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112ª Leva - 06/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

Dividimos em etapas a celebração dos 10 anos da revista. A Leva 112 que agora surge contempla um segundo passo nesse sentido de comemoração. A intenção é mesclar tanto autores que nos ajudaram a construir essa história quanto os que debutam em nossas paragens editoriais. Hoje, compreendemos melhor o teor real da palavra encontro, esse somatório de expressões a tecer um rico painel no qual verbos e imagens se encaixam. Cada colaborador expõe parte de seu mundo entre nós, tornando possível um descortinar de outras percepções. Seja no contexto da arte visual ou da construção da palavra, os signos transmitidos comunicam além das aparências. Diga-se de passagem, o mundo é em si um grande livro aberto a interpretações. E tal viés ganha corpo amplo quando notamos que o conjunto das expressões particulares de cada autor nos ajuda a compreender o que nos cerca. Saímos de nossa própria aldeia na medida em que mergulhamos na obra do outro. A figura da alteridade é também um curioso ponto de aproximação entre distantes visões de mundo. Sendo assim, talvez demoremos a perceber que é nas diferenças que o produto da arte surge e vai se moldando. A não conformidade do pensamento é, então, a protagonista de tudo. É justamente esse tipo de constatação que sempre fez parte das ações da Diversos Afins. Uma conclusão obtida através do contato direto com pessoas e suas mais peculiares vertentes criativas. Sem dúvida alguma, essa percepção real impulsiona a concepção de uma edição futura à qual pretendemos sempre nos lançar. Assim, o canto que agora entoamos exalta a existência do instante, pois se materializa na produção de poetas do quilate de Maria da Conceição Paranhos, Líria Porto, Romério Rômulo, Lívia Natália e Márcio Leitão. Por toda a leva, atravessados estamos pelo olhar antropológico dos registros fotográficos de Patrick Arley.  É Larissa Mendes quem nos chama atenção para o novo disco do inventivo cantor e compositor Wado. Convidando-nos à leitura de “A Loucura dos Outros”, livro de contos de Nara Vidal, a escritora Neuzamaria Kerner aborda caminhos sugeridos pela obra. Cabe a dimensão de um encantamento diante das palavras do ator Rafael Morais, idealizador do Grupo Teatro Griô, numa entrevista que evoca a arte como missão de vida. Guilherme Preger, com seu habitual e preciso olhar cinéfilo, destaca a produção espanhola “A Academia das Musas”, filme do diretor José Luis Guerin. Nossos cadernos de prosa são tomados pelos contos de Carla Diacov, Lizziane Azevedo e Isabela Rodrigues. “A Eternidade da Maçã”, novo livro de contos de Marcus Vinícius Rodrigues, recebe a acolhida das linhas de Fabrício Brandão. Com novas leituras e apreciações, celebramos o caminho. Sejam bem-vindos, estimados leitores!

Os Leveiros

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112ª Leva - 06/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Lizziane Azevedo

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

Cama vazia

 

Acordei assustada ao sentir que ele me tocava. A mão dele estava fria, chamei a enfermeira. Ela veio, checou tudo o que podia e saiu. Pus-me em vigília novamente. Não havia outros acompanhantes. Para meus irmãos, nosso pai já havia morrido há muitos anos. Dormir era impossível naquele quarto de hospital. Um breve cochilo e os pesadelos me sacudiam o corpo. A presença dele me incomodava, sentia-me observada o tempo inteiro. Naquele lugar apertado e abafado eu podia apalpar o cheiro denso do suor azedo que sempre me nauseou. Ele acordou agitado, não dizia nada com nada. Segurava o peito com força, devia ser outro infarto. Demorei um pouco para chamar a enfermeira. No íntimo era bom vê-lo estrebuchar. Até sorri, vendo-o em agonia. Mal me virei para pedir socorro, senti a força da sua mão segurando-me o braço. A mesma força que me dominava quando criança para roubar de mim o meu sexo. Tremi. Sufoquei. Meu coração batia acelerado. Pensei em gritar, chorar. Respirei fundo e busquei me acalmar, quando percebi que ele queria dizer algo. Tive receio de baixar minha cabeça até ele; mesmo assim o fiz, reunindo minhas últimas forças. Ouvi um “perdoe-me” abafado que parecia mais uma de suas alucinações. Mas uma lágrima parecia confirmar a veracidade do pedido, que foi repetido: Perdoe-me, por favor. Perdoe-me. Paralisei com o que ouvia e via. Esqueci da enfermeira, da urgência… Pensei em dizer algo. Confusa, sem saber o que dizer, corri para fora do hospital. Chorei, chorei muito. Quando voltei, a cama já estava vazia.

