Envergonhada e com lágrimas nos olhos a menina livrou-se da roupa lentamente.
O homem ao ver a pele nua da filha, não pode fazer outra coisa que chorar. Sentiu-se miserável, impotente, desgraçado. Abraçou a filha e beijou-lhe a testa.
– Devemos denunciar a mamãe – disse o homem acariciando a pele da filha, enquanto suas lágrimas caíam sobre as queimaduras de cigarro em sua pele.
***
ELA
Observo uma foto em que aparecemos os dois.
Ela está feliz, me abraçando e sorrindo para a câmera.
Logo viro a cabeça e vejo seu cadáver no chão. O sangue segue escoando de sua cabeça. Penso que deixou de me amar, e que, de certo modo, sou culpado pelo que acaba de acontecer.
Me aproximo dela, gemendo de tristeza, me encosto a seu lado.
Depois de um tempo os vizinhos derrubaram a porta, me jogam de lado e apontam o revólver em suas mãos.
E enquanto tudo isso acontece, eu só posso latir e abanar o rabo com medo.
***
NOCTÂMBULOS
Os animais noturnos não se importam com a cor da lua, se ela está cheia ou é um quarto minguante, eles só procuram os efeitos de um raio de luz para mitigar seu pensamento.
Andam insatisfeitos à caça de sonhos e se infiltram nos aromas salgados das almas que parecem solitárias.
Com as letras não só o seu nome existe, também se escuta sua voz.
***
ALUCINAÇÃO
– Esquizofrenia – disse o psiquiatra – Na verdade o caso mais célebre dessa clínica.
– Se refere à essa criança? Parece-me tão inocente.
– Creia-me, não é! Assassinou a avó brutalmente com um machado.
– Sério? Ao menos disse o por quê?
– Bem, repetiu várias vezes que sua avó na realidade, era um lobo disfarçado.
***
UM HOTEL NUM QUADRO DE HOPPER
O amor é um hotel no meio da tempestade, que apagou as luzes assim que me viu se aproximando. A realidade se disfarçou de ficção, mas daqui posso ver o fechamento de seu traje. A felicidade me toca, mas sempre coloca luvas.
***
A SACOLA
A morte bateu na porta e a pequena Giovanna foi quem abriu. -Onde está tua mãe? Perguntou a Morte, em seu vestido preto, seus cabelos ruivos e suas pupilas de fogo cinza.
A garota já a conhecia. Ela a vira há dois meses, no dia em que sua avó não se levantou mais. “Siga-me”, disse a pequena Giovanna.
Elas caminharam até o final do corredor e chegaram a uma porta, que a garota abriu para demonstrar boas maneiras. O interior estava completamente escuro. As cortinas fechadas e a janela trancada roubaram as cores da sala. “Obrigada”, disse a morte em sua voz rouca e sensual. Ela entrou e saiu um minuto depois, com um coração em uma sacola de pano.
Quando a morte foi embora, a pequena Giovanna foi até a cozinha, chegando ao exato momento em que uma mulher com o rosto machucado e ferido se jogou de uma cadeira. No entanto, a corda em seu pescoço, por algum motivo inexplicável, quebrou como se fosse borracha. “Mãe”, a menininha murmurou e a mulher virou-se imediatamente. Ela chorou envergonhada e abraçou sua filha como nunca antes. “Mamãe, lê um livro pra mim?” “Eu não posso Giovanna, eu devo cozinhar para quando seu pai acordar.” “Eu não me preocuparia com isso.” Eu não acho que ele se levanta – a garotinha disse antes de pegar um livro.
Alessandra Barcelar é historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu, atua na área de Economia da Saúde. Publicou contos em revistas literárias do Brasil, Portugal, Argentina e Alemanha. Participou em 2019 como jurada do prêmio VIP de Literatura (Categoria Contos); colaborou na coletânea Mitos Modernos I, que recebeu o prêmio Le Blanc de Literatura e Arte Sequencial, como melhor Antologia de 2018. Atualmente é organizadora de uma coletânea de contos sobre realismo mágico.
Pior do que não falar nada foi a molície do corpo-indiferença de Laís. Não sendo afeita às palavras, algo natural à sua personalidade estrita, eram comuns, no entanto, uns lances de rabugem, de reclamações. Naquele dia, simplesmente saiu pela porta da sala, depois do estrago.
Era agosto ainda; um mês para o meu aniversário. Ela sabia, desde que éramos crianças birrentas, que esperava ansiosa; que teria mil planos, para fazer, continuamente, a melhor festa de todos os tempos – a cada ano, me impregnava com a ideia de que deveria superar a anterior, e, quase sempre, conseguia.
Ela guardava, de início, uma inexplicável rejeição a mim, porque, pelo que percebia, eu seria a causadora da separação de nossos pais; da mudança repentina de vida, para pior; praticamente a razão da inércia de meus pais, que, logo após a dissensão, se esqueceram de nós, assumindo, como diziam, “cada qual os seus problemas”. E não admitiam interferências exteriores, o que complicava a situação, para o espanto de minha avó Maria, que nos amava muito. Alegavam, vagos, que precisavam se estabilizar e despachar – ou apagar – o passado; e isso inclui não estarem presentes, não participarem das festinhas de colégio e não dedicarem míseros instantes para nos resgatar da tristeza que, pouco a pouco, nos abocanhava.
Ainda que morássemos com minha mãe, vivíamos sem qualquer regulação; o que não era bom. Para os nossos amiguinhos da escola, seria um sonho, viver livre, sem um pai ou uma mãe superprotetora a tiracolo. Mas não – posso confirmar, e era difícil de explicar –, a suposta liberdade, para quem não compreende a vida, é uma armadilha voraz; falo isso por experiência própria – presenciei pelejas de minha irmã, para se desvencilhar de um canalha, um garoto mais velho, que queria possuí-la. Eu mesma cortei, com um canivete, todos os tendões dos dedos de sua mão direita, e o safado saiu com os farrapos dependurados, qual um carniça desossada, se esvaindo em sangue. Aprendemos, na marra, a nos defender, com os instintos apurados, à flor da pele, que poderiam, facilmente, eliminar um agressor.
A questão também morava no campo da competição. Mãe queria mostrar ser superior, e incluía, em sua obstinação cega, arranjar um namorado novo e bonito, e ostentar invejável independência financeira. Pai, que era do tipo esbanjador, por natureza, acumulava dívidas, na mesma proporção – só ficamos sabendo anos depois, pelo motivo da debandada para outro estado, se escondendo das buscas judiciais, que, de certa forma, nos enleava também, com as cobranças chegando ao nosso endereço de origem, as quais não suportávamos; e, por isso, abríamos as cartas, uma por uma – o montante poderia superar o valor de três apartamentos bons, num bairro nobre da cidade.
