Aperitivo da Palavra II

A sagrada profanação do corpo: os ritos literários de Saint Genet

Por Rafael Peres

 

Diário de um ladrão - capa

 

“Vocês”, um pronome que demarca a fronteira e o distanciamento entre nós e o personagem autobiográfico Jean Genet, em seu Diário de um ladrão (2012). Embora seja chamada de “diário”, tal obra apresenta-nos um painel anacrônico das memórias de Genet, as quais são dispostas de maneira multiforme, destituída de linearidade cronológica. Também não há como precisar se a narrativa é uma autobiografia, uma memória ou um diário, ainda que todos estejam em seu bojo. Além desse embaralhamento de gêneros, vemos um desfile de facínoras e ladrões, malandros de toda espécie, com os quais Genet confunde-se, tornando-se um caleidoscópio de suas amoralidades. Ao invés de compor uma ode aos valores da ordem social vigente, Genet canta as idiossincrasias de sua classe, em detrimento das instituições, com exceção do poder executivo, cuja ação violenta e punitiva é, para o autor-personagem, um traço que a aproxima da barbárie.

Seguindo a esteira de Baudelaire e de outros poetas malditos, Genet utiliza o grotesco como adubo de suas “rosas brancas”, extraindo da imundície a luz benfazeja de seu lirismo. O embaçamento de si mesmo durante sua herética travessia pelas margens sociais confere-lhe uma identidade ornada de magnificências ultrajantes, concebendo assim Jeannot, o amante platônico de Stilitano, um dos asseclas mais queridos do autor-personagem. Este se desdobra nas abundantes descrições, nas quais retrata uma torrente poética atingindo todos os ladrões, de modo que suas impurezas tornem-se matéria transcendental. Assim, o véu do catarro de Stilitano resplandece, ganhando tons até então impensáveis, principalmente em se tratando do pensamento popular em relação aos fluidos expelidos pelo corpo. Mostrar suas inúmeras facetas mediante uma poieses invertida demanda também fugir do cânone imposto pelo gênero, o que acentua o caráter ritualístico baseado na transgressão, uma vez que o autor suspende a narrativa a um plano etéreo e disjuntivo, cálice abjeto para a ordem dominante.

A santidade, segundo Genet, alcança a epifania à medida que uma corrupção de maior calibre sobrepõe-se a outra, numa busca incansável pela pretensa anulação do caráter. Com essa postura, o autor escolhe a traição como o estigma subversivo por excelência, tendo em vista sua capacidade ilimitada de sobrepujar os vínculos benéficos dentro de um grupo. Desse modo, a fraternidade, a gratidão e a honra são ceifadas, com a finalidade de proporcionar uma nova e paradoxal união, ou seja, o estabelecimento de um vínculo sagrado por intermédio da ruptura de tais valores. Logo, camadas gradativamente nocivas consomem as inferiores, produzindo uma massa disforme de sujeira moral e física, a qual gravita em torno da traição, já que a mesma não se circunscreve somente na ruptura de valores metafísicos, mas também no abandono da sanidade corporal. É mediante essa atitude que Genet olvida-se, reinventando suas facetas num prisma grotesco, de modo que este se torne uma cosmogonia insurgente de seu caos. Todavia, deve-se ressaltar que esse apagamento não significa a extinção de sua identidade, mas sim a procura por sua renovação, desnudando o que há de mais rasteiro entre os excluídos.

O corpo é um templo sagrado, “morada de Deus” para a tradição católica. Genet apropria-se dessa ideia, mas com enfoque completamente diverso, tendo como base perversões libidinosas, relações homossexuais e excreções. O sagrado e o profano têm relações estreitas, se analisados do ponto de vista antropológico, sobretudo deixando de lado a concepção ocidental de pureza e higienização. Entre os Bambaras, por exemplo, há uma classe de iniciados de nome “Abutres”, a qual “engole as forças profundas do universo” alimentando-se dos detritos. “Ao consumi-los, o abutre assimila o mundo por intermédio da coprofagia” (ZAHAN, in: CHEVALIER & GHEERBRANT, 2006, p. 412). Essa liturgia com elementos abjetos é recorrente na narrativa de Genet, que igualmente se vale de situações repugnantes para tentar justificar sua existência e reanimar as “forças profundas do universo”:

Os piolhos nos habitavam. Às nossas roupas, eles davam uma animação, uma presença que, desaparecida, as tornavam mortas. Nós gostávamos de saber – e sentir – pulular os bichinhos translúcidos que, sem serem domesticados, eram tão nossos que o piolho de outro que nós dois nos dava nojo. Nós lhe dávamos caça, mas com a esperança de que durante o dia as lêndeas teriam nascido. […] Não jogávamos os cadáveres – ou despojos – no lixo, nós os deixávamos cair, sangrando com o nosso sangue, em nossa roupa descomposta. Os piolhos eram o único sinal da nossa prosperidade, do próprio avesso da prosperidade, mas era lógico que ao fazer o nosso estado operar uma inversão que o justificasse, nós justificávamos ao mesmo tempo a marca desse estado. Tornados tão úteis para o conhecimento da nossa decadência como as joias para o conhecimento daquilo a que se dá o nome de triunfo, os piolhos eram preciosos (GENET, 2012, p. 35-36).

