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112ª Leva - 06/2016 Gramofone

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Por Larissa Mendes

 

WADO – IVETE

 

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Oswaldo Schlikmann Filho – vulgo Wado – leva mesmo a sério sua bússola errante do não se repetir. Depois de transitar recentemente pelo rock (1977), pela MPB (Vazio Tropical) e até mesmo pelo funk carioca (Samba 808), chegou a vez de dissecar um dos gêneros mais controversos e alvo de preconceito no país: o axé. Lançado em julho, o nono trabalho de Wado – intitulado Ivete – se propõe a “esmiuçar o ritmo e vasculhar os guetos” baianos. Porém, nem tudo são abadás e vogais. O álbum faz link com sua obra Atlântico Negro (2009), o título brinca de maneira simpática com a “musa intocada da empreitada” e tem como referência sonora os primeiros discos de Moraes Moreira e Luiz Caldas, nas origens do gênero, o “axé de raiz”, com letras de cunho político e social.

Alabama (sangue nas folhas, sangue da raiz/flutua em pleno ar, em tudo nada diz), primeiro single do álbum é uma parceria com Thiago Silva (Sorriso Maroto) e tem como inspiração Strange Fruit, gravada por Billie Holiday – e por tantas outras divas – e aborda a situação dos negros enforcados em plantações norte-americanas. A força de Alabama contrasta com a doçura quase didática de Terra Antiga/Jesus é Palestino, com a inserção de Ralé, da Timbalada, e figuraria tranquilamente nos projetos de Adriana Partimpim. Já em Um Passo à Frente, talvez a faixa mais alegórica do álbum – releitura da canção de Moreno Veloso –, até se pode imaginar Wado participando do trio elétrico de Ivete Sangalo, arrastando o bloco da cantora no circuito Barra-Ondina. As guitarras à lá Asa de Águia de Sexo (atira teu corpo sobre o meu/mais de cem, mais de mil vezes), também em companhia de Thiago Silva e de Você Não Vem (leva todo o teu desejo/a dor de sempre ser saudade/leva tudo, teu desprezo/as coisas são e parte as partes), ao lado de Momo e Marcelo Camelo – e suas levadas de bilhetes amorosos incompletos – garantem os melhores momentos do álbum.

 

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Wado / Foto: Alzir Lima

 

Samba de Amor, como o próprio nome sugere, é mais um típico e agradável sambinha composto com Alvinho Lancellotti e Momo. Os batuques e os orixás de Mistério (não sei se é dor/dói de apartar/sinto de um jeito/não sei contar), parceria com Zeca Baleiro, desembocam na regravação de Filhos de Gandhi, composição de Gilberto Gil, de 1975. As incertezas de Amanheceu, “como um rifle em celibato, como um louco em desacato” traz nos samples alusão ao massacre escolar de Columbine, de 1999, tão bem retratado no cinema por Michael Moore e Gus Van Sant, respectivamente em Tiros em Columbine (2002) e Elephant (2003). Nós (você, norte da existência/você, o amor dos dias) – que bem poderia compor Vazio Tropical –, e seus belíssimos versos quase à capela, também co-autoria de Baleiro, encerram o álbum arrematando todas as declarações de amor suspensas em outros carnavais.

Mais uma vez o mutante radicado em Maceió, Wado, [re]visita um ritmo e imprime sua marca. No caso do polêmico axé, jamais ele soou jocoso. Ao contrário, resgatou a essência do ritmo e sua verve percussiva. Produzido (ou feito, como prefere dizer) pelo próprio artista e lançado de forma independente, Ivete está disponível para download em seu site e em todas as plataformas de streaming. Aliás, sua obra completa (9 álbuns) encontra-se acessível para download. Para meados de setembro, o músico planeja a gravação de seu primeiro DVD, em comemoração aos 15 anos de carreira. A micareta poética de Wado está pronta para tirar o pé do chão.

 

Em terra de Ivete, Larissa Mendes faz uma colheita [in]feliz.

 

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111ª Leva - 05/2016 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

CRIOLO – AINDA HÁ TEMPO

 

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O messias do Grajaú está de volta para revigorar seu primeiro “sermão da periferia”. Lançado há 10 anos, com distribuição de pífias 500 cópias e repercussão reservada à orbe hip-hop, Ainda Há Tempo (2006) – primeiro álbum de Criolo (ainda Doido) – ganhou uma versão redux (apresenta apenas 8 das 22 faixas originais) em maio, pelo selo Oloko Records. O que poderia ser tão somente uma reedição remasterizada de um dos registros mais expressivos do rap nacional tornou-se uma nova versão – ainda que diminuta – que carrega o suprassumo do álbum de outrora. Se o rapper economizou no número de canções e na divisão dos vocais (há apenas a participação de Rael), abusou nas parcerias técnicas: cada faixa é assinada por um produtor diferente, o que, de certa forma, garante um frescor ao disco, novamente sob supervisão derradeira de Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral.

Como diz Criolo ao final de Tô Pra Ver: “2016. Eu escrevi essas músicas há 15 anos atrás e nada mudou, Senhor (…)”. Além dos beats, pouco mudou nesta versão compacta de Ainda Há Tempo. E talvez seja este o intuito: simplesmente formatar aquela proliferação de vinhetas e argumentos (mesmo que bons) que seriam dissecados em Nó Na Orelha (2011) e Convoque Seu Buda (2014). Sente-se a ausência de algumas canções importantes que ficaram de fora da obra, caso de Rap É Forte, No Sapatinho e Aprendiz. Parafraseando o artista, “o que você quer, nem sempre condiz com que o outro sente” [necessidade de expressar].

