{"id":9693,"date":"2015-04-14T10:10:31","date_gmt":"2015-04-14T13:10:31","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9693"},"modified":"2015-04-21T12:58:55","modified_gmt":"2015-04-21T15:58:55","slug":"dedos-de-prosa-iii-32","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-32\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_9743\" aria-describedby=\"caption-attachment-9743\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/interna7.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9743 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/interna7.jpg\" alt=\"Gabriel Rastelli Quint\u00e3o\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/interna7.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/interna7-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9743\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Gabriel Rastelli Quint\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A fuga<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em>Para o amigo Bernardo Kucinski<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O menino foi antes. Fazia uma semana. Agora era a vez dos pais prepararem-se para a fuga. A m\u00e3e foi a primeira a aprontar a mala. Sentada no sof\u00e1 da sala atravessada pela penumbra das cortinas cerradas, ouve os passos do marido num vaiv\u00e9m acelerado do escrit\u00f3rio \u00e0 cozinha. Arrasta objetos, joga-os no ch\u00e3o, rasga pap\u00e9is. D\u00e1 vida a um descontrole que n\u00e3o a alcan\u00e7a. Ela apenas ouve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o o cheiro adocicado de fuma\u00e7a recende pela casa. Logo o ambiente fechado \u00e9 preenchido por uma massa nebulosa. A m\u00e3e se levanta e dirige-se at\u00e9 a soleira da cozinha. V\u00ea o marido intranquilo, queimando, na boca do fog\u00e3o, documentos, fotografias, relat\u00f3rios mimeografados e p\u00e1ginas do manual de guerrilha e de jornais clandestinos. Em volta dele, a por\u00e7\u00e3o de vapor \u00e9 mais densa. Como se ao incinerar o passado, incinerasse tamb\u00e9m a si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imagem lhe resgata a mem\u00f3ria de uma can\u00e7\u00e3o antiga. Passa um tempo olhando-o, enquanto a letra flui remansosamente em sua cabe\u00e7a. O marido n\u00e3o a percebe em momento algum. Focado em n\u00e3o deixar vest\u00edgios e tampouco ser flagrado na janela, embora coberta h\u00e1 dias. A m\u00e3e se cansa e retorna ao sof\u00e1. O corpo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo com o chumbo sobre os ombros. Toca na mala aos seus p\u00e9s, abastecida com mudas de roupa, cartas do irm\u00e3o, passaporte falso, livros de poesia e um \u00e1lbum de retratos do filho. Sente vontade de peg\u00e1-lo, mas sabe que mexer no interior pode gerar um contratempo, e precisam partir o mais breve. Fugir e reencontrar o menino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cozinha ainda despeja fuma\u00e7a e cacofonia. N\u00e3o ser\u00e1 agora, aparentemente. P\u00f5e-se de p\u00e9 outra vez e caminha at\u00e9 o quarto do filho. Afasta a porta. Est\u00e1 do jeito que ele deixou, uma desordem encantadora. A cama desfeita, gavetas expostas. Uma passeata de brinquedos pelo tapete. O menino n\u00e3o p\u00f4de levar nenhum deles, imagina que deve sentir falta. Agacha-se e pega um soldadinho de pl\u00e1stico. Enfia no bolso de tr\u00e1s da cal\u00e7a jeans. Passa somente a observar. A aus\u00eancia. Um quarto infantil sem uma crian\u00e7a \u00e9 a reifica\u00e7\u00e3o da saudade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando volta \u00e0 sala, o marido est\u00e1 de c\u00f3coras diante de uma mala aberta. O olhar inquieto denuncia o desgoverno sobre os gestos, quase um rompante. Vai atulhando roupas, sapatos, cintos, livros de economia e de hist\u00f3ria do Brasil, passaporte falso, um rev\u00f3lver autom\u00e1tico, cartuchos e uma fita magn\u00e9tica de rolo. Transpira excessivamente, o linho da camisa se emplastra no t\u00f3rax. Ela o observa, n\u00e3o trocam palavras. Ele fecha a mala. Ato cont\u00ednuo, dispara at\u00e9 a estante e pega uma folha de papel e caneta. Debru\u00e7a-se sobre a mesinha de centro e come\u00e7a a manuscrever uma rela\u00e7\u00e3o com nomes de empres\u00e1rios, diretores de ag\u00eancias de publicidade e de jornais que apoiam o regime. Patrocinadores de pris\u00f5es arbitr\u00e1rias, de torturas, de desaparecimentos. Produzir, com o pr\u00f3prio punho, a lista \u00e9 seu \u00faltimo ato de resist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Termina