{"id":9930,"date":"2015-06-02T11:25:44","date_gmt":"2015-06-02T14:25:44","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=9930"},"modified":"2015-06-04T12:05:29","modified_gmt":"2015-06-04T15:05:29","slug":"gramofone-36","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/gramofone-36\/","title":{"rendered":"Gramofone"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Daniela Galdino<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>LIRINHA &#8211; O LABIRINTO E O DESMANTELO <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/CAPA-m.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9931\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/CAPA-m.jpg\" alt=\"CAPA\" width=\"350\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/CAPA-m.jpg 350w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/CAPA-m-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/CAPA-m-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><em><br \/>\n\u201ctransformarei a ferida<br \/>\nnuma orqu\u00eddea de luz mineral\u201d<br \/>\n(Lirinha, em \u201cSer\u201d)<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Processar as dores. Curar as feridas. Lavar os velhos rancores. Depura\u00e7\u00e3o parece uma palavra bem associada ao novo disco de Lirinha que acaba de vir \u00e0 tona neste 2015. Temos a\u00ed um salto corajoso rumo ao incerto: abismo ou labirinto. Lirinha re\u00fane fragmentos e nos traz a experi\u00eancia de retorno daquele homem, artista que n\u00e3o interrompe a caminhada para dizer. Fala em movimento. \u00c9 outro. Desmantelado, re-montado: nos amores, nas artes, na (des)aventura de ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <em>O labirinto e o desmantelo<\/em> (2015) Lirinha acentua a escolha j\u00e1 trilhada a partir de <em>LIRA<\/em>, disco lan\u00e7ado em 2011. Com fei\u00e7\u00e3o ainda mais harmonizada est\u00e3o, no disco de agora, a poeticidade cortante, os efeitos eletr\u00f4nicos, os tons de suspens\u00e3o m\u00edstica. Acertad\u00edssima a parceria com Pupillo, que assina a produ\u00e7\u00e3o musical. O Lirinha destemido, corajoso na sustenta\u00e7\u00e3o dos caminhos escolhidos se apresenta para desafiar as classifica\u00e7\u00f5es e desmantelar a identifica\u00e7\u00e3o n\u00edtida dos g\u00eaneros musicais. S\u00e3o dez can\u00e7\u00f5es muito bem irmanadas. Em todas elas fica evidente um hibridismo que torna a audi\u00e7\u00e3o do disco uma deliciosa brota\u00e7\u00e3o de inusitados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por exemplo, em \u201cPra fora da terra\u201d d\u00e1 para perceber um flerte erudito. A partir disso, ouvimos delicadezas que nos fazem lembrar os antigos realejos desaparecidos das ruas. Num flash, dois mundos irmanados. E nessa mesma can\u00e7\u00e3o surge o sopro contempor\u00e2neo sintetizado, a guitarra que arranha delicadamente. Lembran\u00e7as, em c\u00edrculo, bailam, ressoam em palavras, em sons. Nessa faixa temos tamb\u00e9m uma poeticidade que causa a intensa sensa\u00e7\u00e3o de circularidade, no sentido de fluidez, de movimenta\u00e7\u00e3o de energias renovadoras: \u201clavo com \u00e1gua corrente\/ teu po\u00e7o dos velhos rancores\u201d. Grata surpresa, bela apari\u00e7\u00e3o do inesperado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A can\u00e7\u00e3o \u201cO labirinto e o desmantelo\u201d nos faz lembrar as incurs\u00f5es experimentais de Lula C\u00f4rtes &amp; Lailson no lend\u00e1rio disco <em>Satwa<\/em> (1973). Fica esse gosto de nitidez m\u00edstica bem ao modo setentista, o que, sem muito esfor\u00e7o, traz tamb\u00e9m \u00e0 cena o Pedro Santos de <em>Krishnanda (1968)<\/em>. Lirinha vem para compor uma densa tr\u00edade, mas sem o compromisso das filia\u00e7\u00f5es. Ele se apresenta deixando vis\u00edvel \u2013 aqui e acol\u00e1 \u2013 os (in)discretos fios que o ligam \u00e0s experimenta\u00e7\u00f5es dos mestres, mas o faz com um modo muito seu, com os elementos do momento de agora, remontando e transgredindo. J\u00e1 havia esse an\u00fancio no disco anterior, <em>LIRA<\/em>, com a can\u00e7\u00e3o \u201cAdebayor\u201d, mas nessa segunda experi\u00eancia vemos um Lirinha mais evidente no desafio de encenar uma dic\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, resultado das sidera\u00e7\u00f5es que ele constr\u00f3i.