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103ª Leva - 06/2015 Gramofone

Gramofone

Por Gustavo Rios

 

A FLAUTA VÉRTEBRA – A FLAUTA VÉRTEBRA

 

Flauta Vértebra

 

Eu suspeitaria de imediato só com a simples menção do nome da banda: teria algo de pernóstico, e talvez me trouxesse de chofre a imagem batida de jovens barbados – as mulheres teriam rostos pálidos -, meio tristonhos e bem antipáticos em seus ideais de arte. Do tipo que força a barra com letras difíceis. Seria algo excessivamente intelectual e vazio; uma coisa estranha, monótona.

A lógica para isso é simples: dentro desse meu novo mundo (o dos quarenta e tantos), supor que algumas pessoas pensaram no Maiakovski para nomear a própria banda seria motivo suficiente para me manter afastado. E não queimar óleo. Nem pestanas. E nem digo isso pelo poeta, nem pelo poema – um achado, para mim que não conhecia o texto. Mas pela pretensão.

A Flauta Vértebra, além de ser o nome de um poema do Vladimir, é basicamente uma banda baiana, da capital, com cerca de sete anos de existência com interrupções. Formada por cinco jovens que estão na batalha para mostrar sua obra – aquele trabalho espartano de convencer um público escasso numa cidade de chances escassas – notadamente diferente. E de extrema qualidade. Que começa a ganhar projeção neste Ep produzido pelo sempre irrequieto Irmão Carlos (líder da banda Irmão Carlos e O Catado e mentor do Tv Caverna, do Youtube) e prensado pela parceria Bigbross Records / Brechó Discos.

Além de saber que eles não vieram para serem cópias das cópias, nem muito menos prisioneiros de conceitos obtusos do que pode ser música original, A Flauta Vértebra possui a leveza de quem não se incomoda com a responsabilidade de ser, atualmente, uma das coisas mais legais e interessantes que estão acontecendo por aqui. Não por não saberem onde pisam. Mas pela percepção clara de que assim o trabalho flui. E não só em termos de musicalidade, mas também em relação às letras belamente interpretadas pela vocalista – figura central do projeto, uma espécie de guia, de ponto de equilíbrio -, dotadas de inesperada maturidade. Com o peso e a fúria de belos poemas, perfeitamente encaixados nos arranjos.

 

A Flauta Vértebra / Foto: Gether Ferreira

 

O que pensar quando na faixa “Renato” nos deparamos com coisas tais como: “Num momento eu me sinto bicho, / É tão estranho / Desencantar a nossa história / É falsa a claridade / Não foi sonho / Não consegui dormir / Não vê que os que dormem são reféns” e, sem saber o que concluir, resolvemos seguir em frente?  O que de fato podemos supor quando percebemos que em “Revolução (parte 1)” estamos diante de uma das mais interessantes, pessoais e francas abordagens sobre o que fizemos e deixamos de fazer em junho de 2013, quando as ruas foram tomadas em nome de algo – enquanto a PM desencavava seu estoque de lacrimogênio e das suas bombas de efeito “moral”?

O que dizer, afinal de contas, da guitarra que dá inicio à leveza da faixa “Polaroid”, resultando na combinação belíssima entre o teclado, o baixo e a bateria de Breno Pires (bastante competente e talentoso), numa espécie de celebração ao que pode ser legítimo, arte, música? (“Fotos instantâneas trazem doses espontâneas de ilusão / E ao mesmo tempo a lente mostra a gente / O que há de mau e o que há de bom / Eu quero mesmo é seguir viagem na canção / Ah, e já é dia no Japão / Tenha um bom dia então”). E de “Epílogo Atroz” que, além de ser um rock divertido e bem executado, contém a surpresa de frases como: “A festa acabou / A porcelana que encobria o seu rosto se quebrou / Esse suor gelado que escorre dos meus poros / Também te atacou / As cortinas se fecharam, meu bem / Ninguém recita seus idílios, suas trovas, seus sonetos / Ninguém engana ninguém / Ninguém engana ninguém”?

Sohl (vocal), Carlos Vilas Boas (guitarra), André Rodrigues (baixo), Ricardo Vilas Boas (teclado) e Tita Gracille (a mais nova baterista, no lugar do já citado Breno Pires) não refugam as próprias influências. Que podem muito confundir a todos, pelo simples fato de serem bem aproveitadas e servirem como lastro para uma musicalidade própria, uma postura nova diante de tudo – e não como cópia da cópia da cópia, se vendendo como a última novidade na grande feira das obviedades. Podemos perceber algo dos Secos e Molhados. Arranjos que lembram alguma coisa do Tropicalismo, passando pelo rock classicão e pela fatia mais interessante de toda a nossa MPB, atual e antiga.

Podemos dizer que são cinco faixas. Num Ep que vale a pena escutar. São cinco jovens que estão tornando as coisas bem melhores para a música. E que gostam de correr riscos, ainda que seja de uma maneira assombrosamente leve. Para a sorte de todos nós.

 

 

Gustavo Rios é baiano. Autor do livro de contos “Allen Mora no Térreo” (Mariposa Cartonera, 2015), dentre outros.

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

O acossar do abismo

Por Fabrício Brandão

 

capa-livro

O indivíduo traça a rota fugaz de suas projeções. Alimenta a carne com pulsões de toda ordem. Intenta um gozo que sabe a um átimo entre o vivido e o inventado. Eleva o objeto de seu desejo a um patamar no qual raras são as certezas. Em última instância, esse mesmo indivíduo é a corporificação de toda a sorte de abstrações dispostas pelos caminhos da criação. Um pouco disso tudo é o ser Java Jota, protagonista do romance homônimo de Thiago Mourão, lançado recentemente pela Editora Patuá.

Ao iniciar as pungentes linhas de seu mais novo livro, Thiago conduz o leitor num verdadeiro jogo de espelhos, através do qual tudo o que se vê reflete um misto de sensações que estabelecem um curioso nivelamento entre quem narra e quem vivencia os acontecimentos. Seriam, então, criador e criatura a mesma pessoa? Mais ainda, ao leitor é dado algum status de protagonismo? São questões que surgem à medida que uma espécie de triângulo de cumplicidades sugere uma harmonização de papéis se pensarmos nesses três eixos de atuação.

Mas eis que um embate serpenteia pelos caminhos do livro. É Java Jota que, encarnando a sina de autor, revela-se um personagem em busca da consolidação de sua obra. Nesse ínterim, o protagonista almeja cruzar os desertos da criação, tendo por musa inspiradora a figura feminina de Rosa.

Em meio aos trajetos insones de sua faceta de escritor, Java questiona suas potencialidades e, como qualquer mortal que pretende êxito em sua razão de existir, põe em xeque suas investidas. Nesse momento, as aproximações com a realidade agigantam-se, sobretudo quando percebemos a tarefa hercúlea que um escritor carrega em si. Com tudo isso, Thiago Mourão não expõe gratuitamente a condição de quem escreve. Pelo contrário, supera expectativas e molda a difusa colcha de retalhos que pode representar a mente de um criador.

Uma sucessão de imagens permeia as andanças de Java Jota. Todas elas bem encadeadas e servindo ao propósito de vislumbrar algum sentido possível para o caos que lhe faz companhia permanente. Como num frame, a paixão por Rosa é um se deixar entregar diante de uma memória hedonista. Tal como a incerteza de fundar uma obra literária com sucesso, o personagem de Java confessa-nos uma musa fugidia, por vezes delirante e imaterial. O melhor de tudo isso é que não se pode afirmar o laço carnal num perfeito estado de consumação. Assim, quiçá Rosa seja apenas um desvario de quem está acostumado a inventar mundos. E tal dúvida é trunfo nas mãos hábeis de Thiago.

