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113ª Leva - 07/2016 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Sérgio Tavares

 

John Lennon não teve a mesma sorte que Tadeu Sarmento. Em 8 de dezembro de 1980, o ex-Beatle caminhava pelas ruas de Nova Iorque, quando foi abordado por Mark Chapman, um sujeito gordo, de óculos de lentes grandes e cabelo escorrido, que lhe pediu um autógrafo. Horas depois, Lennon retornava ao hotel onde estava hospedado, e Chapman novamente o aguardava, desta vez armado de uma pistola. Alegando ouvir vozes que lhe mandavam matar, o suposto fã disparou contra o músico inglês, atingindo-o fatalmente quatro vezes nas costas.

Sarmento conheceu Chapman, quando trabalhava numa empresa de Call Center, em Recife. Mas as vozes que este ouvia eram as dos telefonemas dos clientes. Com o tempo, nasceu entre eles uma amizade, contudo persistia em Sarmento a sensação de que já conhecia o colega de trabalho de outro lugar. Certa noite, então, veio a revelação: o amigo era o assassino de John Lennon. Não o legítimo, que estava preso fazia décadas, mas um sósia anônimo de Chapman chamado Gabriel Dourado, que sequer sabia quem era o ex-Beatle.

O inusitado da descoberta foi o ponto de partida para o romance “Associação Robert Walser para sósias anônimos”, que venceu o Prêmio Pernambuco de Literatura de 2014. Com tom farsesco e técnica impecável, o autor recifense amalgama registros históricos e referências literárias a uma inventividade burlesca, para estruturar a trama sob duas linhas narrativas que versam sobre a figura do duplo, sendo a primeira a tal associação de sósias cujo desejo é se anularem à imagem de seus originais, num arremedo de seu patrono, o obscuro escritor suíço do título, que escolheu viver seus últimos dias no anonimato.

A outra metade da história se passa numa cidadezinha fictícia, localizada no Paraguai, adotada por fugitivos nazistas como refúgio, em especial pelo país estar sob o punho de um regime ditatorial. Ali, os habitantes, à maneira do comportamento de um rebanho, seguem os imperativos de Immanuel Kant, reprisando os hábitos do filósofo prussiano, inclusive aqueles que dizem respeito à sua vida sexual. Nesse jogo de duplas identidades, o romance rompe sua casca de surrealismo e, por meio de reflexos dos tempos modernos, toca em temas que se referem à apropriação do outro de modo a lograr a relação com o próprio mundo.

Este, de fato, é um dos assuntos recorrentes dessa sabatina: o modo pelo qual a internet, sobretudo com o ingresso das redes sociais, possibilitou a descaracterização do indivíduo em peças de um modo de proceder coletivo, de máscaras que cobrem máscaras numa postura que se tornou aceitável e, por que não?, padrão. Sarmento percebe a literatura neste mesmo contexto, apontando os novos rumos do mercado editorial, com a disseminação das pequenas editoras e dos novos autores, e ainda falando sobre as buscas de seu processo criativo, do novo livro que está por sair, da influência dos autores hispano-americanos e da poesia em sua ficção, da literatura feminina e da importância de ter conquistado um prêmio literário. Uma conversa que revela um escritor maduro, prolífero, atento à qualidade de sua escrita na mesma proporção que preocupado com o leitor. “Não quero me fechar em um mundo particular e escrever histórias ininteligíveis para a adoração de um seleto grupo de jacarés empalhados”, declara.

Tadeu Sarmento
Tadeu Sarmento / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seu romance, “Associação Robert Walser de sósias anônimos”, trata de uma maneira distinta do que se costuma abordar a figura do duplo na literatura universal. Seus personagens não carregam em si a ânsia de substituir (ou exterminar) seus originais, porém introjetam essa condição como uma forma de se apagarem, uma espécie de suicídio em vida. Isso acaba por trazer à memória “O mito de Sísifo”, em que Albert Camus argumenta que “só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”. Diante dessa afirmação, você acredita que, no mundo ultramoderno e expositivo, desejar intensamente ser o outro, negar de modo integral a própria identidade, é uma decisão que está mais ligada à patologia ou à filosofia?

TADEU SARMENTO – Está ligada às duas. Aliás, depois que Nietzsche nos revelou que sistemas de conhecimento dependem mais das paixões dos filósofos do que gostaríamos que dependessem, não podemos mais separá-las. Estou pegando a raiz etimológica do substantivo “patologia”, que segundo a Wikipédia (risos) vem de pathos, paixão. É nesse sentido que faço minhas as palavras do narrador do “Associação…”: “a paixão de querer ser outra pessoa só não é maior que a de esquecer quem você é”. Essa é a tese central do romance, que você coloca muito bem na pergunta. Em tempos de redes sociais, esse desejo de apagar (ou esconder) a si mesmo para construir um outro que você não é, tomou proporções de um surto psicótico sem precedentes. Não é à toa que muitos leitores hoje em dia gostem tanto da chamada “autoficção”. É que todos fazem “autoficção” diariamente em suas timelines. Cada um faz da própria vida uma ficção fantasiosa, colocando os demais como coadjuvantes da grande novela do seu EU fantasioso. Posso citar um exemplo prático, da data corrente (a entrevista foi realizada no fim de agosto): quando o golpe contra a presidente Dilma ainda não havia sido consolidado, vi muitos amigos afirmarem em rede que pegariam em armas caso acontecesse, que usariam de violência, e isso e aquilo. Agora que o golpe se consolidou, o discurso já se deslocou para um viés mais brando, de elogio às qualidades da presidente e da afirmação de que “a história fará justiça”, etc. Quer dizer: muda-se o roteiro, mas não se larga o personagem. É patético, é triste, é risível, mas é profundamente… humano. Por isso é tão bonito. A humanidade é constituída menos de grandezas e bem mais dessas pequenas baixezas mesmo. Não somos grande merda e ter consciência disso torna a vida mais suportável.

DA – Aí está um dos subtextos a que se ocupa o livro: a possibilidade de ser outro através do ingresso nas redes sociais. Mais que uma fuga, essa pode ser uma condição de anestesia, de mentir para si que há um meio (ou meios) de se esquivar dos problemas reais, da vida que existe no espaço-tempo até o acesso ao smartphone ou ao computador. Não caminhamos, desse modo, muito mais para ser um sósia de nós mesmos que de um outro a quem se guarda admiração?

TADEU SARMENTO – Faz sentido. Acredito que a premissa secreta que move os sósias que frequentam a Associação Robert Walser é a ideia de que ninguém escolhe seu modelo de admiração por acaso. Isso Hussein talvez tenha percebido antes de nós, o que fica claro durante aquele exercício em que ele manda os sósias escreverem o próprio nome na borda das meias. Talvez sejamos incapazes de nos apagar por completo, por isso escolhemos modelos que guardem alguma identificação conosco. Modelos através dos quais possamos trazer à luz aquilo que temos de mais guardado. Nesse sentido, ser um sósia de si mesmo ou de um outro termina dando na mesma. O sósia do Chapman é tão retraído e paranóico quanto o Chapman original. Ele apenas encontrou um palco sobre o qual atuar. Podemos dizer que esse nosso palco é a rede social. “Você não pode fugir de sua própria sombra”, diz Jack London na epígrafe do livro. Sou tão fascinado com essa questão da teatralidade nas redes sociais que depois do “Associação…” escrevi outro romance mais específico sobre o assunto. Não posso dar detalhes porque o livro está em análise em um prêmio por aí. Mas em breve teremos notícias dele. Boas notícias, espero.

DA – O curioso é que, diante dessa sensação reinante de absurdo, o romance abre uma segunda linha temporal, na qual um outro grupo de sósias, ocupando uma cidade tropical onde também se refugiam nazistas, seguem monasticamente os preceitos filosóficos de Immanuel Kant. Como a razão consegue se estabelecer nesse universo frequentado justamente pela falta de lógica? E mais, é possível existir sósias de Kant nos dias de hoje?

TADEU SARMENTO – Essa segunda linha temporal é interessante. Ela não existia na primeira versão do “Associação…”. Tive a ideia de incluí-la depois de me lembrar desse obscuro livro que li na época da faculdade de filosofia. “A vida sexual de Immanuel Kant”, de Frederic Pàges, existe. O livro trata dessa colônia de kantianos e na época do seu lançamento causou um escândalo moderado, relativo a questões de autoria. Resolvi colocá-lo no livro, em uma espécie de exercício metaliterário no estilo Vila-Matas, depois que percebi que para por em xeque a questão da identidade, precisava colocar também em xeque a questão da autoria. A pergunta que o escândalo Pàges/Botul suscitou foi a seguinte: até que ponto um texto perde sua validade quando se descobre que seu autor é também uma invenção ficcional? Pois foi essa a acusação que fizeram a Pàges na época, a de ele ter inventado o filósofo Jean-Baptiste Botul. A partir daí, alguns jornais tentaram desmerecer a obra. Só que essa tentativa de desmerecimento ocorreu, em parte, do fato de Pàges ter enganado muitos com a brincadeira. Isso está bem tratado no “Associação…” e a ligação dessa história com a história da associação de sósias é tão orgânica quanto contrapontual. A ideia dos criminosos nazistas veio depois. Não tem nada a ver com o livro de Pàges. Quanto à pergunta em si, creio que a razão consegue se estabelecer bem em um universo, como você disse, frequentado justamente pela falta de lógica, uma vez que o que consideramos “ilógico” é na verdade um outro tipo de lógica ainda não desvendada. Hoje em dia não só é possível haver sósias de Kant como eles existem de fato. Somos todos nós. O homem moderno, que assassinou Deus para colocar em seu altar vazio a própria consciência como único tribunal e único juiz, é uma invenção kantiana. Somos todos sósias de Kant.