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se em <em>LIRA<\/em> fomos surpreendidos com a participa\u00e7\u00e3o de \u00c2ngela R\u00f4 R\u00f4 na faixa \u201cValete\u201d, nesse segundo disco temos a presen\u00e7a de C\u00e9u na can\u00e7\u00e3o \u201cFiltre-me\u201d. Extremidades mediadas por Lirinha. Em ambas as can\u00e7\u00f5es a intensidade. Essa conex\u00e3o com artistas pernambucanos n\u00e3o \u00e9 novidade para a cantora\/compositora C\u00e9u, ela j\u00e1 havia participado de discos de Siba, Otto, Na\u00e7\u00e3o Zumbi. De alguma maneira essa presen\u00e7a fica sendo um desafio que pendula entre o conhecido e o n\u00e3o esperado. Aqui, dividindo os vocais com Lirinha, C\u00e9u comp\u00f5e uma bela fus\u00e3o e algo muito sin\u00e9rgico se acentua mesmo no momento em que ambos entoam: \u201cquando passa em mim a tua voz\/ t\u00e3o cercada de poeira\/ n\u00e3o esque\u00e7o o filtro do amor\u201d. A m\u00fasica se confunde com a espinhosa maciez da experi\u00eancia amorosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_9932\" aria-describedby=\"caption-attachment-9932\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Lirinha-por-Caroline-Bittencourt-m.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9932 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Lirinha-por-Caroline-Bittencourt-m.jpg\" alt=\"Lirinha por Caroline Bittencourt\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Lirinha-por-Caroline-Bittencourt-m.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/Lirinha-por-Caroline-Bittencourt-m-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-9932\" class=\"wp-caption-text\">Lirinha \/ Foto: Caroline Bittencourt<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma imponente tuba vai abrir caminhos na can\u00e7\u00e3o \u201cMergulho\u201d. Digo caminhos porque essa m\u00fasica nos deixa com a sensa\u00e7\u00e3o de deslocamento, atenta contra a nossa poss\u00edvel imobilidade. \u201cMergulho\u201d \u00e9 mesmo um passeio para o qual eu n\u00e3o estava preparada, apesar das surpresas que tive ao escutar as m\u00fasicas anteriores. \u00c9 nesse momento do disco que Lirinha nos leva para as profundezas. Profundezas do corpo, das vontades. A\u00ed, palavras e musicalidade indicam amplid\u00f5es sem pudor algum. A \u00e2nsia \u00e9 tanta que o tr\u00e2nsito \u00e9 por lugares inesperados: \u201cagora o plano \u00e9 te fazer feliz\/ correr os tubos do teu cora\u00e7\u00e3o\/ provar al\u00e9m\/ cicatrizar o ch\u00e3o\/ e sonhar\/ andar nos fios que ligam \u00e0s estrelas\/ capacidade de mudar as coisas\u201d. \u00c9 o corpo ou \u00e9 a amplid\u00e3o? Essa \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o imensa, ali\u00e1s, em todo o disco d\u00e1 para perceber que a alquimia de Lirinha aproveita bem tudo o que \u00e9 vasto. \u201cMergulho\u201d \u00e9 tamb\u00e9m um intenso eco, tenho morado nessa m\u00fasica (e ela em mim) desde a primeira vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOdin\u201d \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o aguda. Por in-coincid\u00eancia encerra o disco. Nesse momento Lirinha requisita quem est\u00e1 do outro lado da margem, ou seja, n\u00f3s, para perguntar \u201cquem sabe encontrar\/ alta forte felicidade\u201d. A Combust\u00e3o das experi\u00eancias particulares. Essa equa\u00e7\u00e3o sempre ser\u00e1 dif\u00edcil de ser resolvida quando se tratar de arte. A essa altura, muita coisa irmanada, n\u00e3o d\u00e1 para dizer que o disco \u00e9 herm\u00e9tico ou \u00e9 um relato sonoro do particular porque, ouvindo com aten\u00e7\u00e3o todas