 

 

***

 

 

Catecismo

 

Ele subia o morro todas as tardes. A batina preta fazia-o suar bicas. Apesar dos desconfortos, não deixava um só dia de cumprir sua missão. Uma bíblia enorme deixava-o com apenas uma mão livre, que estava sempre agarrada a um lenço branco. Todos os moradores do morro conheciam-no e saudavam-no ao passar. Com um sorriso gentil, ele acenava para todos; vez por outra parava para tomar um arzinho e conversar um pouco com Tuco, dono do bar da ladeira. Inteirado das novidades, bebia um copo d’água e continuava sua romaria até a casa que ele usava como capela, onde dava aulas de catecismo. Só crianças cercavam-no por lá. Os meninos predominavam no meio de duas ou três meninas. Aula encerrada, os alunos começavam a sair, um após o outro, mas não sem antes beijar a mão do mestre, que sempre se arrepiava com o gesto, invisível às crianças. Ele permanecia no local por horas com três meninos do grupo. Seriam coroinhas na sede da igreja, dizia o padre. Alguns achavam que era por essa razão que eles eram privilegiados, ganhavam presentes, roupas, sapatos. Era nítida a diferença deles para os demais, que andavam com suas havaianas furadas e shortinhos e camisetas enodoadas e rasgadas, mas ninguém parecia desconfiar do padre, até que uma batida policial desmascarou-o. De santo ele não tinha nada. Falso! Nunca foi padre. Voava pelo morro nos aviõezinhos dos meninos que aliciava.

 

Sou Lizziane Azevedo, uma advogada ávida por literatura, razão pela qual nunca dispenso a companhia de um bom livro, hábito que compartilho com meu esposo, leitor, revisor e primeiro crítico dos meus textos: André Sérgio. Moro em Monteiro, interior da Paraíba, onde fui criada e onde aprendi sobre poesia. Já publiquei diversos contos na Câmara Brasileira do Jovem Escritor; no suplemento literário Correio das Artes, do jornal A União; na Revista de Literatura e Arte Boca Escancarada e no site Diversos Afins.

 

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112ª Leva - 06/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Romério Rômulo

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

sinto, marília, dizer

 

se eu caminho, marília
nas estradas de ouro preto
sinto teu olho rasgar
o lacre da minha carne

sinto o duro e permanente
viés com que interrogas
meus estratos seminais
que só pulsam do teu lado

sinto, marília, dizer
que no teu olho apagado
acabo de anoitecer

num mundo vitrificado
na morte mais indizível
de que alguém quer morrer.

 

 

***

 

 

fragmento de desarmar a morte

 

se todos morremos na estrada
o que fazer dos caminhos?

vou desarmá-los, amada.

 

 

***

 

 

tão bêbados de tudo, estes poetas

 

poetas são malditos e no espanto
de revelar limites se martelam
há um poeta assim em cada canto
no redemunho do espanto que revelam.

poetas são em pétalas, cruéis
com tintas destiladas pela mão
seus dedos se arrebentam em pincéis
drogados pela cor da solidão.

tão bêbados de tudo, estes poetas
de ansiedade e insônia vão tomados
ao percorrer a noite pelas frestas
poetas são destroços renegados.

 

 

***

 

 

equação

 

eu sigo puto.
reajo em fogo:

viver é bruto.

 

 

***

 

 

Fragmentos, 12

 

1.
trago comigo
uma batalha solta
uma revolta puta
uma babel envolta.
2.
um anjo me parece pouco e lento
pra todas as batalhas que sustento.

 

 

***

 

 

chame qualquer coisa que me caiba

 

se eu brotar do silêncio
chame a vida
chame qualquer coisa
que me caiba

seja poesia, mulher ou desavença.

 

 

***

 

 

quando as tripas da noite me inventam

 

quando as tripas da noite me envolvem
sou um homem retinto de pavores:
30 colunas perdidas me comovem

quando as tripas da noite me arrematam
e sou um peso morto das palavras
30 colunas tortas me chibatam

e se as tripas da noite me embriagam
30 vozes me ardem o sossego
pelas 30 colunas que me vagam

quando as tripas da noite me arrebentam
e 30 corvos me roem a carcaça
são as tripas da noite que me inventam.

 

Romério Rômulo é professor de economia política da Universidade Federal de Ouro Preto, UFOP, MG. Poeta e editor, publicou vários livros de poesia, entre eles “bené para flauta & murilo” (1990), a caixa “tempo quando” (4 livros em 2 volumes, 1996), “matéria bruta” (2006),”per augusto & machina”, 2009, “i ah, si yo fuera maradona!” (bilíngue português/espanhol, 2015).Escreve semanalmente uma coluna de poesias no Jornal GGN, editado pelos jornalistas Lourdes e Luis Nassif. É um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar, com sede no Rio de Janeiro.

 

 

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112ª Leva - 06/2016 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

A Academia das Musas. Espanha. 2015.

 

MUSAS_cartaz

 

A Academia das Musas é a última obra do cineasta espanhol-catalão José Luis Guerin, a primeira que chega a nosso circuito comercial. Surpreendente que tenha permanecido várias semanas em cartaz, pois se trata de uma obra complexa e rara.

