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149ª Leva - 04/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

CONTEMPORÂNEA PELO AVESSO

Por Sandro Ornellas

 

 

Acabo de ler Danny, narrativa escrita por Maria Elvira Brito Campos, publicada em 2022, em bonita edição de bolso pela piauiense Cancioneiro. Novela lírica, melancólica e, de certa forma, geracional, o que me tocou particularmente. Como diz Antonio Candido em famoso prefácio a Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Hollanda: “a certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço do passado sem cair na autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna registro de muitos”. E a narrativa de Maria Elvira, sem ser propriamente seu testemunho, possui algo do teor testemunhal que diz de uma experiência geracional, mesmo quando ficcionalizada. A própria prefaciadora, Katia Borges, diz que o personagem título “se parece muito com os melhores amigos que tive”.

E do que trata Danny em seus 45 pequenos capítulos, quase fragmentos, vários com um único parágrafo? Da errância melancólica do seu protagonista ao longo dos dias, encarando uma grave doença – nomeada apenas como “a bola cinza” no interior da sua cabeça –, da fiel amizade de Laura, das paixões e amores fugidios e irrealizáveis de ambos, de suas solidões, compartilhadas ou não, do seu confinamento e da consciência do envelhecimento. Embora pudessem ser tratados de modo independente, todos esses “temas”, digamos assim, vão e vem ao sabor do humor dos personagens no fluxo narrativo, pois a autora investiga a experiência de ambos, não os “temas” em si.

São personagens que possuem, por um lado, traços relativamente específicos. Danny é artista plástico e Laura, tradutora. Mas não é isso que está em questão na história, cujo foco varia de um para o outro, com ênfase sempre maior na expectativa de Danny com a cirurgia e em seu cotidiano entorpecido à base de remédios, mesmo depois de livre da “bola cinza”. Ele vive com dois gatos; ela com um cachorro. E formam um retrato cuja melhor definição ao longo das páginas me aparece no capítulo 26:

 

“Laura estava triste. Foi até a sacada, pensou em Danny. Um sobrevivente. Tão pouco e tudo. Pássaros na garganta. Ela sabia que não estava preparada para nada disso de novo.

Janelas abertas. Coisa boa é morar no primeiro andar. Laura sorriu para as crianças na rua e voltou para a sala. Sentou-se no sofá, seu cantinho gostoso, medicou os dedos, Johnny lhe fez um afago, quando o telefone tocou: Hey, sugar, take a walk on the wild side.

Danny sempre a salvava!”

 

É assim, acompanhados pela trilha sonora de Lou Reed, somos conduzidos por uma narrativa cheia de desvãos afetivos e líricos e de certa forma cúmplice dos dois personagens sobreviventes do último quarto do século XX. É essa cumplicidade que cria, por outro lado, o aspecto geracional que sublinho na narrativa, seja pelas referências explícitas, seja pelas implícitas.

Há algo de selvagem e inocente na história escrita por Maria Elvira. Selvagem e inocente como a canção de Lou Reed e as histórias dos que não sobreviveram àquele quarto de século: Caio F., Ana C., Leonilson, Cazuza, Renato Russo, dentre tantos outros que se pareceriam com Danny e Laura, se tivessem vencido o fato de crescerem durante a ditadura, a mesma que levou muitos à loucura, ao suicídio e, de certa forma, se prolongou matando outros através da epidemia do HIV. Sobreviventes, selvagens e inocentes, Danny e Laura vestem a melancolia de uma geração que chegou à segunda década do século XXI fragilmente equilibrando solidão e amizade, tesão fugaz e esperanças de amor, lucidez e entorpecimento, juventude e envelhecimento, vida e morte. O eixo que sustenta esses pratos na história é a melancolia que os personagens carregam, embalados por canções daquele quarto de século, que parece não os ter abandonado e lhes dá uma aura de tristeza, que, todavia, traz muito da beleza narrativa de Danny.

Na minha leitura, apenas em dois momentos percebi tratar-se na verdade de uma história do século XXI. Quando Danny, flertando imaginariamente com Bruno, pensa nas diferentes referências entre ambos: “Em tempos de aplicativo, Bruno não iria compreender essa referência tão Satellitie of love, tão David Bowie em Marte, tão fora daquele mundo…”; e quando, depois de repentinas descrições do silêncio e vazio das ruas, Laura obriga Danny a se mudar para sua casa, manda-o tomar banho seguindo “protocolos” e fala-se em “confinamento”, em menção cifrada à pandemia da Covid-19.

Talvez haja mais indicativos dessas duas primeiras décadas do atual XXI, mas a extemporaneidade da narrativa e dos dois personagens, seu descolamento subjetivo em relação ao mundo social e as referências musicais citadas ao longo do texto não deixam dúvida tratar-se de “sobreviventes”. Eu diria mesmo que a narrativa de Maria Elvira é uma narrativa sobrevivente, pois lança mão de uma atmosfera pop até certo ponto datada, em relação ao que passou a se escrever no século XXI. E aí está muito do charme dessa história. Se a profecia de Andy Warhol sobre a cultura pop foi de que todos teriam direito a quinze minutos de fama, para depois cair no ostracismo, esses quinze minutos acabam funcionando como referências histórico-geracionais. Se a cultura pop vive da descartabilidade, ela também permite entender muito da segunda metade do século XX através, por exemplo, da trilha sonora, como é o caso, em Danny, de Lou Reed, Gracie Jones, Patti Smith e David Bowie rondando todo o tempo a vida dos personagens. E é muito com o espírito de Lou Reed que a narrativa se constrói, transformando Danny e Laura em alguns dos personagens do álbum Transformer, de 1972, do compositor novaiorquino.

Se há um pop alegre e festivo, registre-se que o pop de Danny, no entanto, é triste e sombrio. E é justo aí que percebo sua maior contemporaneidade. A contradição do pop, desde as ampliações fotorrealistas de acidentes fatais feitas por Warhol, hoje estão mais visíveis do que nunca. Ídolos teen do pop coreano (e não só eles) se suicidam em série, mostrando os limites tóxicos da felicidade e esperança vendidas pela indústria do entretenimento. Já a melancolia e solidão de Danny e Laura, se inicialmente faz sentido serem lidas como de uma geração que envelheceu, também tem muito a ensinar à geração que cresce sob as tecnomaravilhas virtuais do neoliberalismo e que sofre igualmente, ou talvez ainda mais cedo, do que quem chegou à pandemia com pouco mais de cinquenta anos.

Danny, portanto, possui o que um pensador disse tratar-se da definição do contemporâneo: o obscuro, o invisível, o solitário, o sombrio e desatualizado, em um mundo no qual tudo e todos buscam ser visíveis, alegres, festivos, produtivos e estar no fluxo e na moda. Concluo a leitura assim, com a sensação de que Danny é uma narrativa contemporânea pelo avesso, conseguindo falar daquilo que todos sabem estar à espreita, mas a que ninguém se refere por estar fora de moda.

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Dói-me este mundo de violentas esperanças (Patuá, 2021), Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.

 

 

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149ª Leva - 04/2022 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

A INCORPORAÇÃO NA POESIA DE ROBERTA TOSTES DANIEL

Por Lorraine Ramos Assis

 

 

O corpo humano é um amontado formado por células. Suas estruturas, das mais simples às mais complexas encaixam-se em células, tecidos, órgãos, sistemas e organismo. E cada uma desempenha um papel dentro de um todo hierárquico, dialético. Ao movimentar-se, essa mesma estrutura tem a função de sobreviver a um determinado espaço ou a explorá-lo.

Deparar-se com a imagem corpórea, as deslocações geográficas e a própria natureza é o quadro a se caracterizar a poesia sinestésica presente na obra “Ainda ancora o infinito” (Moinhos/2019) da poeta Roberta Tostes Daniel, em que o lugar assegurado na poesia lírica é tensionado pela memória do sujeito.

