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104ª Leva - 07/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Kleber Lima

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Que resvala de você
sem deixar rastros
que não compactua com o cotidiano –
a música inexecutável
a promessa inexequível
a víscera mais escondida
incutida no hálito de café e cigarro

Que não te nomeia
os muitos braços e pernas e bocas e gritos
aquilo que às vezes se traduz em lágrimas
algo embaçado que te fixa o olhar
num dia comum de semana

Que foge e te retém
enquanto você ri e sangra
e me olha
e me abraça
[já são tantos lenços ensanguentados]
ato-me a moldes fugazes
da tua alma inestancável.

 

 

 

***

 

 

Toda vez que for escrever
colocar ao lado este porrete

bater à toa
de olhos vendados
como o choque dum corpo no mar
à deriva

Toda vez que for escrever
bater forte
como aquilo que abriu minha cabeça
outro dia

uma pancadaria
cujo barulho
infernal
é tanto maior silencia.

 

 

 

***

 

 

 

Verhoeveniana II

 
Despi uma estação indomada
com protuberâncias de infinito na pele
e afora as violentas mordidas
a desintegração dos átomos da boca
as bifurcações luminosas das nádegas
as secreções nervosas como piche quente
o consentimento convulsivo
dos dedos entrelaçados
era mais um episódio
de um peito escavacado
pelo amor.

 

 

 

***

 

 

 
Por onde tua presença me chega
não sei
uma música incrustada na parede
dos ouvidos
um país arrancado de algum autorretrato

Não sei mesmo dos teus
passos mordidas
violentas insolações
não sei como cospe
leopardos sanguíneos em meu peito
nem de como em minhas virilhas
maçãs podres acumulam à revelia

De toda febre
em meus pelos
teu rosto muito forte
se contrai em arpões
rixas taras arrepios
vermelhos
líquidos magmáticos
pássaros coagulados
trepidando na ponta dos dedos.

 

 

 
***

 

 

 
Abertura para um sol em tuas costas
um pomar na ponta dos teus dedos
tua cútis uma música sibila arrepios
a boca transeunte trespassada de águas
as palavras ardendo em silêncio eriçadas
motim de dilúvios enluarados lábios
assento de frêmitos olhando atônitos
teu rosto esta costura em meu coração
assediado por minhas vísceras famintas.

 

Kleber Lima. Teresina. 1984. Escreve no blog Apontando para mim.

 

 

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104ª Leva - 07/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

Na rota de um escritor há muito mais indagações do que respostas. Muito mais dúvidas do que qualquer outra coisa. Carregar na alma um punhado de incertezas é parte integrante da sina de qualquer mortal, mas parece que no caso de criadores as percepções ganham um relevo bastante dimensionado. Afinal, o que busca quem escreve? Reconhecer-se entre os seus iguais? Procurar um sentido para a existência? Libertar-se?

As perguntas predominam. No entanto, cabe questionar se realmente é importante saber das motivações. Atrai mais descobrir que escritores não são seres divinos e, portanto, nem de longe portadores de atributos espetaculares. São gente comum, tão atravessados que estão por suas questões humanamente cotidianas.  O grande aspecto é que tais autores são providos de ferramentas diferenciadas de apreensão da vida e seus fenômenos. Transpiram demasiadamente na direção de uma obra, sem construir caminhos a partir do nada. Por maior que seja a carga de abstração ou subjetividade envolvida numa via de criação literária, estará em curso também um processo consciente e criterioso de escolhas.

Nada melhor do que ter representações concretas daquilo que foi mencionado acima. E é possível captar tal atmosfera na obra de um autor como Thiago Mourão. Seu romance de estreia, “Java Jota”, lançado recentemente pela Editora Patuá, ousa percorrer as intricadas zonas da criação. O livro aborda a trajetória de um escritor na busca obstinada pela construção de sua obra. Com o vigor contido nos intervalos e esperas, o romance vai delineando cenários que demonstram o quão complexa e, por vezes, exasperada é a missão de um escritor em ter materializada a sua pretensão. Nesse ínterim, o personagem central depara-se com suas divagações, arroubos, constatações, mas principalmente com a confirmação de que a sua sina comporta paisagens marcadas por uma cruel inquietude.

Thiago Mourão se define como um baiano nascido no Rio de Janeiro. De forma independente, lançou seu primeiro livro de contos. Formou-se em Biologia, trabalhou com teatro, escreve e produz vídeos institucionais, e está na iminência de cursar um mestrado em literatura criativa na Harvard Extension School. O autor acolheu a Diversos Afins para uma conversa sobre um tudo. Deixou marcadas as impressões sobre seu novo livro, mencionou um pouco da sua concepção criativa, ressaltando a forma como observa os desafios de seu tempo. Pelo diálogo que aqui se faz presente, Thiago traz em si a procura inominada que ofícios como o da literatura sugerem.

 

Thiago Mourão
Thiago Mourão / Foto: divulgação

DA – Java Jota é um ser que personifica a busca de um autor pela construção efetiva de sua obra. Nessa perspectiva, tal representação traduz algo comum a muitos que se dedicam ao ofício literário. O que dizer dessa, digamos assim, angústia da criação?

THIAGO MOURÃO – Me parece algo instintivo, talvez não tenha o nome de angústia, talvez não tenhamos ainda criado um substantivo para nomear a sensação do ato da criação. Angústia parece ser a mais próxima, mas a gente pode descartá-la pelo fato de angústia não ser prazerosa (ao menos para mim) e a sensação do ato de criar, que parece angústia, me dá muito prazer. Fiz teatro. Os três segundos antes de o espetáculo começar ou de entrar em cena, aquele black out infinito depois do terceiro sinal, são os mais emocionantes. Você sabe o que vai fazer, teoricamente há controle do que vai acontecer, mas quando se pisa o pé no palco há prazer e emoção que incluem a angústia, por conta da possibilidade do erro e do desconhecido, mas não se esgota nela, há uma busca muito maior. Vejo como alguém que pula de paraquedas. Há adrenalina, ansiedade, medo, angústia, e tudo isso dá prazer. Acho que o prazer é maior do que a angústia. Por isso digo que é instintivo, a gente busca o prazer o tempo inteiro, até como estratégia evolutiva, mas ninguém busca a angústia. Talvez, a busca pelo prazer gere inquietação, expectativa e, também, angústia. E acho que é a inquietação que faz a alma do criador, seja ele artista, estrategista, arquiteto…  Java foi muito escrito na angústia, como o sentimento mesmo da mulher perdida (algo que Raul Seixas falava muito e já me encantava desde novo), mas principalmente no prazer do sexo e da descoberta; e no risco, de iniciar um texto por apenas uma frase e segurar uma história e uma voz a partir dali. Criar é a palavra de ordem de Gaia e é também a grande busca do humano, por ser filho e ainda viver no útero dela. É tudo instinto, animal mesmo. Nomeá-la angústia é reduzir muito a complexidade desta bomba de prazer e frustrações.

DA – Onde a famigerada inspiração?

THIAGO MOURÃO – Você chegou na pergunta que inicia alguns textos de Java. Onde encontrá-la? Ao mesmo tempo, há um ofício a ser cumprido. Então, aos poucos, a gente percebe que inspiração não baixa nem vem à toa, muito raramente, é preciso buscá-la. Hoje, acredito mais que a inspiração encontra-se na disciplina, nos objetivos, na barriga querendo comer e no fígado precisando de álcool. É claro que a gente se alimenta, observando o dia-a-dia. Eu gosto muito de observar a natureza (me formei em biologia) e sempre me intriga a relação do homem com o espaço de Gaia. A inspiração está nisso, nas perguntas, nas investigações que buscamos fazer. Claro que há dias mais fáceis que outros. Há dias que se escreve vinte páginas e dias que se escreve duas, dolorosamente. Mas qualquer coisa pode despertar a vontade de escrever um texto. Inclusive, outros bons textos.

DA – O modo como se percebe o mundo é certamente algo fundamental para um autor. Outros criadores também são responsáveis por mostrarem dimensões múltiplas de apreensão das coisas. É mais interessante pensar que o que chamamos de novo é fruto de uma transformação daquilo que sempre esteve entre nós?

THIAGO MOURÃO – Muito mais. Arte pode vir de artifício, e o artifício é a técnica. Se você abre o jornal, há um artigo sobre violência, na literatura autores falam da mesma coisa de outra forma, há os textos acadêmicos sobre violência que têm seu estilo próprio e suas ideias. Os temas rondam e cabe a nós abordá-los da nossa forma. E a nossa forma é baseada em tudo que absorvemos. E pensar que tudo se transforma e é aproveitado é um pensamento inteligente ao meu ver.