DA – Falando em Deus, recordo-me de ter lido que seu próximo romance, que sai em breve pela Confraria do Vento, chama-se justamente “E se Deus for um de nós?”. Não sei a que ponto pode adiantar a trama, mas há também o uso dessa carga filosófica para expor e problematizar comportamentos e valores sociais modernos, a exemplo do que foi feito em “Associação…”?

TADEU SARMENTO – O “E se Deus for um de nós?” é um romance sobre um assassino em série de ruivas virgens que se envolve com uma irlandesa que muitos acreditam ser uma espécie de Joana D’Arc do IRA. Escrevi o “Associação…” em 2013. De lá para cá, escrevi mais três romances, um deles é o “E se Deus for um de nós?”. Os outros dois estão submetidos a prêmios literários de inéditos. Todos os três que vieram depois diferem em tudo do “Associação…”. Gosto bastante do “Associação…”, mas não pretendo ser um escritor para pares, críticos literários e afins. Quero chegar ao leitor comum (leia-se: leitores não especialistas), enquanto eles existirem. De modo que a resposta é não. Meu romance que sai esse ano pela Confraria é enxuto de referências nem tem jogos filosóficos ou literários metalinguísticos. Seu grande trunfo é o enredo, e a maneira como consegui que esse enredo fluísse bem até o final. Mas continuo com o mesmo senso de humor. E os personagens que surgem com a trama são impagáveis, mas absolutamente verossímeis: operadores de Call Center com distúrbios nervosos, gays homofóbicos, policiais canastrões, adeptos de seitas religiosas malucas, metaleiros nazistas, surfistas com pernas amputadas, traficantes de filmes pornôs ilegais, virgens sodomitas, etc. É também um dos livros mais politicamente incorretos que eu já li (risos). Terei sorte se não for preso depois de lançá-lo. Do jeito que as coisas andam…

DA – Mas já há no “Associação…” a ocorrência desse humor cáustico, de uma ironia cortante que, em certos momentos, pode ser gatilho para o desagrado dos mais obtusos, dos patrulheiros mal-humorados ou mal-intencionados. Pela sua resposta anterior, parece-me que isso não lhe tira o sono nem um pouco. Sendo assim, sua intenção, enquanto escritor, é provocar o leitor, testar sempre seus limites? O politicamente correto é mais um estímulo que uma trava ou, menos ainda, uma constante aporrinhação?

TADEU SARMENTO – Não apenas minha intenção, mas acredito que o que caracteriza a boa literatura é justamente sua capacidade de colocar o leitor em contato com sentimentos e pontos de vistas conflitantes ao seu, e não apenas conflitantes, mas em alguns casos até indigestos. O politicamente correto não deve ser empecilho para escritor nenhum. Muitas vezes é tarefa do escritor dizer como a realidade é, e não como ele, enquanto cidadão, gostaria que fosse. Se num romance há um personagem misógino, homofóbico, racista, etc., como construí-lo sem lançar mão de passagens misóginas, homofóbicas ou racistas? Tudo depende se tais passagens funcionam e/ou são essenciais à narrativa. Note que esta é uma pergunta técnica, não moral. Uma literatura que responda a perguntas morais deixa de ser literatura e vira panfleto de igreja. E caso essas passagens sejam necessárias, o escritor deve estar preparado para negociá-las diante de um possível linchamento público. Claro que, como você coloca muito bem na pergunta, sempre haverá algum mal-intencionado pronto a retirar uma citação de contexto para pilhar um escritor nas redes sociais. É que depois que a fogueira está acesa, qualquer um arruma motivos para levar seu graveto seco para alimentar as chamas. Mas é só isso o que eles têm: um graveto seco. A rede social é como Deus: deu voz a muitas jumentas de Balaão.

DA – Voltando ao romance, uma outra leitura que pode ser feita é a respeito da própria literatura contemporânea. Você parece lançar mão de inúmeras referências literárias como uma maneira de trazer à luz a literatura que é feita e consumida hoje em dia, como se nós, novos autores, fôssemos uma cópia mal-acabada do que nos precedeu. Acredita que os escritores de hoje são sósias que estão longe de respeitar o legado de seus originais?

TADEU SARMENTO – Bem, quem usou a expressão “cópia mal-acabada” foi você (risos). Mas acredito que todo escritor, no início, comece sempre como um sósia, no sentido de escolher um modelo (um “original”) para copiar e dar os primeiros passos na escrita. A fase seguinte é a da negação dessa influência, em um esforço de tentar criar um estilo de escrita. Isso é muito natural, e tem mais a ver com o “desrespeito” do legado da tradição que elegeu como sua, que com o “respeito” (como você colocou na pergunta). Todo escritor passa por esse “assassinato simbólico” do pai, numa tentativa de adquirir autonomia como autor. No fundo, o estilo de um escritor vem a reboque, e depois de muitos anos de escrita. Nasce do exercício diário, da fraude bem ensaiada sobre a soma do estilo de tantos escritores que leu. Só que há também o risco de isso nunca acontecer, de o escritor nunca criar um estilo, e não há problema algum nisso. Temos ótimos escritores que nunca desenvolveram um estilo, mas que executam bem suas ideias e conseguem compor um romance que vale a pena ser lido. Falo de romances porque é a minha praia, mas isso serve para poetas ou contistas também (acho). O “E se Deus for um de nós?” é a minha tentativa de superar, por exemplo, a influência de Roberto Bolaño e de Enrique Vila-Matas na minha escrita e criar um estilo. Terei conseguido? Bem, isso cabe ao leitor dizer. O adjetivo deve sempre partir da boca do outro. Elogiar a si mesmo é falta de decoro.

DA – Você citou um chileno e um espanhol, mas, durante a leitura do “Associação…”, senti uma frequência constante da literatura argentina em sua ficção. Autores como Antonio di Benedetto, Mario Levrero e J. Rodolfo Wilcock (sobretudo nas biografias que ocupam o fim) parecem lhe emprestar traços de seus estilos, de seus teores narrativos, de suas predileções temáticas. De maneira geral, a literatura hispano-americana é uma forte referência para você, enquanto autor e também enquanto leitor? E qual é a sedução dos hermanos, que a literatura brasileira não tem?

TADEU SARMENTO – Minhas referências são sazonais. Já tive meu “ano Bolaño”, onde li tudo o que saiu do escritor chileno pela Companhia das Letras. Tentei acompanhar com frequência a coleção Otra Língua, que saiu pela Rocco e foi capitaneada pelo mestre Joca Reiners Terron. A principal sedução da literatura argentina, para mim, é essa desenvoltura que tem em passear pelos gêneros (alguns ditos “menores”, como o romance policial) e sua capacidade para digerir a própria tradição literária. Nossa literatura ainda é um pouco conservadora nesse sentido e está mais ligada a certa tradição realista. Claro, falo de um modo geral, excetuando-se o próprio Terron, Karam, Nelson Oliveira, Rosário Fusco, Campos de Carvalho, Daniel Pellizzari e tantos outros. Mas sobre as biografias inventadas, o pai de todos nós é o francês Marcel Schwob, autor do genial “Vidas imaginárias”. O Wilcock e o Benedetto que você cita, por exemplo, eu ainda não li. O fato de você perceber traços deles no “Associação…” só prova que bebemos na mesma fonte, que é a fonte ocidental da literatura de invenção.

Tadeu Sarmento
Tadeu Sarmento / Foto: arquivo pessoal

DA – Fonte, aliás, com a qual o “Associação…” inunda suas páginas. Faz tempo que não leio um romance que prioriza, mais que o estilo ou a linguagem, sua potência inventiva. De onde nasceu a inusitada (e fantástica) ideia sobre essa associação de sósias? Como foi o processo de composição do livro? Chegou a recorrer a algum trabalho de pesquisa?