Como nos filmes de Eric Rohmer, uma das principais referências de seu diretor, todo o filme é composto por diálogos e conversas, com pouca ou nenhuma ação. Uma parte considerável das cenas se passa numa sala de aula de literatura e filologia da Universidade de Barcelona.

O professor universitário, vivido por Raffaele Pinto, ministra a uma turma majoritariamente composta por mulheres, um curso sobre o papel da musa na literatura, a partir da leitura da Divina Comédia de Dante Alighieri. Beatriz, amada do poeta italiano, representa uma virada no conceito de musa, antes dedicado a seres mitológicos ou a deusas inspiradoras. Beatriz seria a primeira musa como mulher histórica e reedita o papel mitológico de Eurídice, guiando o poeta florentino pelo inferno ou pelo reino dos mortos. A poesia seria assim um “diálogo com os mortos”, e as musas são mediadoras desse diálogo. A partir daí o professor provoca suas alunas para que pensem sobre o significado das musas na vida contemporânea.

À primeira vista, o filme é todo rodado de forma documental, com câmeras digitais amadoras, perspectivas oscilantes e oblíquas e som direto. O professor é realmente um homem erudito, seu tom é didático como de qualquer bom mestre, e seus alunos estão de fato interessados no assunto, com perguntas extremamente pertinentes. As indagações dos alunos, sobretudo das alunas, questionam o saber do professor e politizam o assunto. Seriam as musas apenas o fruto do imaginário patriarcal? Ser musa é um papel atribuído às mulheres pelo desejo fálico de dominação masculina? Ou seriam as musas ativas, capazes de produzir o desejo e o amor? Discute-se uma passagem da Divina Comédia, com o casal Francesca e Paolo, condenados ao inferno como adúlteros. Paolo apenas lamenta, mas Francesca reafirma a força transbordante de sua paixão. O desejo é aquilo que nos tira de um lugar definido na vida social, uma força transformadora. Mas haveria desejo, amor ou paixão sem relações de poder, indagam as alunas?

Até então o espectador no cinema assiste a uma aula de literatura numa universidade europeia. Mas logo surgem diálogos entre o professor e suas alunas em seu carro, com a cena captada do lado de fora com a janela fechada e através do vidro translúcido. Ou conversas entre as alunas no pátio ou em lanchonetes. Ou do professor com sua mulher em alguma sala, talvez de sua própria casa, com o testemunho visual acompanhando a partir do lado de fora da janela, discutindo ambos sobre questões pedagógicas, a mulher sempre questionando as certezas estéticas de seu marido. O ponto de vista oblíquo da câmera passa uma ideia de focalização indireta, discreta e voyeurística, como se espionássemos essas conversas.

Cena de A Academia das Musas
Cena de A Academia das Musas / Foto: divulgação

Mas dúvidas surgem em relação aos pontos de vista pretensamente documentais. As câmeras não são de fato espiãs. Em outras tomadas parte-se para o tradicional campo e contracampo. Os personagens sabem que estão sendo filmados e a discrição é, então, desnecessária. Ou não se quer perturbar o fluxo das ideias com a presença intrusiva da lente?

Tudo pode ser válido ou verídico.  O professor parte com uma de suas alunas para uma viagem para a Sicília. Ela talvez seja sua amante, mas não sabemos. Sozinha, a aluna entrevista um camponês que lhe relembra canções sicilianas antigas. Ambos não parecem se importar com a presença da câmera que, no entanto, está lá, registrando a conversa.

Mais tarde, o mesmo professor está numa outra viagem com mais uma aluna diferente e conversa com ela num quarto de hotel. Ela acaba de sair do banho e seminua se seca com a toalha. Aqui a câmera, amadora, não seria mais tolerada em sua indiscrição testemunhando a infidelidade do professor. Estaremos no terreno do documentário ou da ficção?

E sabemos afinal que esse mesmo personagem protagonista é realmente um renomado professor de literatura, especializado na obra de Dante. A viagem com a aluna e seus casos de infidelidade com suas discípulas darão origem a um conflito matrimonial também acompanhado pelas lentes do cineasta. As alunas aparecem como suas musas. Mas aí se borram as fronteiras entre conteúdo e forma. O professor não discute a problemática das musas com suas alunas a partir de um prisma literário. Professor e alunas entram num jogo de sedução entre amante literário e suas musas inspiradoras. A forma literária penetra a forma cinematográfica. Mas o jogo de sedução tem a contraparte na discussão do conflito matrimonial, na relação entre jogo e o não jogo realista.  O que era um documentário sobre um seminário de literatura converte-se na ficção de um jogo e na discussão ética realista cujo enredo é uma crise conjugal.

