senta-te na vida
como no suicídio,
somos feitos de metal febril,
responde-me com a garganta iluminada,
és o espectro nómada
das noites que passo com o tagame,
um Rimbaud cansado
já aos quinze.
existes-me nos becos sinuosos
da mente, não sei se
o teu espírito rodou pela direita ou pela esquerda
mas foi Dante quem te ensinou a subir montanhas.
ainda não consegues compreender
o esforço que Max Brod fez para divulgar Kafka depois da sua morte.
és a penumbra secreta
quando te vigio a morte.
um amigo nas trevas
que percorre caminhos transparentes
onde a solidão se transforma
na música demorada dos teus pensamentos.
***
Há uma luz selvagem
há uma luz selvagem que me percorre o nome
e que enlouquece lentamente
no interior húmido da memória.
o espaço da voz
expande-se até à idade irrespirável dos objectos.
sento-me a observar a praia
e a forma como a água tem medo de se aproximar demasiado
e pousar nas perguntas.
as pálpebras escorrem-me até aos nervos.
há um frio insuportável na passagem escorregadia das horas
no gesso de cada nome,
e um sítio febril onde a inteligência consegue deteriorar
todos os vestígios decifráveis de vida.
cada nome, no interior imóvel do seu ventre,
no sangue fervido das noites,
transporta uma luz pesada,
impronunciável.
***
Cheguei demasiado cedo
ao colo da floresta,
quando falei,
falei extremamente baixo
sobre as mitologias
da linguagem.
se alguém me ouviu
foi porque este oceano pedestre
a que chamas existência
me deixou mergulhar
nas vertigens dos campos.
deixa-me conduzir
esta voz
até à intimidade do céu.
***
Anuncie aqui
anuncie aqui,
temos o que procura,
clientes de existências quentes,
astros estendidos no comprimento da boca.
anuncie aqui a sua solidão
o seu medo assimétrico,
o seu bom coração.
havemos de lhe encontrar
alguém sensível
com ossos audíveis,
botões em zonas estratégicas,
onde pode parar ou começar
os violinos,
as cortinas,
a paisagem.
a cortina paisagística
e um soneto capaz de cobrir a visão.
anuncie aqui
e anuncie ali
quanto mais se explorar
mais hipóteses tem de ganhar.
tudo amadurece,
até o silêncio
aquele que ressoa por esta febre
febre que se arrasta pelo poema,
poema que se verga
para o seu interior de mar.
as rosas brotam
o leite envenenado
dos nossos direitos mais antigos.
o avião transporta o peso
da luz
e a água da manhã atravessa
o brilho abandonado das mulheres
selvagens que te tecem o sono.
amanhã as fábricas recomeçam
a queimar os seus mortos
e deus ressuscitará entretanto.
***
A conquista da Polónia
a tua fala loira desdobra-se em pedaços brancos de pele
esta música goteja com o teu sangue,
o apetite dela do tamanho do meu.
orgulho-me das tuas veias tão salientes,
da altura assustadora dos instintos.
chove por dentro do desejo
e eu quero enterrar-te ainda esta noite,
quando passar o próximo comboio
terei o teu peito molhado,
os teus ossos transpirados
por aquela vontade de viver
mas antes do comboio passar
navegarei na tempestade azul dos teus olhos
e terei os teus lábios gelados
como o norte,
sentir-me-ei a rainha da Polónia.
Sara F. Costa (1987) Natural de Oliveira de Azeméis, Portugal. Licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho e Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem publicadas as obras poéticas: “A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos” (Prêmio Literário Serra da Lousã, Pé de Página editores), Uma Devastação Inteligente (Prêmio Literário João da Silva Correia, Atelier Editorial) e “O Sono Extenso” (Prêmio Literário João da Silva Correia, Âncora Editores).