e deixa a folha expl\u00edcita sobre o tampo. Pega a mala, a esposa faz o mesmo. Caminham agora juntos at\u00e9 a sa\u00edda dos fundos. Com cautela extrema, destranca a porta e abre uma \u00ednfima brecha. O ar fresco os atinge. A m\u00e3o na ma\u00e7aneta treme. Sabe que n\u00e3o podem se precipitar ou ir\u00e3o cair. O ponto n\u00e3o \u00e9 mais seguro. Eles est\u00e3o l\u00e1 fora, \u00e0 espreita, os agentes disfar\u00e7ados. O sujeito de ray-ban tomando caf\u00e9 no balc\u00e3o da padaria. Aquele outro de perfil, a cabe\u00e7a encoberta pelo capacete do orelh\u00e3o. Encostado na lateral da kombi, de mangas de camisa. Atr\u00e1s da face externa do port\u00e3o. Ao redor dos muros baixos da casa. Quantos eles s\u00e3o? N\u00e3o deve perder o foco, assim versa o manual. Tem de proteger a esposa, a companheira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mete os dedos pela bainha da camisa e segura o cabo da arma presa ao cinto. Encosta o ombro na madeira da porta, olha para a esposa, assente e d\u00e1 um tranco seco. A abertura \u00e9 sucedida por uma escapada pela garagem, at\u00e9 a traseira do cup\u00ea Uirapuru azul-ferrete. Abre o porta-bagagem e joga as malas. Mantendo o ritmo fren\u00e9tico, separam-se pelas laterais e embarcam nos assentos dianteiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os vidros fechados logo condenam a cabine ao g\u00e1s t\u00f3xico de suas respira\u00e7\u00f5es. O medo, a afli\u00e7\u00e3o, a possibilidade de um ataque a tiros. Precisam sair dali o quanto antes, precisam da chave. O pai vasculha os bolsos com agressividade, at\u00e9 que encontra o pequeno estojo. Ali est\u00e1, a chave para que possam finalmente fugir. Ele retira a tampa e exibe as c\u00e1psulas de cianureto. Ele pega uma, a esposa fica com a outra. Colocam delicadamente entre o v\u00e3o dos molares. Entreolham-se, por alguns segundos. Em seguida abra\u00e7am-se e as mastigam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os corpos entram em convuls\u00e3o, dirigidos pelo veneno. A boca aflora em espuma, os olhos reviram. Passam a enxergar o mundo interior, onde a m\u00e3e v\u00ea o menino e o marido. Est\u00e3o na pra\u00e7a, jogando futebol sobre a grama. \u00c9 um domingo. Eles n\u00e3o deviam se expor assim, mas uma crian\u00e7a precisa de divers\u00e3o, mesmo em tempos sombrosos. Ent\u00e3o a bola corre para al\u00e9m do gradil de prote\u00e7\u00e3o. O menino dispara atr\u00e1s. A pra\u00e7a est\u00e1 \u00e0 margem de uma autopista, a bola corre para l\u00e1. O menino n\u00e3o se det\u00e9m. Os carros zunem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3e berra e corre. O pai berra e corre. A bola corre. O menino n\u00e3o se det\u00e9m. O caminh\u00e3o n\u00e3o se det\u00e9m. Por\u00e9m, desta vez, o motorista consegue desviar a tempo e o menino salva a bola. O pai estanca e serena. A m\u00e3e o ultrapassa e choca-se contra o corpo fr\u00e1gil da crian\u00e7a. Segura-a, beija-a, chora. Tem contra si, para sempre, o filho que \u00e9 seu. O filho, para sempre, envolto em si. A morte n\u00e3o \u00e9 uma luta, \u00e9 um abra\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00e9rgio Tavares<\/strong> \u00e9 jornalista e escritor, autor de \u201cCavala\u201d (Record, 2010), vencedor do Pr\u00eamio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites liter\u00e1rios nacionais e internacionais. \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura<em>.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um legado de aus\u00eancias no conto in\u00e9dito de S\u00e9rgio Tavares<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":9741,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2479,2534],"tags":[2525,624,2526,81,41,1023],"class_list":["post-9693","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-100a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-a-fuga","tag-ausencias","tag-bernardo-kucinski","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9693","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9693"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9693\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9746,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9693\/revisions\/9746"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9741"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9693"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9693"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9693"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}