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142ª Leva - 02/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Vivian Pizzinga

 

Foto: Joice Kreiss

 

viga-mestra

 

coleciono noites. Olho aberto deslizando impune sobre prateleiras, livros, cinzeiros, hélices de ventiladores, olho aberto avançando sobre os escombros do que sobrou do dia. Há certa mudez ressoando nos quadriláteros adjacentes à sala estupidamente calada. Coleciono delinquências íntimas no caminho do baixo ventre, eloquência insuspeita que não deixa pistas, caminho borrado das 3 da manhã ou mais. Coleciono horas mortas em dias úteis, escassas tardes no que há de ar nos pulmões, e é quase nada. Coleciono asfixias, apneia viga-mestra num punhado de hesitações, olho aberto percorrendo a dúvida, vida esporádica percorrendo o chão. Na contabilidade dessa vigília endêmica, é dia sim, dia não que se dorme. Coleciono olhos abertos em seu escrutínio pela noite desprovida de bordas, avermelhadas pupilas de quem há muito se perdeu do caminho do sossego. E note: nenhuma gota a mais resolve o impasse. Coleciono solilóquios. Deslizes. Dias amanhecendo em qualquer época do ano.

Coleciono ecos.

 

 

***

 

 

miasma

 

isolada. exilada. asilada. arrasto um nó górdio no epicentro do corpo. vômito acumulado (volumoso líquido miasmático com espessura em centímetros) ou fome de muitos dias. o nó górdio deu cinco voltas ao redor do pâncreas, associou o fígado no bolo visceral e arrebanhou estômago e intestino delgado na embolada sem repente. a jornada em espiral do nó adelgaçou o intestino grosso, deu pontadas no marco inicial da garganta, fez o céu da boca rebaixar seu pé direito: língua esmagada, dentes espatifados, voz desaparecida, procura-se. jogo-me na cama, em exílio. pode ser que não me levante mais. olhos fechados pingando suor miram o teto com insistência. por horas a fio. asilo. azia. perco o fio da meada.

 

 

***

 

 

erro de cálculo

 

devastação. sintoma. erro de cálculo. entre o desejo, o amor e o encontro, larguíssima margem de erro. isso foi o que disseram, isso foi o que anotei. sintoma, glaucoma, rizoma, livre associação de palavras fanhosas. e os cadernos? esses, em que desenha suas anotações e depois joga fora, farta da sua fisionomia ali espelhada em letra que ninguém entende. e os cadernos? engodos com pauta, um preparado promissor de garrancho e linhas tortas. blocos prontos para o fracasso. às vezes, contêm espiral. não levam ninguém a nada, só à última página. 98 folhas. lá estão anotadas as pegadas sujas desse erro de cálculo, desse cálculo errático, dessa margem sem borda. é sintoma errante o que trago nas mãos, sempre retorna ao peito natal, aloja-se eficaz na sombra espraiada no lado esquerdo. é glaucoma que estoura a vista, liquefaz a paisagem imediata, rizoma que não se desborda. o amor é erro e é cálculo sim, acolho as advertências, sequer uso o artifício da rasura. mesmo assim indago, com o sintoma pulsando desde dentro, devastação a céu aberto, erro de cálculo numa equação sem começo, mesmo assim pergunto, minha voz um murmúrio acovardado: mas, vida, e se aí, quem sabe, eu for feliz?

 

 

***

 

 

repousa a cabeça larga na colcha do fracasso. de bruços, pensamentos disléxicos, afetos dislálicos, paixões tristes. quer esquecer o dia, apagar conversas da lousa ressecada, ocultar intentos. sente o lençol morno ofuscar o corpo, o sol morto descascar a sombra. epiderme castigada de toques sem mãos. afunda no colchão rugoso, ponte entre o nada e  coisa alguma, toca de silêncios distraídos.

desiste.

abandona a memória de si encorpada de atributos rasos. é melhor esvaziá-la. fecha os olhos vivazes para os sinais das vísceras em levante. desaprende a língua pátria, os gestos hábitos, os gestos rápidos, os gestos dádivas. repudia os verbos vagos. persegue o juízo último, perde o ar na empreitada. dobra em quatro o pensamento, adia-o, agora não.

adormece sem argumento.

prefere não ter razão.

 

 

***

 

 

quando eu quase morri 

 

quando eu quase morri, havia pessoas à minha volta, elas não disseram nada, não fizeram nada, e não pude gritar. quando quase morri, minha voz virou um fiapo estrangeiro, e era áspero, e era triste, era terreno baldio. as pessoas que me rodeavam (havia pessoas me rodeando) não sabiam que eu quase morria, mas ouviram meu fiapo. uma delas chegou a tocá-lo, aquele fiapo estrangeiro, irreconhecível, esguio. ela puxou o fiapo, e o esticou, e o esgarçou, e minha voz era agora um istmo, deixou de ser território, nunca foi lar. quando quase morri, ninguém me reconheceu, e o último a sair não se preocupou em apagar a luz.

 

Vivian Pizzinga é escritora e psicóloga. Lançou Dias Roucos e Vontades Absurdas (contos), em 2013, e A primavera entra pelos pés (contos), em 2015, ambos pela Editora Oito e meio. Em 2018, lançou, em co-autoria com o escritor Igor Dias, o romance epistolar Extravios, pela mesma editora. Tem participação em coletâneas diversas, como Escriptonita (Patuá, 2016) e Cada um por si e Deus Contra Todos (Tinta Negra 2016). Atua como psicóloga em Saúde do Trabalhador e na clínica.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

FLERTE FLAMINGO – ESPERO QUE VOCÊ ENTENDA

 

“De onde essa gente vem
Que eu quero seguir também?
Pra onde essa gente vai?
Me leva pra onde sai”

 

Os versos da canção Longe da Bahia, do álbum de Teago Oliveira, exemplificam a aura de magia que paira sobre a terra do axé e dos orixás, sobretudo no que tange ao berço de gêneros e talentos musicais. Criada de forma despretensiosa no verão de 2015, a Flerte Flamingo foi concebida – no que se tornaria uma nova cena cultural independente de Salvador – com uma proposta sonora pautada na espontaneidade das composições de seus integrantes. Apesar da verve originalmente roqueira do grupo, as canções carregam o balanço do samba e de outros ritmos afro-brasileiros, como o ijexá e o samba-reggae. Composta por Leonardo Passovi (guitarra), César Neto (baixo), Rodrigo Santos (teclado), Bernardo Passos (percussão) e Igor Quadros (bateria), e com influências que vão de Arctic Monkeys a Jorge Ben Jor, a banda faz música brasileira com elementos do indie, samba-rock e pop contemporâneo. Com uma pegada regional, ilustrada pela percussão sempre marcante, as canções são basicamente pautadas na temática amorosa e experiências pessoais. Produzido pelo músico Junix11 (Baiana System), as cinco faixas autorais de Espero Que Você Entenda (2020), segundo EP da banda, lançado em todas as plataformas de streaming, reverberam a brasilidade das décadas de 60 e 70 a la Jorge Ben, João Donato & cia.  A obra imprime a irreverência do projeto, composto por letras “baseadas em fatos reais” e com uma musicalidade nostálgica que às vezes remete à displicência vocal do pernambucano Fred Zero Quatro e seu Mundo Livre S/A. O som reafirma ainda essa espécie de “movimento lírico-poético-estético brasileiro calcado num retorno ao pós-futuro”, como filosofou Pedro Gusavaqui, em sua resenha para o site El Cabong. Seria a tal saudade daquilo que ainda não vivemos?

O suingue de Não Te Quero (o que será que é pior/ser triste com alguém ou ser triste só?/aposto que eu e você/nunca vamos descobrir) abre o disco contrastando com a melancolia de um amor. Se a libertária Curió (minha poesia/não tem mais espaço pra você/e tudo que eu falei já não tem valor/decaixaem caixa aminha vontade/de ser só crescia/derepente bateu asas, se avoou) tem compasso e momentos etéreos que caberiam no repertório de Liniker, a malemolência de Iara (em noite fria/até o santo perde a fé/não tem um acalento/ou algo mais/você não sabe a dor que faz/comer farofa seca sem você, Iara) cede às migalhas de amor imploradas em versos como “quero o pouco que você puder me dar”. O single homônimo Espero Que Você Entenda, responde à velha questão de Diz Que Fui Por Aí, samba de Zé Kéti eternizado na voz de Luiz Melodia. Desta vez o interlocutor do verso “se alguém perguntar por mim” está na companhia de seus discos, livros e filmes prediletos, denunciando o hábito do vocalista Leonardo Passovi em cancelar em cima da hora os compromissos com os amigos. O lamento bilíngue de Triste No.2, encerra o trabalho enfatizando como “vai ser tão bom ter você aqui” e só me faz pensar em amores virtuais geograficamente inviáveis.

 

Flerte Flamingo/Foto: divulgação

 

Depois de um dançante EP de estréia – Postura e Água Fresca (2017) –, que teve como carro-chefe o gingado de Ladinho (lembra a intro de Caio No Suingue, de Pedro Luís e a Parede), um dos legados de Espero Que Você Entenda foi trazer, pela primeira vez, músicas interpretadas pelo tecladista Rodrigo Santos e pelo baixista Cesar Neto, apontando certa “democratização vocal” da banda. Criatura do Mal, o single mais recente, composto pós EP, aposta apenas em voz e violão e tem videoclipe estrelado pela dançarina Camila Rotta e direção de Matheus Fractal. Hoje, com dois EPs na bagagem e vários singles lançados, a Flerte Flamingo produz seus próprios eventos ­– denominados Pasinada – com grupos parceiros que fomentam a cena alternativa soteropolitana. Além disso, os músicos integram o coletivo SOPRO, juntamente com as bandas Colibri, Astralplane e Tangolo Mangos. Seguindo os passos de Maglore e Baiana System, Flerte Flamingo desponta como uma das mais promissoras sonoridades “made in Bahia” desta nova década. Suas performances ao vivo trazem um agradável clima de bailinho proporcionado por trupes como a Orquestra Imperial em seus carnavais (de salão) fora de época. Sejam em passos desengonçados ou de Fred Astaire, Flerte Flamingo convida você a soltar seu corpo na pista. Assim como seus familiares gregários sincronizam sua dança de flerte fatal, não se surpreenda se der match!

 

 

 

Larissa Mendes espera que você entenda sua predileção por analogias.

 

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142ª Leva - 02/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Formas de Cair: Um Projeto de Não Ser!