É o Teste (more aonde for/viva o que viver/seja um homem/e mantenha a sua postura), repaginada por Nave, abre o álbum com um discurso positivo diante das desventuras cotidianas, comprovando que “sobreviver é só pros fortes”. Na sequência, Chuva Ácida (peixes mutantes invadindo o congresso/vomitando poluentes com o logotipo impresso/B e R, quem é do mangue não esquece/as vítimas perecem, as famílias enlouquecem), revitalizada por Sala 70, talvez seja a melhor canção do remake, fazendo jus a sua atualização (originalmente composta por Criolo para um concurso sobre meio ambiente) traz referências – em forma de pequenos depoimentos – ao desastre ambiental da cidade de Mariana (MG). Enquanto o reggae-rap Tô Pra Ver (tô pra ver um daqui sucumbir/você pode até sorrir mas no final vai chorar) tem a produção de Grou e repete a participação de Rael (que na primeira versão do álbum ainda era Da Rima), Bréaco (só pode falar de vida quem vive/só pode falar de sofrimento quem sofre/só pode falar de amor quem ama/só pode falar de flow quem desenvolve), produção de Deryck Cabrera, manteve o astral original através de uma bateria eletrônica marcante.

 

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DJ Marco, Criolo e DJ DanDan / Foto: divulgação

 

Em Até Me Emocionei (então, pra falar do que sinto cantei/cantei, me expus e até me emocionei), revigorada por Sem Grana – onde Ganjaman assume os backing-vocals –, Criolo explica por que “o homem é um animal que está sempre em conflito com a mente”. Em contrapartida, a sempre empolgante Demorô, produzida desta vez por Papatinho, perdeu a potência, tanto da versão original quanto da registrada no CD/DVD Criolo & EmicidaAo Vivo (2013), marcada por um vigoroso solo de guitarra de Guilherme Held. O mesmo aconteceu com a pró-AA Vasilhame (o governo libera porque lucra com isso/e a gente toma cachaça até no aniversário de Cristo) – presente no CD Criolo Doido: Live in SP (2008) –, recriada pela dupla Tropkilazz, ponto alto em vários shows do artista. Se a versão submergiu na empolgação, ganhou no politicamente correto. Originalmente, certos versos diziam: “Os travecos tão aí, oh! Alguém vai se iludir!”. Ao compreender o sentido pejorativo do termo, o MC admitiu a imaturidade da letra e resolveu alterá-la para a palavra “universo”. A propósito, Criolo e DJ DanDan aproveitaram seu último show no festival João Rock, em Ribeirão Preto (SP), para convidar o público a condenar a tríade do preconceito: racismo, machismo e homofobia. Por fim, a homônima Ainda Há Tempo (as pessoas não são más, mano/elas só estão perdidas), primeiro single liberado, quase cantado à capela, produzido por Ganjaman e Cabral, encerra o álbum em ritmo esperançoso: “não quero ver você triste assim, não. Que a minha música possa te levar amor”.

Concebido inicialmente para celebrar os 10 anos de Ainda Há Tempo, uma vez que o registro nunca teve sequer um show de lançamento ou uma turnê, a ideia ganhou formato físico após o envolvimento de diversos nomes, tais como o do grafiteiro Alexandre Orion, que assina a direção de arte do projeto. Recebido sem muito alarde por fãs e críticos (sempre ávidos por novidades vindas da fonte do rapper, que parece nunca secar), o álbum, como de costume, está disponível para audição e download gratuito no site do artista. É interessante perceber que há uma década a poesia abstrata do profeta do rap já apontava a miséria, o desamor e o consumo de drogas pela bancarrota da humanidade. De fato, quase nada mudou. Ainda há lamento.

 

 

 

Larissa Mendes perde a rima, mas não perde a resenha. Em tempo: tal como o álbum de Criolo, a Diversos Afins também comemora 10 anos de estrada em 2016. Ao contrário, de lá pra cá, muita coisa mudou [para melhor] e o orgulho em contribuir com a causa de Fabrício e Leila só cresce. Parabéns pelas bodas de estanho. Vida longa e levas prósperas.

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110ª Leva - 04/2016 Gramofone

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Por Larissa Mendes

 

BAIA – A FÚRIA DO MAR

 

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Se a publicação de uma obra é um processo semelhante a gerar um filho, Maurício Simão de Moraes – Baia, para os íntimos ou não – é Mr. Catra e não pai de primeira viagem. Explico: lançado em dezembro pela Som Livre, A Fúria do Mar (2015), é fruto da licença-paternidade do músico após o nascimento da primogênita, Dora, hoje com 2 anos. Brincadeiras e exageros à parte, as 13 faixas do sucessor de Com A Certeza De Quem Não Sabe Nada (2013) transitam entre MPB e pop-rock (com um quê nordestino), do baiano radicado no Rio de Janeiro. Entre fraldas, mamadeiras e regravações (pela primeira vez Baia interpreta canções de outros artistas em um álbum solo), o compositor não perde a doce doçura e nem os versos certeiros, seja para falar de amor ou de política. As três faixas lançadas no EP Ladrão Que Rouba Ladrão, ainda em setembro do ano passado, deram uma prévia do que viria a ser seu oitavo registro: o mar até pode estar em fúria, mas Baia está em festa.

A primeira faixa, a homônima A Fúria do Mar (é canoa furada/não tem bóia/nem bote salva-vida/é caso perdido/não tem dó/não dá pé/não tem saída), composição de Gabriel e Pedro Moura, lança o álbum na correnteza, com um balanço peculiar de barco em alto mar, avisando que “quem não tem fé, aprende a rezar”. Se Namoro (fui lá na Igreja pra rezar/pra pedir tudo o que faltou/pra Deus me dar o seu amor/levar daqui a solidão/vou seguir meu caminho) contesta o futuro de uma relação, a poética Muda (a voz a melodia/o amor a vida/o sol o céu do dia/o sal a comida) comprova as inevitáveis mutações do viver. A canção que batiza o EP, o rock Ladrão Que Rouba Ladrão (dizem que eu roubei um banco/saí do caixa com o dinheiro na mão/segui com minha cabeça erguida/fui um ladrão que rouba ladrão) ilustra bem nosso questionável sistema bancário. Enquanto a paternal Dora (bem-vinda à nossa terra/aqui começa a sua história), é uma homenagem ao nascimento da filha, Toda (quero você com teus erros/defeitos, segredos/tua forma de gostar/quero você do teu jeito/porque se eu te quero/eu tenho que te aceitar/toda), da banda Mané Sagaz, possui a tônica poeta-palhaço de Baia, citando de Nietzsche a Glauber Rocha (passando pelos sorvetes Häagen-Dazs).

