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150ª Leva - 05/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Julia Bac

 

Foto: Yuri Bittar

 

este poema é sobre uma mala. na verdade, este poema é sobre uma mala que cansei de carregar. talvez este poema seja sobre o peso da mala talvez este poema seja sobre a falta de espaço pra guardar esta mala talvez este poema seja sobre o dono da mala talvez este poema seja sobre as coisas de dentro da mala talvez este poema seja sobre as lembranças que tenho ao ver os objetos de dentro da mala talvez este poema seja sobre as rodinhas da mala que não funcionam talvez este poema seja sobre a minha vontade de não ter mais esta mala. te entrego a mala agora. acabou o poema.

 

 

 

***

 

 

 

como é que eu não vi o espelho quebrado eu não vi o sofá rasgado eu não vi não vi o queixo que se deslocava sem controle eu não vi a euforia não vi as compras exageradas eu não vi não vi a pupila dilatada eu não vi a água do chuveiro que não parava de cair mais um banho eu não vi não vi a nota de dez enrolada eu não vi como é que eu não vi quando esvaziei um papelete cheio na privada eu não vi as ligações fora de hora a voz molhada eu não vi o dinheiro que sumiu alguém me roubou eu não vi a insônia eu não vi como é que eu não vi eu não vi eu não vi eu não vi não sei eu não vi.

 

 

 

***

 

 

 

como Klein
cada poema
é um salto no vazio,
mãe.
cada ano
mais alguns
“o que acharia disso”,
mãe.
há 5 anos
a cada enjambement
celebro o silêncio
como Klein
no seu salto no vazio,
mãe.
continuo sendo aquele
bicho híbrido
meio pato meio pássaro,
mãe.
é isso
por enquanto
é isso,
mãe.

 

 

 

***

 

 

 

a imagem é
de um touro
imenso
nem seu peso
seu porte
ou força
são maiores
que a agilidade
da alcateia
queria ser um
dos lobos
hoje tô mais
pra um touro
sozinho
imenso e frágil.

 

 

 

***

 

 

 

apesar de gostar
de saber o peso
dos alimentos
aqui já não se
compra nada a granel
não vale a pena
também não se
pede porções grandes
nem nada que
dure muito tempo
não levo promoção
2 a preço de 1
aqui é só
pra 1 mesmo.

 

 

 

***

 

 

 

corto um tomate
ao meio fazendo
uma incisão perpendicular
abro a fruta
e vejo que parece
um pulmão
e o que me diferencia
dos tomates
entre outras coisas
é que respiro.

 

Julia Bac (1982) nasceu em São Paulo. É formada em História (PUC/SP, 2004), em Artes Visuais (Centro Universitário Belas Artes/SP, 2009), e mestre em Arte e Patrimônio (Maastricht University, Holanda, 2011). Na área literária, se formou no núcleo de ficção do Curso de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz (SP/2018) e no CLIPE/Poesia da Casa das Rosas (SP/2017). Publicou o livro “duas mortes” pela editora 7letras (2021).

 

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150ª Leva - 05/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Rodolfo Guimarães Neves

 

Foto: Yuri Bittar

 

O CONCÍLIO

 

Telepaticamente, um filho se dirigiu a um dos pais, ambos diante de um grande visor, pelo qual se observava o esplendoroso planeta Terra em sua contínua rotação. Há milênios os Ankers aboliram a fala.

— Pai, as chances são de 0,3366%.

A Estatística e a Probabilidade dessa civilização eram infinitamente mais avançadas que a dos humanos, aos quais mais pareceriam pura precognição.

— Em quanto tempo? — retrucou o pai.

— Menos de um século, na contagem de tempo deles. Eles estão no ano 2126 D.C.

Uma lágrima rolou do olho esquerdo do Pai, que continuou:

— Sabemos quem viemos resgatar.

O filho fez uma súplica:

— Nossa facção acredita neles, Pai. Dê-nos uma chance. Convoque o concílio.

O Pai olhou para seu filho. Ainda tinha muito que aprender. A compaixão, entretanto, era algo caro demais à sua civilização e devia ser respeitada. Entendia a imaturidade dele e de todos de sua facção.

No coração da gigantesca nave à órbita da Terra, cuja civilização humana sequer suspeitava de sua presença, apesar de todo o seu avanço tecnológico, com seus satélites e estações espaciais, um concílio que decidiria a sorte da Humanidade foi aberto em uma grande assembleia. Ao centro, os pais, à esquerda destes, os filhos da facção humanista e, à direita, os filhos da facção legalista, a grande maioria.

Na abertura dos trabalhos, os pais telepaticamente lembraram a todos os filhos:

— Vocês sabem de nosso propósito neste sistema solar. Não precisamos lembrar que o tempo é escasso e nossa energia, ao momento, também.

A viagem tinha sido muito longa.

Ao centro da assembleia, imagens mentais compartilhadas eram geradas pelo poder das mentes de todos.

O advogado, representante de toda a facção humanista, tomou a frente:

—  Pais e irmãos, a epopeia humana na Terra corre o risco de chegar ao fim em pouco tempo. É algo precioso demais para ser ignorado.

Imagens em sequência de todos os fatos humanos mais notórios foram projetadas ao centro do grande anfiteatro. O líder da facção legalista deu um passo à frente e respondeu:

— Pois a culpa é toda dessa civilização. Eles causaram as mudanças climáticas, ofendendo nossa grande Mãe Natureza, impuseram a si próprios o risco nuclear iminente, perderam gradativamente seus valores e se tornaram vis e malignos. Como disseram nossos pais, aqui presentes, não nos esqueçamos de nosso propósito. Catalogaremos suas conquistas em nossa enciclopédia, assim como fizemos com outros seres.

Os pais assistiam ao debate com olhares serenos e muita atenção.

— Mas eles têm chances de sobreviver e reflorescer! — disse o advogado.

— Ínfimas, nada que possa justificar nosso colossal empreendimento, que tanto demanda tempo e energia.

As imagens ao centro converteram-se em cenas de destruição e guerra.

— Tenham compaixão, meus irmãos legalistas…

— Ora, meus irmãos humanistas, a nossa lei é justamente o Amor. Há diversas espécies mais empáticas que os humanos. Não há como salvar todas do mal que essa espécie que vocês defendem causou.

As imagens ao centro do anfiteatro alternavam-se em representações de cavalos, elefantes, cachorros, pinguins, baleias e outras mais.

O advogado humanista disse:

— Eles são mais inteligentes, têm engenharia, sabem coisas da matemática, colonizaram seu planeta vizinho…

— Não nos faça rir, meu irmão — disse o líder legalista — suas construções, para nós, que estamos a milhões de anos à frente, não se diferenciam muito de uma casa de um pássaro joão-de-barro. A questão aqui é moral, e vocês, humanistas, sabem disso!

Os pais intervieram em uníssono em sua telepatia:

— Lembramos que precisamos de todo o amor possível para vencermos as forças entrópicas do Grande Nada.

O líder legalista lançou um olhar compreensivo aos pais e, logo após, desafiador ao irmão, advogado daquela causa perdida. Este, com lágrimas nos olhos, implorou por compaixão:

— As artes, não nos esqueçamos de sua bela arte.

Cenas de arquiteturas, pinturas, filmes, peças de teatro, esculturas e todas as formas de artes humanas, em sua maior expressão, surgiram no centro da grande assembleia.