Assim sobrevivemos até os dezessete anos, qual irmãs siamesas, com personalidades diferentes, é claro; mas irmanadas, confiantes, uma na outra, somente. Foi que mais uma divisão aconteceu: prestes a completar dezoito anos, mamãe, com o seu novo namorado – com o qual se perdera e, cega, se achava amada –, numa espécie de reunião familiar, que nunca tivemos, por sinal, declarou que não poderíamos permanecer ali, já que pretendia formar uma nova família. Significou o choque total, apesar de já intuirmos que, mais cedo ou mais tarde, iria preparar uma dessas.
O que nos salvou, mesmo com tudo, foi o amor de minha avó Maria, que aí nos acolheu, sem pestanejar. Mãe, sendo sua ex-nora – e dizem que não existe ex-sogra –, rareava nas ajudas com alimentação e bens de primeira necessidade, alegando que: “Estão bem grandinhas… E não vou botar comida, sustentar sozinha as duas, coisa que o pai de vocês nunca fez!”, e se carregava em raivas passadas e conversas hostis, como se fôssemos inimigas. Por isso, vovó não compactuava com a ideia de termos de suplicar por qualquer coisa aos “pais desnaturados”: “Vamos nos virar com isso aqui” – e apontava para a geladeira, da qual se vislumbrava nada mais que água, frutas, arroz para a semana; cuscuz e um bocado de verdura. “Pelo menos não precisamos nos humilhar pra seu ninguém…”, concluía.
Não demorou, como esperado, e mãe conheceu o desprazer de se dar a um negócio arranjado; a um “casamento” de aparências; e, sendo enganada mais uma vez, quis meramente nos pegar de volta. Laís foi mais enérgica, fincou o pé e disse que não era molambo, para ser jogada de um lado para outro; que estávamos “bem grandinhas”; que, ainda que ficássemos no limite entre a simplicidade e a miséria, nos virávamos muito bem, obrigada. Mãe nunca mais deu as caras.
Claro, me assustei com o arrependimento de minha mãe, assim, nevrálgico, e, de pronto, com o reproche de Laís. As duas saíram de ponta, magoadas; compreensível, visto que possuíam personalidades semelhantes. Fiquei mais ainda grudada à minha avó, com medo das prementes mudanças e instabilidades. Vó nos acalentou, como meninas pequenas; como fizera nos tempos remotos, superando a barreira que era a sisudez de Laís. Ela se desmanchava toda, sem dar o braço a torcer, quando vó a afagava; bonito de se ver. E eu ganhava, nesses atos naturais, uma piscadela e um sorriso de vó, como se dissesse: “Tá vendo… Consegui domar a fera”.
Não me esqueço de que, nesse mesmo ano de 2011, vó me presenteou com um celular Nokia novinho e com uma festinha modesta, que programou com minhas amigas. Foi um momento mágico, de plena satisfação; esquecemos as dores, os problemas, as contas atrasadas e renegociadas a perder de vista; estávamos engajadas a sermos uma legítima família.
Começamos a trabalhar. Laís como secretária de uma firma de contabilidade, e eu como atendente de uma grande loja de departamento. Nossas vidas mudaram, agora para melhor. As esperanças eram vivas e palpáveis; podíamos comprar roupas, comidas variadas, iogurtes e biscoitos, e honrar as contas da vó Maria. Engraçado é que ela nunca nos cobrou trabalhar, ainda que estivesse abafada pelas pressões financeiras; dizia que, se estudássemos, estava de bom tamanho. Fato é que nunca deixamos de trabalhar e estudar. Terminamos, com um certo atraso, o terceiro ano e logo emendamos nos cursinhos oferecidos pela rede pública.
Laís foi a primeira a passar no vestibular, para Comunicação Social – pode ser ignorância minha, mas não entendi essa pretensão, nem a censurei, sabendo que era de poucas palavras. Um ano depois foi a minha vez, em secretariado, numa faculdade pública.
Nossas vidas corriam bem, embora atulhadas de serviços. Não nos entregávamos. Sempre fomos fortes e atrevidas. Contudo, ambas na metade das respectivas faculdades, fomos surpreendidas com a doença avassaladora de vó, um câncer na região abdominal. Em menos de oito meses, a internação, o coma e a morte.
Isso, sim, nos arrebentou; dilacerou os planos traçados, que seriam de dar um fim de vida tranquilo a vó. Para não termos de pedir ajuda, trancamos as faculdades e continuamos a trabalhar. Eu tive mais sorte, porque, sabendo da morte de vó/mamãe, meu chefe me liberou por um mês; na verdade, antecipou minhas férias. Laís ia arrastada ao trabalho, sem conseguir comer; em tempo de sofrer um revés. Eu mesma preparava sua marmita, para que tivesse apenas de comer; mas, em regra, voltava remexida, quase nada consumido.
Ficamos, sem qualquer perturbação, por dois anos na casa de vó, até que o homem que nos gerou, mancomunado com um tio, boa bisca, irrompeu a morada sagrada para nos despejar, com um mandado judicial forjado, decerto, porque era desse tipinho malandro, criminoso; e, para evitar uma premente morte, contendo os ânimos de Laís, lutei para rebocá-la para um quarto e sala; uma locação que fiz às pressas, para não pararmos nas incertas estrias das ruas.
Laís decretou que sairia com um mês, e queria saber qual seria o homem capaz de tirá-la antes disso. Alcançavam seus arroubos de que a vingança, preparada por ela, seria um prato para se comer quente, fervendo; que esperassem.
***
Acordei, no malsinado dia, atordoada com a quebradeira. Laís estava determinada a arrebentar das janelas aos azulejos do banheiro. Assim o fez. Nenhuma alma mais viveria ali, conforme declarou com os olhos. Não consegui contornar nada. Estava atordoada, além do mais, com os acontecimentos presentes, tresloucados.
Recuperei alguns pertences, algo que poderia compor a nova morada. Mas, também acometida de ódio visceral, desmanchei o que, quiçá, tivesse serventia.
Laís saiu, colérica, se desatando de minhas mãos suplicantes, com uma mala de mão. Não deixou carta, nem sinal de fumaça. Liguei para amigas e familiares que podiam ter algum resquício de contato, e nada.
Sofro desmesuradamente porque, a essa altura, não sei se está viva, se tem um lugar para dormir; se está perambulando por veredas errantes. Não sei se se entregou à perdição, às drogas. São conjecturas que me atormentam.
Não vale, para mim, ter esse teto sem ela. Agora sou eu quem provo os traços da loucura e do completo abandono. Queria apenas passar meu último aniversário ao seu lado.
