Janela Poética V

ENIGMAS CIRCULARES

Floriano Martins

 

Enigmas circulares 01

Imagem: Floriano Martins

 

 

1.

Eu leio nos teus lábios que a noite não virá
A noite não se deixa molestar por ti
A violência com que te resguardas de ti mesmo
Tática jurídica ou religiosa para que permaneças entre nós
O teu êxito precário e a evidência desproporcional de seu vazio

Saímos contigo inocentados para a noite
Não há negação de nada em nossa convivência
Perdemos uma boa razão para nos educarmos a todos
A noite revelada como um sacrário de conveniências
Nossas preocupações desaparecem ao minguar do dia

Não vemos vantagem alguma em nos atingirmos
Somos uma desordem guardada em vantagens
Eu quero rir de tudo à noite inteira
O teu silêncio não me recupera senão o riso
A tua ausência me estimula a rir por todos nós

A sombra é como uma morte acidentada em frases
Aos poucos te alimentas da tragédia que há em ti
O teu corpo cansado de rir de si mesmo
A tua noite querendo ser a negação de teus sentidos
A máscara de êxitos de uma noite envergonhada

 

 

Enigmas circulares 02

Imagem: Floriano Martins

 

 

2.

Eu estou diretamente caindo em ti e não sei como evitá-lo
É tão rápido o movimento que mal posso identificá-lo
Nós todos precisamos de uma vida mais lenta para saber que é nossa
Estamos sempre à espreita de nossas falhas
Um perigo comum a todas as angústias

A sorte desfalecida

Por onde as linhas de tua lucidez começam a se desentender
A noite sem saber ao certo se é falta ou excesso
Em que parte de tua harmonia pode haver um inferno
Eu rio de tuas noites de horror que se imaginam esplêndidas
Seguimos caindo porque não encarnamos a queda
Como alguém que não consegue matar-se

A ideia da morte como um refúgio onde o riso não tem abrigo
A morte se ri ante a preocupação de leito ou túmulo

Eu beijo a tua noite sem repouso
Tuas lágrimas riem da tempestade de meus anseios
A noite não exige para si nenhum poder
Eu não sei por onde passas com tua queda desatada em sorte
Não conheço senão o infortúnio e sua falsa glória
Os versos com que cobres o olhar
A miserável alegria com que te renovas

Cair por um momento
Rezar além das forças
Tomar armas
Meter-se no cultivo mesquinho de piedades
Desfigurar a ingenuidade

Nenhum de nós sabe quantas noites pode morrer esta noite
Temos esta dificuldade milenar
Jamais eliminaremos todos os inimigos

O homem está composto pelo que sabe e o que não sabe de si
Não há outra ciência

 

 

Enigmas circulares 03

Imagem: Floriano Martins

 

 

3.

O idealismo da morte de Deus é um bom verso
A metáfora do eterno retorno se confunde com a do eterno pecador
Agora eu não quero senão beijar-te
Tua morte cai por terra a cada beijo meu
Por onde a noite cai já não se pode amá-la e em meio a tantas
…..quedas não há triunfo da parte de obra alguma

O equilíbrio é sempre uma maneira de negar-se
Como quem intimamente salta de uma ruína a outra e não se satisfaz
…..com os espectros de sua derrota que lhe vão corroendo a alma
…..inteira

O inferno nunca foi uma boa temporada para nenhum de nós

Eu pude ver a agonia encharcando teu olhar enquanto meu corpo
…..explodia e se misturava aos destroços de tudo quanto me cercava
Eu vi a tarde toda refletida aos bagaços em teu olhar
O lugar inteiro sendo refeito em estilhaços
A loucura de um gesto arruinando as nossas vidas
Meu corpo mil vezes abrindo crateras de ódio

Vítimas por traduzir

Não haverá uma única pergunta
Nenhuma obra jamais soube remontar os retalhos daquilo que
…..destruiu
Muitos nem sabem a qual espécie de sacrifício aludir quando ostentam os símbolos de sua arte

Eu vi o meu corpo detonado por dentro e nenhuma visão foi mais
…..íntima daquela tarde se extinguindo em multiplicadas explosões
Nenhum fragmento percebeu a dimensão do sacrifício
Nenhuma nova tarde se reergueu dos escombros de meu corpo

Nós somos os pedaços de Deus retalhados dentro da linguagem
Nenhuma farsa consegue destruir-se por completo
Ainda carregamos conosco o resíduo de toda fé

 

 

Enigmas circulares 04

Imagem: Floriano Martins

 

 

4.

