Janela Poética V

Vander Vieira

 

Victor H. Azevedo

Desenho: Victor H. Azevedo

 

Parece-te mais uma faca cravada em meu crânio

 
Parece-te mais uma faca
cravada em meu crânio.
Quando levanto-me do teu sonho
não ouço o rumor dos
………………………. [pássaros.
Como beijos embotados,
tua boca lança silêncios ao vazio;
palavras morrem antes que tu as balbucies.
Parece-te uma avó desalmada
com o agravante do assassínio letral.
Estavas ontem mesmo em minha estante;
eu a fitar-te e tu, brilhante, de soslaio,
a comer-me a visão.

Se plantasse cheiros nenhum deles daria em ti.

 

 
***

 

 
O espantapássaros

 
qual o lar do espantapássaros?
quem sorri a ele? os senhores? os vermes? as viúvas?
se ele trocasse de roupas, nós o reconheceríamos?
na capa do jornal de domingo
escondido entre as feras, alheio
ao reto do caminho, caminha
o espantapássaros.
mastiga ele a areia fina dos temporais
e sua caixa de fósforos
está encharcada de visões solitárias.
alguém ouve o espantapássaros? suas fendas?
seus fecundos sonhos intranquilos?
as sensíveis assembleias camponesas
ouviram seus apelos por um guarda-sol?
se a solidão torce os ossos dos não-vivos
o que faremos com quem tem coração?

 

 
***

 

 
Levarei ao chão todas as bicicletas cor de fogo

 
Levarei ao chão todas as bicicletas cor de fogo.
Jogarei no lixo os buquês de flores cor de vinho.
Apagarei todas as imagens coloridas.

Nada disso, no entanto, afagará a ferida aberta
pelo escoar do tempo no corpo.
Um corpo todo desmedida,
todo bifurcação de possibilidades,
todo abraço dado ao acaso.

Nada disso dá conta das fissuras vazias na tal parede
do tempo – nem mesmo mil pás de cal estancariam essa hemorragia.

Passo em frente a uma boutique:
manequins me olham e seus olhos não guardam expressão alguma.

(Uma mesa diante de mim expõe uma laranja partida em duas)

 

 
*** 

 

 
O espantapássaros II

 
O espantapássaros pendurou seus ossos
nas janelas ocres do seu passado.
Longamente meditou sobre a dor que o crucia.
Um escravo tísico, desses sem-vida,
perguntou ao espantapássaros
em qual braço do horizonte o sol faz a curva
que nos queima a pele eternamente?
Um homem comeu minha língua, ele disse
enquanto volvia os olhos às colinas
que mantinham entre os seios hirtos
os últimos dedos de luz.
Sem os acenos da noite, em qual cômodo da casa
o espantapássaros chora seus dias?
qual a sua bússola? e seu relicário?
sobra-lhe mãos e tempo para espantar as moscas
que lhe cobrem a face lúgubre?
ou seu senhor lhe ordenou que mantivesse
os braços abertos mesmo em dias sem abraços?

 

 
***

 

 
Parassempre

 

Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos
Paulinho da Viola

 

 

Enquanto vivermos
seremos parassempre
bem como as canções, o engano e as pedras.
Pedras não são provisórias.
Tudo o que se pode ser, um pouco menos,
um pouco além, um pouco lago, é
impreterivelmente no tempo, que alumia.
Não se vê só com os olhos
mas só com os olhos é que se vê.

Rebento incréu, pobre e
marginal
lodo e nicotina
vias falais meio entupidas.
Por vezes
um entardecer.

 

Vander Vieira é poeta, mineiro do interior do estado e tem 25 anos. É bacharel em Filosofia e vive em Vitória/ES desde 2009. Venceu o prêmio UFES de Literatura Portuguesa 2013/14 na categoria Coletânea de poemas, tendo 10 poemas publicados na coletânea de mesmo nome, oriunda do prêmio. Tem também poemas publicados em revistas literárias como Samizdat, Desenredos e Mallarmargens.

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2 Comentários

  1. Como na entrada do Inferno de Dante,diante do Portal de Andsra a Razão pára, e, sem poder entrar, como um animal faminto olhando o alimento inalcançável sem nenhuma esperança, morrerá de fome vFCecim

    A inscrição no Portal de Andara diz: Atravessar o que nos nega, chegar ao Sim. E é assim que tu verás um S nestes dias cego vFcecim

    Vander,
    se me envias teu e-mail te mando o livro invisível inédito de Viagem a Andara oO livro invisível: ‘Asa de murmúrios’

    aVe

    V

  2. cara vc ta cada vez melhor. Parabéns!!! na UFES vai ser aonde o lançamento? no IC4? me comunica que eu vou. meu tel é: 988358254

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