Por Rita Santana

 

 

Eu, filho do carbono e do amoníaco,/Monstro de escuridão e rutilância.” Eis a epígrafe do livro Formas de Cair & outros poemas (Letra Capital), do escritor Sandro Ornellas, cujo paradoxo final guiará, sobremaneira, o livro e o sujeito de enunciação, ambos imersos em jogos de luz e sombra. É preciso demolir os velhos paradigmas – quando opressivos – e Sandro os conhece de muito perto, com profundidade porque sabe das suas fundações e dos seus pilares estruturais. Ao trazer Augusto dos Anjos, o maldito, prepara os espíritos leitores para as estranhezas capturadas pela vida afora e trazidas à luz para que nós as vejamos sem filtro, sem maquiagem; na crueza e no malabarismo das desventuras existenciais suspensas aqui. Tudo ornado com apuro e requinte lírico. O leitor, que tenha certa proximidade com o escritor, não ficará imune aos conflitos e dilemas criados para este projeto que temos em mãos. Porém, o precipício será lançado, inescapavelmente, a qualquer leitora ou leitor que o abra: estaremos em plena queda!

 O livro é dividido em três partes: 1. ROMANCE DEFORMAÇÃO, 2. URBI ET ORBI e 3. FORMAS DE CAIR.  Na primeira seção, o Poeta ironiza, questiona, ludibria conceitos e a seriedade do universo em que vive, em que tece existência e criação, o universo acadêmico. Temos expostos alguns procedimentos de desconstrução do próprio cânone e descontração pândega de pilares caros à tradição. O autor já nos lança uma provocação inicial, ao intitular o primeiro movimento do livro, onde aciona um desconcerto entre os gêneros e indica denúncias de “deformidades” ou “deformações” primordiais, de origem, que formam o sujeito do enunciado. O humor é, certamente, um dos pilares da sua obra: o riso, o desconcerto, o sarcasmo e a ironia. Constam desse momento poemas que demarcam o território da Identidade. O sujeito poético está em busca de um eu que se funde em tantos outros e que, juntos, engendram uma unidade absolutamente tosca, culminando em um processo de construção de um autorretrato cubista. Talvez o autorretrato tecido seja um caleidoscópio absolutamente revelador de assimetrias e incertezas. Um Pablo Picasso, demolindo as expectativas em torno do que seria um autorretrato. Diante de uma sociedade cada vez mais ávida por definições identitárias, exigindo que o indivíduo assuma uma identidade definitiva, torna-se um transtorno não ter ou não ser uma resposta. Uma sociedade capaz de reger processos excludentes aos que não estiverem de acordo, aos que não se encontram dentro de um pacote fechado do que seja considerado um modelo identitário, dentro dos padrões, das nomenclaturas possíveis e aceitáveis, em determinado tempo e contexto social específico.  O eu poético, enfático, desilude-nos, de cara, ao negar tais possibilidades, ainda no poema 1. (inquietante rosto):

……………………………  inquietante rosto
……………………………………….que não sabem
……………………………………….nunca saberão

……………………………………..ex-crer-ver

Ao dissecar e expor o ato da escrita, no desnudamento da palavra, ele tenta nos persuadir à desistência: é inútil tentar decifrar palavra e rosto. Enquanto tantas identidades convivem, contaminam-se, flertam com outras, num intercâmbio cada vez mais violento, veloz, fluido ou líquido, pois mediado pelos processos tecnológicos, transcendentais, ancestrais, inauditos e geográficos que seguem o fluxo complexo e mutável da própria existência. Processos que sempre estiveram em nosso/seu âmago e perpetuar-se-ão até a morte do Ser.

O dialogismo ainda nos atravessa, durante a leitura do primeiro poema.  A Terceira Margem do Rio de Guimarães Rosa nos chega, através da primeira estrofe: “terceira via/terceiro homem/terceiro olho”. Aqui, já temos uma condição existencial que transpõe a lógica regente do universo dos homens. Transitaremos numa terceira margem, alargando nossos limitados horizontes, nossa visão, nosso olhar, num sentido holístico sugerido pelo próprio Poeta. O eu da escritura deixa-nos com o indecifrável que é: “inquietante rosto/que não sabem/nunca saberão.” O tom profético já aniquila qualquer esperança de compreensão futura. Mais que um rosto, uma identidade impenetrável. Descrever, “ex-crer-ver”, virar o avesso da palavra, separar-se dela, da crença, apartar-se para, enfim, compreendê-la, ampliá-la. Descrença, abandono, desistência, ceticismo, estamos diante do inescrutável que habita a busca do que somos. Quanto de significados ele nos impõe na ludicidade com a palavra refeita, numa anatomia que esmiúça e refaz sentidos contidos no ato de escrever? A partícula ex atribui um caráter pretérito à crença, à visão e à escrita, pois desarticula, desestabiliza e põe tudo em estado de evidência e questionamento. Tudo foi ou terá sido. O campo semântico ainda nos liga ao que foi separado, apartado. Ornellas nos traz a ludicidade como uma de suas características. Bella Josef assinala o caráter lúdico da escrita:

 “O jogo da linguagem é o da busca do sentido, não encontrado no objeto, mas armado na própria linguagem que o constrói. A arte literária passa a ser o espaço privilegiado da “doação de sentido”, através do inter-relacionamento de todos os elementos do texto.”                     

E completa:

“A linguagem lúdica é a mais significativa, no sentido da expressão do homem como ser simbólico, e, portanto, criativo, e a mais adequada à construção do pensamento autônomo. A comicidade e o humorismo atuam como catalisadores numa tentativa de diminuir a separação entre objeto e sujeito, recuperando a natureza lógica da arte. Se o humor matiza, o jogo liberta”.

Em 2. (arte do autorretrato), vemo-nos diante da representação de um rosto, num autorretrato que poderia elucidar uma identidade, já anteriormente negada e anunciada como inviável. A busca frustra-se novamente, ao percebermos que o sujeito do enunciado deixa pistas de que não há vestígios. Antes, o que há é: “uma montagem adúltera de tudo/ uma mistura muito funda/muito bruta muito puta”.  Percebemos uma revolta, forjada no emaranhado de origens, além de misturas e etnias que convergem para o projeto de não-ser que se monta diante dos nossos olhos: “monturo que dá em nada/em noves fora/projeto sem forma/projeto de não ser/face mestiça/etnia postiça/massa de tudo.“  Uma confusão descomunal com um suposto pertencimento que não se realiza e não se realizará. Lembro do entre-lugar do discurso, hibridismos e uma série de estudos identitários que se fundem diante de um eu em vertigem, turbulento, entre as buscas ou desistências do ser. Diante de tamanha liquidez, trago Bauman:

“Tornamo-nos conscientes de que o “pertencimento” e a “identidade” não têm a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e revogáveis, e de que as decisões que o próprio indivíduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age – e  a determinação de se manter firme a tudo isso – são fatores cruciais tanto para o “pertencimento” quanto para  a “identidade”. Em outras palavras, a ideia de “ter uma identidade”, não vai ocorrer às pessoas enquanto  o “pertencimento” continuar sendo o seu destino,  uma condição sem alternativa.” 

Estamos diante de um autorretrato com a orelha cortada, um Van Gogh que se procura e denuncia desilusões, imperfeições, perdas. Ou uma Frida Kahlo, que também se expõe em dores, aflições e pensamentos, através dos seus autorretratos. Ornellas, que assina o livro utilizando um pseudônimo, Sandro So, destitui-se, despe-se de tudo e nada lhe pertence. Um ser poético que busca formas de cair. Um sujeito desalojado, desencontrado: “Em todo e qualquer lugar eu estava – algumas vezes ligeiramente, outras ostensivamente – “deslocado””. Aqui, o nosso eu lírico também se mutila em exposições, desnudamentos, em cortes profundos diante de todos nós, seus leitores, suas leitoras, e nos entrega – em nossas mãos – reflexões que geram perplexidades.

Há uma constatação, em Formas de Cair, sobre a impossibilidade de conseguirmos atingir esse retrato indefinível. Ele prossegue: “projeto de não ser/face mestiça etnia postiça/massa de tudo/rebarba caliça resto rebite/que não existe/bricolagem de branco com-banto/neto-de-filha-de santo/linhagem de negro e galego”. Um sujeito inautêntico, um terceiro homem indefinido, exposto à terceira margem. Eis o fio condutor deste livro: um sem-lugar, um sem-jeito. Desfazer-se de si mesmo ou assumir a sua especificidade de ser, que carrega em si tantos outros seres, além de também habitar uma canoa que segue o curso da água, sem aportar em margem alguma, sempre em trânsito. O não ser é a loucura. É não ter digitais, nem face. E o ex-eu declara: “falsa persona do próprio rosto”.

Um homem imerso em teorias, pelo ofício que exerce, tem pleno conhecimento das distorções e indefinições de uma identidade e, por isso, a persegue, não em busca, mas em caça, em perseguição acusatória, persecutória; em denúncia de si mesmo e de suas farsas ou revelação do que em sua história fictícia pode sugerir farsa ou inautenticidade, quando, na realidade, é o que é e é o que não é. O desconcerto e o desassossego estão instalados. Detetive e criminoso ou inocente, Javert e Jean Valjean. Enquanto nós, leitoras, talvez sejamos testemunhas do seu processo de anunciar a ausência de digitais autênticas para a carteira de identidade. Nós, leitoras, estamos a acompanhar o indigitado nesse descampado solitário; desnudo campo do corpo, da cidade. Ele, o eu, descreve e revira o avesso da palavra. O terceiro olho e a terceira via atuam em todo o percurso do desconcerto, enquanto outros caminhos apontados pelo Poeta surgem. Uma terceira margem da imagem, da representação semiótica do rosto; uma persona que não se decifra e que se torna a obsessão do eu- lírico desiludido, nesse escrutínio por uma decifração da identidade. Há, em quase todo o livro, uma dramaticidade niilista, um olhar agudo para a sociedade; a escrita busca uma identidade que ele percorre apenas para, ao final, desmascará-la.

Ouço ecos de João Cabral de Melo Neto na cadência do poema 3. (dialética negativa), onde, além do ritmo marcado, de uma métrica permanente, versos talhados, aqui, em redondilha maior, observamos a musicalidade, o ritmo dos versos que percorrerá todo o livro. O poema é a pontuação musical dos desencontros cravados nas identidades dissolvidas em nossa sociedade brasileira, baiana. Assim, prossegue em poemas como 4. (mito) e 5. (clandestino), onde podemos vislumbrar origens, causas do desconforto étnico que perseguirá o eu lírico, durante toda a queda.  O vocabulário transita entre palavras do universo afro-brasileiro, como forma de encontro, semelhança, familiaridade, pertencimento: “ela é meu horóscopo/meu ouro meu ori/ meu faro/ meu anjo…”. O eu do poema prossegue em processos antitéticos luminosos e obscuros, que são suas pérolas barrocas perenes. Há ritmo, dança de sons, aliterações, métrica na seleção e organização das palavras, primor no artefato poético. O rosto, o autorretrato busca por si mesmo e pela definição do outro: personas em busca. Desconstrução, desnudamento arqueológico da palavra e das identidades. Há uma exposição de não seres que nos jogam em questionamentos sobre as exigências sociais por definição, pertencimento.  A mestiçagem está na roda das suas preocupações e de suas consequências na existência; danos, dores, medidas, questionamentos em “suas funduras suas fissuras/as origens duplas/do atravessador”.