Ensinar é seduzir, diz o professor a sua mulher. Trata-se de uma conversa bastante íntima. O espectador é também seduzido por essa intimidade da câmera e entra no jogo ficcional com certo espanto e hesitação. Os pontos de vista oblíquos da câmera também oscilam na discrição ou na intrusão de sua presença. Em outra ocasião, o mesmo personagem diz que seu trabalho é semear dúvidas. Nesse filme de José Luis Guerin estão borradas as fronteiras entre documento e ficção, entre ensino e sedução, entre papéis passivos e ativos, e entre o jogo da fantasia e a ética do compromisso. A atenção do espectador vagueia duvidosa entre esses espaços de indeterminação e de perspectiva, trazendo ao espaço da projeção um campo de intimidade para seu próprio devaneio. Intimidade que significa o deslizar de fronteiras entre a fantasia e a realidade.

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

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112ª Leva - 06/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Márcio Leitão

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

Avesso

 

Na luta feita de pó
Todos os dias
Prometo cura
Por sobre meus ombros

Todo dia contagio
A liga delicada
Dos sonhos e dos dentes
Mas a tontura do corpo
O sol se franzindo
Devagar
Os ossos roendo
A carne
As carnes
Cavando
Os ossos
E o zumbido
Vívido
De marte
Não silenciam nunca.

Adoecer
É como rasgar o ventre
No meio
Da vida
Tentando escorrer
Por sobre a falta
Cotidiana
Dos sentidos.

 

 

***

 

 

Coro

 

Perfilados
Artífices
De notas
Que roem
Cada caule
Nosso
Que cospe
No céu

Embriagados
De perfeição
Cantam
As pétalas
Anoitecidas
Sem nenhum
Gole
De um tempo
Gordo
E moído.

Só líquidos
Inundam o ar
E os estômagos
Pás se levantam
E cobrem
Os cortes
Sem capuz
Que só lambem
O Canto do mármore
E das costelas.

 

 

***

 

 

Se duas toalhas…

 

Se duas toalhas
se entrelaçam
Molhadas com o prazer
das sombras que enxugaram
Nelas há algo de carne e espuma
De resto e de rosto.
Nelas convergem-se olhares
Perdidos de seus olhos,
Caídos de seus ventres.
As toalhas completam o balé
Das formas
Assim como um talho humano
Completa as almas.

 

 

***

 

 

Como?

 

Como prever a medida das distâncias
sem que ande por algum caminho?

Como perceber as luzes que brilham pouco
se a nova lua que não se faz redonda,
se faz presente no mistério?

Como chorar procurando um desabafo de cores
se todos os choros são vestígios
que reconstroem o triste arco-íris?

Como encontrar a direção
se todas as direções são ilusões,
miragens de caminhos solitários?

Como perder as amarras
se todos os passos tocam o chão
e sentem o perfume das correntes?

Como envolver os pássaros
que ainda pousam
se pensam eles ser livres?

Como contar os degraus
se os desníveis estão nos olhares?

Como desperdiçar os segundos
se cada segundo que contas
perdes, apenas, seu tempo?

Como responder essas perguntas
se perguntam para dizer
e não para perguntar?

Como?

 

 

***

 

 

Silêncio na Boca

 

Palavra torta
embaixo da língua
contorce o dorso do céu
palato perdido e surdo
pedido de arranhão velar
pedido de toque ligeiro
de língua sem sapatilhas
dançando no véu inquieto, no céu duro
e no macio dos alvéolos
fazendo chão
o som da minha carne.

Márcio Leitão é professor de Linguística, pesquisador em Psicolinguística (UFPB); tenta entender os processos mentais relacionados à linguagem. Poeta e escritor de livros infantis, escreve pra poder imaginar como é ter liberdade, respirar sem amarras. Escreve também pra se divertir com as palavras e com o que pode construir com elas. É editor da zonadapalavra, onde também publica, geralmente, aos sábados.

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112ª Leva - 06/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Uma indelével e tortuosa via chamada memória

Por Fabrício Brandão

 

Capa de A Eternidade da Maçã

 

Existem coisas que deixam nossa mente impregnada de perspectivas. Quando elas nos sugerem imagens e sensações as mais variadas possíveis, é porque algo efetivamente aconteceu dentro de nós a ponto de estimular vontades criativas. Estas tais coisas vão maquinando outras tantas e logo nos percebemos diante de um produto materializado sob a forma de um livro, espaço de projeções, arremates e de livres invenções, sejam elas labirínticas ou não.

Mesmo quando não desejamos, somos acometidos pelo mundo que se anuncia em torno de nós. A partir daí, decidimos se avançamos ou recuamos, mas deixar de perceber as externalidades é graça um tanto improvável de nos ser concedida. Talvez por isso tamanhos conflitos se operem no pulsar desritmado da dimensão mais íntima que guardamos.

A razão para as linhas iniciais deste texto serem assim construídas está diretamente ligada à experiência de leitura proporcionada por “A Eternidade da Maçã” (Ed. 7 Letras), livro de contos do escritor baiano Marcus Vinícius Rodrigues. Nele, irrompe bem vivo um paralelismo de sensações narrativas que demarcam uma válida opção por relacionar aquilo que está fora e dentro dos domínios humanos.