O uso do “e-mail”, no âmbito da imprensa, trouxe uma alteração na forma de se fazer entrevista. Se antes era feita no calor da hora, no encontro pessoal entre o jornalista e seu alvo, onde pergunta e resposta eram um bate-bola que proporcionava outras colocações inusitadas, muitas vezes surpreendentes, hoje é realizada por e-mail, fato que vai das publicações culturais mais à margem da mídia a revistas como a Veja. Porém, se perde no ritmo da fala, do fraseado mais espontâneo e circunstancial, ganha na cadência do pensamento, da articulação construída para uma resposta mais substancial. No caso do compositor Mário Montaut, a resposta escrita resvala facilmente para digressões e reticências, sugestões, o que, naturalmente, dá à “conversa” um sabor mais incomum. Formado pela Escola de Comunicação e Arte – ECA, da USP, Montaut está divulgando seu quarto CD, “De Viés”, em que põe a rodar a sonoridade própria de suas 16 canções. Neste espaço generoso, Mário fala da morte da canção, de sinestesia, de ídolos, infância, parceiros… É nosso convite para leitura e audição de uma voz singular nesse território que costumamos chamar de MPB.
Mário Montaut / Foto: arquivo pessoal
DA –Vê-se, claramente, em suas letras, uma afinidade com o Surrealismo. Talvez seja algo tão forte que já soa como um processo inconsciente. Refiro-me em especial aos cenários oníricos que emanam das canções, você escrevendo no âmbito das sugestões, o que deixa sempre uma margem virgem para outras fruições. Pode comentar um pouco sobre isso?
MÁRIO MONTAUT – Isso que você chama de Surrealismo é para mim, com as mais loucas sinestesias, o espaço-síntese de todos os conflitos, de todos os paradoxos, e quando crio a coisa não é apenas emotiva, pensamenteira, sensorial. Dessa enigmática instância acolhedora de tudo o que foi tocado pelo desejo, a inspiração, é que pode se abrir uma margem virgem para outras fruições, como você diz. Impossível a criação se não estiver ativada essa região. Agora, o Surrealismo, que para mim é essencialmente isso, realiza-se ganhando forma musical em tempos, velocidades bem diversas, quando vira música, em princípio. Uma música que já prevê, aguarda palavras, e que composta ao violão e voz, piano e voz, só ao instrumento ou a cappella, pode chegar música pura, ou com palavras, sonoridades que inspirem o verbo, e neologismos que mesmo desafiando a razão se impõem com seus sentidos misteriosos. Então, quando inicio a letra já existe todo esse processo, toda essa explosão, e a ela ouvindo, reouvindo, faço a letra. É um Caos. E natural que dessa complexidade às vezes surjam versos absurdos. Natural e inevitável (risos). Existe nessas composições algo de sugestivo, como você coloca, e de imperioso, inexplicável também para mim. Se pudesse explicar, não sei se faria.
DA –No novo filme do Jean-Luc Godard, “Adeus à Linguagem”, há a seguinte frase logo na abertura: ” A realidade é o refúgio dos que não têm imaginação”. O que você acha de tamanho aforismo, vindo de quem vem?
MÁRIO MONTAUT – Você sabe que não acompanho tanto assim o Godard? Retenho imagens belíssimas dele, de alguns filmes, e de certos filmes que nem vi inteiros, mas fico sedento por imagens novas dele, e esse aí é em 3D, não é? Um homem, uma mulher, um cão… e você lembra de “Je vous salue Marie”? Aquela menina recitando Baudelaire. E o bigodudo do Sarney censurando o filme logo após o término da censura? A pedido de Marly Sarney, a primeira dama que virou tema de carnaval daqueles jornalistas que criaram o bloco “Je vous salue Marly”? É um convite de passeio pelo tema, o aforismo. Oscar Wilde tinha outro: “A ação é o último recurso dos que não sabem sonhar”. Sarney, Antonio Carlos Magalhães: homens de ação, de atitude. “E assim adormece esse homem que nunca precisa dormir pra sonhar, porque não há sonho mais lindo do que sua terra, não há”. Surrealismo de Dorival Caymmi. Borges: “As pessoas aceitam facilmente a realidade talvez por suspeitarem que ela não exista”. Lorca: “Não é sonho a vida. Alerta! Alerta! Alerta!” Novalis: “A vida não é um sonho, mas pode chegar a ser um sonho”. Décio Pignatari achava que o Surrealismo não pegou tanto por aqui porque o Brasil já é surrealista. “Em qual mentira vou acreditar?”, entoavam os Racionais em “Sobrevivendo no inferno”, e esse é um título dantesco! Caetano Veloso: “Antonio Carlos Magalhães é quentinho, sexy e carinhoso”. O aforismo de Godard após um telejornal da Globo em ritmo de golpe produz essas digressões: “Bela Humana Raça!” (risos). “Dali de Salvador”, cantava a Blitz. “Um homem que para se referir a uma enxada precisa dizer enxada merece mais é pegar nela” (Wilde). Gabriel García Márquez quando sentia medo da realidade procurava fazer trabalhos manuais. Para tudo isso deve haver uma solução de continuidade. Lula e Dilma sabiam de tudo, mesmo?