DA – Em “Java Jota”, os labirintos da mente conduzem o personagem a um ambiente hedonista. Aqui, a figura da musa é algo fugaz, desejo de calmaria numa procela incessante. Seria a memória um componente que nos ajuda a atravessar o caos?

THIAGO MOURÃO – A memória nos leva ao caos. Você faz uma observação que gostei muito na resenha de Java Jota: “molda a difusa colcha de retalhos que pode representar a mente de um criador.” É isso, uma colcha de retalhos. Quando acaba a memória e começa a criação nos nossos pensamentos? Ninguém sabe, nem os médicos e biólogos, mas sabe-se que todos, artistas e não artistas, inventam quando revivem suas memórias. E, normalmente, são caóticas. O que nos tira do caos é a junção disso tudo numa linha intelectual. Extravasamos isso nas profissões, nas conversas, exposições das opiniões e dos fatos. A memória nos faz saber dela o tempo inteiro, é a grande sacada que Joyce tem em Ulysses: a reprodução do fluxo ilógico do pensamento consciente. Um cheiro, um olhar ou uma imagem qualquer pode desencadear pensamentos muito vivos, que desencadeiam sentimentos e sensações e quanto mais sentimentos e as sensações, mais vivos estamos. Nada na natureza para e nós, queiramos ou não, somos parte da natureza. Nossos atos instintivos não podem provar isso? Quem tem total controle do que virá na mente? Me parece que a memória é a base primeira da criação. E é preciso treiná-la.

DA – Há algum sentido de libertação na escrita?

THIAGO MOURÃO – Há, sim. Evidencio isso em Java Jota neste trecho: “Porque eram artifícios naturais, puros e verdadeiros. Porque ali havia Rosa. E porque havia literatura. E Rosa e literatura faziam uma equação diferente, única e peculiar, que resultava em amor. Em calma, em conforto. Resultava em um lugar só dele. E dela. Um lugar fechado, mas livre e libertador do pior da sua alma.” Há sempre libertação na criação, como há o aumento da necessidade de criar mais. Acredito que a boa literatura não deva ter pudor. É a liberdade da hipocrisia social. Também pode ser de outras liberdades mais pessoais, e serão, pois só escrevemos sobre o que nos incomoda, ou intriga, enfim… Aspectos que nos chamem a atenção. Mas se vivemos em sociedade e estamos sempre transitando por ela, nossos anseios, desejos e intrigas estão completamente ligados a estas relações cotidianas. Logo, isso faz com que a libertação da alma e das questões sociais possam e devam andar juntas. Sem pudor.

DA – Em matéria de literatura, você se considera um transgressor?

THIAGO MOURÃO – Literatura deve ser transgressora no sentido das convenções e conveniências sociais, deve expor, pôr o dedo na ferida. Eu tento ser o mais honesto possível quando escrevo. Isso é transgressão? Esteticamente, gosto de experimentar, isso seria a transgressão a que você se refere? Procuro não me censurar e sou muito chato quanto ao tom e a forma de escrever. Se soa estranho, travo ou recomeço, se não tem uma voz própria, acho inválido.

Thiago Mourão
Thiago Mourão / Foto: divulgação

DA – Falemos da transgressão num sentido de rompimento de convenções e lugares comuns, levando em consideração um tempo de patrulhamento ideológico e do politicamente correto. A literatura sobrevive numa sociedade repleta de congratulações e bom mocismo?

THIAGO MOURÃO – Ah! O bom mocismo tem me irritado, confesso. Mas, por enquanto, tenho mais visto isso nas ideias e discussões que nos textos literários contemporâneos que tenho lido. O que há – e é também irritante – é uma necessidade da crítica pela crítica, esquecendo que estão fazendo arte, que é algo que privilegia a estética/linguagem. Quando quero criticar abertamente algo, faço nos meios que são para isso: O Globo, Brasil Post e Gazeta dos Búzios. Minha arte é crítica por trazer um espelho social e um tema, mas não escrevo para que os outros digam: “olha como ele é engajado”, ou para dar lições socialistas, não. Escrevo sobre o que quero falar e me incomoda e quando crio também, mas estou em busca de uma história, uma estética, e que se for para tomar posição, que ela esteja diluída na arte – que está acima de tudo. Outro dia li num edital de concurso de contos: “contos que valorizem o bem-estar social” e até hoje me pergunto o que queriam dizer com isso. Mais de um edital traz isso, seria uma doutrinação do bom mocismo? E fico apavorado por saber que a resposta passa por esse bom mocismo ou por achar que é a literatura somente quem vai nos tirar da mediocridade ululante em nossa terra. Tenho visto alguns escreverem cheios de efeitos e ironias e sem conteúdo ou de conteúdo repetido, isso tem rolado bastante. Mas vejo bons autores da minha geração com crítica, voz própria e escrevendo sem pudor e sem ser panfletário. Mas, sim, devemos estar atentos. Esteticamente, acho que as novas mídias vão nos ajudar a dar um salto na diversidade. Voltando a Ulysses, Joyce brinca com essa diversidade midiática que aparecia (o jornal, a publicidade invadindo outros espaços como a própria rua…). Ulysses é um claro retrato de como a diversidade linguística pode intervir na literatura. Foi escrito em início de século, mais ou menos no período em que estamos. Acho que quando começa um século, muda nossa forma de comunicar, mudam as indústrias e as estruturas sociais. Acho que grande parte das pessoas ainda não entendeu a importância de viver o início de um novo século. E isso contribui muito para a mediocridade e esse bom mocismo.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

THIAGO MOURÃO – Esse estado de coisas nos traz muitas informações e possibilidades, ao mesmo tempo, uma superficialidade doida. Parece que há uma busca, principalmente na minha geração, pela extrema bondade. Todo mundo é bonzinho e qualquer coisa que se discorde você é um direitista (uma coisa cruel – e esquecem as contribuições de pensamento econômico e social que os pensadores liberais trouxeram) terrível. Parece novela antigamente, tem os bons e os maus. Há muito pouca análise de contexto mais aprofundada, a internet, principalmente o Facebook que poderia ser uma ótima ferramenta para análises, se tornou, em grande parte, um local vazio de ideias, apenas com pessoas querendo se mostrar o quão boazinhas são. Ao mesmo tempo, é uma geração – coisa de cultura brasileira – que faz muito pouco pelo social, no sentido de, por exemplo, trabalho voluntário e humanitário. Essa tentativa de canonização, através do discurso, eu não endosso. Não sou bonzinho, sou humano, tenho pensamentos terríveis, egoísmos controláveis, mas incuráveis. Sinto raiva, inveja, desprezo, tudo isso… É inerente à minha condição humana e não faço questão de ser madre Teresa de Calcutá. Antonio Risério me trouxe uma expressão muito boa: são stalinistas chapa-branca. “Muito amor envolvido”, “de boas” e etc são expressões/frases que para mim ilustram muito bem o que digo, irritantes, diga-se de passagem. E aí você escuta coisas esdrúxulas do tipo: Dilma é uma grande presidente porque foi torturada na ditadura, me explique o que o cu tem a ver com as calças! Mas quando faço uma crítica dessas, automaticamente me jogam no colo dos militares, me chamam de insensível. Ou então devo achar lindo que o ex-presidente, aquele mesmo que se orgulha de ter chegado à Presidência da República sem nunca ter lido um livro, esteja colocando estudantes brasileiros na mão de bancos e empresários, numa dívida imensa (um problemão americano que estamos entrando enquanto eles buscam saída) porque agora filho de pobre estuda medicina ou biologia. Educação deve ser universal e pública e quando eu critico os métodos, automaticamente os que almejam a canonização me atacam me chamando de preconceituoso. Precisa falar o estado das universidades públicas brasileiras? É uma curva descendente em contraste à curva ascendente de lucros dos empresários do setor. Mas criticar isso é perigoso. Ou então é comum assim: “ele é ótimo porque pelo menos…” pelo menos… E de pelo menos em pelo menos a quinta maior economia do mundo distribui migalhas ao seu povo e todos ficam extremamente agradecidos, aí político vira pai e mãe, em vez de servidor público. Parece que a pós- modernidade trouxe ótimas ferramentas e nos manteve a cabeça do século XX. O Brasil aposta em petróleo e se você critica a loucura que é o pré-sal ou o risco econômico que o investimento em petróleo é no novo século, vão dizer que você está de conchavo com americanos para vender o petróleo. Ora, os países de primeiro mundo estão abolindo a indústria do carbono. Alunos de Harvard recentemente entraram num processo judicial para que a universidade pare investimentos em pesquisas e empresas de carbono. Stanford cortou esses investimentos faz dois anos. Parece que há muita informação pronta e pouco tempo para contextualizá-las e todos estão ávidos em ser bonzinhos, tão desesperados, que o Brasil foi entregue ao populismo em pleno início de século XXI, como se não houvesse tempo mais para estruturas e investimentos de médio e longo prazo, tudo tem que ser feito imediatamente… É isso, esse pensamento retilíneo eu não endosso. E tem sido difícil não endossá-lo, até porque eu não estou dissociado de ninguém.