— Já está em nossa enciclopédia, irmão, não será esquecida. Além disso, todas as formas de arte humanas estão em declínio há décadas.

— As grandes personalidades dessa civilização e seus grandes mestres benfeitores, seus ensinamentos…

Imagens de Shakespeare, Buda, Gandhi, Jesus, Madre Tereza de Calcutá, Gilberto Gil, Martin Luther King, Mandela, Leonardo da Vinci, Michelangelo e muitos outros grandes nomes da Humanidade foram se desenhando alternadamente.

O líder legalista, com olhar de certa indignação, respondeu em tom grave:

— E o que fizeram com o seu maior mestre? Crucificaram-no!

O advogado humanista retrucou de imediato:

— Eles podem aprender, nós podemos ensiná-los!

Todos os pais, ao centro, voltaram seus olhares reprovadores ao advogado e disseram telepaticamente em tom elevado:

— Não podemos violar a Lei!

O líder legalista engrossou o coro:

— A Lei e nosso empreendimento! Viemos atrás da espécie mais amorosa para salvá-la do perigo iminente. Precisamos de todo o amor no Universo para completarmos nossa missão. Não há necessidade em lembrar que a questão não é inteligência e, sim, empatia.

— Pais, imploramos, eles podem evoluir…

O líder legalista interveio de imediato:

— Assim?

Logo, as imagens ao centro se converteram em perversões, guerras, assassinatos, crimes de todas as espécies, corrupções, vilanias etc.

Os pais, em bloco, abaixaram as cabeças e fecharam os olhos, recusando-se a verem coisas tão baixas, há milhões de anos esquecidas em sua própria civilização.

Em uma última cartada, o advogado converteu as imagens em demonstrações, de afeto, atos de honra, atos heroicos, cenas de nobreza de espírito, cenas de amor familiar, com os dizeres telepáticos:

— Para nós, humanistas, essas pessoas que mostramos agora têm um valor inestimável de amor que supera o conjunto de todas as demais espécies. Deem-lhes uma oportunidade! — disse em retumbante apelo sentido por todos em seus corações.

O líder legalista se voltou aos pais e finalizou seu discurso:

— Estamos aqui pela espécie e não por indivíduos. Lembramos: 0,3366%. Não merecem tamanho risco e consideração. Não podemos encher nossa nave de monstros. Não temos tempo e energia.

O advogado apenas se restou a falar:

— Pais, esperança e compaixão!

Os pais, encerrando o debate em ordem telepática, após breve meditação, obtiveram o consentimento de todos, que restaram em silêncio mental. E deram a ordem final:

— Mapeiem o DNA de todas as espécies amorosas e façam o resgate da espécie mais nobre deste planeta. Não temos muito tempo.

E assim foi feito. Um grande arrebatamento foi efetuado e a nave partiu para outro sistema solar.

Um representante dos pais foi receber, em um imenso salão, os membros da espécie escolhida. Sentiu em seus corações o amor familiar, a caridade, a compaixão, o senso de proteção mútua. Toda aquela boa energia que captou, retribuiu gentilmente.

Com seus passinhos desengonçados, um dos pinguins se desgarrou do grupo e caminhou para mais próximo daquele pai. Nunca tinha sentido tanto amor. Girou a cabecinha para o lado, num misto de curiosidade e alegria, e o olhou com gratidão. O pai retribuiu aquele olhar feliz, que era a própria felicidade da Mãe Natureza, e sorriu.

 

Rodolfo Guimarães Neves. Nascido em 01/11/1979, em Olinda, Pernambuco. Teve poemas e contos selecionados em diversas antologias. Seu conto “O Mal Iluminado” compõe a antologia de contos “23 Formas de Morrer”, da Editora Amélie. É autor da ficção científica “A Dinâmica Orgânica”, da Editora Paradoxo, e roteirista da HQ homônima, nela baseada, juntamente com o quadrinista Pedro Ponzo. É também autor da antologia de contos e poemas intitulada “Eles, Outros Contos e Poemas” e da peça teatral “Ressentimento”, estas últimas da editora IGP. Foi selecionado no concurso de contos “KosmoKontos” da Editora Ventura com seu conto “A Invocação” (2022). Por fim, é autor do frevo de bloco “Cidades Irmãs” e do frevo canção “Aurora das Festa”, cujos arranjos foram elaborados pelo Maestro Parrô Mello e encontram-se devidamente registrados na Biblioteca Nacional. 

 

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150ª Leva - 05/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Paulo Silva

 

Foto: Yuri Bittar

 

Clau

 

Despeje no beiral do mundo suas crises
Não ouça do espelho nada, pois nada diz
Sobre seu coração e seus olhos ou sua alma
Então, se os quer preencher
Se dê ao luxo de viagens inesperadas
Tome sua nave e explore o que há atrás
Das montanhas que se tornaram sua dor
Para que veja
Que viver é pleno, só requer um tanto de vontade
A SUA vontade
Então, nem a chuva e nem os deuses lhe privarão
De chegar até onde
Os sonhos residem.

 

 

 

***

 

 

 

Doce e triste sonata

 

Passo os dedos levemente
Sobre as sérias cicatrizes em meu peito,
É como se um acorde fosse feito
Em músicas pessoais
Ouvidas dentro da caixa torácica
Em ritmo e compasso
Com o coração.

Na canção há seu nome,
Nela, a cada verso,
Eu a chamo e choro
Sem que termine ainda
A nossa estória.

 

 

 

***

 

 

 

Na esquina do meu coração

 

Na esquina no meu coração
E nas bordas do meu cérebro
Nasce uma flor sem perfume
Lúgubre e espinhosa
Suas pétalas somem em teu perigo.

Meu coração enraizado na flor
Trancado entre cerca-viva farpada
Machucando toda vez que bate
Sangrando manchando a Rosa
Em um vermelho tão brilhante
Que se ascende ao céu nublado.

Guiando as estrelas para que vejam
Minha tragédia mais bela em vida
Que é nascer quando se nasce o sol
E me recolher quando acaba o dia.

Eu estava vencido como um preso
Que se entregou sem crime ainda
E na esquina do meu coração e nas bordas do meu cérebro
Um milagre sem nome acontece
Eu não o vejo, mas o sinto
Então
Ainda na dor
Ainda na tragédia
Vivendo de risos ainda
Eu quero o ritmo e me vou
Cantando na rua
Em meu Carnaval particular
Uma triste marcha
Que se converte em um hino,
Um hino para a alegria!

 

 

 

***

 

 

 

Carta para a minha morte

 

Seja breve e audaz!
Feroz, sem frivolidades;
Selvagem, poética e autêntica
Impassível
Irreversível
Constante
E mordaz:
Traga mais e dê menos:
Saudades. Choro. Piedade.
Sentido.
Para
A carta
A poesia
Minha vida
E mais nada.

 

 

 

***

 

 

 

Liese

 

Grave meu nome no vitral
E
..Na
….Pedra
Para que o tempo
Jamais
…..Me leve
……De teu umbral.

E em fonte entregue minha nascente
Em praça pública
Teu coração
Para banhar o jovem, rir o infante;
Ser fluente para tua gente.

Me forme belo
Tua Palavra
Quente e áspera trova
Para transpor minhas vivências
Como cotidianas coisas novas.