 

Escreve
hei de dizer a fome
que me devora a boca;
hei de dizer a boca
(novena de silêncios

intifada
ante-fome
fome)

 

Nos trechos do poema que se apresenta, temos a inversão em “devorar a boca” na sucessão da diferença de retornar ao ato habitual da função do órgão. Nos é demonstrado como o registro da linguagem está a consumir o indivíduo. Nas mudanças dos termos da procura ante a fome, esfomeada de palavras a serem produzidas na inscrição poemática, a dicotomia entre o silêncio e o desespero é proferida nos versos construídos sob a espacialidade gráfica da página. O corpo do poema, portanto, torna-se corpo do sujeito. Corpo memória.

Outra característica corporal de Roberta é o recurso a combinar deslocamentos espaços temporais com sensações imediatas a serem apercebidas pelo leitor viajante. Se a transitividade é transposta por vinculações nacionais, a mobilidade do sentimento-sensação não é estático, restrito a uma só voz que aspira a englobar um tópico, mas sim lembranças.

 

Sábado
céu consolidado
trilhas ao redor do Rio.
Dizer sim ao não
saber outros meios
de chegar
molhando os pés
da areia.
(…)
hoje, toda palavra
é terra

 

A depuração do agir urbano como movimento de desejo e contrariedade (dizer sim ao não) é entendido como um processo de elaborações de expansões contínuas. Se há outras formas de se locomover, aterrar em determinado espaço, é porque existe uma quantidade de matéria falada, uma elasticidade do escrito poético, tendo em vista que “hoje, toda palavra é terra”.

Não é pela instauração do local árido que a poesia de Tostes representa, mas sim a instauração do processo sem fim do registro linguístico pela localidade. O construtivo do tratamento da fala é conformado pela experiência de se trilhar novos caminhos. E isso se dá pela noção da realidade física e psicológica.

Adiante com o trânsito entre os variados impulsos das cadências, a musicalidade não está somente nos aspectos formais das estrofes da escritora, mas circunda temas que se envolvem com os demais.

 

Sim, a música. Como tudo, também tem som de chuva hoje.
Janelas molhadas. A tarde que segue suave, mas maciça como uma nuvem escura. E nesse breu que não é a noite, deposito meus olhos. De ouvir tanto. Forma-se a imagem, música incidental. Memória que ainda. Não vivi.

 

A partir da emocionalidade do texto, nota-se a cronologia dos fatos em linhas de fragmento, pontuadas como a escolha da recursividade desta vez. As implicações da noção da imagem narrativa dos fenômenos da natureza exprimem a metáfora sonora, musicalizada na voz autoral ao presenciar “tarde que segue suave mas maciça como uma nuvem escura”. Um traçamento de seleções tonais, de tonalidades a serem descortinadas (como uma janela molhada) a quem visualiza os desdobramentos em volta da estrutura sintática de Roberta.

Um livro que, por ser constituído de membros elásticos, da mobilidade sem fim até o imaginário de seus ouvintes na amplitude temporal, marca o pensamento de um corpo. Corpo este que, de acordo com Merleau-Ponty,  “Eu não estou diante de meu corpo, estou em meu corpo, ou antes, sou meu corpo”.

 

Publicada em 12 revistas digitais ao longo de dois anos e meio, tais como Ruído Manifesto, Mallarmargens, Vício Velho e Aboio, Lorraine Ramos Assis, em seus 25 anos, é uma artesã do caos. É estudante de Sociologia, na UFF. Integrou a antologia Ruínas, da editora Patuá, e a antologia LiteraturaBr. Concedeu duas entrevistas no canal “como eu escrevo”. Colabora com o portal Faziapoesia.

 

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149ª Leva - 04/2022 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Larissa Mendes

 

O guitarrista, compositor e vocalista da banda Flerte Flamingo, Leonardo Passovi, carrega a objetividade da juventude e a sabedoria de um ancião. O músico de Salvador recentemente trocou a Bahia pela capital paulista na companhia do baterista Igor Quadros, onde atualmente cursa Produção Fonográfica no Conservatório Musical Souza Lima. E como num desfazer de malas, Léo Passovi avalia as transições, assimila mudanças geográficas e estruturais da banda, analisa o mercado fonográfico e sua própria trajetória artística.

Formado no verão de 2015 em Salvador, “com a proposta sonora pautada na espontaneidade das canções compostas por seus integrantes”, o Flerte Flamingo faz um dos sons mais interessantes do atual cenário musical. A mistura de rock e samba com ritmos afro-brasileiros conquista pelo gingado e pelas letras espirituosas e cuidadosamente esculpidas. Hoje com 5 EPs na bagagem, Léo e sua trupe preparam-se para novas aventuras.

As influências musicais do compositor passam por Jorge Benjor, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Arctic Monkeys, Paul McCartney, The Beatles, Papooz, Summer Salt, Stevie Wonder, Kanye West e Peter, Paul & Mary. Além da banda, Léo flerta também com a literatura como colaborador da revista eletrônica Mormaço. “Culpa” esta atribuída ao leitor de Jorge Amado, Gabriel García Márquez, H.P. Lovecraft, Agatha Christie, Julio Ribeiro, Machado de Assis e Stendhal, para citar alguns autores. Lembram das tais letras cuidadosamente esculpidas? Pois é.

Em entrevista exclusiva a Diversos Afins, Leonardo Passovi aborda os novos rumos da banda (ou do atual duo ao lado de Igor Quadros), suas aspirações artísticas e analisa até mesmo os 15 minutos de Warhol reduzidos a ínfimos 15 segundos de TikTok. Enquanto isso, o Flerte Flamingo prepara-se para o lançamento do EP Truques Velhos Para Cachorros Novos e acaba de divulgar duas novas canções em formato acústico, “Calma, Carolina” e “Ano Que Vem”, para o projeto Sala de Estar. Boa leitura!

 

Leonardo Passovi / Foto: Yvã Santos

 

DA O último EP do Flerte Flamingo, Outras Duas Músicas de Flerte Flamingo, foi lançado há mais de um ano. O que vocês fizeram nesse ínterim e quais os planos da banda para o segundo semestre de 2022?

LEONARDO PASSOVI – De lá pra cá, muita coisa aconteceu e muita coisa mudou. Nós saímos de Salvador e viemos pra São Paulo. É um processo de adaptação que requer uma boa dose de cautela, porque nós somos muito cuidadosos com o som da banda. Mas, neste meio tempo, canções foram gravadas e devem ser lançadas neste semestre. Sem dúvidas, há coisas por vir.

 

DA – Quais os fatores determinantes para a mudança para a capital paulista?

LEONARDO PASSOVI – Foi muito mais uma questão mercadológica. Estivemos aqui no ano passado e percebemos que, para além da parceria com o Selo Rockambole, há muito terreno a ser explorado e lugares para tocar. É uma terra que pulsa música de todos os lugares, muita gente se encontra aqui. A nossa leitura foi de que esse era o momento.

 

DA – Você acredita que, mesmo com a era digital, ainda é importante “sair da aldeia” para inserir-se no eixo musical concentrado entre Rio-São Paulo?

LEONARDO PASSOVI – Mesmo na era digital, algumas coisas nunca mudarão. O digital facilita em muitas formas, mas não se pode viver disso. A música ao vivo sempre vai se sobrepor. Pode-se ter o alcance cibernético que for, se não se traduzir em presença, de palco e de público, é telhado de vidro, castelo de cartas. O off-line sempre foi o nosso forte, botar 200, 300 pessoas num inferninho e fazer todo mundo dançar e cantar. Esse é o resultado mais prazeroso da nossa expressão musical: a conexão direta com a energia e o calor de quem gosta do som. Depois da pandemia, muita coisa ficou sucateada em Salvador, e em São Paulo há muito a ser explorado. Apenas há de se fazer as coisas com calma e equilíbrio pra que dê tudo certo.

 

DA – Por falar nisso, como vem sendo o processo de retorno aos palcos nesse período pós-pandêmico?