DA –Geralmente, com nossas influências, vamos encontrando compositores que nos inspiram de diferentes formas. Alguns, se podemos colocar desta forma, se enquadrariam sob aspecto mais cerebral, informativo; outros já repousariam perto do coração, por conta de vivências, emoções que eu diria quase míticas. Você concorda? Pode dar exemplos?
MÁRIO MONTAUT – O Paul McCartney certa vez falou algo assim: “Here, there and everywhere era pra ser supostamente uma canção dos Beach Boys, porém, você não sabe disso, nada disso está na música, o que me influenciou está na minha cabeça, você não precisa saber, e é assim que vejo a diferença entre influência e cópia”. Algo aproximado, com o qual me identifiquei. Posso lhe garantir que no processo de determinada composição sei onde se dá um toque de Benjor, de Debussy, Kandinsky, Keith Richards, de Heidegger, e claro, você não precisa saber disso (risos). Dito assim, parece até niilismo, inexistência quase total de evidências (risos). Fico parecendo um personagem de Borges. A artista plástica Fayga Ostrower, em seu livro “Criatividade e processos de criação”, repete em estilo acadêmico o que o Paul disse com mais clareza e contundência: que a influência mais elaborada se torna reconhecível praticamente só pelo artista. Creio que a influência vem dessa quarta região inspirada, da qual emana o fogo-síntese, e onde ocorrem as transfigurações de tantas linguagens, onde um parágrafo de Heidegger, uma tela de Kandinsky, não me instigam menos do que uma canção de Chico Buarque ou dos Beatles. Como exemplo, vou mencionar o sonho em que Jimi Hendrix faz um solo de guitarra que se projeta no céu de Vulcânia (ilha onde foi construído o Náutilus, do 20.000 Léguas Submarinas, de Julio Verne) num arco-íris com muito mais de sete cores, e que pode me lembrar tons do Kandinsky que revi na recente exposição do Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, sonho que resultou numa obra puramente musical, “Brincando em Vulcânia”. Será que lembra Hendrix (risos)?
DA –Uma deixa para você fazer duas consagrações: fale de Beatles e de Dorival Caymmi.
MÁRIO MONTAUT – Infância, proximidade da origem, arquétipo. Quantas canções dos Beatles vêm de arquétipos. “The fool on the hill’, “Eleanor Rigby”, “I’m the walrus”, “Hello Goodbye”, “The Long and winding road”, “For no one”, “Help”, “I’ve got a feeling”, “Let it be” (em que muita gente, até o John Lennon, vê a Virgem Maria, mas que Paul jura ser a mãe dele)… E esse mar de ondas arquetípicas quando quebra na praia é bonito, é bonito, como diz Caymmi, que como os Beatles, tem nas letras uma coloquialidade genial. Caymmi é infância puramente marota, sensual, com aquela malemolência, aquele violão das canções praieiras. Debussy compôs “La Mer”, mas é Caymmi quem o desvela pelas praias em que também pescam e se banham os Beatles.
DA –Um comentário recorrente entre autores e músicos diz que a MPB perdeu sua força, sua representatividade, seu alcance. Concorda com isso? Sei que é uma questão complexa, que não se esgota numa entrevista, mas queria sua opinião.
