{"id":9649,"date":"2015-04-09T12:27:04","date_gmt":"2015-04-09T15:27:04","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9649"},"modified":"2015-06-04T12:08:33","modified_gmt":"2015-06-04T15:08:33","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-34","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-34\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Algu\u00e9m que utiliza as palavras como ponte para um entendimento sobre si mesmo certamente confere \u00e0 vida ares diferenciados. Se o sopro, mat\u00e9ria-prima das horas, \u00e9 a primeira raz\u00e3o de ser de qualquer um de n\u00f3s, o engajamento pelo verbo expande fronteiras do pensar e agir, propondo uma passagem n\u00e3o menos impune pelo mundo. Deixar-se guiar palas palavras significa tamb\u00e9m tentar equilibrar naturais tens\u00f5es entre o racional e o emocional. Parece ser equa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se resolve cartesianamente na medida em que cada polo encerra componentes travestidos de individualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 receita para apreender as epifanias de um criador. Postulados, c\u00e2nones, refer\u00eancias, todos eles nos falam de um pensamento anal\u00edtico. No entanto, vivenciar a leitura e dela retirar algo \u00e9 experi\u00eancia movida fortemente pelos subterr\u00e2neos de nossa consci\u00eancia, ambiente regido por uma divindade que at\u00e9 hoje n\u00e3o se sabe bem quem \u00e9: a tal subjetividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrever \u00e9 um agarrar-se a incertezas. \u00c9 conferir ao mundo um olhar que afugenta determinismos. Um flerte constante com a d\u00favida e o mist\u00e9rio. Tarefa de mortais apenas. E a escritora <a href=\"http:\/\/neuzamariakerner.blogspot.com.br\/%20\"><strong>Neuzamaria Kerner<\/strong><\/a> demonstra entender bem a dimens\u00e3o desse herc\u00faleo of\u00edcio na medida em que nos oferta sua obra. Durante toda uma vida dedicada \u00e0s letras, maior parte dela tomada pela poesia, essa autora renega r\u00f3tulos e classifica\u00e7\u00f5es. Para ela, o que importa mesmo \u00e9 apresentar caminhos, n\u00e3o estabelecer verdades. Talvez por isso n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que sua cria\u00e7\u00e3o mais recente, <em>O Livro-arb\u00edtrio das Evas \u2013 dentro e fora do Jardim <\/em>(Editus \u2013 2014) \u00e9 um momento em que se exalta a liberdade em duas perspectivas cruciais: a do criador e a do leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de chegar ao seu \u201clivro-arb\u00edtrio\u201d, Neuzamaria vivenciou saberes e sabores em publica\u00e7\u00f5es como <em>Fragmentos de Cristal<\/em>, <em>Eu Bebi a Lua <\/em>e<em> A Presen\u00e7a do Mar na Prosa Grapi\u00fana<\/em>. Nasceu em Salvador, Bahia, e vive hoje em Vit\u00f3ria, no Esp\u00edrito Santo. Sua trajet\u00f3ria de escritora tamb\u00e9m se mescla \u00e0 carreira de professora, fei\u00e7\u00e3o que marcou de modo pungente sua vida. Ajudou a fundar a Diversos Afins e agora retorna \u00e0 nossa presen\u00e7a para falar especialmente sobre seu novo rebento liter\u00e1rio, al\u00e9m de recordar passagens importantes de sua manifesta\u00e7\u00e3o po\u00e9tica no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_9657\" aria-describedby=\"caption-attachment-9657\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/INTERNA-I.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9657 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/INTERNA-I.jpg\" alt=\"Neuzamaria Kerner\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/INTERNA-I.