Tendo como fagulhas marcantes de inspiração canções de Caetano Veloso, “A Eternidade da Maçã” apresenta todo um território de ficções contidas num dos períodos mais assombrosos da história do Brasil – a ditadura militar. E possuir como contexto o forte cenário de tensão sugerido pela repressão ditatorial acaba sendo uma espécie de armadilha quando um autor não sabe se livrar dos apelos fáceis do tema. Para a recompensadora constatação do leitor mais atento, Marcus Vinícius foge desses ardis criativos.

O fato é que estamos diante de sete contos marcados por uma menção temporal explícita a histórias compreendidas entre os idos dos anos 60 e 70 do século passado. Ainda assim, isso é apenas um recorte do tempo para situar quem se debruça sobre suas linhas. O destaque maior está em perceber que se trata de narrativas que seguem uma cronologia interna, desvinculada, portanto, de uma sequência ordenada de acontecimentos. Nesse contexto, importa ressaltar o viés notadamente psicológico dos personagens, cujas existências são alvejadas pela ambiência plúmbea dos anos em curso. O tempo psicológico é como um grande personagem central que abraça todos os demais personagens, fazendo-os desfilar suas dores, anseios, hesitações, contradições e desejos contidos.

Marcus Vinícius é hábil em posicionar num mesmo front da consciência de seus personagens tanto as dores de um coletivo (e aqui ressaltemos a mão obscura do regime militar por sobre toda uma sociedade) quanto aquelas individualizadas. Nesse contraponto entre o externo e o interno, as narrativas ganham uma conformação especial na medida em que intercalam cenários difusos de vida. O autor manipula a dinâmica entre passado e presente, utilizando acertadamente recursos de flashback como uma estratégica ferramenta de posicionamento de seus personagens diante da percepção da realidade na qual estão densamente mergulhados.

She has given her soul to the Devil/but the Devil gave his soul to God, canta Caetano numa de suas mais vigorosas composições do período em que amargou seu exílio em paragens londrinas. Esse trecho da música Maria Bethânia, utilizado por Marcus Vinícius como epígrafe de “A Alma do Diabo”, conto que abre o livro, por si só é emblemático e sugere um caminho através do qual o contista segue a seu modo, tornando-nos intrigados observadores. Diante disso, cabe uma pergunta: quais os humanos resultados do encontro, num hospital, entre um doente major e sua enfermeira cujo irmão foi torturado por aquele mesmo militar?

Em “Barco vazio”, as noções de integridade física e moral são postas em xeque ante a extrema necessidade de sobrevivência a qual está submetido seu protagonista. A escolha narrativa aponta que num estado de exceção lógicas tradicionais se invertem a tal ponto que também é permitido ao oprimido utilizar-se dos mesmos expedientes do seu algoz. De modo intermitente, na cabeça do personagem central ecoa a frase: “Às vezes é preciso fazer alguma coisa errada para fazer o que é certo”.

É interessante perceber como o contista foge de lugares comuns, subvertendo expectativas óbvias em alguns de seus personagens. É, por exemplo, o que ocorre em “A flor e a estrela”, trama que tem por curioso arremate a ingênua visão de mundo do seu protagonista, até então alheio a tudo o que representava viver num país subtraído em liberdade. O jovem enamorado que atravessa a cidade sitiada para levar uma rosa a sua amada é a demonstração de como uma suposta alienação política deu margem a algum tempo de delicadeza e poesia.

Mais à frente, no conto “Longe daqui”, subsiste um espaço para o desejo, que em meio a toda sombra circular da traição, encontra algum mínimo abrigo diante da ausência de liberdade plena. O beijo entre amigos do mesmo sexo, parceiros de experiência de vida desde a infância, carrega em si toda uma simbologia, algo que transcende qualquer noção de sexualidade e que se norteia pela consciência de que o corpo é também um receptáculo de gratidão e lealdade.  Estamos diante de uma amizade posta à prova por vias nada usuais.

Aos poucos, vamos percebendo que os personagens são pessoas normais que, mesmo diante dum amplo cenário de repressão, cultivam uma espécie de felicidade clandestina. Esta fugidia, é claro, mas o suficiente para recriar cenários da memória, através dos quais passam vívidos flashes de saudade ou de alguma distante tentativa de reparação. Quando encarcerados ou torturados, os protagonistas das histórias recorrem a lembranças que tanto significam uma válvula de escape para a dor presente como também uma tentativa de vislumbrarem o que seria deles se tudo fosse diferente, ou seja, se suas escolhas fossem outras.

Vencedora do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia 2016, “A Eternidade da Maçã” é uma obra que prima pela riqueza de suas narrativas. Seu criador lança mão de bem elaborados recursos descritivos, tecendo um painel que agrega o físico e o imaterial. Assim, não entrega respostas prontas ao leitor. É como se as histórias ficassem em suspensão, sem um arremate derradeiro e prontas para continuar sob a dinâmica de outros olhares.