TADEU SARMENTO – Fico feliz que tenha gostado, mas apesar de ser um romance inventivo, como você bem colocou, o gatilho para sua ideia partiu de um acontecimento prosaico: em 2012, eu trabalhava como supervisor em uma empresa de Call Center e conheci um colega de trabalho (Gabriel Dourado, que depois se tornou um grande amigo) que é um sósia anônimo do Mark Chapman. O romance, aliás, é dedicado a ele. Quando o vi pela primeira vez, fiquei intrigado, com aquela impressão que temos quando conhecemos alguém que nos lembra outra pessoa, sem que saibamos qual. Fiquei uns bons dias assim, até que certa noite acordei assustado e gritei: “Meu Deus, Gabriel Dourado é o assassino de John Lennon”(risos). Tive que alertá-lo, sobretudo porque ele andava querendo passar férias nos EUA e precisei dissuadi-lo da ideia, alegando que poderia ter problemas por lá, caso cruzasse com algum beatlemaníaco que, ao vê-lo, poderia acreditar que Chapman houvesse saído da cadeia. Esse foi o pontapé inicial para a ideia do romance. Quanto à associação de sósias, em 2010, tive uma crise de depressão que me levou a passar sete dias em uma clínica para doidinhos moderados. Depois que saí, fiz tratamento por um ano e estou bem desde então. O fato é que tanto na clínica quanto na terapia fora dela, participei de grupos de autoajuda para pessoas na mesma condição em que eu estava. Todas as reuniões da Associação Robert Walser são baseadas nessas reuniões. O próprio prédio da Associação, descrito no romance, lembra muito o prédio da clínica. O bacana foi que, apesar de estar sofrendo na época, consegui enxergar algo de muito cômico e de muito teatral naqueles encontros. Essa marca d’água humorística sobre um desespero terrível perpassa todo o meu romance. Basicamente foi essa minha pesquisa.

DA – O resultado foi a conquista do Prêmio Pernambuco de Literatura, em 2015. Na ocasião, você já tinha dois livros lançados, portanto como esse prêmio refletiu na sua carreira literária? Há uma ideia de que uma distinção literária de repercussão nacional, quando não envolve uma boa recompensa financeira, serve para projetar o autor para um público maior, para uma grande editora. Qual foi a sua experiência, nesse caso? Qual o valor real de um prêmio literário? 

TADEU SARMENTO – Refletiu no sentido de que tive oportunidades que não teria se não ganhasse o Prêmio. Conheci pessoas. Fui chamado para lugares. Costumo dizer que o II Prêmio Pernambuco de Literatura me salvou. Já havia disponibilizado 11 livros inéditos na internet e estava prestes a pendurar as chuteiras (leia-se: não querer mais publicar e seguir escrevendo para sempre no anonimato), mas o Prêmio Pernambuco mudou tudo isso. Ganhei um bom dinheiro também, com o qual pude comprar um computador de ponta e um software original do Word. Mas você sabe melhor do que eu, Sérgio, que essa glória dura pouco tempo. Logo vem a próxima edição do prêmio e somos esquecidos tão rápido quanto. O dinheiro acaba também. É assim que a coisa funciona e é bom que funcione assim, pois 99% do principal trabalho do escritor acontece no anonimato e na solidão. Algo que digo em favor do Prêmio Pernambuco de Literatura é que é um prêmio sério. Quando o ganhei, não conhecia ninguém no meio literário, estava enfurnado há quatro anos em uma empresa de Call Center, comendo o pão que o Diabo amassou, cagou e cuspiu em cima. Ganhei pelo texto mesmo, com uso de pseudônimo. Eu e mais meus três (hoje) amigos Helder Herik, Rômulo César e Wander Shirukaya (que levou o prêmio principal)… taí, acho que a amizade desses três caras foi a melhor coisa que o Prêmio me deu. Se for medir o valor real do Prêmio pela amizade deles, eu diria que é um valor inestimável.

DA – Pois é, isso é algo que eu desconhecia e realmente me impressionou: o fato de você ter publicado 11 livros na internet, num espaço de tempo tão curto. Tem autores consagrados que, durante toda a carreira literária, não chegaram a esse número. O que o levou a essa iniciativa: falta de oportunidade por parte das editoras, vontade de ter o controle de todo o processo, ímpeto? E hoje, olhando para trás, faria o mesmo? Não acha que, se tivesse um pouco de paciência, esse material poderia ser mais batalhado e, quem sabe, chegar ao papel, por um selo editorial?

TADEU SARMENTO – Na verdade, são livros incompletos ou mal finalizados, romances em sua maioria, cujas ideias não consegui levar adiante. Na época, pus lá a título de curiosidade mesmo, aproveitando o fato de que estava desencantado com tudo e duvidando até mesmo da minha capacidade de escrever. As únicas exceções foram o livro de contos “Breves Fraturas Portáteis” e o romance “Lautréamont Press”. Destes, eu gosto bastante. O primeiro chegou a ser publicado em 2004. O segundo perdeu merecidamente um Prêmio SESC para o grande André de Leones, cujo romance de estreia, “Hoje está um dia morto”, é infinitamente melhor conduzido que ele. Mas houve um livro que não disponibilizei, uma novela chamada “Matadouro”. Foi escrita na mesma época que os outros, mas é muito bem acabada. O argumento gira em torno de um homem que decide abrir um puteiro só com travestis para juntar grana e fazer uma operação de sexo na mulher que ele ama, que também é travesti. Esse está guardado. O fato é que não me arrependo. Hoje olho para eles e vejo exercícios de estilo que me trouxeram até onde estou. Todos foram escritos entre 1997 e 2007, mais ou menos. E vou te contar: tenho um ritmo de produção acelerado, além de muita disciplina para escrever e quase zero de vida social. Depois do “Associação…”, por exemplo, escrevi o “E se Deus for um de nós?” (que sai pela Confraria esse ano) e tenho mais sete livros inéditos (um romance longo e mais seis novelas de cem páginas, em média). A maioria está pendurada em algum prêmio literário. Não sofro dessa pressa para publicar. Tenho uma primeira leitora exigentíssima (a poeta Adriane Garcia) que supre em parte essa necessidade de comunicação que tenho, que todos os escritores têm, e que é o que nos leva a querer publicar depressa. Acho a pressa a inimiga não da perfeição, mas do escritor. A profusão de gráficas com CNPJ de editoras piora ainda mais a situação. Mas graças a Adriane, posso ficar meses, até mesmo anos, com um livro na gaveta. Enxugando e reescrevendo…

DA – Você está corretíssimo: a Adriane é uma grande escritora, vide a antologia poética “Só, com peixes”. Aliás, você também escreve poesia, mas logo falamos sobre isso. O que gostaria de destacar é o surgimento de uma nova geração de escritores nordestinos que, nos últimos anos, vem abocanhando um tanto de prêmios literários. Para se ter uma ideia, o último Prêmio São Paulo de Literatura teve as suas três categorias vencidas por autores nascidos no Nordeste. O mesmo tem ocorrido com o Prêmio Sesc de Literatura e outros mais. Natural de Recife, como observa esse momento? Há algo realmente de inovador ocorrendo na região? E, para além dos limites territoriais, nota que existe uma resistência dos chamados grandes grupos editoriais do eixo Rio-SP para com os autores nordestinos? 

TADEU SARMENTO – Pergunta difícil, não sei se tenho conhecimento nem segurança suficiente para responder. No meu ponto de vista não se pode mais medir a literatura por essa régua regionalista. De modo que à pergunta sobre se há algo de inovador acontecendo no nordeste em termos literários eu respondo pensando no Brasil como um todo. Há algo de inovador acontecendo com a literatura brasileira contemporânea? Resposta: sim. O quê? A participação das mulheres. O futuro da literatura é das mulheres. Não é à toa que em 2016 elas levaram a quase totalidade dos prêmios literários. E veja bem: não sou um homem feminista, isso não existe. Digo até que sou um machista na condicional. Para nós seria mais cômodo se elas quisessem permanecer na cozinha. Mas elas não quiseram; mérito delas, sorte nossa. O fato é que leitor nenhum aguenta mais o modelo clássico-masculino Bukowski: putinha, álcool, sexo, mimimi. Leitor nenhum aguenta mais a figura do outsider que passou fome e venceu como artista. Leitor nenhum se interessa mais pela vida sexual dos escritores. Isso é coisa de retardado mental, e o escritor que fugir desse modelo poderá dividir espaço com as mulheres. Escritoras como Betzaida Mata, Martha Batalha, Cinthia Kriemler, Carol Bensimon; poetas como Adriane Garcia, Carla Diacov, trazem experiências novas e visões de mundo diversas, até então pouco ou nunca tratadas literariamente. Saindo um pouco do Brasil, a mexicana Valeria Luiselli, por exemplo, com “Rostos na multidão” escreveu um grande romance sobre a difícil relação entre a maternidade e a vida de escritora. Um livro surpreendente. Que escritora fará o próximo? Tenho até um palpite, mas não quero estragar a surpresa. Quanto à outra pergunta, não acredito que exista essa resistência dos grandes grupos editoriais do eixo Rio-SP para com os autores nordestinos. Grandes grupos editoriais querem vender livros e lucrar. Duvido que se importem se seus autores são nordestinos, índios, marcianos ou sacis-pererês.

DA – O que achou de toda aquela polêmica envolvendo o termo “literatura feminina”?