Com toda a gama de observações do narrador, o livro opera num fluxo bastante ágil e que torna o desejo pela leitura algo ininterrupto. Java é um ser que intercruza camadas de vivência diante de um universo repleto de cenários. Se para o mundo o escritor pode passar despercebidamente, para Java o contrário seria impraticável. É impossível escapar de um mundo que lhe impõe imagens, sons, cores, sabores, encontros e desencontros. Definitivamente, seria inevitável deixar de pisar em cacos de vidro. Onde a famigerada inspiração? Pergunta que se dilui nas tentativas do personagem ante o vazio do papel.

Na procura por respostas, o protagonista do livro vai engendrando vias tanto concretas quanto abstratas, amalgamando tudo ao seu redemoinho cotidiano. Numa das passagens da obra, momento em que o personagem encontra-se com o Mestre Haxi, fica evidenciado que a realidade por si só não representa a única saída. É necessário imergir em outras dimensões da consciência para se ter alternativas criativas. A alegoria xamânica escolhida por Thiago chama a atenção por vislumbrar na figura do mestre um elemento de ponderações tanto filosóficas quanto estéticas, muito bem regado a doses de humor e crítica.

Dentro da saga de Java, somos todos cúmplices do modus operandi palpável da condição de autor. É a literatura abordando a literatura numa constatação sobre a qual o ato de escrever é pedra no meio do caminho, sensação permanente de Sísifo. Assim, são empurrados ladeira acima tanto prazeres quanto dores, faces inalienáveis de uma mesma moeda. O resultado do esforço fica para quando essa mesma pedra rolar do cume abaixo.

Não é à toa que Thiago recorre à poesia para iniciar e fechar sua obra. Esse ato de aliar-se a outro gênero nada tem a ver com um simples desejo de citação para impactar quem lê, mas, sobretudo com uma forma de evocar a importância de uma libertação, qual seja a de considerar que quem escreve, mesmo não se desgarrando de seu inferno pessoal, pode reduzir o peso de suas bagagens durante a extenuante travessia.

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Fernando Rocha

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

 

EX-FETO

Aquecido e alimentado, dentro do útero materno, sem mais nem menos, agora, eu não sou mais um feto, mas também não evoluí para o estado de corpo independente, espaço de uma geografia ilusória.

O planeta parece um útero que não pari. Sua gestação infinita não carece de óvulo nem de espermatozoides, num coito com o invisível seus fetos surgem e caminham rumo ao mesmo nada. Há aqueles que constroem a ilusão de que já estão prontos, seguem ritos sem sentido, ritmo da valsa de destruição, regida pelas próprias vítimas.

Contudo, há os como eu, os que com um olhar opaco, miram tudo, mas o gesto dos olhos não traz a sensação de pertencimento, pelo contrário, apenas cria uma distância que não pode ser percorrida, apenas sentida e de tão sentida parece nem existir: condenação ao vazio.

Lambo as paredes da placenta, queria ter dentes para machucar quem me prende neste lugar onde a lógica, na maioria das vezes é sinônimo de crueldade e na minoria é o algoz do bem estar.

Romper o cordão umbilical numa greve de fome irreversível! Morrer talvez me dê chance de existir de alguma maneira.

***

RETRATO DE UM CEGO

 

Um fotógrafo ajeitando um cego para um retrato, o olhar vazio do modelo, lábios cerrados como uma escultura do silêncio. O que passa em sua cabeça? Num pequeno banco sem encosto, ele parece não se incomodar, ali estará preso pela eternidade do instante, dentro de um retrato que nunca poderá comtemplar.

Sentir o flash nos olhos quase mortos, opacos e sábios como uma reencarnação de Tirésias. Civilizações em frente a sua lente, com qual foco poderá acolher todas as vibrações fantasmagóricas que acompanham aquele ser?

Aqui do outro lado seguem as nossas impressões excluídas do momento, mera contemplação que sente auxiliada pelo intelecto, privada pelo instinto não nomeado.

 

Fernando Rocha é paulistano, nascido em 1981, graduado em Letras, em 2013 publicou o livro de narrativas curtas Sujeite sem verbo (Confraria do vento), em 2014 publicou a novela Os laços da fita (Penalux). Colabora com as páginas Letras et cetera, Letras inacabadas e Meleca-Chiclete.

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

ENIGMAS CIRCULARES

Floriano Martins

 

Enigmas circulares 01
Imagem: Floriano Martins

 

 

1.

Eu leio nos teus lábios que a noite não virá
A noite não se deixa molestar por ti
A violência com que te resguardas de ti mesmo
Tática jurídica ou religiosa para que permaneças entre nós
O teu êxito precário e a evidência desproporcional de seu vazio

Saímos contigo inocentados para a noite
Não há negação de nada em nossa convivência
Perdemos uma boa razão para nos educarmos a todos
A noite revelada como um sacrário de conveniências
Nossas preocupações desaparecem ao minguar do dia

Não vemos vantagem alguma em nos atingirmos
Somos uma desordem guardada em vantagens
Eu quero rir de tudo à noite inteira
O teu silêncio não me recupera senão o riso
A tua ausência me estimula a rir por todos nós

A sombra é como uma morte acidentada em frases
Aos poucos te alimentas da tragédia que há em ti
O teu corpo cansado de rir de si mesmo
A tua noite querendo ser a negação de teus sentidos
A máscara de êxitos de uma noite envergonhada

 

 

Enigmas circulares 02
Imagem: Floriano Martins

 

 

2.

Eu estou diretamente caindo em ti e não sei como evitá-lo
É tão rápido o movimento que mal posso identificá-lo
Nós todos precisamos de uma vida mais lenta para saber que é nossa
Estamos sempre à espreita de nossas falhas
Um perigo comum a todas as angústias

A sorte desfalecida

Por onde as linhas de tua lucidez começam a se desentender
A noite sem saber ao certo se é falta ou excesso
Em que parte de tua harmonia pode haver um inferno
Eu rio de tuas noites de horror que se imaginam esplêndidas
Seguimos caindo porque não encarnamos a queda
Como alguém que não consegue matar-se

A ideia da morte como um refúgio onde o riso não tem abrigo
A morte se ri ante a preocupação de leito ou túmulo

Eu beijo a tua noite sem repouso
Tuas lágrimas riem da tempestade de meus anseios
A noite não exige para si nenhum poder
Eu não sei por onde passas com tua queda desatada em sorte
Não conheço senão o infortúnio e sua falsa glória
Os versos com que cobres o olhar
A miserável alegria com que te renovas

Cair por um momento
Rezar além das forças
Tomar armas
Meter-se no cultivo mesquinho de piedades
Desfigurar a ingenuidade

Nenhum de nós sabe quantas noites pode morrer esta noite
Temos esta dificuldade milenar
Jamais eliminaremos todos os inimigos

O homem está composto pelo que sabe e o que não sabe de si
Não há outra ciência

 

 

Enigmas circulares 03
Imagem: Floriano Martins

 

 

3.

O idealismo da morte de Deus é um bom verso
A metáfora do eterno retorno se confunde com a do eterno pecador
Agora eu não quero senão beijar-te
Tua morte cai por terra a cada beijo meu
Por onde a noite cai já não se pode amá-la e em meio a tantas
…..quedas não há triunfo da parte de obra alguma

O equilíbrio é sempre uma maneira de negar-se
Como quem intimamente salta de uma ruína a outra e não se satisfaz
…..com os espectros de sua derrota que lhe vão corroendo a alma
…..inteira

O inferno nunca foi uma boa temporada para nenhum de nós

Eu pude ver a agonia encharcando teu olhar enquanto meu corpo
…..explodia e se misturava aos destroços de tudo quanto me cercava
Eu vi a tarde toda refletida aos bagaços em teu olhar
O lugar inteiro sendo refeito em estilhaços
A loucura de um gesto arruinando as nossas vidas
Meu corpo mil vezes abrindo crateras de ódio

Vítimas por traduzir

Não haverá uma única pergunta
Nenhuma obra jamais soube remontar os retalhos daquilo que
…..destruiu
Muitos nem sabem a qual espécie de sacrifício aludir quando ostentam os símbolos de sua arte

Eu vi o meu corpo detonado por dentro e nenhuma visão foi mais
…..íntima daquela tarde se extinguindo em multiplicadas explosões
Nenhum fragmento percebeu a dimensão do sacrifício
Nenhuma nova tarde se reergueu dos escombros de meu corpo

Nós somos os pedaços de Deus retalhados dentro da linguagem
Nenhuma farsa consegue destruir-se por completo
Ainda carregamos conosco o resíduo de toda fé

 

 

Enigmas circulares 04
Imagem: Floriano Martins

 

 

4.