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/INTERNA-I-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9657\" class=\"wp-caption-text\">Neuzamaria Kerner \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Seu mais recente livro j\u00e1 desperta a aten\u00e7\u00e3o pelo t\u00edtulo emblem\u00e1tico que possui. Nele, voc\u00ea deu voz e vez a personagens femininas silenciadas pelos seus respectivos tempos. O que h\u00e1 dentro e fora desse jardim mundano? O que dizer e o que calar?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NEUZAMARIA KERNER &#8211;<\/strong> Dentro do Jardim, h\u00e1 as muitas vozes abafadas das Evas que n\u00e3o tiveram o direito \u00e0 express\u00e3o da pr\u00f3pria alma. Fora do Jardim, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, ainda existem Evas silenciadas por um mundo que come\u00e7a a acordar (ufa!) para ouvir os sentimentos que brotam de almas aprisionadas. Apesar dos \u201calardes\u201d femininos, ainda reina &#8211; na atualidade &#8211; o sil\u00eancio por causa de um medo ancestral: de dizer que ama e quer ser amada, de dizer que sofre, que se alegra, que tem raiva, que tem fome de justi\u00e7a e direitos respeitados, que tem desejos. Como eu mesma nunca paro de me fazer perguntas, busquei nelas as respostas de que necessitava para entend\u00ea-las e me entender. Se me permite dois exemplos: Lilith, que aparece em textos da Babil\u00f4nia, foi execrada de outros \u201cambientes\u201d e acusada at\u00e9 de ser a serpente que tentou Eva (a primeira). Ela reage e se defende dizendo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Mostro-me para sair do ex\u00edlio<\/em><br \/>\n<em>no qual me colocaram.<\/em><br \/>\n<em>Quero que todos ou\u00e7am<\/em><br \/>\n<em>a voz que de mim tiraram:<\/em><br \/>\n<em>eu feria os princ\u00edpios do recato,<\/em><br \/>\n<em>assim foi o relato dos escribas<\/em><br \/>\n<em>que me condenaram<\/em><br \/>\n<em>a ser poeira do livro oficial.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seguida, Eva &#8211; a que est\u00e1 nos Livros -, baianamente retada, me disse que Deus lhe deu o jardim e depois a expulsou por causa da natureza que Ele pr\u00f3prio lhe deu:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Fui Tua cria e Te louvei<\/em><br \/>\n<em>Tua alma habitando em mim.<\/em><br \/>\n<em>Me deste o conhecimento<\/em><br \/>\n<em>da bondade, da mal\u00edcia, da per\u00edcia em parir.<\/em><br \/>\n<em>N\u00e3o carrego culpa ou dor<\/em><br \/>\n<em>dentro ou fora do jardim,<\/em><br \/>\n<em>posto que onisciente<\/em><br \/>\n<em>me soubeste pura e s\u00e3,<\/em><br \/>\n<em>e eu Te sei meu conivente<\/em><br \/>\n<em>no epis\u00f3dio da ma\u00e7\u00e3.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">As Evas n\u00e3o querem mais calar porque t\u00eam o livro e o arb\u00edtrio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A sua escolha por mulheres b\u00edblicas encerra algum sentido especial?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NEUZAMARIA KERNER &#8211; <\/strong>A B\u00edblia, apesar de sempre ter sido uma fonte de inspira\u00e7\u00e3o, foi tamb\u00e9m o lugar da opress\u00e3o feminina. Para mim, independentemente da quest\u00e3o religiosa \u2013 e n\u00e3o foi essa minha motiva\u00e7\u00e3o para escrever \u2013 era intrigante como mulheres com hist\u00f3rias t\u00e3o bonitas n\u00e3o tiveram lugares de destaque oferecidos pelos int\u00e9rpretes da B\u00edblia. A mulher de Lot, a que virou est\u00e1tua de sal, n\u00e3o tinha nome? Veja o que ela, Irit, me diz:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Que mal houve no meu gesto<\/em><br \/>\n<em>qual meu crime, meu pecado?<\/em><br \/>\n<em>Fui salgada, fui punida<\/em><br \/>\n<em>apenas por ter olhado?<\/em><br \/>\n<em>Olhei talvez por saudade<\/em><br \/>\n<em>dos filhos que quis rever;<\/em><br \/>\n<em>n\u00e3o foi ceticismo ou bravata<\/em><br \/>\n<em>tampouco por ser voyeur.