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149ª Leva - 04/2022 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Drika Prates

 

Caminhos longevos são aqueles que, mais do que meros índices de contagem do tempo, servem como constatação de que algo de fato foi construído. Dar sequência a um projeto como a Diversos Afins é sentir que aos poucos as coisas vão acontecendo, os cenários vão se modificando, algo fica pela estrada, antigas parcerias se reafirmam e novos encontros se manifestam. Viver as trilhas da cultura é também respirar ares de impermanência, pois os ventos da mudança sempre teimam em bater à nossa porta. E mudar é gesto de abertura para o novo, momento em que outros saberes e sabores podem se tornar reais diante da lei natural dos encontros. Acima de tudo, são pessoas que movem a nossa revista, não somente a figura de seus editores, mas todos aqueles que se sentem atraídos pelas veredas aqui ofertadas. De colaboradores, entusiastas, amigos, parceiros e chegando até nossos leitores, uma dinâmica cheia de vida toma corpo e impulsiona ideias e toda sorte de ímpetos pela Arte. Somos tantas mentes afinadas no coro possível da palavra, das imagens e dos sentidos múltiplos que emanam do mais íntimo que há no laço humano. Não estamos sozinhos: eis a constatação mais recompensadora que há. Os caminhos travestidos de literatura, cinema, música, artes plásticas, teatro, fotografia e outras artes são representações do que vai por dentro de tantas e tamanhas existências que percebem na revista um porto onde podem fazer ecoar suas vozes. Não temer o que está por vir pode ser a chave para qualquer iniciativa que se pretenda continuada no tempo das possibilidades. A crença que nos mobiliza é a de que outros olhares sobre o mundo são a razão de ser das nossas investidas. Ao mesmo tempo, é desejo de reconhecer o quanto um imenso painel de singularidades surge ante nossos olhos, cada uma delas imprimindo um tom vigoroso às criações de autores e artistas dos mais diversos matizes. Por tudo isso, a aproximação de poetas como Geraldo Lavigne de Lemos, Cristina de Souza, Letícia Carvalho, Marcelo Benini e Leonardo Bachiega adentra com novos sentidos as nossas janelas poéticas de agora. Em cada canto da nova edição, as ilustrações de Drika Prates dialogam com as porções interna e externa de nossas humanidades. No Gramofone de Gustavo Rios, gira o novo disco de André Lissonger. Numa entrevista concedida a Larissa Mendes, o músico Leonardo Passovi, vocalista da banda Flerte Flamingo, desfila algumas reflexões sobre seu trabalho e a cena musical brasileira contemporânea. Nas linhas de Lorraine Ramos Assis, impressões para “Ainda ancora o infinito”, livro de poemas de Roberta Tostes Daniel. Pelos contos de Lorena Grisi, Catharina Azevedo e Marciel Cordeiro, espraiam-se peculiares e instigantes cenários da vida. O filme russo “A Febre de Petrov” ganha olhares especiais na análise de Guilherme Preger. Os atentos olhares de Sandro Ornellas sondam as alamedas de “Danny”, livro de Maria Elvira Brito Campos. Todas essas vozes aqui reunidas, queridos leitores, são para celebrar 16 anos de estrada editorial. Eis a 149ª Leva!

Os Leveiros

 

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149ª Leva - 04/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Letícia Carvalho

 

Ilustração: Drika Prates

 

casa

para Maria Cristina

 

carregar até a porta dos fundos
os livros
as mensagens
todos os pensamentos em suspenso

sentar-se no batente
aproximar os joelhos do peito
mirar os pés do lado de fora

as patas que se aproximam
oferecer o rosto
e as mãos para carinhos
permanecer ali
falar com os cachorros e gatos

entender a razão daquele
ser o lugar favorito de sua mãe
na casa de Vila Isabel.

 

 

 

***

 

 

 

diário (2014 – 2018)

 

escutei os estalos de vidro
fotografei gente em automóveis
aprendi a desenvolver
bons raciocínios
mesmo que apressando o passo
pela Rio Branco
entendi o tempo
de se estar sozinha
em uma cidade grande
sinto saudade
daqueles ponteiros
por mais estranhos
que pudessem ser
seus arranhões.

