Aperitivo da Palavra I

A “segunda natureza” de Santiago Fontoura

Por Gustavo Rios

 

 

Influenciado em certa medida por gente como Gullar, Bandeira e Drummond1, com alguma coisa da postura do João Cabral de Melo Neto, Antipática Lira, do escritor Santiago Fontoura, parece ter sido concebido a partir do observável e do trivial. O miúdo e o comezinho surgem como matéria e o ponto de partida desse trabalho. Lançado pela editora Segundo Selo, no livro percebemos o olhar do poeta que abarca o todo. Que o expande e o reverbera, sem vacilar em seu trajeto.

O poema Empada de Belém talvez seja um bom exemplo para tentar explicar essa minha primeira impressão: “Há eternidade nesta empada de Belém / (é que ela desperta em mim, / já na primeira mordida, / a certeza – que me foge nos intervalos / em que não degusto a guloseima – / de que a vida, somente a vida, / interessa)”.

Do simples ato de comer a iguaria de origem portuguesa, conhecida também como pastel de Belém, Santiago Fontoura desenvolve um dos fundamentos de sua escrita, que é: todo momento vale a pena; tudo merece atenção e questionamento; todo pequeno gesto contém mais do que mostra, e pode se eternizar para quem tem talento e firmeza.

Daí, as perguntas: qual o verdadeiro alcance da ideia que une, num corpo textual, a eternidade presente num momento tão comum (comer algo) e a comoção causada por esse mesmo momento? Talvez um devir em que a vida, “somente a vida” interessa, e que poucos conseguem expressar? Pensemos no ponto de partida, a empada (sim, a empada!). Na motivação que deu origem ao poema. Agora adicionemos o olhar certeiro do poeta (e o paladar também: a empada vale uma epifania, sim!).

Não é exclusividade de Santiago o uso de tal modus operandi, por assim dizer. Essa coisa de converter momentos imperceptíveis aos olhos cegos em literatura de qualidade já vem de longe, sabemos. E os já citados grandes poetas, assim como outros que também influenciam Antipática Lira e que desconheço, agiram ou agem dessa forma; flâneurs ou não, eles arrancam do banal algo maior do que se mostra.

 

O EU E O CABRAL

 

Quanto ao Cabral, na leitura que fiz do livro entendo que a influência do pernambucano reside na ideia da construção pensada. E numa diluição marota do “eu” sem resvalar para a frieza. Nem para a rigidez.

Santiago Fontoura, o tal “eu” dessa minha teoria amalucada, está presente como persona e pronome-da-primeira-pessoa, até, quando necessário, não escondendo a inquietação diante das coisas simples e de um mundo cheio de pressa e ruínas. Mas a forma escolhida para o texto dialoga com o leitor de perto, digamos. Sem firulas nem hermetismos.

Os chamados versos livres despertam um genuíno interesse pela apresentação e pela integração desses versos à construção do resultado final. Tudo flui, numa boa. Fontoura finca pé trabalhando com o trivial, com o alcançável em termos de linguagem. Contudo, apesar do uso de palavras corriqueiras, o poeta onsegue usá-las de uma maneira em que a cadência do texto, assim como sua força metafórica, instiga.

A tal lira surge não de forma esquemática: não cabe o tal decassílabo, muito menos uma estrutura “rígida de rimas consoantes” ou mesmo toantes, usadas pelo “poeta engenheiro” (o nosso João Cabral). Assim como não há a defesa peremptória de qualquer estilo, formalidade, modernidade fajuta, questionamento banal ou posicionamento estético que trave sua criatividade. Antipática Lira nos conquista pelo pungente, essencial no fazer literário, e por um tipo de clareza transcendente, fruto das escolhas de seu criador.

 

A POESIA QUE PERGUNTA

 

No caso de Santiago, o empenho é pela poesia como veículo de indagação sincera e expressão elevada, sem barroquismos. E esse talvez seja o seu trunfo, se levarmos em conta outra obra, Leitura Neon-reciclada, indicando a mesma linha – ao menos em relação ao tratamento formal e o intuito em se fazer uma literatura de respeito.