DA – Definitivamente, somos seres incorrigíveis?

THIAGO MOURÃO – Somos seres complexos com questões incorrigíveis e instintivas. Sim, somos animais, e com muitas questões adaptáveis. Apesar de seres novatos neste planeta, nossa adaptabilidade ampla nos permite viver do norte ao sul da Terra, criando diferentes estruturas sociais e econômicas. Mas a nossa obsessão com esta alta capacidade de mudar o ambiente a nosso favor – chamada progresso – me parece incorrigível e já nos mostrou que tem afetado não só as outras espécies como a nossa. E mesmo isto estando claro, com fatos e números, insistimos nos erros. A dissociação homem-natureza nos cobra um preço alto. A nós e aos que nos cercam e pelo andar da carruagem parecemos incorrigíveis. Me referi ao humano como espécie, como indivíduo acredito que temos pequenas soluções – o que me faz ser completamente crítico ao nosso sistema carcerário e bastante crente do embelezamento e transformação da alma humana através da boa educação (não esta que nos apresentam, de maneira geral aqui no Brasil) e da arte/cultura.

DA – Sob o manto da criação, está cada vez mais difícil distinguir realidade de ficção? 

THIAGO MOURÃO – Bom, tenho tido a impressão de viver em uma peça de Ionesco o tempo inteiro. Isso falando da realidade, principalmente política, que o Brasil vive. Mas ando bastante caçando ficção e acho que o escritor deve sempre olhar para a realidade com essa visão criativa. Diálogos reais se transpõem facilmente para a ficção e vice versa. Quanto mais se cria, mais isso acontece. É bom e, às vezes, meio louco.

DA – Acossado pelo abismo, o que enxerga Thiago Mourão?

THIAGO MOURÃO – Uma bipolaridade incrível. Tem horas que parece que eu vou abraçar o mundo e tem horas que tenho certeza de estar sendo engolido pelo mundo. É estranho e desafiador, mas a linearidade em excesso é entediante. A beira do abismo e o balanço dele dão a impressão de vida. Sem isso, é só respirar.

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Geraldo Lima

 

Ilustração: Caroline Pires

 

MULHER NA CADEIRA DE VIME

 

O cenário, uma sala com decoração minimalista. Só a reprodução de Mulher sentada apoiada sobre os cotovelos, de Pablo Picasso, fixada na parede frontal, atrai de chofre os olhos do visitante.

Depois disso, percebe-se o tom suave do azul brisa do mar das paredes. Tudo isso, obviamente, se os olhos não captarem com mais interesse a silhueta feminina exposta no lado esquerdo do cômodo. Não se trata de uma reprodução, e isso logo se vê. Tampouco está decomposta como numa pintura cubista.  Embora ele não a veja ainda por completo, o ser no seu todo, seus olhos já transbordam.

Ela está sentada numa cadeira de vime natural, o corpo todo resumido nesse espaço de fibras e reentrâncias.  Os olhos, cerrados, parecem entregues aos caprichos da memória e seus labirintos. Ela não o viu entrar, ou finge não tê-lo visto. Finge, é o que se pode deduzir, pois a porta foi aberta sem nenhuma delicadeza. As dobradiças, carentes de lubrificante, rangeram alto. Ela, no entanto, permanece assim: a cabeça levemente jogada para trás, como quem tira um cochilo.

Ele para diante dela, esperando que abra os olhos e o veja.  Espera inútil, alguém precisa lhe dizer. A mulher, movendo-se um pouco na cadeira (deixa, talvez, os pés escorrerem e tocarem a frieza do porcelanato), poderá até descerrar os olhos opacos e tentar focá-los na direção dessa voz que agora a cumprimenta. Tenta, sem desespero, buscar essa figura que ela imagina como sendo um homem alto e forte. Um homem que ela decompõe e vai remontando a seu bel-prazer.

 

 

 

***

 

 

 

DOIS

 

Aí ela inventava umas coisas, meio que no desespero. Quanto tempo isso dura?, devia se perguntar, enquanto tinha aqueles insights, aquelas malícias próprias de uma mulher tentando fincar as raízes do amor na areia movediça de encontros furtivos. Ele chegava, ela abria a porta, e lá estava a surpresa, a isca, a invenção do dia, o jeito de cativá-lo para que aquilo durasse pelo menos um dia a mais, aquele resto de tarde, quem sabe? Colocava uma música lenta, romântica de partir o coração em pedacinhos, colava o corpo ao dele, dança comigo?, e então dançavam, quase sem sair do lugar, apenas sentindo, sentindo, sentindo. Ela queria que aquilo durasse uma eternidade, mesmo sabendo que iria acabar, acabar ainda reverberando, trincando por dentro, chamuscando a carne, assombrando a memória. Talvez por isso tivesse aqueles achados só para não afundar definitivamente no desespero, na sensação de finitude, no magma que sufoca até a morte. Você me carrega no colo até o quarto?, ela lhe pediu da última vez em que se encontraram.

 

 

 

 ***

 

 

ELA

 

É como se não tivesse ficado tanto tempo longe de casa. Como se não tivesse, num rompante do mais louco romantismo, abandonado tudo em nome do amor mais extremo. Olhando-a assim, tão desenvolta na casa que ela renegou um dia, podemos nos espantar com a sua certeza de que ainda cabe ali, de que não há outra em seu lugar, de que ele não trocou a fechadura exatamente para que ela entrasse sem precisar tocar a campainha. E aí está ela, desfazendo a mala, indagando sobre o comportamento das crianças (nem percebe que cresceram, que praticamente não a reconhecem), e reclama do guarda-roupa bagunçado, reafirmando, talvez, a necessidade de sua presença ali. Ele, até agora, observa tudo pasmo, com um engasgo, uma vontade de dizer algo, uns desaforos, uns desafogos, indagar, se impor, mas sente-se atravessado por sentimentos contraditórios: enquanto busca em si o ódio, a faca que trincha, um fiapo de alegria deixa-o mole, aliviado, quase a ponto de chorar. Intenta reagir contra essa fraqueza, porém já é tarde, ela domina o ambiente, preenche o vazio de antes, dando a nítida impressão de que tudo está começando agora, sem pus algum na ferida que lateja ainda exposta.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Autor de Baque (contos), Tesselário (minicontos) e UM (romance).

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Sara F. Costa

 

Ilustração: Caroline Pires

 

As regras de Tagame

 

senta-te na vida
como no suicídio,
somos feitos de metal febril,
responde-me com a garganta iluminada,
és o espectro nómada
das noites que passo com o tagame,
um Rimbaud cansado
já aos quinze.
existes-me nos becos sinuosos
da mente, não sei se
o teu espírito rodou pela direita ou pela esquerda
mas foi Dante quem te ensinou a subir montanhas.
ainda não consegues compreender
o esforço que Max Brod fez para divulgar Kafka depois da sua morte.
és a penumbra secreta
quando te vigio a morte.
um amigo nas trevas
que percorre caminhos transparentes
onde a solidão se transforma
na música demorada dos teus pensamentos.

 

 

*** 

 

 

 

Há uma luz selvagem

 

há uma luz selvagem que me percorre o nome
e que enlouquece lentamente
no interior húmido da memória.
o espaço da voz
expande-se até à idade irrespirável dos objectos.
sento-me a observar a praia
e a forma como a água tem medo de se aproximar demasiado
e pousar nas perguntas.
as pálpebras escorrem-me até aos nervos.
há um frio insuportável na passagem escorregadia das horas
no gesso de cada nome,
e um sítio febril onde a inteligência consegue deteriorar
todos os vestígios decifráveis de vida.
cada nome, no interior imóvel do seu ventre,
no sangue fervido das noites,
transporta uma luz pesada,
impronunciável.