Adriano B. Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; e em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, ambos pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em diversas revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.
Assim começava minha autobiografia: Eu gosto das aves de rapina. Eu herdei da minha mãe esse gosto um tanto funesto. Mas, só há pouco tempo descobri que corujas são aves de rapina. Às vezes, na infância, durante a catástrofe, e naquele tempo quase tudo era catástrofe, frequentemente me pegava observando o voo das corujas. Não me lembro das coisas que passavam naquele corpo de criança, sem músculos e com tetas invisíveis, porque não sabia nomear e sentimento sem nome perde o rumo, os adultos se referiam àquelas horas como a época das tragédias. Não sabia o que aquilo significava até o meu corpo espichar e eu soar tão trágica quanto todos os adultos da minha infância. De repente me dei conta que os relógios não contavam horas, contavam desastres.
Mãe quando voltou de uma de suas internações recorrentes sentou ao meu lado e disse: eu também gosto do voo silencioso das corujas. Nesse dia tive minha primeira epifania (o nome descobri muito depois), percebi que não eram as corujas que me fascinavam, mas o silêncio das suas asas. Mais tarde percebi que não eram os homens que me despertavam paixões, era a escassez de suas bocas e uma certa convicção que saia delas. Mais tarde ainda percebi que o amor também chegava silencioso antes de abocanhar suas presas… Embora, de fato, talvez nunca tenha encontrado o amor. Contudo, um dia quase trombei com ele…
– Quando te vi chegar fui assaltada por um espanto.
– Eu gosto da palavra espanto, pode ser tanta coisa e não sendo nada ainda nos faz boquiabertos.
– Sim, essa palavra parece nome de animal selvagem.
– Quer uma carona? Talvez possamos fazer desaparecer o espanto, conversaríamos e nada mais nos espantaria.
– Vai em qual sentido?
– Para o norte e você?
– Para o sul.
– Sendo assim, já que iremos em direções opostas, podemos ir juntos.
– Não nos perderemos ou desviaremos do nosso caminho?
– Acredito que não.
– Tem certeza?
– Como poderia?
– Você fala com um tanto de firmeza.
– Na vida precisamos certa entonação, fingir alguma convicção, mesmo que nunca tenhamos esbarrado com ela.
– Não te parece muita arrogância seguirmos juntos se procuramos lados opostos?
– Nascer já não é uma arrogância?
– Quem sabe? Há um fantasma encarnado no ventre de cada mulher, por vezes, nos assombra.
– Se desenvolver dentro da segurança do ventre da mãe não te parece pura arrogância?
– Talvez um espanto…
– Os pássaros não te soam bem menos pretensiosos? Afinal, eles se desenvolvem na fragilidade do ovo…
– Também não há alguma arrogância no prenúncio do voo?
– Estamos numa bifurcação, acho que agora não é mais possível seguirmos juntos…
– Tem certeza? Não há nada a fazer?
– O que acha de dobrarmos o mapa?
– Dobremos o mapa.
Márcia Barbieri nasceu em Indaiatuba, São Paulo, em 1979. Formou-se em Letras pela Unesp e é mestra em Filosofia pela Unifesp. Foi uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro, do canal Pílulas Contemporâneas e do projeto Pinot Noir Literatura. Publicou os livros de contos “Anéis de Saturno” (ed. independente, 2009), “As mãos mirradas de Deus” (Multifoco, 2011) e “O exílio do eu ou a revolução das coisas mortas” (Appaloosa, 2018). Entre os romances figuram “Mosaico de rancores” (Terracota, 2013) lançado no Brasil e na Alemanha (Clandestino Publikationen, 2016), “A Puta” (Terracota, 2014/Reformatório, 2020), “O enterro do lobo branco” (Patuá, 2017), finalista como melhor romance de 2017 pelo Prêmio São Paulo de Literatura 2018 e “A casa das aranhas” (Reformatório, 2019), finalista do Prêmio Guarulhos e semifinalista do Prêmio Oceanos.
coleciono noites. Olho aberto deslizando impune sobre prateleiras, livros, cinzeiros, hélices de ventiladores, olho aberto avançando sobre os escombros do que sobrou do dia. Há certa mudez ressoando nos quadriláteros adjacentes à sala estupidamente calada. Coleciono delinquências íntimas no caminho do baixo ventre, eloquência insuspeita que não deixa pistas, caminho borrado das 3 da manhã ou mais. Coleciono horas mortas em dias úteis, escassas tardes no que há de ar nos pulmões, e é quase nada. Coleciono asfixias, apneia viga-mestra num punhado de hesitações, olho aberto percorrendo a dúvida, vida esporádica percorrendo o chão. Na contabilidade dessa vigília endêmica, é dia sim, dia não que se dorme. Coleciono olhos abertos em seu escrutínio pela noite desprovida de bordas, avermelhadas pupilas de quem há muito se perdeu do caminho do sossego. E note: nenhuma gota a mais resolve o impasse. Coleciono solilóquios. Deslizes. Dias amanhecendo em qualquer época do ano.
Coleciono ecos.
***
miasma
isolada. exilada. asilada. arrasto um nó górdio no epicentro do corpo. vômito acumulado (volumoso líquido miasmático com espessura em centímetros) ou fome de muitos dias. o nó górdio deu cinco voltas ao redor do pâncreas, associou o fígado no bolo visceral e arrebanhou estômago e intestino delgado na embolada sem repente. a jornada em espiral do nó adelgaçou o intestino grosso, deu pontadas no marco inicial da garganta, fez o céu da boca rebaixar seu pé direito: língua esmagada, dentes espatifados, voz desaparecida, procura-se. jogo-me na cama, em exílio. pode ser que não me levante mais. olhos fechados pingando suor miram o teto com insistência. por horas a fio. asilo. azia. perco o fio da meada.
***
erro de cálculo
devastação. sintoma. erro de cálculo. entre o desejo, o amor e o encontro, larguíssima margem de erro. isso foi o que disseram, isso foi o que anotei. sintoma, glaucoma, rizoma, livre associação de palavras fanhosas. e os cadernos? esses, em que desenha suas anotações e depois joga fora, farta da sua fisionomia ali espelhada em letra que ninguém entende. e os cadernos? engodos com pauta, um preparado promissor de garrancho e linhas tortas. blocos prontos para o fracasso. às vezes, contêm espiral. não levam ninguém a nada, só à última página. 98 folhas. lá estão anotadas as pegadas sujas desse erro de cálculo, desse cálculo errático, dessa margem sem borda. é sintoma errante o que trago nas mãos, sempre retorna ao peito natal, aloja-se eficaz na sombra espraiada no lado esquerdo. é glaucoma que estoura a vista, liquefaz a paisagem imediata, rizoma que não se desborda. o amor é erro e é cálculo sim, acolho as advertências, sequer uso o artifício da rasura. mesmo assim indago, com o sintoma pulsando desde dentro, devastação a céu aberto, erro de cálculo numa equação sem começo, mesmo assim pergunto, minha voz um murmúrio acovardado: mas, vida, e se aí, quem sabe, eu for feliz?
