{"id":9845,"date":"2015-06-01T11:58:04","date_gmt":"2015-06-01T14:58:04","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9845"},"modified":"2018-12-07T17:01:31","modified_gmt":"2018-12-07T20:01:31","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-35","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-35\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jamais sorveremos o ar da perfei\u00e7\u00e3o. Qui\u00e7\u00e1 consigamos algo que nos aproxime de um ponto de equil\u00edbrio, alguma \u00ednfima fra\u00e7\u00e3o de pondera\u00e7\u00e3o entre acertos e desv\u00e3os. Vez por outra, algu\u00e9m relembra-nos o qu\u00e3o imprecisos somos no quesito das certezas. Seria presun\u00e7\u00e3o demais apostar em cen\u00e1rios bem definidos quando o alvo \u00e9 compreender a natureza humana?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eis uma instigante quest\u00e3o. Por enquanto, ainda est\u00e1 longe ser poss\u00edvel estimarmos a dimens\u00e3o das virtudes ou das quedas. Ousemos apenas respirar e seguir adiante construindo moradas na superf\u00edcie das horas. Nesse \u00ednterim, a nossa capacidade de abstra\u00e7\u00e3o e mergulho pode, sobremaneira, fornecer-nos pistas valiosas sobre o que de fato nos tornamos. No diapas\u00e3o que cont\u00e9m passado, presente e futuro, h\u00e1 algo al\u00e9m da materializa\u00e7\u00e3o do pensamento em a\u00e7\u00f5es. Resiste a mem\u00f3ria como pe\u00e7a fundamental da exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada melhor do que percebermos a vis\u00e3o que um determinado criador tem sobre o universo atrav\u00e9s do qual orbitam suas express\u00f5es, principalmente quando esse mesmo agente credita \u00e0 mem\u00f3ria um status de significativa import\u00e2ncia. Assim o faz o escritor baiano <strong><span style=\"color: #000000;\"><a style=\"color: #000000;\" href=\"https:\/\/dpadilhafilho.wordpress.com\/\">D\u00eanisson Padilha Filho<\/a> <\/span><\/strong>quando lhe cedemos escutas. Mas ouvi-lo n\u00e3o \u00e9 o bastante. Ler seus escritos revela-se um componente essencial para apreendermos um mundo no qual as perspectivas s\u00e3o m\u00faltiplas no quesito inquietude. Sentir-se incomodado parece ser um ingrediente especial na concep\u00e7\u00e3o criativa desse autor que, al\u00e9m de dedicar-se \u00e0 literatura, \u00e9 tamb\u00e9m roteirista de audiovisual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trajet\u00f3ria de D\u00eanisson com as palavras est\u00e1 materializada em livros como \u201cAboios celestes\u201d (contos \u2013 1999), \u201cCarmina e os vaqueiros do pequi\u201d (romance \u2013 2003), \u201cMenelau e os homens\u201d (contos e novelas \u2013 2012) e, mais recentemente, \u201cO Her\u00f3i est\u00e1 de folga\u201d (contos \u2013 2014). A consist\u00eancia presente ao longo de sua obra \u00e9 o grande motor que move a entrevista que realizamos com o autor. Seja na capacidade de construir imagens ou na dimens\u00e3o que edifica o texto, D\u00eanisson demonstra sua propriedade narrativa porque fez da leitura a g\u00eanese de seu of\u00edcio. Entrevist\u00e1-lo \u00e9 desconfiar que, por tr\u00e1s das letras, habita um territ\u00f3rio de coisas insond\u00e1veis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9850\" aria-describedby=\"caption-attachment-9850\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INTERNA-I.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9850 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INTERNA-I.jpg\" alt=\"Foto: Renata Rocha\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INTERNA-I.