Confessa-se clandestino e atravessa fronteiras, ainda fixado em seu rosto com e sem barba, partido em dualidades, num jogo de desconfiança, de quebra de ilusões, ilusionismos; como se não fosse possível mantermos expectativas em torno de um apátrida, um pária, um aventureiro clandestino, em constantes migrações, além fronteiras. A própria convivência é redimensionada diante das flutuações, viagens, inconstâncias do ser cujo trajeto e travessia acompanhamos. Um ser transitório. Um sujeito sem teto, sem lar, sem casa, sem porto. Incapaz de se fixar em qualquer parte e que insiste em reafirmar sua natureza peculiar de homem em constante trânsito, em constante queda e que nos apresenta suas formas de cair. Talvez assim, possamos nos aproximar dos seus descaminhos:

“Estar total ou parcialmente “deslocado” em toda parte, não estar totalmente em lugar algum (ou seja, sem restrições e embargos, sem que alguns aspectos da pessoa “se sobressaiam” e sejam vistos por outras como estranhos), pode ser uma experiência desconfortável, por vezes, perturbadora. Sempre há alguma coisa a explicar, desculpar, esconder, ou, pelo contrário, corajosamente ostentar, negociar, oferecer e barganhar.” (Bauman).

O amor perde-se em lapsos barrocos que se jogam em versos modernos rapidamente, como se fosse preciso estar no aqui e escapar da linguagem rebuscada, elaborada com certa sofisticação e exasperação dos rococós. Mas ela está presente: a arquitetura que propicia à linguagem um tratamento envelhecido, como uma pátina capaz de cobrir com camadas de tempo o verbo e dourar – ainda que em gotas – as páginas que escapam às permanências e ao conforto do íntimo, ao conforto do que vigora e persiste. O sujeito do enunciado nega-nos qualquer acomodação ou facilidade: escapa, foge, nega-se a nós! Aventura-se em mil rostos para dissolver, definitivamente, qualquer esperança de encontro, de busca. E percorremos o suaveduro de suas histórias de desistência, enquanto paroxismos nos atravessam.

Parece que estamos numa ficção, narração das origens. Perambulamos por esses cobogós sem encontrarmos o todo, pois o sujeito está perdido no princípio e nos precipita em sua própria queda vertiginosa e dura. A desconstrução e o desnudamento da palavra, a fragmentação da ideia causam um efeito de transe, como se o Poeta  nos desse um quebra-cabeça, faltando peças para decifrarmos sua angústia existencial, seu olhar agônico diante da consciência do que somos, sua náusea. Orpheu e Heuterbise de Jean Cocteau percorrendo os labirintos de Hades em busca de Eurídice, mas também em busca da Morte sedutora, intensa, bela, a sua princesa. A vertigem da caminhada, a vertigem do atravessamento dos espelhos, calçando luvas que são o passaporte para a viagem, o atravessamento do Tempo. Assim, também o nosso Poeta desfila suas inquietações existenciais.

A dimensão da beleza das imagens apresenta-se corajosa e intensa no poema 10. (corpo sem pouso) que desenlaça no trágico, afinal, não há pouso, repouso nem refresco na queda em que estamos imersos, num gerúndio que se reafirma a cada página aberta, durante o processo de leitura. Vejamos o desfecho do poema: “na hora das coisas cruéis/decisivo é ultrapassar/ a planta carnívora da história/para flertar/ com a beleza do mundo/em fulgurante desaparecimento.” Sem dúvida, um dos poemas mais belos do livro, composto de uma tragicidade final, pois, agora, todo o mundo desaba. A queda sobrevoa todas as espécies, como se estivéssemos atravessando um longo plano sequência que, velozmente, percorre o planeta. E nos atinge: “um zangão à beira do gozo/à beira da abelha-rainha/agoniza em seu amor à morte.” Mesmo trágico, encanta e arrebata por sua beleza, por sua construção imagética, capaz de provocar suspiros estéticos. Mas a leitura nunca está imune a desdobramentos, ela sempre nos suscita lembranças, complementos e elos com o que estamos vivendo ou lendo, num dialogismo inesgotável. Assim, surge Simone de Beauvoir, no início do Segundo Sexo, capítulo Biologia, onde a autora discorre, com o seu estilo vigoroso e belo de filósofa e escritora, um pouco sobre o quanto a abelha e o zangão estão atados à espécie.

“O mesmo ocorre entre as abelhas: o zangão que se une à rainha no voo nupcial, onde levam uma existência ociosa e embaraçante. No início do inverno são executados. Mas as fêmeas abortadas, as operárias, pagam seu direito à vida com um trabalho incessante; a rainha é, de fato, escrava da colmeia: desova incessantemente. E, quando da morte da velha rainha, várias larvas são alimentadas de maneira a poderem disputar a sucessão; a que nasce primeiro assassina imediatamente as outras.”

Assim, descortina-se esse aspecto de sacrifício do zangão, como se fosse ele o único a sacrificar-se pela espécie. Mais adiante, ao abordar a espécie humana, ela dirá: “… ao passo que a humanidade está em permanente vir a ser”.

Ou ainda:

“É somente dentro de uma perspectiva humana que se podem comparar o macho e a fêmea dentro da espécie humana. Mas a definição do homem é que ele é um ser que não é dado, que se faz ser o que é. Como o disse muito justamente Merleau-Ponty, o homem não é uma espécie natural: é uma ideia histórica. A mulher não é uma realidade imóvel, e sim um vir a ser; é no seu vir a ser que se deveria confrontá-la com o homem, isto é, que se deveria definir suas possibilidades.”

O fio que tento estabelecer aqui é exatamente o olhar existencialista para a transcendência, ”este ultrapassar de uma situação presente por um projeto futuro”, segundo Sartre. Trago para estas reflexões o vir a ser que é constante e que toca também uma identidade que não é estática e talvez nunca tenha sido tão velozmente mutável, influenciável: líquida!

O poema 11. (travessias) irrompe cruzamentos inúmeros com dores e confissões cotidianas, de quem se perde em ressacas, em portas, numa convulsão de desencontros, situações sem saída. Mas ali, há a quimera e isto restitui o caráter onírico do nosso sujeito de enunciação, que sofre o desterro em que vive, em que delira em estado bruto de consciência; um eu cortado por desencantos, empurrões do destino. Um ser tortuoso de onde conflitos abundam. Com o poema 12. (inverso), fecha-se a primeira parte com uma tentativa metalinguística de organizar o caos.

Temos, então, o segundo momento do livro, intitulado URBI ET ORBI, em que os poemas tocarão a cidade, o corpo inserido no mundo, nas ruas, em outros continentes, na órbita universal.  Em 1. (carteira de identidade), vemo-nos às voltas com os complexos psicanalíticos que trazem a presença do Pai e da Mãe, em seus arquétipos, para a cena: “esta cidade não me salva/nasci fora de suas fronteiras/pai e mãe são meu medo/dupla derrota/tatuada em meu corpo/como cicatriz da história.” Mais uma vez, a origem umbilical dos dramas ou dos traumas; a busca por seu território ou a constatação de estar ausente do seu lugar e a circunstância de não ter lugar: “esta cidade não me basta/sou bastardo em sua memória/tenho um não-lugar além/sou estranho a toda estória/irredutível ao que se exprime/em seu fado/em suas horas”. Um inadequado, um inadaptado numa cidade, onde ele se sente – como tantos de nós – um estrangeiro, um estranho, um forasteiro, em situação incômoda de bastaria. A única forma de subverter o estranhamento é pular seus muros e desafiar suas fronteiras, como um clandestino em travessia, em fuga. Assim, o livro trafega entre o abandono em que nos encontramos na cidade que nos vigia, a nós, estrangeiros, e entre o sentimento de nomadismo muito presente no livro. Temos ainda as especulações sobre o tempo, que chegam através de rugas sobrecarregadas de significados. O eu do poema critica a oligarquia que preside o ritmo da cidade. Sutilmente, aponta a cartografia do lugar dividido em andares, elevadores e elevados. Entre arrastares de pés que caminham e percorrem a cidade, vemo-nos atravessados também de amores frustrados. Há desilusão e pessimismo nestes versos que caem. Marcas de uma cidade bem distinta daquela encontrada pelos turistas. Há uma desconstrução ou exibição e desnudamento de mazelas e odores de uma cidade que não acolhe. É o que pontua o olhar e as idiossincrasias do eu poético desencantado, devido ao abandono em que nos encontramos na cidade, devido à solidão e à estranheza que sentimos.  O poema 4. (Casa corpo cidade) traz, em seu título, invólucros que nos resguardam e nos massacram aos olhos do Poeta, que sente ímpetos terroristas: “a sanha por penhascos/o desejo de explodir /o centro em pedaços/ a convivência com o tráfico de afetos e fracassos/e vício compartilhado”.  O Poeta revela-se personagem que vive a crueza da cidade; alguém que a sofre porque está nela e não apenas assiste, distante, aos acontecimentos. Ele, transeunte, vive a cidade. Seguimos em encontros remotos com Gregório de Matos, num diálogo de denúncias comuns das mazelas da cidade, enquanto o próprio leitor é convidado a entrar em sua festa de desencantos, cúmplice, seguindo memórias machadianas: “Estranha virtude nos une/ hipócrita leitor/ meu igual meu irmão”. Assim nos sentimos atravessados pelo mesmo desencanto e amargura, diante dessa fera que nos devora, também a nós que, hipócritas, fingimos que tais dramas não são nossos! Fingimos ler o outro! No entanto, o Poeta nos convoca à Consciência, à Cumplicidade irmanada.

A partir daqui, invade-nos uma atmosfera de sensações, onde a solidão e a estranheza permeiam as páginas do livro. A queda intensifica-se vertiginosamente, pois a insatisfação e a crítica invadem todos os espaços, poros, pele do papel. O tempo e a constatação da impotência diante da vida. A presença do corpo. Lugares. O lugar da Poesia. O contato, a proximidade, os contratos sociais, as redes familiares, o país: “Algo de podre parece viver nesse país de fácil sorriso”. O que um livro traz, o que ele nos ensina. Migrar, migrações transmigram, identidade em vertigem: o lar, a família, o corpo, a cidade, o país, o mundo. A cidade personificada urra e todas as suas imundícies são compartilhadas conosco: família, amor, tesão, fracassos, tudo se mistura e é observado pelo Poeta, em delírio, em vertigem, em queda. Há a presença do corpo que sente e cheira todas as sensações, numa atmosfera sinestésica, apocalíptica, feroz, mortal. Todas as memórias estão impregnadas de fracassos e, mesmo quando vislumbramos um oásis de amor, a penumbra cerca aquela paisagem onírica, permeada de beleza, como acontece no poema 8. (memórias dos carnavais): “o Jardim que você prometeu matou meu serafim.” Ouço bandas de rock de Brasília presentes no poema, consigo ouvir toda uma geração 80, entremeada nesses versos tristes. Em outros momentos, sentiremos ecos de Augusto de Campos em tentativas do Poeta  de explorar imagens, linguagens, sons, experimentos.