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Baia se banha nas águas d’A Fúria do Mar / Foto: divulgação

Quanto às versões, os destaques ficam a cargo da sempre contagiante Caio no Suingue (eu tô cantando, você dirigindo/o outro tá rezando, alguns se divertindo/muitos precisando, poucos conseguindo/se todos realizam algo, o mundo segue o seu caminho), sucesso de Pedro Luís (& A Parede), lançada originalmente em 1997; Vagabundo Confesso, da banda catarinense Dazaranha, canção de 1998 e de Pode O Céu Cair (pode o céu cair, pode o mundo desabar/no ruim de tudo a gente sempre tem/um bom motivo para sonhar), de Tonho Gebara, guitarrista e amigo de Baia, falecido em 2004 e já homenageado na canção Lado Oposto, no álbum ao vivo, No Circo (2009). As reflexões baísticas são expressas no pseudo-baião Tem Fila (a vida passa e essa fila/que não anda/vista de cima/pelas quadras serpentina) que menciona com graça, de banheiro a banco, as aglomerações em linha reta; na emprestada Montanha (eu que não sou só queria ser alguém que/pudesse dizer/quem sou eu que não sou só queria ser/alguém que soubesse dizer) e em Malabar (tudo o que já foi escrito sobre o ser humano/na intenção de tentar lhe compreender/não foi capaz de escapar a tremendos enganos/como querer compreender/tudo o que há entre eu e você).

O álbum encerra com o blues Suíte Bourbon 1407 (e um cartaz exigindo: privatizem a Odebrecht!/o povo anda doido, embrulhado em manchetes/e eu trocando de roupa onde o Diabo se veste/aqui em cima do Moro), inspirada na Operação Lava-Jato, fazendo trocadilho com o juiz Sérgio Moro e citando a empreiteira Odebrecht. Nada mais oportuno para alguém politizado e preocupado com as causas socioeconômicas (vide suas redes sociais) como o artista.

Apesar de assinar apenas 5 canções (Ladrão Que Rouba Ladrão, Dora, Tem Fila, Malabar e Suíte Bourbon 1407) do álbum, todas as outras faixas dialogam com sua obra e ganham uma verve autoral, tal vivacidade e astral impressos pelo músico. Aliás, é difícil identificar quais composições não são de sua autoria, graças à escolha do repertório revisitado – que muito se assemelha com sua poética – e a unidade do trabalho. Em fúria ou na calmaria, nosso híbrido de Raul Seixas com Chico Science permanece com olhos atentos de menino. Agora, um pai-menino. Viva Dora e a República de Baia.

 

Larissa Mendes é misto de fúria do mar com doce doçura.

 

 

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109ª Leva - 03/2016 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

CLARICE FALCÃO – PROBLEMA MEU

 

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Entre malas, gavetas e arquivos, eis que surge uma monocromática Clarice Falcão anunciando que a bagunça organizada da capa de seu novo álbum, Problema Meu (2016), não leva este nome por acaso. Neste cerne de fofura esquematizada, foi necessário que a multifacetada artista abrisse mão do coletivo Porta dos Fundos para dedicar-se exclusivamente à carreira musical. Lançado em fevereiro e produzido pelo festejado Kassin, as 14 faixas de Problema Meu orbitam entre o [des]amor (coincidentemente o romance com Gregório Duvivier chegou ao fim em 2014) e seus derivados, mantendo composições autorais em pequenas construções narrativas que consagraram a cantora em seu álbum de estreia, Monomania (2013). Porém, voz e violão (e ukulele) – sua marca registrada – dão vazão a flertes com outras sonoridades, entre guitarras, sopros e percussões.

O single Irônico (eu gosto de você como quem gosta de um vídeo do YouTube de alguém cantando mal/eu gosto de você como quem gosta de uma celebridade B) abre o álbum em tom carnavalesco de bandinha marcial – como o próprio videoclipe sugere – e ridiculariza o verbo gostar. Se o pop Eu Escolhi Você (eu escolhi você porque/não tinha tanta gente pra ser meu, vê só/que sorte você deu) aponta escassas opções de amor, o rock candidato a hit A Volta do Mecenas (onde foi aquele moço bom da renascença/pai gentil das fábulas, romances e poemas?), composição de Matheus Torreão, clama pelo príncipe encantado a nós prometidas, numa das mais contagiantes faixas do disco. A juvenil Deve Ter Sido Eu (eu já não amo mais você/mas eu ainda odeio essa menina) beira o humor negro e narra o ódio nutrido e as vinganças arquitetadas em pensamento contra a “atual do ex”. Enquanto a verídica Marta – conversa imaginária com a dona de um telefone de número similarmais parece uma esquete do Porta dos Fundos, a melancólica Se Esse Bar Fechar, ainda da safra de Monomania, relata a espera por alguém que não apareceu (impossível não relacionar com O Que Eu Bebi, faixa do álbum anterior). Na sequência, Eu Sou Problema Meu (quando eu disse sim aquela hora/eu disse sim aquela hora/eu não disse sim por toda a eternidade) encerra o primeiro bloco de canções enfatizando que ninguém é propriedade privada.