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INTERNA-I-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9850\" class=\"wp-caption-text\">D\u00eanisson Padilha \/ Foto: Renata Rocha<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;O Her\u00f3i est\u00e1 de folga&#8221; \u00e9 t\u00edtulo emblem\u00e1tico, que nos sugere percursos j\u00e1 em sua apar\u00eancia nominal. As hist\u00f3rias nele contidas desnudam certa condi\u00e7\u00e3o humana. Vivemos num tempo de desesperan\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00caNISSON PADILHA FILHO &#8211; <\/strong>S\u00e3o nove contos que sugerem que os homens s\u00e3o virtude e v\u00edcio.\u00a0Naturalmente, s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es, alegorias, fantasias criadas sobre o arcabou\u00e7o de desvio e de retid\u00e3o que nos estrutura. Ter esperan\u00e7a n\u00e3o muda as coisas, a n\u00e3o ser pra quem a sente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Nesse caminho que perpassa altos e baixos da natureza humana, seu sentimento de autor prefere o estranhamento ou o espanto?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00caNISSON PADILHA FILHO &#8211; <\/strong>Estranhamento \u00e9 condi\u00e7\u00e3o fundamental para nascer a arte, n\u00e3o \u00e9? E causar estranhamento tamb\u00e9m. A literatura convoca o leitor n\u00e3o quando traz respostas, mas quando o inquieta com aquelas perguntas adormecidas que nos estruturam e desafiam nosso dia a dia. A literatura \u00e9 vingativa na medida em que mostra que n\u00f3s n\u00e3o temos respostas nem sa\u00edda, mas por ela dizemos, &#8220;aqui estamos, Papai do C\u00e9u, estamos no mato sem cachorro, mas n\u00e3o pense que n\u00e3o sabemos&#8221;. J\u00e1 espantar-se com as oscila\u00e7\u00f5es da natureza humana beiraria o pat\u00e9tico. Essa perplexidade soa meio fresquinha; n\u00e3o combina com a literatura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Diria que a lucidez foi uma companheira insepar\u00e1vel na concep\u00e7\u00e3o do seu mais novo livro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00caNISSON PADILHA FILHO &#8211;<\/strong> Acho que a idade trouxe um pouco mais de tentativa de lucidez e amadurecimento, ainda bem. \u00c9 como se a puls\u00e3o que nos move a escrever ganhasse algo mais de serenidade e consci\u00eancia de que o texto custa a estar pronto. Considero que meu caminho liter\u00e1rio deu uma guinada a partir dos 37 anos (estou com 44). Foram novos conceitos,\u00a0menos preconceitos est\u00e9ticos. A vis\u00e3o de mundo e a lucidez se refletem, naturalmente, mas o que vou procurar fazer \u00e9 sua recria\u00e7\u00e3o. A mat\u00e9ria prima \u00e9 a verdade, a concretude, sem d\u00favida; mas a literatura se ocupa de alegorizar a vida e seus achaques.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O ato de escrever encerra alguma esp\u00e9cie de liberta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00caNISSON PADILHA FILHO &#8211; <\/strong>Liberta\u00e7\u00e3o nenhuma. Muito pelo contr\u00e1rio. Embora a literatura seja a arte de fantasiar e reinventar\u00a0\u2013\u00a0n\u00e3o s\u00f3 a l\u00edngua, mas o mundo\u00a0\u2013, recorremos sempre \u00e0 mem\u00f3ria, porque, para nosso desconforto, \u00e9 s\u00f3 o que temos. Da mem\u00f3ria, derivam a dor, a culpa e a saudade. H\u00e1 um mito muito citado que diz que quando realizamos uma hist\u00f3ria, processamos as coisas e nos livramos delas. Uma coisa nada tem a ver com a outra, a meu ver. O escritor se distancia um pouco do mundo para criar, \u00e9 verdade; isso traz uma analgesia, claro, mas nada de liberta\u00e7\u00e3o.