Viajamos por lugares especiais, enquanto experimentamos o abandono. De que trata o poema? Memórias de amores, de outros carnavais? Memórias literárias que atravessam oceanos e deixam marcas na pele do Poeta? Do que se trata? A atmosfera nos penetra em interrogações e nos perdemos em devaneios; nos movemos em dúvidas, desejos que já são nossos e perdas que também são nossas. Uma viagem de ônibus é matéria de reflexões tão filosóficas e tão amplamente profundas que mergulhamos com nossas bagagens na viagem, com o eu do poema, sem que ele o saiba. O amor está presente nas páginas deste livro com ares de melancolia. Entanto, há prazeres pelo instante vivido, pela alegria de viver o cotidiano simples e grandioso de conversar, durante o trajeto do ônibus, ao lado de quem nos ama: “íamos no ônibus e falávamos e o ônibus ia em nós/e viajávamos acompanhados de quem nos ama/na solidão do grande rio que margeamos” (11. (intermunicipal)). Aqui, um momento lírico-amoroso, pleno de beleza, de amor e de juventude, onde uma outra margem surge, sinto desejo de permanecer no poema!

O Poeta, que confessa viver, estar num supersonho, trafega por outros continentes e traz aspectos dos povos que frequenta, traz o outro e suas influências; modifica-se com o outro, torna-se outro, numa geopolítica íntima que traz leveza à leitura: “carrego comigo/ muitas outras viagens/ do atlântico sul” (13. (geopolítica íntima)). Viagens como busca de possíveis identidades perdidas, que trazem histórias inscritas na própria pele, em suas origens, mas também trazem as marcas de outros povos, outras culturas que permanecem. A África faz-se presente, assim como Lisboa e Brasília também delimitam influências.  Quando dialoga com Drummond, deixa na página a ausência da cidade; ausência espacial, que, no entanto, está lá, marcada pelo vazio. Tal dispositivo estético-semântico pontua a importância do signo cidade, corpo, cidade-eu no livro. Busca por uma identidade atmosfera de desencanto, de ausência, desesperança; um olhar que perscruta o mundo. Migrações internas e externas, identidade em vertigem. Encerramos a segunda parte do livro com uma sensação de encontro, movimento e busca de possibilidades dentro das linguagens urbanas de expressar e imprimir a si mesmo em seus muros, suas paredes, numa queda mais branda.

Iniciamos o movimento final do livro com tons de metalinguagem e questionamentos acerca do lugar do poeta no mundo, onde a “tradição” entra na mira do eu lírico. Em Formas de Cair, terceira parte do livro, encontramos uma epígrafe que simboliza e sintetiza todo o projeto, pois é o título de um texto da Poeta portuguesa Luiza Neto Jorge, “O poema ensina a cair”, que será  imediatamente mencionado no segundo poema, indicando que,  apesar da queda, o poema cumpre uma função  importante  em nossas vidas e é uma Poeta quem nos sinaliza, como nos informa o nosso sujeito de enunciação: “É é bom saber que se/ocorrer de nós cairmos/e não  nos ferirmos é/porque o poema ensina/ a cair – conforme Luiza/ categórica explicou/ e que humilde subscrevo/ ciente de que neste jogo/erro, vertigem e queda/são as verdadeiras vitórias/que o poema pode pode ter”. Permanecerão os dilemas cotidianos, mas serão iluminados pela máxima deixada pela Poeta e o poema guiará o eu vertiginoso que acompanhamos até aqui. No poema 5, teremos uma exposição  mais íntima do eu lírico, pois o contato social, o estar com outras pessoas na sociedade será tratado com extrema delicadeza e profundidade, dando-nos um retrato mais nítido do ser que enfrenta a sociabilidade, como tantos de nós, com extrema dificuldade, quase sempre disfarçada. Ele traz no desfecho ao poema: “As convenções são o trono/ das perversões mais severas“. Os embates permanecem, mas há uma outra respiração  musical nos textos; momentos onde o arrebatamento poético nos toma e sentimos vontade de dançar, como no poema 7. O Poeta segue desenhando desejos, sonhos, paixões com mais suavidade. O cinema se apresenta como uma força que move o eu lírico. Estamos aprendendo a cair com seus textos, com suas perdas. O Poeta nos deixa uma interrogação, antes do seu posfácio aos pedaços:

“Mas afinal quem juntou os cacos
dessas histórias de erros e quedas
que tanto lemos?”

 

Rita Santana nasceu em Ilhéus, Bahia, a 22 de agosto de 1969. É graduada em Letras pela Universidade Estadual de Santa Cruz. É atriz com trabalhos em teatro, cinema e televisão; escritora e professora. Em 2004 ganha o Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos Tramela. Em 2006, Tratado das Veias (poesia) é publicado pelo selo Letras da Bahia. Publica Alforrias (poesia) em 2012, pela Editus. Em 2019 publica Cortesanias (poesia), pela Caramurê, e participa do Festival Internacional de Buenos Aires.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Julia Sereno

 

Foto: Joice Kreiss

 

PARTIR

 

Para deixar um lugar, é preciso um pouco de coragem. Para deixar alguém, é preciso algo mais. Quando decidimos partir um laço feito de cheiros e gostos, sorrisos e lágrimas, gozo e frustração, saímos de uma estrada com placas rumo ao campo sem trilhas. Deixar alguém é deixar uma parte de mim, do meu todo e do meu nada. Deixar alguém é mergulhar no vazio, buscar o completo e nadar no incerto. Deixei muitas vezes. E me deixaram também.

 

 

***

 

 

TRAÇOS

 

Havia ignorado muitos detalhes na esperança de que se protegeria do susto. Mas o universo não falha em nos empurrar ladeira abaixo. Ou seria ladeira acima?

Pensou nos anos de terapia e nas horas de rascunho. Orgulhou-se da coragem de dizer chega. Envergonhou-se de não conseguir evitar o óbvio.

Vivia um dia após o outro sem abrir os envelopes. Sabia que se procurasse bem, acharia traços sem tempo definido. E não queria encontrar mais nada. Só paz.

 

 

***

 

 

NA TERRA DE PESSOA

 

Ladeiras que não me cansam. Caminhos que não me fogem. Descanso o medo na grama do jardim.

Acolho o novo sem perder o que era. Avisto o Tejo e ganho mais um suspiro. Brindo à Lisboa por mudar o fim.

 

 

***

 

 

TEMPOS E ESPAÇOS

 

Coloco-me prazos inacabados. Mantenho distância insegura. Quando não dou conta, já passei da hora e ultrapassei a linha de chegada. Muitas vezes corri. Em desespero. Pernas cansadas, mas cara lavada. Rumo ao próximo salto.

De longe avisto uma ladeira possível. Subo com passos de formiga. No topo espero uma mulher como eu. Quem é ela, afinal? O sonho que habita meu tempo derrete no espaço da cidade. Nada será como antes no meu castelo de areia.

 

 

***

 

 

FLUXO

 

Não conseguia esconder o arrepio na espinha. De quem decide seguir sem pedir permissão. Talvez a intuição não falhasse e a reta final fosse menos torta do que as anteriores. O antes se espalhou com o vento. As retas viraram pontilhados.

Desejava um círculo de luzes. Sem maquiagem, mas com cores. Sem roupa, mas com máscaras. Sem álcool, mas com cogumelos. O tudo a perder faria todo o sentido.

 

 

***

 

 

PARTO

 

Precisamos mesmo morrer para nascer de novo? Já perdi a conta de quantas vezes eu vi uma mulher diferente no espelho pela manhã. Ou mesmo antes de deitar na cama para ler a ficção sonhada ao longo do dia.

O modo como saio de casa e piso na calçada, com óculos de sol e a bolsa pesada, define a rota de desencontros nas ruas da aldeia onde moro. Uma aldeia global. Uma cidade que não me define, mas que não quero abandonar tão cedo.

A diáspora nos torna um pouco rebeldes. Depois que partimos, renascemos. E não paramos mais. Todos os dias. O choro grita a confusão do que nos espera. O colo acolhe o medo de perder. A luz de Lisboa colore o meu mapa astral.

 

 

***

 

 

DIÁRIO

 

Não é possível desver a luz que o tempo nos oferece. Li algo assim nas palavras de um escritor que muito admiro. Era parte de um relato de seus dias na quarentena. Dias de angústia, de raiva, de desejos reprimidos e de ausências doloridas. Confesso que, ao ler seu texto, a inspiração bateu na porta que me separa da prosa livre. Porta construída por mim. Fruto de desculpas ridículas, inventadas para escapar do que é inevitável. Uma certa melancolia sempre habitou minhas tentativas de diário. Seriam os livros de Clarice na estante?

J. me deu um beliscão no braço e aqui estou, sem filtro.

Os dias passam acelerados, envoltos em uma camada espessa de ansiedade e procrastinação. Falamos sobre a morte em uma conversa de botequim, de máscaras, mas com a cerveja gelada no copo. O barulho das sirenes não me assusta mais. Tenho vontade de comprar livros e sentar no banco da praça. Talvez com uma média de leite. Não sei mais se quero fazer o que planejei. O presente não está aceitando planos. Todos os dias uma nova ideia me convida para um chá na padaria. Por vezes não apareço. E não lamento. Virei rebelde depois dos 40. Talvez seja o ascendente em áries.

Quero passar mais tempo contando estórias para meu filho. Hoje farei arroz-doce.

 

 

 

***

 

 

 

ABRAÇO

 

Vou esperar um pouco mais, disse F., com medo de perdê-lo de vista. Há anos procurava um abraço que durasse para sempre. Sabia que não existia tal coisa, mas mesmo assim, continuava a buscar. O pouco não a interessava. Um dia acenou para M. na confeitaria da esquina e resolveu lhe oferecer um sorriso. Após muitos passos sem rumo pediu a eternidade do abraço. Não aconteceu. Escondeu o sorriso até a próxima primavera.

 

Julia Sereno nasceu em 1978 no Rio de Janeiro, mas reside em Lisboa desde 2020.  É professora de inglês e português, Mestre em Estudos da Literatura e Doutoranda em Literaturas de Língua Inglesa pela UERJ. Tem poemas e minicontos publicados em revistas e em sua página no Medium. 