<\/em><br \/>\n<em>Provoquei do comando a ira,<\/em><br \/>\n<em>foi duro comigo o juiz,<\/em><br \/>\n<em>mas pergunto a quem me sente<\/em><br \/>\n<em>qual m\u00e3e n\u00e3o faria o que fiz?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m sem nome foi a mulher de Putifar; mil Madalenas ou Magdalas existiam, \u00e0 \u00e9poca, e no final virou uma sagrada confus\u00e3o que no meu \u201cinocente\u201d olhar todas essas eram as prostitutas. Posso rir? A fala de Madalena sobre o seu encontro com o Pregador me causou profunda alegria. Que mulher corajosa para amar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, o sentido de tudo est\u00e1 na reinterpreta\u00e7\u00e3o que dou \u00e0 vida dessas mulheres porque acho injusto que fiquem relegadas ao limbo. N\u00e3o foram as Evas que tornaram imperfeito esse nosso jardim. Esse jardim foi ressignificado e a ele todas n\u00f3s podemos voltar porque com todas as circunst\u00e2ncias que envolvem um jardim \u00e9 dele e nele que nos alimentamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; As Evas do nosso tempo t\u00eam conseguido fazer do mundo um lugar menos in\u00f3spito para elas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NEUZAMARIA KERNER &#8211; <\/strong>Mais ou menos. As Evas de nosso tempo est\u00e3o mais conscientes do seu papel no mundo, que continua razoavelmente in\u00f3spito tanto para elas quanto para os Ad\u00e3os. O feminismo \u2013 que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o foco desse livro \u2013 trata os textos sagrados e patriarcais dos tempos de outrora como antagonistas das mulheres e da condi\u00e7\u00e3o feminina. Mesmo considerando que esses textos ainda influenciam a vida de muitas. No entanto, n\u00e3o podemos nos perder nos dois tempos: ontem e hoje. As Evas da atualidade, na maioria das culturas, s\u00e3o livres para explorar o que \u00e9 relevante para as suas vidas e vivenciar suas pr\u00f3prias descobertas, como elas nos dizem nos poemas\u00a0<em>A Morte da Cinderela, Contenda, Aprendizados em Quatro Segundos<\/em>, entre outros. Elas querem o amor em toda a sua plenitude e no sentido mais puro da palavra, mas rejeitam a cruz que foi imposta (ou auto-imposta) em algum momento da nossa hist\u00f3ria. Por isso Tereza de \u00c1vila, a santa, veio espontaneamente ser uma das Evas do livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>De tu<\/em><br \/>\n<em>&#8211; n\u00e3o sei bem o que querias &#8211;<\/em><br \/>\n<em>mas meu cora\u00e7\u00e3o, Tereza,<\/em><br \/>\n<em>n\u00e3o pode ser s\u00f3 de Jesus<\/em><br \/>\n<em>e nem quero por alegria<\/em><br \/>\n<em>as dores da Santa Cruz.<\/em><br \/>\n<em>Sei que me sabes, Tereza,<\/em><br \/>\n<em>pois que me vistes mergulhar<\/em><br \/>\n<em>em olhos de mar nascidos<\/em><br \/>\n<em>nos claros da luz solar.<\/em><br \/>\n<em>De um outro anjo lanceiro<\/em><br \/>\n<em>&#8211; qual teu poeta Jo\u00e3o \u2013<\/em><br \/>\n<em>recebi o que poucos entendem:<\/em><br \/>\n<em>o prazer de ficar na pris\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dentro da poesia que o mundo \u00e9 menos in\u00f3spito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Quantas falas cabem na verdade de um poeta?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NEUZAMARIA KERNER &#8211; <\/strong>Muitas falas! As do pr\u00f3prio poeta e as dos outros (que s\u00e3o muitos), incluindo os invis\u00edveis para o que chamamos de realidade. A fala po\u00e9tica n\u00e3o \u00e9 feita somente de palavras escritas com l\u00e1pis depois de pensadas, mas tamb\u00e9m das palavras sonhadas que o poeta transforma em sua realidade e sua verdade, posto que esta pode ser relativa porque depende da perspectiva de cada um. Por isso\u00a0<em>Rebeca <\/em>&#8211; em sua fala &#8211; nos pergunta:\u00a0<em>quantas falas cabem numa verdade?