 

 

 

***

 

 

 

Cheguei demasiado cedo

 

ao colo da floresta,
quando falei,
falei extremamente baixo
sobre as mitologias
da linguagem.
se alguém me ouviu
foi porque este oceano pedestre
a que chamas existência
me deixou mergulhar
nas vertigens dos campos.
deixa-me conduzir
esta voz

até à intimidade do céu.

 

 

 

***

 

 

 

Anuncie aqui

 

anuncie aqui,
temos o que procura,
clientes de existências quentes,
astros estendidos no comprimento da boca.

anuncie aqui a sua solidão
o seu medo assimétrico,
o seu bom coração.

havemos de lhe encontrar
alguém sensível
com ossos audíveis,
botões em zonas estratégicas,

onde pode parar ou começar
os violinos,
as cortinas,
a paisagem.
a cortina paisagística
e um soneto capaz de cobrir a visão.

anuncie aqui
e anuncie ali
quanto mais se explorar
mais hipóteses tem de ganhar.

tudo amadurece,
até o silêncio
aquele que ressoa por esta febre
febre que se arrasta pelo poema,
poema que se verga
para o seu interior de mar.
as rosas brotam
o leite envenenado
dos nossos direitos mais antigos.
o avião transporta o peso
da luz
e a água da manhã atravessa
o brilho abandonado das mulheres
selvagens que te tecem o sono.
amanhã as fábricas recomeçam
a queimar os seus mortos
e deus ressuscitará entretanto.

 

 

***

 

 

 

A conquista da Polónia

 

a tua fala loira desdobra-se em pedaços brancos de pele
esta música goteja com o teu sangue,
o apetite dela do tamanho do meu.
orgulho-me das tuas veias tão salientes,
da altura assustadora dos instintos.
chove por dentro do desejo
e eu quero enterrar-te ainda esta noite,
quando passar o próximo comboio
terei o teu peito molhado,
os teus ossos transpirados
por aquela vontade de viver
mas antes do comboio passar
navegarei na tempestade azul dos teus olhos
e terei os teus lábios gelados
como o norte,
sentir-me-ei a rainha da Polónia.

 

Sara F. Costa (1987) Natural de Oliveira de Azeméis, Portugal. Licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho e Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem publicadas as obras poéticas: “A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos” (Prêmio Literário Serra da Lousã, Pé de Página editores), Uma Devastação Inteligente (Prêmio Literário João da Silva Correia, Atelier Editorial) e “O Sono Extenso” (Prêmio Literário João da Silva Correia, Âncora Editores).

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Graccho Braz Peixoto

 

O uso do “e-mail”, no âmbito da imprensa, trouxe uma alteração na forma de se fazer entrevista. Se antes era feita no calor da hora, no encontro pessoal entre o jornalista e seu alvo, onde pergunta e resposta eram um bate-bola que proporcionava outras colocações inusitadas, muitas vezes surpreendentes, hoje é realizada por e-mail, fato que vai das publicações culturais mais à margem da mídia a revistas como a Veja. Porém, se perde no ritmo da fala, do fraseado mais espontâneo e circunstancial, ganha na cadência do pensamento, da articulação construída para uma resposta mais substancial. No caso do compositor Mário Montaut, a resposta escrita resvala facilmente para digressões e reticências, sugestões, o que, naturalmente, dá à “conversa” um sabor mais incomum. Formado pela Escola de Comunicação e Arte – ECA, da USP, Montaut está divulgando seu quarto CD, “De Viés”, em que põe a rodar a sonoridade própria de suas 16 canções. Neste espaço generoso, Mário fala da morte da canção, de sinestesia, de ídolos, infância, parceiros…  É nosso convite para leitura e audição de uma voz singular nesse território que costumamos chamar de MPB.

 

Mário Montaut
Mário Montaut / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Vê-se, claramente, em suas letras, uma afinidade com o Surrealismo. Talvez seja algo tão forte que já soa como um processo inconsciente. Refiro-me em especial aos cenários oníricos que emanam das canções, você escrevendo no âmbito das sugestões, o que deixa sempre uma margem virgem para outras fruições. Pode comentar um pouco sobre isso?

MÁRIO MONTAUT – Isso que você chama de Surrealismo é para mim, com as mais loucas sinestesias, o espaço-síntese de todos os conflitos, de todos os paradoxos, e quando crio a coisa não é apenas emotiva, pensamenteira, sensorial.  Dessa enigmática instância acolhedora de tudo o que foi tocado pelo desejo, a inspiração, é que pode se abrir uma margem virgem para outras fruições, como você diz. Impossível a criação se não estiver ativada essa região. Agora, o Surrealismo, que para mim é essencialmente isso, realiza-se ganhando forma musical em tempos, velocidades bem diversas, quando vira música, em princípio. Uma música que já prevê, aguarda palavras, e que composta ao violão e voz, piano e voz, só ao instrumento ou a cappella, pode chegar música pura, ou com palavras, sonoridades que inspirem o verbo, e neologismos que mesmo desafiando a razão se impõem com seus sentidos misteriosos. Então, quando inicio a letra já existe todo esse processo, toda essa explosão, e a ela ouvindo, reouvindo, faço a letra. É um Caos. E natural que dessa complexidade às vezes surjam versos absurdos. Natural e inevitável (risos). Existe nessas composições algo de sugestivo, como você coloca, e de imperioso, inexplicável também para mim. Se pudesse explicar, não sei se faria.

 

DA – No novo filme do Jean-Luc Godard, “Adeus à Linguagem”, há a seguinte frase logo na abertura: ” A realidade é o refúgio dos que não têm imaginação”. O que você acha de tamanho aforismo, vindo de quem vem?

MÁRIO MONTAUT – Você sabe que não acompanho tanto assim o Godard? Retenho imagens belíssimas dele, de alguns filmes, e de certos filmes que nem vi inteiros, mas fico sedento por imagens novas dele, e esse aí é em 3D, não é? Um homem, uma mulher, um cão… e você lembra de “Je vous salue Marie”? Aquela menina recitando Baudelaire. E o bigodudo do Sarney censurando o filme logo após o término da censura? A pedido de Marly Sarney, a primeira dama que virou tema de carnaval daqueles jornalistas que criaram o bloco “Je vous salue Marly”? É um convite de passeio pelo tema, o aforismo. Oscar Wilde tinha outro: “A ação é o último recurso dos que não sabem sonhar”. Sarney, Antonio Carlos Magalhães: homens de ação, de atitude. “E assim adormece esse homem que nunca precisa dormir pra sonhar, porque não há sonho mais lindo do que sua terra, não há”. Surrealismo de Dorival Caymmi. Borges: “As pessoas aceitam facilmente a realidade talvez por suspeitarem que ela não exista”. Lorca: “Não é sonho a vida. Alerta! Alerta! Alerta!” Novalis: “A vida não é um sonho, mas pode chegar a ser um sonho”. Décio Pignatari achava que o Surrealismo não pegou tanto por aqui porque o Brasil já é surrealista. “Em qual mentira vou acreditar?”, entoavam os Racionais em “Sobrevivendo no inferno”, e esse é um título dantesco! Caetano Veloso: “Antonio Carlos Magalhães é quentinho, sexy e carinhoso”. O aforismo de Godard após um telejornal da Globo em ritmo de golpe produz essas digressões: “Bela Humana Raça!” (risos). “Dali de Salvador”, cantava a Blitz. “Um homem que para se referir a uma enxada precisa dizer enxada merece mais é pegar nela” (Wilde). Gabriel García Márquez quando sentia medo da realidade procurava fazer trabalhos manuais. Para tudo isso deve haver uma solução de continuidade. Lula e Dilma sabiam de tudo, mesmo?

 

DA – Geralmente, com nossas influências, vamos encontrando compositores que nos inspiram de diferentes formas. Alguns, se podemos colocar desta forma, se enquadrariam sob aspecto mais cerebral, informativo; outros já repousariam perto do coração, por conta de vivências, emoções que eu diria quase míticas. Você concorda? Pode dar exemplos?