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Janelas Poéticas

Janela Poética V

André Siqueira

 

Foto: Joice Kreiss

 

Quarentena

 

Os objetos conhecem
os quartos, partes, cômodos,
extensões de remansos
que abrigam toda a gente
íntima do silêncio
isolado na espera
de cada ser fechado.
Testemunhas ocultas
mesmo que emudecidas,
hospedeiros de gente
no vírus desse mundo.
Sem luva sinto, pálido:
os objetos na casa
prosseguem retesados
e infectados de gente.

 

 

 

***

 

 

 

chuviscou nos telhados simples
as gotas dançavam dulcíssimas
trespassando os pedestres rápidos
indo e voltando pelo asfalto
empoçado numa renúncia
de quem cansou de tanta gente
que passa e não percebe os cacos
de esmeraldas nos velhos ombros
dos muros plantados nas terras
abertas pelas mãos passadas
silentes no canto da casa
erguida no solo tocado

chuviscou nos telhados simples
as gotas acertavam como
barcos de papel naufragando
no mar de imagens chuviscadas

 

 

 

***

 

 

 

o silêncio quebrado apenas
pelo pernilongo da casa
mata o tempo das horas moucas
horas corredoras da noite
enquanto na parede o dono
é o relógio cafona como
a minha cara malpassada
nos ponteiros do meu relógio
sedento e sisudo conduz
a bocarra que enruga e cospe
os detritos vãos da memória

 

 

 

***

 

 

 

20 de julho e o tempo

 

O tempo.
Aplacá-lo, interrogá-lo,
inquiri-lo, investigá-lo.
O relógio de antanho.
O de agora pende sobre mim.
Sou deitado assombro.

O tempo (esse clichê avolumado)
perpassa espectralmente.
Fui digerido, digeridos fomos.
Fica esse arroto do tempo.
Verdugo taciturno em horas.

 

 

 

***

 

 

 

Breve cafeína

 

Começo o dia com café
Nas ruas o verde das folhas grita
delicadezas
Espero o ônibus de reminiscências
que mornas ainda excitam. Temo
a velhice e os frutos podres
Pessoas passam em águas turvas. Uma
gota ferida.
Termino a noite num riso sarcástico
de fé.

 

 

 

***

 

 

 

Recuperação do cansaço

 

O grande som do avião atravessa a noite.
No sofá, à meia-luz, enquanto o macarrão
não fica pronto, velo a vida ancorada nos
quartos vazios, engolindo coaxos longos
e maduras ventanias.

 

André Siqueira é poeta, mora em Jacareí, interior de São Paulo. Cursou a faculdade de Letras pela UNIP, mas não concluiu. Publicou em 2020 seu primeiro livro de poemas “As Manhãs Fechadas” (editora Gataria). Já colaborou em diversas revistas, jornais, blogues e antologias de poesia. Atualmente participa de eventos, palestras, oficinas e saraus, além de escrever regularmente para a revista de literatura e arte Pixé.

 

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142ª Leva - 02/2021 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

         

Um autor é esse ser que engendra mundos a partir do mundo, mobiliza cenários, personagens e narrativas capazes de corresponderem aos desígnios da palavra gestada. Aquele que tece histórias, posto que é observador, cúmplice ou até mesmo o que vive as situações transpostas para o texto que brota do branco, por vezes angustiante, duma página nascente.

Mas eis que escrever pode ser resistir ou capitular, como disse certa feita o escritor Julián Fuks aqui pelas bandas da revista. Quiçá para muitos seja ímpeto de uma espécie de sobrevivência que intenta suplantar os efeitos da realidade em nossas vidas. Pode ser enfrentar antigos e comezinhos fantasmas, mergulhar em outras personas ou simplesmente inventar tudo a partir do absoluto nada. Pode ser um desejoso exercício de liberdade, instância em que criadores abandonam certos fardos que atravessam suas trajetórias pessoais. Indo mais além, talvez escrever não careça mesmo de explicação alguma.

Alguns escritores acendem em nós uma instigante vontade de compreendermos um pouco dos seus processos criativos. Nesse ínterim, importam tanto aspectos ficcionais quanto aqueles que guardam alguma correspondência com a explosão da chamada vida real (se é que podemos classificá-la assim). Um autor como Renato Tardivo nos provoca, com sua obra, a pensarmos um pouco sobre tais questões, sobretudo no território das experiências que podem servir como alimento às narrativas materializadas em livro.

Tendo na bagagem os livros de contos “Do avesso” (Com-Arte/USP) e “Girassol voltado para a terra” (Ateliê), o momento presente reserva a Renato o experimentar dos desdobramentos tidos com seu primeiro romance, “No instante do céu”, recentemente lançado pela editora Reformatório. Em seu novo rebento, o escritor chama atenção para alguns sintomas de nossa contemporaneidade, principalmente aqueles que perpassam o território complexo das relações afetivas. Com sua narrativa ágil e que dialoga com uma espécie de legado das memórias, a temática do amor aparece marcada pela própria noção da instabilidade do sujeito diante da compressão tempo-espaço e de outros fatores mais.

Renato Tardivo também é professor colaborador do Instituto de Psicologia da USP e atua como psicanalista. De forma bastante gentil e atenciosa, ele acolheu a Diversos Afins para uma conversa sobre seus caminhos literários, especialmente aqueles relativos ao novo livro, além de refletir em torno de algumas questões que também implicam num breve olhar sobre o mundo. O resultado do diálogo ganhou substância e corpo na entrevista que agora segue.

 

Renato Tardivo / Foto: arquivo pessoal

 

DA – “No instante do céu” apresenta uma estrutura que chama a atenção logo de imediato. São três instâncias narrativas que se entrecruzam, embora em tempos de ocorrência distintos, e que se prestam a dar corpo e ritmo ao romance. O que dizer dessa escolha?

RENATO TARDIVO – Eu vinha perseguindo a escrita de um romance já há algum tempo. Mas as narrativas terminavam em conto ou novela – e foram publicadas (o conto “Silente”, do livro de mesmo nome, em 2012, e a novela “Castigo”, que saiu em e-book, em 2015). Uma das instâncias narrativas de “No instante do céu”, em sua primeira versão, foi escrita antes das demais, também com o intuito de resultar em romance. Quando a concluí, notei que poderia ter no máximo uma novela – e nada contra esses gêneros, muito pelo contrário, mas queria mesmo experimentar o romance. Daí, aproveitei um aspecto dessa primeira instância (de onde aquele narrador em segunda pessoa escreve e revisita suas memórias, no presente, no instante da escrita) e mergulhei nesse outro tempo, desenvolvendo uma segunda instância. Concomitante a isso, já que seria um livro fragmentado, intuí que o eixo das redes sociais e mesmo a inclusão de textos literários produzidos pelo narrador (que também é escritor) poderiam fazer parte dessa unidade fragmentada que, entre outras coisas, tematiza separações, atravessamentos entre biografia e ficção e o próprio tempo.

 

DA – A ideia de fragmentação, por sinal, é muito associada às experiências que vivemos hoje, sobretudo no terreno da interação através das mídias sociais. E você lança mão desse recurso no livro, quando, por exemplo, insere na narrativa conversas de whatsapp. Acredita que, numa era influenciada pelo excesso de informações e outras tantas urgências, a noção de sujeito aparece desestabilizada sob o ponto de vista emocional?  

RENATO TARDIVO – Creio que sim. Há, por um lado, o excesso de informações, as muitas janelas, o tal encurtamento das distâncias, mas, por outro, via de regra majoritário, a desimplicação dos sujeitos, a banalização das experiências, algo que talvez seja, a um só tempo, causa e consequência dessa desestabilização emocional a que você se refere. Nesses tempos pandêmicos, aliás, temos vivido essa tensão como nunca, não é? Retornando, então, ao romance, acredito que a fragmentação da narrativa, aí incluídas as interações via mídias sociais, se insere tanto na crise que o narrador vivencia – ele se fragmenta – como também em seu processo de reconstrução. Ir encontrando esse narrador à medida que escrevia o livro foi uma experiência bastante interessante. De certo modo, o narrador procura ir contra a corrente, quando tenta inserir comunicações autênticas, carregadas de afeto, em postagens de Facebook ou mensagens de WhatsApp, por exemplo. Há nesse movimento uma procura por diálogo, tanto que ocorre uma inversão importante para a trama ao final, envolvendo a instância narrativa das mídias sociais… Mas se falasse mais a sobre isso, daria spoiler.

 

DA – É no entrelaçamento das memórias que o seu romance encontra uma boa medida para seu fluxo e encadeamento. Isso sugere uma provocação, qual seja a de vislumbrar como lidamos com  nossos sentimentos no território volátil das lembranças. Podemos supor que o sujeito contemporâneo é este ser que vai se dissolvendo diante das situações vividas e das traições da memória? 

RENATO TARDIVO – Obrigado pelo comentário sobre o fluxo e o encadeamento do livro, bem como sobre a provocação que a narrativa pode sugerir. E talvez haja aí um paradoxo interessante: o fato de nos constituirmos no território volátil das lembranças implica o reconhecimento dessa circunstância, de modo que possamos desenvolver recursos para lidar com isso sem que nos dissolvamos. A noção do “instante do céu”, esse tempo que já não é, mas por meio do qual as relações se estabelecem, também toma essa direção. De resto, o reconhecimento das traições da memória é, também, assumir que a vida em certa medida se constitui enquanto ficção. E isso não significa que biografia e ficção devam ser tomadas uma pela outra, o que seria muito problemático, mas que a mera oposição entre os dois registros é tão problemática quanto.

Renato Tardivo / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Pensar autobiografia e autoficção, por exemplo, sempre rende debates nada pacificados. Acredita que as fronteiras que perpassam tais termos são bastante tênues e ao mesmo tempo problemáticas?

RENATO TARDIVO – É isso. Há quem afirme que toda ficção é sempre uma autoficção. Analogamente, há quem diga que toda biografia se constitui enquanto ficção. A obra cinematográfica de Eduardo Coutinho, que venho pesquisando nos últimos anos, é um prato cheio para encaminhar essa questão. Seus documentários, sobretudo a partir de “Santo forte” (1999), parecem transmitir a impossibilidade de se filmar a verdade. O que se pode tentar fazer, dizia Coutinho, é explicitar a verdade da filmagem. No filme-ensaio “Jogo de cena” (2007), ele levou esses questionamentos ao limite, por meio da própria linguagem do cinema. Creio que o mesmo vale para a discussão sobre autobiografia, biografia, autoficção e ficção. Devem-se respeitar as fronteiras – há, evidentemente, especificidades entre os gêneros -, mas mesmo a mais respeitosa biografia (ou autobiografia) passará pelo filtro de quem a escreve. E se toda apreensão da realidade é atravessada pelo ponto de vista, pelas fantasias, em suma, pelo lugar de quem a apreende, sempre haverá algo de ficção no processo. Da mesma forma, toda ficção guardará em alguma medida correspondências com a realidade material, histórica, de quem a cria. Talvez por isso eu procure trabalhar os mecanismos de construção da minha ficção no âmbito dos próprios textos. “Ah, mas isso de metalinguagem já está tão batido”, dizem alguns. Eu tenho cá minhas dúvidas quanto a isso.