No mais
Peço calma pra alma
Flerte aos olhos
Paixão ao tocar
Pois em ti,
Pequena Liese,
O belo em jardim
Florescerá
E de virtude erguerá
Morada
Para que Paraíso
Eu a chame.

Para teu nome
……………Descobrir
Para teu nome
………Navegar.

 

Me chamo Paulo Silva, 26 anos, nascido e criado em São Paulo-SP. Apaixonado por poesia, crônicas e peças teatrais busco, através de estudos, um maior entendimento sobre essa arte tão bela que é a escrita.

 

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150ª Leva - 05/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Do mimeógrafo ao Arnaldo

 Por Gustavo Rios

 

Emoções em trânsito é o mais recente trabalho do escritor gaúcho Ricardo Mainieri, publicado pela Patuá. Ricardo, que além de poeta nascido nos “loucos e áridos anos sessenta”, é publicitário, aparenta prestar um genuíno tributo justamente aos tais-e-loucos anos sessenta, que cresceu muito bem nos setenta e desembocou com moral e pompa nos oitenta (ajudando a criar a geração oitentista, chamada “Geração Mimeógrafo”). Ao buscar referências desses períodos para o seu trabalho, do ritmo rápido e dos trechos curtos, tipo um Leminsky ou um Torquato, às temáticas, Mainieiri consegue nos trazer um bom livro.

Dividido em partes, situação que agradará o leitor, no sentido de que serve como guia para o conjunto de textos que seguem (dentro da proposta), Emoções em Trânsito se apresenta de forma coerente. A concepção de se fazer uma poesia leve, simples, direta e sem barroquismos ou classicismos, mas com alguma profundidade, deu o tom da obra.

Podemos começar pela primeira parte: “Poiesis”.

Já no primeiro poema, percebemos a forma e a intenção do autor para seguir em frente. O texto, chamado “Minor poet” pode ser definido como uma boa apresentação: “sou poeta / de palavras escassas / imagens esparsas / meios-tons / não me imponham /  a audácia da lâmina / nem o incêndio dos versos / prefiro o reverso / lado alvo da lua / melodia de sílabas / com cadência e refrão / sou poeta menor / confesso / mínimo e lírico animal / a ode e o épico / ficam bem para Homero / sou mero homem comum.”

Podemos ver de cara que a escrita do Mainieri possui, sim, qualidades. Na aparente busca por um tom, tendendo mesmo para a musicalidade (como um bom letrista de rock and roll, por exemplo), a gente consegue também fisgar, aqui e acolá, preciosidades que acabam por validar o conjunto.

Vejamos a seguinte frase: “não me imponham / a audácia da lâmina / nem o incêndio dos versos”. Agora, vamos prestar atenção à carga poética contida aqui.

Como uma boa escrita sempre sugere, ao se esquivar do que ele chama “audácia da lâmina” ou de um “incêndio dos versos”, podemos nos perguntar (foi o que ocorreu comigo) o que o poeta deseja: fugir de um lirismo tacanho e/ou escrever sem amarras, evitando o corte (lâmina)? A recusa de “ser” um Homero para ser “mero homem comum” talvez nos dê algumas pistas.

Desse modo, posso dizer que todos os seus poemas seguem essa estrutura, digamos. Mesmo as que pertencem aos outros blocos temáticos (“Menoridade”, “Viagens atemporais”, “Biodiversidade”, “Eros tropical”, “Inventário das horas”, “Urbanagonia” e “Paisagem dilacerada”), carregam essa mesma musicalidade.

Entretanto, ainda que enxergue um fio condutor ao longo das páginas, não seria correto afirmar que ele se repete infinitamente. Conforme já dito acima, a divisão por temas foi de grande ajuda na leitura que fiz. Para cada parte, o escritor buscou uma forma.

Em “Menoridade”, por exemplo, o segundo bloco, Ricardo nos confronta com perguntas mais profundas e pessoais. A diferença é que os questionamentos parecem surgir do ponto de vista de uma criança. Como alguém (uma criança, no sentido metafórico da coisa, por supuesto) que se pergunta (e pergunta ao próximo) sobre o sentido da vida.

Vejamos o exemplo a seguir: “tarde / de domingo / depois do almoço / do futebol / e do programa televisivo / o menino / se pergunta / sobre a vida / é só isso?”.

Notem que a linguagem se converte em fala. Fala de uma criança, de alguém que perscruta o mundo ao redor com passos iniciais. Ideia que pode muito bem se justificar pelo título: “Precoce Filosofia”. Essa mesma voz, suposta e docemente infantil, representa a busca por respostas. Ou talvez a busca por mundo menos ordinário (o mundo que “podia ser / – quem sabe – / um recanto ideal”).

Em “Viagens atemporais” é o tempo que lhe dá guarida e mote (elementar, meu caro Watson!). E aqui mais uma vez o poeta consegue um resultado interessante, com destaques (trechos) louváveis em alguns poemas: “relâmpago que corta / a moldura da face / num sorriso”; “alguns projetos / viraram frutos / outros inútil / semeadura”.

A noção de que quanto mais lemos, mais profundo o texto fica pode ser defendida com alguma moral. Porém, a profundidade no caso não seria necessariamente uma viagem “para dentro”, aquela introspecção chatinha e ininteligível. Mainieri amplia o escopo de seus temas. Como no bloco seguinte, chamado “Biodiversidade”, um das mais interessantes se não pelo tema (necessário, mas amplamente conhecido), pela forma (Ricardo aqui arrisca “tipo uns haicai”; e podemos dizer que ele acerta): “noite compacta: / é de néon cintilante / o trajeto que a lesma traça” (“Natureza”); “flores lilases / no espelho do dia / apaziguam o olhar” (“Ipês”); “em teu verdeazul / ancoro meus olhos / ainda preservados” (“Mata Atlântica”).

“Eros Tropical”, de cunho fundamentalmente sensual (alguma dúvida, meu caro Watson?), talvez seja o bloco que menos instiga o leitor, apesar da tentativa louvável do autor em trazer à tona imagens com tal pegada. Nos textos que compõem essa parte, o que percebi foi uma certa repetição de clichês. Algo que poderia ter sido subvertido (a-subversão-da-subversão, se considerarmos o tema “sexo” como um tabu) na tentativa de se descolar da comum abordagem.

Em “Inventário das horas”, o seguinte, com certeza o que mais exigiria de qualquer artista pela importância do assunto, encontramos um escritor bem tranquilo e seguro de seu labor. E aqui, mais uma vez, fisgamos trechos que merecem destaque pela carga poética contida: vide “Tempo Atroz”, “A Face do Espanto”.

“Urbanagonia” e “Paisagem Dilacerada”, ambos com alguma semelhança entre si, só ratificam o talento do Ricardo Mainieiri. Sob um olhar francamente crítico diante das mazelas do mundo (incluindo o caso da Boate Kiss), o escritor mantém o prumo.  Abordando desde o consumo que norteia boa parte de nossas relações à política (“Mais-valia”). Desse modo, Mainieiri nos coloca frente a frente com questões urgentes.