***
repousa a cabeça larga na colcha do fracasso. de bruços, pensamentos disléxicos, afetos dislálicos, paixões tristes. quer esquecer o dia, apagar conversas da lousa ressecada, ocultar intentos. sente o lençol morno ofuscar o corpo, o sol morto descascar a sombra. epiderme castigada de toques sem mãos. afunda no colchão rugoso, ponte entre o nada e coisa alguma, toca de silêncios distraídos.
desiste.
abandona a memória de si encorpada de atributos rasos. é melhor esvaziá-la. fecha os olhos vivazes para os sinais das vísceras em levante. desaprende a língua pátria, os gestos hábitos, os gestos rápidos, os gestos dádivas. repudia os verbos vagos. persegue o juízo último, perde o ar na empreitada. dobra em quatro o pensamento, adia-o, agora não.
adormece sem argumento.
prefere não ter razão.
***
quando eu quase morri
quando eu quase morri, havia pessoas à minha volta, elas não disseram nada, não fizeram nada, e não pude gritar. quando quase morri, minha voz virou um fiapo estrangeiro, e era áspero, e era triste, era terreno baldio. as pessoas que me rodeavam (havia pessoas me rodeando) não sabiam que eu quase morria, mas ouviram meu fiapo. uma delas chegou a tocá-lo, aquele fiapo estrangeiro, irreconhecível, esguio. ela puxou o fiapo, e o esticou, e o esgarçou, e minha voz era agora um istmo, deixou de ser território, nunca foi lar. quando quase morri, ninguém me reconheceu, e o último a sair não se preocupou em apagar a luz.
Vivian Pizzinga é escritora e psicóloga. Lançou Dias Roucos e Vontades Absurdas (contos), em 2013, e A primavera entra pelos pés (contos), em 2015, ambos pela Editora Oito e meio. Em 2018, lançou, em co-autoria com o escritor Igor Dias, o romance epistolar Extravios, pela mesma editora. Tem participação em coletâneas diversas, como Escriptonita (Patuá, 2016) e Cada um por si e Deus Contra Todos (Tinta Negra 2016). Atua como psicóloga em Saúde do Trabalhador e na clínica.
Para deixar um lugar, é preciso um pouco de coragem. Para deixar alguém, é preciso algo mais. Quando decidimos partir um laço feito de cheiros e gostos, sorrisos e lágrimas, gozo e frustração, saímos de uma estrada com placas rumo ao campo sem trilhas. Deixar alguém é deixar uma parte de mim, do meu todo e do meu nada. Deixar alguém é mergulhar no vazio, buscar o completo e nadar no incerto. Deixei muitas vezes. E me deixaram também.
***
TRAÇOS
Havia ignorado muitos detalhes na esperança de que se protegeria do susto. Mas o universo não falha em nos empurrar ladeira abaixo. Ou seria ladeira acima?
Pensou nos anos de terapia e nas horas de rascunho. Orgulhou-se da coragem de dizer chega. Envergonhou-se de não conseguir evitar o óbvio.
Vivia um dia após o outro sem abrir os envelopes. Sabia que se procurasse bem, acharia traços sem tempo definido. E não queria encontrar mais nada. Só paz.
***
NA TERRA DE PESSOA
Ladeiras que não me cansam. Caminhos que não me fogem. Descanso o medo na grama do jardim.
Acolho o novo sem perder o que era. Avisto o Tejo e ganho mais um suspiro. Brindo à Lisboa por mudar o fim.
***
TEMPOS E ESPAÇOS
Coloco-me prazos inacabados. Mantenho distância insegura. Quando não dou conta, já passei da hora e ultrapassei a linha de chegada. Muitas vezes corri. Em desespero. Pernas cansadas, mas cara lavada. Rumo ao próximo salto.
De longe avisto uma ladeira possível. Subo com passos de formiga. No topo espero uma mulher como eu. Quem é ela, afinal? O sonho que habita meu tempo derrete no espaço da cidade. Nada será como antes no meu castelo de areia.
***
FLUXO
Não conseguia esconder o arrepio na espinha. De quem decide seguir sem pedir permissão. Talvez a intuição não falhasse e a reta final fosse menos torta do que as anteriores. O antes se espalhou com o vento. As retas viraram pontilhados.
Desejava um círculo de luzes. Sem maquiagem, mas com cores. Sem roupa, mas com máscaras. Sem álcool, mas com cogumelos. O tudo a perder faria todo o sentido.
***
PARTO
Precisamos mesmo morrer para nascer de novo? Já perdi a conta de quantas vezes eu vi uma mulher diferente no espelho pela manhã. Ou mesmo antes de deitar na cama para ler a ficção sonhada ao longo do dia.
O modo como saio de casa e piso na calçada, com óculos de sol e a bolsa pesada, define a rota de desencontros nas ruas da aldeia onde moro. Uma aldeia global. Uma cidade que não me define, mas que não quero abandonar tão cedo.
A diáspora nos torna um pouco rebeldes. Depois que partimos, renascemos. E não paramos mais. Todos os dias. O choro grita a confusão do que nos espera. O colo acolhe o medo de perder. A luz de Lisboa colore o meu mapa astral.
***
DIÁRIO
Não é possível desver a luz que o tempo nos oferece. Li algo assim nas palavras de um escritor que muito admiro. Era parte de um relato de seus dias na quarentena. Dias de angústia, de raiva, de desejos reprimidos e de ausências doloridas. Confesso que, ao ler seu texto, a inspiração bateu na porta que me separa da prosa livre. Porta construída por mim. Fruto de desculpas ridículas, inventadas para escapar do que é inevitável. Uma certa melancolia sempre habitou minhas tentativas de diário. Seriam os livros de Clarice na estante?
J. me deu um beliscão no braço e aqui estou, sem filtro.
Os dias passam acelerados, envoltos em uma camada espessa de ansiedade e procrastinação. Falamos sobre a morte em uma conversa de botequim, de máscaras, mas com a cerveja gelada no copo. O barulho das sirenes não me assusta mais. Tenho vontade de comprar livros e sentar no banco da praça. Talvez com uma média de leite. Não sei mais se quero fazer o que planejei. O presente não está aceitando planos. Todos os dias uma nova ideia me convida para um chá na padaria. Por vezes não apareço. E não lamento. Virei rebelde depois dos 40. Talvez seja o ascendente em áries.