 

DA – Sua lembrança em torno de Eduardo Coutinho é bastante pertinente. No documentário “Santo Forte”, por exemplo, o cineasta tem uma sacada genial sobre como representar depoimentos que narram manifestações espirituais ocorridas em alguns lugares. Ele simplesmente filma os ambientes vazios, ou seja, sem a presença humana, onde tais fatos ocorreram. E isso não deixa de ser uma provocação sobre a representação da verdade em situações que demandam um suporte imagético aos relatos que estão sendo expostos diante de lembranças debruçadas sobre o intangível. Essa, digamos assim, saída pela linguagem é reveladora tanto para o cinema quanto para a literatura, não? 

RENATO TARDIVO – Concordo com você, ainda mais no cinema que Coutinho praticava, um “cinema de conversa”. A cena antológica do quintal, em “Santo forte” (1999), é a filmagem do invisível. Não por acaso esse filme marca o início da última e, para mim, mais interessante fase da obra dele – evidentemente, não podemos desconsiderar filmes excelentes anteriores a esse período: “Cabra marcado para morrer” (1984), a propósito, é um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro de todos os tempos. Mas, de fato, esses momentos de silêncio são muito reveladores. A sequência final de “Peões” (2004) – quando após alguns intermináveis segundos de silêncio o entrevistado, Geraldo, emerge de uma espécie de poço de angústia e pergunta, triunfante, a Coutinho: “Você já foi peão?” – também toma essa direção. O plano final (um contracampo) de “Jogo de cena” (2007), idem. No caso da obra de Coutinho, tratava-se de uma combinação entre uma série de contingências que ele se impunha na filmagem e um sofisticado trabalho de montagem. O efeito que ele buscava era a descoberta de “personagens reais”. Acredito, dessa forma, na potência da linguagem, como dizia Merleau-Ponty, enquanto silêncio: a palavra que diz ao renunciar a dizer as coisas mesmas. Essa potência indireta e alusiva da linguagem tem a ver com a renúncia de Coutinho a filmar da verdade e pela opção pela verdade da filmagem, ou seja, por abrir-se ao novo, ao inesperado, à alteridade radical, cuja apreensão, no limite, é impossível. É nesse sentido que acredito na potência – poética e expressiva – da metalinguagem também na literatura.

 

DA – Na sua avaliação, tendo em vista o panorama contemporâneo de superexposição da intimidade em que o público e o privado aparecem um tanto diluídos entre si, a figura do autor foi bastante redimensionada?

RENATO TARDIVO – Uma coisa é a diluição do público e do privado; outra, atentar para sua correspondência, suas especificidades e seus limites. Há uma passagem do meu livro em que o narrador transcreve e-mails que seus pais, personagens do romance, teriam lhe enviado. E no mesmo capítulo o narrador diz algo como nem essa troca de mensagens se pode garantir que ocorreu. Quer dizer, enquanto autor, eu estava interessado em exacerbar as ambiguidades entre realidade e ficção, e não em diluí-las. Cristovão Tezza, em “O filho eterno” (2007), e Michel Laub, em “Diário da queda” (2011), para citar apenas dois casos, construíram narradores sólidos, consistentes mesmo, em romances que vieram para ficar. Nesse sentido, o redimensionamento em curso da figura do autor tem menos a ver com a (ou o que se costuma chamar de) autoficção, e mais com a volatilidade das experiências, o trânsito banalizado entre o público e o privado, a vaidade, a necessidade do mercado em eleger o autor ou a autora da vez, para no ano seguinte ninguém mais se lembrar deles, enfim, tendo a pensar por aí…

 

DA –  Em alguma medida, a sua vivência com a psicanálise auxilia seus processos de criação literária, principalmente no que se refere a pensar personagens e comportamentos? 

RENATO TARDIVO – Eu diria que ocorre o oposto: é a minha vivência com a literatura que me auxilia na psicanálise. Nunca me inspirei em um paciente para a criação de uma personagem e sequer preciso me autocensurar nesse sentido: simplesmente não é da clínica que me vem a inspiração literária. São meus fantasmas, os vínculos de minha vida pessoal, enfim, o olhar voltado para dentro e para fora, é daí que surgem minhas tramas. É certo que o sigilo e os cuidados que envolvem a relação tão específica entre terapeuta e paciente contribuem para que eu não faça da clínica uma espécie de laboratório para as minhas narrativas. Mas é, também, inegável que a influência da psicanálise em minha forma de ler o mundo, a cultura, de me ler, enfim, está presente na minha literatura. E isso é meio intuitivo, quase automático – não paro para arquitetar uma trama psicanaliticamente orientada. Por outro lado, a inspiração e sensibilidade literárias, nas condições de leitor e autor, atravessam a minha escuta na clínica, minha forma de ler e procurar compreender o ser humano. Tentando resumir: não parto da psicanálise à literatura, mas da literatura à psicanálise.

 

DA – O mundo como está hoje lhe causa mais desassossego? 

RENATO TARDIVO – Sim, causa muito desassossego, medo, angústia. Mas, por outra perspectiva, estamos vivendo um momento que demanda – e propicia – a introspecção, a reflexão. Caso consigamos suportá-lo, o desassossego pode justamente ser canalizado para a ampliação de representações e para a criatividade. Apesar de tudo, tive um 2020, em isolamento, muito produtivo. Vou citar de novo Merleau-Ponty: “toda tentativa de elucidação traz-nos de volta aos dilemas”. Se encaminharmos o desassossego nessa chave, enfrentando os dilemas e encontrando novas formas para encaminhá-los, então teremos aprendido algo com essa experiência tão dolorosa que estamos atravessando.

 

Renato Tardivo / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seria insuportável conceber a realidade sem a Arte? 

RENATO TARDIVO – Acredito que sim, como de resto seria insuportável – e mesmo impossível – o contato com a realidade sem mediações. Podem-se incluir aí a religião, o entretenimento, a prática esportiva, enfim, são muitas as modalidades a que podemos recorrer para que a vida seja suportável – e possível. O que me parece central nesse aspecto são a qualidade das escolhas e a sua pertinência de acordo com as especificidades de cada pessoa. É comum ouvir que há quem busque nas artes um respiro. Eu tendo a achar bastante válida essa busca. Mas a questão é: respirar que ares? Nesse ponto, as artes me interessam porque promovem reflexão, movimento, pensamento, e não alienação. Então, se por um lado as artes podem anestesiar um pouco a porrada que é a vida, elas podem também, colocando-nos em contato com a dor, ser um atestado de que a porrada às vezes é suportável e – por que não? – desejável. Sem essa dialética, a realidade seria, sim, inconcebível.

 

DA – O Renato Tardivo que agora publica seu primeiro romance é muito diferente daquele que construiu seus outros livros de contos?

RENATO TARDIVO – Com certeza é diferente. Cada livro tem sua história e seu tempo próprios. O primeiro, “Do avesso” (Com-arte/USP), que ficou pronto em 2010, reúne contos escritos nos anos anteriores, bem como alguns produzidos já para o projeto do livro. Mas a experiência com a sua repercussão foi fundamental para que eu tomasse contato, ali, com o nascimento de um escritor. De lá para cá, houve um amadurecimento natural. Desse amadurecimento é que surgem os narradores, as tramas e as experimentações com a linguagem. Nesse sentido, sou hoje bastante diferente do que era quando escrevi os primeiros livros. Há, no entanto, temáticas que me acompanham desde o início e que procuro encaminhar de formas diferentes. Em um dos livros mais importantes da minha vida, “Lavoura arcaica” (1975), de Raduan Nassar, lemos que se pode “de uma corda partida, arrancar ainda uma nota diferente”.

 

DA – Afinal, por que escrever?

RENATO TARDIVO – “Não sei”, eu poderia começar respondendo, e constato que já comecei respondendo dessa forma, não é? Ocorre que esse “não sei” não significa que não haja motivos importantes para escrever e seguir escrevendo. Posso ter, no mínimo, algumas pistas sobre esses motivos. Descobri a necessidade de escrever na mesma época em que a leitura deixou de ser algo maçante (como era durante boa parte da minha vida escolar) para se tornar, além de necessária, prazerosa. A partir daí, creio que retornamos à linha traçada pela pergunta sobre o mundo sem as artes ser insuportável. Escrever é uma forma de me manter vivo. Como já ouvi de Raduan Nassar algumas vezes, ao comentar sobre o tempo em que escrevia, a literatura era uma espécie de “tábua de salvação”. Eu me identifico com essa perspectiva. E, se essa “tábua de salvação” fizer sentido a outra pessoa, a uma outra pessoa que seja, é porque houve diálogo, correspondência. E isso é vida. Agora, se essa forma de sobrevivência (escrever ficção) vale a pena, vou recorrer de novo a Raduan. Em uma de suas raras aparições públicas, na Balada Literária de 2012, organizada por Marcelino Freire em São Paulo, da qual Raduan era o autor homenageado, perguntaram da plateia: “Valeu a pena escrever?”. Raduan fechou os olhos, pareceu buscar a resposta dentro de si e, após alguns segundos de silêncio, disse resignado, voltando-se ao homem que havia feito a pergunta: “Não sei”.

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

A Febre. Brasil. 2019.

 

 

Vencedor do Festival de Brasília de 2019, com vários prêmios em festivais internacionais, A Febre, filme de Maya Da-rin, infelizmente não pôde ser assistido nos cinemas brasileiros por causa da pandemia. Infelizmente porque ele é a prova de como uma obra de arte é capaz de premonição, de absorver imperceptíveis sinais de perigo e traduzi-los em imagens significantes. Filmado antes do período pandêmico e concebido há mais de uma década, o filme trabalha com a ideia de uma misteriosa febre que ocorre na cidade de Manaus. Essa febre ressoa no recente desastre sanitário do Coronavírus e a catástrofe das mortes sem atendimento na capital amazonense, bem como da variante da doença gerada na cidade.

O protagonista do filme é Justino (vivido pelo ator Regis Myrupu), de origem indígena da nação dos Tukanos, que trabalha como vigilante no cais das docas do grande porto de Manaus. Justino abandonou sua aldeia há muitos anos, é viúvo e tem uma filha, Vanessa (vivida por Rosa Peixoto), que é enfermeira e sonha em estudar medicina numa universidade pública. Vanessa passa no Enem para a UNB e está feliz com a possibilidade de estudar em Brasília. Deixará então sozinho seu pai com quem mantém forte relação de afeto. Logo após receber a notícia que sua filha passou no Enem, Justino passa a apresentar sintomas de uma misteriosa febre que não encontra diagnóstico. Paralelamente, a cidade de Manaus testemunha misteriosos ataques de supostas feras sobre porcos e outros animais domésticos. Alguns acreditam serem ataques de cães selvagens.