Enquanto escreves me ponho no interior de teu corpo inacabado
Vejo como me corróis por dentro em meio à vitalidade da crença nas
….imagens
Teu pensamento se ocupa de sacrificar minhas convicções
Habito-me em plena consumição de princípios
Nenhuma evidência se livra de suas faíscas de agonia

Em tuas anotações percebo o quanto te perturba riscar os pontos
….trágicos em que a escrita não se realiza como uma saída além da
….assiduidade do presente
Talvez por isto não me reconheças em ardis que ainda imaginas
….poder suprimir
As vertigens se multiplicam a lotar comboios em tua imaginação
Eu tenho que te sufocar por dentro até que divises o abismo a que
….nos entregamos
Não terás como ignorar meu esforço enquanto segues escrevendo em
….espantoso frenesi as tuas supostas ciladas

Eu grito um nome enquanto escavo o horror de tantas crônicas
Uma estranha palavra que repercute como quem se desgarra de si
….mesmo como se fôssemos elucidados por tudo aquilo que nos falta
Já não se trata de uma simples bordoada do acaso e sim da intrigante
….rede de sofrimentos que o jogo requer
Nenhum de nós pode mais simplesmente dizer o próprio nome

O que escreves aos poucos se revela como sendo a morte de nossa
….secreta identidade
Um punhado de imagens debilita tua relação com o mundo e já não
….te encontras aqui para confirmar quem

 

 

Enigmas circulares 05

Imagem: Floriano Martins

 

 

5.

Se não estás aqui eu já não tenho como desamparar-te
A astúcia é uma lancinante categoria da linguagem
Confundir a imensidão com um pequeno tumulto
E agora abrigar teus escritos em meu corpo enquanto a solidão se
….precipita sobre tua garganta a ponto de rasgar-te o vozeio dos
….nomes
Deito meu corpo para que sondes o que ali faz sentido

Qualquer um riria de nós agora que se descobre que não temos o que
….dizer
Ensaiamos a miséria humana até que ela se estenda ao sol e
….dissimulada anote os assuntos que jamais entenderemos
A singeleza de meu corpo nu pode ser um atrativo para a escrita sem
….que desesperes e queiras me transformar em método de tua
….solidão
Nós somos os nossos diferentes erros sempre conciliados da pior
….maneira
Meus olhos correm por dentro da falsa imagem que fazes de ti

Eu não posso beijar-te agora porque me evitas
Os corpos saltam de uma presunção a outra e as dores resvalam por
….um corredor sem fim onde a vontade é sempre negada em nome
….da natureza
A dor não vai acabar nunca e não me dirás teu nome
Eu não passo de uma vida explosiva que te acoberta
Adormecerás entre uma deformação e outra de teus sentidos e
….seguirás sem me dizer teu nome

 

 

Enigmas circulares 06

Imagem: Floriano Martins

 

 

6.

Bater e bater e esganar segredos e espancar infortúnios e arrasar
….pequenos ideais e violentar e arrombar e retorcer e avariar
….angústias e depredar tolices e torcer o sentido de miudezas e
….sequer rir de tudo isto como se fosse um requerimento da ordem
….local
O meu corpo gélido não passa de uma evidência
A memória se mostrará imprevisível sob tortura

O meu corpo está ali dizimado por reticências e sem que aceites teus
….limites
Um instante que seja eu não me poria de pé senão para saudar-te a
….dedicação ao extravio
Mensagens são transmitidas de uma fonte a outra e já ninguém pode
….dizer que não sabe o que pensar a respeito

Estás diante da pobre sociedade de teu corpo vitimado
Os teus meninos fora de cena
Longe de tudo, a dor do mapa foragido de suas dimensões

O desastre noturno de gemidos vigiados e gritos derramados na mesa
….dos limites
Aqui se pode morrer à exaustão e compartilhar a morte como um
….estranho vício
O olhar se arrasta por uma imensidão voraz que escama vícios como
….peixes migratórios que alimentam a sofreguidão do mundo

Quando o mapa se esvazia das marcas de tua perversão então
….podemos tatear as pequenas sombras fatigadas que
….espantosamente resistem

 

 

Enigmas circulares 07

Imagem: Floriano Martins

 

 

7.