LEONARDO PASSOVI – O retorno aos palcos ainda não aconteceu de fato, porque a mudança pra São Paulo implicou também uma mudança na formação da banda.

 

DA – César Neto (baixo), Rodrigo Santos (teclado) e Igor Quadros (bateria) não vieram para São Paulo com você? Aliás, a banda sofreu algumas alterações de integrantes desde sua formação, em 2015. Como você analisa essas transições e quais as influências musicais que cada um trouxe?

LEONARDO PASSOVI – Viemos para São Paulo eu e Igor. As mudanças na formação, de 2017 até 2021, todas tinham sido na bateria, tirando um período de 6 meses em que César esteve fora do país e foi temporariamente substituído. Desde 2019, quando Igor entrou, a formação vinha sendo essencialmente a mesma. Apenas no último trabalho lançado, que Igor estava na França e Gabriel Burgos gravou a bateria das canções. Nosso som, desde os primeiros EPs, teve uma identidade singular, que eu acredito que se manteve, na medida que evoluiu ao longo tempo, seja por ideias novas e melhores, seja por mais intimidade com os processos de produção, gravação e interação entre os músicos. Cada um dos que passaram pelo conjunto contribuiu com sua particularidade e individualidade para o todo, mas a espinha dorsal tem sua linearidade. Esse, na verdade, é o momento em que certamente essas mudanças serão mais sentidas. Estamos medindo bem a temperatura da água antes de entrar.

 

Leonardo Passovi / Foto: Yvã Santos

 

DA – Como é a tarefa de manter aceso o espírito da banda em meio a tantas mudanças?

LEONARDO PASSOVI – Enquanto há canções para serem colocadas na rua, o espírito se manterá vivo, não importa o que aconteça. Não é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto se imagina. Mas sem dúvidas é a música que faz tudo isso andar.

 

DA – Os EPs Postura e Água Fresca (2017) e Espero Que Você Entenda (2020), além de uma sonoridade que remete a uma certa nostalgia, possui a temática voltada para letras “baseadas em fatos reais”. O que inspira o Léo Passovi compositor?

LEONARDO PASSOVI – Do que nós temos até agora pra tirar como amostragem, realmente são sempre situações de relações humanas, relações amorosas, como 98% das músicas no mundo. Só que acaba sendo muito mais sobre como o eu lírico se sente do que contando uma história. Não tem tanto o viés narrativo quanto o viés confessional das emoções. É uma forma de canalizar o que se sente enquanto provoca uma ou outra franzida de sobrancelha em quem sabe o que está por trás daquilo.

 

DA – Por falar em “viés narrativo”, você é um dos colaboradores da revista eletrônica da Mormaço (editora independente de literatura contemporânea). Como surgiu o convite e qual sua relação com a literatura?

LEONARDO PASSOVI – Entrei na revista quando ela ainda estava muito no começo. Um grande amigo meu faz parte da editora da qual a revista faz parte, e me chamou. À época, eu devia ter escrito um ou dois contos na vida. Mas assumir o compromisso de escrever mensalmente deu um novo gás à expressão criativa. Na infância e adolescência, li menos do que gosto de admitir. Mas tenho tentado tirar o atraso. Sempre gostei de contar história e acessar emoções das pessoas através de fatos. A escrita possibilita uma escolha das palavras certas e definitivas com as quais essas emoções serão provocadas. Além de ter, quase sempre, um toque de terapêutico. Eu recomendo a praticamente todo mundo que pratique a escrita no dia a dia.

 

DA – Em que medida o Léo Passovi compositor se converge com o Léo Passovi escritor?

LEONARDO PASSOVI – Difícil é saber em que medida eles se separam. É o mesmo jeito coloquial, conversativo de se comunicar com quem consome o material, seja lendo ou ouvindo. Quase sempre focando no que a personagem em questão sentiu. Mas enquanto um é em prosa, o outro é cantado; enquanto um tem começo meio o fim, o outro faz uma miscelânea de sentimentos que aos poucos situam o ouvinte.

 

DA – Como é seu processo de composição? É um processo solitário como na escrita ou ao contrário, você prefere as parcerias musicais?

LEONARDO PASSOVI – Completamente solitário. Já fiz parcerias, mas meu ritmo é muito particular, não é muito consistente e o processo acaba sendo muito íntimo e individual. Eu costumo precisar me acostumar muito com a escolha de palavras + melodias antes de dividir. Preciso ter certeza que encontrei a melhor junção. Ainda preciso desencanar e desapegar um pouco de certas agruras do processo pra poder fazer em companhia de outras pessoas. Mas já aconteceu, tanto de escrever com outras pessoas, como de escrever canções diante de pessoas.

 

Leonardo Passovi / Foto: Yvã Santos

 

DA– Você tem vontade de lançar um projeto solo? Qual a característica do seu trabalho individual que não “caberia” na banda?

LEONARDO PASSOVI – Todo trabalho que eu faço musicalmente é pensando na banda. Muito pontual eu criar algo sem esse propósito. A não ser que seja por pura diversão. Mesmo as coisas que eu componho que não se encaixam com o momento da banda são com o propósito de virar o próximo momento da banda. Flerte Flamingo é o combustível das minhas criações musicais.

 

DA – Como você avalia esse processo de “tiktokzação” da música e a pressão de selos e gravadoras para que os artistas recorram à plataforma para viralizar seus singles?

LEONARDO PASSOVI – Preocupante. Intensifica o imediatismo para com os resultados, enlata um formato desgastante e desgastado. Obriga pessoas que normalmente não têm costume de se comunicar dessa forma a mendigar atenção de maneira patética. Toda a papagaiada das dancinhas, das trends, da ânsia por viralização faz mal a uma multidão e beneficia um ou outro sem nenhum tipo de critério. É um terreno ainda muito movediço, todos os envolvidos ainda estão tateando. Os responsáveis pela elaboração de estratégias que se voltam pra essas ferramentas tentam encontrar algum padrão, mas isso é muito ilusório, porque a qualquer momento algo completamente despropositado rouba a atenção de todos, virando a “nova fórmula”. Enquanto isso, o mundo da música, como parte do mundo do entretenimento, tenta se espremer por ali, suplicando que 15s de música sejam ouvidos, senão a atenção do usuário já foi embora. Ninguém faz 15 segundos de música. Uma canção tem um propósito, uma proposta estética, uma sequência de momentos de humores que empobrecem muito se o foco for criar 15 segundos viralizáveis. É muito triste ver um universo tão rico se submetendo a essas ferramentas por dificuldade de conseguir atenção e financiamento. Vendem isso como uma parte de ser empreendedor, mas na verdade aquilo é a tecnologia fazendo as pessoas literalmente dançarem pra conseguir um tostão de atenção, pelo pavor do esquecimento e pelo desespero pra alcançar alguma concepção de sucesso. Vez por outra, assopra algum vento contrário, algum eco de reação em nome da salubridade das pessoas e dos processos, que dá uma fagulha de esperança a quem percebe o mal que isso faz. Mas é tão inútil dizer que isso é passageiro quanto é dizer que é duradouro. A gente nunca sabe o que vem depois. Mas, nesse quesito específico, as perspectivas não são animadoras.

 

DA – É possível conceber a vida sem a arte? Qual sua maior “munição” enquanto artista?

LEONARDO PASSOVI – Nos últimos anos ficou bem claro que a arte é o forro interno que nos mantém sãos. Muito mais do que mero entretenimento, é a vida se olhando em espelhos. A arte joga luz sobre as coisas que a vida prática esfumaça. A função do artista é observar, apontar o dedo é falar “ói”, pra que as pessoas vejam o que elas não estavam prestando atenção. Mas o artista também é gente. Então tem hora que o artista simplesmente vai querer falar sobre como ele se sentiu. E isso toca a pessoa na medida em que ela sentiu aquilo também, ou apenas empatiza com uma forma convincente de expressão. A munição é a capacidade de observação e as experiências alucinantes que a vida propicia. As menores coisas podem virar as maiores presepadas. A beleza tá em saber retratar.