A proposta de ver além do que aparece está inscrita na própria concepção do filme. “O homem branco só consegue ver o que está diante dos seus olhos” é a ideia que faz mover o roteiro. O filme tem forte componente alegórico que contrasta com a descrição realista do cotidiano de Justino em suas idas e vindas de ônibus do trabalho. Mas a característica alegórica busca um efeito de tradução entre mundos incomensuráveis, não só aqueles entre brancos e indígenas. Logo na primeira cena do filme, Vanessa, filha de Justino, atende uma paciente indígena idosa num hospital público. A senhora lhe conta uma história em linguagem tukana que é incompreensível tanto para Vanessa como para os espectadores. Vanessa fala a língua geral tucana, mas essa nação tem muitos dialetos que são estranhos uns aos outros. Trata-se de uma nação de povos diferentes, enquanto os homens brancos veem apenas uma unidade étnica de “índios”.

 

Regis Myrupu no personagem de Justino / Foto: divulgação

 

Para traduzir as imagens entre mundos diferentes, a diretora Maya Da-rin se utiliza da força da fábula alegórica. Vemos Justino, também em fala tukana traduzida para a língua portuguesa em legendas, contando uma história para uma criança indígena. A fábula conta de um sonho em que um homem branco se perde na floresta e não consegue encontrar saída. Um casal de macacos então lhe aponta o caminho para o retorno à cidade. Como todo sonho, a história não fala apenas do progressivo desenraizamento de Justino, que na cidade grande vai perdendo o contato com o mundo da floresta. A narrativa também lhe vem como um presságio, como veremos adiante, e como o próprio “fio de Ariadne” que lhe permite se orientar nos labirintos formados pelas fronteiras. Como diria o doutor Freud, todo sonho é a realização de um desejo.

Na montagem de A Febre são figuradas várias fronteiras: a fronteira entre brancos e índios, a fronteira entre línguas, entre cidade e floresta, entre sonho e vigília, entre narrativa oral e linguagem cinematográfica digital. É, por assim dizer, um filme fronteiriço, e uma de suas principais virtudes é permanecer na habitação dessas bordas, simuladas ao enquadramento da câmara. Uma dessas fronteiras figuradas é a do vestiário do cais do porto, onde Justino tira o uniforme e troca de posto com um colega. Este é um segurança branco que chegou de Rondônia e tem enorme preconceito de índios. Debocha de Justino chamando-o de “índio amansado” e diz que já enfrentou e matou muitos “índios de verdade” em seu trabalho anterior. No vestiário, encena-se então as divisões entre o branco racista e o índio oprimido, entre o dia e a noite, entre o trabalho e a folga e entre a lei e a criminalidade. O trabalho de Justino não lhe exige muito. Ele se mantém em vigilância como um “caçador sem caça”, como ele mesmo diz. Mas muitas vezes, com a falta do que fazer, Justino cai no sono e então sonha, configurando então mais outra fronteira entre a vigília e o sono e entre a alienação do trabalho e a polissemia oracular do sonho.

E nas várias cenas de retorno de Justino do seu trabalho, num ônibus lotado, descobrimos que ele mora na fronteira da fronteira de Manaus. Para chegar em sua casa ele atravessa uma pequena mata a partir da estrada, traçando a mais importante de todas as divisas figuradas pelo filme: aquela entre a cidade e a floresta. Sua casa, que tem um quintal bucólico onde Justino pode ficar “à vontade” sem camisa, se localiza justamente entre o meio urbano e o meio rural. A floresta é o “outro lugar” que se estende além da vista e onde o homem branco se perde por não conseguir enxergar através de sua intrincada complexidade.

 

A Febre / Foto: divulgação

 

No roteiro, dois eventos cruzam essa fronteira nebulosa. Um deles é a visita do irmão de Justino e de sua companheira. Eles permaneceram na comunidade indígena e se mantêm ligados às suas tradições. Há um mal-estar familiar de que Justino deixou para trás sua comunidade para viver no mundo dos brancos. Eles trazem uma visão estrangeira (para o filme e para a cidade) que é crítica, mas também compreensiva: seu irmão percebe com agudeza o dilema de Justino entre a felicidade por sua filha passar no Enem e a melancolia pela solidão que o espera. O segundo evento se refere aos misteriosos ataques de feras a animais domésticos. Essas feras são animais da cidade como cães ou animais selvagens da floresta? Essa fantasmagoria atravessa a fronteira entre o realismo da narrativa cinematográfica e o imaginário onírico da fábula.

No final das contas, é a capacidade de olhar para além dessas fronteiras que decidirá o dilema de Justino. Essa capacidade exige a sabedoria de reconhecer e decifrar as mensagens desconhecidas que vêm do outro lado. Entre os mundos incomensuráveis não há apenas uma linha, mas uma faixa ou zona de passagem. Interpretar nas entrelinhas significa a capacidade de entender a linguagem do outro ao deixar suas marcas exatamente nessa zona de passagem.  A febre é assim a metáfora maior das várias linhas divisórias que o filme apresenta e que se bifurcam: ela abre o espaço emaranhado de coexistência entre a sentinela e o sono e entre o imaginário e a corporeidade. A febre é o sinal de alarme que oscila entre a doença e a saúde.  Se é verdade que a palavra “filme” se referia originariamente à pele de animal, a película de A Febre expressa a pele de um corpo febril, o da obra. Na cena em que Justino atravessa o sinuoso rio de igarapés, raízes e cipós e desembarca na outra (terceira?) margem, a câmera se mantém na pequena canoa enquanto o personagem se distancia pela floresta. A grande virtude do filme de Maya Da-rin é sua decisão por habitar e permanecer nessa zona febril, o que faz de seu enredo um tecido entrelaçado de ideias e imagens, uma floresta impregnada de sinais, premonições e augúrios.

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Marize Castro

 

Foto: Joice Kreiss

 

[…]

 

 

De aço e seixos são meus lábios.
Misturo-os com os lábios do homem-mulher
e da mulher-homem

Giramos na mesma rotação até rompermos
o que de mais precioso possuímos

Então a miséria nos suspende
O amor se espalha em nosso sangue
e segreda: não se imobilizem

Daí a luz entra e já somos outros:
subterrâneos para os subterrâneos
translúcidos para a ternura

A coragem se mostra entre plátanos e feras
(na estranheza a bondade ancora)

 

 

[…]

 

 

A verdade é mesmo só um grão nunca visto?

 

 

[…]

 

 

Sonhei com o céu azul em meu ombro
e nele o meu rei estava
Suas árvores e seus segredos agora são meus

Tudo dele irradia e sobrevive em mim

Aonde ele foi?
Aonde irei?

Nenhum e todo lugar te espera
diz o meu coração enquanto se entrega
ao enigma mais distante

 

 

[…]

 

 

À luz de spots pavões esperam, o desejo lateja
Seivas de dríades deslocam-se

Na ilha de Circe, redefino-me

Em páginas secretas escrevo o que me golpeia:
terra e céu clareiam quando me esqueço
terra e céu agonizam quando te esqueço

Ouço os olhos do silêncio:
aquela mulher te ama porque te quer míssil
aquele homem te ama porque te quer pântano

Mãos imperfeitas libertam sépalas
Mulheres mancas e macias espraiam-se em areias remotas
Elas sabem: nada terá tido lugar senão o lugar

Em amor, território primeiro e último, vigio a morte
Ergo-me queimada entre campânulas
e restos de êxtase trazem-me de volta
(aprendi a deixar nascer as coisas)

 

 

[…]

 

 

Depois procurar o céu e exigir uma saída
para este país de sol e morte

Eis que com a tempestade a delicadeza surge
e guarda em cântaros de aço palavras como
pélago, guirlanda, alabastro

À noite lembro que a poeta Liu Xia
continua presa e seu homem amado está morto
lembro que Marielle está morta
e permanece sendo assassinada
– nove balas não são suficientes –

Monstros nos gabinetes ordenam:
destruam o êxtase e a verdade
São eles os inimigos, gritam os atrozes

 

 

[…]

 

 

À margem e sempre abismada, pergunto:
quem ouve e beija minha alma neste tempo
de enorme gravidade?
o garoto que no trânsito se banha em cristais?
a amiga que no alto da colina sorri, estratosférica?
o menino despido na casa que alcança o céu?
a  outra miga que se afoga no mar?
o rapaz trans que me oferta o sexo?

Busco a lanterna mágica de Tsvetáieva
Aquela que amou loucamente as palavras
seu aspecto
seu som
sua inconstância
sua imutabilidade

Sim e sim: amar com o mesmo amor
– nossa bênção e nosso anátema –

(tudo suave e ácido, cintilação e sombra)

Em mútuo desamparo, amantes sussurram:
…………………………………………Tânatos é puro

Um claustro se abre
e línguas de argila e ardor são arremessadas
na superfície do mundo

Seu coração em minha boca, minha boca em seu coração:
sorvo e ascendo

 

Marize Castro (Natal-RN, 1962) é autora dos livros de poemas Marrons Crepons Marfins (1984); Rito (1993); poço. festim. mosaico (1996); Esperado ouro (2005); Lábios-espelhos (2009); Habitar teu nome (2011) e A mesma fome (2016). É graduada em Jornalismo, tem mestrado em Educação e doutorado em Estudos da Linguagem. Editou nos anos 1980 o jornal O Galo e, nos anos 1990, a revista Odisseia. Edita seus livros por sua própria editora, a Una, que define como deliciosa e desamparada viagem.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Marcus Borgón

 

Foto: Joice Kreiss
Foto: Joice Kreiss

 

UM PESADELO ENTRE OS DENTES

 

Flanar distraidamente é um tesouro. Perder-se em pensamentos. Absorto. O corpo em piloto automático. E ao voltar à tona, encontrar-se no rumo certo. Sem desvios enganosos. Mas desta vez, não. Devo ter exagerado nos devaneios. O caminho era desconhecido. Tudo me parecia estranho, remoto. Estradinha de cascalho. Lembrança distante. Não tenho certeza. Pode ser o cheiro de barro molhado. Cinzeiros de argila na escolinha. Meu pai os recebia com sorriso medido. Talvez antevendo o enfisema que lhe consumiria os pulmões. O cansaço sobrepesava minhas pernas. Não escutava nada. Nenhum rumor de humanidade. Só minhas próprias pisadas naquele chão pedregoso e escorregadio. Sequer lembrava de onde parti. O sapato deve ter sido emprestado a mim. Me escapava o calcanhar a cada passada. E estava sem meias, coisa incomum. Depois de quase uma hora andando por aquela trilha rudimentar, avistei uma luz acesa. Era um bar, vazio. Um homem de idade avançada cochilava atrás do balcão. A TV ligada mostrava o padrão em cores. Há tempos eu não via aquilo. Os canais costumam varar a madrugada exibindo programas religiosos. Pastores negociando terrenos no céu. Ou prosperidade ainda na terra. Pagamento adiantado, irmão. Glória a Deus.