Enquanto escreves me ponho no interior de teu corpo inacabado
Vejo como me corróis por dentro em meio à vitalidade da crença nas
….imagens
Teu pensamento se ocupa de sacrificar minhas convicções
Habito-me em plena consumição de princípios
Nenhuma evidência se livra de suas faíscas de agonia

Em tuas anotações percebo o quanto te perturba riscar os pontos
….trágicos em que a escrita não se realiza como uma saída além da
….assiduidade do presente
Talvez por isto não me reconheças em ardis que ainda imaginas
….poder suprimir
As vertigens se multiplicam a lotar comboios em tua imaginação
Eu tenho que te sufocar por dentro até que divises o abismo a que
….nos entregamos
Não terás como ignorar meu esforço enquanto segues escrevendo em
….espantoso frenesi as tuas supostas ciladas

Eu grito um nome enquanto escavo o horror de tantas crônicas
Uma estranha palavra que repercute como quem se desgarra de si
….mesmo como se fôssemos elucidados por tudo aquilo que nos falta
Já não se trata de uma simples bordoada do acaso e sim da intrigante
….rede de sofrimentos que o jogo requer
Nenhum de nós pode mais simplesmente dizer o próprio nome

O que escreves aos poucos se revela como sendo a morte de nossa
….secreta identidade
Um punhado de imagens debilita tua relação com o mundo e já não
….te encontras aqui para confirmar quem

 

 

Enigmas circulares 05
Imagem: Floriano Martins

 

 

5.

Se não estás aqui eu já não tenho como desamparar-te
A astúcia é uma lancinante categoria da linguagem
Confundir a imensidão com um pequeno tumulto
E agora abrigar teus escritos em meu corpo enquanto a solidão se
….precipita sobre tua garganta a ponto de rasgar-te o vozeio dos
….nomes
Deito meu corpo para que sondes o que ali faz sentido

Qualquer um riria de nós agora que se descobre que não temos o que
….dizer
Ensaiamos a miséria humana até que ela se estenda ao sol e
….dissimulada anote os assuntos que jamais entenderemos
A singeleza de meu corpo nu pode ser um atrativo para a escrita sem
….que desesperes e queiras me transformar em método de tua
….solidão
Nós somos os nossos diferentes erros sempre conciliados da pior
….maneira
Meus olhos correm por dentro da falsa imagem que fazes de ti

Eu não posso beijar-te agora porque me evitas
Os corpos saltam de uma presunção a outra e as dores resvalam por
….um corredor sem fim onde a vontade é sempre negada em nome
….da natureza
A dor não vai acabar nunca e não me dirás teu nome
Eu não passo de uma vida explosiva que te acoberta
Adormecerás entre uma deformação e outra de teus sentidos e
….seguirás sem me dizer teu nome

 

 

Enigmas circulares 06
Imagem: Floriano Martins

 

 

6.

Bater e bater e esganar segredos e espancar infortúnios e arrasar
….pequenos ideais e violentar e arrombar e retorcer e avariar
….angústias e depredar tolices e torcer o sentido de miudezas e
….sequer rir de tudo isto como se fosse um requerimento da ordem
….local
O meu corpo gélido não passa de uma evidência
A memória se mostrará imprevisível sob tortura

O meu corpo está ali dizimado por reticências e sem que aceites teus
….limites
Um instante que seja eu não me poria de pé senão para saudar-te a
….dedicação ao extravio
Mensagens são transmitidas de uma fonte a outra e já ninguém pode
….dizer que não sabe o que pensar a respeito

Estás diante da pobre sociedade de teu corpo vitimado
Os teus meninos fora de cena
Longe de tudo, a dor do mapa foragido de suas dimensões

O desastre noturno de gemidos vigiados e gritos derramados na mesa
….dos limites
Aqui se pode morrer à exaustão e compartilhar a morte como um
….estranho vício
O olhar se arrasta por uma imensidão voraz que escama vícios como
….peixes migratórios que alimentam a sofreguidão do mundo

Quando o mapa se esvazia das marcas de tua perversão então
….podemos tatear as pequenas sombras fatigadas que
….espantosamente resistem

 

 

Enigmas circulares 07
Imagem: Floriano Martins

 

 

7.

O mundo progride por um efeito de perspectiva
De onde me vês eu posso garantir tua revolução ou quebrar a banca
….de apostas ou denunciar-te a alguma agência de notícias ou tornar-
….me comparsa de teu fingimento ou:

Trata-se de uma roupa sinuosa a da perspectiva e quando me despes
….teus olhos imensos podem não me encontrar mais em parte
….alguma
Não é certo que jamais sabemos para onde caminham nossos mortos
Estamos devastando tudo dentro de nós

As tuas ilusões se deixaram impregnar por imagens plantadas
Um mesmo catálogo de bustos anônimos e o esplendor da miséria
….com suas igrejas sepultadas no descampado da memória

Um fósforo à espera do incêndio
Um beijo à espera da conspiração
Árvore cujas folhas são olhos de serpente

Um novo cenário de vísceras pré-moldadas estimado para que todos
….nos sintamos bem
A câmara focando o rosto desfocado dela – meu nome é rosa eu fui
….espancada porque vi três homens um deles colocava algo no carro
….pipa que veio abastecer o bairro outro me batia muito e espalhava
….sal por onde me doía no corpo todo e nem precisava me dizer nada
….eu fui afligida pelo que compreendi – um rosto de evidências
….quebradiças

Não há um eu sublime
Identificamos crimes pelos quais não podemos responsabilizar
….ninguém, nem nos cabe amenizá-los
Não há justiça sem justiceiro ou regime político sem a saciedade de
….seus métodos

Eu tenho um nome um eco um fala-me e ninguém me diz nada
Há um relógio que brota de cada suspiro e me distrai com horas
….suspeitas como se a minha vida estivesse por um fio

 

 

Enigmas circulares 08
Imagem: Floriano Martins

 

 

8.

Há uma cobiça de gozos degenerando um jeito mais livre de ser
Uma fiação de regras que são a base de todo constrangimento e
….fonte de aliciamento
Teus mortos esperam em longas filas por pequenos volumes
….indecifráveis e suas pétalas de racismo e genocídio
Prosperam à espera desses pacotes de vômitos e ejaculações
….ressecadas

Flores famintas mastigam os restos calcários de tua memória
Corpos arrastados sob medida
Calvário de pratos concebidos com seus lamentos elétricos
A miséria ressumando como um abismo acidental

Ninguém sabe mais por que nome chamar a si mesmo
Nem mesmo escavando em escombros encontraríamos a
….transparência perdida
A dor multiplicada por mares descorados que se agitam em
….casarões de formas emudecidas

Lugares que se desfalecem aterrorizados por apenas soletrarem teu
….nome
Postos de comando & faixas de greve & cercos policiais
A humanidade já não guarda segredo de si

 

 

Enigmas circulares 09
Imagem: Floriano Martins

 

 

9.

A memória se reparte ao visitar escombros negros e índios em seu
….paiol metafísico
Habituada à sedutora condição de modelo vivo acabou por desterrar
….efeitos contrários

De que lado a carne se espelha no real sentido de tudo quanto toca é
….algo que não se sabe
O que foi repartido devorou a metade que ingenuamente aceitou tal
….condição
Falso dualismo que orienta a existência quer tenhamos ou não razão
E não a teremos nunca
Toda razão perdida se transfigura em deplorável quando reabilitada
É alto o preço que pagamos por haver sempre esperado alguém que
….indicasse o caminho

Eu espero
Tu esperas
As vísceras passam por aqui
O morticínio bate à porta invisível

A angústia afia seus estiletes e sonha com safenas fantásticas
Nós esperamos a espera perder o controle das horas
Em um mundo assim até os relógios oscilam entre a insônia e o
….pesadelo

 

 

Enigmas circulares 10
Imagem: Floriano Martins

 

10.