 

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Clarice Falcão / Foto: divulgação

 

Àqueles que reclamaram a ausência do cover de Survivor clássico do Destiny’s Child que defende os direitos da mulher lançada no canal de Clarice no YouTube, eis a sua redenção: L’amour Toujours (I’ll Fly With You), sucesso nas pistas no início do milênio, entoada pelo DJ italiano Gigi D’Agostino, surge deliciosamente irreconhecível na versão acústica da cantora. Na sequência, a fatídica disco Como É Que Eu Vou Dizer Que Acabou? destaca a dificuldade de se colocar um ponto final em uma relação amorosa e os rodeios que fazemos a nós mesmos. Enquanto Duet é uma bossa nova composta em inglês que supostamente deveria ser um dueto, porém a segunda voz abandonou a gravação –, Banho de Piscina é uma canção brega composta antigamente por seu pai, o dramaturgo João Falcão, e lembra Zéu Britto em Soraya Queimada. Vinheta (eu checo as mensagens sete, oito, vinte vezes/só passou cinco minutos/eu senti passar três meses), faixa de pouco mais de um minuto, revela a agonia das respostas que não chegam para desaguar na feminista Vagabunda (toma um chopp comigo, vagabunda/que eu sei a vagabunda que eu sou/repara que conexão profunda/de ter compartilhado um mesmo amor). O folk autodepreciativo Clarice (Clarice sempre os mesmos três acordes/olha um si bemol não morde/não precisa poupar dedo) encerra a obra e zomba de suas próprias limitações sonoras.

Em Problema Meu, Clarice mantém a simplicidade em suas composições, porém os arranjos vestem alta costura (mérito ao estilista sonoro Kassin). As letras românticas de outrora dão vazão a versos espirituosos e jocosos (quiçá, rancorosos). Mais ou menos o que fazemos quando amadurecemos e olhamos para trás, satirizando nossa própria [falta de] sorte. Definitivamente a menina Falcão cresceu e passou com desenvoltura pela sempre temida síndrome do segundo álbum. Sem perder a ternura dos seus 26 anos jamais.

 

Larissa Mendes, meio Falcão, meio Lispector.

 

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107ª Leva - 01/2016 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

LINIKER – CRU

 

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Verdade é uma palavra que, de tão aborrecida, muitos têm medo de pronunciar. Há quem relativize seu conceito por temor ou respeito a opiniões contrárias. Por seu curso, tem também quem faça uso dela por vias deterministas, rio que desemboca no pantanoso terreno do absoluto. Afirmar que uma verdade é universal, por exemplo, é assinar um papel em branco, convite a se perder no labirinto da insensatez.

Falemos, pois, da capacidade que uma pessoa tem de delinear sua própria identidade com uma noção de verdade que é essencial à sua sobrevivência. Assim o é quando testemunhamos a expressão de um artista como Liniker. Quem o vê pela primeira vez pode tentar imaginar que a apresentação visual com a qual ele se reveste é um mero arranjo cênico de possibilidades. No entanto, há muito mais por trás disso tudo.

Vindo das paragens interioranas paulistas, mais precisamente de Araraquara, Liniker aparece para o mundo tal como gostaria de ser visto, um sujeito sem definições de gênero. Nos palcos, veste-se com trajes femininos, usa batom e deixa brotar solto todo o vigor e precisão que emanam de sua voz.  Dentro dessa representação estética, não compõe um personagem, pois, do mesmo modo que se traja nos shows, assim também é seu cotidiano.

Sua aparência não deixa de ser um importante fator de discurso e de afirmação, mas, em se tratando de música, é relevante destacar que Liniker possui um talento tanto voltado para o canto quanto para a composição. A voz é marcante, com uma colocação discretamente rouca, e vem apoiada por letras autorais que orbitam em temas como o amor e por perspectivas de identidade e gênero.

Liniker Fotodivulgação
Liniker / Foto: divulgação

O caminho escolhido pelo artista em Cru, seu EP de estreia, é o da black music, com pitadas clássicas de funk e soul. São três faixas que ficam como um grande prenúncio para o que poderá ser a carreira dele, verdadeiro aperitivo. Assim sendo, Liniker não é promessa, e sim realidade. E, pelo visto, ainda tem uma gama de coisas a nos oferecer nessa estrada que se mostra longeva e fértil.

Carro-chefe do disco, Zero é uma canção que nos toma de assalto. Vem com uma suavidade soul ao mesmo tempo em que perpassa as alamedas do desejo avassalador. O saldo do amor ali cantado é crer que o coração é uma espécie de cofre com memória, onde o que é belo pode ser devidamente acolhido e guardado.

Em Louise Du Brésil, uma pegada funk setentista toma conta dos espaços. É uma celebração de vida muito bem arranjada com elementos de nossa brasilidade. Já Caeu, a outra faixa do disco, atravessa os cenários das relações numa perspectiva imagética bem interessante, desenrolando um enredo plausível de sensações.

O trabalho tem um cuidado especial com os arranjos, sobretudo no que se refere ao uso de sopros. Reunindo a atmosfera vocal com as potencialidades sonoras dos instrumentos, Cru é um disco que pontua um universo todo marcado pela delicadeza.

Num momento em que as discussões sobre questões de gênero andam a boiar num grosso caldo fervente, a arte sempre aponta caminhos de libertação. Segui-los é imperativo porque a verdade de cada um confere sentidos às coisas. Tudo aquilo que nos envolve em aparência pode ser uma fabulosa ferramenta de comunicação, não apenas uma banal casca.

 

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

SILVA – JÚPITER

 

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Se em Claridão (2012) eu já afirmava que o capixaba Lúcio da Silva Souza não pretendia soar elitista, apesar de sua formação erudita, é em seu terceiro álbum, Júpiter, que minha “profecia” se confirma. Lançado no Dia da Consciência Negra (20 de novembro), novamente pelo selo SLAP (Som Livre), SILVA recolhe seus sintetizadores, despe-se de preconceitos e apresenta um “planeta” pop e acessível a todos seus habitantes. Algo até certo ponto esperado depois de seu flerte com Lulu Santos & Don L (pseudônimo do rapper Gabriel Linhares Rocha) na canção Noite, já com alguns lampejos espaciais, lançada no primeiro semestre. Nas 11 faixas, todas assinadas por SILVA e pelo irmão Lucas, exceto a regravação de Marina, o músico gravita mais romântico do que nunca, versando sobre o amor e seus contratempos, porém não teme em explorar/conquistar novos ritmos e públicos. Concebido na estrada, durante a turnê de Vista Pro Mar (2014), entre voos e quartos de hotéis, o artista revela-se minimalista e atual, como confessa em carta divulgada em sua página do Facebook.