Vejamos agora se o exemplo abaixo consegue explicar o que digo: “Macho Ômega / “Ninguém sabe, / mas sou um homem triste. / “Desconheço as ternuras cotidianas: / grandes árvores centenárias, / beijo amigo sem escárnio, / música que somente o vento é capaz de reger. / “Trago entre as pernas uma angústia / – esta carne mole (que faz parecer / que apodreço) explicita que, de fato, / sou feito de camuflado tormento / e nenhuma sabedoria.”

Assim sendo, para melhor definir a visão de Fontoura talvez eu deva apostar minhas fichas no que o velhinho Pound um dia escreveu sobre a chamada “segunda natureza”2, em vez de vinculá-lo à obra Cabralina. Quem sabe seja mais próximo da realidade do que uma possível influência do pernambucano que, com seu belíssimo trabalho, deu “à vertigem, geometria”.

 

OS TEMAS

 

Quanto à temática, nas 122 páginas Fontoura reflete sobre muita coisa: religião, ao menos em seu aspecto humano (“Ratzinger”; “Oração”); o amor real, sem um traço de pieguismo sequer; a amizade franca e a questão do “macho”; a literatura e a sua relação com a vida; a própria vida em si (“Antibudismo”, um dos melhores); a política sem partidarismos (“Conclusão de um homem sem partidos ou legendas”); a paternidade; e, para encerrar, a relação dele com nossa cidade, Salvador, com suas ladeiras e idiossincrasias, sendo o poema abaixo um exemplo válido:  “A praia é o limite – e a cidade, então,/ chega ao fim: não há curvas, becos ou ladeiras. / Mesmo a pressa – tão típica –, mesmo a desordem / – inevitável –, assumem uma estranha distância / quando é a ilha o horizonte alcançável.”

Dando uma olhada no conjunto, penso que o autor consegue a proeza de ser cuidadoso na forma abarcando, com seu olhar atento, diversos conteúdos. Isso sem transigir no seu belo trabalho – fato que tornou seu livro um achado para mim. Santiago pode não ter inventado a roda, ao escolher trabalhar com elementos conhecidos (e acho que nem foi essa a ideia, para ser bem sincero). Mas sua escrita, extremamente pessoal muito por conta de sua personalidade, se mostram ao leitor como verdadeira poesia, entendendo (e estendendo) o termo da melhor forma possível.

Assim sendo, vos digo que, se um dia me perguntarem o que resta aos escritores contemporâneos, ficarei em dúvida entre o pastiche proposital e a cópia descarada – a falsa noção de que está se fazendo e se discutindo algo novo. E o poeta “antipático”, foco desta resenha, me pareceu não se perder, sabendo muito bem o que faz e para onde ir ao evitar ao máximo um desses possíveis extremos.

E caso algum dia me perguntem sobre o que achei do livro dele, acho que vou sugerir uma olhada no Ezra Pound3. Ao menos em alguns dos seus conceitos sobre o fazer literário, antes que meu interlocutor pense em julgar Santiago Fontoura. Ou supor que faltou ao cara arrojo e “novidade”.

 
1 Drummond: mais para a chamada “fase do não”, seguindo a crítica; Bandeira: “Estrela da Manhã” já resolve a parada. Gullar: na forma e na poética em si, desconsiderando a fase “partidão”.

 

2 “É precisamente aqui que tem lugar o sistema usual de sofismar com meias-verdades. De fato, as melhores obras provavelmente ‘brotam’, mas só DEPOIS que a técnica se tornou uma ‘segunda natureza’, e o escritor não precisa mais pensar em CADA DETALHE, da mesma forma como Tilden não precisa pensar na posição de cada músculo em cada lance de tênis. A força, o impulso, etc., seguem a intenção principal, sem dano para a unidade do ato.” Ezra Pound em Abc da Literatura, página 72.

 

3 Como disse um amigo escritor: “O livro é quase um manifesto e, pra isso, é preciso ler um pouco a história da literatura, onde estava e para onde ele queria levar. Depois tem isso da tradução. Bom, vencidos esses pequenos obstáculos, o livro flui na leitura ahahahaha”. A gargalhada é verídica.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Céu Ausente (Cepe Editora, 2023), dentre outros.

 

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