Desfigurados pelo nome e sua circunstância
Lições de abismo com endereço certo
Ensinar aos filhos que a história se faz assim

Um enxame de deuses aguardando a noite
Eu queimo de vislumbres que me descrevem com uma minúcia de
….desapontamentos
A noite não foi parar em parte alguma enquanto estivemos aqui

Eu tenho essas marcas em meu corpo que são as tuas palavras
….queimadas em vão
Revelar o teu nome já não resolve nada
Não há código civil ou justiça divina

O flagrante sempre foi o grande prestidigitador
Morremos exatamente aqui: dissidentes: relutantes: indecisos:
As versões cinematográficas se expandem

O grande negócio das quedas
Jurisdição de trevas
O Estado sou eu em qualquer estado

Eu olho em teus olhos buscando meu erro
Não nos molestamos mais
Destilamos uma frialdade absoluta

Qualquer que seja a metáfora desenhada por um de nós
Um resquício último de humanidade
Eu leio nos teus lábios que a noite não virá

 

Floriano Martins (Fortaleza, 1957). Poeta, tradutor, ensaísta e editor. Dirige a Agulha Revista de Cultura e o selo ARC Edições. Contato: floriano.agulha@gmail.com.

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103ª Leva - 06/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Geraldo Lima

 

Ilustração: Caroline Pires

 

MULHER NA CADEIRA DE VIME

 

O cenário, uma sala com decoração minimalista. Só a reprodução de Mulher sentada apoiada sobre os cotovelos, de Pablo Picasso, fixada na parede frontal, atrai de chofre os olhos do visitante.

Depois disso, percebe-se o tom suave do azul brisa do mar das paredes. Tudo isso, obviamente, se os olhos não captarem com mais interesse a silhueta feminina exposta no lado esquerdo do cômodo. Não se trata de uma reprodução, e isso logo se vê. Tampouco está decomposta como numa pintura cubista.  Embora ele não a veja ainda por completo, o ser no seu todo, seus olhos já transbordam.

Ela está sentada numa cadeira de vime natural, o corpo todo resumido nesse espaço de fibras e reentrâncias.  Os olhos, cerrados, parecem entregues aos caprichos da memória e seus labirintos. Ela não o viu entrar, ou finge não tê-lo visto. Finge, é o que se pode deduzir, pois a porta foi aberta sem nenhuma delicadeza. As dobradiças, carentes de lubrificante, rangeram alto. Ela, no entanto, permanece assim: a cabeça levemente jogada para trás, como quem tira um cochilo.

Ele para diante dela, esperando que abra os olhos e o veja.  Espera inútil, alguém precisa lhe dizer. A mulher, movendo-se um pouco na cadeira (deixa, talvez, os pés escorrerem e tocarem a frieza do porcelanato), poderá até descerrar os olhos opacos e tentar focá-los na direção dessa voz que agora a cumprimenta. Tenta, sem desespero, buscar essa figura que ela imagina como sendo um homem alto e forte. Um homem que ela decompõe e vai remontando a seu bel-prazer.

 

 

 

***

 

 

 

DOIS

 

Aí ela inventava umas coisas, meio que no desespero. Quanto tempo isso dura?, devia se perguntar, enquanto tinha aqueles insights, aquelas malícias próprias de uma mulher tentando fincar as raízes do amor na areia movediça de encontros furtivos. Ele chegava, ela abria a porta, e lá estava a surpresa, a isca, a invenção do dia, o jeito de cativá-lo para que aquilo durasse pelo menos um dia a mais, aquele resto de tarde, quem sabe? Colocava uma música lenta, romântica de partir o coração em pedacinhos, colava o corpo ao dele, dança comigo?, e então dançavam, quase sem sair do lugar, apenas sentindo, sentindo, sentindo. Ela queria que aquilo durasse uma eternidade, mesmo sabendo que iria acabar, acabar ainda reverberando, trincando por dentro, chamuscando a carne, assombrando a memória. Talvez por isso tivesse aqueles achados só para não afundar definitivamente no desespero, na sensação de finitude, no magma que sufoca até a morte. Você me carrega no colo até o quarto?, ela lhe pediu da última vez em que se encontraram.

 

 

 

 ***

 

 

ELA

 

É como se não tivesse ficado tanto tempo longe de casa. Como se não tivesse, num rompante do mais louco romantismo, abandonado tudo em nome do amor mais extremo. Olhando-a assim, tão desenvolta na casa que ela renegou um dia, podemos nos espantar com a sua certeza de que ainda cabe ali, de que não há outra em seu lugar, de que ele não trocou a fechadura exatamente para que ela entrasse sem precisar tocar a campainha. E aí está ela, desfazendo a mala, indagando sobre o comportamento das crianças (nem percebe que cresceram, que praticamente não a reconhecem), e reclama do guarda-roupa bagunçado, reafirmando, talvez, a necessidade de sua presença ali. Ele, até agora, observa tudo pasmo, com um engasgo, uma vontade de dizer algo, uns desaforos, uns desafogos, indagar, se impor, mas sente-se atravessado por sentimentos contraditórios: enquanto busca em si o ódio, a faca que trincha, um fiapo de alegria deixa-o mole, aliviado, quase a ponto de chorar. Intenta reagir contra essa fraqueza, porém já é tarde, ela domina o ambiente, preenche o vazio de antes, dando a nítida impressão de que tudo está começando agora, sem pus algum na ferida que lateja ainda exposta.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Autor de Baque (contos), Tesselário (minicontos) e UM (romance).

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Sara F. Costa

 

Ilustração: Caroline Pires

 

As regras de Tagame

 

senta-te na vida
como no suicídio,
somos feitos de metal febril,
responde-me com a garganta iluminada,
és o espectro nómada
das noites que passo com o tagame,
um Rimbaud cansado
já aos quinze.
existes-me nos becos sinuosos
da mente, não sei se
o teu espírito rodou pela direita ou pela esquerda
mas foi Dante quem te ensinou a subir montanhas.
ainda não consegues compreender
o esforço que Max Brod fez para divulgar Kafka depois da sua morte.
és a penumbra secreta
quando te vigio a morte.
um amigo nas trevas
que percorre caminhos transparentes
onde a solidão se transforma
na música demorada dos teus pensamentos.

 

 

*** 

 

 

 

Há uma luz selvagem

 

há uma luz selvagem que me percorre o nome
e que enlouquece lentamente
no interior húmido da memória.
o espaço da voz
expande-se até à idade irrespirável dos objectos.
sento-me a observar a praia
e a forma como a água tem medo de se aproximar demasiado
e pousar nas perguntas.
as pálpebras escorrem-me até aos nervos.
há um frio insuportável na passagem escorregadia das horas
no gesso de cada nome,
e um sítio febril onde a inteligência consegue deteriorar
todos os vestígios decifráveis de vida.
cada nome, no interior imóvel do seu ventre,
no sangue fervido das noites,
transporta uma luz pesada,
impronunciável.

 

 

 

***

 

 

 

Cheguei demasiado cedo

 

ao colo da floresta,
quando falei,
falei extremamente baixo
sobre as mitologias
da linguagem.
se alguém me ouviu
foi porque este oceano pedestre
a que chamas existência
me deixou mergulhar
nas vertigens dos campos.
deixa-me conduzir
esta voz

até à intimidade do céu.

