<br \/>\n\u2014 Eu n\u00e3o gosto \u00e9 do Jos\u00e9.<br \/>\n\u2014 Eu tamb\u00e9m tenho Jos\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 Amaro e Abel Jos\u00e9. Eles riram da coincid\u00eancia e se reconheceram ainda mais como amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Uma prima me chama de Belzebu.<br \/>\n\u2014 Por qu\u00ea?<br \/>\n\u2014 Bel, Z\u00e9, ela foi juntando e lembrou do danado. O apelido pegou.<br \/>\n\u2014 E voc\u00ea \u00e9 assim endiabrado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Riram. Amaro estendeu um doce para o novo amigo. Abel sequer perguntou do que se tratava. Colocou o doce inteiro na boca. Um gosto de am\u00eandoas lhe invadiu a boca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Beijinho de freira.<br \/>\n\u2014 Humm!<br \/>\n\u2014 Gostou?<br \/>\n\u2014 Acho que comi o papel junto.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o \u00e9 papel, n\u00e3o. \u00c9 uma h\u00f3stia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amaro falou para o novo amigo do desejo de colocar novos doces para vender. Pensava em recuperar o ar de padaria portuguesa que tinha no tempo do av\u00f4. Estava experimentando receitas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu gostei. Vou querer experimentar todas.<br \/>\n\u2014 Vou querer que voc\u00ea experimente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem acompanhasse a conversa dos dois jovens poderia perceber que havia ali um encontro. \u00a0Eles eram t\u00e3o diferentes. Amaro era alto e magro, uma pele levemente morena, uma morenice mediterr\u00e2nea, coberta por longos pelos negros. Abel era mais branco, uma brancura tamb\u00e9m mesti\u00e7a, sem os avermelhados dos brancos do norte. Tinha os cabelos tamb\u00e9m muito pretos, mas n\u00e3o tinha pelos. Era gordinho. Bra\u00e7os e pernas roli\u00e7os escapando das camisas e das bermudas. Amaro tentava disfar\u00e7ar, mas quase sempre seu olhar escorregava para aquelas partes do amigo em que a carne for\u00e7ava os tecidos das roupas. Tinha sido assim desde que o tinha visto saindo da padaria com um quindim. Abel tinha as pernas grossas sustentando uma bunda volumosa. As gorduras sem exageros doentios faziam curvas sinuosas e pareciam dan\u00e7ar quando ele andava. Amaro quis cham\u00e1-lo, ret\u00ea-lo um pouco mais, mas n\u00e3o sabia como. Foi assim que gritou o pr\u00f3prio nome para o rapaz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois daquele primeiro encontro, n\u00e3o viu a hora de ver o rapaz de novo. No dia seguinte, mesmo sem estar previsto, fez mais quindins. Escolheu de prop\u00f3sito formas maiores. Abel retornou, mas n\u00e3o quis o quindim. Preferiu uma tortinha de lim\u00e3o. Depois, no outro dia, quis um brigadeiro. No fim de uma semana, j\u00e1 tinha experimentado todos os doces da vitrine. Um por dia. Amaro percebeu seus olhos procurando alguma novidade. Lembrou-se do sonho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O recheio desse \u00e9 de creme de baunilha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abel mordeu o doce num prazer genu\u00edno. Logo depois, entretanto, o brilho nos olhos diminuiu. N\u00e3o havia mais novidade. Ele comia o doce com avidez ainda, mas uma avidez tensa, de quem apenas se deixa levar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea tem tempo?<br \/>\n\u2014 Hum?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amaro foi para a cozinha. Uma r\u00e1pida mistura: a\u00e7\u00facar, manteiga, farinha de trigo, baunilha. Um forno quente, um pouco de conversa. Logo, os biscoitos ficaram prontos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O que \u00e9 isso?<br \/>\n\u2014 Areias de Cascais.<br \/>\n\u2014 Bom!<br \/>\n\u2014 \u00c9 o que h\u00e1 de mais simples em doces.<br \/>\n\u2014 Nunca tinha experimentado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amaro sabia. Abel gostava da novidade, sabores novos, mesmo que fossem simples.\u00a0 Foi assim que ele come\u00e7ou a seduzir o amigo. A cada dia fazia um doce diferente. De simples biscoitos de natas a bocas de damas. Fez os mais diversos manjares, ambrosias, madalenas, p\u00e3es-de-l\u00f3. N\u00e3o faltaram os past\u00e9is de Bel\u00e9m e outros doces de convento. Amaro seguia as receitas de um livro antigo do av\u00f4. Abel vinha todos os dias para experimentar a novidade. A cada dia, Amaro se mostrava mais pr\u00f3ximo. Abel j\u00e1 n\u00e3o era um mero cliente. Era convidado para a cozinha onde podia ver os doces sendo feitos. Lambia as massas cruas das panelas, provava cada etapa at\u00e9 o doce estar pronto. Ele se perdia num labirinto de sabores \u00e0s vezes