as dez can\u00e7\u00f5es, j\u00e1 sentimos (e nos sentimos) \u201ca planta pisada\/ o cais retorcido\/ farol mergulhado\/ um balde de sonhos no fundo da casa\/ onde o mar se tornou salgado\u201d. J\u00e1 somos o coro que acompanha a voz de Lirinha. Quando essa \u00faltima can\u00e7\u00e3o se conclui, fica a a\u00e7\u00e3o imediata de escutar a sequ\u00eancia novamente, sem maiores preocupa\u00e7\u00f5es com o tempo do rel\u00f3gio. O disco d\u00e1 uma impress\u00e3o de ciclo que se renova, de c\u00edrculo que se movimenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um disco t\u00e3o amplo que somente ao escrever este texto fui perceber que todas as faixas, juntas, totalizam 35 minutos. Nas vezes em que escutei tive a sensa\u00e7\u00e3o de que a experi\u00eancia havia ultrapassado os ponteiros, juro que imaginei que o disco durava mais de uma hora, juro. Isso \u00e9 que me deixou impressionada: Lira, sabedor de que est\u00e1 dentro e fora das l\u00f3gicas do mercado fonogr\u00e1fico, insere m\u00fasicas com menos de 4 minutos de dura\u00e7\u00e3o, mas implanta expans\u00f5es em cada uma delas. Nessa aventura sens\u00edvel fiquei desorientada de cron\u00f4metros. E assim n\u00e3o d\u00e1 para detalhar o disco faixa a faixa, melhor convidar outros seres para colocar na roda as suas impress\u00f5es. A\u00ed s\u00f3 o contato direto com a musicalidade de Lirinha poder\u00e1 mover as sensibilidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse disco \u201cO labirinto e o desmantelo\u201d deve ser inclu\u00eddo no repert\u00f3rio das nossas urg\u00eancias. N\u00e3o duvido. Deixo apenas um aviso (at\u00e9 desnecess\u00e1rio): \u00e9 para escutar de peito aberto, in\u00fatil mover-se (ainda) pelo saudosismo dos tempos do Cordel do Fogo Encantado. Aqui encontraremos um outro artista, porque \u00e9 outro o homem e outros s\u00e3o os tempos n\u00e3o marcados por apagamentos, mas pela \u00e2nsia de descobertas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, cinco discos depois, o que podemos dizer da trajet\u00f3ria de Lirinha \u00e9 o seguinte: ele \u00e9 o outro que n\u00e3o sepultou o mesmo. Com o entendimento de que se faz imposs\u00edvel apagar as origens, fico muito mais instigada em descobrir como esse ser-t\u00e3o dialoga com paragens diversas e alimenta as inquieta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas. E para inconcluir a quest\u00e3o, vem o eco: \u201cque lugar \u00e9 esse labirinto \/ desse nosso desmantelo?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/52fL1rPYCcU\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Daniela Galdino<\/em><\/strong><em> \u00e9 Poeta, Performer, Produtora Cultural e Docente da UNEB. Muito principalmente \u00e9 construtora de pontes a\u00e9reas e defensora do direito ao del\u00edrio (como forma de sobreviv\u00eancia).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniela Galdino percorre o novo disco de Lirinha<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":9934,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2532,2536],"tags":[2582,408,359,14,57,2580,133,2581],"class_list":["post-9930","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-101a-leva","category-gramofone","tag-cordel-do-fogo-encantado","tag-daniela-galdino","tag-disco","tag-gramofone","tag-lira","tag-lirinha","tag-musica","tag-o-labirinto-e-o-desmantelo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9930","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9930"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9930\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10038,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9930\/revisions\/10038"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9934"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9930"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9930"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9930"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}