{"id":9711,"date":"2015-04-14T10:49:48","date_gmt":"2015-04-14T13:49:48","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9711"},"modified":"2016-11-03T10:07:50","modified_gmt":"2016-11-03T13:07:50","slug":"dedos-de-prosa-iii-33","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-33\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0Nat\u00e1lia Borges Polesso<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_12903\" aria-describedby=\"caption-attachment-12903\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Gabriel.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12903 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Gabriel.jpg\" alt=\"gabrielrquint\u00e3o\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Gabriel.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/Gabriel-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-12903\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Gabriel Rastelli Quint\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Clich\u00ea<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comprei uma caixa de morangos no supermercado. Comprei uma caixa de amoras tamb\u00e9m. E duas cervejas. Cheguei em casa, guardei as frutas na geladeira e bebi as duas cervejas. \u00c0s vezes penso se n\u00e3o \u00e9 por vergonha que tamb\u00e9m compro as frutas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No outro dia, depois de jejum for\u00e7ado por gastrite conjugal e falta de apetite, por obriga\u00e7\u00e3o, peguei os morangos. Precisava comer algo saud\u00e1vel, algo que me alegrasse o est\u00f4mago, o paladar e a alma. Puxei o inv\u00f3lucro de pl\u00e1stico da bandejinha tamb\u00e9m de pl\u00e1stico. Quanto pl\u00e1stico, pensei. Nem sei mais o gosto do morango ainda sujo de terra, de mijo de cachorro, do que fosse, s\u00f3 conhe\u00e7o o gosto das coisas pl\u00e1sticas. Quando terminei de abrir a bandeja, olhei os morangos ali t\u00e3o vermelhos, pareciam ter asfixiado, estavam mofados. Era uma merda de um clich\u00ea intelectualoide sobre minha mesa. Um fracasso de prateleira e um sucesso de estante. Sobre a mesa, dois cotovelos encardidos, dois bra\u00e7os bronzeados, duas m\u00e3os ostentando dedos de unhas vermelhas apoiando uma cabe\u00e7a pesada, cheia de mofo tamb\u00e9m, como os morangos. Como os morangos, soco goela abaixo, como pr\u00eamio de consola\u00e7\u00e3o. Penso nas coisas incompletas ou mal cuidadas. Um ap\u00f3s o outro, os morangos. Uma ap\u00f3s as outras, as coisas. Minhas unhas t\u00e3o suculentas, bem mais vermelhas e euf\u00f3ricas que aqueles morangos. Como as unhas tamb\u00e9m? Como a raiva? A aud\u00e1cia? A in\u00e9rcia? A pr\u00f3pria pele? O pr\u00f3prio desagrado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tempo de pensar o irreal. Comprei uma caixa para caber tudo o que fosse falso. Comecei pelos desencontros e todos os diamantes que guardava no cofre. Arrastei tudo com a m\u00e3o, joguei tudo para dentro. Depois foi a vez da cabe\u00e7a, em repetidos movimentos, para cima e para baixo. Em seguidos consentimentos, sim, sim, sim. Tudo ca\u00eda, se desprendia sem esfor\u00e7o. Pensei se em algum momento aquilo tudo teria feito parte de mim. Transbordava a caixa. Eu ficando vazia. Grandes lacunas entre todas as afirma\u00e7\u00f5es, sim\u00a0\u00a0 sim\u00a0\u00a0 sim. Pequenas ilhas de certeza boiando num v\u00e1cuo oce\u00e2nico de hesita\u00e7\u00f5es. Quando terminei, encarei os morangos. Eram ang\u00fastias reais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembrei de um saco onde eu guardava medalhas, cartas, mechas de cabelo, desenhos e instru\u00e7\u00f5es. Minha m\u00e3e jogou fora, sem o meu consentimento, h\u00e1 muito tempo. Pensou que aquelas coisas n\u00e3o tinham valor. Hoje eu n\u00e3o sei dizer se tinham, elas n\u00e3o fazem diferen\u00e7a. Talvez elas pudessem preencher as lacunas em mim. Mas eu n\u00e3o sei, nem vou saber. \u00c9 melhor ocup\u00e1-las com outra coisa, como morangos ou unhas vermelhas. Ou ainda com grandes clich\u00eas. Uma estante cheia de papel saturado de palavras, grandes