t\u00e3o iguais, mas sempre apresentados de maneira diferente. E enquanto o menino guloso se lambuzava nas del\u00edcias, Amaro se deliciava de ver as bochechas gordinhas, os bra\u00e7os roli\u00e7os que pegava com as m\u00e3os cheias para mostrar ao amigo alguma panela fervente. Ele degustava o corpo do rapaz aos poucos, em esbarr\u00f5es casuais, em gestos fraternos. As coxas de Abel eram tocadas na espontaneidade de uma piada. O corpo todo do jovem se debru\u00e7ava sobre Amaro numa tentativa de alcan\u00e7ar um doce que lhe era negado. Eles viveram essa dan\u00e7a por semanas. Um encontro de desejos. Encontro? Assim pensava Amaro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Hoje \u00e0 noite vou fazer papos de anjo.<br \/>\n\u2014 Hum. Eu gostei desses.<br \/>\n\u2014 Mas vou fazer diferente: papos de anjo na h\u00f3stia&#8230;<br \/>\n\u2014 Quer me ver fazendo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abel voltou \u00e0 noite quando a padaria estava fechada. Amaro lhe abriu a porta dos fundos, apenas o suficiente para o rapaz passar ro\u00e7ando no outro. Amaro sentiu a bunda inteira do rapaz passar por seu corpo. Chegou a estremecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abel perguntou dos doces, os papos de anjo de que j\u00e1 tinha gostado tanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014Antes voc\u00ea vai experimentar esse bolo dos anjos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era um bolo de claras, muito leve. A forma estava de ponta cabe\u00e7a equilibrada no alto de uma garrafa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O que \u00e9 isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abel estava maravilhado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u00c9 um bolo tradicional americano. Tem de deixar esfriar assim, se n\u00e3o murcha. Tinha de aproveitar as claras, n\u00e9.<br \/>\n\u2014 Podia ter engomado umas roupas.<br \/>\n\u2014 Da pr\u00f3xima vez traga suas camisas.<br \/>\n\u2014 Prefiro experimentar esse bolo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amaro desenformou o bolo. Era lev\u00edssimo. Abel comeu aos bocados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Parece mesmo comida dos anjos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falava de boca cheia. O bolo era t\u00e3o leve que logo j\u00e1 tinha comido a metade. Enquanto isso, Amaro colocava a massa dos papos de anjo em h\u00f3stias, fechava-as como um pastel, besuntava de gemas e passava em a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Agora experimenta os papos de anjo desse jeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pegou um dos doces e ofereceu a Abel diretamente na boca. O rapaz mordeu o doce no meio. A H\u00f3stia partida deixou escorrer o creme pelo bra\u00e7o de Amaro. Num gesto instintivo, o rapaz lambeu o bra\u00e7o do amigo. Junto com o doce, os pelos longos e negros do bra\u00e7o foram sugados. O suor se intrometeu no meio do doce. Uma mistura alegre e inusitada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amaro percebeu o maravilhamento do outro. Ent\u00e3o, espremeu mais creme no bra\u00e7o e ofereceu. Abel hesitou. Antes, tinha lambido por reflexo, dominado pelo desejo do doce. Agora, sentia que n\u00e3o devia. Lamber um homem? Nunca tinha querido isso. N\u00e3o gostava. Mas aquele gosto? O sal misturado ao a\u00e7\u00facar e \u00e0s gemas?\u00a0 Ficou uns instantes parado olhando para o amigo. Entre eles, o doce. Amaro rasgou outro envelope de h\u00f3stia e espalhou mais creme. O bra\u00e7o estava todo lambuzado de papo de anjo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abel n\u00e3o resistiu. Dessa vez, talvez porque j\u00e1 n\u00e3o era um ato impensado, talvez porque sabia do passo al\u00e9m que dava, lambeu o bra\u00e7o devagar. Assim, o gosto lhe veio mais calmo, mais definitivo. Parecia que experimentava uma revela\u00e7\u00e3o. Depois daquilo, sentia que n\u00e3o se contentaria com nada menos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lambia o bra\u00e7o peludo do amigo. Lambia meticulosamente. Lambia o creme e lambia o bra\u00e7o sem creme. O doce e depois o sal. Abria a boca para sentir ambos na l\u00edngua. Os olhos fechados. Deleitava-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amaro extasiava de sentir aquela boca suave na pr\u00f3pria pele. Sentia-se beijado. E, vendo na bochecha do outro um pouco de creme, n\u00e3o resistiu. Sentia que tamb\u00e9m tinha o direito de provar o doce e provar o outro. Avan\u00e7ou sua boca, primeiro no creme; depois, direto nos l\u00e1bios de Abel. N\u00e3o lambia. Beijava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rea\u00e7\u00e3o