Quero passar mais tempo contando estórias para meu filho. Hoje farei arroz-doce.
***
ABRAÇO
Vou esperar um pouco mais, disse F., com medo de perdê-lo de vista. Há anos procurava um abraço que durasse para sempre. Sabia que não existia tal coisa, mas mesmo assim, continuava a buscar. O pouco não a interessava. Um dia acenou para M. na confeitaria da esquina e resolveu lhe oferecer um sorriso. Após muitos passos sem rumo pediu a eternidade do abraço. Não aconteceu. Escondeu o sorriso até a próxima primavera.
Julia Sereno nasceu em 1978 no Rio de Janeiro, mas reside em Lisboa desde 2020. É professora de inglês e português, Mestre em Estudos da Literatura e Doutoranda em Literaturas de Língua Inglesa pela UERJ. Tem poemas e minicontos publicados em revistas e em sua página no Medium.
Flanar distraidamente é um tesouro. Perder-se em pensamentos. Absorto. O corpo em piloto automático. E ao voltar à tona, encontrar-se no rumo certo. Sem desvios enganosos. Mas desta vez, não. Devo ter exagerado nos devaneios. O caminho era desconhecido. Tudo me parecia estranho, remoto. Estradinha de cascalho. Lembrança distante. Não tenho certeza. Pode ser o cheiro de barro molhado. Cinzeiros de argila na escolinha. Meu pai os recebia com sorriso medido. Talvez antevendo o enfisema que lhe consumiria os pulmões. O cansaço sobrepesava minhas pernas. Não escutava nada. Nenhum rumor de humanidade. Só minhas próprias pisadas naquele chão pedregoso e escorregadio. Sequer lembrava de onde parti. O sapato deve ter sido emprestado a mim. Me escapava o calcanhar a cada passada. E estava sem meias, coisa incomum. Depois de quase uma hora andando por aquela trilha rudimentar, avistei uma luz acesa. Era um bar, vazio. Um homem de idade avançada cochilava atrás do balcão. A TV ligada mostrava o padrão em cores. Há tempos eu não via aquilo. Os canais costumam varar a madrugada exibindo programas religiosos. Pastores negociando terrenos no céu. Ou prosperidade ainda na terra. Pagamento adiantado, irmão. Glória a Deus.
Dei umas batidinhas no balcão, como fazemos à porta. O velho acordou e me olhou com espanto. Corri a mão nos bolsos, mas não os achei. Usava uma calça sem bolsos. Ele se levantou, e perguntou se eu estava com sede. Respondi que sim, mas não tinha dinheiro. Eu não queria entrar em detalhes e explicar que não sabia o que fazia ali. E além de perdido, ainda estava sem nenhum documento. Ele me serviu uma água mineral em garrafa de vidro. Olhava desconfiado, me examinando de cima a baixo. Isso me deixou um pouco tenso. Bebi a água lentamente, aos tragos. Num giro de pescoço, corri os olhos pelo ambiente. Examinei as paredes a fim de encontrar algum indício que pudesse me localizar no mapa. Deparei com um telefone público, vermelho. Daqueles que utilizavam fichas.
“Ainda funciona?”
“Claro. Quer ligar para alguém?”
Respondi de modo afirmativo, meneando a cabeça. Temia que ele me perguntasse se eu estava perdido. Certamente eu exibia um semblante extraviado. Uma cara de quem não estava ali. Como se minha alma e meu corpo tivessem se desencontrado. E foi exatamente o que ele quis saber. Meio ressabiado, achei melhor negar. Inventei que estava numa festa. Aborrecido com a bebedeira geral, resolvi cair fora antes do fim. Precisava apenas entrar em contato com alguém que pudesse me buscar, ou chamar um táxi.
“Era uma festa à fantasia?”
Esbocei um sorriso. Julguei que fosse uma piada. Ele olhava detidamente para minhas vestes. Eu não havia me tocado. Estava usando uma espécie de farda. Cinza, semelhante a do pessoal de “serviços gerais”. Uma sigla bordada na camisa, SSP. Uma mentira nunca vem sozinha. Sempre precisa de outras para sustentá-la. E no arrepio daquele clima inamistoso, forjar uma farsa plausível não era tarefa das mais fáceis. Peguei a primeira roupa que vi pela frente, falei. Dito assim, mais parecia egresso de um grande bacanal. Arrumei uma piscina, churrasco e todo mundo em trajes de banho. O cenário estava devidamente montado. Era só evitar os detalhes. É neles que a gente tropeça.
Ele desligou a TV e ligou o rádio numa estação AM. Pediu para que eu ficasse à vontade. Iria lá dentro e já voltava. Sua voz gutural ecoava por trás dos engradados de Crush. Conversava com alguém que, ao contrário dele, não se podia ouvir a voz. Tentei escutar a conversa, mas o rádio atrapalhava. O locutor esbravejava contra o comunismo, subversivos, terroristas. De fundo, o hino nacional. Ele voltou, expressão ainda carregada. Disse que não passava táxi àquela hora.
“Eu aceito aquela ficha que o senhor me ofereceu.”
Eu não conseguia completar a chamada. Tornei a perguntar se aquele aparelho funcionava. Até o início da noite haviam feito várias ligações nele, me respondeu. Após dezenas de tentativas, eu desisti. Meu dedo estava doendo de tanto de discar. Agradeci e deixei a ficha sobre o balcão. Ele continuava a me fitar de modo inquisidor. Eu mal conseguia disfarçar o incômodo que aquela situação estava me causando. O céu estava apagado. Nenhuma estrela ousava cintilar. O tempo se arrastava. Há quem acredite que universo conspira a seu favor. Ou a seu revés. A segunda opção parecia se anunciar. Tudo estava harmoniosamente combinado contra mim. “Fique atento aos sinais” – me disse minha mãe, poucos dias antes de atear fogo ao próprio corpo.
“Tem certeza que discava o número certo? Parecia ter número demais…”
“Tenho sim. O senhor não teria um celular para me emprestar?”
Ele apertou os olhos, como se não tivesse entendido o que eu havia perguntado. Um telefone celular, o senhor não tem? Voltei a dizer, frisando bem cada palavra. Continuou me encarando, cenho franzido. Olhou para o relógio e, de forma um pouco áspera, respondeu peremptoriamente: “não”.