MÁRIO MONTAUT – O Paul McCartney certa vez falou algo assim: “Here, there and everywhere era pra ser supostamente uma canção dos Beach Boys, porém, você não sabe disso, nada disso está na música, o que me influenciou está na minha cabeça, você não precisa saber, e é assim que vejo a diferença entre influência e cópia”. Algo aproximado, com o qual me identifiquei. Posso lhe garantir que no processo de determinada composição sei onde se dá um toque de Benjor, de Debussy, Kandinsky, Keith Richards, de Heidegger, e claro, você não precisa saber disso (risos). Dito assim, parece até niilismo, inexistência quase total de evidências (risos). Fico parecendo um personagem de Borges. A artista plástica Fayga Ostrower, em seu livro “Criatividade e processos de criação”, repete em estilo acadêmico o que o Paul disse com mais clareza e contundência: que a influência mais elaborada se torna reconhecível praticamente só pelo artista. Creio que a influência vem dessa quarta região inspirada, da qual emana o fogo-síntese, e onde ocorrem as transfigurações de tantas linguagens, onde um parágrafo de Heidegger, uma tela de Kandinsky, não me instigam menos do que uma canção de Chico Buarque ou dos Beatles. Como exemplo, vou mencionar o sonho em que Jimi Hendrix faz um solo de guitarra que se projeta no céu de Vulcânia  (ilha onde foi construído o Náutilus, do 20.000 Léguas Submarinas, de Julio Verne) num arco-íris com muito mais de sete cores, e que pode me lembrar tons do Kandinsky que revi na recente exposição do Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo,  sonho que resultou numa obra puramente musical, “Brincando em Vulcânia”. Será que lembra Hendrix (risos)?

 

DA – Uma deixa para você fazer duas consagrações: fale de Beatles e de Dorival Caymmi.

MÁRIO MONTAUT – Infância, proximidade da origem, arquétipo. Quantas canções dos Beatles vêm de arquétipos. “The fool on the hill’, “Eleanor Rigby”, “I’m the walrus”, “Hello Goodbye”, “The Long and winding road”, “For no one”, “Help”, “I’ve got a feeling”, “Let it be” (em que muita gente, até o John Lennon, vê a Virgem Maria, mas que Paul jura ser a mãe dele)… E  esse mar de ondas arquetípicas quando quebra na praia é bonito, é bonito, como diz Caymmi, que como os Beatles, tem nas letras uma coloquialidade genial. Caymmi é infância puramente marota, sensual, com aquela malemolência, aquele violão das canções praieiras. Debussy compôs “La Mer”, mas é Caymmi quem o desvela pelas praias em que também pescam e se banham os Beatles.

 

DA – Um comentário recorrente entre autores e músicos diz que a MPB perdeu sua força, sua representatividade, seu alcance. Concorda com isso? Sei que é uma questão complexa, que não se esgota numa entrevista, mas queria sua opinião.

MÁRIO MONTAUT – “O vento que faz cantiga nas folhas do alto do coqueiral, o vento que ondula as águas, eu nunca tive saudade igual, me traga boas notícias daquela terra toda manhã, e jogue uma flor no colo de uma morena em Itapoã”… Se vejo as coisas dessa praia, que é sonho onde brincam Chico, Beatles, Dalí, Breton, Alberto Caeiro, todo o resto é brincadeira de mau-gosto. Isso do Chico dizer que a canção morreu é apenas a revelação teórica de algo que ele já prenunciou em “Olé Olá”, em que vaticinava o futuro do canto, do samba: “o sol chegou antes do samba chegar, quem passa nem liga, já vai trabalhar, e você minha amiga já pode chorar”.  Na globalização da Ditadura Econômica, da Tecnologia Totalitária não sobra espaço para se brincar, pensar, cantar. Henfil já dizia que a tecnologia é a morte do sonho, e a morte do Sonho, parece, é a morte da canção. Paul McCartney, em “Jenny Wren”, acredita que a canção irá renascer. Eu apenas sei que por enquanto há muita singularidade possível e compartilhável.

 

DA – Talvez a mesma pergunta feita de outro modo. Tivemos movimentos e movimentações de uma criatividade muito forte, uma produção hoje consolidada. Ao longo do tempo, grandes cantores e compositores que surgiram com a Era do Rádio, os craques da Bossa Nova, que fundaram uma nova linguagem, com repercussão internacional; a Tropicália, alguns grupos e artistas com tanta coesão que ficaram conhecidos como o Clube da Esquina, o Pessoal do Ceará, Geração Nordeste, o pessoal do Lira Paulistana, o rock da década de ’80. Que visão tem do cenário atual?

MÁRIO MONTAUT – Delícia lembrar 1980, quando a canção que eu mais ouvia nas rádios de São Paulo era “Noturno (Coração Alado)”, a de maior sucesso e uma das mais emblemáticas dos compositores do Ceará. Bem na época do “Lira Paulistana”, e curiosamente também em 1980, um debate na Faculdade de Música da ECA-USP, com a presença de Arrigo Barnabé, Mário Manga, Hélio Ziskind e uma diversidade enorme de compositores, na qual os movimentos que você menciona estavam mais ou menos representados. Ainda não haviam decretado sua morte, mas quase todos ali concordavam que a canção se encontrava em profunda atonia. O Arrigo se mostrava até meio indignado dizendo que tinha tocado na questão com o Valter Franco, e que este via aquela leva de canções com muito bons olhos. Mas eis que com a lembrança de “Noturno”, sua e do Caio, e esses fatos instigantes você traz de novo o tema que tanto nos seduz pelo mistério: a morte da canção. Por certa crítica que vê em Chico Buarque De Hollanda um sinônimo da canção, e também de certa esquerda no Brasil, ele foi eleito o grande ícone do fenômeno. Quando em julho de 2011 lançou “Francisco”, um crítico da revista Veja afirmou que “seu último espasmo criativo” se deu em 1993, em “Paratodos”. Chico estava então sem gravar desde 1989, ano em que lançou “Morro Dois Irmãos”. Logo após o lançamento de “Paratodos”, ele declarou numa entrevista que se a crise criativa pela qual vinha passando crescesse em termos geométricos, o próximo disco sairia só dali a dezesseis anos. Na realidade isso ocorreu em 1998, com “As cidades”, que deu ensejo a uma matéria da Veja intitulada: “A crise criativa de Chico Buarque”. Os críticos que participaram da reportagem nem falaram tão mal assim da obra, só tentaram aprofundar o assunto que o próprio Chico propusera. Sinto, Graccho, que este é o cerne da pergunta, e já que não dá mesmo para responder apenas prossigo nessa perspectiva que vou achando cada vez mais atraente. “Carioca”, “Sonhos Sonhos São”, “Subúrbio” e “Querido Diário” são para mim as mais significativas composições de Chico nos três últimos discos, e cuja riqueza é maior a cada audição. Com algumas faixas de “Chaos and creation in the backyard”, de Paul McCartney, essas certamente estão entre as músicas que mais ouço nos últimos anos, e sobre as quais gostaria de conversar com outros músicos, que para minha surpresa revelam um desconhecimento quase total desses trabalhos. Parece que resta em nossa contemporaneidade a graça singular, e ela pode ser partilhada, mas em outro nível. Dificilmente você diz: “Essa é a nossa canção”, relembrando Joyce, que já brincou com a ideia da morte da canção na revista “Bundas”, do Ziraldo, ano 2000.

 

Mário Montaut / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Fale um pouco do processo de gravação de seu disco “De Viés”. Sei que várias músicas ficaram fora, apesar das 16 faixas. É doído definir o repertório?

MÁRIO MONTAUT – Sim, é mais que doído. Agora, eu me lembro de Noé. Quando Deus lhe disse que iria mandar o dilúvio, ele salvou um casal de cada espécie na arca. Bem, sem tamanhos avisos e sem aquele aguçado faro de escolha, mas a meu jeito, quando sinto que vou acabar perdendo a maior parte das muitas coisas que crio, seleciono algo que represente um pouco de cada etapa, de certos ângulos de minha criação pelo tempo, e coloco na arca de Montaut (risos), e nem sei se são as melhores músicas, mas são escolhas possíveis, que representam possibilidades que me habitam, e mesmo que muita coisa fique de fora, sinto-me aliviado antes que o temporal leve embora, e você sabe que na condição precária dessa existência de artista que não vive de sua arte, a questão se torna ainda mais delicada. Tento trazer para cada disco exemplares de várias épocas e composições realizadas numa proximidade relativa à feitura do disco. É quase impossível lançar um álbum em menores intervalos de tempo, então, tem sido assim até agora. Trabalhei essas composições desde 2010 com o Roberto Gava (produtor, arranjador e instrumentista no álbum), com a Ana Lee (cantora, minha mulher e musa), com o Ricardo Stuani (percussionista em várias faixas do álbum), Vicente Thiné e Ozias Stafuzza (queridos parceiros). E durante esse tempo gravei muita coisa nova, material para iniciativas futuras.