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SILVA em performance do clipe Eu Sempre Quis, primeiro single de Júpiter / Foto: divulgação.

Júpiter (Júpiter pode ser começar de novo/se por lá não houver esse mesmo povo /que só quer controlar o que a gente quer/e o que a gente só quer/é amar), faixa-título, convida o ouvinte a fugir para o maior planeta do Sistema Solar, talvez numa alusão à mudança sonora que o álbum se propõe. A faixa conselheiro-amorosa Sufoco (ninguém é de ninguém/pare pra pensar/o amor pra existir têm que respirar) adverte que é uma canção sobre desapego e não sobre desamor. Eu Sempre Quis (querer não é amar/mas é sempre um bom começo/amor, eu sempre quis/desde quando te conheço) – primeiro single lançado é uma balada tão envolvente quanto a malemolência de SILVA e sua dancinha no videoclipe da canção. Feliz e Ponto surge com um suingue provavelmente herdado da viagem do músico à Luanda (que rendeu o clipe de Volta, canção de Vista Pro Mar e um curta-metragem denominado Angola, narrado pelo artista e voltado ao ritmo kuduro). Io, espécie de vinheta instrumental do álbum, confirma todo o fascínio de SILVA pela música clássica.

O segundo bloco do álbum tem início com as reflexivas Sou Desse Jeito (um dia eu percebi que era o meu jeito/tão diferente assim do seu conceito/é o que existe em mim/não é defeito) e Nas Horas (a gente faz tudo ser real/você e eu noite a clarear/há quem duvide do verbo amar/eu já rezo o verbo todo). Na sequência, Se Ela Volta (se o nosso amor foi mais que amizade/vou te ouvir abrir o portão), talvez seja interpretada como a continuação da letra de Janeiro, canção do álbum anterior que abordava o amor platônico entre amigos. Um dos pontos altos do disco fica a cargo de Marina, regravação do clássico samba-canção de 1947, de Dorival Caymmi, que ganha uma roupagem eletrônica, refletindo o SILVA que conquistou a todos em Claridão. A sensual Deixa Eu Te Falar (eu tenho tanta coisa pra dizer/habitar você/é meu plano A) dá a deixa para Notícias (eu vou seguir pra onde houver ar puro/junto de uma gente que quer encontrar/algum lugar, um rumo/se eu ficar aqui eu vou desatinar), que encerra a obra em ritmo cadenciado de secretas boas novas (quando eu chegar/não vou mandar notícias).

Em seus 36 minutos de execução, Júpiter surge como uma obra minimalista, visceral e libertadora, onde o multi-instrumentista supera a timidez e dá vazão a toda sua verve de intérprete, algo também evidenciado na série de shows intitulados “SILVA canta Marisa Monte”. Misturando pop, eletrônico, MPB e R&B, SILVA mostra sua maturidade simplificando arranjos e samples e versando sobre o amor e suas agruras sem soar piegas. E como enfatiza a mesma carta publicada no Facebook, Júpiter, “trata-se não de um espaço, lugar ou planeta definido, e sim uma alegoria: é um lugar onde o amor tem a possibilidade de vencer, sem adiamentos ou desculpas”. Boa viagem a todos nós.

 

 

 

Larissa Mendes é sagitariana, também regida por Júpiter.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

CAIM – CIÊNCIA, ARTE, IDEOLOGIA E MÚSICA

 

Capa do disco - Caim

 

A canção pede passagem para sondagens da alma. Vem com a suavidade de um vento estrangeiro, desses que percorrem os mais inusitados lugares como se estivesse à procura de testemunhas para seus imprevisíveis arroubos. E nos rendemos aos seus caprichos indomáveis. Quem canta entoa hinos que cruzam espaços, tempos e paisagens intimistas. Como mensurar sentimentos que brotam dessas escutas?

A voz desse mesmo canto fala de ternuras, inquietudes, perplexidades, belezas, serenidade. Convive com as artimanhas do amor, enfrenta as contendas do ser, questiona o tecido social, sugere poesia. Por trás da canção, a tradução de tantas difusas sensações aqui já descritas vem caracterizada pela performance de Achiles Neto, o condutor das sonoridades amalgamadas no trabalho da banda Caim.

Mas eis que Achiles não está sozinho. A Caim é levada a cabo pela sua parceria com o músico Marcus Marinho. O resultado dessa união de ideias e sentimentos está refletido no trabalho de estreia da banda, o disco Ciência, Arte, Ideologia e Música. Diga-se de passagem, o nome de batismo do álbum é adequado porque sugere uma amplitude de horizontes, olhares devotados para um bojo de questões nem um pouco monotemáticas.

Os recursos vocais de Achiles Neto são, sem dúvida, um primeiro e imediato atrativo do disco. Há não somente uma intensidade vocal presente nele, mas principalmente uma extrema capacidade de mergulhar nas canções e extrair delas uma atitude poética, verdadeiro sopro de vida. Nessa representação sensível de cenários humanos, Achiles conduz seu canto com personalidade própria, tornando o ambiente de escutas algo instigante e sedutor.

Achiles Neto e Marcus Marinho - Foto - Arthur Garcia
Achiles Neto e Marcus Marinho / Foto: Arthur Garcia

Ciência, Arte, Ideologia e Música é um rico mosaico de imagens transposto para a linguagem musical. Há de um tudo ali a refletir um traço essencialmente brasileiro e que, no entanto, se expande para um sentido universal, tendo em vista a percepção de que a música desconhece fronteiras delimitadas. Com seus acertados trajetos, a Caim transita por gêneros como o samba, reggae, blues, rock, dentre outros elementos mais. A presença marcante do violão de Marcus Marinho incrementa o sentido de brasilidade presente no álbum, dialogando com recursos que tanto podem ser tomados de um ponto de vista local quanto global. Para o conjunto harmonioso da obra, acrescente-se a bateria de Júnior Andrade e o baixo de Tiago Menezes.