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Permanentemente o ser humano, que pensa muito e investiga, busca a verdade que lhe alimente, pois sempre questiona o que foi estabelecido pela sociedade, e nem sempre fica satisfeito com o que tem nas m\u00e3os; o que est\u00e1 posto. Por isso acolhe muito facilmente o que lhe vem na imagina\u00e7\u00e3o e transforma numa fala real. Por isso, como no poema\u00a0<em>Anjo no Espelho<\/em>, n\u00e3o h\u00e1 muitas preocupa\u00e7\u00f5es com as verdades das falas porque&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><em>(&#8230;) Como poeta<\/em><br \/>\n<em>me atrevo ao desrigor da raz\u00e3o<\/em><br \/>\n<em>e n\u00e3o busco o enigma inominante<\/em><br \/>\n<em>que exubera nesse espelho frente a mim&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Apenas me alimento dessa fonte de inspira\u00e7\u00e3o.<\/em><br \/>\n<em>(&#8230;)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Al\u00e9m do percurso denso e \u00edntimo pelo universo feminino, seu livro-arb\u00edtrio se dedica a outras paisagens e observa\u00e7\u00f5es. Tem-se a sensa\u00e7\u00e3o de que nele voc\u00ea consolida toda uma trajet\u00f3ria po\u00e9tica. Quais reflex\u00f5es voc\u00ea vislumbra nisso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NEUZAMARIA KERNER &#8211; <\/strong>\u00c9 verdade que al\u00e9m do universo feminino os poemas e os contos no final do livro se ampliam pelo universo onde habita o ser humano com suas alegrias, tristezas, reflex\u00f5es, certezas, d\u00favidas e celebra\u00e7\u00e3o da vida acima de tudo, mesmo quando h\u00e1 turbul\u00eancias na caminhada de cada um de n\u00f3s, homens e mulheres. Das reflex\u00f5es feitas tomamos a consci\u00eancia de que somos parte de tudo o que forma a comunidade global. E s\u00f3 pensar nisso j\u00e1 \u00e9 algo po\u00e9tico. Ser tudo e parte de tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que talvez consolide \u2013 como voc\u00ea diz &#8211; uma trajet\u00f3ria po\u00e9tica seja mais a consolida\u00e7\u00e3o da maturidade que vem sendo constru\u00edda pouco a pouco. \u00c9 dentro dessa maturidade que reencontramos a liga\u00e7\u00e3o da nossa alma com a alma do mundo, da\u00ed os reflexos dessa consci\u00eancia (paradoxal) de sermos felizes, mas tamb\u00e9m angustiados e, para mim, a \u00fanica forma de dizer desses sentimentos \u00e9 poemando \u00a0&#8211; at\u00e9 na prosa. No pequeno conto\u00a0<em>O Livro-arb\u00edtrio<\/em>\u00a0\u00e9 poss\u00edvel ver uma prosa po\u00e9tica sofrida de algu\u00e9m que viaja provavelmente de um plano para outro a fim de encontrar uma pessoa. H\u00e1 poesia densa nas falas ditas e nas subjetividades da situa\u00e7\u00e3o. Repare:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<em>E eu que vim de t\u00e3o longe para v\u00ea-lo&#8230; E eu que atravessei tantas nuvens para v\u00ea-lo. Sabe quantas eternidades furei para chegar no lugar exato onde voc\u00ea estaria para me encontrar? Pare\u00e7o em atrasos. Pere\u00e7o nos prazos, s\u00f3 pare\u00e7o. Aqui estou diante da boca dos favos de beijos que nos tempos passados voc\u00ea prometeu. Vim peg\u00e1-los. Vim coloc\u00e1-los neste corpo almado que ainda \u00e9 seu.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Cheguei! Vim com livro e com liberdade. O livro-arb\u00edtrio meu.