MÁRIO MONTAUT – “O vento que faz cantiga nas folhas do alto do coqueiral, o vento que ondula as águas, eu nunca tive saudade igual, me traga boas notícias daquela terra toda manhã, e jogue uma flor no colo de uma morena em Itapoã”… Se vejo as coisas dessa praia, que é sonho onde brincam Chico, Beatles, Dalí, Breton, Alberto Caeiro, todo o resto é brincadeira de mau-gosto. Isso do Chico dizer que a canção morreu é apenas a revelação teórica de algo que ele já prenunciou em “Olé Olá”, em que vaticinava o futuro do canto, do samba: “o sol chegou antes do samba chegar, quem passa nem liga, já vai trabalhar, e você minha amiga já pode chorar”. Na globalização da Ditadura Econômica, da Tecnologia Totalitária não sobra espaço para se brincar, pensar, cantar. Henfil já dizia que a tecnologia é a morte do sonho, e a morte do Sonho, parece, é a morte da canção. Paul McCartney, em “Jenny Wren”, acredita que a canção irá renascer. Eu apenas sei que por enquanto há muita singularidade possível e compartilhável.
DA –Talvez a mesma pergunta feita de outro modo. Tivemos movimentos e movimentações de uma criatividade muito forte, uma produção hoje consolidada. Ao longo do tempo, grandes cantores e compositores que surgiram com a Era do Rádio, os craques da Bossa Nova, que fundaram uma nova linguagem, com repercussão internacional; a Tropicália, alguns grupos e artistas com tanta coesão que ficaram conhecidos como o Clube da Esquina, o Pessoal do Ceará, Geração Nordeste, o pessoal do Lira Paulistana, o rock da década de ’80. Que visão tem do cenário atual?
MÁRIO MONTAUT – Delícia lembrar 1980, quando a canção que eu mais ouvia nas rádios de São Paulo era “Noturno (Coração Alado)”, a de maior sucesso e uma das mais emblemáticas dos compositores do Ceará. Bem na época do “Lira Paulistana”, e curiosamente também em 1980, um debate na Faculdade de Música da ECA-USP, com a presença de Arrigo Barnabé, Mário Manga, Hélio Ziskind e uma diversidade enorme de compositores, na qual os movimentos que você menciona estavam mais ou menos representados. Ainda não haviam decretado sua morte, mas quase todos ali concordavam que a canção se encontrava em profunda atonia. O Arrigo se mostrava até meio indignado dizendo que tinha tocado na questão com o Valter Franco, e que este via aquela leva de canções com muito bons olhos. Mas eis que com a lembrança de “Noturno”, sua e do Caio, e esses fatos instigantes você traz de novo o tema que tanto nos seduz pelo mistério: a morte da canção. Por certa crítica que vê em Chico Buarque De Hollanda um sinônimo da canção, e também de certa esquerda no Brasil, ele foi eleito o grande ícone do fenômeno. Quando em julho de 2011 lançou “Francisco”, um crítico da revista Veja afirmou que “seu último espasmo criativo” se deu em 1993, em “Paratodos”. Chico estava então sem gravar desde 1989, ano em que lançou “Morro Dois Irmãos”. Logo após o lançamento de “Paratodos”, ele declarou numa entrevista que se a crise criativa pela qual vinha passando crescesse em termos geométricos, o próximo disco sairia só dali a dezesseis anos. Na realidade isso ocorreu em 1998, com “As cidades”, que deu ensejo a uma matéria da Veja intitulada: “A crise criativa de Chico Buarque”. Os críticos que participaram da reportagem nem falaram tão mal assim da obra, só tentaram aprofundar o assunto que o próprio Chico propusera. Sinto, Graccho, que este é o cerne da pergunta, e já que não dá mesmo para responder apenas prossigo nessa perspectiva que vou achando cada vez mais atraente. “Carioca”, “Sonhos Sonhos São”, “Subúrbio” e “Querido Diário” são para mim as mais significativas composições de Chico nos três últimos discos, e cuja riqueza é maior a cada audição. Com algumas faixas de “Chaos and creation in the backyard”, de Paul McCartney, essas certamente estão entre as músicas que mais ouço nos últimos anos, e sobre as quais gostaria de conversar com outros músicos, que para minha surpresa revelam um desconhecimento quase total desses trabalhos. Parece que resta em nossa contemporaneidade a graça singular, e ela pode ser partilhada, mas em outro nível. Dificilmente você diz: “Essa é a nossa canção”, relembrando Joyce, que já brincou com a ideia da morte da canção na revista “Bundas”, do Ziraldo, ano 2000.
Mário Montaut / Foto: arquivo pessoal
DA –Fale um pouco do processo de gravação de seu disco “De Viés”. Sei que várias músicas ficaram fora, apesar das 16 faixas. É doído definir o repertório?