TADEU SARMENTO – Uma bobagem. Voltamos às redes sociais: elas são lentes de aumento que, de um traque de massa, esperam gerar uma grande explosão. É uma espécie de histeria coletiva que se alimenta de polêmicas fabricadas. A sorte (ou má sorte, depende) é que essas discussões “infindáveis” raramente duram mais de vinte e quatro horas. Logo o enxame se agarra ao rabo de cometa de outra polêmica e segue seu caminho rumo ao inevitável nada. Isso que se chama “literatura feminina” não existe. Existe a Literatura. É válida a discussão de uma maior participação das escritoras em espaços públicos antes só ocupados por escritores? Claro que é. Mas para isso não precisamos criar mais um rótulo. Os que já têm já bastam.

DA – Queria voltar, então, a uma observação que você fez lá atrás. Quando colocou que “a profusão de gráficas com CNPJ de editoras piora ainda mais a situação”, você tocou num ponto que sempre trago para minhas discussões com autores e editores, que é a proliferação das oportunidades de publicação. Sei que tem um lado positivo, sobretudo para os autores que não conseguem acesso aos grandes selos, porém me preocupa o fato de termos uma leva de títulos de escritores ainda imaturos, que poderiam ter estreado de uma forma muito mais consistente e na hora certa. O que pensa sobre essas pequenas editoras que, de fato, são fábricas de publicações? Acredita que isso, a longo prazo, terá um efeito incisivo na qualidade da literatura brasileira?

TADEU SARMENTO – Tem uma frase do Kierkegaard que gosto muito: “Há uma impaciência que quer colher antes de semear; deixemos que a ironia a discipline”. As pequenas editoras têm um papel essencial: apostar em novos autores que, por N motivos, não teriam acesso aos grandes selos (como você os chamou). Apresentar esse autor ao mercado de leitores. Fazê-lo circular. Dar visibilidade à sua voz. A única coisa que está faltando, de um modo geral, às pequenas editoras é justamente a figura de um editor (ou editora) que freie essa impaciência supracitada e trabalhe as arestas do manuscrito junto com o escritor até que fique pronto. Precisa ser um editor ou editora comprometido com a Literatura; e que conheça a melhor maneira de fazer com que esse texto chegue aos seus leitores. É isso que está faltando. Editoras como Karla Melo (da Confraria do Vento), que trabalham nesse sentido, são uma raridade. Mas para se chegar nesse nível é preciso ter critérios de qualidade. É preciso ter disposição. Seriedade. Fazer livros não é só meter uma capa, colar as páginas e mandar imprimir. Existe todo um trabalho prévio. Esse trabalho prévio é o que distingue editores de donos de gráfica. Imprimir livros não tem nada a ver com Literatura. Construir um livro, sim. O bom editor ou editora é aquele que redescobre o texto do autor para ele mesmo. Mas não acredito que isso tenha efeito incisivo na qualidade da literatura brasileira de um modo geral. O que tem esse efeito incisivo (e negativo) é a péssima qualidade da educação do nosso país. Se nosso agonizante ex-governo de esquerda tivesse investido maciçamente em educação de base desde 2003, teríamos hoje a primeira geração de adolescentes bem formados. Em vez disso temos… bem, temos o que temos. “Mas a educação de base não é obrigação do governo federal”, dizem alguns. Isso é verdade, mas E DAÍ? Eu quero os CIEPs de Darcy Ribeiro implantados em todo o país. Não aceito nada menos que isso. Dinheiro temos. O que não temos é a educação como prioridade. Daí a fórmula é fácil: sem educação, sem leitores – e uma Bienal do Livro cuja principal atração são os youtubers. Então, diante da escassez de leitores, escritores e escritoras fazem o diabo para chamar a atenção: poetas tiram a roupa na rede; escritores forjam a própria morte ou inventam papinhos de miséria. E a Literatura vai ficando cada vez mais em segundo plano até virar um apêndice, uma nota de rodapé.

DA – Não faz muito tempo, ouvi de uma pessoa do mercado editorial que o escritor, hoje em dia, tem de ter muito mais que talento literário. O seu valor seria determinado pelo quanto de curtidas têm suas postagens no Facebook, o quanto de seguidores atraem suas redes sociais, pelo tanto de pessoas que enchem auditórios para ouvi-lo falar de qualquer coisa, mais a literatura. O escritor, afinal, teria mais importância pelo que é, do que pelo que escreve. O que pensa dessa colocação?

TADEU SARMENTO – É uma colocação realista, de alguém preocupado mais com venda de livros que com a qualidade do texto em si. Acho algo natural. As grandes editoras, afinal de contas, têm um corpo de funcionários considerável e precisam sobreviver e sobrevivem vendendo livros. Mas isso não deve ser preocupação do escritor. Já na própria fonte do texto o escritor submete a palavra, ao mesmo tempo, a um princípio de exclusão e desigualdade. O escritor procura seus iguais, excluindo todos os outros. A linguagem que escolhe e as imagens que utiliza restringem o acesso ao seu estilo de pensamento. Querer ser lido por todos é uma carência de neuróticos. Claro que todo escritor quer vender o máximo de livros possível, a questão é saber até que ponto está disposto a ir para conseguir isso. Só que acrescentar mais água para alimentar a todos é correr o risco de deixar a sopa mais rala. E isso não dá garantia nenhuma. Porque o público que curte e segue um escritor nas redes não é necessariamente um público leitor em potencial. Quase tudo nas redes é fugaz, superficial, volátil e fútil. Mas enxergo a questão sem romantismos. Acho até bom que uma editora mantenha esse tipo de bucha de canhão na linha de frente, para vender milhões de livros durante um surto de pieguices. É uma maneira de capitalizar a editora. Capitalizada, ela pode decidir apostar em outro autor que não venda tanto, mas que tenha um trabalho consistente. Bons autores dão prestígio a uma editora. Editoras não vivem só de dinheiro.

DA – Numa resposta lá atrás, referente ao seu novo livro, você declara que seu objetivo é “chegar ao leitor comum, enquanto eles existirem”. E agora coloca uma fórmula de que “sem educação, sem leitores”. Parece-me, desse modo, uma equação complexa cujo resultado, se não for igual a zero, é potencialmente negativo. O quadro é, de fato, irreversível ou ainda há solução?

TADEU SARMENTO – A única coisa irreversível é a morte. No fundo sou um otimista envergonhado. Também não posso confirmar se, com um nível educacional melhor, teremos mais leitores. Tudo o que eu disse foram conjecturas. É difícil pensar em uma massa de leitores num país como o nosso, que foi inserido na era da cultura das imagens sem cumprir antes seu ciclo de alfabetização. Não sei se a Literatura será capaz de competir com todo o resto (redes sociais, etc.) quando esse nível educacional supostamente subir. Quando digo que meu objetivo é chegar ao leitor comum é por acreditar que o escritor tem um papel individual nisso, que é o de construir histórias cada vez mais bem contadas, que prendam a atenção do leitor até o fim. Não quero me fechar em um mundo particular e escrever histórias ininteligíveis para a adoração de um seleto grupo de jacarés empalhados. Quero escrever um texto cada vez mais fluido e mais simples, com histórias cada vez melhor arquitetadas. Temos (nós, escritores) na ponta da língua várias desculpas para o reduzido número de leitores atuais: desde a não formação de hábitos de leitura até nossos problemas educacionais – e todos estão corretíssimos em apontá-los e querer debatê-los. Só que se não fizermos nosso mea culpa não sairemos do raio de reclamação. O escritor deve pretender se dirigir, tanto quanto possível, para uma plateia cada vez mais ampla, em vez de querer desancá-la com esnobismos. Somos parcialmente culpados por esse êxodo de leitores, afinal, nós os espantamos, depois de anos e anos de hermetismos pós-modernos. Conheço escritores que ficam de fato emburrados quando o leitor compreende seu texto, pois no fundo acreditam que a ininteligibilidade é o mais alto padrão qualitativo. Mas se um escritor não trabalha para ser lido com clareza é para quê então?

DA – Há pouco, falamos rapidamente sobre poesia e agora quero retornar ao assunto. Embora sua ficção se dedique mais à prosa, na forma de contos, novelas e romances, você também escreve poemas. Como se relaciona com a poesia? De que maneira e a que ponto o gênero lhe motiva, em seus encontros com a literatura, em seus processos criativos?