\u00a0Se liberta, n\u00e3o \u00e9 literatura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A pung\u00eancia de uma cronologia interna toma conta de seres e lugares em &#8220;O Her\u00f3i est\u00e1 de folga&#8221;. Assim, a sucess\u00e3o dos instantes n\u00e3o \u00e9 materialmente mensur\u00e1vel. Quem \u00e9 este ser a quem chamamos tempo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00caNISSON PADILHA FILHO &#8211; <\/strong>Eu n\u00e3o tenho certeza, mas desconfio que dentro de uma l\u00f3gica divina, passado, presente e futuro s\u00e3o a mesma coisa. Nada vem, nada vai, nada existe, tudo \u00e9. Essa minha perspectiva naturalmente vai se refletir aqui e ali na minha cria\u00e7\u00e3o; foi assim nos contos de &#8220;O her\u00f3i est\u00e1 de folga&#8221;. Tudo est\u00e1 ali, os contos s\u00e3o quadros, e como toda alegoria da vida, os quadros n\u00e3o passam; a gente passa por eles. Isso confirma minha impress\u00e3o de que as coisas n\u00e3o v\u00eam, nem v\u00e3o, simplesmente s\u00e3o; a gente \u00e9 que passa por elas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;Menelau e os homens&#8221; \u00e9 um livro especial pelo modo como os trajetos narrativos ali se constroem, sobretudo pela disposi\u00e7\u00e3o das imagens, o que acaba por envolver o leitor. Qual o sentido maior dessa obra para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00caNISSON PADILHA FILHO &#8211; <\/strong>Concordo com voc\u00ea, &#8220;Menelau e os Homens&#8221; \u00e9 um livro especial. Traz duas hist\u00f3rias marcadas pelo signo da mem\u00f3ria. Em consequ\u00eancia disso, seus personagens s\u00e3o homens fugindo de homens e fugindo de si.\u00a0 A primeira fase da obra do escritor estadunidense Elmore Leonard teve muita influ\u00eancia sobre a concep\u00e7\u00e3o das hist\u00f3rias. A segunda hist\u00f3ria que integra o livro\u00a0\u2013 a novela\u00a0<em>Calumbi\u00a0<\/em>\u2013 est\u00e1 marcada tamb\u00e9m por um signo de opress\u00e3o e terror psicol\u00f3gico, um pouco de Edgar Allan Poe; mas em todo o livro\u00a0h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es de persegui\u00e7\u00e3o e suspense entre ca\u00e7ador e ca\u00e7ado; s\u00e3o tributos meus ao autor de\u00a0<em>Hombre<\/em>\u00a0e\u00a0<em>O \u00faltimo posto do Rio Sabre<\/em>\u00a0e de tantos outros. Creio que tenham sido de fundamental import\u00e2ncia as sugest\u00f5es de imagens e paisagens no livro para que o leitor sentisse todos os momentos de impot\u00eancia, opress\u00e3o, persegui\u00e7\u00e3o que as hist\u00f3rias prop\u00f5em. Bem, sobre qual sentido maior dessa obra, devo dizer que n\u00e3o h\u00e1\u00a0o\u00a0grande sentido. Eu costumo dizer que a literatura em prosa n\u00e3o deve ser regida apenas pelo plano do conte\u00fado, ou melhor, pela dimens\u00e3o narrativa; mas tamb\u00e9m pela dimens\u00e3o est\u00e9tica. Acho que o sentido, desse e dos meus outros livros \u00e9 tentar alcan\u00e7ar esse equil\u00edbrio. Em outras palavras, inquietar pela narrativa e reinventar a palavra. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas \u00e9 um desafio que resolvi encarar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9851\" aria-describedby=\"caption-attachment-9851\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INTERNA-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9851 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INTERNA-II.jpg\" alt=\"Foto: Renata Rocha\" width=\"500\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INTERNA-II.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INTERNA-II-300x240.