MÁRIO MONTAUT – Sim, é mais que doído. Agora, eu me lembro de Noé. Quando Deus lhe disse que iria mandar o dilúvio, ele salvou um casal de cada espécie na arca. Bem, sem tamanhos avisos e sem aquele aguçado faro de escolha, mas a meu jeito, quando sinto que vou acabar perdendo a maior parte das muitas coisas que crio, seleciono algo que represente um pouco de cada etapa, de certos ângulos de minha criação pelo tempo, e coloco na arca de Montaut (risos), e nem sei se são as melhores músicas, mas são escolhas possíveis, que representam possibilidades que me habitam, e mesmo que muita coisa fique de fora, sinto-me aliviado antes que o temporal leve embora, e você sabe que na condição precária dessa existência de artista que não vive de sua arte, a questão se torna ainda mais delicada. Tento trazer para cada disco exemplares de várias épocas e composições realizadas numa proximidade relativa à feitura do disco. É quase impossível lançar um álbum em menores intervalos de tempo, então, tem sido assim até agora. Trabalhei essas composições desde 2010 com o Roberto Gava (produtor, arranjador e instrumentista no álbum), com a Ana Lee (cantora, minha mulher e musa), com o Ricardo Stuani (percussionista em várias faixas do álbum), Vicente Thiné e Ozias Stafuzza (queridos parceiros). E durante esse tempo gravei muita coisa nova, material para iniciativas futuras.
DA –Como se deu sua aproximação com a música?
MÁRIO MONTAUT – A banda no coreto de Serra Negra, perto dos três anos de idade. O rádio tocando “A Canção do Marinheiro” (“qual Cisne Branco”) e “Hava Nagila”, entre outros cantos e vozes de Serra Negra, e já de volta a São Paulo, aos quatro anos, uma canção no rádio que nunca mais ouvi, e que me chegou com o tempero fabuloso de uma das tantas histórias que minha avó Alice contava, enquanto eu ouvia e olhava pela janela um navio sumindo. Um mapa infinito de tantas ruas. Aos oito anos, de férias em Serra Negra, ouvi melodias dos Beatles, sem saber que eram elas, executadas por orquestra nos alto-falantes de um cinema. Aos onze anos o violão, e logo as primeiras composições, Caymmi, Chico Buarque, Tchaikowsky, Chopin, Beethoven, Roberto Carlos, Beatles. Mais tarde o piano, e as namoradas, as turmas no colégio e em casa. Coisas bem antes do que conto e que não vão acabar.
DA –Sabemos que algumas experiências com as artes, como pura fruição ou mesmo no ato da criação podem ser algo de elevação espiritual. Você teve algo assim com a música?
MÁRIO MONTAUT – Você fala em elevação espiritual, e eu atento para o termo. Espiritual. Tão desprezado na atualidade, como se nossa consciência fosse resultado unicamente de neurônios, de redes neurotransmissoras. Kandinsky, que sempre teve o Espiritual em grande apreço, “procurou na alma dos objetos as manifestações espontâneas de seus sons interiores”. Participou de movimentos xamanistas na Mongólia, também nome de um filme de Salvador Dalí. Você me faz pensar ainda em Christian Dunker (psicanalista amigo de Vladimir Safatle e de Maria Rita Kehl), que em dezembro de 2012 escreveu para a revista Cult um belíssimo texto sobre a Alma. Música é Alma, leva-me ao êxtase, para mim, a forma maior de conhecimento, que para muitos pode ser “irrealidade”, mas esse universo musical se insere na realidade de modo mais determinante que certos padrões aceitariam (risos). A audição de uma música, ou a lembrança dela (que com o tempo costuma ser um tipo mais frequente de experiência, aquela audição interna), pode ser arrebatadora, e produzir essa “elevação espiritual”. Quanto ao ato de criar, é também um êxtase diferente, na região em que se processam as alquimias e sínteses que geram a forma. Ali, esta pessoa que agora fala se apresenta em proporções mais adequadas.
DA –O que é uma canção?