Portanto, ainda que a gente possa enxergar o uso recorrente da forma e da estrutura (mas não ad infinitum, bom frisar), como se os poemas servissem apenas de justificativa para um suposto gran finale (a frase de impacto; a derradeira), creio que o Emoções em Trânsito irá agradar bastante aos que, assim como eu, gostam de poesia. Ainda mais sendo daquela de certa forma vinculada à moçada da chamada “Geração Mimeógrafo”. Ou mesmo semelhante ao experimentalismo bacana e benquisto de um Arnaldo Antunes.

De minha parte, posso dizer que gostei do cara. E que venham mais coisas desse interessante poeta porto-alegrense.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

JUVENIL SILVA – UM BELO DIA NESSE INFERNO

 

 

Em meio a esse turbilhão de energias caóticas que vive(u) o país, o músico pernambucano Juvenil Silva lançou na primeira quinzena de outubro Um Belo Dia Nesse Inferno (2022), quarto álbum de sua carreira. Um disco que, em sua serenidade, faz contraponto ao olho do furacão dos dias atuais. Diferentemente dos discos anteriores, as 10 faixas de Um Belo Dia… se esquivam do rock e das guitarras distorcidas, recorrentes no trabalho do músico. Aliás, trata-se de um álbum quase ausente de guitarras, onde prevalecem violões de aço, nylon, 12 cordas e um lendário instrumento: o tricórdio (instrumento de três cordas, também chamado de pandora) de Lula Côrtes (1949–2011), o mesmo que gravou discos clássicos como Paêbirú (1975), Molhado de Suor (1974), Flaviola e O Bando do Sol (1976), entre tantos outros.

O disco abre com o folk psicodélico Sem Relógios, single lançado em janeiro. Na sequência a ótima canção que nomeia a obra Um Belo Dia Nesse Inferno (bem, andei pensando e já faz tempo/que eu nem parava pra pensar/que a gente não é o que quer na vida/tão pouco se é aquilo que o outro acredita) filosofa sobre o nosso eu, “o amor e outras drogas mais pesadas”. Objeto Afetivo (tínhamos teto, tato, tava tudo tão bonito/e agora quanto tempo nem se sabe onde estamos/por ora estamos sendo ou por vezes tentando), tem parceria de Guilherme Cobelo e evoca Raul Seixas, enquanto a bela (ao contrário do que diz sua letra) Noites Sem Futuro (não teve como fazer uma canção bonita para nós/nós somos dois, somos bois/ruminando migalhas de momentos bons) tem a colaboração de Evandro Negro Bento. A apocalíptica Música de Repúdio tem as gaitas de Rodrigo CM e a queixa de que “o mundo já acabou tantas vezes que eu perdi a conta”. A segunda metade do disco apresenta ainda a balada Pra Gente Passear na Cidade (saber que a vida é boa/mas não é sopa/que o doce na boca/custa os olhos da cara), a instrumental meso lenta, meso punk Desoriente e o single solar, apresentado em junho, Estamos Numa Encruzilhada – canção pessimista que tem videoclipe em P&B disponível em seu canal do YouTube. Completam o disco a balada de amor livre Deixe-se e Para Que Se Perca Antes.

 

Juvenil Silva/Foto: Marco Bonachela

 

O sucessor de Desapego (2013), Super Qualquer No Meio de Lugar Nenhum (2014) Suspenso (2018) e do EP Lonjura (2021)  traz a atmosfera do folk psicodélico e da canção, soando ora mais popular, com ares de Zé Ramalho, Bob Dylan, Belchior, ora mais psicodélico, como Lula Côrtes, Syd Barret, e até mesmo melancólico, como Flaviola e Nick Drake. Todos esses artistas, assim como outros do mesmo nicho, fazem parte das referências e influências “juvenis” desde o início de sua trajetória, acentuadas, finalmente, nessa obra mais recente. Lançado por seu selo Plurivox, após mais de dois anos de “gestação”, um detalhe curioso é que Um Belo Dia Nesse Inferno seria o título do primeiro disco de Juvenil, que acabou se chamando Desapego. Mas não é apenas sobre o título. O próprio conceito mais intimista contrasta com o caminho mais agitado escolhido pelo artista no início de sua carreira. O álbum tem participações especiais de Régis Damasceno (Cidadão Instigado), Lucas Gonçalves (Maglore), Pedro Huff, Bonifrate (Ex-Supercordas), e vários outros músicos pernambucanos. A exemplo de Depois da Curva (2022), primeiro álbum que Juvenil lançou ao lado do coletivo Avoada em setembro, as 10 faixas de Um Belo Dia Nesse Inferno – que somam quase meia hora de música – são composições autorais inspiradas e pautadas na turbulência cotidiana. Vale o giro e a reflexão.

 

Larissa Mendes viveu belos dias e outros nem tanto nessa encruzilhada chamada 2022.

 

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150ª Leva - 05/2022 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Marcelo Frazão

 

A arte de fotografar não se resume a clicar e registrar um momento de uma pessoa ou objeto. Todo e qualquer registro artístico envolve, além do olhar, percepção e sensibilidade. A técnica é importante, mas deve passar despercebida como em qualquer outra arte. Fotografar é uma arte solitária.

Profundo conhecedor do ofício, Edgard é doutor em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ, mestre em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFBA, onde leciona na Graduação e Pós-Graduação e desenvolve pesquisas sobre a imagem. Participou de eventos culturais e expositivos no Brasil, Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Estados Unidos e Portugal, bem como de uma residência artística na Escola Superior de Artes Visuais da Ilha da Reunião (FR) em 2008. Entre 1994 e 2004, trabalhou como instrutor/professor de pintura na Oficina de Artes Visuais do Museu de Arte Moderna da Bahia.

Edgard Oliva é um fotógrafo que incorpora o aparelho fotográfico ao próprio corpo para revelar o oculto. A técnica não é percebida até o observador se dar conta que está envolvido e preso na fruição da imagem. Este é o mistério: saber definir toda uma paisagem que aprisiona num único click. É como olhar um pensamento. E isto é mágico. Fotografar não é apenas clicar. É inspiração. É a arte e a paixão de quem congela o tempo, deixando muito de si no registro da imagem.

 

Edgard Oliva / Foto: Alex Simões

 

DA – Qual seu primeiro contato com a fotografia?

EDGARD OLIVA – Desde a minha infância, adolescência. Meu pais gostavam e minha mãe era a fotógrafa da família desde quando meu avô a presenteou com uma câmera fotográfica nos anos 1940, por aí. Nos anos 1970, ela teve uma Kodak Instamatic e foi com esta câmera que eu iniciei os primeiros cliques na adolescência, entrando pela vida universitária, no final do anos 1970.

 

DA – Nos tempos de hoje, a fotografia ainda é possível como profissão?

EDGARD OLIVA – Sim. A fotografia digital proporcionou que muitos “novos” fotógrafos, e fotógrafas, tivessem a oportunidade de realizar com mais rapidez o aprendizado da fotografia. O autoaprendizado através dos tutoriais facilitou muito o interesse pela profissão de fotógrafo/a, além dos cursos particulares possíveis de serem realizados, pois o custo do material deixou de existir. Contudo, os equipamentos ficaram mais caros, mas o fator custo benefício compensa.

 

DA – Fotografia: analógica ou digital?

EDGARD OLIVA – Analógica para os apaixonados pela química, a fotografia arte, a imagem manual e mais racional, pensada e que não podemos “deletar”.