Eu cogitei sair dali. Continuar andando, ver se encontrava alguma rodovia, pista, canal, o diabo que fosse. O embaraço das mentiras me corroía. Não conseguia mais encará-lo. De repente, um barulho de motor. O dono do bar saiu de trás do balcão. Ficou perto de mim, em posição ostensiva. Apesar de bastante nervoso, me recostei no balcão. Queria aparentar tranquilidade. Tomei mais um gole de água. Quem sabe, alguém que pudesse me dar uma carona.
Dois policiais entraram. Sem falar nada, vieram em minha direção. Coloquei as mãos na cabeça e perguntei o que estava acontecendo. Me mandaram virar de costas. Fui revistado. Em seguida, me algemaram braços e pernas. Conduzido ao camburão, percebi que era inútil fazer qualquer questionamento. Nem eu mesmo sabia o que fazia naquele lugar, àquela hora. Ir a uma delegacia não era mau negócio. Assim eu saberia onde me encontrava. Poderia ligar para um conhecido, me identificar. Estaria tudo resolvido. Do fundo da Veraneio, ouvi o dono do bar falando com os policiais:
“É do São Pedro, com certeza. Procurei saber se era funcionário, mas ele inventou um monte de coisa. Falou que tinha saído de uma festa numa piscina, ligou para um número inexistente e perguntou se eu tinha telefone celular.”
“Telefone o quê?” – indagou um dos guardas.
“Telefone celular”.
Caíram na gargalhada. Um dos policiais disse que não haviam recebido nenhum telefonema de “lá”. Mas tudo indicava que era mesmo um “fugido” do São Pedro.
Sim, a sigla bordada na minha camisa. SSP. Era óbvia a constatação: as duas últimas letras significavam São Pedro. Mas, e o primeiro “S”? O que significava aquele primeiro “S”? O carro arrancou em alta. Comecei conjecturar as possibilidades. Salão? Sindicato? Simpósio? Seminário? Com assombro, a incógnita se desvelou. Um portão imponente se abriu. Acima dele, a inscrição em ferro trabalhado formando um arco. Entrei em pânico só de pensar. Injeções, choques, camisa-de-força. Huxley falou em abrir as portas da percepção. Eu tive a percepção das portas abertas. Deram um enorme vacilo. Certas oportunidades não cruzam duas vezes o nosso caminho. Haviam me tirado as algemas. Deixaram o fundo do camburão aberto. O portão, escancarado. A liberdade gritou meu nome. Saí em disparada. Pela frente, um blecaute absoluto. Nem sei se havia algum caminho pronto. O breu não oferece alternativas, é a ausência delas. Correr de olhos fechados era mais seguro. Eu podia vislumbrar o trajeto. Dar lume à fantasia é a melhor forma de evitar as armadilhas da escuridão.
Não sei dizer por quanto tempo corri. Só parei quando estava esgotado. No limite das minhas forças. Ao abrir os olhos, uma estradinha de cascalho. Cheiro de barro molhado. Aula de artes no primário, trabalhos em argila. Meu pai carcomido pelo vício. Tudo me era incrivelmente familiar. Aquela claridade lá adiante. Uma espelunca metida a vintage, bar 24 horas. Atrás do balcão vou encontrar um velhote de cara amarrada, tenho certeza. Enfim, posso respirar aliviado. Achei o caminho de casa.
Marcus Borgón colaborou com a revista de cultura e literatura Verbo21. Publicou textos em jornais, sites especializados em literatura, e coletâneas de contos. É autor da novela juvenil O Pênalti Perdido (P55 edições, 2016).
Deixou que tomasse conta de si a noite gélida e calada. Lembrou-se de ter-lhe beijado o rosto e sentido o gosto salgado de suas lágrimas.
***
Cansado do frio da madrugada, às manhãs envoltas em papelão, foi buscar abrigo no palco da Igreja. Aquela noite sonhou com o sino tocando sua vida inteira num horizonte à frente.
***
A velhice bateu-lhe à porta e ele a convidou para entrar. Largou-se aos recônditos da amargura, em desmemória, vendo os seus pés fincarem lentamente naquele lugar.
***
Vi as lágrimas escorrerem e lhe borrarem a maquiagem. Pintou-se para elevar a autoestima, mas por dentro o coração flutuava nas águas.
***
Entre o nada e o tudo, viram-se em um abismo silencioso, de onde refletia a profundidade das próprias mágoas.
***
Não raras vezes, o cheiro de santidade exalava de seu corpo. Era um homem esbelto, viçoso, aparentemente leitor de clássicos, cujos títulos poderiam condizer com a entoação de sua voz em latim e com o seu comportamento reservado, isso graças àquele ar cerimonioso.
***
Assim como a água, límpida e calma, pediu que cuidasse também das rosas, da alma de cada pétala, recepcionadas pelo silêncio agora, onde jazem o Reino dos Céus.
***
Esperançosa, acreditou que após recorrer à terapia ele fosse capaz de costurar os rasgos feitos nos corações alheios, e do arrependimento uma nova chance de perdão.
***
Ela preferia ali ficar, envolta na sua angustia existencial.
***
As fotografias antigas eram tudo que ele tinha, ainda em preto e branco, como um resgate memorial que o ajudava a envelhecer sorrindo.
Thaís Fernandes é natural de São Paulo — SP. Graduou-se em Letras (Português-Inglês), possui especialização em Língua Inglesa e suas Literaturas e desenvolve pesquisa em Estudos da Tradução (FFLCH/USP). Tem textos poéticos e traduções publicadas em jornais e revistas eletrônicas nacionais e internacionais, incluindo The Mark Literary Review, (n.t.) Revista Literária em Tradução, Revista PHILIA | Filosofia, Literatura & Arte, Zunái — Revista de Poesia e Debates, Revista LiteraLivre, Tuck Magazine, Gueto — Revista Literária Luso-Brasileira. Traduziu, entre outros, Maya Angelou, Katherine Mansfield, Mark Twain e ensaios literários de C.S. Lewis, Ralph Waldo Emerson e Robert Louis Stevenson.
Parece inacreditável hoje, mas na infância participei de uma caça a passarinhos com estilingue. Fomos, eu e Silverinha, no sítio de um tio no Litoral Norte. Não recordo com exatidão todas as circunstâncias, mas lembro que caminhamos dentro da mata até bem longe de casa e que, após atingir as aves com as pedras que levava nos bolsos, ele espetava os corpos dos pássaros caídos no arame farpado.
Fiquei vendo Silverinha fazer aquilo e, confesso, o horror me tomou inteira. Decidi voltar sozinha para a sede do sítio, mas acabei perdida no caminho. Distraída desde sempre, andei uns poucos metros entre árvores que pareciam surgir pela primeira vez na minha frente. Era apenas o sítio de meu tio, onde tantas e tantas vezes brinquei com os primos, e não a floresta misteriosa de As Brumas de Avalon.