Pela alta qualidade das composições e arranjos não é algo fácil escolher canções que predominem. Mesmo assim, salta aos olhos, ou melhor, aos ouvidos, uma música como Disfarce, canção que fala do amor entre dois homens com uma rara sutileza. Sob o efeito dos ímpetos amorosos, também há espaço para as constatações presentes em Quem Ama e Dei Conta. Na trama social que nos envolve cotidianamente, canções como João do BNH e Amoral evidenciam tons equilibradamente irônicos e críticos.

Um caráter regionalista povoa os cenários de uma composição como Cocoa. Nela, todo um sentimento voltado para as reminiscências dos opulentos tempos do cacau no sul da Bahia explicita tensões e contrastes sociais. Acrescente-se aqui o fato de que os integrantes da banda são baianos e trazem em si uma forte referência de uma alma nordestina.

Caim - Foto - Arthur Garcia
Caim / Foto: Arthur Garcia

É relevante perceber que músicas como Agonília e Vestido de Caim denotam um valioso viés poético. Com isso, um sensível olhar sobre os lampejos da existência mostra que viver é ultrapassar as barreiras da contemplação, dissecando vestígios e sentimentos ocultos, prenhes de uma libertação.

No terreno da apreensão das subjetividades, a musicalidade da Caim exalta hinos de liberdade, tanto no que se refere à consciência quanto a tudo aquilo que demanda um entendimento delicado do ser/estar no mundo. Esse ideal libertador é algo inalienável e não está sob o jugo de quem quer que seja. Não se submete a obscuros acordos e tampouco obedece a ritos moralistas. Expande a vida para além dos seus muros. Assim, podemos mais do que supomos.

 

 

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

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104ª Leva - 07/2015 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

BEIRUT – NO NO NO

Beirut

Algumas canções parecem ter o dom de transportar-nos para lugares tão agradáveis que sequer devem existir. Uma sonoridade que ilustra bem tal sentimento é composta pela Beirut, banda do Novo México (EUA) que ganhou o mundo com o hit Elephant Gun – e  os brasileiros com a música de abertura da minissérie Capitu (2008), de Luiz Fernando Carvalho. A aura de orquestra de world music combinada a elementos de folk do Leste Europeu difundiu uma espécie de erudição acessível a todos os ouvidos, desde o álbum de estreia, Gulag Orkestar (2006). Quase uma década depois, o grupo liderado pelo multi-instrumentista Zach Condon – que já interpretou O Leãozinho, de Caetano Veloso, em performances de outrora – lança No No No (2015), seu quarto álbum de estúdio. Após problemas pessoais, cancelamentos de apresentações, bloqueio criativo e um jejum oficial de 4 anos, Condon e sua trupe permitem-se dar vazão a um descompromisso pós-inverno que setembro anuncia cá dos trópicos.

Gibraltar e sua percussão de teclado-adesivo abrem os trabalhos indicando que o Beirut, por ora, posiciona-se naturalmente entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico, dividido pelos contrastes sociais, sonoros e afetivos de Europa e África, tal qual o acidente geográfico que batiza a canção. E sim, apesar de todas as disparidades da vida, “everything should be fine”. No No No, primeiro single lançado ainda em junho, passeia por toda a veemência instrumental que consagrou a banda, porém de forma jocosa e reincidente, como o próprio videoclipe propõe. At Once [re]assume o ar melancólico e os metais tradicionais utilizados pelo grupo no álbum The Flying Club Cup (2007), questionando: “how do you know/at once/at last/at all?”.

Beirut
Beirut, sexteto liderado por Zach Condon / Foto: divulgação

 

O segundo bloco inicia com a levada setentista e esperançosa de August Holland (no, I lost the ramparts and now/I want to send back the sound), que em alguns momentos nos remetem a Paul McCartney, para em seguida desaguar na instrumental As Needed, que utiliza violinos como base – e como o título sugere, “era necessária” para a coesão da obra. Perth, a canção mais pop do álbum, tem um suingue arrebatador: impossível não bater o pé, balançar a cabeça, estalar os dedos, cantarolar ou sair dançando. Não estranhe se ela tornar-se a trilha sonora da sua próxima viagem ou “see you in an hour, an hour back home”. A terceira e última leva de canções traz um quê psicodélico na enxuta Pacheco (how long? how long? how long? just so I know), enquanto Fener (farol, em turco, terra de sua nova musa inspiradora), faixa mais eletrônica do disco, contrasta com So Allowed (how we began to see things?), que encerra a obra no compasso de valsa, suave como um sopro de jasmim nas noites quentes de primavera.

Em suma, o novo registro da banda soa com certa distância de seu antecessor, o consistente The Rip Tide (2011) e apresenta-se menos folclórico e nostálgico que todas as obras anteriores. Não à tôa, a capa estampa uma árvore carregada de flores e uma paleta candy color. Se as 9 faixas inéditas de No No No – que cronometram menos de meia hora – não agradaram completamente os críticos e fãs conservadores da banda, acertaram em cheio o coração dos indies ávidos por canções impregnadas de sensações e simbolismos. Assim como seu homônimo árabe, o Beirut ressurge menos condimentado, porém tão aprazível quanto sua receita tradicional. Que seus ouvidos gulosos apreciem a obra sem moderação alguma.

 

Larissa Mendes diz ‘no no no’ a toda música ruim.

 

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103ª Leva - 06/2015 Gramofone

Gramofone

Por Gustavo Rios

 

A FLAUTA VÉRTEBRA – A FLAUTA VÉRTEBRA

 

Flauta Vértebra

 

Eu suspeitaria de imediato só com a simples menção do nome da banda: teria algo de pernóstico, e talvez me trouxesse de chofre a imagem batida de jovens barbados – as mulheres teriam rostos pálidos -, meio tristonhos e bem antipáticos em seus ideais de arte. Do tipo que força a barra com letras difíceis. Seria algo excessivamente intelectual e vazio; uma coisa estranha, monótona.

A lógica para isso é simples: dentro desse meu novo mundo (o dos quarenta e tantos), supor que algumas pessoas pensaram no Maiakovski para nomear a própria banda seria motivo suficiente para me manter afastado. E não queimar óleo. Nem pestanas. E nem digo isso pelo poeta, nem pelo poema – um achado, para mim que não conhecia o texto. Mas pela pretensão.