O mundo progride por um efeito de perspectiva
De onde me vês eu posso garantir tua revolução ou quebrar a banca
….de apostas ou denunciar-te a alguma agência de notícias ou tornar-
….me comparsa de teu fingimento ou:

Trata-se de uma roupa sinuosa a da perspectiva e quando me despes
….teus olhos imensos podem não me encontrar mais em parte
….alguma
Não é certo que jamais sabemos para onde caminham nossos mortos
Estamos devastando tudo dentro de nós

As tuas ilusões se deixaram impregnar por imagens plantadas
Um mesmo catálogo de bustos anônimos e o esplendor da miséria
….com suas igrejas sepultadas no descampado da memória

Um fósforo à espera do incêndio
Um beijo à espera da conspiração
Árvore cujas folhas são olhos de serpente

Um novo cenário de vísceras pré-moldadas estimado para que todos
….nos sintamos bem
A câmara focando o rosto desfocado dela – meu nome é rosa eu fui
….espancada porque vi três homens um deles colocava algo no carro
….pipa que veio abastecer o bairro outro me batia muito e espalhava
….sal por onde me doía no corpo todo e nem precisava me dizer nada
….eu fui afligida pelo que compreendi – um rosto de evidências
….quebradiças

Não há um eu sublime
Identificamos crimes pelos quais não podemos responsabilizar
….ninguém, nem nos cabe amenizá-los
Não há justiça sem justiceiro ou regime político sem a saciedade de
….seus métodos

Eu tenho um nome um eco um fala-me e ninguém me diz nada
Há um relógio que brota de cada suspiro e me distrai com horas
….suspeitas como se a minha vida estivesse por um fio

 

 

Enigmas circulares 08

Imagem: Floriano Martins

 

 

8.

Há uma cobiça de gozos degenerando um jeito mais livre de ser
Uma fiação de regras que são a base de todo constrangimento e
….fonte de aliciamento
Teus mortos esperam em longas filas por pequenos volumes
….indecifráveis e suas pétalas de racismo e genocídio
Prosperam à espera desses pacotes de vômitos e ejaculações
….ressecadas

Flores famintas mastigam os restos calcários de tua memória
Corpos arrastados sob medida
Calvário de pratos concebidos com seus lamentos elétricos
A miséria ressumando como um abismo acidental

Ninguém sabe mais por que nome chamar a si mesmo
Nem mesmo escavando em escombros encontraríamos a
….transparência perdida
A dor multiplicada por mares descorados que se agitam em
….casarões de formas emudecidas

Lugares que se desfalecem aterrorizados por apenas soletrarem teu
….nome
Postos de comando & faixas de greve & cercos policiais
A humanidade já não guarda segredo de si

 

 

Enigmas circulares 09

Imagem: Floriano Martins

 

 

9.

A memória se reparte ao visitar escombros negros e índios em seu
….paiol metafísico
Habituada à sedutora condição de modelo vivo acabou por desterrar
….efeitos contrários

De que lado a carne se espelha no real sentido de tudo quanto toca é
….algo que não se sabe
O que foi repartido devorou a metade que ingenuamente aceitou tal
….condição
Falso dualismo que orienta a existência quer tenhamos ou não razão
E não a teremos nunca
Toda razão perdida se transfigura em deplorável quando reabilitada
É alto o preço que pagamos por haver sempre esperado alguém que
….indicasse o caminho

Eu espero
Tu esperas
As vísceras passam por aqui
O morticínio bate à porta invisível

A angústia afia seus estiletes e sonha com safenas fantásticas
Nós esperamos a espera perder o controle das horas
Em um mundo assim até os relógios oscilam entre a insônia e o
….pesadelo

 

 

Enigmas circulares 10

Imagem: Floriano Martins

 

 
10.

Desfigurados pelo nome e sua circunstância
Lições de abismo com endereço certo
Ensinar aos filhos que a história se faz assim

Um enxame de deuses aguardando a noite
Eu queimo de vislumbres que me descrevem com uma minúcia de
….desapontamentos
A noite não foi parar em parte alguma enquanto estivemos aqui

Eu tenho essas marcas em meu corpo que são as tuas palavras
….queimadas em vão
Revelar o teu nome já não resolve nada
Não há código civil ou justiça divina

O flagrante sempre foi o grande prestidigitador
Morremos exatamente aqui: dissidentes: relutantes: indecisos:
As versões cinematográficas se expandem

O grande negócio das quedas
Jurisdição de trevas
O Estado sou eu em qualquer estado

Eu olho em teus olhos buscando meu erro
Não nos molestamos mais
Destilamos uma frialdade absoluta

Qualquer que seja a metáfora desenhada por um de nós
Um resquício último de humanidade
Eu leio nos teus lábios que a noite não virá

 

Floriano Martins (Fortaleza, 1957). Poeta, tradutor, ensaísta e editor. Dirige a Agulha Revista de Cultura e o selo ARC Edições. Contato: floriano.agulha@gmail.com.

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