Sabia que os adultos da casa não sentiriam logo minha ausência. De vez em quando eu me aventurava no rio que ficava no terreno ou desaparecia por algumas horas, catando licuri para encher o tonel que ficava na varanda, isso quando não estava escalando árvores, para sentir de perto o cheiro das folhas, arrancar as frutas no galho ou simplesmente ter, do alto, a visão do verde das coisas.
Minha mãe bem que tentava acompanhar tanto movimento. Para colocar um freio em minhas aventuras no sítio, fez com que toda a família reforçasse as lendas de que havia um jacaré dentro do rio. O bicho ali representava o “homem do saco” das ruas de Salvador, sempre pronto a levar as crianças desobedientes para uma espécie de limbo. Mal sabia que aquela história teria em mim um efeito contrário.
Localizar o jacaré do rio passou a ser a minha obsessão nas férias — aumentaram ainda mais, os meus sumiços no sítio. Só não sei até hoje como me meti nessa caça a passarinhos com Silverinha. Ele era bem mais velho e penso que me desafiou a mostrar coragem. Mas a verdade é que a coragem de matar as aves, eu simplesmente não possuía. Muito menos a habilidade necessária para armar a pedra no badogue.
Naquele dia, como se cumprisse um itinerário de tortura, engolindo a raiva e a vergonha, precisei esperar durante horas até que Silverinha ficasse cansado de acertar as aves com as pedras. E tudo aquilo pesou bastante nas decisões que tenho tomado desde então. Me refiro aos desafios aceitos só por orgulho. Aos amigos que pedem conselho, sempre falo sobre a queda que antecede o voo dos pássaros. Eu os observo da varanda do apartamento onde moro, no décimo-segundo andar de um prédio.
Gosto de tê-los perto por alguns segundos, como se não se incomodassem com a minha presença. É com certo prazer que me aproximo o quanto posso e deixo que sintam que nada desejo, nem mesmo capturar sua beleza. Nada nessa vida se compara à confiança de uma ave em sua queda. Um pássaro desconhece os princípios básicos da aerodinâmica. Ele apenas confia em seu instinto.
Fico surpresa ao saber que cientistas ainda pesquisam de que modo os pássaros enfrentam as correntes de vento. Fico pasma com a perenidade de alguns mistérios. Como as aves dormem enquanto voam? Alemães estudaram uma espécie conhecida como Fragata de Galápagos e descobriram que ela plana quando adormece, usando apenas um dos hemisférios do cérebro. E até sonha (até sonha!) durante cinco minutos.
Cientistas, sempre eles, divulgaram uma pesquisa em 2017 sobre a adaptação das asas das aves às correntes de ar. Pretendem usar esse conhecimento nos cada vez mais detestáveis e invasivos drones. O mundo é um lugar horrível? Tá certo. Mas, ao mesmo tempo, ele é repleto de beleza. Na internet, por exemplo, alguém perguntou outro dia por que os pássaros não voam até a Lua em um site de buscas.
Kátia Borges é autora dos livros De volta à caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpião Amarelo (P55, 2012), São Selvagem (P55, 2014) e O exercício da distração (Penalux, 2017). Escreve crônicas no jornal Correio semanalmente desde 2018. A teoria da felicidade (Patuá, 2020) é o seu sétimo livro.
Eutanásia. O último rinoceronte branco do norte está morto. Sudan, 45 anos, se torna parte das espécies e subespécies dizimadas pelo único predador que mata por ignorância, por lucro. E sempre por prazer. Um macho de sorte — mesmo que sorte seja uma palavra estranha de significado. Não foi abatido como caça. Sobreviveu. Capturado aos 10 meses de idade, foi enviado para um zoológico. Por 36 anos agradou humanos. Morre, agora, num santuário. E santuário também é uma palavra de significado incomum. Um cativeiro cercado por boas intenções. Uma fração da história que deveria ter sido. De um jeito ou de outro, Sudan foi uma vida desvirtuada. Deturpada em seu roteiro original. Fecha os olhos cercado pelos soldados que o protegem, pelos cuidadores e pelos pesquisadores que o observam há quase uma década. E quando o seu corpo de dois mil e trezentos quilos — tomado por uma infecção generalizada — segue para o descanso da morte, ainda ostenta, intocado, o cobiçado chifre que fez dele um alvo por toda a sua vida. Sudan é o último macho dos rinocerontes brancos do norte. Mas o seu sêmen congelado ainda é esperança de rebentos. Multiplicados, alimentarão a lenta e difícil tentativa de reverter a extinção da subespécie. Se os caçadores não se reproduzirem como pragas, se a cobiça não caminhar mais rápido do que a ciência, se todos os obstáculos forem superados, talvez seja possível repovoar a savana.
Não há lágrimas pelos rinocerontes brancos do norte. São apenas bichos.
Abril de 2014. Chibok, Nigéria.
Negras. Virgens. Crianças. 276 meninas sequestradas de uma escola em Chibok por fundamentalistas islâmicos do Boko Haram. Em nome do fanatismo, da dominação e do ódio, essa trindade depravada. Afastadas de suas famílias, impedidas de suas crenças, privadas de qualquer dignidade. Pasto fresco para as bestas que justificam atrocidades em nome de um deus falsificado, omisso, cúmplice. Caças impotentes.
47 fugas. 117 libertações em trocas árduas com o governo. Mas 112 meninas de Chibok nunca mais são vistas. Para elas, não há a proteção do santuário. Só o cativeiro. E as curras que não cessam. E a parição de bebês indesejados que crescem ao lado de seus reprodutores selvagens, influenciados pela bestialidade de crenças pervertidas. 112 meninas-matrizes, como as cadelas acorrentadas que cruzam e cruzam sem descanso até a morte por infecção, por inanição ou por maus-tratos.
Não serão resgatadas. Não têm nome ou foto nos jornais. São apenas meninas negras da África. Descarte.
Fevereiro de 2018. Dapchi, Nigéria.
Não bastaram. O sequestro das 276 meninas de Chibok. Os casamentos forçados. A destruição das identidades. O aniquilamento dos alicerces psicológicos, religiosos e morais. As crianças geradas por espermas sem nome. Mais 110 são raptadas em Dapchi. Meninas. Em plena luz do dia. Porque a luz do dia parece ter se tornado uma sentinela inútil e impotente. Em igualdade perversa, as meninas nigerianas de Dapchi são como as meninas de Chibok. E como os rinocerontes brancos do Quênia. Indefesas. Caçadas. Afastadas de suas histórias originais. Exiladas. Cativas. Desenraizadas. Vítimas da mesma ganância. Neles, o que se cobiça são os chifres. Nelas, os úteros.