 

Larissa Mendes espera que você entenda sua predileção por conversas profundas, postura e água fresca.  

 

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149ª Leva - 04/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Ilustração: Drika Prates

 

 

DL50

 

busco a poesia
…..capaz de sepultar o que somos

caracteres de toxicidade aguda
letras de paralisia
……………de asfixia
………………..e de coma

a palavra
em dose
e efeito

semântica sem remédio

que o primeiro verso baste
…..e o último
…………………………..vague

 

 

 

***

 

 

 

mal tempo

 

quero inquietar,
incomodar o recôndito.

causar desassossego
naquilo que descansa.

o engano flore e frutifica
no paradeiro.

sopro a tormenta,
com raio, chuva e trovão.

provoco o desastre
que varre as encostas.

inicio tempestades de areia,
transporto dunas
e cubro ruínas.

que venha o novo.

o efeito perturbador
elimina o status quo.

 

 

 

***

 

 

 

atrito

 

seguro o jornal como quem apanha a notícia.

o movimento que faço com os dedos
mancha-os com a tinta. borro palavras
e aquela informação me suja.

a notícia parece volúvel, da mesma qualidade
da impressão. letras de contornos frágeis,
que qualquer fricção deforma.

abandono o jornal como quem recusa a notícia.

 

 

 

***

 

 

 

fluxo

 

a árvore não guarda a semente,
nem o faz a flor.

quem vive ensimesmado
não dá fruto,
tampouco amor.

 

 

 

***

 

 

 

vilania

 

podes voar alto,
mas tua sombra anda rasteira,
acorrentada ao teu corpo.

pesado como a noite,
o teu decalque
esfrega-se nas imundícies do chão.

mesmo que ligeiro,
arrastas-te sobre cuspes
e vidas extintas.

cobres os seres vis
que um dia te cobrirão,
no ciclo eterno da natureza.

o carbono que ora te compõe,
já foi húmus, árvore, fruta
e podridão.

 

 

 

***

 

 

 

contra o medo

 

o medo, este fantasma
que se materializa
na fraqueza.

ele se alimenta
da coisa evitada
e dessedenta-se com lágrimas.

vencê-lo
é penoso
– exige matar sozinho
um parte de si

ou, a dois,
apertá-lo entre as mãos dadas.

 

 

 

***

 

 

 

o tempo de conversão

 

as evidências da razão
depõem a favor da probabilidade
para abordar as premissas do acaso
em discursos impalpáveis e falíveis

os dados lançados
fora do tabuleiro de Deus
submetem-se à álea da gravidade

 

Geraldo Lavigne de Lemos é poeta e advogado, membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos seis livros de poesia.

 

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149ª Leva - 04/2022 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Lorena Grisi

 

Ilustração: Drika Prates

 

Exercícios físicos

 

Faz atividade física? Faço, longe de mim ser sedentária. Não fumo, bebo pouco e carrego comigo este carma de gerações, estes genes, o peso dos dias, esta cabeça que não vem sobre os ombros, vem sobre o pescoço, porque os ombros, é o mundo o que eles suportam e por isso tenho hipercifose. Não sou preguiçosa, ando a pé por essas ruas levando tudo o que é desnecessário em minhas costas, só para ter certeza de que não vou utilizar, mas está tudo ali, são coisas minhas, é tudo o que tenho, pode-se dizer que configura um patrimônio. Juntei cada uma dessas peças como quem guarda pedaços de quebra-cabeças distintos na esperança criativa de montar paisagem própria, forçando encaixes e aceitando que buracos são também composição de destinos. Portando sempre meus objetos, sou meu meio de transporte, meu caminhão de mudança para cada apartamento semimobiliado alugado e, no percurso, perco bibelôs e memórias, o que deixa mais leves as caixas de papelão e é por essa razão, ademais, que eu sempre fui bem magra, embora nunca, nunca mesmo, tivesse sentido medo de que uma ventania me levasse consigo. Tudo ótimo enquanto estiver perdendo bibelôs, o que não dá é para perder as chaves, a cabeça ou o prumo. Eu sou muito ativa, me exercito, escrevo, apago, escrevo, reviso; no ano seguinte, eu abro o mesmo texto e reviso, apago, escrevo, guardo, esqueço. Esse exercício fortalece a mente e os ossos, explico, ele recomenda musculação três vezes por semana, no mínimo. Pergunto se ele já experimentou um teto desabando sobre si e tendo de levantá-lo com as mãos, no sentido oposto à gravidade, e isso na hipótese boa, que é a de ter um teto; ele me diz academia, corrida, pilates, eu digo meu querido, você não faz a menor ideia do que é ser uma mulher.

 

 

***

 

 

Língua morta

 

Fizessem uma perícia a cada vez que morre uma língua, constatariam males que incluem assassínios, genocídios, catástrofes naturais e outros desastres que geram órfãos, herdeiros de um inventário volátil e invisível. Onde o cemitério das línguas não mais ditas ou escritas, usadas, um dia, para dividir a terra em que se plantou o primeiro grão, onde se fincou a primeira bandeira, onde se construiu a primeira cerca em madeira e então se disse é meu? Em que língua uma mulher foi originalmente ofendida e deu seu grito inaugural de horror? Os despojos conhecemos até hoje, os despojos da guerra são do vencedor e a língua mantida viva também, em sua glória. Como se diz meu na primeira língua morta? Como se diz eu? Como se diz não cante essa canção em voz alta, não narre esta fábula? Fato é que hoje e em qualquer raio de futuro, mesmo antes do café da manhã, conviveremos com restos mortais de línguas por todos os cantos da casa e do corpo, no pensamento, no olho do outro, nas plantas no vaso sobre a mesa, perpétuas (ou Gomphrena globosa). Há uma língua que não diz mais e não se entende, mas se sabe, exatamente como a conversão do dinossauro em galinha. A língua de carne, essa também pode morrer, mordida ou queimada, ardendo, dizendo três vezes palavra de maldição, cortada a faca para aprender que alguns vocábulos talvez devessem estar mortos também. Sepulta-se uma língua e ela jaz num túmulo em que se busca desvendar a pequena fotografia preta e branca, sem data ou epitáfio. Uma língua, hoje, é algo que existe primordialmente para dizer fique aqui, em dez minutos poderemos enxergar o satélite, e é a partir dessa fala que todo o mundo se recompõe e gira. Uma língua morta é um fantasma triste que corre de medo de crianças. É uma sobra nas sombras, a cápsula do tempo enterrada, acidente de trabalho de escavação.

 

 

***

 

 

Pretérito imperfeito

 