nomes, grandes cl\u00e1ssicos, pequenas dores. Pequenas epifanias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembrei dela, n\u00e3o sei se era um arremedo de ideia ou um arremedo dela? Estava t\u00e3o magra e espinhenta. \u00c9 inevit\u00e1vel, tu \u00e9s a minha pequena epifania, aquilo que me faz descobrir mais em mim \u2013 n\u00e3o havia muito a ser descoberto \u2013 mais do que eu gosto e mais do que eu desaprovo em mim mesma. Tu \u00e9s minha pele, meu conforto, meu conto favorito. As mem\u00f3rias soterradas pelo vazio de agora tinham um gosto distante. Pareciam novidades, descobertas, as velhas coisas que a paix\u00e3o ou o engano fazem, distorcem, e faziam sentir os arrepios do primeiro beijo roubado \u2013 talvez n\u00e3o seja um arrepio, mas sim um mau pressentimento \u2013, e a dor do \u00faltimo tapa \u2013 que n\u00e3o foi o \u00faltimo, posto que ainda houve tanta agress\u00e3o\/viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembrei de uma chinelada que levei da minha av\u00f3. Com cinco anos de idade eu resolvi ir embora de casa. Arrumei uma mochila com roupas velhas, viveria na rua, logo, na minha cabe\u00e7a infantil, s\u00f3 poderia usar roupas rotas. Quando ia atravessando a quinta rua, levei um pux\u00e3o de orelha e uma chinelada. Minha av\u00f3 me agredia com todo aquele amor ressentido. Tapas e choro contidos e nunca mais fa\u00e7a isso. Gradearam a casa, dali em diante eu s\u00f3 brincava no p\u00e1tio com port\u00e3o trancado e sob o olhar magoado da minha av\u00f3. Ontem foi anivers\u00e1rio dela, liguei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembrei dos meus irm\u00e3os que j\u00e1 n\u00e3o eram os mesmos. Uma vez brinc\u00e1vamos num montinho de areia, numa constru\u00e7\u00e3o ao lado de casa. Enterrados at\u00e9 os joelhos na areia, r\u00edamos sem nos dar conta do qu\u00e3o r\u00e1pido crescer\u00edamos e perder\u00edamos a vontade de brincar assim. E ter\u00edamos nojo de areia em constru\u00e7\u00f5es. Somos t\u00e3o diferentes apesar da mesma cara borges-polesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu queria alargar as lacunas ainda mais, balancei a cabe\u00e7a novamente. Eros\u00e3o de lembran\u00e7as, as dist\u00e2ncias mais simb\u00f3licas, as mem\u00f3rias menos tenazes, quase nas imedia\u00e7\u00f5es do mito. Lembrei. Lembrei. Lembrei de algo que n\u00e3o era mais meu. Lembrei do gosto da tua boca depois de comer os morangos mofados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/ainerciadealice.blogspot.com.br\/\"><strong><em>Natalia Borges Polesso<\/em><\/strong><\/a><em>\u00a0\u00e9 escritora, professora e doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS. \u00c9 autora de &#8220;Cora\u00e7\u00e3o a corda&#8221; (2015) e &#8220;Recortes para \u00e1lbum de fotografia sem gente&#8221;, obra vencedora do Pr\u00eamio A\u00e7orianos (2013) na categoria contos, e tamb\u00e9m da tirinha tosca &#8220;A Escritora Incompreendida&#8221;,\u00a0publicada via facebook.\u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fio moderno e revelador da prosa de Nat\u00e1lia Borges Polesso<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12903,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2479,2534],"tags":[2513,2512,41,2511],"class_list":["post-9711","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-100a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-a-inercia-de-alice","tag-cliche","tag-dedos-de-prosa","tag-natalia-borges-polesso"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9711","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9711"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9711\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12919,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9711\/revisions\/12919"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12903"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9711"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9711"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9711"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}