A digital para os apaixonados pela imagem, a imagem instantânea, a imagem eletrônica, mas que não perde seu valor estético conquanto imagem e arte, naturalmente. Contudo, penso que, tanto na categoria arte quanto no documentário e no jornalismo, todas as categorias se beneficiam muito bem da tecnologia atual.

 

DA – Qual o seu maior prazer em relação à fotografia?

EDGARD OLIVA – Alcançar na captura da imagem o que meu olhar consegue perceber e capturar a partir da luz não premeditada, pré-definida, mas a luz que se apresenta para o fotógrafo. São as melhores imagens, pois elas nos dão sensações diferentes, são emoções pós objeto iluminado e capturado pelo olhar mecânico/eletrônico do equipamento.

 

DA – Possui alguma mania quando fotografa?

EDGARD OLIVA –  Não, somente estar só e “escutar” o que a luz me ensina. A qualidade da luz/imagem é o mais importante.

 

Edgard Oliva / Foto: Alex Simões

 

DA – O que é imprescindível para se obter uma boa fotografia?

EDGARD OLIVA –  O imprescindível: sensações e emoções. Previsão do resultado, dominar a luz a partir do uso correto do equipamento.

 

DA – Como você avalia a leitura da imagem fotográfica hoje?

EDGARD OLIVA – Se você tem um grupo de aprendizes de fotografia é importante iniciar pela leitura de textos para que o texto te traga à imagem. A imagem, para nós humanos, não existe sem o texto porque, ela própria, a imagem, já é um texto. Se a lemos visualmente é porque ela nos proporcionou interpretá-la. Sendo assim, é importante compreender a imagem para que possamos lê-la corretamente. Ela, a imagem, é o que foi em um passado recente ou outrora existente como sujeito registrado como fotografia.

 

DA – Em relação ao ensino da fotografia, quais os principais desafios a se enfrentar?

EDGARD OLIVA – Educar o olhar, avaliar qual o equipamento a ser utilizado, entender por que eu quero me aproximar dessa tecnologia tão desejada pelo homem no passado, e somente lembrando que a imagem fixada em um suporte a partir da luz foi pensada por Aristóteles em 350 a. C. Por aí, vejamos, relatando esse início da produção imagética aos alunos ou a aprendizes individuais, o desejo em desfrutar desse poderoso invento aumenta. Nesse sentido, colocar o aluno no laboratório de fotografia e ele perceber, aprender como foi o início de todo o processo, a aluna ou aluno logo quer saber mais sobre o continuum da formação da imagem. Entretanto, seguir adiante na carreira, fica à luz de cada uma/um. Assim, o desafio está como fazer a pessoa se apaixonar e desejar mais.

 

DA – Qual deveria ser o foco de um fotógrafo iniciante para aprimorar seu trabalho?

EDGARD OLIVA – O próprio ser humano. As expressões, os ambientes que os representam, as identidades pessoais, a busca por uma luz própria. A luz é a assinatura de cada fotógrafo.

 

DA – Como você vê a produção acadêmica? Ela difere da fotografia do dia a dia?

EDGARD OLIVA – A fotografia acadêmica se fecha dentro de um reduto acadêmico e científico, teórico ou teórico-prático. É preciso ter muito cuidado para não perder o lado pessoal de identidade própria conquanto fotógrafo artista ou documental. A fotografia acadêmica é muito importante do ponto de vista da compreensão e interpretação das imagens. Por isso eu fui por este caminho, a universidade, como pesquisador e professor. Não bastava fotografar, mas entender melhor meu objeto a partir do meu olhar.

A fotografia autoral e independente da estrutura acadêmica proporciona uma outra experiência, a experiência do livre árbitro, de um poder de decisão imenso e importante para a carreira do fotógrafo. O processo dá-se como o voo da águia: é solitário, mas com o olhar preciso.

 

Edgard Oliva / Foto: arquivo pessoal

 

DA – A imagem tornou-se banal com o advento dos celulares ou essa tecnologia foi um ganho?

EDGARD OLIVA – Ela banalizou. Contudo, ocorre hoje o que ocorreu quando, em 1888, o George Eastman criou a primeira câmera fotográfica em pequeno formato e, com isso, ele permitiu popularizar a fotografia ainda no século XIX. Incrível, mas ele fez isso numa época em que somente quem poderia pagar para um fotógrafo a reprodução de uma cena de família teria chances de ter uma imagem da nova tecnologia à época: a imagem mecânica, não mais a pintura como documento, a luz e a química se complementando através do sistema negativo positivo, elementos os quais ressignificavam os processos de obtenção da “nova imagem”. No presente, os equipamentos eletrônicos dominam nosso cotidiano. A câmera fotográfica digital miniatura, que não existe mais, substituída pelos aparelhos de telefone celulares. Com esse advento, a imagem sim, banalizou, mas a arte e o documental ganharam. A fidelidade ou a abstração da imagem adquiriram valor de Fine Art, valor monetário e cultural no sentido de possibilitar maior acessibilidade em todos os aspectos.

 

DA – Qual o maior inimigo da fotografia enquanto arte?

EDGARD OLIVA – Como eu disse anteriormente, a fotografia deve ser vista como imagem do cotidiano, aquela em que se registra o dia a dia da/do cidadã/cidadão (Facebook, Instagram e Twitter, etc.), a imagem para a imprensa ou a imagem dedicada à arte. São três níveis de imagens os quais devemos observá-las com cuidado. Elas nos revelam estratos do olhar e do modus operandi do sujeito que a produz. Não podemos nos dissociar mais desses três níveis de produção imagética. Nesse sentido, é preciso estar de olhos abertos para a fotografia arte porque ela nos coloca em outro patamar, nos tira de uma visualidade simples para uma visualidade interna, para uma reflexão da nossa própria existência e como percebemos a presença do outro no nosso contexto social.

 

DA – Existe uma fotografia baiana?

EDGARD OLIVA – Existe sim, e ela está impregnada em cada um que aqui na Bahia fotografa. Eu diria que mesmo para quem não é baiana/baiano, chegando na Bahia e tomando a nossa paisagem visível, em todos os sentidos, e realizando imagens para o documental ou para o viés artístico, é uma fotografia baiana, pois ela está impregnada de elementos nativos da Bahia. Então, eu acho que a fotografia ganha identidades a partir do local onde elas são capturadas, e não porque tal e tal fotógrafo ou fotógrafa utilizou do equipamento para isso. Há nomes em nosso estado sim, são genuinamente baianos que preservam a identidade cultural da Bahia, uma Bahia de múltiplas facetas, e isso nos garante uma particularidade.

 

DA – Qual considera o seu trabalho (ou trabalhos) mais icônico?

EDGARD OLIVA – Todos os trabalhos que eu pude realizar até o presente considero icônicos. Contudo, os registros sobre a estética dos presépios na Chapada Diamantina foram os registros mais importantes para minha carreira conquanto fotógrafo artista. Da orientação do olhar para a leitura a partir da semiótica da imagem e compreendê-la não somente como fotografia, mas como objeto de estudo para entender o homem e as história pessoais a partir do contexto de oralidade regional, foi muito importante. Os demais projetos que realizei, e que ainda realizo, estão dentro de uma perspectiva da subjetividade da imagem, a imagem conquanto paisagem interna, as paisagens que nos fazem sofrer ou repensar nosso passado e presente. São paisagens interiores transferidas de modo subjetivo para o olhar do espectador. Daí, necessitamos expô-las e abrir diálogos com o espectador para satisfazê-lo, compreender a partir de um olhar “estrangeiro”. É o olhar de fora para dentro, contrário à percepção do artista fotógrafo que olha de si para o exterior.