Acabou-se o que era doce e os nostálgicos garantem que ontem foi melhor que hoje, que os anos 80 não retornam mais, que nos anos 70 não havia Aids e eu concluo que a Guerra do Golfo foi muito pior do que a Guerra do Vietnã, porque a do Vietnã veio antes e tudo o que vem antes é melhor do que o que vem depois. Era doce. Poderiam ter conservado com sal ou com gelo, os nostálgicos, os saudosos, mas isso interferiria na doçura, que não voltaria mais e teríamos um passado salgado, ou aguado, nada condizente com nossa delicada história de afetos e ternura, mesmo que mais de um milhão de pessoas tenham morrido na Guerra do Vietnã. Era tudo muito doce, embora ensinem nas aulas de Ciências que são quatro as possibilidades de sabores – o doce, o salgado, o azedo e o amargo. Era tudo doce, mas acabou-se e agora usamos toda uma gama de açúcares ou de adoçantes artificiais que tornam a vida diária mais palatável e porque o doce, desses quatro, é o único sabor que tem conotação positiva e precisamos dele em nosso cotidiano cada dia mais insípido. Precisamos acreditar na doçura, mas os adoçantes artificiais são cancerígenos e o açúcar refinado dizem que é um perigo também. Os nostálgicos, os saudosos, vazios de um período em que o buraco na camada de ozônio era menor, e de quando não havia alimentos transgênicos, e de quando havia menos arranha-céus fazendo sombra nas areias das praias brasileiras, os nostálgicos se embrenhariam em pequenas fazendas produtoras de mel, caso as abelhas hoje não estivessem enlouquecendo com tanta mudança no ecossistema. Porque as abelhas também estão nostálgicas, saudosas e vazias, deu até no noticiário mês passado. Era doce, todos juram que era doce, mesmo que o Vesúvio tenha destruído Pompéia no primeiro século de nossa era, quando o Vietnã não era uma questão. Era doce, tinha até uma cereja em cima. Não salgaram os corpos de homens enforcados e de bruxas queimadas vivas, de modo que só a doçura se preservou na memória. De modo que neste atual século de nossa era teses estejam sendo escritas sobre afetos, músicas sobre a delicadeza sejam compostas e uma estética da suavidade esteja muito em voga nesse mês de outubro, hoje mesmo, quando não é mais doce como já foi, constatam os nostálgicos, os saudosos, os vazios e os perdidos. Era doce, foi doce. O pretérito imperfeito, dizem os gramáticos, exprime uma ação habitual no passado, enquanto o pretérito perfeito exprime uma ação que não era habitual. Acabou-se o que era doce, ser doce era habitual. Era uma vez. Desde o primeiro século de nossa era e mesmo antes. O anel que tu me deste era de vidro. Era doce, mas agora as abelhas enlouqueceram.

 

 

***

 

 

Carta

 

Se eu te dissesse – Me escreve, assim, a seco, intransitivo, o que você me enviaria? Uma carta de amor, de despedida, um cartão-postal, um e-mail, um bilhete, meu horóscopo, a foto de um recado no espelho, tua biografia? É certo que não diria diretamente que me ama, nem que acordou no meio da madrugada para não mais dormir porque não sabia onde eu estava e se eu voltaria. Me contaria do gato que trouxe para casa, da rua que mudou de sentido e agora deixa os motoristas confusos em frente ao prédio. Me diria que, mais útil que escrever uma carta, coisa que nem se usa mais, é escrever uma tese, um tratado, uma lei, algo que se imponha sobre os homens, palavras contra as quais qualquer insurgência é imputável com isolamento e castigos físicos. Teve aquela vez, na viagem ao Norte, quando eu perdi o catálogo dos lugares turísticos. Me escreve um catálogo. Me escreve um catálogo que fale se os lugares produzem arrepios, se têm cheiro, se o Sol vai queimar minha cabeça, se o caminho pode ser feito a pé, se, para chegar lá, basta fechar os olhos no chuveiro. Me escreve, mas escreve à mão, com essa letra que eu não entendo, mapa para a rua que mudou de sentido e que eu perdi, no meio da viagem.

 

 

***

 

 

A casa

 

A casa, caixa de móveis desembalados e descobertos de lençóis, habitada, durante o dia, por este sofá velho, vazio e emprestado, em que alguém já se sentou para não cair no chão de desespero e dormiu, perdendo a hora. Há grades nas janelas, mas o Sol tem sua incontornável liberdade de atravessá-las e de queimar os rostos nos quais hoje se veem manchas e linhas de quem observou a paisagem atônito. Eram duas as cachorras no pátio, latindo para os outros cães que passavam por trás do muro, e o barulho dizia dessa ordem perdida em que os seres se reconhecem, se cumprimentam e estão atentos aos cheiros. Nesta casa, três famílias, em seu tempo, celebraram aniversários, receberam notícias de mortes e penduraram quadros em diferentes paredes que já foram brancas ou amarelas. Da casa de baixo, sente-se cheiro de carne sendo assada e há uma conversa, entre mãe e filha, sobre objetos perdidos nas escadas. Debaixo dela, a casa térrea, vazia e de porta fechada, hospedagem provisória de ácaros e de pequenas aranhas tranquilas, na privacidade dos cantos e das frestas. A casa, arquivo de espantos em quarto e cozinha, tem uma moradora, à noite, na hora em que se imagina que todos dormem, mas há uma verdade e é esta: há o pesadelo, o suor frio e os banhos. É tarde para se preocupar com visitas, é cedo para consultar a meteorologia. E o universo é dentro da casa e, não, fora, e isso inclui os raios, as tempestades e os objetos não identificados, dos quais fazem parte utensílios domésticos que determinam a completude de um lar: mesmo sem uso, tem-se o que é preciso, além de um fogão, de uma cafeteira e de um acendedor automático. Vê-se, na sala, uma mesa com papéis e livros que indicam as tarefas de quem reside na casa. A mesa é bússola, é rosa dos ventos, por isso está centralizada. Em cima dela, um castiçal com uma vela apagada. Dali, contam-se dez passos para a cama, dez para o aparelho de som, dez para a gaveta de facas. A casa, neste terreno argiloso e infértil. Amanhece. Na rua em frente, os cães encoleirados passeiam na hora esperada.

 

Lorena Grisi nasceu em Salvador. Publicou, em 2021, o livro de poemas “Exercícios físicos” (Editora Paralelo13S). Tem textos publicados nas coletâneas “Hilstianas vol. 1” (Editora Patuá/Instituto Hilda Hilst, 2019), “Antologia Ruínas” (Editora Patuá, 2020), “Terra, fogo, água, ar: coletânea lírica” (Edufba, 2020), “Mulherio das Letras Portugal” (Editora In-Finita, 2020), “Parem as máquinas!” (Selo Off Flip, 2020), “Cartografias vol. 1: contos de autoras brasileiras” (Editora Primata, 2022), no Jornal Relevo (set. 2021), na oitava edição da revista Felisberta, na revista Aboio, na revista Mulheres do Fim do Mundo (abr. 2021), na segunda edição da Revista Torquato (abr.-jun. 2020) e na Revista Contempo (maio 2020).

 

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149ª Leva - 04/2022 Destaques Olhares

Olhares

Sobre o que transborda

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Drika Prates

 

Nas paisagens que vão por dentro, habita uma aurora de sensações. São cenários que movimentam paixões dispersas pela vida. Observações que brotam do que há de mais genuíno quando a viagem a ser feita é totalmente aquela que atravessa o painel das interioridades do ser. Nesse mergulhar fundo, a imersão traz vestígios das passagens por momentos dos mais diversos e faz com que a memória seja uma disseminadora de rastros afetivos.

É uma travessia em que o artista volta com um legado de capturas nas mãos. Como se não bastasse, sabe reverter isso a favor de sua criação. Difícil não levar em consideração os mergulhos que alguém como Drika Prates empreende com sua arte. São ilustrações que operam no continuum entre o dentro e o fora, tornando possível a coexistência entre tais dimensões. Durante a sua abissal incursão, não sentimos ali a contraposição entre as porções internas e externas do ser que a tudo observa com seus olhares atentos.

 

Ilustração: Drika Prates

 

Drika é, antes de mais nada, aquela que no engenho de seu ofício transborda as pulsações interiores da condição humana. O resultado disso é a materialização das zonas de percepção mais oníricas e abstratas possíveis em favor de uma arte que se afigura poeticamente desperta. Assim, vão ganhando forma sentimentos, corpos e espaços diante do tão almejado ideal de verdade propalado por todos os cantos. Ao que parece, buscar a tal verdade das coisas seria mesmo uma luta vã e não é sobre essa procura que se apoia a arte de Drika. Nela, importa muito mais saber que as modelagens que constroem suas ilustrações são movidas pelo desejo pleno do existir, essa maquinação mental capaz de harmonizar os mais dignos contrastes da nossa experiência como seres tão contraditórios que somos.