Dei umas batidinhas no balcão, como fazemos à porta. O velho acordou e me olhou com espanto. Corri a mão nos bolsos, mas não os achei. Usava uma calça sem bolsos. Ele se levantou, e perguntou se eu estava com sede. Respondi que sim, mas não tinha dinheiro. Eu não queria entrar em detalhes e explicar que não sabia o que fazia ali. E além de perdido, ainda estava sem nenhum documento. Ele me serviu uma água mineral em garrafa de vidro. Olhava desconfiado, me examinando de cima a baixo.  Isso me deixou um pouco tenso. Bebi a água lentamente, aos tragos. Num giro de pescoço, corri os olhos pelo ambiente. Examinei as paredes a fim de encontrar algum indício que pudesse me localizar no mapa. Deparei com um telefone público, vermelho. Daqueles que utilizavam fichas.

“Ainda funciona?”

“Claro. Quer ligar para alguém?”

Respondi de modo afirmativo, meneando a cabeça. Temia que ele me perguntasse se eu estava perdido. Certamente eu exibia um semblante extraviado. Uma cara de quem não estava ali. Como se minha alma e meu corpo tivessem se desencontrado. E foi exatamente o que ele quis saber. Meio ressabiado, achei melhor negar. Inventei que estava numa festa. Aborrecido com a bebedeira geral, resolvi cair fora antes do fim. Precisava apenas entrar em contato com alguém que pudesse me buscar, ou chamar um táxi.

“Era uma festa à fantasia?”

Esbocei um sorriso. Julguei que fosse uma piada. Ele olhava detidamente para minhas vestes. Eu não havia me tocado. Estava usando uma espécie de farda. Cinza, semelhante a do pessoal de “serviços gerais”. Uma sigla bordada na camisa, SSP. Uma mentira nunca vem sozinha. Sempre precisa de outras para sustentá-la. E no arrepio daquele clima inamistoso, forjar uma farsa plausível não era tarefa das mais fáceis. Peguei a primeira roupa que vi pela frente, falei. Dito assim, mais parecia egresso de um grande bacanal. Arrumei uma piscina, churrasco e todo mundo em trajes de banho.  O cenário estava devidamente montado. Era só evitar os detalhes. É neles que a gente tropeça.

Ele desligou a TV e ligou o rádio numa estação AM. Pediu para que eu ficasse à vontade. Iria lá dentro e já voltava. Sua voz gutural ecoava por trás dos engradados de Crush. Conversava com alguém que, ao contrário dele, não se podia ouvir a voz. Tentei escutar a conversa, mas o rádio atrapalhava. O locutor esbravejava contra o comunismo, subversivos, terroristas. De fundo, o hino nacional. Ele voltou, expressão ainda carregada. Disse que não passava táxi àquela hora.

“Eu aceito aquela ficha que o senhor me ofereceu.”

Eu não conseguia completar a chamada. Tornei a perguntar se aquele aparelho funcionava. Até o início da noite haviam feito várias ligações nele, me respondeu. Após dezenas de tentativas, eu desisti. Meu dedo estava doendo de tanto de discar. Agradeci e deixei a ficha sobre o balcão. Ele continuava a me fitar de modo inquisidor. Eu mal conseguia disfarçar o incômodo que aquela situação estava me causando. O céu estava apagado. Nenhuma estrela ousava cintilar. O tempo se arrastava. Há quem acredite que universo conspira a seu favor. Ou a seu revés. A segunda opção parecia se anunciar. Tudo estava harmoniosamente combinado contra mim. “Fique atento aos sinais” – me disse minha mãe, poucos dias antes de atear fogo ao próprio corpo.

“Tem certeza que discava o número certo? Parecia ter número demais…”

“Tenho sim. O senhor não teria um celular para me emprestar?”

Ele apertou os olhos, como se não tivesse entendido o que eu havia perguntado. Um telefone celular, o senhor não tem? Voltei a dizer, frisando bem cada palavra. Continuou me encarando, cenho franzido. Olhou para o relógio e, de forma um pouco áspera, respondeu peremptoriamente: “não”.

Eu cogitei sair dali. Continuar andando, ver se encontrava alguma rodovia, pista, canal, o diabo que fosse. O embaraço das mentiras me corroía. Não conseguia mais encará-lo. De repente, um barulho de motor. O dono do bar saiu de trás do balcão. Ficou perto de mim, em posição ostensiva. Apesar de bastante nervoso, me recostei no balcão. Queria aparentar tranquilidade. Tomei mais um gole de água. Quem sabe, alguém que pudesse me dar uma carona.

Dois policiais entraram. Sem falar nada, vieram em minha direção. Coloquei as mãos na cabeça e perguntei o que estava acontecendo. Me mandaram virar de costas. Fui revistado. Em seguida, me algemaram braços e pernas. Conduzido ao camburão, percebi que era inútil fazer qualquer questionamento. Nem eu mesmo sabia o que fazia naquele lugar, àquela hora. Ir a uma delegacia não era mau negócio. Assim eu saberia onde me encontrava. Poderia ligar para um conhecido, me identificar. Estaria tudo resolvido. Do fundo da Veraneio, ouvi o dono do bar falando com os policiais:

“É do São Pedro, com certeza. Procurei saber se era funcionário, mas ele inventou um monte de coisa. Falou que tinha saído de uma festa numa piscina, ligou para um número inexistente e perguntou se eu tinha telefone celular.”

“Telefone o quê?” – indagou um dos guardas.

“Telefone celular”.

Caíram na gargalhada. Um dos policiais disse que não haviam recebido nenhum telefonema de “lá”. Mas tudo indicava que era mesmo um “fugido” do São Pedro.

Sim, a sigla bordada na minha camisa. SSP. Era óbvia a constatação: as duas últimas letras significavam São Pedro. Mas, e o primeiro “S”? O que significava aquele primeiro “S”? O carro arrancou em alta. Comecei conjecturar as possibilidades. Salão? Sindicato? Simpósio? Seminário? Com assombro, a incógnita se desvelou. Um portão imponente se abriu. Acima dele, a inscrição em ferro trabalhado formando um arco. Entrei em pânico só de pensar. Injeções, choques, camisa-de-força. Huxley falou em abrir as portas da percepção. Eu tive a percepção das portas abertas. Deram um enorme vacilo. Certas oportunidades não cruzam duas vezes o nosso caminho. Haviam me tirado as algemas. Deixaram o fundo do camburão aberto. O portão, escancarado. A liberdade gritou meu nome. Saí em disparada. Pela frente, um blecaute absoluto. Nem sei se havia algum caminho pronto. O breu não oferece alternativas, é a ausência delas. Correr de olhos fechados era mais seguro. Eu podia vislumbrar o trajeto. Dar lume à fantasia é a melhor forma de evitar as armadilhas da escuridão.

Não sei dizer por quanto tempo corri. Só parei quando estava esgotado. No limite das minhas forças. Ao abrir os olhos, uma estradinha de cascalho. Cheiro de barro molhado. Aula de artes no primário, trabalhos em argila. Meu pai carcomido pelo vício. Tudo me era incrivelmente familiar. Aquela claridade lá adiante. Uma espelunca metida a vintage, bar 24 horas. Atrás do balcão vou encontrar um velhote de cara amarrada, tenho certeza. Enfim, posso respirar aliviado. Achei o caminho de casa.

 

Marcus Borgón colaborou com a revista de cultura e literatura Verbo21. Publicou textos em jornais, sites especializados em literatura, e coletâneas de contos. É autor da novela juvenil O Pênalti Perdido (P55 edições, 2016).

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Destaques Olhares

Olhares

No corpo do mundo

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Joice Kreiss

 

Dizer das coisas em imagens: eis uma definição possível para o ofício de um fotógrafo. Representar um universo de seres, objetos e lugares, tendo a luz como norte da criação. Ter a fotografia como o flagrante da vida que se manifesta em cada desavisado instante, propondo a quem contempla o resultado dos registros um mergulho também sobre o indizível.

Talvez o maior desafio para quem se proponha a captar a luz de um tudo seja o de apresentar recortes que mobilizem em nós algo de diferente. E aqui explico melhor para considerar que tal manifestação artística, quando foge da gratuidade e do óbvio, parece repercutir nos apreciadores o gesto da surpresa e de algum arrebatamento. Já que o mundo tem nos oferecido uma enxurrada de possibilidades imagéticas, podemos arriscar que os artistas que costumam sair do lugar comum produzem mais impacto com suas obras, pois se recusam a ter suas expressões diluídas no marasmo uniformizante dos excessos.

 

Foto: Joice Kreiss

 

O que chamo neste texto de corpo do mundo é, na verdade, todo um conjunto de possibilidades a alvejar sentimentos e percepções em torno de pessoas, gestos, coisas, lugares e fenômenos da natureza. E é nestas frentes vastas de observação que se espraia o trabalho de Joice Kreiss, artista sobre a qual ouso me debruçar agora e que evidencia em sua criação o ímpeto poético das representações.

Joice é fotógrafa de temática abrangente, pois perpassa o humano e também tudo o que o constitui interna e externamente. É, como ela mesma nos diz, alguém que tenta contar histórias através de suas lentes. No percurso narrativo proposto pela artista, temos uma profusão de movimentos ligados ao corpo humano, sinais que emanam de formas e gestos, de um ser e estar captado em meio ao turbilhão da rotina.

 

Foto: Joice Kreiss

 

Há também a Joice que vislumbra poesia e encantamento em diferentes paisagens do mundo, sejam elas urbanas ou marcadas por uma noção de bucolismo. Nesse seu trajeto, a fotógrafa parece eleger o silêncio dos lugares como algo que transborda para além das imagens captadas. Nos domínios da abstração, o olhar sobre a fisicalidade das coisas ganha contornos de reflexão sobre aquilo que parecemos enxergar como concreto, mas que nos é devolvido sob a forma do algo intangível.

Vivendo em Montenegro, no Rio Grande do Sul, Joice Kreiss sempre foi marcada pela fotografia e tem colecionado em sua trajetória participações em exposições, bem como premiações por alguns de seus trabalhos. A artista confessa que, nos últimos três anos, o estudo da fotografia se tornou algo mais consolidado em sua vida.

E assim temos a fotografia que enaltece variadas apreensões da luz. Há a luz que baila através dos corpos, outra que atravessa recantos de cidades. Vem à tona a luz que comunica o alvorecer dos dias e o fluxo das águas naturais. Também nos é permitido vislumbrar a luz que contempla as palavras esquecidas num canto qualquer da vida. Cada um destes fragmentos é instrumento da poesia de Joice Kreiss.

 

Foto: Joice Kreiss

 

* As fotografias de Joice Kreiss são parte integrante da galeria e dos textos da 142ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.