Pequena Sabatina ao Artista

Por Larissa Mendes

 

O guitarrista, compositor e vocalista da banda Flerte Flamingo, Leonardo Passovi, carrega a objetividade da juventude e a sabedoria de um ancião. O músico de Salvador recentemente trocou a Bahia pela capital paulista na companhia do baterista Igor Quadros, onde atualmente cursa Produção Fonográfica no Conservatório Musical Souza Lima. E como num desfazer de malas, Léo Passovi avalia as transições, assimila mudanças geográficas e estruturais da banda, analisa o mercado fonográfico e sua própria trajetória artística.

Formado no verão de 2015 em Salvador, “com a proposta sonora pautada na espontaneidade das canções compostas por seus integrantes”, o Flerte Flamingo faz um dos sons mais interessantes do atual cenário musical. A mistura de rock e samba com ritmos afro-brasileiros conquista pelo gingado e pelas letras espirituosas e cuidadosamente esculpidas. Hoje com 5 EPs na bagagem, Léo e sua trupe preparam-se para novas aventuras.

As influências musicais do compositor passam por Jorge Benjor, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Arctic Monkeys, Paul McCartney, The Beatles, Papooz, Summer Salt, Stevie Wonder, Kanye West e Peter, Paul & Mary. Além da banda, Léo flerta também com a literatura como colaborador da revista eletrônica Mormaço. “Culpa” esta atribuída ao leitor de Jorge Amado, Gabriel García Márquez, H.P. Lovecraft, Agatha Christie, Julio Ribeiro, Machado de Assis e Stendhal, para citar alguns autores. Lembram das tais letras cuidadosamente esculpidas? Pois é.

Em entrevista exclusiva a Diversos Afins, Leonardo Passovi aborda os novos rumos da banda (ou do atual duo ao lado de Igor Quadros), suas aspirações artísticas e analisa até mesmo os 15 minutos de Warhol reduzidos a ínfimos 15 segundos de TikTok. Enquanto isso, o Flerte Flamingo prepara-se para o lançamento do EP Truques Velhos Para Cachorros Novos e acaba de divulgar duas novas canções em formato acústico, “Calma, Carolina” e “Ano Que Vem”, para o projeto Sala de Estar. Boa leitura!

 

Leonardo Passovi / Foto: Yvã Santos

 

DA O último EP do Flerte Flamingo, Outras Duas Músicas de Flerte Flamingo, foi lançado há mais de um ano. O que vocês fizeram nesse ínterim e quais os planos da banda para o segundo semestre de 2022?

LEONARDO PASSOVI – De lá pra cá, muita coisa aconteceu e muita coisa mudou. Nós saímos de Salvador e viemos pra São Paulo. É um processo de adaptação que requer uma boa dose de cautela, porque nós somos muito cuidadosos com o som da banda. Mas, neste meio tempo, canções foram gravadas e devem ser lançadas neste semestre. Sem dúvidas, há coisas por vir.

 

DA – Quais os fatores determinantes para a mudança para a capital paulista?

LEONARDO PASSOVI – Foi muito mais uma questão mercadológica. Estivemos aqui no ano passado e percebemos que, para além da parceria com o Selo Rockambole, há muito terreno a ser explorado e lugares para tocar. É uma terra que pulsa música de todos os lugares, muita gente se encontra aqui. A nossa leitura foi de que esse era o momento.

 

DA – Você acredita que, mesmo com a era digital, ainda é importante “sair da aldeia” para inserir-se no eixo musical concentrado entre Rio-São Paulo?

LEONARDO PASSOVI – Mesmo na era digital, algumas coisas nunca mudarão. O digital facilita em muitas formas, mas não se pode viver disso. A música ao vivo sempre vai se sobrepor. Pode-se ter o alcance cibernético que for, se não se traduzir em presença, de palco e de público, é telhado de vidro, castelo de cartas. O off-line sempre foi o nosso forte, botar 200, 300 pessoas num inferninho e fazer todo mundo dançar e cantar. Esse é o resultado mais prazeroso da nossa expressão musical: a conexão direta com a energia e o calor de quem gosta do som. Depois da pandemia, muita coisa ficou sucateada em Salvador, e em São Paulo há muito a ser explorado. Apenas há de se fazer as coisas com calma e equilíbrio pra que dê tudo certo.