 

 

 

***

 

 

 

Anuncie aqui

 

anuncie aqui,
temos o que procura,
clientes de existências quentes,
astros estendidos no comprimento da boca.

anuncie aqui a sua solidão
o seu medo assimétrico,
o seu bom coração.

havemos de lhe encontrar
alguém sensível
com ossos audíveis,
botões em zonas estratégicas,

onde pode parar ou começar
os violinos,
as cortinas,
a paisagem.
a cortina paisagística
e um soneto capaz de cobrir a visão.

anuncie aqui
e anuncie ali
quanto mais se explorar
mais hipóteses tem de ganhar.

tudo amadurece,
até o silêncio
aquele que ressoa por esta febre
febre que se arrasta pelo poema,
poema que se verga
para o seu interior de mar.
as rosas brotam
o leite envenenado
dos nossos direitos mais antigos.
o avião transporta o peso
da luz
e a água da manhã atravessa
o brilho abandonado das mulheres
selvagens que te tecem o sono.
amanhã as fábricas recomeçam
a queimar os seus mortos
e deus ressuscitará entretanto.

 

 

***

 

 

 

A conquista da Polónia

 

a tua fala loira desdobra-se em pedaços brancos de pele
esta música goteja com o teu sangue,
o apetite dela do tamanho do meu.
orgulho-me das tuas veias tão salientes,
da altura assustadora dos instintos.
chove por dentro do desejo
e eu quero enterrar-te ainda esta noite,
quando passar o próximo comboio
terei o teu peito molhado,
os teus ossos transpirados
por aquela vontade de viver
mas antes do comboio passar
navegarei na tempestade azul dos teus olhos
e terei os teus lábios gelados
como o norte,
sentir-me-ei a rainha da Polónia.

 

Sara F. Costa (1987) Natural de Oliveira de Azeméis, Portugal. Licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho e Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem publicadas as obras poéticas: “A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos” (Prêmio Literário Serra da Lousã, Pé de Página editores), Uma Devastação Inteligente (Prêmio Literário João da Silva Correia, Atelier Editorial) e “O Sono Extenso” (Prêmio Literário João da Silva Correia, Âncora Editores).

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Graccho Braz Peixoto

 

O uso do “e-mail”, no âmbito da imprensa, trouxe uma alteração na forma de se fazer entrevista. Se antes era feita no calor da hora, no encontro pessoal entre o jornalista e seu alvo, onde pergunta e resposta eram um bate-bola que proporcionava outras colocações inusitadas, muitas vezes surpreendentes, hoje é realizada por e-mail, fato que vai das publicações culturais mais à margem da mídia a revistas como a Veja. Porém, se perde no ritmo da fala, do fraseado mais espontâneo e circunstancial, ganha na cadência do pensamento, da articulação construída para uma resposta mais substancial. No caso do compositor Mário Montaut, a resposta escrita resvala facilmente para digressões e reticências, sugestões, o que, naturalmente, dá à “conversa” um sabor mais incomum. Formado pela Escola de Comunicação e Arte – ECA, da USP, Montaut está divulgando seu quarto CD, “De Viés”, em que põe a rodar a sonoridade própria de suas 16 canções. Neste espaço generoso, Mário fala da morte da canção, de sinestesia, de ídolos, infância, parceiros…  É nosso convite para leitura e audição de uma voz singular nesse território que costumamos chamar de MPB.

 

Mário Montaut
Mário Montaut / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Vê-se, claramente, em suas letras, uma afinidade com o Surrealismo. Talvez seja algo tão forte que já soa como um processo inconsciente. Refiro-me em especial aos cenários oníricos que emanam das canções, você escrevendo no âmbito das sugestões, o que deixa sempre uma margem virgem para outras fruições. Pode comentar um pouco sobre isso?

MÁRIO MONTAUT – Isso que você chama de Surrealismo é para mim, com as mais loucas sinestesias, o espaço-síntese de todos os conflitos, de todos os paradoxos, e quando crio a coisa não é apenas emotiva, pensamenteira, sensorial.  Dessa enigmática instância acolhedora de tudo o que foi tocado pelo desejo, a inspiração, é que pode se abrir uma margem virgem para outras fruições, como você diz. Impossível a criação se não estiver ativada essa região. Agora, o Surrealismo, que para mim é essencialmente isso, realiza-se ganhando forma musical em tempos, velocidades bem diversas, quando vira música, em princípio. Uma música que já prevê, aguarda palavras, e que composta ao violão e voz, piano e voz, só ao instrumento ou a cappella, pode chegar música pura, ou com palavras, sonoridades que inspirem o verbo, e neologismos que mesmo desafiando a razão se impõem com seus sentidos misteriosos. Então, quando inicio a letra já existe todo esse processo, toda essa explosão, e a ela ouvindo, reouvindo, faço a letra. É um Caos. E natural que dessa complexidade às vezes surjam versos absurdos. Natural e inevitável (risos). Existe nessas composições algo de sugestivo, como você coloca, e de imperioso, inexplicável também para mim. Se pudesse explicar, não sei se faria.

 

DA – No novo filme do Jean-Luc Godard, “Adeus à Linguagem”, há a seguinte frase logo na abertura: ” A realidade é o refúgio dos que não têm imaginação”. O que você acha de tamanho aforismo, vindo de quem vem?

MÁRIO MONTAUT – Você sabe que não acompanho tanto assim o Godard? Retenho imagens belíssimas dele, de alguns filmes, e de certos filmes que nem vi inteiros, mas fico sedento por imagens novas dele, e esse aí é em 3D, não é? Um homem, uma mulher, um cão… e você lembra de “Je vous salue Marie”? Aquela menina recitando Baudelaire. E o bigodudo do Sarney censurando o filme logo após o término da censura? A pedido de Marly Sarney, a primeira dama que virou tema de carnaval daqueles jornalistas que criaram o bloco “Je vous salue Marly”? É um convite de passeio pelo tema, o aforismo. Oscar Wilde tinha outro: “A ação é o último recurso dos que não sabem sonhar”. Sarney, Antonio Carlos Magalhães: homens de ação, de atitude. “E assim adormece esse homem que nunca precisa dormir pra sonhar, porque não há sonho mais lindo do que sua terra, não há”. Surrealismo de Dorival Caymmi. Borges: “As pessoas aceitam facilmente a realidade talvez por suspeitarem que ela não exista”. Lorca: “Não é sonho a vida. Alerta! Alerta! Alerta!” Novalis: “A vida não é um sonho, mas pode chegar a ser um sonho”. Décio Pignatari achava que o Surrealismo não pegou tanto por aqui porque o Brasil já é surrealista. “Em qual mentira vou acreditar?”, entoavam os Racionais em “Sobrevivendo no inferno”, e esse é um título dantesco! Caetano Veloso: “Antonio Carlos Magalhães é quentinho, sexy e carinhoso”. O aforismo de Godard após um telejornal da Globo em ritmo de golpe produz essas digressões: “Bela Humana Raça!” (risos). “Dali de Salvador”, cantava a Blitz. “Um homem que para se referir a uma enxada precisa dizer enxada merece mais é pegar nela” (Wilde). Gabriel García Márquez quando sentia medo da realidade procurava fazer trabalhos manuais. Para tudo isso deve haver uma solução de continuidade. Lula e Dilma sabiam de tudo, mesmo?

 

DA – Geralmente, com nossas influências, vamos encontrando compositores que nos inspiram de diferentes formas. Alguns, se podemos colocar desta forma, se enquadrariam sob aspecto mais cerebral, informativo; outros já repousariam perto do coração, por conta de vivências, emoções que eu diria quase míticas. Você concorda? Pode dar exemplos?