\u00a0<\/em>(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Se h\u00e1, ent\u00e3o, realmente algo consolidado, \u00e9 a poesia que existe na vida e na morte. Aqui e acol\u00e1. S\u00f3 n\u00e3o enxergamos essas diversas realidades porque ficamos em estado sonamb\u00falico e n\u00e3o damos ouvidos aos anseios de nossa alma, que tem um vislumbre diferente do ser puramente carnal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_9726\" aria-describedby=\"caption-attachment-9726\" style=\"width: 343px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/INTERNA-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9726 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/INTERNA-II.jpg\" alt=\"Neuzamaria Kerner\" width=\"343\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/INTERNA-II.jpg 343w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/INTERNA-II-206x300.jpg 206w\" sizes=\"auto, (max-width: 343px) 100vw, 343px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9726\" class=\"wp-caption-text\">Neuzamaria Kerner \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A presen\u00e7a de um componente m\u00edstico \u00e9 algo que, de alguma forma, sempre permeou seus versos. Percebe isso como um poss\u00edvel sentido de transcend\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NEUZAMARIA KERNER &#8211; <\/strong>Sim. \u00c9 isso que busco para minha vida e que aparece nos meus textos (mesmo quando n\u00e3o est\u00e1 expl\u00edcito). O sentido da minha exist\u00eancia est\u00e1 na busca de tudo o que transcende a experi\u00eancia da carne. Creio realmente que somos tudo. Arte e parte de tudo, entendendo que n\u00e3o estamos entregues a um destino sem dire\u00e7\u00e3o, pois que caminhamos dentro de uma perspectiva iluminadora: l\u00famen na dor de viver! Por\u00e9m quando eu falo a palavra \u201cdor\u201d, n\u00e3o a imagino como\u00a0<em>des-gra\u00e7a<\/em>, mas no exerc\u00edcio de aprender a viver entremundos e entretudos, buscando acordar as for\u00e7as da vida universal que moram dentro de n\u00f3s. Todos os seres se comunicando e intercambiando a seiva c\u00f3smica em harmonia e em movimento na plenitude de um Amor maior que nos acolhe e nos embala. Todos os seres sentem dor para crescer, pensar, mudar, evoluir&#8230; \u00e9 como adquirir condicionamento f\u00edsico por meio da gin\u00e1stica. Isso se aprende vivendo, errando, acertando, consertando, doendo, mas sempre vivendo aqui ou acol\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando um pouco \u00e0 coisa da dor &#8211; simb\u00f3lica ou n\u00e3o &#8211; de que falei, h\u00e1 um poema chamado\u00a0<em>Contenda<\/em>\u00a0onde est\u00e1 dito que remo e navio navegam, mas o remo funciona como um chicote que espanca o mar. Em verdade, chicote que espanca \u00e9 o mesmo que faz com que a navega\u00e7\u00e3o (vida) aconte\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m o sentido de transcend\u00eancia est\u00e1 bastante acentuado no poema\u00a0<em>Passageiro nas Catedrais<\/em>. O personagem, digamos assim, nos apresenta uma realidade que pode ser percebida atrav\u00e9s dos sentidos (v\u00e1rios) e que independe de um mundo a que chamamos natural. Outra realidade. Uma situa\u00e7\u00e3o de intermit\u00eancia em idas e voltas, transpondo barreiras, tempos, espa\u00e7os&#8230; O verbo transcender (transitivo direto e indireto ao mesmo tempo) \u2013 j\u00e1 que estamos falando de transcend\u00eancia &#8211; exige dois complementos e, mal comparando, esse personagem para existir necessita de v\u00e1rias realidades as quais nunca buscamos entender direito. Assim \u00e9 como o meu texto que faz com que eu me entenda a partir de realidades m\u00faltiplas, buscando todos os sentidos poss\u00edveis, incluindo o sentido m\u00edstico em tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(&#8230;) Sou viajeiro<\/em><br \/>\n<em>passageiro nas catedrais<\/em><br \/>\n<em>que permanecer\u00e3o nas lembran\u00e7as<\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>nas ru\u00ednas<\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>nas reformas<\/em><br \/>\n<em>dos tempos que me levam para a pr\u00f3xima catedral<\/em><br \/>\n<em>at\u00e9 quando for mudado<\/em><br \/>\n<em>o meu estado de mat\u00e9ria<\/em><br \/>\n<em>(&#8230;)<\/em><br \/>\n<em>Mas sei que a dist\u00e2ncia entre as catedrais<\/em><br \/>\n<em>e meu destino<\/em><br \/>\n<em>se encurta e me alonga por igual&#8230;<\/em><br \/>\n<em>afinal \u00e9 para isso que tenho viajado<\/em><br \/>\n<em>de catedral em catedral.