TADEU SARMENTO – Minha relação com a poesia é bissexta. Não sou um grande leitor de poesia também. É uma deficiência cognitiva que tenho e que a Adriane agora está tentando corrigir (me indicando bons poetas para ler, lendo bons poemas para mim). E sempre que escrevo um poema nunca estou seguro de sua qualidade. Não me sinto à vontade no gênero, para ser honesto. Sempre acho meus poemas muito formais, empostados e anacrônicos. E tinha muita birra com poetas antigamente. Agora levo na brincadeira a mania que eles têm de sempre achar uma brecha para recitar poemas em tudo que é canto, lugar ou hora imprópria. Parece até que poetas vêm com um “timing” interno que os avisa quando aquela é a hora mais imprópria para recitar. Então eles se levantam e recitam. Parecem pastores no púlpito. Claro que estou exagerando um pouco. Tenho grandes amigos com esse defeito absolutamente perdoável. A Adriane vai bater em mim quando ler isso. Mas no fundo admiro muito os poetas. Os grandes. Os loucos. Os Papasquiaros da vida. Bolaño diz, em “2666”, que poetas são os únicos que estão fora do jogo. Que não se vendem. E estão mesmo. E não se vendem mesmo. São artistas. Pelo menos os maiores são.

DA – O que é essa necessidade de escrever?

TADEU SARMENTO – É uma vocação. Só de encontrar minha vocação já me sinto um privilegiado. Isso soa até piegas e talvez seja mesmo, mas não há definição mais acertada. É também uma maneira de me relacionar com o mundo, de digerir a realidade pelo viés da imaginação. No fundo sou um moralista que quer dar sentido àquilo que não tem sentido. Escrever um romance é uma forma de reordenar os fatos. Talvez por isso que, com o tempo, eu tenha optado por escrever narrativas longas. Escrever é uma maneira de me manter coeso, funcional, e escrever narrativas longas me mantém assim por mais tempo. Mas, sobretudo, escrever é uma maneira de conquistar um lugar no mundo. Trabalhei em um Call Center por quatro anos e todos sabem que Call Centers são considerados um dos piores lugares para se trabalhar. Suportei toda sorte de cansaço e humilhações porque sabia quem eu era, porque tinha à mão algo pelo que abandonar todas as demais minoridades da vida e me concentrar em um único foco. Quem se livra de bagagens pesadas para seguir um declive deve sentir-se assim como me sinto quando escrevo.

DA – Se você pudesse escolher ser um sósia, de quem seria?

TADEU SARMENTO – De Philip K Dick. Algumas pessoas até me acham parecido com ele.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

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112ª Leva - 06/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

Dividimos em etapas a celebração dos 10 anos da revista. A Leva 112 que agora surge contempla um segundo passo nesse sentido de comemoração. A intenção é mesclar tanto autores que nos ajudaram a construir essa história quanto os que debutam em nossas paragens editoriais. Hoje, compreendemos melhor o teor real da palavra encontro, esse somatório de expressões a tecer um rico painel no qual verbos e imagens se encaixam. Cada colaborador expõe parte de seu mundo entre nós, tornando possível um descortinar de outras percepções. Seja no contexto da arte visual ou da construção da palavra, os signos transmitidos comunicam além das aparências. Diga-se de passagem, o mundo é em si um grande livro aberto a interpretações. E tal viés ganha corpo amplo quando notamos que o conjunto das expressões particulares de cada autor nos ajuda a compreender o que nos cerca. Saímos de nossa própria aldeia na medida em que mergulhamos na obra do outro. A figura da alteridade é também um curioso ponto de aproximação entre distantes visões de mundo. Sendo assim, talvez demoremos a perceber que é nas diferenças que o produto da arte surge e vai se moldando. A não conformidade do pensamento é, então, a protagonista de tudo. É justamente esse tipo de constatação que sempre fez parte das ações da Diversos Afins. Uma conclusão obtida através do contato direto com pessoas e suas mais peculiares vertentes criativas. Sem dúvida alguma, essa percepção real impulsiona a concepção de uma edição futura à qual pretendemos sempre nos lançar. Assim, o canto que agora entoamos exalta a existência do instante, pois se materializa na produção de poetas do quilate de Maria da Conceição Paranhos, Líria Porto, Romério Rômulo, Lívia Natália e Márcio Leitão. Por toda a leva, atravessados estamos pelo olhar antropológico dos registros fotográficos de Patrick Arley.  É Larissa Mendes quem nos chama atenção para o novo disco do inventivo cantor e compositor Wado. Convidando-nos à leitura de “A Loucura dos Outros”, livro de contos de Nara Vidal, a escritora Neuzamaria Kerner aborda caminhos sugeridos pela obra. Cabe a dimensão de um encantamento diante das palavras do ator Rafael Morais, idealizador do Grupo Teatro Griô, numa entrevista que evoca a arte como missão de vida. Guilherme Preger, com seu habitual e preciso olhar cinéfilo, destaca a produção espanhola “A Academia das Musas”, filme do diretor José Luis Guerin. Nossos cadernos de prosa são tomados pelos contos de Carla Diacov, Lizziane Azevedo e Isabela Rodrigues. “A Eternidade da Maçã”, novo livro de contos de Marcus Vinícius Rodrigues, recebe a acolhida das linhas de Fabrício Brandão. Com novas leituras e apreciações, celebramos o caminho. Sejam bem-vindos, estimados leitores!

Os Leveiros

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112ª Leva - 06/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Lizziane Azevedo

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

Cama vazia

 

Acordei assustada ao sentir que ele me tocava. A mão dele estava fria, chamei a enfermeira. Ela veio, checou tudo o que podia e saiu. Pus-me em vigília novamente. Não havia outros acompanhantes. Para meus irmãos, nosso pai já havia morrido há muitos anos. Dormir era impossível naquele quarto de hospital. Um breve cochilo e os pesadelos me sacudiam o corpo. A presença dele me incomodava, sentia-me observada o tempo inteiro. Naquele lugar apertado e abafado eu podia apalpar o cheiro denso do suor azedo que sempre me nauseou. Ele acordou agitado, não dizia nada com nada. Segurava o peito com força, devia ser outro infarto. Demorei um pouco para chamar a enfermeira. No íntimo era bom vê-lo estrebuchar. Até sorri, vendo-o em agonia. Mal me virei para pedir socorro, senti a força da sua mão segurando-me o braço. A mesma força que me dominava quando criança para roubar de mim o meu sexo. Tremi. Sufoquei. Meu coração batia acelerado. Pensei em gritar, chorar. Respirei fundo e busquei me acalmar, quando percebi que ele queria dizer algo. Tive receio de baixar minha cabeça até ele; mesmo assim o fiz, reunindo minhas últimas forças. Ouvi um “perdoe-me” abafado que parecia mais uma de suas alucinações. Mas uma lágrima parecia confirmar a veracidade do pedido, que foi repetido: Perdoe-me, por favor. Perdoe-me. Paralisei com o que ouvia e via. Esqueci da enfermeira, da urgência… Pensei em dizer algo. Confusa, sem saber o que dizer, corri para fora do hospital. Chorei, chorei muito. Quando voltei, a cama já estava vazia.

 

 

***

 

 

Catecismo

 

Ele subia o morro todas as tardes. A batina preta fazia-o suar bicas. Apesar dos desconfortos, não deixava um só dia de cumprir sua missão. Uma bíblia enorme deixava-o com apenas uma mão livre, que estava sempre agarrada a um lenço branco. Todos os moradores do morro conheciam-no e saudavam-no ao passar. Com um sorriso gentil, ele acenava para todos; vez por outra parava para tomar um arzinho e conversar um pouco com Tuco, dono do bar da ladeira. Inteirado das novidades, bebia um copo d’água e continuava sua romaria até a casa que ele usava como capela, onde dava aulas de catecismo. Só crianças cercavam-no por lá. Os meninos predominavam no meio de duas ou três meninas. Aula encerrada, os alunos começavam a sair, um após o outro, mas não sem antes beijar a mão do mestre, que sempre se arrepiava com o gesto, invisível às crianças. Ele permanecia no local por horas com três meninos do grupo. Seriam coroinhas na sede da igreja, dizia o padre. Alguns achavam que era por essa razão que eles eram privilegiados, ganhavam presentes, roupas, sapatos. Era nítida a diferença deles para os demais, que andavam com suas havaianas furadas e shortinhos e camisetas enodoadas e rasgadas, mas ninguém parecia desconfiar do padre, até que uma batida policial desmascarou-o. De santo ele não tinha nada. Falso! Nunca foi padre. Voava pelo morro nos aviõezinhos dos meninos que aliciava.

 

Sou Lizziane Azevedo, uma advogada ávida por literatura, razão pela qual nunca dispenso a companhia de um bom livro, hábito que compartilho com meu esposo, leitor, revisor e primeiro crítico dos meus textos: André Sérgio. Moro em Monteiro, interior da Paraíba, onde fui criada e onde aprendi sobre poesia. Já publiquei diversos contos na Câmara Brasileira do Jovem Escritor; no suplemento literário Correio das Artes, do jornal A União; na Revista de Literatura e Arte Boca Escancarada e no site Diversos Afins.

 

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112ª Leva - 06/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Romério Rômulo

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

sinto, marília, dizer

 

se eu caminho, marília
nas estradas de ouro preto
sinto teu olho rasgar
o lacre da minha carne

sinto o duro e permanente
viés com que interrogas
meus estratos seminais
que só pulsam do teu lado

sinto, marília, dizer
que no teu olho apagado
acabo de anoitecer

num mundo vitrificado
na morte mais indizível
de que alguém quer morrer.