MÁRIO MONTAUT – O Paul McCartney certa vez falou algo assim: “Here, there and everywhere era pra ser supostamente uma canção dos Beach Boys, porém, você não sabe disso, nada disso está na música, o que me influenciou está na minha cabeça, você não precisa saber, e é assim que vejo a diferença entre influência e cópia”. Algo aproximado, com o qual me identifiquei. Posso lhe garantir que no processo de determinada composição sei onde se dá um toque de Benjor, de Debussy, Kandinsky, Keith Richards, de Heidegger, e claro, você não precisa saber disso (risos). Dito assim, parece até niilismo, inexistência quase total de evidências (risos). Fico parecendo um personagem de Borges. A artista plástica Fayga Ostrower, em seu livro “Criatividade e processos de criação”, repete em estilo acadêmico o que o Paul disse com mais clareza e contundência: que a influência mais elaborada se torna reconhecível praticamente só pelo artista. Creio que a influência vem dessa quarta região inspirada, da qual emana o fogo-síntese, e onde ocorrem as transfigurações de tantas linguagens, onde um parágrafo de Heidegger, uma tela de Kandinsky, não me instigam menos do que uma canção de Chico Buarque ou dos Beatles. Como exemplo, vou mencionar o sonho em que Jimi Hendrix faz um solo de guitarra que se projeta no céu de Vulcânia  (ilha onde foi construído o Náutilus, do 20.000 Léguas Submarinas, de Julio Verne) num arco-íris com muito mais de sete cores, e que pode me lembrar tons do Kandinsky que revi na recente exposição do Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo,  sonho que resultou numa obra puramente musical, “Brincando em Vulcânia”. Será que lembra Hendrix (risos)?

 

DA – Uma deixa para você fazer duas consagrações: fale de Beatles e de Dorival Caymmi.

MÁRIO MONTAUT – Infância, proximidade da origem, arquétipo. Quantas canções dos Beatles vêm de arquétipos. “The fool on the hill’, “Eleanor Rigby”, “I’m the walrus”, “Hello Goodbye”, “The Long and winding road”, “For no one”, “Help”, “I’ve got a feeling”, “Let it be” (em que muita gente, até o John Lennon, vê a Virgem Maria, mas que Paul jura ser a mãe dele)… E  esse mar de ondas arquetípicas quando quebra na praia é bonito, é bonito, como diz Caymmi, que como os Beatles, tem nas letras uma coloquialidade genial. Caymmi é infância puramente marota, sensual, com aquela malemolência, aquele violão das canções praieiras. Debussy compôs “La Mer”, mas é Caymmi quem o desvela pelas praias em que também pescam e se banham os Beatles.

 

DA – Um comentário recorrente entre autores e músicos diz que a MPB perdeu sua força, sua representatividade, seu alcance. Concorda com isso? Sei que é uma questão complexa, que não se esgota numa entrevista, mas queria sua opinião.

MÁRIO MONTAUT – “O vento que faz cantiga nas folhas do alto do coqueiral, o vento que ondula as águas, eu nunca tive saudade igual, me traga boas notícias daquela terra toda manhã, e jogue uma flor no colo de uma morena em Itapoã”… Se vejo as coisas dessa praia, que é sonho onde brincam Chico, Beatles, Dalí, Breton, Alberto Caeiro, todo o resto é brincadeira de mau-gosto. Isso do Chico dizer que a canção morreu é apenas a revelação teórica de algo que ele já prenunciou em “Olé Olá”, em que vaticinava o futuro do canto, do samba: “o sol chegou antes do samba chegar, quem passa nem liga, já vai trabalhar, e você minha amiga já pode chorar”.  Na globalização da Ditadura Econômica, da Tecnologia Totalitária não sobra espaço para se brincar, pensar, cantar. Henfil já dizia que a tecnologia é a morte do sonho, e a morte do Sonho, parece, é a morte da canção. Paul McCartney, em “Jenny Wren”, acredita que a canção irá renascer. Eu apenas sei que por enquanto há muita singularidade possível e compartilhável.

 

DA – Talvez a mesma pergunta feita de outro modo. Tivemos movimentos e movimentações de uma criatividade muito forte, uma produção hoje consolidada. Ao longo do tempo, grandes cantores e compositores que surgiram com a Era do Rádio, os craques da Bossa Nova, que fundaram uma nova linguagem, com repercussão internacional; a Tropicália, alguns grupos e artistas com tanta coesão que ficaram conhecidos como o Clube da Esquina, o Pessoal do Ceará, Geração Nordeste, o pessoal do Lira Paulistana, o rock da década de ’80. Que visão tem do cenário atual?

MÁRIO MONTAUT – Delícia lembrar 1980, quando a canção que eu mais ouvia nas rádios de São Paulo era “Noturno (Coração Alado)”, a de maior sucesso e uma das mais emblemáticas dos compositores do Ceará. Bem na época do “Lira Paulistana”, e curiosamente também em 1980, um debate na Faculdade de Música da ECA-USP, com a presença de Arrigo Barnabé, Mário Manga, Hélio Ziskind e uma diversidade enorme de compositores, na qual os movimentos que você menciona estavam mais ou menos representados. Ainda não haviam decretado sua morte, mas quase todos ali concordavam que a canção se encontrava em profunda atonia. O Arrigo se mostrava até meio indignado dizendo que tinha tocado na questão com o Valter Franco, e que este via aquela leva de canções com muito bons olhos. Mas eis que com a lembrança de “Noturno”, sua e do Caio, e esses fatos instigantes você traz de novo o tema que tanto nos seduz pelo mistério: a morte da canção. Por certa crítica que vê em Chico Buarque De Hollanda um sinônimo da canção, e também de certa esquerda no Brasil, ele foi eleito o grande ícone do fenômeno. Quando em julho de 2011 lançou “Francisco”, um crítico da revista Veja afirmou que “seu último espasmo criativo” se deu em 1993, em “Paratodos”. Chico estava então sem gravar desde 1989, ano em que lançou “Morro Dois Irmãos”. Logo após o lançamento de “Paratodos”, ele declarou numa entrevista que se a crise criativa pela qual vinha passando crescesse em termos geométricos, o próximo disco sairia só dali a dezesseis anos. Na realidade isso ocorreu em 1998, com “As cidades”, que deu ensejo a uma matéria da Veja intitulada: “A crise criativa de Chico Buarque”. Os críticos que participaram da reportagem nem falaram tão mal assim da obra, só tentaram aprofundar o assunto que o próprio Chico propusera. Sinto, Graccho, que este é o cerne da pergunta, e já que não dá mesmo para responder apenas prossigo nessa perspectiva que vou achando cada vez mais atraente. “Carioca”, “Sonhos Sonhos São”, “Subúrbio” e “Querido Diário” são para mim as mais significativas composições de Chico nos três últimos discos, e cuja riqueza é maior a cada audição. Com algumas faixas de “Chaos and creation in the backyard”, de Paul McCartney, essas certamente estão entre as músicas que mais ouço nos últimos anos, e sobre as quais gostaria de conversar com outros músicos, que para minha surpresa revelam um desconhecimento quase total desses trabalhos. Parece que resta em nossa contemporaneidade a graça singular, e ela pode ser partilhada, mas em outro nível. Dificilmente você diz: “Essa é a nossa canção”, relembrando Joyce, que já brincou com a ideia da morte da canção na revista “Bundas”, do Ziraldo, ano 2000.

 

Mário Montaut / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Fale um pouco do processo de gravação de seu disco “De Viés”. Sei que várias músicas ficaram fora, apesar das 16 faixas. É doído definir o repertório?

MÁRIO MONTAUT – Sim, é mais que doído. Agora, eu me lembro de Noé. Quando Deus lhe disse que iria mandar o dilúvio, ele salvou um casal de cada espécie na arca. Bem, sem tamanhos avisos e sem aquele aguçado faro de escolha, mas a meu jeito, quando sinto que vou acabar perdendo a maior parte das muitas coisas que crio, seleciono algo que represente um pouco de cada etapa, de certos ângulos de minha criação pelo tempo, e coloco na arca de Montaut (risos), e nem sei se são as melhores músicas, mas são escolhas possíveis, que representam possibilidades que me habitam, e mesmo que muita coisa fique de fora, sinto-me aliviado antes que o temporal leve embora, e você sabe que na condição precária dessa existência de artista que não vive de sua arte, a questão se torna ainda mais delicada. Tento trazer para cada disco exemplares de várias épocas e composições realizadas numa proximidade relativa à feitura do disco. É quase impossível lançar um álbum em menores intervalos de tempo, então, tem sido assim até agora. Trabalhei essas composições desde 2010 com o Roberto Gava (produtor, arranjador e instrumentista no álbum), com a Ana Lee (cantora, minha mulher e musa), com o Ricardo Stuani (percussionista em várias faixas do álbum), Vicente Thiné e Ozias Stafuzza (queridos parceiros). E durante esse tempo gravei muita coisa nova, material para iniciativas futuras.

