Janela Poética I

Sara F. Costa

 

Caroline Pires

Ilustração: Caroline Pires

 

As regras de Tagame

 
senta-te na vida
como no suicídio,
somos feitos de metal febril,
responde-me com a garganta iluminada,
és o espectro nómada
das noites que passo com o tagame,
um Rimbaud cansado
já aos quinze.
existes-me nos becos sinuosos
da mente, não sei se
o teu espírito rodou pela direita ou pela esquerda
mas foi Dante quem te ensinou a subir montanhas.
ainda não consegues compreender
o esforço que Max Brod fez para divulgar Kafka depois da sua morte.
és a penumbra secreta
quando te vigio a morte.
um amigo nas trevas
que percorre caminhos transparentes
onde a solidão se transforma
na música demorada dos teus pensamentos.

 

 

 
*** 

 

 

 

Há uma luz selvagem

 

há uma luz selvagem que me percorre o nome
e que enlouquece lentamente
no interior húmido da memória.
o espaço da voz
expande-se até à idade irrespirável dos objectos.
sento-me a observar a praia
e a forma como a água tem medo de se aproximar demasiado
e pousar nas perguntas.
as pálpebras escorrem-me até aos nervos.
há um frio insuportável na passagem escorregadia das horas
no gesso de cada nome,
e um sítio febril onde a inteligência consegue deteriorar
todos os vestígios decifráveis de vida.
cada nome, no interior imóvel do seu ventre,
no sangue fervido das noites,
transporta uma luz pesada,
impronunciável.

 

 

 

***

 

 

 

Cheguei demasiado cedo

 
ao colo da floresta,
quando falei,
falei extremamente baixo
sobre as mitologias
da linguagem.
se alguém me ouviu
foi porque este oceano pedestre
a que chamas existência
me deixou mergulhar
nas vertigens dos campos.
deixa-me conduzir
esta voz

até à intimidade do céu.

 

 

 

***

 

 

 

Anuncie aqui

 
anuncie aqui,
temos o que procura,
clientes de existências quentes,
astros estendidos no comprimento da boca.

anuncie aqui a sua solidão
o seu medo assimétrico,
o seu bom coração.

havemos de lhe encontrar
alguém sensível
com ossos audíveis,
botões em zonas estratégicas,

onde pode parar ou começar
os violinos,
as cortinas,
a paisagem.
a cortina paisagística
e um soneto capaz de cobrir a visão.

anuncie aqui
e anuncie ali
quanto mais se explorar
mais hipóteses tem de ganhar.

tudo amadurece,
até o silêncio
aquele que ressoa por esta febre
febre que se arrasta pelo poema,
poema que se verga
para o seu interior de mar.
as rosas brotam
o leite envenenado
dos nossos direitos mais antigos.
o avião transporta o peso
da luz
e a água da manhã atravessa
o brilho abandonado das mulheres
selvagens que te tecem o sono.
amanhã as fábricas recomeçam
a queimar os seus mortos
e deus ressuscitará entretanto.

 

 

 
***

 

 

 

A conquista da Polónia

 
a tua fala loira desdobra-se em pedaços brancos de pele
esta música goteja com o teu sangue,
o apetite dela do tamanho do meu.
orgulho-me das tuas veias tão salientes,
da altura assustadora dos instintos.
chove por dentro do desejo
e eu quero enterrar-te ainda esta noite,
quando passar o próximo comboio
terei o teu peito molhado,
os teus ossos transpirados
por aquela vontade de viver
mas antes do comboio passar
navegarei na tempestade azul dos teus olhos
e terei os teus lábios gelados
como o norte,
sentir-me-ei a rainha da Polónia.

 

Sara F. Costa (1987) Natural de Oliveira de Azeméis, Portugal. Licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho e Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem publicadas as obras poéticas: “A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos” (Prêmio Literário Serra da Lousã, Pé de Página editores), Uma Devastação Inteligente (Prêmio Literário João da Silva Correia, Atelier Editorial) e “O Sono Extenso” (Prêmio Literário João da Silva Correia, Âncora Editores).

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1 comentário

  1. mAIS UMA BELA POETISA PORTUGUESA OARA MINHA COLEÇÃO. aMEI OS POEMAS DA sARA. eSPERO ENCONTRAR SEU IVRO AQUI NO rIO
    pARABÉNS
    mARIA

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