 

Presépio de Maria da Natividade Souza, Iramaia-BA, Brasil, 2002 / Foto: Edgard Oliva

 

DA – Existe algum tema que jamais abordaria no seu trabalho?

EDGARD OLIVA – Não, nenhum desde que seja possível realizá-lo e mostrar. Cada ideia pode se transformar em um projeto importante, mas nem todo projeto poderá se tornar importante.

 

DA – Um livro imprescindível para o fotógrafo.

EDGARD OLIVA – Bem, existem vários. Desde os de conteúdo técnico/tecnológico até os livros autorais que tratam da imagem fenomenológica, da fotografia conquanto documento, da fotografia arte, enfim, se você quer saber qual me orientaria melhor no aprendizado sobre como obter uma boa imagem, eu indicaria “A câmera” de Ansel Adams, assim como “O filme” e “O negativo” do mesmo autor, um renomado fotógrafo norte-americano que investiu muito na qualidade da imagem, a imagem em preto e branco e com todas as gamas de cinzas indo do preto total ao branco total, ou seja, luz e não luz. Mas, se você me pergunta sobre a imagem tecnológica e numa linha filosófica, eu indico o título “Filosofia da Caixa Preta” de Vilém Flusser. Mas, se se trata da imagem conceito, da imagem reflexiva, podemos ter autores como Gaston Bachelard, Henrri Bergson, Jacques Rancière, George Didi-Huberman, Boris Kossoy com uma abordagem fundamentada na história da fotografia e sua temporalidade, e o próprio Sebastião Salgado com o título “Da minha terra à terra”, entre outros, pois nos beneficiam com novas reflexões a partir das imagens, pontuando o que somos neste bioma terrestre.

 

DA – Qual o fotógrafo ou artista, vivo ou morto, gostaria de convidar para um bate-papo ou um café?

EDGARD OLIVA – Pensando bem, o Hiroshi Sugimoto. Na minha opinião, ele consegue nos mostrar o que não conseguimos perceber com nossa sensibilidade tão conturbada e modificada pela modernidade. São olhares sobre o contínuo do processo da existência, e sobre nós mesmos, para com o outro e a natureza das coisas presentes. A partir desse princípio, eu tomaria um café ou um chá com ele, mesmo sem falar nada da língua japonesa.

 

Marcelo Frazão é artista plástico, poeta e editor. Publicou Haikai (1996) e Homo Sapiens Sexualis (2015). Ganhou o Premio APCA em parceria com Olga Savary. Atualmente trabalha como editor da Villa Olívia e ilustra para o Jornal Rascunho.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Marília Rossi

 

Foto: Yuri Bittar

 

 

hemisférios paralelos
de linhas próximas

mas vai tão longe o corpo que sai
e cruza o mar
e costura as cicatrizes de séculos
e faz-se cor em meio ao ardor de ser tanto quanto diferente da norma
culta
da língua
que dança no céu da boca

renascer no rio que levou à invasão
da terra da origem do atlântico

da expansão do corte, a água que passa
que liga margens de descobertas outras

estico passos, morro e nasço ocupando espaços
com meu um metro e meio de gente
que ama

se me faço rio
se faleço e recrio foz
na voz de mar carrego corpo-barco
barco-coragem
coragem-amor

e não ancoro corações:
alma à deriva
flutua

é preciso leveza pra luta

 

 

 

***

 

 

 

já sangrei meus mil quilômetros
de mar poeira e poesia
já rodei pelas artérias veias e trilhos
correndo dentro afora
noite o dormente de ferro e pedra
sem luz na cidade
guiada a longo espírito
do mistério da estrada

agora trajeto nenhum me fecha
porteira alguma interrompe
coração aos saltos

voa menina
nos seus sem vírgulas
sem parada e relógio
sem ponteiro ou seta

já escorri minhas mil milhas
suando os olhos
já ardi a pele no sol a pino
já parei excessos à sombra
já perdi demais o ar
já doí demais o timo as pernas a cabeça

e porque há muito a viver
ainda mal cheguei
na metade do caminho

 

 

 

***

 

 

 

tá pra nascer um poema
que me tire a casca
que me mostre a casa
que me arranque a crosta

e nascer o grito da raiz das coisas

carne viva sangrando a seiva
sustento fincado na terra
(até quando ainda?)

tá pra nascer um poema
que cante e dance o entalo na garganta
que floreie a segunda (ainda que chova)
que permute o ar (mesmo que quente)
que me descanse a voz (depois de rouca)

folha verde seca caída
compostagem pra alimentar o que resiste

tá pra nascer um poema
curto denso espesso
e livre

tá pra nascer um poema
de mãos dadas
de olho em frente
de leveza

que me tire daqui

feito galho desprendido
feito carta enviada
feito cordão cortado
feito dente de leão assoprado
feito eu
longe

com minha semente
dentro

bomba explodida
no íntimo de tudo.
 

 

***

 

 

 

minha poética cíclica
de umbigo chão e ar
desmorona mas recria
o coração que pula
a rede que balança
e não caio mais – só tropeço
nesses pedaços
partes de súbitas margens e cantos de folha
……..e opa
era mais palavra vindo que arquivei na pasta “não-abra-agora”
extensão “risco-de-explodir-ponto-rar”
porque a gente nem sempre sabe
o que se cria
o que se nasce
o que se brota
o que se penteia das letras todas
e o que se pesca
em rio de sumidouro
mar bravo
açude fundo
essa coisa toda cheia de água, dor e vácuo

mergulho mas nunca sei
(sempre me devolvo em vinte-e-sete-algumas-coisas
que num dá tempo de separar antes do próximo deslize)

pereço de verdade e findo (de mentirinha)
mas dentro da cabeça e do peito continua rodando
sabe-se-lá-onde é o eixo
escondo as beiradas
nem reparo as rebarbas
tem um monte disso aqui – inda agora –
mas deixo lá

um dia acesso
e me perco
e num volto mais

labiríntica fuga
entre osso seiva músculo veia da palavra
corto recorto colo sangro estanco

sem anestesia

 

 

 

***

 

 

 

o que fica dos rasgos
ao invés de perseguir-se em círculos
caminhar os ciclos
desaprender as horas do dia

ensinar-se os reinícios

 

 

 

***

 

 

 

a força dos dias ergue-se dentro
sob qualquer causa contrária
amplia-se a extensão dos alcances

o que é bravio
abre-se na potência primitiva das coisas

travessia interna exposta
desde a raiz
mira profundo em vista bordada de infinito

rompe muros
extrapola janelas
vem de semente que brota em terra batida

eu moro aqui
e não saio mais de mim

 

 

 

***

 

 

 

eu não caibo
não caibo
se eu coubesse, seria maior
se eu coubesse, faltaria espaço
se eu coubesse, sobraria eu
mas não cabe
o dia
o lugar
o entre
mas não coube
no sofá da sala
na cadeira do escritório
na sala de estar
nesse negócio de ser

uma
nesse caber
que não é de tamanho
nesse caber
que não é de ficar
nesse espaço
de ir
não cabe.
não coube.
não acabo.