Terminada a leitura do livro, fica a sensação de que Marcus Vinícius Rodrigues não quer que esqueçamos uma das páginas mais cruéis de nossa história. Na medida em que um autor como ele concretiza isso sem nos impor desgastadas formulações ideológicas, o saldo é por demais positivo. Quiçá a luz ideal posta sobre as coisas seja aquela realmente capaz de proteger a memória, e não usurpá-la repetindo frases perdidas ao vento num desatino sem propósito.

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.   

 

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112ª Leva - 06/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Isabela Rodrigues

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

O pedido

Adoro quando ela chega assim de manhã.

Uma morenice lavada de cara e de corpo. Um cheiro de banho, os cabelos molhados de uma água fria.

Adoro quando ela chega assim, com roupa de casa, ainda de chinelas. O cabelo meio sem jeito, a cara meio de sono.

 Chega, aperta os olhos, às vezes torce a boca como que fazendo movimentos pra lembrar o pedido que me faz todos os dias, igual:

– três pães, por favor.

***

 

 

A maquiadora

A maquiadora, enquanto eu piscava muito no momento em que ela tentava pintar meus olhos:

– se você sentir vontade de chorar…

– o tempo todo, amiga.

Nos abraçamos e choramos.

 

***

 

 

Se nasce só e se morre só

A saída do útero é completamente solitária, embora, por vezes, haja o amor.

A vida segue de forma a te fazer esquecer que, na verdade, é só você.

Estamos todos sozinhos nessa massa que se ajeita no vagão do metrô, nos bares em noite quente, no supermercado Mundial às 18h, nos elevadores ou nos velórios.

A verdade é que a solidão é a sombra contínua que nos segue por toda a vida.

Primeiro, há o cerco da família, e depois é preciso uma porção de amigos, e depois menos amigos, mas bons, e depois vêm os filhos os netos os bisnetos.

Mas é nesse meio de tempo, na gritaria de quem compra ouro na Siqueira Campos, no esbarrar de quem atravessa a Presidente Vargas quando o sinal fecha, ou no Carnaval em Salvador, cedo ou tarde, que chega o momento em que nos damos conta do inevitável: estamos todos sozinhos. Somos um e único a saber das próprias e verdadeiras dores, que vai sentir sozinho que no mundo é só você contra você mesmo.

Há quem tenha, nessas horas, suas pequenas epifanias. Há quem entre em desespero, há quem se mate, há quem se deprima, há quem se sinta verdadeiramente liberto.

O fato é que o ser humano nasceu de viver junto, de se aglomerar nos grandes centros, de querer morar um em cima do outro, de ter carro pra mais de um, de fazer filho, de ter gente. Por isso é que essa descoberta assim, tão de repente, pode acabar com um coração.

***

 

 

Tempo de Alice

Alice aos três já mostra espírito aventureiro quando
solta da minha mão para descer as escadas
sozinha.
Alice tem o cabelo amarelo e os olhos pretos de cílios
gigantes parecendo um bicho,
mas em Alice fica lindo.
Alice fala paia, porque não fala r ainda,
mas fala em alemão quando nervosa.
Ela tem um peixe laranja e escolheu dar de presente ao padrinho
um carro ou um interruptor.
Quando apertada, faz xixi de cadeirinha no meio da rua
e depois me pergunta por que é que o menino que dorme na rua está sem chinelos.
Eu e Alice sentadas tomamos picolé no sol.
Alice disse:
– É tão bom que até dá vontade de sorrir, né, tia Isabela?

Isabela Rodrigues é natural de Barra Mansa, interior do Rio, e reside atualmente na capital do estado, onde se formou como advogada pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Seus textos também podem ser encontrados no blog “Com licença, poética!”

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112ª Leva - 06/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Líria Porto

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

espantos

 

muitas caras
uma da infância outras da juventude
inúmeras caras maduras e agora
a da velhice
todo dia a cara muda
:
e cega
e surda

 

 

***

 

 

maríntimo

 

desde ontem
uma onda rebenta em meu peito
traz à tona o que vem lá de dentro
e me tinge de urgências

desde sempre

 

 

***

 

 

suburbano

 

meio sábio
meio cético
meio cínico
meio sóbrio
:
e cheio
de empáfia

 

 

***

 

 

herege

 

não caio nas malhas de deus
mais fácil me prenda o demônio
o céu não é lugar para gente
como eu
anjo não é santo
e nem faz milagre

 

 

***

 

 

frappé

 

nem nas horas tristes
foi infeliz
nem na mais alegre
sentiu felicidade

(viver é corriqueiro
um rato a roer queijo
um gato a perseguir passarinho
um cão a rosnar no portão
a levar pedrada de moleque)

 

 

***

 

 

desvios

 

primeiro enfiou-lhe um prego
depois um fósforo aceso
e ao final um saca-rolhas
(torceu e puxou)

seus olhos brilharam
sempre gostou de
ver-me-lho

 

 

***

 

 

monstros

 

a lagartixa me olha
a lagartixa me fita
eu na cama fico rija
lá no teto ela se move
e faz isso lentamente
como a medir o perigo

eu temo que ela despenque
mas não sei o que ela pensa
eu sou tão inofensiva
:
nós assim passamos horas
a temer a morte
a vida

 

Líria Porto, mineira de Araguari, professora, poeta, dois livros editados em Portugal (Borboleta desfolhada e De lua) e dois no Brasil (Asa de passarinho e Garimpo – finalista do Prêmio Jabuti 2015), autora do blogue tanto mar, participa de vários sites, jornais e revistas na internet, entre eles Escritoras Suicidas, Germina Literatura, Zunái, Blocos Online, Considerações do Poema, Poesia Perfeita, Mallarmargens. Reside em Araxá, interior de Minas Gerais.