 

DA – Como se deu sua aproximação com a música?

MÁRIO MONTAUT –  A banda no coreto de Serra Negra, perto dos três anos de idade. O rádio tocando “A Canção do Marinheiro” (“qual Cisne Branco”) e “Hava Nagila”, entre outros cantos e vozes de  Serra Negra, e já de volta a São Paulo, aos quatro anos, uma canção no rádio que nunca mais ouvi, e que me chegou com o tempero fabuloso de uma das tantas histórias que minha avó Alice contava, enquanto eu ouvia e olhava pela janela um navio sumindo. Um mapa infinito de tantas ruas.  Aos oito anos, de férias em Serra Negra, ouvi melodias dos Beatles, sem saber que eram elas, executadas por orquestra nos alto-falantes de um cinema.  Aos onze anos o violão, e logo as primeiras composições, Caymmi, Chico Buarque, Tchaikowsky, Chopin, Beethoven, Roberto Carlos, Beatles. Mais tarde o piano, e as namoradas, as turmas no colégio e em casa. Coisas bem antes do que conto e que não vão acabar.

 

DA – Sabemos que algumas experiências com as artes, como pura fruição ou mesmo no ato da criação podem ser algo de elevação espiritual. Você teve algo assim com a música?

MÁRIO MONTAUT – Você fala em elevação espiritual, e eu atento para o termo. Espiritual. Tão desprezado na atualidade, como se nossa consciência fosse resultado unicamente de neurônios, de redes neurotransmissoras. Kandinsky, que sempre teve o Espiritual em grande apreço, “procurou na alma dos objetos as manifestações espontâneas de seus sons interiores”. Participou de movimentos xamanistas na Mongólia, também nome de um filme de Salvador Dalí.  Você me faz  pensar ainda em Christian Dunker (psicanalista amigo de Vladimir Safatle e de Maria Rita Kehl), que em dezembro de 2012 escreveu para a revista Cult um belíssimo texto sobre a Alma. Música é Alma, leva-me ao êxtase, para mim, a forma maior de conhecimento, que para muitos pode ser “irrealidade”, mas esse universo musical se insere na realidade de modo mais determinante que certos padrões aceitariam (risos).  A audição de uma música, ou a lembrança dela (que com o tempo costuma ser um tipo mais frequente de experiência, aquela audição interna), pode ser arrebatadora, e produzir essa “elevação espiritual”. Quanto ao ato de criar, é também um êxtase diferente, na região em que se processam as alquimias e sínteses que geram a forma. Ali, esta pessoa que agora fala se apresenta em proporções mais adequadas.

 

DA – O que é uma canção?

MÁRIO MONTAUT – A forma concomitantemente rítmica, melódica, harmônica, verbal… Você foi ao ponto.  Algo que se cante entoando palavras, talvez. Ocorre que tradicionalmente a canção é o que Noel, Chico, Caymmi, os Beatles fizeram, com muita comunicabilidade a guiar outros impulsos. De um bom tempo pra cá, repetimos essa forma à exaustão, hoje coisa diluída, profunda atonia, ou então a inovamos um pouco e ela já não é  amplamente entendida. No meu caso penso que faço algumas canções, poucas, e muitos objetos sonoros não identificáveis como você uma vez bem os chamou. Sinto nelas algo que requer uma partilha bem diversa. A música me exige um tipo de letra não muito fácil de ser assimilado, e, portanto, de ser cantado facilmente por aqueles que as ouvem de imediato. Ao mesmo tempo em que são marcantes que já às primeiras audições. Bela Humana Raça, Castelo, Álven Jérra, De Tua Lembrança, Ondíssima Visão, Satã De Boi, Cadáver Delicado, Quando eu canto pro meu bem… Curioso o conjunto desses dezesseis títulos em “De Viés”, e sua pergunta me põe mais em desejos de refletir do que em condições de responder.

 

DA – Pra terminar nossa conversa, uma provocação: quem é Mário Montaut?

MÁRIO MONTAUT –   O que me inspira, como a Manoel De Barros, é mais aquilo que ignoro, que essencialmente desconheço e desconhecerei. Por mais instigante que seja o que de nós conhecemos, é mais aterrador e divino o que ignoramos, o que pode nos dar medo e ímpeto vital, como esta nossa conversa, de dois parceiros musicais pela trama cósmica.

 

Graccho Braz Peixoto é Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP (2004), compositor e jornalista. É autor da canção “Noturno” (Coração Alado), em parceria com o compositor e arranjador Caio Silvio Braz. Possui mais de 80 gravações de suas músicas, por diversos intérpretes, no Brasil, Europa e EUA.

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Olhares

Olhares

Outros elos

Por Fabrício Brandão

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

 

As cores e contornos sobre o papel. Diálogo entre dois universos. De um lado, o de quem vislumbra imagens; do outro, uma gigantesca nação de coisas a serem descobertas através do olhar. A arte impulsiona o criador quando este é capaz de compreender que pode fundar mundos no mundo.

Ao perceber que o elemento diferencial está na sua individualidade, o artista introduz seus ingredientes próprios numa mistura de signos e sentidos. Diga-se de passagem, o caráter especial da arte é nos mostrar que tudo, até mesmo as coisas aparentemente mais óbvias, podem ser vistas de uma maneira também inusitada. É então que refletimos que a convergência cartesiana de visões não é útil na representação dos universos artísticos.

E o que nos traz à baila uma artista como Caroline Pires? Quiçá mensagens de um admirável mundo novo. Seus desenhos e ilustrações transitam numa dimensão que harmoniza realidade e fantasia. É como um passeio pelo onírico, buscando sorver da vida um sopro de requintes poéticos. Mesmo no despertar do sonho, a artista constata que a existência revela outras camadas, as quais superam a noção meramente física das coisas.

Um aspecto que chama atenção na obra de Caroline é o fato de estarmos diante de caminhos de libertação. Em tal característica, a artista convida-nos a um percurso pelas alamedas lúdicas de sua consciência. Aqui, o anseio de liberdade está representado pela suavidade dos traços e contornos, sobretudo pela forma como se pretende um caminho feito de desprendimento, ou seja, sem excessos e ruídos do ponto de vista visual.

 

Ilustração: Caroline Pires

 

Andar com reduzidos pertences não significa andar de mãos vazias. No desafio de ilustrar um mundo tradicionalmente repleto de fardos desnecessários, Caroline abraça os rumos da leveza como forma de tentar compreender quem é. Mas o fato é que há ventos soprando em todas as direções e, nessa busca, a criadora depara-se com o estranhamento ante os desafios da existência. As rotas são inexatas, complexas, e por trás dessa verdadeira odisseia de sentidos a recompensa maior é a construção de uma linguagem íntima e consistente, capaz de compartilhar algo com os saberes alheios.

A trajetória artística de Caroline remonta à sua mais tenra idade. Nascida em São Paulo, desde pequena ela preenche espaços em branco com traços, linhas e cores. Atualmente, reside em Vargem Grande Paulista, trabalha como designer e ilustradora freelancer no Estúdio Capima. Dentre outros trabalhos, integra o Estúdio Azulê (parceria com a fotógrafa Diana Freixo), o Portal Mobilize Brasil e o novo blog Entreminas, espaço que aborda principalmente a arte feita por mulheres.

Abandonar o mundo em que se vive não é uma alternativa interessante para quem deseja fazer de sua arte uma expressão de identidade. Por mais voláteis que possam parecer, algumas sensações integram a natureza humana de modo inalienável. E a descoberta de novas dimensões existenciais não significa escape, mas sim transcendência, esse sublime estágio que delineia a obra de pessoas como Caroline Pires.

 

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

 

 

* As ilustrações de Caroline Pires são parte integrante da galeria e dos textos da 103ª Leva.

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Samuel Malentacchi

 

Ilustração: Caroline Pires

 

“E sempre no meu sempre a mesma ausência”
Drummond

 

 

Um soco
….na cara do estômago
ele sentiu cedo
….aos três anos da tarde

levantou torpe
….destituído de fins
desastrando goles
….contra a gravidade

pois se sabe grave
….das agudezas císticas,
….rotundas profundezas
das cavernas malabitadas
….que cultivou
….no tempo escorrido
….& sem parentes
….daquilo que foice;

estancado, além
….dos vazamentos rudes
ele se sentou
….& abraçou o estar entre.