A Flauta Vértebra, além de ser o nome de um poema do Vladimir, é basicamente uma banda baiana, da capital, com cerca de sete anos de existência com interrupções. Formada por cinco jovens que estão na batalha para mostrar sua obra – aquele trabalho espartano de convencer um público escasso numa cidade de chances escassas – notadamente diferente. E de extrema qualidade. Que começa a ganhar projeção neste Ep produzido pelo sempre irrequieto Irmão Carlos (líder da banda Irmão Carlos e O Catado e mentor do Tv Caverna, do Youtube) e prensado pela parceria Bigbross Records / Brechó Discos.

Além de saber que eles não vieram para serem cópias das cópias, nem muito menos prisioneiros de conceitos obtusos do que pode ser música original, A Flauta Vértebra possui a leveza de quem não se incomoda com a responsabilidade de ser, atualmente, uma das coisas mais legais e interessantes que estão acontecendo por aqui. Não por não saberem onde pisam. Mas pela percepção clara de que assim o trabalho flui. E não só em termos de musicalidade, mas também em relação às letras belamente interpretadas pela vocalista – figura central do projeto, uma espécie de guia, de ponto de equilíbrio -, dotadas de inesperada maturidade. Com o peso e a fúria de belos poemas, perfeitamente encaixados nos arranjos.

 

A Flauta Vértebra / Foto: Gether Ferreira

 

O que pensar quando na faixa “Renato” nos deparamos com coisas tais como: “Num momento eu me sinto bicho, / É tão estranho / Desencantar a nossa história / É falsa a claridade / Não foi sonho / Não consegui dormir / Não vê que os que dormem são reféns” e, sem saber o que concluir, resolvemos seguir em frente?  O que de fato podemos supor quando percebemos que em “Revolução (parte 1)” estamos diante de uma das mais interessantes, pessoais e francas abordagens sobre o que fizemos e deixamos de fazer em junho de 2013, quando as ruas foram tomadas em nome de algo – enquanto a PM desencavava seu estoque de lacrimogênio e das suas bombas de efeito “moral”?

O que dizer, afinal de contas, da guitarra que dá inicio à leveza da faixa “Polaroid”, resultando na combinação belíssima entre o teclado, o baixo e a bateria de Breno Pires (bastante competente e talentoso), numa espécie de celebração ao que pode ser legítimo, arte, música? (“Fotos instantâneas trazem doses espontâneas de ilusão / E ao mesmo tempo a lente mostra a gente / O que há de mau e o que há de bom / Eu quero mesmo é seguir viagem na canção / Ah, e já é dia no Japão / Tenha um bom dia então”). E de “Epílogo Atroz” que, além de ser um rock divertido e bem executado, contém a surpresa de frases como: “A festa acabou / A porcelana que encobria o seu rosto se quebrou / Esse suor gelado que escorre dos meus poros / Também te atacou / As cortinas se fecharam, meu bem / Ninguém recita seus idílios, suas trovas, seus sonetos / Ninguém engana ninguém / Ninguém engana ninguém”?

Sohl (vocal), Carlos Vilas Boas (guitarra), André Rodrigues (baixo), Ricardo Vilas Boas (teclado) e Tita Gracille (a mais nova baterista, no lugar do já citado Breno Pires) não refugam as próprias influências. Que podem muito confundir a todos, pelo simples fato de serem bem aproveitadas e servirem como lastro para uma musicalidade própria, uma postura nova diante de tudo – e não como cópia da cópia da cópia, se vendendo como a última novidade na grande feira das obviedades. Podemos perceber algo dos Secos e Molhados. Arranjos que lembram alguma coisa do Tropicalismo, passando pelo rock classicão e pela fatia mais interessante de toda a nossa MPB, atual e antiga.

Podemos dizer que são cinco faixas. Num Ep que vale a pena escutar. São cinco jovens que estão tornando as coisas bem melhores para a música. E que gostam de correr riscos, ainda que seja de uma maneira assombrosamente leve. Para a sorte de todos nós.

 

 

Gustavo Rios é baiano. Autor do livro de contos “Allen Mora no Térreo” (Mariposa Cartonera, 2015), dentre outros.

 

 

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102ª Leva - 05/2015 Gramofone

Gramofone

Por Graccho Braz Peixoto

 

DE VIÉS – MÁRIO MONTAUT

 

 

 

Vivemos tempos nublados, onde não se vê na paisagem um horizonte cordial ou mesmo uma pequena utopia que nos permita repousar do cansaço gerado por conflitos, pelo movimento incessante de eventos de toda natureza, de tanta informação que não temos como absorver, minimamente. Parece que, para além de ideologias e credos, o mundo tornou-se um grande holding de comunidades transnacionais de consumidores, caixa de Pandora de onde as coisas vão se desmanchando no ar, saturado de revoluções.

Mas, se depois do mote vem a glosa, houve algum período de concórdia? Certamente o Tempo diria que não, que tudo dá corpo à História e é fonte para criação; afinal, é da matéria existência que a arte se alimenta. Por isso, cabe aqui lembrar uma frase de Igor Stravinsky: “O fenômeno da música foi-nos dado com o único fim de instituir uma ordem nas coisas, incluindo – e principalmente – uma ordem entre o homem e o tempo”.

Tudo nos leva a crer que o genial compositor russo não se referia somente ao tempo musical, mas também ao pulso musical, que estabelece íntima relação com emissor e receptor. Da música erudita – constituída por harmonia, melodia e ritmo – desviaremos nosso curso para uma pauta mais prosaica, mas não menos ilustre, que inclui a letra, o versejar, quarto e fundamental elemento para falar das canções, essas cápsulas sonoras de breve duração, com poder de nos transportar para um outro tempo, além do tempo realidade. Queremos saudar De Viés, o quarto disco do “cantautor” paulistano Mário Montaut.