foi susto e rejei\u00e7\u00e3o. Abel o empurrou com for\u00e7a quando a l\u00edngua j\u00e1 lhe entrava pela boca a dentro. N\u00e3o teve sabor, n\u00e3o teve prazer. Ele n\u00e3o saberia, depois, descrever o que sentiu. N\u00e3o sentiu nada. Talvez, bem mais tarde, chegasse a compreender que era simplesmente isso: n\u00e3o gostou, n\u00e3o se sentiu atra\u00eddo, n\u00e3o desejava. Aquela aus\u00eancia de querer, para algu\u00e9m que era movido pelo desejo de experimentar, era assustadora. Talvez porque fosse um homem? Talvez porque nunca tivesse pensado a respeito? Talvez porque fosse al\u00e9m do paladar e esse era o \u00fanico sentido que importava para o rapaz. Abel fugiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amaro se sentiu perdido. At\u00e9 aquele momento achava que vivia um perfeito encontro de desejos; o seu pelo amigo, um desejo de pele e de amor; e o do amigo, um desejo talvez mais difuso, mas ainda assim um desejo por si. Ele acreditava nesse encontro, nesse ponto de chegada de dois caminhos. S\u00f3 depois de ser empurrado com for\u00e7a \u2014 e Abel era forte\u2014, \u00e9 que se deu conta de que os desejos apenas se cruzavam e se atravessavam. Ele via a gula de Abel como um reflexo de seus desejos. N\u00e3o era isso. Descobriu n\u00e3o um reflexo, mas uma refra\u00e7\u00e3o. Um desvio, um tr\u00e1gico desencontro. Abel fugiu e ele ficou s\u00f3 em meio aos doces com nomes de anjo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Abel saiu da padaria assustado. Pensou que talvez tivesse culpa pelo que tinha acontecido, mas repetia pra si mesmo: eu n\u00e3o imaginava, eu n\u00e3o imaginava. Dizia e n\u00e3o conseguia apagar as imagens do amigo tocando em seu bra\u00e7o, em sua perna. E no meio das imagens, os doces; tantos sabores delicadamente diferentes e iguais, como um cont\u00ednuo crescente. Amaro tinha lhe seduzido com aquele desfile sem fim. Ele se deixava levar feliz, guiado pelo desejo de mais um novo sabor; e, ent\u00e3o, o sal no bra\u00e7o do amigo, o suor nos pelos. Aquela incr\u00edvel descoberta. Abel seguia pela rua meio tonto. Resolveu sentar numa escadinha de tijolos de uma casa abandonada. As m\u00e3os sujas de a\u00e7\u00facar apoiadas no degrau descarnado. O a\u00e7\u00facar, a gordura, o barro. Abel sentiu aquela textura. Olhou aquela nova mistura nas m\u00e3os. Um comando de aventura na cabe\u00e7a. Ser\u00e1? Pensou uma \u00faltima hesita\u00e7\u00e3o antes de lamber as pontas dos dedos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Marcus Vin\u00edcius Rodrigues<\/strong> nasceu em Ilh\u00e9us-BA e vive em Salvador. Escreve fic\u00e7\u00e3o e poesia. Publicou os livros \u201cPequeno invent\u00e1rio das aus\u00eancias\u201d (Poesia, Pr\u00eamio Funda\u00e7\u00e3o Casa de Jorge Amado, 2001); \u201c3 vestidos e meu corpo nu\u201d (Contos, P55 Edi\u00e7\u00f5es, 2009), \u201cEros resoluto\u201d (Contos, P55 Edi\u00e7\u00f5es, 2010),\u00a0 \u201cCada dia sobre a terra\u201d (Contos, Ed Caramur\u00ea\/EppPublicidade, 2010) e \u201cSe tua m\u00e3o te ofende\u201d (Novela, P55 Edi\u00e7\u00f5es, 2014).\u00a0 Participou de v\u00e1rias antologias po\u00e9ticas, al\u00e9m de figurar no volume \u201cAnos 2000 &#8211; Cole\u00e7\u00e3o Roteiro da Poesia Brasileira\u201d (Global Editora, 2009). Mant\u00e9m o blog<a href=\"http:\/\/www.cafemolotov.blogspot.com\"> <strong>Caf\u00e9 Molotov<\/strong><\/a>. \u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma profus\u00e3o de desejos transita no conto in\u00e9dito de Marcus Vin\u00edcius Rodrigues<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12907,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2479,2534,16],"tags":[1111,81,41,2484,2487,2485,364,2486,252,2488],"class_list":["post-9630","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-100a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-bahia","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-desejos","tag-ficcao","tag-gula","tag-ilheus","tag-luxuria","tag-marcus-vinicius-rodrigues","tag-o-sabor-dos-anjos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9630","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9630"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9630\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12911,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9630\/revisions\/12911"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12907"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9630"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9630"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9630"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}