 

 

***

 

 

fragmento de desarmar a morte

 

se todos morremos na estrada
o que fazer dos caminhos?

vou desarmá-los, amada.

 

 

***

 

 

tão bêbados de tudo, estes poetas

 

poetas são malditos e no espanto
de revelar limites se martelam
há um poeta assim em cada canto
no redemunho do espanto que revelam.

poetas são em pétalas, cruéis
com tintas destiladas pela mão
seus dedos se arrebentam em pincéis
drogados pela cor da solidão.

tão bêbados de tudo, estes poetas
de ansiedade e insônia vão tomados
ao percorrer a noite pelas frestas
poetas são destroços renegados.

 

 

***

 

 

equação

 

eu sigo puto.
reajo em fogo:

viver é bruto.

 

 

***

 

 

Fragmentos, 12

 

1.
trago comigo
uma batalha solta
uma revolta puta
uma babel envolta.
2.
um anjo me parece pouco e lento
pra todas as batalhas que sustento.

 

 

***

 

 

chame qualquer coisa que me caiba

 

se eu brotar do silêncio
chame a vida
chame qualquer coisa
que me caiba

seja poesia, mulher ou desavença.

 

 

***

 

 

quando as tripas da noite me inventam

 

quando as tripas da noite me envolvem
sou um homem retinto de pavores:
30 colunas perdidas me comovem

quando as tripas da noite me arrematam
e sou um peso morto das palavras
30 colunas tortas me chibatam

e se as tripas da noite me embriagam
30 vozes me ardem o sossego
pelas 30 colunas que me vagam

quando as tripas da noite me arrebentam
e 30 corvos me roem a carcaça
são as tripas da noite que me inventam.

 

Romério Rômulo é professor de economia política da Universidade Federal de Ouro Preto, UFOP, MG. Poeta e editor, publicou vários livros de poesia, entre eles “bené para flauta & murilo” (1990), a caixa “tempo quando” (4 livros em 2 volumes, 1996), “matéria bruta” (2006),”per augusto & machina”, 2009, “i ah, si yo fuera maradona!” (bilíngue português/espanhol, 2015).Escreve semanalmente uma coluna de poesias no Jornal GGN, editado pelos jornalistas Lourdes e Luis Nassif. É um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar, com sede no Rio de Janeiro.

 

 

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112ª Leva - 06/2016 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

A Academia das Musas. Espanha. 2015.

 

MUSAS_cartaz

 

A Academia das Musas é a última obra do cineasta espanhol-catalão José Luis Guerin, a primeira que chega a nosso circuito comercial. Surpreendente que tenha permanecido várias semanas em cartaz, pois se trata de uma obra complexa e rara.

Como nos filmes de Eric Rohmer, uma das principais referências de seu diretor, todo o filme é composto por diálogos e conversas, com pouca ou nenhuma ação. Uma parte considerável das cenas se passa numa sala de aula de literatura e filologia da Universidade de Barcelona.

O professor universitário, vivido por Raffaele Pinto, ministra a uma turma majoritariamente composta por mulheres, um curso sobre o papel da musa na literatura, a partir da leitura da Divina Comédia de Dante Alighieri. Beatriz, amada do poeta italiano, representa uma virada no conceito de musa, antes dedicado a seres mitológicos ou a deusas inspiradoras. Beatriz seria a primeira musa como mulher histórica e reedita o papel mitológico de Eurídice, guiando o poeta florentino pelo inferno ou pelo reino dos mortos. A poesia seria assim um “diálogo com os mortos”, e as musas são mediadoras desse diálogo. A partir daí o professor provoca suas alunas para que pensem sobre o significado das musas na vida contemporânea.

À primeira vista, o filme é todo rodado de forma documental, com câmeras digitais amadoras, perspectivas oscilantes e oblíquas e som direto. O professor é realmente um homem erudito, seu tom é didático como de qualquer bom mestre, e seus alunos estão de fato interessados no assunto, com perguntas extremamente pertinentes. As indagações dos alunos, sobretudo das alunas, questionam o saber do professor e politizam o assunto. Seriam as musas apenas o fruto do imaginário patriarcal? Ser musa é um papel atribuído às mulheres pelo desejo fálico de dominação masculina? Ou seriam as musas ativas, capazes de produzir o desejo e o amor? Discute-se uma passagem da Divina Comédia, com o casal Francesca e Paolo, condenados ao inferno como adúlteros. Paolo apenas lamenta, mas Francesca reafirma a força transbordante de sua paixão. O desejo é aquilo que nos tira de um lugar definido na vida social, uma força transformadora. Mas haveria desejo, amor ou paixão sem relações de poder, indagam as alunas?

Até então o espectador no cinema assiste a uma aula de literatura numa universidade europeia. Mas logo surgem diálogos entre o professor e suas alunas em seu carro, com a cena captada do lado de fora com a janela fechada e através do vidro translúcido. Ou conversas entre as alunas no pátio ou em lanchonetes. Ou do professor com sua mulher em alguma sala, talvez de sua própria casa, com o testemunho visual acompanhando a partir do lado de fora da janela, discutindo ambos sobre questões pedagógicas, a mulher sempre questionando as certezas estéticas de seu marido. O ponto de vista oblíquo da câmera passa uma ideia de focalização indireta, discreta e voyeurística, como se espionássemos essas conversas.

Cena de A Academia das Musas
Cena de A Academia das Musas / Foto: divulgação

Mas dúvidas surgem em relação aos pontos de vista pretensamente documentais. As câmeras não são de fato espiãs. Em outras tomadas parte-se para o tradicional campo e contracampo. Os personagens sabem que estão sendo filmados e a discrição é, então, desnecessária. Ou não se quer perturbar o fluxo das ideias com a presença intrusiva da lente?

Tudo pode ser válido ou verídico.  O professor parte com uma de suas alunas para uma viagem para a Sicília. Ela talvez seja sua amante, mas não sabemos. Sozinha, a aluna entrevista um camponês que lhe relembra canções sicilianas antigas. Ambos não parecem se importar com a presença da câmera que, no entanto, está lá, registrando a conversa.

Mais tarde, o mesmo professor está numa outra viagem com mais uma aluna diferente e conversa com ela num quarto de hotel. Ela acaba de sair do banho e seminua se seca com a toalha. Aqui a câmera, amadora, não seria mais tolerada em sua indiscrição testemunhando a infidelidade do professor. Estaremos no terreno do documentário ou da ficção?

E sabemos afinal que esse mesmo personagem protagonista é realmente um renomado professor de literatura, especializado na obra de Dante. A viagem com a aluna e seus casos de infidelidade com suas discípulas darão origem a um conflito matrimonial também acompanhado pelas lentes do cineasta. As alunas aparecem como suas musas. Mas aí se borram as fronteiras entre conteúdo e forma. O professor não discute a problemática das musas com suas alunas a partir de um prisma literário. Professor e alunas entram num jogo de sedução entre amante literário e suas musas inspiradoras. A forma literária penetra a forma cinematográfica. Mas o jogo de sedução tem a contraparte na discussão do conflito matrimonial, na relação entre jogo e o não jogo realista.  O que era um documentário sobre um seminário de literatura converte-se na ficção de um jogo e na discussão ética realista cujo enredo é uma crise conjugal.

Ensinar é seduzir, diz o professor a sua mulher. Trata-se de uma conversa bastante íntima. O espectador é também seduzido por essa intimidade da câmera e entra no jogo ficcional com certo espanto e hesitação. Os pontos de vista oblíquos da câmera também oscilam na discrição ou na intrusão de sua presença. Em outra ocasião, o mesmo personagem diz que seu trabalho é semear dúvidas. Nesse filme de José Luis Guerin estão borradas as fronteiras entre documento e ficção, entre ensino e sedução, entre papéis passivos e ativos, e entre o jogo da fantasia e a ética do compromisso. A atenção do espectador vagueia duvidosa entre esses espaços de indeterminação e de perspectiva, trazendo ao espaço da projeção um campo de intimidade para seu próprio devaneio. Intimidade que significa o deslizar de fronteiras entre a fantasia e a realidade.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

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112ª Leva - 06/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Márcio Leitão

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

Avesso

 

Na luta feita de pó
Todos os dias
Prometo cura
Por sobre meus ombros

Todo dia contagio
A liga delicada
Dos sonhos e dos dentes
Mas a tontura do corpo
O sol se franzindo
Devagar
Os ossos roendo
A carne
As carnes
Cavando
Os ossos
E o zumbido
Vívido
De marte
Não silenciam nunca.

Adoecer
É como rasgar o ventre
No meio
Da vida
Tentando escorrer
Por sobre a falta
Cotidiana
Dos sentidos.

 

 

***

 

 

Coro

 

Perfilados
Artífices
De notas
Que roem
Cada caule
Nosso
Que cospe
No céu

Embriagados
De perfeição
Cantam
As pétalas
Anoitecidas
Sem nenhum
Gole
De um tempo
Gordo
E moído.