MÁRIO MONTAUT – A forma concomitantemente rítmica, melódica, harmônica, verbal… Você foi ao ponto. Algo que se cante entoando palavras, talvez. Ocorre que tradicionalmente a canção é o que Noel, Chico, Caymmi, os Beatles fizeram, com muita comunicabilidade a guiar outros impulsos. De um bom tempo pra cá, repetimos essa forma à exaustão, hoje coisa diluída, profunda atonia, ou então a inovamos um pouco e ela já não é amplamente entendida. No meu caso penso que faço algumas canções, poucas, e muitos objetos sonoros não identificáveis como você uma vez bem os chamou. Sinto nelas algo que requer uma partilha bem diversa. A música me exige um tipo de letra não muito fácil de ser assimilado, e, portanto, de ser cantado facilmente por aqueles que as ouvem de imediato. Ao mesmo tempo em que são marcantes que já às primeiras audições. Bela Humana Raça, Castelo, Álven Jérra, De Tua Lembrança, Ondíssima Visão, Satã De Boi, Cadáver Delicado, Quando eu canto pro meu bem… Curioso o conjunto desses dezesseis títulos em “De Viés”, e sua pergunta me põe mais em desejos de refletir do que em condições de responder.
DA – Pra terminar nossa conversa, uma provocação: quem é Mário Montaut?
MÁRIO MONTAUT – O que me inspira, como a Manoel De Barros, é mais aquilo que ignoro, que essencialmente desconheço e desconhecerei. Por mais instigante que seja o que de nós conhecemos, é mais aterrador e divino o que ignoramos, o que pode nos dar medo e ímpeto vital, como esta nossa conversa, de dois parceiros musicais pela trama cósmica.
Graccho Braz Peixoto é Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP (2004), compositor e jornalista. É autor da canção “Noturno” (Coração Alado), em parceria com o compositor e arranjador Caio Silvio Braz. Possui mais de 80 gravações de suas músicas, por diversos intérpretes, no Brasil, Europa e EUA.
As cores e contornos sobre o papel. Diálogo entre dois universos. De um lado, o de quem vislumbra imagens; do outro, uma gigantesca nação de coisas a serem descobertas através do olhar. A arte impulsiona o criador quando este é capaz de compreender que pode fundar mundos no mundo.
Ao perceber que o elemento diferencial está na sua individualidade, o artista introduz seus ingredientes próprios numa mistura de signos e sentidos. Diga-se de passagem, o caráter especial da arte é nos mostrar que tudo, até mesmo as coisas aparentemente mais óbvias, podem ser vistas de uma maneira também inusitada. É então que refletimos que a convergência cartesiana de visões não é útil na representação dos universos artísticos.
E o que nos traz à baila uma artista como Caroline Pires? Quiçá mensagens de um admirável mundo novo. Seus desenhos e ilustrações transitam numa dimensão que harmoniza realidade e fantasia. É como um passeio pelo onírico, buscando sorver da vida um sopro de requintes poéticos. Mesmo no despertar do sonho, a artista constata que a existência revela outras camadas, as quais superam a noção meramente física das coisas.
Um aspecto que chama atenção na obra de Caroline é o fato de estarmos diante de caminhos de libertação. Em tal característica, a artista convida-nos a um percurso pelas alamedas lúdicas de sua consciência. Aqui, o anseio de liberdade está representado pela suavidade dos traços e contornos, sobretudo pela forma como se pretende um caminho feito de desprendimento, ou seja, sem excessos e ruídos do ponto de vista visual.
Ilustração: Caroline Pires
Andar com reduzidos pertences não significa andar de mãos vazias. No desafio de ilustrar um mundo tradicionalmente repleto de fardos desnecessários, Caroline abraça os rumos da leveza como forma de tentar compreender quem é. Mas o fato é que há ventos soprando em todas as direções e, nessa busca, a criadora depara-se com o estranhamento ante os desafios da existência. As rotas são inexatas, complexas, e por trás dessa verdadeira odisseia de sentidos a recompensa maior é a construção de uma linguagem íntima e consistente, capaz de compartilhar algo com os saberes alheios.
A trajetória artística de Caroline remonta à sua mais tenra idade. Nascida em São Paulo, desde pequena ela preenche espaços em branco com traços, linhas e cores. Atualmente, reside em Vargem Grande Paulista, trabalha como designer e ilustradora freelancer no Estúdio Capima. Dentre outros trabalhos, integra o Estúdio Azulê (parceria com a fotógrafa Diana Freixo), o Portal Mobilize Brasil e o novo blog Entreminas, espaço que aborda principalmente a arte feita por mulheres.