 

DA – Como se deu sua aproximação com a música?

MÁRIO MONTAUT –  A banda no coreto de Serra Negra, perto dos três anos de idade. O rádio tocando “A Canção do Marinheiro” (“qual Cisne Branco”) e “Hava Nagila”, entre outros cantos e vozes de  Serra Negra, e já de volta a São Paulo, aos quatro anos, uma canção no rádio que nunca mais ouvi, e que me chegou com o tempero fabuloso de uma das tantas histórias que minha avó Alice contava, enquanto eu ouvia e olhava pela janela um navio sumindo. Um mapa infinito de tantas ruas.  Aos oito anos, de férias em Serra Negra, ouvi melodias dos Beatles, sem saber que eram elas, executadas por orquestra nos alto-falantes de um cinema.  Aos onze anos o violão, e logo as primeiras composições, Caymmi, Chico Buarque, Tchaikowsky, Chopin, Beethoven, Roberto Carlos, Beatles. Mais tarde o piano, e as namoradas, as turmas no colégio e em casa. Coisas bem antes do que conto e que não vão acabar.

 

DA – Sabemos que algumas experiências com as artes, como pura fruição ou mesmo no ato da criação podem ser algo de elevação espiritual. Você teve algo assim com a música?

MÁRIO MONTAUT – Você fala em elevação espiritual, e eu atento para o termo. Espiritual. Tão desprezado na atualidade, como se nossa consciência fosse resultado unicamente de neurônios, de redes neurotransmissoras. Kandinsky, que sempre teve o Espiritual em grande apreço, “procurou na alma dos objetos as manifestações espontâneas de seus sons interiores”. Participou de movimentos xamanistas na Mongólia, também nome de um filme de Salvador Dalí.  Você me faz  pensar ainda em Christian Dunker (psicanalista amigo de Vladimir Safatle e de Maria Rita Kehl), que em dezembro de 2012 escreveu para a revista Cult um belíssimo texto sobre a Alma. Música é Alma, leva-me ao êxtase, para mim, a forma maior de conhecimento, que para muitos pode ser “irrealidade”, mas esse universo musical se insere na realidade de modo mais determinante que certos padrões aceitariam (risos).  A audição de uma música, ou a lembrança dela (que com o tempo costuma ser um tipo mais frequente de experiência, aquela audição interna), pode ser arrebatadora, e produzir essa “elevação espiritual”. Quanto ao ato de criar, é também um êxtase diferente, na região em que se processam as alquimias e sínteses que geram a forma. Ali, esta pessoa que agora fala se apresenta em proporções mais adequadas.

 

DA – O que é uma canção?

MÁRIO MONTAUT – A forma concomitantemente rítmica, melódica, harmônica, verbal… Você foi ao ponto.  Algo que se cante entoando palavras, talvez. Ocorre que tradicionalmente a canção é o que Noel, Chico, Caymmi, os Beatles fizeram, com muita comunicabilidade a guiar outros impulsos. De um bom tempo pra cá, repetimos essa forma à exaustão, hoje coisa diluída, profunda atonia, ou então a inovamos um pouco e ela já não é  amplamente entendida. No meu caso penso que faço algumas canções, poucas, e muitos objetos sonoros não identificáveis como você uma vez bem os chamou. Sinto nelas algo que requer uma partilha bem diversa. A música me exige um tipo de letra não muito fácil de ser assimilado, e, portanto, de ser cantado facilmente por aqueles que as ouvem de imediato. Ao mesmo tempo em que são marcantes que já às primeiras audições. Bela Humana Raça, Castelo, Álven Jérra, De Tua Lembrança, Ondíssima Visão, Satã De Boi, Cadáver Delicado, Quando eu canto pro meu bem… Curioso o conjunto desses dezesseis títulos em “De Viés”, e sua pergunta me põe mais em desejos de refletir do que em condições de responder.

 

DA – Pra terminar nossa conversa, uma provocação: quem é Mário Montaut?

MÁRIO MONTAUT –   O que me inspira, como a Manoel De Barros, é mais aquilo que ignoro, que essencialmente desconheço e desconhecerei. Por mais instigante que seja o que de nós conhecemos, é mais aterrador e divino o que ignoramos, o que pode nos dar medo e ímpeto vital, como esta nossa conversa, de dois parceiros musicais pela trama cósmica.

 

Graccho Braz Peixoto é Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP (2004), compositor e jornalista. É autor da canção “Noturno” (Coração Alado), em parceria com o compositor e arranjador Caio Silvio Braz. Possui mais de 80 gravações de suas músicas, por diversos intérpretes, no Brasil, Europa e EUA.

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Olhares

Olhares

Outros elos

Por Fabrício Brandão

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

 

As cores e contornos sobre o papel. Diálogo entre dois universos. De um lado, o de quem vislumbra imagens; do outro, uma gigantesca nação de coisas a serem descobertas através do olhar. A arte impulsiona o criador quando este é capaz de compreender que pode fundar mundos no mundo.

Ao perceber que o elemento diferencial está na sua individualidade, o artista introduz seus ingredientes próprios numa mistura de signos e sentidos. Diga-se de passagem, o caráter especial da arte é nos mostrar que tudo, até mesmo as coisas aparentemente mais óbvias, podem ser vistas de uma maneira também inusitada. É então que refletimos que a convergência cartesiana de visões não é útil na representação dos universos artísticos.

E o que nos traz à baila uma artista como Caroline Pires? Quiçá mensagens de um admirável mundo novo. Seus desenhos e ilustrações transitam numa dimensão que harmoniza realidade e fantasia. É como um passeio pelo onírico, buscando sorver da vida um sopro de requintes poéticos. Mesmo no despertar do sonho, a artista constata que a existência revela outras camadas, as quais superam a noção meramente física das coisas.

Um aspecto que chama atenção na obra de Caroline é o fato de estarmos diante de caminhos de libertação. Em tal característica, a artista convida-nos a um percurso pelas alamedas lúdicas de sua consciência. Aqui, o anseio de liberdade está representado pela suavidade dos traços e contornos, sobretudo pela forma como se pretende um caminho feito de desprendimento, ou seja, sem excessos e ruídos do ponto de vista visual.

 

Ilustração: Caroline Pires

 

Andar com reduzidos pertences não significa andar de mãos vazias. No desafio de ilustrar um mundo tradicionalmente repleto de fardos desnecessários, Caroline abraça os rumos da leveza como forma de tentar compreender quem é. Mas o fato é que há ventos soprando em todas as direções e, nessa busca, a criadora depara-se com o estranhamento ante os desafios da existência. As rotas são inexatas, complexas, e por trás dessa verdadeira odisseia de sentidos a recompensa maior é a construção de uma linguagem íntima e consistente, capaz de compartilhar algo com os saberes alheios.

A trajetória artística de Caroline remonta à sua mais tenra idade. Nascida em São Paulo, desde pequena ela preenche espaços em branco com traços, linhas e cores. Atualmente, reside em Vargem Grande Paulista, trabalha como designer e ilustradora freelancer no Estúdio Capima. Dentre outros trabalhos, integra o Estúdio Azulê (parceria com a fotógrafa Diana Freixo), o Portal Mobilize Brasil e o novo blog Entreminas, espaço que aborda principalmente a arte feita por mulheres.

Abandonar o mundo em que se vive não é uma alternativa interessante para quem deseja fazer de sua arte uma expressão de identidade. Por mais voláteis que possam parecer, algumas sensações integram a natureza humana de modo inalienável. E a descoberta de novas dimensões existenciais não significa escape, mas sim transcendência, esse sublime estágio que delineia a obra de pessoas como Caroline Pires.

 

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

 

 

* As ilustrações de Caroline Pires são parte integrante da galeria e dos textos da 103ª Leva.