 

DA – Por falar nisso, como vem sendo o processo de retorno aos palcos nesse período pós-pandêmico?

LEONARDO PASSOVI – O retorno aos palcos ainda não aconteceu de fato, porque a mudança pra São Paulo implicou também uma mudança na formação da banda.

 

DA – César Neto (baixo), Rodrigo Santos (teclado) e Igor Quadros (bateria) não vieram para São Paulo com você? Aliás, a banda sofreu algumas alterações de integrantes desde sua formação, em 2015. Como você analisa essas transições e quais as influências musicais que cada um trouxe?

LEONARDO PASSOVI – Viemos para São Paulo eu e Igor. As mudanças na formação, de 2017 até 2021, todas tinham sido na bateria, tirando um período de 6 meses em que César esteve fora do país e foi temporariamente substituído. Desde 2019, quando Igor entrou, a formação vinha sendo essencialmente a mesma. Apenas no último trabalho lançado, que Igor estava na França e Gabriel Burgos gravou a bateria das canções. Nosso som, desde os primeiros EPs, teve uma identidade singular, que eu acredito que se manteve, na medida que evoluiu ao longo tempo, seja por ideias novas e melhores, seja por mais intimidade com os processos de produção, gravação e interação entre os músicos. Cada um dos que passaram pelo conjunto contribuiu com sua particularidade e individualidade para o todo, mas a espinha dorsal tem sua linearidade. Esse, na verdade, é o momento em que certamente essas mudanças serão mais sentidas. Estamos medindo bem a temperatura da água antes de entrar.

 

Leonardo Passovi / Foto: Yvã Santos

 

DA – Como é a tarefa de manter aceso o espírito da banda em meio a tantas mudanças?

LEONARDO PASSOVI – Enquanto há canções para serem colocadas na rua, o espírito se manterá vivo, não importa o que aconteça. Não é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto se imagina. Mas sem dúvidas é a música que faz tudo isso andar.

 

DA – Os EPs Postura e Água Fresca (2017) e Espero Que Você Entenda (2020), além de uma sonoridade que remete a uma certa nostalgia, possui a temática voltada para letras “baseadas em fatos reais”. O que inspira o Léo Passovi compositor?

LEONARDO PASSOVI – Do que nós temos até agora pra tirar como amostragem, realmente são sempre situações de relações humanas, relações amorosas, como 98% das músicas no mundo. Só que acaba sendo muito mais sobre como o eu lírico se sente do que contando uma história. Não tem tanto o viés narrativo quanto o viés confessional das emoções. É uma forma de canalizar o que se sente enquanto provoca uma ou outra franzida de sobrancelha em quem sabe o que está por trás daquilo.

 

DA – Por falar em “viés narrativo”, você é um dos colaboradores da revista eletrônica da Mormaço (editora independente de literatura contemporânea). Como surgiu o convite e qual sua relação com a literatura?

LEONARDO PASSOVI – Entrei na revista quando ela ainda estava muito no começo. Um grande amigo meu faz parte da editora da qual a revista faz parte, e me chamou. À época, eu devia ter escrito um ou dois contos na vida. Mas assumir o compromisso de escrever mensalmente deu um novo gás à expressão criativa. Na infância e adolescência, li menos do que gosto de admitir. Mas tenho tentado tirar o atraso. Sempre gostei de contar história e acessar emoções das pessoas através de fatos. A escrita possibilita uma escolha das palavras certas e definitivas com as quais essas emoções serão provocadas. Além de ter, quase sempre, um toque de terapêutico. Eu recomendo a praticamente todo mundo que pratique a escrita no dia a dia.

 

DA – Em que medida o Léo Passovi compositor se converge com o Léo Passovi escritor?

LEONARDO PASSOVI – Difícil é saber em que medida eles se separam. É o mesmo jeito coloquial, conversativo de se comunicar com quem consome o material, seja lendo ou ouvindo. Quase sempre focando no que a personagem em questão sentiu. Mas enquanto um é em prosa, o outro é cantado; enquanto um tem começo meio o fim, o outro faz uma miscelânea de sentimentos que aos poucos situam o ouvinte.