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voc\u00ea \u00e9 acometida pelo que chamam de ang\u00fastia da cria\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NEUZAMARIA KERNER &#8211;<\/strong> Muito raramente eu sinto essa ang\u00fastia de que falam sobre o ato de criar. Quem escreve, recria realidades, formata o que n\u00e3o tem forma dentro de certo caos porque \u00e0s vezes o texto come\u00e7a pelo meio ou pelo fim do pensamento e \u00e9 preciso reorden\u00e1-lo. \u00c0s vezes d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de vazio quando busco uma palavra e vejo que as que me v\u00eam \u00e0 mente n\u00e3o se encaixam no que estou querendo dizer porque \u00e9 muito importante dar sentido ao sem-sentido aparentemente. A palavra espec\u00edfica que n\u00e3o vem na hora da necessidade d\u00e1 uma ligeira afli\u00e7\u00e3o. Num outro momento, quando termino um texto, vem uma sensa\u00e7\u00e3o de esvaziamento e al\u00edvio como de uma necessidade fisiol\u00f3gica. Em outras vezes, quando tenho uma vaga ideia do que quero escrever e n\u00e3o escrevo, sinto uma esp\u00e9cie de aus\u00eancia, de alguma coisa que precisa ser preenchida. Se sinto uma urg\u00eancia em extravasar algo, escrevo onde estiver e a hora que for&#8230; O problema \u00e9 que estou sempre extravasando (risos), inclusive dentro dos sonhos. Sonho muito. De verdade. Dormindo. Muitos textos v\u00eam desses momentos. Frases soltas, uma palavra que fica pulsando repetidamente. \u00c0s vezes acordo e escrevo a ideia ou a palavra, o que vier, mas n\u00e3o dou ousadia ao sonho em me tirar o sono pra n\u00e3o viciar. Volto a dormir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Venho escrevendo um livro de pequenos contos onde o personagem \u00e9 uma esp\u00e9cie de andarilho. H\u00e1 v\u00e1rios dias que ele n\u00e3o fala comigo, n\u00e3o me diz aonde vai parar, com quem vai se encontrar, sobre o que vai conversar. Nada&#8230; Ele me olha e eu o olho de volta. Estamos tendo paci\u00eancia um com o outro e acho isso muito interessante&#8230; Essa calma, mas o dia inteiro eu penso nele cheio de sil\u00eancios. Sinto inquieta\u00e7\u00e3o por isso, mas n\u00e3o ang\u00fastia. Se eu tivesse me comprometido com algu\u00e9m que me desse prazo, talvez eu sentisse a ang\u00fastia para criar obrigatoriamente uma realidade a qualquer custo. Mas os prazos s\u00e3o comigo mesma e sempre negocio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo alguns textos religiosos, Deus criou o mundo em sete dias. Foi de uma rapidez formid\u00e1vel! Provavelmente tinha pressa, mas tenho certeza de que n\u00e3o sentiu ang\u00fastia. J\u00e1 pensou em um Deus angustiado?\u00a0Se\u00a0ele teve ang\u00fastia, deve ter sido ao criar o ser humano cheio de complexidades. Claro que n\u00e3o estou me comparando com Deus, mas, com certeza, aprendi com Ele a paci\u00eancia, da\u00ed n\u00e3o crio dentro da ang\u00fastia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Durante algum tempo, voc\u00ea esteve envolvida com projetos de forma\u00e7\u00e3o de leitura. O que dizer dessa experi\u00eancia? Inciativas desse porte podem mudar efetivamente nossa realidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NEUZAMARIA KERNER &#8211; <\/strong>Trabalhei com projetos de leitura em v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es