Abandonar o mundo em que se vive não é uma alternativa interessante para quem deseja fazer de sua arte uma expressão de identidade. Por mais voláteis que possam parecer, algumas sensações integram a natureza humana de modo inalienável. E a descoberta de novas dimensões existenciais não significa escape, mas sim transcendência, esse sublime estágio que delineia a obra de pessoas como Caroline Pires.
Ilustração: Caroline Pires
* As ilustrações de Caroline Pires são parte integrante da galeria e dos textos da 103ª Leva.
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.
“E sempre no meu sempre a mesma ausência” Drummond
Um soco ….na cara do estômago
ele sentiu cedo ….aos três anos da tarde
levantou torpe ….destituído de fins
desastrando goles ….contra a gravidade
pois se sabe grave ….das agudezas císticas, ….rotundas profundezas
das cavernas malabitadas ….que cultivou ….no tempo escorrido ….& sem parentes ….daquilo que foice;
estancado, além ….dos vazamentos rudes
ele se sentou ….& abraçou o estar entre.
***
Variações Grotescas
“O poeta canta/mesmo morto/ a carta da morte.” Eduardo Lacerda
I
é encaixotado pra dentro
e retendo meus medos
que ;paradoxalmente; exponho
-n’um tipo de tomografia estranha-
a metalinguagem do meu horror,
eu repito repeço reflito reitero
o excesso que repito repeço
reflito reitero; repeadicção
dos repeditos que lambi
durante toda a existência
entesourada dos meus cortes;
II
/colori o dolorido do mundo
que conheci sem dó alguma,
dolori como que vindo
daquilo que eximi no enigma
colorido de mim, exibido
em noite de fala, na grande hora
da novela que nos enforca\
III
;algo como foliões desesperados; ………(…)
a folia indo
folha por folha
a outro destino que não
o fruto da fruição multicor; ………(…)
sou o ator doado à coisa carne
caolha, homem clandestino
e refratário de toda conjugação
e traduzibilidades; do molde
rimístico cancioneiro-cansado
ao que multifaceto no ilusório
receptáculo d’um eu que dói,
(tenho noção disso, da
ilusão, nem tanto da dor)
há o depósito,
pandoresco e limitado,
de minhas tripas desditosas;
escrevo com elas agora;
;desespero – algo como folia;
***
Formas de Chão
De quando em vez me acode o avesso
e vejo o lado desexposto da existência,
este exuberante erro bem colocado;
nas derrotas que pratico predico pedidos
para, quem sabe, vestir a insistência panta-
nosa e aveludada de todos machucados vivos;
na melhor das hipóteses, sigo; ferido; sibilino,
silabando fulgores cínicos por duro desejo
impuro de destino. Sem cura, cuspido,
(no entanto ido), fragmentalmente .
Em vez dos quandos me veem os prantos,
é no buraco que me atravessa que sou visto.
***
não tenho pretensão de querer saber tudo;
no que me ensinaram |ensimesmaram| não fui cooptado;
eu apreendo das nuances desavisadas,
é na insinuação que desenraizo o mundo;
flerto com a fresta dita em linha reta;
faço curvas na sombra da tarde rubrica;
brinco sedento de morte empoçada para
,quem sabe |quem abre?|, morar na eternidade;
trago comigo um gole de abismo
daqui vejo & vou ao corp’alma do universo;
se volto serei poeira se volto espaço consideral
se vejo: destino sempre em desatino ………………………../mas ainda Destino\
não tenho a ambição de saber querer tudo;
o que sei? desensimesmar versos suores
nudeza lírica duvidosa rima-matriz-lúdica;
& desatar des(a)tinos para o caminhonar-me;
..:laço poesia para fazer instantes no momento do próprio acontecer:
Samuel Malentacchi Marques, 30 anos, paulistano, dentre poucas-muitas coisas soul poeta; cometi três crimes de fazser poesia & o quarto está no p(r)elo; ei-los: poemas nortunos/autofagia/minimáximas & miscelâminas, respectivamente; no maiscommenos: também costumo existir enquanto músico, baterista da banda chalk outlines & psicanalista; e1/2: malentacchi.samuel@gmail.com.