 

DA – Como é seu processo de composição? É um processo solitário como na escrita ou ao contrário, você prefere as parcerias musicais?

LEONARDO PASSOVI – Completamente solitário. Já fiz parcerias, mas meu ritmo é muito particular, não é muito consistente e o processo acaba sendo muito íntimo e individual. Eu costumo precisar me acostumar muito com a escolha de palavras + melodias antes de dividir. Preciso ter certeza que encontrei a melhor junção. Ainda preciso desencanar e desapegar um pouco de certas agruras do processo pra poder fazer em companhia de outras pessoas. Mas já aconteceu, tanto de escrever com outras pessoas, como de escrever canções diante de pessoas.

 

Leonardo Passovi / Foto: Yvã Santos

 

DA– Você tem vontade de lançar um projeto solo? Qual a característica do seu trabalho individual que não “caberia” na banda?

LEONARDO PASSOVI – Todo trabalho que eu faço musicalmente é pensando na banda. Muito pontual eu criar algo sem esse propósito. A não ser que seja por pura diversão. Mesmo as coisas que eu componho que não se encaixam com o momento da banda são com o propósito de virar o próximo momento da banda. Flerte Flamingo é o combustível das minhas criações musicais.

 

DA – Como você avalia esse processo de “tiktokzação” da música e a pressão de selos e gravadoras para que os artistas recorram à plataforma para viralizar seus singles?

LEONARDO PASSOVI – Preocupante. Intensifica o imediatismo para com os resultados, enlata um formato desgastante e desgastado. Obriga pessoas que normalmente não têm costume de se comunicar dessa forma a mendigar atenção de maneira patética. Toda a papagaiada das dancinhas, das trends, da ânsia por viralização faz mal a uma multidão e beneficia um ou outro sem nenhum tipo de critério. É um terreno ainda muito movediço, todos os envolvidos ainda estão tateando. Os responsáveis pela elaboração de estratégias que se voltam pra essas ferramentas tentam encontrar algum padrão, mas isso é muito ilusório, porque a qualquer momento algo completamente despropositado rouba a atenção de todos, virando a “nova fórmula”. Enquanto isso, o mundo da música, como parte do mundo do entretenimento, tenta se espremer por ali, suplicando que 15s de música sejam ouvidos, senão a atenção do usuário já foi embora. Ninguém faz 15 segundos de música. Uma canção tem um propósito, uma proposta estética, uma sequência de momentos de humores que empobrecem muito se o foco for criar 15 segundos viralizáveis. É muito triste ver um universo tão rico se submetendo a essas ferramentas por dificuldade de conseguir atenção e financiamento. Vendem isso como uma parte de ser empreendedor, mas na verdade aquilo é a tecnologia fazendo as pessoas literalmente dançarem pra conseguir um tostão de atenção, pelo pavor do esquecimento e pelo desespero pra alcançar alguma concepção de sucesso. Vez por outra, assopra algum vento contrário, algum eco de reação em nome da salubridade das pessoas e dos processos, que dá uma fagulha de esperança a quem percebe o mal que isso faz. Mas é tão inútil dizer que isso é passageiro quanto é dizer que é duradouro. A gente nunca sabe o que vem depois. Mas, nesse quesito específico, as perspectivas não são animadoras.

 

DA – É possível conceber a vida sem a arte? Qual sua maior “munição” enquanto artista?

LEONARDO PASSOVI – Nos últimos anos ficou bem claro que a arte é o forro interno que nos mantém sãos. Muito mais do que mero entretenimento, é a vida se olhando em espelhos. A arte joga luz sobre as coisas que a vida prática esfumaça. A função do artista é observar, apontar o dedo é falar “ói”, pra que as pessoas vejam o que elas não estavam prestando atenção. Mas o artista também é gente. Então tem hora que o artista simplesmente vai querer falar sobre como ele se sentiu. E isso toca a pessoa na medida em que ela sentiu aquilo também, ou apenas empatiza com uma forma convincente de expressão. A munição é a capacidade de observação e as experiências alucinantes que a vida propicia. As menores coisas podem virar as maiores presepadas. A beleza tá em saber retratar.

 

Larissa Mendes espera que você entenda sua predileção por conversas profundas, postura e água fresca.  

 

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