No mundo, tudo permanece silêncio. São apenas estatísticas ruins do Terceiro Mundo.
2 de setembro de 2015. Costa da Turquia.
Aylan Kurdi não vence o mar. Como poderia? [… as águas são rotas de braços frios / que adormecem bebês / meninas, bebês meninos / para entregá-los, purificados / a um Criador envergonhado]. Aylan Kurdi é só um menino de três anos. Sírio. Como a maioria dos refugiados que fogem das guerras pelo poder. Aylan Kurdi é mais uma criança afogada numa praia da Turquia. Vira notícia porque a turca Nilüfer Demir e sua câmera estão em vigília na areia trágica. Ah, os fotógrafos! Esses seres despudorados que denunciam com suas lentes o que os olhares frágeis das pessoas frágeis preferem não ver. Ver é inquietação. Por isso, talvez, o mundo não tenha chorado por Galip, 5 anos, irmão de Aylan. O corpo dele não chegou à praia. Não foi fotografado.
Não ver é a alienação desejada.
Aylan e Galip saíram de casa para morrer no mar. Sem entender por que deixaram para trás o seu país. Crianças não entendem as guerras. Não deveriam, igualmente, fazer parte delas. Nem deveriam ser arrancadas das suas referências para serem jogadas no cativeiro do exílio.
Aylan e Galip fazem parte da cegueira cômoda. Afinal, são apenas meninos sírios.
20 de setembro de 2019. Morro do Alemão, Brasil.
Morro do Alemão. Ou qualquer outro morro. Desde que seja morro. Ágatha Vitória cai. 8 anos. Tiro nas costas. De fuzil. Coisa de covarde fardado. Mais uma — e já foram tantas. Crianças como ela, meninas como ela. Feitas de sorrisos, de brincadeiras, de fantasias. A de Mulher Maravilha invocando o sonho de um mundo de justiça e de mulheres guerreiras. E o pesadelo da realidade se contrapondo. Ceifando, ceifando, ceifando.
Crianças. Já nem se trata de quantas. Ágathas, Guilhermes, Alanas, Kayos, Larissas, Adrielles. Já nem se trata de onde. Nova Holanda, Borel, Alemão, Guarabu. Faz tempo que essa conta está perdida. E perdido é o que tudo está. Bala. Homem. Consciência. Futuro.
Outubro | Novembro | Dezembro de 2019. Em todos os grotões de pobreza.
Caixões brancos encaixados uns sobre os outros empilham-se em tédio cínico. Aguardam os hóspedes perpétuos que se deitarão entre suas paredes finas. E o cheiro do sangue que, mesmo lavado, se entranhará nas suas fibras fracas como uma droga perigosa, viciante, nauseante. Meninas. Meninos. De algum morro, de alguma comunidade, de algum bairro pobre. De qualquer lugar esquecido ou desprezado pela tal gente de bem.
Há também covas rasas. Esperando os que não podem pagar pela mísera decência de um caixão vagabundo. São bocas indigentes essas covas arreganhadas em espera curta. Sabem que logo será saciada a sua fome ávida. Mais tarde, corpos pequenos preencherão as suas entranhas. Perfurados por balas perdidas. Vítimas dos predadores que somos: os que abatem, os que aprisionam, os que empurram para a morte, os que perseguem até a extinção. Como os caçadores do Quênia, os estupradores da Nigéria, o ditador da Síria. Como os homens e mulheres de farda que atiram pelas costas.
Podemos fechar os olhos. Mais uma vez. Essa é a nossa expertise. Podemos desligar a TV, tampar os ouvidos, cobrir a cabeça. Podemos nos mudar para Paris. Ou para a Finlândia. Quando voltarmos, tudo estará terminado. E olharemos para o genocídio de meninas e meninos pobres com toda a piedade hipócrita que nos foi ensinada pelos nossos pais e pelas nossas igrejas. E nos sentaremos com um copo de cerveja, de vinho ou de uísque entre amigos que também terão acabado de voltar de Berlim ou de Barcelona. E discutiremos planos para reverter a extinção.
Em nossos planos, só uma falha. Não temos o sêmen do rinoceronte branco.
Cinthia Kriemler nasceu no Rio de Janeiro e mora em Brasília. É autora, pela Editora Patuá, de: O sêmen do rinoceronte branco (Contos, 2020) – finalista do Prêmio Guarulhos 2020 na categoria Escritor do Ano; Tudo que morde pede socorro (Romance, 2019); Exercício de leitura de mulheres loucas (Poesia, 2018); Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017) – finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018; Na escuridão não existe cor-de-rosa (Contos, 2015), semifinalista do Prêmio Oceanos 2016; Sob os escombros (Contos, 2014); e Do todo que me cerca (Crônicas, 2012). Organizou a antologia de contos Novena para pecar em paz (Editora Penalux, 2017) e participa de antologias de contos e de poesia. Tem textos e poemas publicados em diversas revistas eletrônicas.
Assim que adentrou a sala, tudo começou a gravitar em torno dela. Nunca mais serei o mesmo, ele pensou, já preso à sua órbita.
***
Fugaz
A fumaça do incenso forma galáxias no centro da sala. Ana cruza esse universo e evapora-se sem dizer adeus.
***
Expectativa
Vai esperar por ela até tarde. O pensamento armado até os dentes.
***
Conto de fada I
Beijou e esperou pela metamorfose. Mas o príncipe apenas coaxou, escorregou-lhe das mãos e mergulhou novamente no lodo.
***
Conto de fada II
Matou o dragão, salvou a princesa e casou-se com ela. Tempos depois, arrependeu-se: a princesa era uma megera.
***
Amor estrangeiro
Na noite de núpcias, descobriu a verdadeira natureza do marido. Tarde demais: na rota de fuga, teria que cruzar um oceano.
***
Crime perfeito
Às vezes a fatalidade só precisa de uma ajuda: no dia seguinte, o marido passou desta para melhor.
***
Onírico
Encontrou, enfim, a mulher dos seus sonhos. Ironia do destino: perdeu-a assim que acordou.
***
Lenda
– Mãe, tô pegando uma sereia.
A mãe nem deu ouvidos: o filho fantasiava demais.
***
Coisas do coração
O marido abriu a porta e deparou-se com a cena devastadora. Os amantes? Salvos por um ataque cardíaco.
Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Tem alguns livros publicados, entre eles, Uma mulher à beira do caminho (contos, Editora Patuá), Tesselário (minicontos, Selo 3×4) e UM (romance, LGE). Contato: gerallimma@gmail.com