de ensino, mas ainda continuo, de maneira informal, falando da import\u00e2ncia de ler. Continuo falando sobre leitura, produzindo leitura e motivando para a leitura quando presenteio as pessoas com livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atuei no PROLER (UESC) fazendo oficinas de literatura e transcodifica\u00e7\u00e3o da leitura; tamb\u00e9m em projetos sociais como volunt\u00e1ria, alfabetizando jovens e adultos atrav\u00e9s de textos verbais e n\u00e3o-verbais. Durante todo o tempo em que estive como professora, meu olhar sempre esteve voltado para apresentar\u00a0a leitura como \u201cobjeto de consumo\u201d indispens\u00e1vel que deve ser repartido para que a leitura de textos diversos sempre estivesse enriquecendo a viagem que cada um faz para dentro de si pr\u00f3prio e na amplid\u00e3o do mundo. Em todas as escolas (do Ensino Fundamental ao Superior) por onde passei meu trabalho foi sempre pautado, antes de tudo, na forma\u00e7\u00e3o de leitores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o foi muito f\u00e1cil em muitas institui\u00e7\u00f5es porque revalorizar a leitura na sala de aula ainda \u00e9 coisa que fica no papel. No discurso. Na pr\u00e1tica \u00e9 diferente porque \u00e9 necess\u00e1rio ampliar a carga hor\u00e1ria dos professores &#8211; principalmente de L\u00edngua Portuguesa, Literatura e Reda\u00e7\u00e3o -, mas as escolas n\u00e3o podem ou n\u00e3o querem investir. Posso dar dois exemplos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu dava aula de L\u00edngua Portuguesa numa Faculdade no curso de Comunica\u00e7\u00e3o Social (Publicidade e Propaganda), que contemplava na ementa leituras de textos diversos. Levei para os alunos do 1\u00ba per\u00edodo uma revista com a propaganda de um autom\u00f3vel, na qual Narciso, o do mito, aparecia debru\u00e7ado olhando um carro dentro do lago. No canto inferior direito da p\u00e1gina estava escrito assim: \u201cVectra, o mais bonito!\u201d. Os 27 alunos disseram que o \u201ccara\u201d estava chorando porque o carro dele havia ca\u00eddo na \u00e1gua. Na verdade, quem chorava era eu ao ouvir essa interpreta\u00e7\u00e3o. Imediatamente dramatizei o mito, distribu\u00ed textos com outros mitos para leitura. Acredite que alguns alunos queixaram-se \u00e0 diretoria e fui chamada para explica\u00e7\u00f5es. A diretora acad\u00eamica,\u00a0uma bi\u00f3loga\u00a0(que Deus a tenha l\u00e1), me fez repetir tr\u00eas vezes o nome da minha disciplina e, em seguida, me disse tr\u00eas vezes: \u201catenha-se \u00e0 sua disciplina\u201d. Peremptoriamente. Isso na presen\u00e7a dos meus alunos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem tudo foi t\u00e3o terr\u00edvel assim. Vivi experi\u00eancias espetaculares trabalhando com forma\u00e7\u00e3o de leitores, incluindo os que estavam ainda sendo alfabetizados. No sul da Bahia, perto de S\u00e3o Jo\u00e3o do Para\u00edso, havia um lugarejo chamado Vila Nova Esperan\u00e7a. Eu trabalhava no Programa de Alfabetiza\u00e7\u00e3o Solid\u00e1ria e, ao passar do \u00f4nibus na BR-101 vi, sob tendas de pau e pl\u00e1stico preto, homens, mulheres e crian\u00e7as quebrando pedra (brita) com martelo. \u00c0 noite, na sala de aula notei que o caderno de um aluno estava manchado de vermelho. Era o sangue dos dedos de um dos quebradores de pedra que escorria enquanto aprendia a escrever. Tristeza e alegria se misturaram \u00e0s l\u00e1grimas. Da\u00ed o poema <em>Quebradores de Pedra em Vila Nova Esperan\u00e7a<\/em>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><em>(&#8230;)<\/em><br \/>\n<em>Escola \u2013 m\u00e1gica muta\u00e7\u00e3o:<\/em><br \/>\n<em>martelol\u00e1pis<\/em><br \/>\n<em>sanguetinta<\/em><br \/>\n<em>pedrapapel<\/em><br \/>\n<em>pedregulholetra<\/em><br \/>\n<em>que saltam da pedreira<\/em><br \/>\n<em>para deixar o aprendiz escrever sua hist\u00f3ria.