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9851\" class=\"wp-caption-text\">D\u00eanisson Padilha \/ Foto: Renata Rocha<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u00c9 razo\u00e1vel pensar que, por mais que tente, um autor n\u00e3o pode fugir de si mesmo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00caNISSON PADILHA FILHO &#8211; <\/strong>Se pensarmos do ponto de vista da exist\u00eancia, teremos que parafrasear Ant\u00f4nio C\u00e2ndido e dizer que a mat\u00e9ria prima do escritor \u00e9 a mem\u00f3ria. Por outro lado, se pensarmos na arte liter\u00e1ria e em procedimentos est\u00e9ticos, devemos pensar que o escritor dotado de um m\u00ednimo de consci\u00eancia do seu fazer s\u00f3 se satisfaz quando viola seu modelo anterior. Porque arte \u00e9 ruptura e, embora fa\u00e7a parte do grande campo da cultura, especificamente, ela, quando repetida, contraria suas pr\u00f3prias motiva\u00e7\u00f5es. Nesse sentido, n\u00e3o conseguir fugir da mem\u00f3ria, fugir de si, e encontrar sa\u00eddas est\u00e9ticas \u00e9 um paradoxo que alimenta esse fazer art\u00edstico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Sob o ponto de vista autoral, h\u00e1 quem considere o conto uma esp\u00e9cie de escalada para o romance. O que pensa a respeito?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00caNISSON PADILHA FILHO &#8211; <\/strong>Vou confessar minha pregui\u00e7a para responder essa (risos). Sinceramente, n\u00e3o h\u00e1 considera\u00e7\u00e3o mais sem sentido do que essa que dizem por a\u00ed. Posso ficar aqui citando \u00e0 exaust\u00e3o nomes de escritores, grandes mestres, que se eternizaram como contistas.\u00a0 E por que ser\u00e1 que ficaram nessa tal &#8220;escalada&#8221; por toda a vida? N\u00e3o!\u00a0 \u00c9 um erro crasso, uma ingenuidade, at\u00e9 bonitinha, achar que o conto \u00e9 rito de passagem para um romance. S\u00e3o pretens\u00f5es diferentes; no romance h\u00e1 lugar para digress\u00f5es que n\u00e3o v\u00e3o caber no conto. Enquanto que, grosso modo, no conto, a concis\u00e3o vai fazer pulsar a dimens\u00e3o est\u00e9tica do texto muito mais do que num texto longo. Al\u00e9m de outros aspectos que n\u00e3o caberiam aqui. Apesar de discordar radicalmente e achar isso um equ\u00edvoco, reconhe\u00e7o que \u00e9 um erro muito difundido. Veja por exemplo, na Am\u00e9rica Latina, a grandeza de Carlos Fuentes\u00a0\u2013\u00a0que al\u00e9m de romances e novelas,\u00a0tamb\u00e9m exercitou o conto largamente\u00a0\u2013 e\u00a0Juan Rulfo. Embora notabilizados mundialmente, n\u00e3o alcan\u00e7aram a popularidade de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, eterno pelos seus romances. Parece que at\u00e9 o\u00a0<em>mainstream<\/em>\u00a0mercadol\u00f3gico insinua, &#8220;sem querer querendo&#8221;, que o texto longo \u00e9 o \u00e1pice.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que mais chama sua aten\u00e7\u00e3o na literatura feita no Brasil hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00caNISSON PADILHA FILHO &#8211; <\/strong>N\u00e3o estou t\u00e3o certo quanto \u00e0 resposta, mas acho que \u00e9 a diversidade do que se produz.\u00a0\u00a0 H\u00e1 muita gente talentosa, de carreira s\u00f3lida, e tamb\u00e9m surgindo. Vou esquecer o nome de muita gente que faz boa literatura, para al\u00e9m de Jos\u00e9 In\u00e1cio Vieira de Melo, Menalton Braff, Ant\u00f4nio Carlos Viana, Mayrant Gallo, Gustavo Rios, Lupeu Lacerda e S\u00e9rgio Faraco. Aqui tem de tudo, meu amigo. Por outro lado, isso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o positivo quanto parece, \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o um pouco desanimadora, porque h\u00e1 muita coisa sendo chamada de literatura. H\u00e1 um batalh\u00e3o de gente fazendo &#8216;coisinhas bonitinhas&#8217;, interpreta\u00e7\u00e3o enviesada da magnitude est\u00e9tica Manoel de Barros, arremedos de minimalismo; \u00e9 gente que acha que basta que o besourinho seja citado para que se fa\u00e7a minimalismo. Vivemos a maior concentra\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Bukowskis<\/em>\u00a0por metro quadrado de todos os tempos. O santo nome da corrente brutalista est\u00e1 sendo evocado de forma leviana por gente que coloca um punhado de tiros no enredo, dois palavr\u00f5es e uma cara de mau na orelha do livro e pronto.