Entre o afago e as durezas do caminho, as representações de mundo engendradas aqui vão além desse gesto que extravasa interiores e os põe ali, na linha de frente com o externo. E é certo que as dualidades do ser também estão na ordem do dia quando pensamos o trabalho de Drika. Mas talvez isso não roube tanto a cena quanto a capacidade sensível que a artista tem de ressignificar os corpos femininos segundo uma ótica alimentada pelos desígnios da delicadeza. Esse mesmo feminino é moldado como um imenso e variado panteão de libertações, através do qual o ideal de amor-próprio e o gesto afirmativo diante de um mundo que dizima mulheres em todos os sentidos se consolida como uma ferramenta crucial de resistência.

 

Ilustração: Drika Prates

 

Atuando com design gráfico e ilustração, Drika Prates também se diz inspirada em primazia pelas formas da natureza. E não seria prematuro concluir que muitos de seus trabalhos artísticos contemplam essa fusão entre as humanidades e a natureza. Quando o assunto é falar de si num sentido de definição, a artista nos revela que não poderia ser tomada objetivamente ou de modo deveras óbvio. Prefere ser como um alguém que, assim como outras pessoas, é portadora de interesses múltiplos, humores e projetos. E aqui, pelo que sua arte sugere, tomamos a liberdade de incluir nesse rol também outra faceta para ela, a de pessoa sonhadora.

Com sensibilidade aguçada, um dos lemas da artista é deixar que a vida siga seu fluxo sem que se possa prever o resultado dos caminhos. Quiçá tal forma de pensar seja a chave para que, por meio dos profundos mergulhos de vida, sua arte ganhe um arcabouço estético que se prolongue no tempo. Quanto a nós, apreciadores dos trajetos aqui propostos, caberá a insondável tarefa de nos deixarmos tomar pelas alamedas revigoradas do inexplicável.

 

Ilustração: Drika Prates

 

* As ilustrações de Drika Prates são parte integrante da galeria e dos textos da 149ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual. Hoje, entre acertos e tombos, parece estar perdendo o medo de errar.

 

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149ª Leva - 04/2022 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Cristina de Souza

 

Ilustração: Drika Prates

 

Soterramento

 

Soterro a voz.

Aterro meu corpo
A um espírito mudo.

E em tudo que escuto
Só há silêncio

Marcado na ausência,
Na vaga.

No luto profundo
Pelo morto não morto,

Pela onda não quebrada,
Por esta maré vazante

Onde me afogo
Na terra,
Na areia
No nada

 

 

 

***

 

 

 

Identidade

 

Escondo-me
Por horas a fio
Enquanto me busco no espelho.
Finjo serem meus olhos,
Os olhos que me fitam
Sem me reconhecerem.

Hiberno
Dias inteiros
Em pelos que não são meus,
Em ossos que se fraturam aos poucos
Sem que eu os perceba.

Durmo
Numa caverna escura
Chamada quarto,
Aonde jaz uma cama branca,
Onde morro todos os dias
E moro todas as noites.

Risco
meu nome na identidade
perco
a foto na carteira
Apago
Minha face com a manga puída de um casaco velho

Esqueço-me
Numa gaveta.

 

 

 

***

 

 

 

Farpa

 

Descubro-me num
verso aberto, na
farpa do mundo.

Traço meu rastro
no deserto mudo.

Cactos secos em
solo rude e
céu vermelho.

Eu piso em pedras e
cascalho, madeira ressecada,
casca de árvores mortas.

Cabelos misturados à areia,
olhos que suam, sal rolando
de poros e escleras.

 

 

 

***

 

 

 

Cantiga

 

Sou feita de ecos
E ocos.
Sou filha da noite
Escura e sem luar.
Sou a santa pecadora
De palavras extintas
Coleciono preces que invento
Sem saber orar.

Sou cheia de ocos
E desfeita em ecos,
Canto uma canção de ninar.
Fogo brando é chama e vela,
Minha vida paralela,
Projetada numa tela,
Eu que já nem sei chorar.

E esta espera pelo amor
que não vem,

nunca vem.

Dias contados, rosto
marcado por rugas
que não tenho.

Noite cadente,
vida vertente.

A verdade é um soslaio,
enquanto a farpa enterra
a esperança na pele quente.

 

 

 

***

 

 

 

Invenção

 

invento a madrugada.

planto a manhã
com dedos hábeis e

do espelho azul do céu
minha espera germina.

minutos e horas
se vão,

cedo ou tarde
a luz confunde
o sol
com a lua cheia
prenha de prata.

arranco
a erva daninha
que brota dos meus pés,
raízes
me imobilizando:
cresço árvore

dos galhos do meu corpo
braços se movem
ao balanço do vento,

e minhas folhas dançam
em seda verde,
ondas sem mar.

espreito o poente,

recolho-me na noite,

o orvalho me abraça,
estrelas brincam.

durmo e amanheço
flor aberta
entranhas à mostra
corpo exposto

renasço
sou apenas eu
ser sem espírito
ondulando
meus espinhos secos
ao sabor do dia

 

 

 

***

 

 

 

Sem Rumo

 

sinto-me oca,
vazia
até a boca,
sigo só
a esperar.

espero
pelo nada,
tua risada,
meu medo,
nosso desencontro
e este desespero
de chegar

em qualquer lugar.

aterrizo
dentro de mim
cansada
e faminta
de luz

o escuro pinta
a noite sem fim
enquanto desperto
onírica
no azul profundo
deste meu
quase mundo,
onde meus olhos
se desvendam
nus.

 

Cristina de Souza é médica e poeta, vive em Fênix, Arizona, onde escreve e pratica medicina. Ela já teve vários poemas publicados em revistas literárias nos Estados Unidos e Europa (Inglaterra e Alemanha) e outros publicados pela revista Mallarmargens no Brasil. Em 2016, obteve um mestrado em literatura e composição literária pelo Vermont College of Fine Arts  e em 2019 teve um livro de poemas em inglês publicados pela editora Main Street Rag, intitulado “Grammar of Senses” (A Gramática dos Sentidos).  Seu email para comunicação é: colo2309@gmail.com. Seu livro “Quase Azul” está no prelo e deve ser publicado em novembro de 2022 pela Kotter Editorial.

 

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148ª Leva - 03/2022 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Gilucci Augusto

 

E lá vamos nós pelos caminhos, trilhando percursos e encontros pelas palavras e imagens. São 148 Levas através das quais a vida se manifesta em seu poder de nos encantar pelo trabalho feito na jornada editorial. E não há dúvida de que o motor central desse movimento recompensador é a contribuição das muitas vozes que passam pela revista com suas singulares feições. Cada uma delas, marcadas por universos particulares de expressão, nos diz de mundos no mundo, sugerem rotas, denotam desejos de toda ordem. Tudo isso assinalado pela vontade de comunicar, de compartilhar ideias, visões e sentidos que atravessam muito do que vai por dentro de cada ser. Mergulhar e viver a Arte é sentir o outro, aquele que nos propõe outras múltiplas vias até mesmo quando nossa visão parece um tanto aborrecida e carece de renovação. É, por assim dizer, um efeito dialógico, através do qual nossa presença no mundo resta acrescida em larga escala pelo olhar que emana de outras mentes. Editar uma revista como a Diversos Afins é, permanentemente, buscar escutas, abrindo as alamedas para que outras tantas pessoas se aproximem e tragam consigo perspectivas de apreensão no campo sensível da existência. Nesse sentido, palavras e imagens correspondem a um potente agregado de possibilidades, dando mostras de que estar no mundo é se deixar tocar por aquilo que também semeia delicadezas do olhar humano sobre as coisas. Com esse espírito a nos mover, nos rendemos a grandiosas descobertas. Uma delas é o sublime trabalho do fotógrafo baiano Gilucci Augusto, que nos presenteia com uma exposição de algumas de suas imagens agora em nossa nova edição, sendo que a temática evidenciada pelo artista promove belos e instigantes percursos evocados pelo corpo. Não menos diferente é o impacto que os poemas de Laura Assis, Lucio Carvalho, Patricia Porto, Julia Sereno e Drika Prates proporcionam em nós. Um dos nossos pontos altos fica por conta da entrevista que Larissa Mendes fez com o cantor e compositor pernambucano Juvenil Silva, artista cuja sensibilidade areja os novos ambientes da música brasileira. Nosso Gramofone contempla a resenha de Marcelo Frazão para o novo disco do Projetomacabéa, álbum capitaneado pela expressão de Alisson Lima. São de Wilton Cardoso as atentas linhas de análise para “O corpo de uma voz despedaçada”, livro de poemas de Wesley Peres.  No território da prosa, estamos muito bem servidos com os contos de Wellington Amâncio da Silva, Adriana Vieira Lomar e Rodrigo Melo. Com seus mergulhos sempre precisos, Guilherme Preger chama nossa atenção para o premiado filme japonês “Drive My Car”. Por seu curso, Sandro Ornellas, com suas valiosas percepções, nos convida à leitura de “1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite”, mais novo livro do poeta e multifacetado artista W. J. Solha. Nossa estrada segue adiante, cara leitora, caro leitor, certos de que o melhor de tudo é contar com sua companhia. Boas leituras e imersões!