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Samuel Malentacchi

 

Ilustração: Caroline Pires

 

“E sempre no meu sempre a mesma ausência”
Drummond

 

 

Um soco
….na cara do estômago
ele sentiu cedo
….aos três anos da tarde

levantou torpe
….destituído de fins
desastrando goles
….contra a gravidade

pois se sabe grave
….das agudezas císticas,
….rotundas profundezas
das cavernas malabitadas
….que cultivou
….no tempo escorrido
….& sem parentes
….daquilo que foice;

estancado, além
….dos vazamentos rudes
ele se sentou
….& abraçou o estar entre.

 

 

 

***

 

 

 

Variações Grotescas

 

“O poeta canta/mesmo morto/ a carta da morte.”
Eduardo Lacerda

 

 

I

é encaixotado pra dentro
e retendo meus medos
que ;paradoxalmente; exponho
-n’um tipo de tomografia estranha-
a metalinguagem do meu horror,

eu repito repeço reflito reitero
o excesso que repito repeço
reflito reitero; repeadicção
dos repeditos que lambi
durante toda a existência
entesourada dos meus cortes;

 

 

II

/colori o dolorido do mundo
que conheci sem dó alguma,
dolori como que vindo
daquilo que eximi no enigma
colorido de mim, exibido
em noite de fala, na grande hora
da novela que nos enforca\

 

 

III

;algo como foliões desesperados;
………(…)
a folia indo
folha por folha
a outro destino que não
o fruto da fruição multicor;
………(…)
sou o ator doado à coisa carne
caolha, homem clandestino
e refratário de toda conjugação
e traduzibilidades; do molde
rimístico cancioneiro-cansado
ao que multifaceto no ilusório
receptáculo d’um eu que dói,

(tenho noção disso, da
ilusão, nem tanto da dor)

há o depósito,
pandoresco e limitado,
de minhas tripas desditosas;
escrevo com elas agora;

;desespero – algo como folia;

 

 

 

***

 

 

 

Formas de Chão

 

De quando em vez me acode o avesso
e vejo o lado desexposto da existência,
este exuberante erro bem colocado;

nas derrotas que pratico predico pedidos
para, quem sabe, vestir a insistência panta-
nosa e aveludada de todos machucados vivos;

na melhor das hipóteses, sigo; ferido; sibilino,
silabando fulgores cínicos por duro desejo
impuro de destino. Sem cura, cuspido,

(no entanto ido), fragmentalmente .
Em vez dos quandos me veem os prantos,
é no buraco que me atravessa que sou visto.

 

 

 

***

 

 

 

não tenho pretensão de querer saber tudo;
no que me ensinaram |ensimesmaram| não fui cooptado;
eu apreendo das nuances desavisadas,
é na insinuação que desenraizo o mundo;

flerto com a fresta dita em linha reta;
faço curvas na sombra da tarde rubrica;
brinco sedento de morte empoçada para
,quem sabe |quem abre?|, morar na eternidade;

trago comigo um gole de abismo
daqui vejo & vou ao corp’alma do universo;
se volto serei poeira se volto espaço consideral
se vejo: destino sempre em desatino
………………………../mas ainda Destino\

não tenho a ambição de saber querer tudo;
o que sei? desensimesmar versos suores
nudeza lírica duvidosa rima-matriz-lúdica;
& desatar des(a)tinos para o caminhonar-me;

..:laço poesia para fazer instantes no momento do próprio acontecer:

 

Samuel Malentacchi Marques, 30 anos, paulistano, dentre poucas-muitas coisas soul poeta; cometi três crimes de fazser poesia & o quarto está no p(r)elo; ei-los: poemas nortunos/autofagia/minimáximas  & miscelâminas, respectivamente; no maiscommenos: também costumo existir enquanto músico, baterista da banda chalk outlines & psicanalista; e1/2: malentacchi.samuel@gmail.com.

 

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

A História da Eternidade. Brasil. 2014.

 

A História da Eternidade

‘Não sei mais o que é amor, só sei o que é desaforo’.
(Personagem Querência)

Em tempos de ascensão do cinema argentino e breve entressafra de bons filmes nacionais, eis que surge um sopro de esperança [ou um oásis] vindo diretamente do sertão nordestino. Com 20 anos de carreira como cineasta e 14 curtas no currículo, A História da Eternidade marca a estreia do pernambucano Camilo Cavalcante na direção de longas-metragens. Apesar do título homônimo de seu curta de 2003 – um falso plano-sequência de 10 minutos que também passeia visceralmente pelos dramas do sertão –, o diretor garante que os enredos não têm correlação imediata. Aqui a trama gira em torno de três mulheres de gerações distintas: Querência (Marcelia Cartaxo), mãe que acaba de perder o filho e vive a dor do luto – e também é alvo do cortejo de Aderaldo (Leonardo França), o sanfoneiro romântico e cego da vila (abre essa porta, deixa o meu amor entrar pra tomar conta de tu, criatura!); Dona Das Dores (Zezita Matos), idosa-religiosa que mora longe da família e vibra com a estadia inesperada do neto Geraldo (Maxwell Nascimento), vindo de São Paulo; e por fim, Alfonsina (Débora Ingrid), adolescente que sonha em conhecer o mar e divide-se entre tratar do austero pai Nataniel (Cláudio Jaborandy) e dos irmãos e admirar o excêntrico tio João (Irandhir Santos), artista que definitivamente destoa do restante do vilarejo.

A História da Eternidade
O sanfoneiro Aderaldo (Leonardo França) em cena de A História da Eternidade / Foto: Divulgação

 

Produção independente – escrita e dirigida por Cavalcante –, financiada por editais e incentivos públicos, A História da Eternidade foi bem aceita por público e crítica. Recebeu mais de uma dezena de prêmios em festivais, entre eles o de melhor filme brasileiro e prêmio do público na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e as principais categorias do 6º Festival de Paulínia, ambos em 2014. Rodado na comunidade de Santa Fé, próximo à Petrolina (PE), cujo único contato com o exterior é de fato o orelhão que aparece no filme, a fotografia árida confere uma atemporalidade ímpar e uma beleza imensurável ao lugar. Apesar de se tratar de um filme feminino em sua essência e com protagonistas que ilustram bem as figuras sertanejas, quem rouba a cena é mesmo Irandhir Santos – vide Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda. Suas declamações e performances são impecáveis, sobretudo quando coloca o toca-discos na frente de casa e dubla a música Fala, dos Secos & Molhados, encarnando uma espécie de Ney Matogrosso dos confins. Vale ressaltar que a trilha sonora é assinada pelo compositor polonês Zibgniew Preisner, conhecido pelos filmes do cineasta Krzysztof Kieslowski em sua trilogia das cores: A Liberdade é Azul (1993), A Igualdade é Branca (1994) e A Fraternidade é Vermelha (1994), e pelo sanfonista Dominguinhos, em um de seus últimos trabalhos.

A História da Eternidade
João (Irandhir Santos) em performance de Fala (Secos & Molhados) / Foto: Divulgação

 

Dividida em três atos circulares (Pé de Galinha, Pé de Bode e Pé de Urubu), A História da Eternidade faz um recorte original de uma região bem peculiar do Brasil, porém opta por focar outras aflições e não o sofrimento oriundo da seca. Apesar do gigantismo da paisagem e do povoado inóspito (o que dizer do televisor e da poltrona quase sempre vazia no meio do nada?), a estética de Cavalcante parece aprisionar os personagens – comumente eles são filmados através de grades de janelas, como se fossem jaulas – numa alusão à ‘eternidade’ do título. O que voa ali são só os pássaros e a imaginação. E ainda assim, não por muito tempo. O amor assume vertentes de romantismo, desejo, saudade, veneração, tentação, penitência e tragédia. Talvez seja o tal ‘amar…esquecer…desamar’, a que João se refere em determinado poema. Assim, de mansinho, como chuva que chega sem avisar, A História da Eternidade entra para o rol dos pequenos clássicos nacionais e acaba de vez com a estiagem do nosso cinema.

 

Larissa Mendes, cidadã-cinéfila, atualmente habita o sertão catarinense.