Só líquidos
Inundam o ar
E os estômagos
Pás se levantam
E cobrem
Os cortes
Sem capuz
Que só lambem
O Canto do mármore
E das costelas.

 

 

***

 

 

Se duas toalhas…

 

Se duas toalhas
se entrelaçam
Molhadas com o prazer
das sombras que enxugaram
Nelas há algo de carne e espuma
De resto e de rosto.
Nelas convergem-se olhares
Perdidos de seus olhos,
Caídos de seus ventres.
As toalhas completam o balé
Das formas
Assim como um talho humano
Completa as almas.

 

 

***

 

 

Como?

 

Como prever a medida das distâncias
sem que ande por algum caminho?

Como perceber as luzes que brilham pouco
se a nova lua que não se faz redonda,
se faz presente no mistério?

Como chorar procurando um desabafo de cores
se todos os choros são vestígios
que reconstroem o triste arco-íris?

Como encontrar a direção
se todas as direções são ilusões,
miragens de caminhos solitários?

Como perder as amarras
se todos os passos tocam o chão
e sentem o perfume das correntes?

Como envolver os pássaros
que ainda pousam
se pensam eles ser livres?

Como contar os degraus
se os desníveis estão nos olhares?

Como desperdiçar os segundos
se cada segundo que contas
perdes, apenas, seu tempo?

Como responder essas perguntas
se perguntam para dizer
e não para perguntar?

Como?

 

 

***

 

 

Silêncio na Boca

 

Palavra torta
embaixo da língua
contorce o dorso do céu
palato perdido e surdo
pedido de arranhão velar
pedido de toque ligeiro
de língua sem sapatilhas
dançando no véu inquieto, no céu duro
e no macio dos alvéolos
fazendo chão
o som da minha carne.

Márcio Leitão é professor de Linguística, pesquisador em Psicolinguística (UFPB); tenta entender os processos mentais relacionados à linguagem. Poeta e escritor de livros infantis, escreve pra poder imaginar como é ter liberdade, respirar sem amarras. Escreve também pra se divertir com as palavras e com o que pode construir com elas. É editor da zonadapalavra, onde também publica, geralmente, aos sábados.

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112ª Leva - 06/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Uma indelével e tortuosa via chamada memória

Por Fabrício Brandão

 

Capa de A Eternidade da Maçã

 

Existem coisas que deixam nossa mente impregnada de perspectivas. Quando elas nos sugerem imagens e sensações as mais variadas possíveis, é porque algo efetivamente aconteceu dentro de nós a ponto de estimular vontades criativas. Estas tais coisas vão maquinando outras tantas e logo nos percebemos diante de um produto materializado sob a forma de um livro, espaço de projeções, arremates e de livres invenções, sejam elas labirínticas ou não.

Mesmo quando não desejamos, somos acometidos pelo mundo que se anuncia em torno de nós. A partir daí, decidimos se avançamos ou recuamos, mas deixar de perceber as externalidades é graça um tanto improvável de nos ser concedida. Talvez por isso tamanhos conflitos se operem no pulsar desritmado da dimensão mais íntima que guardamos.

A razão para as linhas iniciais deste texto serem assim construídas está diretamente ligada à experiência de leitura proporcionada por “A Eternidade da Maçã” (Ed. 7 Letras), livro de contos do escritor baiano Marcus Vinícius Rodrigues. Nele, irrompe bem vivo um paralelismo de sensações narrativas que demarcam uma válida opção por relacionar aquilo que está fora e dentro dos domínios humanos.

Tendo como fagulhas marcantes de inspiração canções de Caetano Veloso, “A Eternidade da Maçã” apresenta todo um território de ficções contidas num dos períodos mais assombrosos da história do Brasil – a ditadura militar. E possuir como contexto o forte cenário de tensão sugerido pela repressão ditatorial acaba sendo uma espécie de armadilha quando um autor não sabe se livrar dos apelos fáceis do tema. Para a recompensadora constatação do leitor mais atento, Marcus Vinícius foge desses ardis criativos.

O fato é que estamos diante de sete contos marcados por uma menção temporal explícita a histórias compreendidas entre os idos dos anos 60 e 70 do século passado. Ainda assim, isso é apenas um recorte do tempo para situar quem se debruça sobre suas linhas. O destaque maior está em perceber que se trata de narrativas que seguem uma cronologia interna, desvinculada, portanto, de uma sequência ordenada de acontecimentos. Nesse contexto, importa ressaltar o viés notadamente psicológico dos personagens, cujas existências são alvejadas pela ambiência plúmbea dos anos em curso. O tempo psicológico é como um grande personagem central que abraça todos os demais personagens, fazendo-os desfilar suas dores, anseios, hesitações, contradições e desejos contidos.

Marcus Vinícius é hábil em posicionar num mesmo front da consciência de seus personagens tanto as dores de um coletivo (e aqui ressaltemos a mão obscura do regime militar por sobre toda uma sociedade) quanto aquelas individualizadas. Nesse contraponto entre o externo e o interno, as narrativas ganham uma conformação especial na medida em que intercalam cenários difusos de vida. O autor manipula a dinâmica entre passado e presente, utilizando acertadamente recursos de flashback como uma estratégica ferramenta de posicionamento de seus personagens diante da percepção da realidade na qual estão densamente mergulhados.

She has given her soul to the Devil/but the Devil gave his soul to God, canta Caetano numa de suas mais vigorosas composições do período em que amargou seu exílio em paragens londrinas. Esse trecho da música Maria Bethânia, utilizado por Marcus Vinícius como epígrafe de “A Alma do Diabo”, conto que abre o livro, por si só é emblemático e sugere um caminho através do qual o contista segue a seu modo, tornando-nos intrigados observadores. Diante disso, cabe uma pergunta: quais os humanos resultados do encontro, num hospital, entre um doente major e sua enfermeira cujo irmão foi torturado por aquele mesmo militar?

Em “Barco vazio”, as noções de integridade física e moral são postas em xeque ante a extrema necessidade de sobrevivência a qual está submetido seu protagonista. A escolha narrativa aponta que num estado de exceção lógicas tradicionais se invertem a tal ponto que também é permitido ao oprimido utilizar-se dos mesmos expedientes do seu algoz. De modo intermitente, na cabeça do personagem central ecoa a frase: “Às vezes é preciso fazer alguma coisa errada para fazer o que é certo”.

É interessante perceber como o contista foge de lugares comuns, subvertendo expectativas óbvias em alguns de seus personagens. É, por exemplo, o que ocorre em “A flor e a estrela”, trama que tem por curioso arremate a ingênua visão de mundo do seu protagonista, até então alheio a tudo o que representava viver num país subtraído em liberdade. O jovem enamorado que atravessa a cidade sitiada para levar uma rosa a sua amada é a demonstração de como uma suposta alienação política deu margem a algum tempo de delicadeza e poesia.

Mais à frente, no conto “Longe daqui”, subsiste um espaço para o desejo, que em meio a toda sombra circular da traição, encontra algum mínimo abrigo diante da ausência de liberdade plena. O beijo entre amigos do mesmo sexo, parceiros de experiência de vida desde a infância, carrega em si toda uma simbologia, algo que transcende qualquer noção de sexualidade e que se norteia pela consciência de que o corpo é também um receptáculo de gratidão e lealdade.  Estamos diante de uma amizade posta à prova por vias nada usuais.

Aos poucos, vamos percebendo que os personagens são pessoas normais que, mesmo diante dum amplo cenário de repressão, cultivam uma espécie de felicidade clandestina. Esta fugidia, é claro, mas o suficiente para recriar cenários da memória, através dos quais passam vívidos flashes de saudade ou de alguma distante tentativa de reparação. Quando encarcerados ou torturados, os protagonistas das histórias recorrem a lembranças que tanto significam uma válvula de escape para a dor presente como também uma tentativa de vislumbrarem o que seria deles se tudo fosse diferente, ou seja, se suas escolhas fossem outras.

Vencedora do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia 2016, “A Eternidade da Maçã” é uma obra que prima pela riqueza de suas narrativas. Seu criador lança mão de bem elaborados recursos descritivos, tecendo um painel que agrega o físico e o imaterial. Assim, não entrega respostas prontas ao leitor. É como se as histórias ficassem em suspensão, sem um arremate derradeiro e prontas para continuar sob a dinâmica de outros olhares.

Terminada a leitura do livro, fica a sensação de que Marcus Vinícius Rodrigues não quer que esqueçamos uma das páginas mais cruéis de nossa história. Na medida em que um autor como ele concretiza isso sem nos impor desgastadas formulações ideológicas, o saldo é por demais positivo. Quiçá a luz ideal posta sobre as coisas seja aquela realmente capaz de proteger a memória, e não usurpá-la repetindo frases perdidas ao vento num desatino sem propósito.

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.   

 

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112ª Leva - 06/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Isabela Rodrigues

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

O pedido

Adoro quando ela chega assim de manhã.