‘Não sei mais o que é amor, só sei o que é desaforo’. (Personagem Querência)
Em tempos de ascensão do cinema argentino e breve entressafra de bons filmes nacionais, eis que surge um sopro de esperança [ou um oásis] vindo diretamente do sertão nordestino. Com 20 anos de carreira como cineasta e 14 curtas no currículo, A História da Eternidade marca a estreia do pernambucano Camilo Cavalcante na direção de longas-metragens. Apesar do título homônimo de seu curta de 2003 – um falso plano-sequência de 10 minutos que também passeia visceralmente pelos dramas do sertão –, o diretor garante que os enredos não têm correlação imediata. Aqui a trama gira em torno de três mulheres de gerações distintas: Querência (Marcelia Cartaxo), mãe que acaba de perder o filho e vive a dor do luto – e também é alvo do cortejo de Aderaldo (Leonardo França), o sanfoneiro romântico e cego da vila (abre essa porta,deixa o meu amor entrar pra tomar conta de tu, criatura!); Dona Das Dores (Zezita Matos), idosa-religiosa que mora longe da família e vibra com a estadia inesperada do neto Geraldo (Maxwell Nascimento), vindo de São Paulo; e por fim, Alfonsina (Débora Ingrid), adolescente que sonha em conhecer o mar e divide-se entre tratar do austero pai Nataniel (Cláudio Jaborandy) e dos irmãos e admirar o excêntrico tio João (Irandhir Santos), artista que definitivamente destoa do restante do vilarejo.
O sanfoneiro Aderaldo (Leonardo França) em cena de A História da Eternidade / Foto: Divulgação
Produção independente – escrita e dirigida por Cavalcante –, financiada por editais e incentivos públicos, A História da Eternidade foi bem aceita por público e crítica. Recebeu mais de uma dezena de prêmios em festivais, entre eles o de melhor filme brasileiro e prêmio do público na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e as principais categorias do 6º Festival de Paulínia, ambos em 2014. Rodado na comunidade de Santa Fé, próximo à Petrolina (PE), cujo único contato com o exterior é de fato o orelhão que aparece no filme, a fotografia árida confere uma atemporalidade ímpar e uma beleza imensurável ao lugar. Apesar de se tratar de um filme feminino em sua essência e com protagonistas que ilustram bem as figuras sertanejas, quem rouba a cena é mesmo Irandhir Santos – vide Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda. Suas declamações e performances são impecáveis, sobretudo quando coloca o toca-discos na frente de casa e dubla a música Fala, dos Secos & Molhados, encarnando uma espécie de Ney Matogrosso dos confins. Vale ressaltar que a trilha sonora é assinada pelo compositor polonês Zibgniew Preisner, conhecido pelos filmes do cineasta Krzysztof Kieslowski em sua trilogia das cores: A Liberdade é Azul (1993), A Igualdade é Branca (1994) e A Fraternidade é Vermelha (1994), e pelo sanfonista Dominguinhos, em um de seus últimos trabalhos.
João (Irandhir Santos) em performance de Fala (Secos & Molhados) / Foto: Divulgação
Dividida em três atos circulares (Pé de Galinha, Pé de Bode e Pé de Urubu), A História da Eternidade faz um recorte original de uma região bem peculiar do Brasil, porém opta por focar outras aflições e não o sofrimento oriundo da seca. Apesar do gigantismo da paisagem e do povoado inóspito (o que dizer do televisor e da poltrona quase sempre vazia no meio do nada?), a estética de Cavalcante parece aprisionar os personagens – comumente eles são filmados através de grades de janelas, como se fossem jaulas – numa alusão à ‘eternidade’ do título. O que voa ali são só os pássaros e a imaginação. E ainda assim, não por muito tempo. O amor assume vertentes de romantismo, desejo, saudade, veneração, tentação, penitência e tragédia. Talvez seja o tal ‘amar…esquecer…desamar’, a que João se refere em determinado poema. Assim, de mansinho, como chuva que chega sem avisar, A História da Eternidade entra para o rol dos pequenos clássicos nacionais e acaba de vez com a estiagem do nosso cinema.
Larissa Mendes, cidadã-cinéfila, atualmente habita o sertão catarinense.