Os Leveiros

 

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148ª Leva - 03/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Adriana Vieira Lomar

 

 

 

Os gerânios me entendem

 

Sei que o nome dela por aqui é um tabu, mas assisti à cena, e isso anda me incomodando. Vou omitir seu nome. Ela não virá contra mim, caso algum dia leia esta nota. Se bem que… Não correrei esse risco, guardarei estas linhas no fundo de minha gaveta, como uma joia de família. Gaveta a ser aberta por seus herdeiros – e tal coisa ocorrerá, quando tanto eu quanto ela já estivermos em outra dimensão.

Estou na janela aguando os gerânios. A tarde desmaia de preguiças, enquanto a Lua emerge. Uma inquietude em mim, um mau prenúncio. A rua quieta ao extremo traz o cheiro das trevas, do susto e do imprevisto. Quem dera eu estivesse errada…

Ela está voltando da escola, quando os quatro bem mais velhos a abordam. Medrosa, sento-me no chão frio da sala e, entre as grades, assisto. O som do asfalto, a rua deserta assovia quando as folhas tocam o chão fedido.

Os quatro ecoam juntos o boa-tarde mais sentido que já escutei. Suas vozes não chegam até o segundo andar, onde permaneço escondida. De súbito, ela abre a camisa. Antes, olha para todos os lados. Agacho-me ainda mais. Deito-me no chão, agora mais frio. Entre meus olhos e a cena, há um fiapo de grade – uma grade porosa.

Vejo um par de seios frescos, com bicos rosáceos e espertos. Um beija o esquerdo, outro o direito. Os outros dois permanecem quietos, de braços cruzados, olhando a rua como quem vigia. Passados alguns minutos, talvez dois, eles trocam de lugar.

Os dois tiram a saia de pregas. Ela no meio, entre os dois esmaece. Sua bochecha rosada deita no braço cabeludo de um deles. A essa altura, não sei o que fazer. Prefiro observar os fragmentos dos gerânios que ainda me parecem hidratados.

As doze baladas do sino vibram na pequena cidadela. Canso-me de permanecer deitada e me sento. Os cinco ainda estão na rua ainda deserta. Ouço seus gemidos daqui. Nem os sinos impõem receio. E se eu tiver coragem e simplesmente aparecer ali?

Mas isso não dará certo. Trabalho para o pai dela, o prefeito. O cara é viúvo, um pobre coitado. E aqueles quatro, vi todos nascerem, conheço suas mães. Todas estudaram comigo. Também, pudera, haveriam de estudar em outro lugar? Por aqui só há uma escola, a mesma onde ela estuda, que mantém o mesmo uniforme, apesar de três décadas terem passado, assim, feito mágica.

Vou permanecer aqui boquiaberta, rezar um pouco, pedir para os cinco se mancarem. Meu Jesus Cristo, tende piedade de… Não deu outra, uma pancada de chuva daquelas devastadoras, com direito a raio, trovoada. No ritmo em que meu coração bate, de puro desassossego.

Os quatro correm em direção a suas casas desertas. As mães estão na igreja. Ela, feito uma estátua, permanece ali, com a blusa desabotoada. Tenho que ir a seu encontro, preciso abotoar cada botão. Exercer a maternidade que não quis para mim.

E, com muita dor, feito faca me cortando, eu a vejo saindo do ponto em que estava. Partindo com sua saia de pregas abaixo do joelho. Caminhando como se estivesse embriagada. As meias brancas e bordadas borradas de terra e a sapatilha de boneca gasta.

O emblema da escola São José do Amparo sobrevive. A essa altura, estou na esquina. E, de olhos fechados, lembro o dia em que a gerei. Meu sumiço e o dia em que presenteei o prefeito. O grande vazio. Minha vida sem graça.

Na direção contrária, corro e volto a aguar os gerânios. Ela não me vê. Meus gerânios não falam. E, dessa sacada, posso chorar. Eles me escutam.

 

 

***

 

 

O louva-a-deus

 

Uma folha voadora chega aqui e faz cócegas em meu nariz. Veio só com esse propósito. Logo depois da missão, ela cai esparramada no chão batido de cimento frio. Por quantas ela passou para chegar aqui? Passou por um corpo ainda morno e vigiado por um bando de urubus que trafegam no espaço aéreo azulado. Eles só observam o momento certo de limpar as vísceras do corpo estendido e mortificado.

Ainda estou sem palavras. Nem sei como começar. Minhas pernas tremem, mas tremiam bem mais antes de ela passar por aqui.

Ela deixa um cheiro bom de alecrim, que me remete ao dia de ontem. Nós estávamos bem, comíamos na grande mesa rememorando nossas histórias antigas, mas ainda não comentadas, apesar do tempo tão longo de vida em comum. Tomamos vinho branco, da cor da neve, que vimos pela primeira vez. Degustamos um peixe rosado e carnudo chamado salmão, que bem lembra os sermões escutados durante as aulas de catequese. Debandamos. Nessa época, eu ainda não o conhecia. Em lugares diferentes, permitimo-nos não acreditar mais em dogmas. Criamos os nossos.

O inhame assado com raspas de limão traz a lembrança da terra por adubar e a florada como um unguento nos dias de sofrimento. A sobremesa – cajus derretidos em manteiga de amêndoas – remonta aos gritos de chamar para o almoço o menino peralta, que inventava de subir no ponto mais alto do cajueiro e encher o tacho da mãe com o fruto.

Depois da comilança, resolvemos dormir. O cheiro ainda era bom, apesar da idade avançada, da lembrança de que um dia o torpor da juventude habitava todo o domingo de beijos e toques na pele desnuda. Diminuídos em tamanho, com a tez enrugada e vincada, nós dois gostávamos de dormir feito caramujos.

Não sei quando aconteceu. Há um grande vácuo. Estava adormecendo, quando ele me pediu o travesseiro. Logo depois, mais um pedido inaudito. Disse que não, não poderia jamais cumprir sua ordem. Depois, ele veio com aquela conversa de que eu era mais nova e deveria lhe obedecer. Virei meu corpo para trás. Com raiva, adormeci. Nunca, em seis décadas, dormi sem beijá-lo. Meu braço ficou no vazio.

Meus braços estão vagos e desocupados. Os urubus agora o rondam de fato. Minhas pernas estão fracas. Meu silêncio ainda está ocupado pela raiva.

O boom da bala que me fez acordar. Algumas horas atrás. Sem vizinhos, nesse bosque, ele me deixa assim, solitária.