Uma morenice lavada de cara e de corpo. Um cheiro de banho, os cabelos molhados de uma água fria.

Adoro quando ela chega assim, com roupa de casa, ainda de chinelas. O cabelo meio sem jeito, a cara meio de sono.

 Chega, aperta os olhos, às vezes torce a boca como que fazendo movimentos pra lembrar o pedido que me faz todos os dias, igual:

– três pães, por favor.

***

 

 

A maquiadora

A maquiadora, enquanto eu piscava muito no momento em que ela tentava pintar meus olhos:

– se você sentir vontade de chorar…

– o tempo todo, amiga.

Nos abraçamos e choramos.

 

***

 

 

Se nasce só e se morre só

A saída do útero é completamente solitária, embora, por vezes, haja o amor.

A vida segue de forma a te fazer esquecer que, na verdade, é só você.

Estamos todos sozinhos nessa massa que se ajeita no vagão do metrô, nos bares em noite quente, no supermercado Mundial às 18h, nos elevadores ou nos velórios.

A verdade é que a solidão é a sombra contínua que nos segue por toda a vida.

Primeiro, há o cerco da família, e depois é preciso uma porção de amigos, e depois menos amigos, mas bons, e depois vêm os filhos os netos os bisnetos.

Mas é nesse meio de tempo, na gritaria de quem compra ouro na Siqueira Campos, no esbarrar de quem atravessa a Presidente Vargas quando o sinal fecha, ou no Carnaval em Salvador, cedo ou tarde, que chega o momento em que nos damos conta do inevitável: estamos todos sozinhos. Somos um e único a saber das próprias e verdadeiras dores, que vai sentir sozinho que no mundo é só você contra você mesmo.

Há quem tenha, nessas horas, suas pequenas epifanias. Há quem entre em desespero, há quem se mate, há quem se deprima, há quem se sinta verdadeiramente liberto.

O fato é que o ser humano nasceu de viver junto, de se aglomerar nos grandes centros, de querer morar um em cima do outro, de ter carro pra mais de um, de fazer filho, de ter gente. Por isso é que essa descoberta assim, tão de repente, pode acabar com um coração.

***

 

 

Tempo de Alice

Alice aos três já mostra espírito aventureiro quando
solta da minha mão para descer as escadas
sozinha.
Alice tem o cabelo amarelo e os olhos pretos de cílios
gigantes parecendo um bicho,
mas em Alice fica lindo.
Alice fala paia, porque não fala r ainda,
mas fala em alemão quando nervosa.
Ela tem um peixe laranja e escolheu dar de presente ao padrinho
um carro ou um interruptor.
Quando apertada, faz xixi de cadeirinha no meio da rua
e depois me pergunta por que é que o menino que dorme na rua está sem chinelos.
Eu e Alice sentadas tomamos picolé no sol.
Alice disse:
– É tão bom que até dá vontade de sorrir, né, tia Isabela?

Isabela Rodrigues é natural de Barra Mansa, interior do Rio, e reside atualmente na capital do estado, onde se formou como advogada pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Seus textos também podem ser encontrados no blog “Com licença, poética!”

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112ª Leva - 06/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Líria Porto

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

espantos

 

muitas caras
uma da infância outras da juventude
inúmeras caras maduras e agora
a da velhice
todo dia a cara muda
:
e cega
e surda

 

 

***

 

 

maríntimo

 

desde ontem
uma onda rebenta em meu peito
traz à tona o que vem lá de dentro
e me tinge de urgências

desde sempre

 

 

***

 

 

suburbano

 

meio sábio
meio cético
meio cínico
meio sóbrio
:
e cheio
de empáfia

 

 

***

 

 

herege

 

não caio nas malhas de deus
mais fácil me prenda o demônio
o céu não é lugar para gente
como eu
anjo não é santo
e nem faz milagre

 

 

***

 

 

frappé

 

nem nas horas tristes
foi infeliz
nem na mais alegre
sentiu felicidade

(viver é corriqueiro
um rato a roer queijo
um gato a perseguir passarinho
um cão a rosnar no portão
a levar pedrada de moleque)

 

 

***

 

 

desvios

 

primeiro enfiou-lhe um prego
depois um fósforo aceso
e ao final um saca-rolhas
(torceu e puxou)

seus olhos brilharam
sempre gostou de
ver-me-lho

 

 

***

 

 

monstros

 

a lagartixa me olha
a lagartixa me fita
eu na cama fico rija
lá no teto ela se move
e faz isso lentamente
como a medir o perigo

eu temo que ela despenque
mas não sei o que ela pensa
eu sou tão inofensiva
:
nós assim passamos horas
a temer a morte
a vida

 

Líria Porto, mineira de Araguari, professora, poeta, dois livros editados em Portugal (Borboleta desfolhada e De lua) e dois no Brasil (Asa de passarinho e Garimpo – finalista do Prêmio Jabuti 2015), autora do blogue tanto mar, participa de vários sites, jornais e revistas na internet, entre eles Escritoras Suicidas, Germina Literatura, Zunái, Blocos Online, Considerações do Poema, Poesia Perfeita, Mallarmargens. Reside em Araxá, interior de Minas Gerais.

 

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112ª Leva - 06/2016 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

WADO – IVETE

 

capa ivete

Oswaldo Schlikmann Filho – vulgo Wado – leva mesmo a sério sua bússola errante do não se repetir. Depois de transitar recentemente pelo rock (1977), pela MPB (Vazio Tropical) e até mesmo pelo funk carioca (Samba 808), chegou a vez de dissecar um dos gêneros mais controversos e alvo de preconceito no país: o axé. Lançado em julho, o nono trabalho de Wado – intitulado Ivete – se propõe a “esmiuçar o ritmo e vasculhar os guetos” baianos. Porém, nem tudo são abadás e vogais. O álbum faz link com sua obra Atlântico Negro (2009), o título brinca de maneira simpática com a “musa intocada da empreitada” e tem como referência sonora os primeiros discos de Moraes Moreira e Luiz Caldas, nas origens do gênero, o “axé de raiz”, com letras de cunho político e social.

Alabama (sangue nas folhas, sangue da raiz/flutua em pleno ar, em tudo nada diz), primeiro single do álbum é uma parceria com Thiago Silva (Sorriso Maroto) e tem como inspiração Strange Fruit, gravada por Billie Holiday – e por tantas outras divas – e aborda a situação dos negros enforcados em plantações norte-americanas. A força de Alabama contrasta com a doçura quase didática de Terra Antiga/Jesus é Palestino, com a inserção de Ralé, da Timbalada, e figuraria tranquilamente nos projetos de Adriana Partimpim. Já em Um Passo à Frente, talvez a faixa mais alegórica do álbum – releitura da canção de Moreno Veloso –, até se pode imaginar Wado participando do trio elétrico de Ivete Sangalo, arrastando o bloco da cantora no circuito Barra-Ondina. As guitarras à lá Asa de Águia de Sexo (atira teu corpo sobre o meu/mais de cem, mais de mil vezes), também em companhia de Thiago Silva e de Você Não Vem (leva todo o teu desejo/a dor de sempre ser saudade/leva tudo, teu desprezo/as coisas são e parte as partes), ao lado de Momo e Marcelo Camelo – e suas levadas de bilhetes amorosos incompletos – garantem os melhores momentos do álbum.

 

wado
Wado / Foto: Alzir Lima

 

Samba de Amor, como o próprio nome sugere, é mais um típico e agradável sambinha composto com Alvinho Lancellotti e Momo. Os batuques e os orixás de Mistério (não sei se é dor/dói de apartar/sinto de um jeito/não sei contar), parceria com Zeca Baleiro, desembocam na regravação de Filhos de Gandhi, composição de Gilberto Gil, de 1975. As incertezas de Amanheceu, “como um rifle em celibato, como um louco em desacato” traz nos samples alusão ao massacre escolar de Columbine, de 1999, tão bem retratado no cinema por Michael Moore e Gus Van Sant, respectivamente em Tiros em Columbine (2002) e Elephant (2003). Nós (você, norte da existência/você, o amor dos dias) – que bem poderia compor Vazio Tropical –, e seus belíssimos versos quase à capela, também co-autoria de Baleiro, encerram o álbum arrematando todas as declarações de amor suspensas em outros carnavais.

Mais uma vez o mutante radicado em Maceió, Wado, [re]visita um ritmo e imprime sua marca. No caso do polêmico axé, jamais ele soou jocoso. Ao contrário, resgatou a essência do ritmo e sua verve percussiva. Produzido (ou feito, como prefere dizer) pelo próprio artista e lançado de forma independente, Ivete está disponível para download em seu site e em todas as plataformas de streaming. Aliás, sua obra completa (9 álbuns) encontra-se acessível para download. Para meados de setembro, o músico planeja a gravação de seu primeiro DVD, em comemoração aos 15 anos de carreira. A micareta poética de Wado está pronta para tirar o pé do chão.

 

Em terra de Ivete, Larissa Mendes faz uma colheita [in]feliz.