 

Marília Rossi nasceu na primavera de 1988 em Poços de Caldas-MG, Brasil. Aprendeu a ler cedo e desde pequena escreve, desenha, recorta, cola, enfeita e brinca com as palavras. É autora de uma coleção de postais poéticos autorais (2015); das zines “partida” (2016); “o que você leva na sua mala” (2017); “corte e sutura” (2018); “quase30” (2019); “tecendo vazios” (2020/2021) e do  e-book “galeio” (2022). Finalista do VII Festival de Poesia de Lisboa (2022), teve seu poema publicado na antologia “Corpos de amor e luta” (Helvetia Edições). Atualmente vive em Lisboa, Portugal.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Destaques Olhares

Olhares

A poética do despercebido

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Yuri Bittar

 

Estar presente é uma condição que permanece emblemática para todos nós. Tal percepção vem da ideia de que o momento mais importante da vida seria o agora, esse instante sobre o qual estamos de fato materializando as vivências. E estar atento a isso parece redimensionar toda uma carga de coisas marcada pela dispersão contemporânea de nossos tempos. Quando estamos conectados ao presente, passamos a prestar atenção em muitos fenômenos que acontecem ao nosso redor, escutamos pessoas e tendemos, inclusive, a assimilar aquilo que se abriga no campo do despercebido.

Sem dúvida alguma, a fotografia é um dos ramos da arte que conseguem nos apresentar traços valiosos sobre aquilo que se esconde por trás da rotina dos dias. E captar o imperceptível é um dos desafios da atualidade. Ao percorrermos registros de alguém como o fotógrafo Yuri Bittar, sentimos que a concepção da imagem põe em evidência a apreensão dos detalhes da vida. Como quem congela o instante, Yuri revela uma habilidade em nos apresentar a poesia que se esconde nos recônditos do cotidiano.

Conceber a imagem de tal forma é também defender uma atitude meditativa diante de todas os seres, lugares e objetos retratados. Adepto da Fotografia Contemplativa, Yuri se mostra um artista cuidadoso em não lançar filtros sobre tudo o que capta, posto que a sua presença diante daquilo que pretende registrar é aquela que silencia para que o mundo siga seu fluxo natural. Ao mesmo tempo, essa forma de trabalhar a imagem só é possível de se concretizar quando o fotógrafo está completamente entregue ao presente.

Podemos nos surpreender se acharmos que nosso dia a dia é confundido com um turbilhão de coisas repetidas. E é justamente a arte de gente como Yuri Bittar que nos mostra o quanto estamos enganados se supormos que nada merece ser tido como especial em nosso olhar. Subvertendo a velha noção de que não há nada de novo sob o sol, o fotógrafo nos mostra que, por entre os territórios apressados nos quais habitamos, há uma outra dimensão da existência pedindo passagem. É aquela porção através da qual a poesia se revela em face da manifestação dos gestos marcados pela simplicidade, enaltecendo pausas, rastros e sintomas de nossas humanidades.

 

Foto: Yuri Bittar

 

Em Yuri Bittar, a paisagem urbana é tomada pela ressignificação dos espaços e movimentos humanos. Assim, até mesmo lugares de ausência denotam vestígios deixados pelas diferentes pessoas que circulam no ambiente frenético das cidades. É como se em cada rastro configurado o dinamismo da vida nunca fosse capaz de apagar a presença registrada nalgum momento específico. Tudo isso a serviço de uma poética que sabe a silêncios, intervalos e encantamentos.

Quiçá o ato espantado de existir, com sua carga de revelações e assimilações do real, seja atenuado pela necessidade de deslocarmos nossa atenção para muito do que teimosamente insistimos em ocultar. E eis que as fotografias de Yuri, com sua força contemplativa, nos atraem para aquela vivência do presente a qual me referi no início deste texto. Agindo assim, talvez por alguns instantes recusemos os imperativos da pressa que tanto afetam nossa capacidade de saborear a vida com mais inteireza.

Atuando como fotógrafo desde 1998, Yuri Bittar também está atravessado por influências que vêm da literatura e da história oral, dentre outras. Como ele mesmo confessa, seu trabalho se move pela crença no humano, principalmente levando em conta soluções para a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Mas eis que é a vida ordinária quem protagoniza a arte de Yuri. Seu interesse reside nos trânsitos engendrados por pessoas comuns, pois são estas que fazem girar tacitamente a grande roda dos acontecimentos. Através de suas lentes, seres e objetos representam organicamente um sentido de unidade para a existência, algo que sugere uma complementaridade entre partes até mesmo distintas. Pelo que se pode notar, é um todo harmônico que, sem negar as individualidades e especificidades, pede passagem para um exercício mais pleno e valoroso da vida.

 

Foto: Yuri Bittar

 

* As fotografias de Yuri Bittar são parte integrante da galeria e dos textos da 150ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual. Hoje, entre acertos e tombos, parece estar perdendo o medo de errar.

 

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150ª Leva - 05/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Adriano Espíndola Santos

 

Foto: Yuri Bittar

 

Homens de bens

 