 

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112ª Leva - 06/2016 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

WADO – IVETE

 

capa ivete

Oswaldo Schlikmann Filho – vulgo Wado – leva mesmo a sério sua bússola errante do não se repetir. Depois de transitar recentemente pelo rock (1977), pela MPB (Vazio Tropical) e até mesmo pelo funk carioca (Samba 808), chegou a vez de dissecar um dos gêneros mais controversos e alvo de preconceito no país: o axé. Lançado em julho, o nono trabalho de Wado – intitulado Ivete – se propõe a “esmiuçar o ritmo e vasculhar os guetos” baianos. Porém, nem tudo são abadás e vogais. O álbum faz link com sua obra Atlântico Negro (2009), o título brinca de maneira simpática com a “musa intocada da empreitada” e tem como referência sonora os primeiros discos de Moraes Moreira e Luiz Caldas, nas origens do gênero, o “axé de raiz”, com letras de cunho político e social.

Alabama (sangue nas folhas, sangue da raiz/flutua em pleno ar, em tudo nada diz), primeiro single do álbum é uma parceria com Thiago Silva (Sorriso Maroto) e tem como inspiração Strange Fruit, gravada por Billie Holiday – e por tantas outras divas – e aborda a situação dos negros enforcados em plantações norte-americanas. A força de Alabama contrasta com a doçura quase didática de Terra Antiga/Jesus é Palestino, com a inserção de Ralé, da Timbalada, e figuraria tranquilamente nos projetos de Adriana Partimpim. Já em Um Passo à Frente, talvez a faixa mais alegórica do álbum – releitura da canção de Moreno Veloso –, até se pode imaginar Wado participando do trio elétrico de Ivete Sangalo, arrastando o bloco da cantora no circuito Barra-Ondina. As guitarras à lá Asa de Águia de Sexo (atira teu corpo sobre o meu/mais de cem, mais de mil vezes), também em companhia de Thiago Silva e de Você Não Vem (leva todo o teu desejo/a dor de sempre ser saudade/leva tudo, teu desprezo/as coisas são e parte as partes), ao lado de Momo e Marcelo Camelo – e suas levadas de bilhetes amorosos incompletos – garantem os melhores momentos do álbum.

 

wado
Wado / Foto: Alzir Lima

 

Samba de Amor, como o próprio nome sugere, é mais um típico e agradável sambinha composto com Alvinho Lancellotti e Momo. Os batuques e os orixás de Mistério (não sei se é dor/dói de apartar/sinto de um jeito/não sei contar), parceria com Zeca Baleiro, desembocam na regravação de Filhos de Gandhi, composição de Gilberto Gil, de 1975. As incertezas de Amanheceu, “como um rifle em celibato, como um louco em desacato” traz nos samples alusão ao massacre escolar de Columbine, de 1999, tão bem retratado no cinema por Michael Moore e Gus Van Sant, respectivamente em Tiros em Columbine (2002) e Elephant (2003). Nós (você, norte da existência/você, o amor dos dias) – que bem poderia compor Vazio Tropical –, e seus belíssimos versos quase à capela, também co-autoria de Baleiro, encerram o álbum arrematando todas as declarações de amor suspensas em outros carnavais.

Mais uma vez o mutante radicado em Maceió, Wado, [re]visita um ritmo e imprime sua marca. No caso do polêmico axé, jamais ele soou jocoso. Ao contrário, resgatou a essência do ritmo e sua verve percussiva. Produzido (ou feito, como prefere dizer) pelo próprio artista e lançado de forma independente, Ivete está disponível para download em seu site e em todas as plataformas de streaming. Aliás, sua obra completa (9 álbuns) encontra-se acessível para download. Para meados de setembro, o músico planeja a gravação de seu primeiro DVD, em comemoração aos 15 anos de carreira. A micareta poética de Wado está pronta para tirar o pé do chão.

 

Em terra de Ivete, Larissa Mendes faz uma colheita [in]feliz.

 

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112ª Leva - 06/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Maria da Conceição Paranhos

 

Patrick Arley
Foto: Patrick Arley

 

SONETO DE COITA DE AMOR

(Ditado por um cavaleiro à sua amada distraída em despetalar uma rosa)

 

A rosa, palpitando em meus dentes, ornasse
a cortina mais densa de brasa em meus beijos!
Mas, escrínio e mudez, tu te envolves em seda,
enquanto, com a cravelha, procuro o cadeado.