 

Revitalizando essa condição miserável, os piolhos são elevados a “joias”, em cujo brilho translúcido flagra-se outra realidade. De acordo com os povos tribais, os excrementos constituem a síntese energética da natureza, o elo do homem com o plano sagrado, não possuindo, assim, o arquétipo escatológico criado no ocidente. Muitos radiestesistas acreditam que os dejetos têm uma energia similar à emanada pelo ouro; trata-se de uma crença observada em muitas tradições. Classificar metaforicamente os piolhos de pedras preciosas é uma inversão que valoriza o abjeto como um estado anímico triunfante, gênese da beleza no “próprio avesso da prosperidade”. Minérios superiores são cotejados com o que há de mais infame na cultura ocidental, erodindo, com isso, os limites entre o sagrado e o profano, evidência das dicotomias entre o homem e sua corporeidade. Porém, mesmo na tradição judaico-cristã, nota-se essa ambivalência, uma vez que o ritual da eucaristia consiste em se alimentar do Cristo vivo, a fim de sanar os pecados e resguardar-se para a vida eterna. É visível, então, que a antropofagia funciona simbolicamente como a restituição vital do ser humano, cujos detritos, em outras culturas, também adquirem valor equivalente. Dos restos dos piolhos, o autor-personagem contempla o próprio sangue, sua marca existencial que o assinala no mundo. Seu “renascimento” acontece graças ao sacrifício da morte, perfazendo um fluxo intermitente, no qual as criaturas escatológicas servem como adubo e fertilizante para a germinação de uma nova vida. Nessa óptica, o ouro, o excremento, a joia e o piolho são igualmente importantes para o ciclo, o que endossa a premissa genetiana de utilizar elementos abjetos para alcançar o sublime.

As figuras de linguagem utilizadas por Genet em suas descrições associam-se quase sempre à natureza, espaço indômito, às vezes cruel, mas que evoca a beleza, extraindo dolorosamente seu caos. Os minérios, as seivas e as luminosas imagens locupletam os sentidos, paralelamente dispostos aos órgãos genitais, como a rosa branca e o voluptuoso escarro entre as pernas do assassino. O autor-personagem reitera que essas marcas poéticas são tentativas de alcançar uma moral superior, sobre a qual não se pode julgar conforme os paradigmas sociais. Genet chama seu lavor artístico de “santidade”, ou seja, é um tipo de cognição sensorial que busca asceticamente a totalidade, ainda que seu escopo seja inatingível; “afasta-se quando me aproximo dele” (GENET, 2012, p. 231), explica. Essa percepção estética apresenta maior grau de complexidade, pois o artista não lida meramente com algo prosaico ou com um simples fato do cotidiano, e sim com inúmeros signos escatológicos do corpo.

A expressão substantiva “Um ladrão” não identifica a pessoa que pratica o delito; assim quer Genet em seu texto, como sugere o título de seu “diário”. Quando alguém rouba um objeto de valor, sua intenção é basicamente usufruir de seu saque em benefício próprio e/ou de outrem. Todavia, a relação entre o meliante e seu furto ultrapassa essa acepção, posto que o indivíduo apropria-se indevidamente de uma particularidade de outra pessoa e a transforma num novo apêndice (que varia conforme a natureza do produto roubado) de sua identidade. O direito de posse é uma convenção que torna o objeto individual, opondo-lhe sua universalidade material e simbólica. Embora o espólio roubado seja um domínio alheio, o ladrão lhe concede novo significado, expandindo-o semanticamente, ao apropriar-se dele. Se o autor-personagem tem plena convicção de que é capaz de trair Armand, afanando-o em benefício de Stilitano, presume-se que o produto do roubo deva simbolizar não somente a apropriação de uma subjetividade, mas também sua partilha em prol de uma agremiação.

A cruel autoridade dos dois ladrões, Armand e Stilitano, cria a aura de erotismo e devoção, com a qual Genet banha-se de luz, assimilando o que há de mais nocivo nos comparsas: a traição. A gula pela vileza não se satisfaz, mas é sobre sua incompletude que o autor-personagem constrói seu altar, onde os corpos sacrificados são colocados à mostra e à revelia da sociedade. Os ganhos obtidos por Armand pelo tráfico de ópio são uma das oferendas, não considerados assim meramente pelo valor financeiro, mas, sobretudo, por encarnarem a postura transgressora do criminoso, um dos maciços blocos de sua personalidade infame. O traiçoeiro roubo das do outro possibilita a Genet a apropriação sensorial da maldade alheia e de seu próprio mal, aproximando, dessa maneira, seus pólos negativos. Com isso, os ladrões comungam um sentimento de redenção mediante o abjeto. As relações sexuais também revelam essa permuta identitária, que é simultaneamente morte e vida, indivíduo e coletivo, carne e espírito. O eixo de tais oposições consiste no vínculo da beleza com o grotesco, um oxímoro avassalador, benção de Saint Genet, o ladrão de joias poéticas…

Referências:

 

CHEVALIER & GHEERBRANT. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Coordenação de Carlos Sussekind; tradução de Vera da Costa e Silva… (et al.). Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

 

GENET, Jean. Diário de um ladrão. Tradução de Jacqueline Laurence e Roberto Lacerda. Editora Saraiva: São Paulo, 2012.

 

Rafael Peres nasceu em Patos de Minas, Minas Gerais, em 1986. Possui graduação em Letras pelo Centro Universitário de Patos de Minas (UNIPAM). É Mestre em Teoria Literária, pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Já escreveu os contos “O olho da máscara”, texto classificado no Concurso literário “Cidade das Asas”, “Ana Clara”, terceiro colocado no II Concurso Literário Icoense – CLIC – Poeta José de Oliveira Neto, e “Anátema”, obra inclusa na antologia do Prêmio Henry Evaristo de Literatura Fantástica. É também um dos vencedores do 48◦ Concurso Literário de Contos do FEMUP, tendo como mérito seu conto “Os Girinos”.

 

 

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