Naquela tarde, mesmo com o compromisso de buscar o neto na escola, Hélio decidiu sair de casa para encontrar a sua turminha na praça Castelo Branco, porque julgou ser mais importante, caso de providência nacional. Era costume encontrá-la aos sábados, no bar do Jonas Boca de Baleia, só que, desta vez, teriam de bolar um plano. O presidente viria a sua cidade, Fortaleza, no próximo sábado; era imprescindível que o recebessem com honras e pompas, para que se sentisse mais poderoso do que já é – pensava. Falaram sobre as perspectivas da tomada definitiva do poder pelo presidente; que não seria aceitável, de forma alguma, terem novamente o bandido de “nove dedos”. Gozavam e babavam ao falar, tomando, cada qual, a sua cervejinha de lei. Hélio achava que a conversa se estendia e que perderiam o fio da meada: “Caros patriotas, um minutinho de sua atenção… Precisamos mostrar a nossa lealdade ao nosso chefe maior, e, para isso, temos de ser merecedores das insígnias nacionalistas. Explico-me: o tempo está acabando. Chegou a hora de enfrentarmos os comunistas, custe o que custar. Faremos investidas radicais e filmaremos tudo, para entregar-lhe as gravações. O certo é que, estando ele no poder, seremos prontamente o seu braço direito nesta capitalzinha de merda”. Sim, Hélio falava como mandatário do povo, como o verdadeiro dono da província. Os demais, ávidos por sangue, não escondiam o frenesi em começarem os trabalhos. Combinaram de pegar as suas armas: uns com facas, espadas; outros, por disposição dos novos decretos presidenciais, com suas pistolas lustrosas. Esconderam as bandeiras que flanavam nos carros. Seguiram em comboio para os bairros centrais da cidade, onde poderiam encontrar estudantes e outros seres degenerados. Depararam-se com uma vítima: uma senhora de seus quarenta anos, claramente diarista ou doméstica – e a razão da escolha é porque ela levava uma bolsa com o broche de Lula. Esperaram que entrasse numa rua esquisita, transversal à avenida principal. Desceram quatro, com armas em punho. “Encoste na parede, sua vagabunda! Vai votar mesmo em quem? Em quem?! Bora, desembuche! Ah, não quer falar, né?! Pois, para aprender a votar direito, vai aguentar uns corretivos!”. Bateram, bateram, até deixá-la desnorteada, com a roupa em farrapos, com um furo grande na bolsa, onde antes estava o bendito broche. Mais à frente, encontraram quem queriam, um jovem metido a revolucionário. Colocaram-no no carro de Hélio e aí fizeram as maiores atrocidades: cortaram seus cabelos, bateram em sua boca, deixando-o desfigurado; obrigaram o rebelde a dizer que votaria no presidente. Largaram o sequelado numa rua distante, para os lados do bairro Antônio Bezerra. Queriam mais, mas Hélio achava que teriam material mais do que suficiente. Voltaram ao ponto de encontro e lançaram, aos risos, os vídeos para os grupos de WhatsApp. À noite, quando Hélio voltou regozijado para casa, percebeu que havia notícias sobre atentados políticos feitos por idosos, defensores do presidente, em sua cidade. A mulher e o jovem lesados prestaram queixa e falaram ao veículo de comunicação mais conhecido do país. Hélio titubeou, achou que poderia dar bronca, mas um colega, o Sérgio Cabeção, que estava no meio, telefonou para tranquilizá-lo: “Isso não vai dar em nada, patriota. Amanhã já esquecerão… E mais, o recado foi dado; a vagabundagem vai pensar duas vezes em usar um material com a figura do bandido de nove dedos”. Qual não foi a surpresa de Hélio ao ser acordado pela mulher, no dia seguinte: “O que foi isso, Hélio, me explique logo! Vi um vídeo na televisão em que aparecia o seu rosto e dos seus amigos, espancando aquela mulher e o rapaz que apareceram ontem na televisão. Ainda ameaçaram o ministro careca. Vocês piraram ou o quê?!”. O mesmo ministro carequinha determinou a prisão dos suspeitos. Meia hora depois de ter acordado, Hélio era levado à delegacia, onde encontrou os comparsas. A maior tristeza, que declaravam no olhar, é que não veriam mais a carreata do presidente na Capital. Hélio pensou que a esquerda estava por trás de sua prisão; mas não lhe soaram estranhos os atos do dia anterior. Para as câmeras acenou e gritou, isolado: “Lula ladrão, seu lugar é na prisão!”.

 

Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Rita Isadora Pessoa

 

Foto: Yuri Bittar

 

síndrome de circe

 

Por baixo da face lisa e superficial das coisas, 
há outra que aguarda para rasgar o mundo em dois 
(Madeline Miller)

 

 

por trás de um rei ou governante
há sempre seus conspiradores

dentro de um cavalo………. já coube
[disseram]
a queda de uma cidade

………………………….no focinho subterrâneo de um panteão
rela,,,,,outro ………………..adormecido
………………………………….mas não vencido
…………………….e por trás de um olimpiano
-quem sabe-uma titânide….com planos insondáveis

….dentro de uma horda de porcos
pode habitar uma comitiva de tripulantes
em lenta metamorfose anacrônica

a história se repete …..veja bem
se repete…..se repete…..se repete
….. ….. ….. ..só não se repete mais
do que os homens…..e os deuses
….. ….. ….. repetem a si mesmos

 

 

 

***

 

 

 

devagar

 

com o pensamento em Ana C.

 

troco o hímen
por um homem
como quem troca
um fonema
………..por outro

………..a pele
………..por outra

flor

escrita nas imediações
…………….das catástrofes naturais

 

 

 

***

 

 

 

prece para acelerar o fim do mundo

 

senhor, fazei com que eu evite a caixa. eu quero abri-la.
quero abrir, mas não posso.
penso que há qualquer coisa de luxuriante em caixas
e não sei o que fazer com as minhas mãos

senhor, que eu mantenha distância segura.
que eu mantenha as minhas mãos longe dela. da caixa.
de dentro vaza um zumbido,
como se vespas estivessem esperando
apenas uma breve oportunidade para escapar.
a caixa é quadrada e hermética,
como um experimento de Haldane.

peço que eu mantenha as minhas mãos pousadas sobre o colo.
mas, senhor,
os meus dedos passeiam pela caixa,
pela rugosidade de sua tampa, por seus sulcos e reentrâncias.
sinto que são sinais, símbolos que não compreendo.
não sei decifrar.

ela queima ao toque, a caixa.
no seu verso há uma inscrição onde lê-se:
“propriedade de pandora.
abra por sua própria conta e risco”.

senhor, fazei com que eu não abra a caixa.

sim, sei que vou abrir.

 

 

 

***

 

 

 

duas árvores

 

a árvore relembra …..o tropismo
primordial……do broto pela luz

como a madeira antecipa tambémna lenha
a brasa …….. e o metal deseja no fogo….a forja

 

 

 

***

 

 

 

primavera autocrata politeísta apocalíptica

 

deixem a primavera para bandini
e para keats com seus pulmões em colapso
os girassóis para van gogh
e pelo amor dos deuses, se falarem de andorinhas
que elas sejam radioativas
………e não melancólicas

porque aqui não aceitamos mais andorinhas
e nem albatrozes brancos
……………..anacrônicos
apenas os sanguinários

homicidas.

 

aqui nos movemos
………..na sombra

e cultuamos
tudo aquilo que é
suavemente
~gótico~
[e portanto
deslocado
nos trópicos]

então desliguem
os holofotes
e apreciem
aquilo que cresce e goteja
úmido entre as frestas.

 

 

 

***

 

 

 

jantar com panteras

 

estar com você e seus comparsas
era como jantar com panteras
a consciência
do risco
sempre presente
nos dentes faiscantes
um gesto em falso
[ um movimento abrupto ]
e o cardápio muda de direção

estar com você
como quem observa
a barba de um homem
crescer
o milagre de uma barba
a barba deste homem
despontar
ao longo do dia
e das semanas
no aprendizado de um tempo outro
[ um tempo medido na grandeza
de capilares quebrados e brotos
recém rompidos
de sementes
e afluentes
um tempo medido
na velocidade de gotas
forjando um novo estuário ]

estar com você, criatura dupla
habitante de dois mundos
o estuário….o mangue….a encruzilhada
metade homem metade cavalo
no galope compassado dos alagadiços
entre juncos cobertos de sal e mel

você me interrompe
e diz ‘ela não gosta de leite vaporizado’
é preciso que seja líquido
‘também não sou fã de expresso’

amor é quando eu o observo
do outro lado
diretamente do mundo dos mortos
a reler todos os meus livros
mesmo os digitais
memorizando
cada passagem sublinhada
criando um novo texto
no qual reconta
a história da minha morte

 

Rita Isadora Pessoa é uma escritora nascida no Rio de Janeiro. É Mestre em Teoria Psicanalítica (UFRJ) e doutora em Literatura Comparada (UFF). Publicou em 2016 seu primeiro livro de poemas, “A vida nos vulcões”. Foi vencedora do Prêmio Cepe Nacional de Literatura 2017, com o livro “Mulher sob a influência de um Algoritmo” e seu terceiro livro, “Madame Leviatã”, foi lançado em 2020 pelas Edições Macondo. Participou da antologia organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, “As 29 poetas hoje” (Companhia das Letras, 2021).