Imagino em minha boca o sabor mais desperto,
engrossando minha febre, num alcance de enlevo
– melhor é deslembrar esse enlace gozoso,
e bebê-lo no dia, a pascer horizontes.

Te imagino no leito, sonho ou devaneio,
eu, besta grave e lenta, libando teu peito,
para te oferecer cascatas de deleite.

Mas que importa! Rasguei, em incalculáveis horas,
com o desejo em fervor de adentrar a tua cona,
a concha de tua mão, roçando a língua morna.

 

 
***

 

 

O NOVO TORSO DE APOLO

 

Eu só vi tua cabeça e a percebi inteira.
Quando as pupilas amadureciam, eu vi
teu torso a brilhar mais do que uma tocha acesa,
na qual o teu olhar, de si mesmo saído

detém-se e reverbera. Ou então não poderia
teu mamilo cegar-me, e nem a doce curva
dos rins teria mãos de abrir o meu sorriso
até este teu centro, donde o sexo uiva.

Diversa vejo a carne densa e inaugurada
sob a curva de seda – nos ombros, a imagem.
Meu ser não fremiria, na pele selvagem,

e nem te deixarias além de suas raias
qual astro que se mira – nele não há quina
que não me toque, lenta, e diga: dá-me a vida!

 

 

***

 

 

SONETO DA PREMONIÇÃO

 

A ciência de saber que a vida segue
não diminui a dor de te perder.
Foste tu que bateste à minha porta,
abri-a par a par, e sem temer.

Entraste deslumbrado, eu, generosa –
vivera mais que tu, sempre a me ter,
doesse a corda louca e uivasse a rosa,
eu me esmerava em ser como mais ser.

Sei que um dia essa febre vai passar,
e vou lavar meu corpo com cuidado,
apagando o roteiro do desejo.

Espera e agora escuta: há um alarme no ar.
Em nossa porta, foi estilhaçado
o cadeado azul de nosso beijo.

 

 
***

 

 

APOSTA À DERIVA

 

Perdi. Perdi o jogo. Esvai-se a vida,
em si, presa paixão de intenso gesto.
Jamais pensara ser, cada partida,
aposta já perdida, sem ciência.

Não pressentira, então, o desabrigo
de cada dia, luto tão absorto,
rude bocejo a esfumaçar o rito
de prosseguir, sem pátria no alvoroço.

Estanca a desistência da miragem –
que se faz e refaz, futura imagem
do desarrimo, embora tão presente.

Tarja de luz, suspensa a esmo, aclara
espectro de aura torva, que deambula
ao susto vesgo de carta marcada.

 

 
***

 

 

ORFEU QUÂNTICO

 

Fragmentos de corpo destroçado
espalham-se pelo tempo.
a história infinita,
ali inscrita.

O difícil é escrever essa história,
com o corpo bípede profanador
em sua vaidade assassina.

 

 
***

 

 

QUINTA-FEIRA

 

Corpo meu tão gentil, minha alma ardia,
viajando em teu mastro – n’ alma o vejo,
e mantenho minha flama: é meu desejo,
conservar a tua luz lume em meus dias.

Ao mirar o teu sono, se esbraseiam,
o meu corpo e a minh’ alma, e é tão sobeja
a impaciência a singrar por teu beijo
em naves de paixão – que se encandeia,

presa, minha vida – em uma só cadeia!
Ditosa aquela sina, que se atreve
a apagar ardentias e tormentos

em momentos que a tinta não transcreve!
Possuem-me, Senhor, teus elementos,
enquanto gelo em fogo e fuljo em neve.

 

 
***

 

 
VISITA

 

Apenas isto: andar, buscando a vida.
Sem carregar consigo nenhum tempo.
No céu, é tarde. A voz não pressentida
emite um grito vão, irmão do vento.

Andar assim, o corpo numa lágrima,
indagando um destino de demência,
a contemplar estrelas: só, em pânico,
e este silêncio frio, e esse silêncio…

Viste a louca mudez da estátua fria?
Já o dia se cumpria, e o abismo abria-se,
nos meus olhos vendados e vazios.

Talvez a ida seja breve e pura
ao suspiro letal em hora túrbida,
mas visito a paisagem cada dia.

 

Maria da Conceição Paranhos nasceu em Salvador e escreve desde os 4 anos de idade. Formou-se em Letras pela Universidade Federal da Bahia, onde também fez mestrado. Concluiu seu doutorado na Universidade da Califórnia, Berkeley, em Literatura Comparada, e seu Pós-doc. Na Universidade de Viena, em Estudos de tradução. Tem vários livros publicados, entre os quais “Dr. Augusto chegou” (contos, relatos e sonhos), “Chão circular”, “Os eternos tormentos, “As esporas do tempo”, “Minha terra e outros poemas”, “Delírio do ver” (poesia). Recentemente, lançou “Poemas da Rosa” (Ed. Mondrongo).