Poderíamos abordar o álbum sob vários aspectos, mas seria mais coerente começar pela canção que abre o disco, a que nos deu a deixa para o primeiro parágrafo: Bela Humana Raça. Regravação que deu título ao disco inaugural, lançado em 1999, a canção, que valoriza os substantivos como cores a compor um quadro onírico, simboliza aquele travesseiro surreal em que podemos nos aconchegar, onde os males do mundo são anistiados por uma graça superior e tudo está em ordem.

Entoada de forma circular, o autor puxa o fio de Adão, como a evocar algo primordial para sublimar os senões e nos dar alento: Nada há que nos faça / Represar o mel /Cresça humana raça / Puxe o carrossel. A seguir, tinge de forma delicada – um traço constante e relevante de sua artesania musical – um universo fadado a procriar e dar à luz os desígnios do “fogo imperial”:

Choraminga a goela da menina mantra menta humana usina explode em música cristal / Renova aquarela comichão da primavera gera graça e humor no clã do velho Adão/ Lá na esquina espoca Zoroastro rei menino novo astro meu canário redentor/ Hálito celeste sopra e bate na remela do olho azul que ali no berço despertou…

É quando uma canção, simples, se veste de algo sagrado que emana da força da poesia, substância fundamental para o trabalho de Mário Montaut. Pois, na verdade, se trata aqui do poeta inspirado seduzido pela música. Vale citar a última estrofe, onde assonâncias e aliterações dão um brilho especial às sílabas cantadas:

Carne céu costela vida estala e se constela no barraco da favela e arranha-céu / Flui qual garoa ao sol chuvisco na canoa que flutua no amazônico esplendor / No vale ou montanha na Bahia ou Alemanha criancinhas sentinelas matinais / Bandos de cegonhas mais e mais barrigas prenhas tochas lenhas artimanhas de uma flor.

 

Mário Montaut / Foto: divulgação

 

Diz Ortega Y Gasset em A desumanização da arte: “A relação de nossa mente com as coisas consiste em pensá-las, em formar ideias delas. A rigor, não possuímos do real senão as ideias que dele tenhamos conseguido formar para nós”. Eis aqui um dado essencial para a arte, pois, na verdade, nossas ideias em relação às canções andam um pouco viciadas. Não vivemos mais aquelas várias décadas em que a música popular exercia um protagonismo inquestionável como meio de fruição e veiculação de questões relevantes. E, quando entre a ideia e o resultado há espaço para a singularidade, o artefato é uma boa medida, quando resulta naquilo que achamos de valor.

Castelo, outra faixa do disco, possui melodia barroca e versos de uma imaginação fértil. Fruto de uma forte ligação com o Surrealismo de André Breton e sua trupe, Mário tem gosto pelo mistério, pela sinestesia, a mistura de percepções de natureza sensorial distintas. Em várias situações ao longo das 16 faixas, as melodias servem de apoio para seu espírito lúdico, quase infantil. Resulta que para algumas dessas peças poderíamos cunhar o termo OMNIs – objetos musicais não identificáveis. Elas pousam fora do desenho padrão das canções, pedem ao ouvinte outra audição, uma abertura para se curtir os neologismos de seu projeto de canções que agem no âmbito das sugestões, das fantasias. Vejamos um trecho de Jardins Floríbulos, construída com base em proparoxítonas:

Los Los Los Los / Jardins floríbulos /Dos negros ídolos / E verdes óvulos / Dois doidos índios apaixonados / Há séculos e séculos … Céu e oráculos / Sol e tentáculos… Distinta das outras faixas, De tua lembrança é uma daquelas que emanam da tradição, no caso a tradição das toadas do interior de São Paulo e Minas Gerais. É como se a canção existisse desde sempre, como se já conhecêssemos a melodia, tivéssemos sofrido junto com ela.

O disco tem a colaboração decisiva do músico Roberto Gava. Compositor e produtor, Gava, além de executar violões e guitarras fez trabalho esmerado nos arranjos, tarefa árdua, pois, quando se tem tudo à disposição nos estúdios por meio de programações é mais fácil se perder do que achar o recurso apropriado. De Gava, merecem também destaque os arranjos que fez para as duas vinhetas que mudam repentinamente a sonoridade do cd. Executadas por programações, frases de naipes de metais trazem ao disco uma atmosfera divertida.

Ana Lee, com afinação e voz límpida dá apoio aos vocais, presença que se incorpora à essência do cd. Ricardo Stuani cuida dos ritmos com bateria e percussão. Músico e pesquisador, Stuani foge à regra da percussão como mero apoio. As ilustrações, aquarelas que valorizam os cenários das canções são de Regina Izumi Hasegawa. Todas as faixas são de sua autoria, mas em duas delas Montaut tem como parceiros Vicente Thiné (Álven Jérra) e Ozias Stafuzza (Cadáver Delicado).

Como dito acima, vivemos tempos em que não temos tempo para sorver sem rapidez e fragmentação a miscelânea das linguagens massificadas, a atomização das identidades. Neste cenário, De Viés é um disco de autor nômade, no contexto da miríade de mídias que respiramos. A abundância de discos, de suportes, e o universo infindável de segmentos passageiros são algo, ainda, de difícil análise.

Caudatários daquela que talvez seja a mais rica produção da cultura brasileira – sua música popular (curiosamente apesar de não termos tradição de ensino musical), hoje somos trovadores eletrônicos de pequenas vilinhas digitais. Não estamos começando tudo de novo, mas tudo é ainda muito novo depois que se formou esse supercontinente, a Pangea on-line. Porém, se o espaço público tornou-se o território do consumo, das relações líquidas, uma coisa não se perde: a autonomia do espaço íntimo. E nessas novas aldeias e vilas digitais Mário Montaut segue com seu quarto disco, na terceira margem das canções.

 

 

Graccho Braz Peixoto é Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP (2004), compositor e jornalista. É autor da canção “Noturno” (Coração Alado), em parceria com o compositor e arranjador Caio Silvio Braz. Possui mais de 80 gravações de suas músicas, por diversos intérpretes, no Brasil, Europa e EUA.