 

 

 

***

 

 

 

Variações Grotescas

 

“O poeta canta/mesmo morto/ a carta da morte.”
Eduardo Lacerda

 

 

I

é encaixotado pra dentro
e retendo meus medos
que ;paradoxalmente; exponho
-n’um tipo de tomografia estranha-
a metalinguagem do meu horror,

eu repito repeço reflito reitero
o excesso que repito repeço
reflito reitero; repeadicção
dos repeditos que lambi
durante toda a existência
entesourada dos meus cortes;

 

 

II

/colori o dolorido do mundo
que conheci sem dó alguma,
dolori como que vindo
daquilo que eximi no enigma
colorido de mim, exibido
em noite de fala, na grande hora
da novela que nos enforca\

 

 

III

;algo como foliões desesperados;
………(…)
a folia indo
folha por folha
a outro destino que não
o fruto da fruição multicor;
………(…)
sou o ator doado à coisa carne
caolha, homem clandestino
e refratário de toda conjugação
e traduzibilidades; do molde
rimístico cancioneiro-cansado
ao que multifaceto no ilusório
receptáculo d’um eu que dói,

(tenho noção disso, da
ilusão, nem tanto da dor)

há o depósito,
pandoresco e limitado,
de minhas tripas desditosas;
escrevo com elas agora;

;desespero – algo como folia;

 

 

 

***

 

 

 

Formas de Chão

 

De quando em vez me acode o avesso
e vejo o lado desexposto da existência,
este exuberante erro bem colocado;

nas derrotas que pratico predico pedidos
para, quem sabe, vestir a insistência panta-
nosa e aveludada de todos machucados vivos;

na melhor das hipóteses, sigo; ferido; sibilino,
silabando fulgores cínicos por duro desejo
impuro de destino. Sem cura, cuspido,

(no entanto ido), fragmentalmente .
Em vez dos quandos me veem os prantos,
é no buraco que me atravessa que sou visto.

 

 

 

***

 

 

 

não tenho pretensão de querer saber tudo;
no que me ensinaram |ensimesmaram| não fui cooptado;
eu apreendo das nuances desavisadas,
é na insinuação que desenraizo o mundo;

flerto com a fresta dita em linha reta;
faço curvas na sombra da tarde rubrica;
brinco sedento de morte empoçada para
,quem sabe |quem abre?|, morar na eternidade;

trago comigo um gole de abismo
daqui vejo & vou ao corp’alma do universo;
se volto serei poeira se volto espaço consideral
se vejo: destino sempre em desatino
………………………../mas ainda Destino\

não tenho a ambição de saber querer tudo;
o que sei? desensimesmar versos suores
nudeza lírica duvidosa rima-matriz-lúdica;
& desatar des(a)tinos para o caminhonar-me;

..:laço poesia para fazer instantes no momento do próprio acontecer:

 

Samuel Malentacchi Marques, 30 anos, paulistano, dentre poucas-muitas coisas soul poeta; cometi três crimes de fazser poesia & o quarto está no p(r)elo; ei-los: poemas nortunos/autofagia/minimáximas  & miscelâminas, respectivamente; no maiscommenos: também costumo existir enquanto músico, baterista da banda chalk outlines & psicanalista; e1/2: malentacchi.samuel@gmail.com.

 

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

A História da Eternidade. Brasil. 2014.

 

A História da Eternidade

‘Não sei mais o que é amor, só sei o que é desaforo’.
(Personagem Querência)

Em tempos de ascensão do cinema argentino e breve entressafra de bons filmes nacionais, eis que surge um sopro de esperança [ou um oásis] vindo diretamente do sertão nordestino. Com 20 anos de carreira como cineasta e 14 curtas no currículo, A História da Eternidade marca a estreia do pernambucano Camilo Cavalcante na direção de longas-metragens. Apesar do título homônimo de seu curta de 2003 – um falso plano-sequência de 10 minutos que também passeia visceralmente pelos dramas do sertão –, o diretor garante que os enredos não têm correlação imediata. Aqui a trama gira em torno de três mulheres de gerações distintas: Querência (Marcelia Cartaxo), mãe que acaba de perder o filho e vive a dor do luto – e também é alvo do cortejo de Aderaldo (Leonardo França), o sanfoneiro romântico e cego da vila (abre essa porta, deixa o meu amor entrar pra tomar conta de tu, criatura!); Dona Das Dores (Zezita Matos), idosa-religiosa que mora longe da família e vibra com a estadia inesperada do neto Geraldo (Maxwell Nascimento), vindo de São Paulo; e por fim, Alfonsina (Débora Ingrid), adolescente que sonha em conhecer o mar e divide-se entre tratar do austero pai Nataniel (Cláudio Jaborandy) e dos irmãos e admirar o excêntrico tio João (Irandhir Santos), artista que definitivamente destoa do restante do vilarejo.

A História da Eternidade
O sanfoneiro Aderaldo (Leonardo França) em cena de A História da Eternidade / Foto: Divulgação

 

Produção independente – escrita e dirigida por Cavalcante –, financiada por editais e incentivos públicos, A História da Eternidade foi bem aceita por público e crítica. Recebeu mais de uma dezena de prêmios em festivais, entre eles o de melhor filme brasileiro e prêmio do público na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e as principais categorias do 6º Festival de Paulínia, ambos em 2014. Rodado na comunidade de Santa Fé, próximo à Petrolina (PE), cujo único contato com o exterior é de fato o orelhão que aparece no filme, a fotografia árida confere uma atemporalidade ímpar e uma beleza imensurável ao lugar. Apesar de se tratar de um filme feminino em sua essência e com protagonistas que ilustram bem as figuras sertanejas, quem rouba a cena é mesmo Irandhir Santos – vide Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda. Suas declamações e performances são impecáveis, sobretudo quando coloca o toca-discos na frente de casa e dubla a música Fala, dos Secos & Molhados, encarnando uma espécie de Ney Matogrosso dos confins. Vale ressaltar que a trilha sonora é assinada pelo compositor polonês Zibgniew Preisner, conhecido pelos filmes do cineasta Krzysztof Kieslowski em sua trilogia das cores: A Liberdade é Azul (1993), A Igualdade é Branca (1994) e A Fraternidade é Vermelha (1994), e pelo sanfonista Dominguinhos, em um de seus últimos trabalhos.

A História da Eternidade
João (Irandhir Santos) em performance de Fala (Secos & Molhados) / Foto: Divulgação

 

Dividida em três atos circulares (Pé de Galinha, Pé de Bode e Pé de Urubu), A História da Eternidade faz um recorte original de uma região bem peculiar do Brasil, porém opta por focar outras aflições e não o sofrimento oriundo da seca. Apesar do gigantismo da paisagem e do povoado inóspito (o que dizer do televisor e da poltrona quase sempre vazia no meio do nada?), a estética de Cavalcante parece aprisionar os personagens – comumente eles são filmados através de grades de janelas, como se fossem jaulas – numa alusão à ‘eternidade’ do título. O que voa ali são só os pássaros e a imaginação. E ainda assim, não por muito tempo. O amor assume vertentes de romantismo, desejo, saudade, veneração, tentação, penitência e tragédia. Talvez seja o tal ‘amar…esquecer…desamar’, a que João se refere em determinado poema. Assim, de mansinho, como chuva que chega sem avisar, A História da Eternidade entra para o rol dos pequenos clássicos nacionais e acaba de vez com a estiagem do nosso cinema.

 

Larissa Mendes, cidadã-cinéfila, atualmente habita o sertão catarinense.