\u00a0Al\u00e9m disso, h\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o de muita coisa ruim mesmo. Muito texto ruim, muita gente sem leitura, sem estofo liter\u00e1rio se arvorando a lan\u00e7ar livro. N\u00e3o, n\u00e3o posso conceber que, por exemplo, um organismo seja rico em ferro, se n\u00e3o consome alimento rico em ferro. Sem consumir literatura sistematicamente, portanto, como um sujeito pode criar arcabou\u00e7o? \u00c9 muita ilus\u00e3o de pot\u00eancia, mas isso \u00e9 imanente ao homem, n\u00e3o tem jeito. Eu n\u00e3o consigo conceber a carreira de um escritor de verdadeira literatura (e n\u00e3o me pede pra explicar, por favor) sem uma rotina de investiga\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e leitura contumaz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O ato laborioso de escrever pode ser tido como um processo permanente de desconstru\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00caNISSON PADILHA FILHO &#8211; <\/strong>Ainda hoje cedo pensava em algo parecido. Toda desconstru\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e um m\u00ednimo conhecimento, por dentro, de como foi feita a coisa a ser desconstru\u00edda, n\u00e3o \u00e9? Sen\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma implos\u00e3o energ\u00famena.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O quanto D\u00eanisson Padilha Filho conhece D\u00eanisson Padilha Filho?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00caNISSON PADILHA FILHO &#8211; <\/strong>Quase nada. Cada dia que nasce \u00e9 uma nova muralha de Jeric\u00f3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que voc\u00ea n\u00e3o endossa nesse estado de coisas chamado p\u00f3s-modernidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00caNISSON PADILHA FILHO &#8211; <\/strong>Desconfio que, em qualquer tempo, viver \u00e9 tatear numa sala escura. Nesse nosso tempo, n\u00e3o acho que as inc\u00f3gnitas s\u00e3o mais numerosas que em outrora; acho que sempre foi assim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Somos algo al\u00e9m de uma mat\u00e9ria arremessada para o fim?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00caNISSON PADILHA FILHO &#8211; <\/strong>Por enquanto, somos s\u00f3 esses bonequinhos de carbono mesmo. Depois \u00e9 outra hist\u00f3ria, a orfandade acaba, a queda acaba. Mas isso \u00e9 depois, bem depois.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa entrevista, o escritor D\u00eanisson Padilha Filho exp\u00f5e alguns de seus percursos liter\u00e1rios <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15792,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2532,16,2539],"tags":[2546,1111,2547,419,2455,63,137,887,2545,2458,8],"class_list":["post-9845","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-101a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-aboios-celestes","tag-bahia","tag-carmina-e-os-vaqueiros-do-pequi","tag-contos","tag-denisson-padilha-filho","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-literatura","tag-menelau-e-os-homens","tag-o-heroi-esta-de-folga","tag-pequena-sabatina-ao-artista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9845","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9845"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9845\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15794,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9845\/revisions\/15794"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15792"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9845"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9845"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9845"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}