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m foi desse tempo o poema <em>Barqueiros do Rio Pardo<\/em>, quando para chegar \u00e0 escola, saltava na BR, descia o ladeir\u00e3o e o barqueiro levava para a outra margem do rio (a terceira?). Era um sacrif\u00edcio, mas as experi\u00eancias vividas valeram. Os resultados obtidos tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, toda iniciativa \u00e9 v\u00e1lida desde que a vontade de dar certo seja maior do que simplesmente a espera do sal\u00e1rio, mesmo atrasado. Quando o governo pagava era outra alegria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Depois de tantas travessias, de que modo a sua lida com as palavras lhe permite olhar o mundo hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NEUZAMARIA KERNER &#8211;<\/strong> Com muito mais cuidado. Hoje tenho maior consci\u00eancia do espa\u00e7o \u2013 vazio &#8211; que h\u00e1 entre a minha boca e o ouvido do outro. Nesse espa\u00e7o o interlocutor pode preencher com o que quiser, de acordo com suas car\u00eancias e ilumina\u00e7\u00f5es. Por isso o cuidado, principalmente uma pessoa muito extrovertida e desatenta como naturalmente sou. D\u00e1 um cansa\u00e7o essa vigil\u00e2ncia permanente porque a palavra, o Verbo do Princ\u00edpio, deveria ser sempre fonte de uni\u00e3o e completude universal, mas n\u00f3s nos esquecemos disso no momento em que usamos palavras n\u00e3o como ponte, mas como marreta que arrebenta tudo aquilo que pode nos ligar ao mundo. Pode ser tamb\u00e9m como armadilha na qual podemos cair ou jogar os outros, da\u00ed o cuidado. Por exemplo, no poema\u00a0<em>Jogo<\/em>\u00a0eu falo da palavra como num jogo de xadrez:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>(&#8230;) Quando tomam vestes guerreiras<\/em><br \/>\n<em>me aprisionam<\/em><br \/>\n<em>me checam e matam.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, pela palavra nos comunicamos e estamos em comunh\u00e3o o tempo inteiro<em>, \u00e9 a senha da vida, do mundo<\/em>, como dizia Drummond em Palavra M\u00e1gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As palavras est\u00e3o a\u00ed para nos servir, como Exu, o mensageiro dos caminhos, que n\u00e3o \u00e9 nem bom nem mau, depende da energia que imprimimos nos comandos que a ele damos. Assim tamb\u00e9m com as palavras, da\u00ed eu ter falado na vigil\u00e2ncia permanente. At\u00e9 que eu me esfor\u00e7o, mas como trope\u00e7o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escritora Neuzamaria Kerner ressalta as marcas de seus novos caminhos po\u00e9ticos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":9655,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2479,16,2539],"tags":[2491,63,137,471,2413,8,2492],"class_list":["post-9649","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-100a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-editus","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-neuzamaria-kerner","tag-o-livro-arbitrio-das-evas","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-uesc"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9649","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9649"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9649\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9788,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9649\/revisions\/9788"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9655"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9649"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9649"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9649"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}