 

 

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102ª Leva - 05/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Rodrigo Melo

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

CÉU SEM FIM

 

Eu trabalhava como soldador em uma fábrica de carrocerias de caminhão. Não é um trabalho fácil, tanto que muita gente até desiste depois de um tempo, mas era o que eu gostava de fazer. Dizem que todo homem nasce para alguma coisa. Talvez eu tivesse nascido praquilo. Trabalhei lá por quase quinze anos. Chegava bem cedo e saía às seis da tarde, entrava num ônibus apinhado de gente e seguia pra casa apenas para tomar banho, comer e dormir. No dia seguinte, antes que a fábrica abrisse, estava lá outra vez. Os patrões gostavam de mim. Nunca ninguém falou, eu apenas sentia que eles gostavam. Eu era quem menos faltava ou reclamava. Eu não negava serviço, doutor. Naquele dia, porém, uma dor de dente me fez sair mais cedo, algo que jamais havia acontecido. Foram dois os sofrimentos: pelo dente e por não soldar. Sentei no ônibus, desgarrado das coisas, preso àquela dor. Quem já teve dente ruim sabe do que falo. Encostei o ombro na janela, o rosto sobre ele, fechei os olhos. Alguém então se sentou ao meu lado. Era uma loura de uns trinta e poucos anos e a primeira coisa que passou pela minha cabeça foi que ela tinha um rosto parecido com o de mamãe. Ela se sentou e ficou a me olhar com estranheza e curiosidade, em seguida perguntou se eu precisava de ajuda. Minha cara não devia estar boa, ela que na verdade nunca foi grande coisa. Respondi que não, que só estava cansado, que ser gerente numa fábrica de carrocerias de caminhão não era brincadeira, naquele instante eu ia resolver umas questões, havia a labuta com os subordinados, as preocupações matavam. Preferi não dizer que era soldador ou que não cuidava dos dentes. Talvez ela se decepcionasse. Talvez ela deixasse de ser simpática e de conversar. A sua voz era doce como a voz de um anjo. Seus olhos eram cheios de vida, o seu cheiro era bom. Conhecê-la fez com que a dor no meu dente diminuísse. Disse para eu ter paciência no trabalho. Com tranquilidade e fé tudo voltará ao normal. E esta é uma coisa que nunca tive, doutor: fé. Lembro que havia uma moça no orfanato que gostava de me contar histórias antes de dormir. Era uma boa pessoa e foi a única que me deu atenção depois que mamãe me deixou. Um dia ela se casou ou conseguiu outro emprego e nunca mais apareceu. Mas foi ela quem disse: tenha fé, sua mãe ou alguém vem te buscar… Mas eu não sabia como era ter fé e talvez por isso mamãe não tenha voltado e ninguém me adotou e tarde da noite eu ficava acordado olhando para o teto daquele lugar, e a noite marca e destrói, a noite é um libertino que fode com as nossas almas, doutor, e aquele era um teto tão alto quanto um céu sem estrelas, um céu infinito feito apenas de breu e de solidão, e eu olhava para ele tentando entender o porquê dela ter me deixado lá, lembrando do seu rosto, da lágrima que descia, de quando acenou e saiu apressada, sem olhar para trás. Por onde andará? Quem sabe ainda viva, em um outro lugar… Sinto falta do emprego na fábrica, do barulho, de chegar antes que todo mundo e de me pedirem para fazer algum serviço… De qualquer maneira, eu estava lá, no ônibus, e por um instante pensei em conversar um pouco mais com aquela mulher, pensei em perguntar seu nome, se achava que choveria mais tarde ou qualquer bobagem assim, mas não perguntei. Não demorou muito, ela se levantou, puxou a cordinha, disse boa sorte e desceu. Tudo tão rápido que só resolvi saltar quando o ônibus já ia longe. E então comecei a correr. Corri muito, corri desesperadamente, corri como se tudo dependesse daquilo, de vê-la outra vez. E eu a vi: atravessando a rua, com a calça jeans desbotada, a blusa vermelha com listras brancas, o cabelo loiro, a caminhar em direção a um prédio de tijolinhos. Era um prédio velho e pequeno, mas enxerguei charme e beleza nele. Quase um minuto se passou, a luz do apartamento do segundo andar foi acesa e ela entrou e se sentou sobre o pequeno sofá que havia na sala, tirando os sapatos e estirando as pernas. Pensei que era muito possível que ela gostasse de me ver novamente. Mas o que diria? Ela se levantou, foi até o quarto, acendeu a luz e tirou a roupa, ficando apenas de calcinha e sutiã. Passou a se olhar no espelho do guarda roupa, num instante de perfil e, no outro, segurando os seios e os levantando. Enfiou uma das mãos por dentro da calcinha. Eu não sabia o que viria a seguir. A intimidade é a nossa sentença. Segundos depois, entretanto, ela parou com aquilo e entrou no banheiro. Ficou por lá uns bons vinte minutos. Quando reapareceu, estava envolvida numa toalha. Foi nessa hora que resolvi ir até lá. Entrei no prédio, não havia ninguém na portaria, subi os degraus e bati na porta. Eu estava ansioso, sentia que era o que tinha que fazer. Mas o que aconteceu quando a porta se abriu, infelizmente, não foi nada do que imaginei. O rosto dela já não parecia doce e amável como quando conversamos no ônibus, sua tez empalideceu, seus olhos se arregalaram. E ela então me perguntou, andando para trás, com a voz assim meio tremida, o que você está fazendo aqui?! Eu mostrei a nota de cinquenta reais em minha mão. Eu disse, é sua, vi quando caiu. Falei lentamente, sorrindo, para ela se acalmar. Porque as pessoas gostam muito de deduzir e acabam pensando em coisas que não têm nada a ver. Quase sempre se exagera. E acho que foi mesmo o que aconteceu.  Ela de repente estava com os lábios crispados, com os olhos bem abertões, parecendo olho de cavalo, e tentou fechar a porta com força.  Eu coloquei o pé na frente, dizendo que só queria devolver o dinheiro, que já ia embora. Mas ela correu para dentro do apartamento e começou a gritar. Foram gritos horríveis aqueles, gritos longos, altos, que pareciam não acabar mais. Pra quê aquilo tudo? No fundo, digo ao senhor, as pessoas não são de confiança. Culpam os outros pelas próprias escolhas e, se deixarmos, podem mesmo nos arruinar. Eu pensava nisso quando dei o primeiro murro. E, depois dele, dei outro, depois outro e mais outro. A verdade, doutor, é que eu não consegui mais parar, mesmo quando ela deixou de gritar e virou uma massa de carne, sangue e cabelos loiros, mesmo quando senti que não respirava mais. Quando vocês chegaram, mais de uma hora depois, o dente tinha começado a doer outra vez e eu estava deitado ao seu lado no chão, com o braço cruzado sobre o seu peito, abraçando-a. Do mesmo jeito, doutor, que eu, quando olhava para o teto lá do orfanato, imaginava deitar com mamãe.

Rodrigo Melo é autor de “o sangue que corre nas veias” e “jogando dardos sem mirar o alvo”, livros de histórias curtas. Lançará, no final do ano, o seu primeiro romance.

 

 

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102ª Leva - 05/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Susanna Busato

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

 

Cindida no tempo resgato o meu rumo no passo a descoberto das pegadas sempre invisíveis que faço nas pedras. Caminho rota entre as rotas que traço louca no papel de riscos: linhas sobrepostas às margens violadas pelas letras, sempre enormes, abastadas de esperança. Cindida pelo tempo do fim gasto meu rumo descompassado às margens frescas da próxima folha de papel, namorando a tenra superfície de pedras invisíveis para as pegadas dos trilhos que me levarão a você.

 

 

 

***

 

 

 

Socorro

 

Ao menos uma fresta,
um ar, uma réstia,
uma salva de promessas.
Qualquer coisa qualquer
que salve bem
depressa.

 

 

 

***

 

 

 

A aguda serpente finca e dobra o corpo dormente nas tramas da pele fina e branca, linho de algodão, leve no vento e no roçar da fria camada serpentina da agulha que se finca a cada hiato da pele, dócil trama que plasma o leve e a aspereza do toque e se entrega à aguda e violenta investida do seu roteiro de estradas e trilhos a céu aberto.

 

 

 

***

 

 

 

on part

 

 

part
ida

à espera e à deriva
como um lenço ao longe
a cena assina

sino úmido
lusco-fusco
som pregueado no branco
punho abrupto de pedra

réstia de tempo
que se engole
sem pressa

 

 

 

***

 

 

 

Éramos nós em cada ponta do lençol. Nas dobras, as sobras de nossa pele. O dia ia longo e o branco do tecido cada vez menor. O gesto repetia o compasso. Olhares de corpo. De um avança o segundo que retorna. Lento o lance das mãos. Leve o lençol entre os dedos. Nas dobras feitas, o tecido de nós.

 

Susanna Busato é uma gaivota no rastro do rasgo roto da palavra. Com a poesia na rota da vida, constrói seus voos e só consegue aterrissar nas pedras, única terra firme que lhe oferece a verdade de que tudo é fingimento até mesmo a realidade. Deixou suas pegadas no livro “Corpos em Cena”, Patuá, 2013, que lhe valeu figurar como finalista do Prêmio Jabuti de Poesia em 2014. Deixou rastros em outras terras como nas páginas da Revista Cult, Revista Brasileiros e nas revistas eletrônicas  Zunái, dEsEnrEdoS e Aliás.