 

 

***

 

 

O desconhecido

 

Estou no túnel. Agonia. Na urgência em chegar à casa de saúde. Estou a cem por hora. Talvez seja multada. Minhas extremidades suam, o vômito ameaça chegar, o coração acelera e me vem o medo da morte. O túnel é longo, extenso como o corredor da sala grande. Da sala grande. Da sala grande da fazenda. Lá, eu estou atravessando a escuridão. O maço é vermelho, os cigarros são recomendados para tirar a ansiedade. Eu os pego com minhas mãos miúdas. Devolvo a meu cowboy e ganho o posto de menina corajosa.

Meu cowboy me espera no quarto de hospital, mas não sei se consigo atravessar o túnel para me despedir. Não posso parar o carro. Os faróis ferem meus olhos. Minha retina ameaça fechar. A velha imagem do corredor longo me vem à tona. Os sofás na penumbra presenciam meus passinhos curtos e medrosos até o birô. As corujas me assistem. Consigo pegar o maço inteiro, mesmo sentindo um frio na barriga. Retorno com o maço e o entrego. A mesa está lotada. Ouço aplausos. Conseguirei chegar até o hospital? As pernas tremem, meu coração pula em disparada, partes de mim adormecem feito câimbra.

Quero abraçar meu velho cowboy. Em mim, berra a urgência em encontrá-lo antes que ele parta para sempre. Mesmo sentindo a morte chegar, o túnel ainda escuro, preciso vencer a escuridão. Morrer é uma certeza de todos. Volto a me ver naquele velho corredor da cozinha para a sala grande, vejo-me pequenina tomando banho no breu. Escuto minha voz de criança dizer que tinha medo, ouço sua voz de tenor dizer que, depois do coração aos saltos, a brisa leve e cheirosa virá. Como uma montanha-russa – horrível a primeira vez, depois vira adrenalina. “Será que consigo, meu cowboy?” “Treine primeiro. Pega meu maço lá no escritório. Terás que atravessar a longa sala, sem sinal algum de claridade. Nem candeeiro vale.” “Não consigo.” “Tenta, minha amada, tenta.”

Seu timbre me guia até a casa de saúde. Aturdida, caminho até a recepção. Estou ali para me despedir do cowboy. Respiro fundo e me apresento.

“Quarto 201, senhora.”

Entro no quarto, espero encontrar um homem velho partindo. Lá, encontro o cowboy me pedindo para assistir ao campeonato mundial. Pelé está em plena forma. Ele não lembra que eu ainda tinha dois anos quando Pelé jogou pela última vez. “Sou eu, meu cowboy, não está me reconhecendo?” “Como não iria reconhecer-te? Estou sim. Preciso te contar um enorme segredo, não contes a ninguém. Eu sei que tu és igual a mim, e não contarás.” Aproximo meu ouvido e ouço o cochicho mais ardido e sofrido de se ouvir. Com lágrimas em meus olhos vividos, só digo sim com a cabeça. Jamais conseguiria deixar de perdoá-lo. E ali, naquele quarto frio e sem graça de hospital, ele partiu, imaginando Pelé.

Seu semblante era de paz. Aliviado, morreu sem culpa. Depois do enterro, voltei a atravessar túneis. Sinais verdes e sinais vermelhos. Por um tempo, continuei sentindo falta de ar, achei que iria morrer. Meus pés suavam, minhas mãos tremiam. Mantive-me na esfera do medo, medo de não conseguir voltar para casa com vida. Mas aquela voz de tenor me acompanhou e continua me acompanhando. E, assim, os tijolos criados pelo medo continuam desabando. Com a luz acesa, tomo banho e deixo a água lamber meu corpo fatigado. Na mistura de lágrimas com água, permanece o segredo dito: “Você tem uma irmã e precisa dividir a casa, a terra ou o que mais deixei.”

 

Adriana Vieira Lomar é Integrante dos Quinze e  do “Caneta, Lente & Pincel. Pós graduada em Arte, Pensamento e Literatura Contemporânea e Roteiro para TV, cinema e Novas Mídias pela PUC-RIO, autora de “Carpintaria de sonhos” e do romance “Aldeia dos mortos”, esse pela editora Patuá.

 

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148ª Leva - 03/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Patricia Porto

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Retrato

 

O corpo é uma promessa
Um passaporte para o estrangeiro.
Carrega luz e outro tanto de oculto.
Nem todas as camadas podem ser escavadas.
O rosto esconde poços. Com e sem água.
E há mais da sede que poço.
Todas os símbolos são expressões do encontro
entre o deserto e a passagem de mar.
No rosto daquela mulher há uma constelação,
uma onça que nada,
uma casa sempre assombrada.
Um bebê derramando choro no escuro
é quem ela embala em fantasia.
O Cão morde seu calcanhar
e ela ainda Monalisa.

 

 

 

***

 

 

 

Fênix

 

Apesar dos grandes abalos
Sísifo encontrou a luz
Era uma luz pequena.
Uma luzinha de nada.
Um pedacinho claro na fria escuridão.
Apesar dos outros muitos lugares de medo,
na saída foi que Sísifo encontrou o tempo de mastigar
– com dentes afiados na pedra –
os desgostos do pássaro morto.
Apesar do imenso infortúnio da noite,
Sísifo feliz saiu dos escombros
da casa incendiada,
não nas asas de um ser vivo,
mas com as asas de sua ave morta.

 

 

 

***

 

 

 

A mulher de Safo

 

Uma mulher inteira é uma mulher intensa
é uma mulher na cabeça
nos desvios
vãos
abismos
entranhas
vulva e falo
uma mulher inteira é inteira na palavra
é inteira ao acordar com seus humores
seus cheiros
axilas
pelos
suores noturnos
uma mulher inteira é um bicho de si mesma
é concreta e abstrata
é múltipla e una
é uma mulher na cabeça
uma mulher inteira não passa por um ângulo ou agulha
uma mulher inteira é um círculo de ciclos
é uma mulher descalça em seus pés
é uma mulher que ri, gargalha, não teme
e chora e grita se for preciso
diante do soco
diante da merda que corrói o amor
diante da rigidez, do autoritarismo
é uma mulher que se atravessa
se alimenta de seivas
se reconstrói
se reinicia
se regenera
se liberta
se emancipa
para dizer todos os adeuses
para colocar fim nas histórias mortas
é uma mulher que se levanta dela mesma
e anda com sua cabeça

 

 

 

***

 

 

 

Casa do mar

 

o amor como esse vinho que cai sobre a toalha branca
o amor como esse sangue derramado no sofá branco
o dia feito sangue e vinho
as aves dos dias em que tudo escoa
tudo molha
tudo mofa

o amor como esse vento frio dos homens
o amor na geladeira
com as frutas

no tempo das castanhas
das folhas jogadas ao chão

o amor dos inacabados
para onde caminhamos sem saber
se ainda somos crianças ou não
se somos velhos ou figos

o amor na porta de entrada
um gato quieto, parado
estranhado de sua natureza

vive e respira
profusamente

 

 

 

***

 

 

 

Às cegas

 

O amor é uma dança de espelhos
Uma dança de corpos
Uma aliança entre elementos químicos
Quem dera eu tivesse um cão guia
para me ajudar nos teus passos

 

 

 

***

 

 

 

Casulo

 

A noite caiu como fiapo de tempo
Guardei as histórias de chorar
Para depois
Depois de nós, de um amontoado de fantasmas
Desfilando sonoros
Em nossos países de dormir, matar ou morrer

Seremos um dia os mesmos de ontem?
Guardei minhas esperanças na caixa de sonhos
alucinações, um casulo de doídos,
uma Pandora decidida

e estou mais velha que meu espanto
branqueio na paisagem

 

Patricia Porto é poeta maranhense, Doutora e Mestre em Políticas Públicas Educação, formada em Letras, publicou vários artigos, a obra acadêmica “Narrativas memorialísticas: por uma arte docente na escolarização da literatura” e os livros de poesia “Sobre pétalas e preces”, “Diário de viagem para espantalhos e andarilhos”, “Cabeça de Antígona” e “Casa de boneca para elefantes”. Participou, ainda, de coletâneas literárias no Brasil e no exterior.