Janela Poética I

Camila Passatuto

 

Juca Oliveira

Arte: Juca Oliveira

 

Sobre Poemas

 

Nada contemporâneo
Há um arcaico olhar em mim
Que não sabe ficar de fora
Adentra qualquer alma que passa

Não há nada de moderno
Ainda amolo o poema
No fêmur
E descolo a métrica na mandíbula

E se a morte vem
Matuto que sou
Ofereço um café
Para a transa durante juventude

Nada de Andy Warhol
Tem Monet na minha testa

Nada de nada
E você vem
Prova e reprova

É que sou sujo e amargo
Velho em inédito

Nada contemporâneo
Há um poema, leitor,
Brotando no teu peito.

 

 

***

 

 

Das Guerras

 
Todo ensejo que orvalha da alma
Vem metralhar quem passa.

E olha…
Tua fé
Já não é.

Eu amiúdo
Versos
Para que não vá
Sem um doce (se quer).

Gritamos.

Sujo tua roupa
Com leite materno
Enrolo tua alma
À minha,

Nada por perto para se agarrar.

Filho,
O que sobra da coragem
São pequenas ervas daninhas,
Que nascem dos olhos
Dos que choram demais.

 

 

***

 

 

Bombardeios

 
Os bombardeios seguem a rotina,
Destroem e constroem.

Não sei meu choro
Já faz tempo.

As ruas vastas…
Ainda.
E repouso
Minha desilusão
Pelo batente

Observo tanta ganância

Minhas mãos sujas
De amor

E o mundo acabando
Com o pouco do eu
Que me resta
Na janela.

 

 
***

 

 

Manger un Réactionnaire

 
Por onde saliva
É caminho obscuro
Se o faz
Por más línguas.

Ontem um corvo
Açoitou minha sorte
Levou em algemas
As revoltas.

E deles, tão pertencentes,
O descaso calcifica
A frívola passagem
Por essa vida.

O mundo geme
E pede
Em jarra
Nosso sangue.

E nada a alcovitar
A perfeição
Com as almas
Incisas em sistema
Errôneo.

Ladram as partituras
Falsas
Da valsa sem reação,

E gritam em meio
à barricada:
“Homens
Que propendem à política
Matam sufocadas
As pobres poesias!”

 

 

***

 

 

Infante Moral

 
Eu recuso o tratado que o mundo oferece
Quero meu próprio tormento
Com os ventos que minha mente reproduz.

Paz. Edifico, desmoralizo,
Não adquiro sua cruz.

E o que você julga eterno
Na minha vida perece,
Muita lei e muita regra.

Olha o cheiro da liberdade…

Tem gente que até esquece.

Empurram um sofá e a arte de trena.
Vão medir minha letra
E criticar o poema.

Esqueci o clássico
O marginal
O cubismo em poesia

Não pude lembrar
Já que alienaram
Minha vontade,
Por pura hipocrisia.

(Quero mais esquina)

Eu confundia as letras
Gritava tudo errado
Era o feio certo
Mas entoava meu passado.

Hoje o mundo me concertou
Na falha da perfeição
E tento a cada brisa
Voltar à pureza daquela
Vadia claudicação.

 

Camila Passatuto nasceu em São Paulo. Escreve desde os 11 anos e começou atuar nos meios digitais, com blogs e participações em revistas digitais, em 2007. Entre os seus principais trabalhos publicados, podemos destacar: 2010, e-book “Apenas o Necessário”, co-autora da Antologia de micro contos reunidos pela Poesis, em parceria com a ETC Bienal, Fundação Volkswagen e Governo do Estado de São Paulo; 2012, Antologia “Nossa história, nossos autores (Editora Scortecci); 2013, escritora exposta na mostra de Twiteratura no Sesc Santo Amaro.

 

 

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3 Comentários

  1. Boa poesia. Preciso relê-la.

  2. “Há um poema, leitor,
    Brotando no teu peito.” Esses versos me encantaram.

  3. Leitura que embriaga os sedentos por poesia crua, forte e de qualidade.

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