 

 

 

***

 

 

 

pugilista heartless

 

eu pensei
nunca ser possível sofrer um golpe
digo
eu
nunca sofreria um golpe
com exceção do fatal
acredito
morremos em golpes.

eu sempre pensei
nunca ser possível sofrer um golpe
e permanecer
de pé ou sentada
com mais ou menos cabelo
com os olhos abertos ou fechados
com a boca seca
ou com saliva brilhante
com todos os balões
que habitam um corpo
ainda firmes.

é possível
sofrer um grande ou pequeno
golpe
perder os móveis da sala
os eletrodomésticos
o licor do avô
a coleção de imã de geladeira
o gosto pelos livros ilustrados
os melhores amigos
perder o colchão
as maçanetas do apartamento
os tapetes em que pisamos
e continuar aqui.

falamos do país e de golpe
certamente
em outros territórios
se fala em pancada e política
aqui também
trauma e economia.

mas a verdade
sempre tive a convicção
de nunca poder sofrer um golpe
eu mesma
apesar de já ter sofrido antes
(a memória se perde na lacuna exata entre um murro e outro)
dessa vez
repeti surpresa:
“não vi a mão ossuda chegando!”

 

 

 

***

 

 

 

a vista superior
da sua escápula
é onde nosso
gato
se aconchega
de manhã cedo
e também em dia de
trovoada
eu li que existe
um sentido figurativo
para esses ossos
apoio
esteio
como o fêmur
estirado em travesseiro
suporta todo
o meu peso
nos dias em que
fechamos as cortinas
para não ver
o dia virar noite
eu escondo vagalumes
pelo apartamento
como aquele retalho
bom de encontrar
na gaveta da sala
você tenta
um sorriso
de quem não tem jeito
para cortar cartolina
e nunca foi de chorar
mais do que nossos
joelhos
em queda no calçadão
o protetor solar
perdido
sua coluna tem algo
de triste
como os filmes
que assistia no
ensino médio
e gosto que você
combine perfeitamente
com os papeis de carta
que escolhi
para te mandar poemas
de amor
ou despedida
(as conjunções
quase sempre
permanecem)
mesmo que eu confunda
e deixe algumas
no envelope
sem correio.

 

 

 

***

 

 

 

Rio São Francisco

 

para Cely

 

a pequena carranca
que guardo ao lado
do bolo de contas amarelas
em um desaviso
pode parecer apenas um souvenir
mas cuido e encaro com precisão
essa companhia

você trouxe a miúda madeira esculpida
e mais alguns anos de sua vida
a amizade é uma proteção
envolve muito trabalho manual.

 

 

 

***

 

 

 

para planejar a tomada de uma casa

 

sua avó foi vista
na China do séc. XXI
com o casco fluorescente
os olhos vulcânicos

sua avó foi vista
no Haiti do séc. XXI
o alargamento das costelas
e da coluna vertebral resultou
no que hoje
é a sua casa

– botânica e política
concluíram que o perdão não é matéria de livro
esculpido em pedra –

esta casa que emerge
de água doce ou salgada
guarda em si
todas as substâncias do tempo
pode nos parecer eterna

é muito
para animais da terra
como eu ou você

o olhar penhorado de sua avó
caminha do céu até o fundo do oceano
sustentando a certeza de que nada retorna

de que não é possível sair ilesa
de tais eventos
extremos.

 

Letícia Carvalho (Barreiras, Bahia, 1994) é formada em Letras Vernáculas, pela Universidade Federal da Bahia. Mora em Salvador, onde trabalha como educadora e poeta. Publicou seu primeiro livro de poemas em 2020, “eu devia ter visto isso chegando”, pelo selo editorial Paralelo13S. 

 

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149ª Leva - 04/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Catharina Azevedo

 

Ilustração: Drika Prates

 

O pedido

 

Ela começou a atravessar em um passo pequeno, amedrontado. Os olhos cinzentos e lacrimosos varavam a rua em uma súplica muda, procurando se deter no primeiro transeunte. Era tão velha que parecia parar a qualquer momento para dizer que havia sido testemunha da primeira pedra que colocaram na rua, quando a rua ainda era feita de pedras. Olhá-la era como ver algo capaz de tombar a qualquer momento; não, nem tombar, que haveria no tombo ainda uma violência que não combinaria com ela. Parecia mesmo era prestes a desvanecer, assumir as cores da noite antes de sumir lentamente, imperceptivelmente — ela estaria de mãos dadas com o passante que se deixasse alugar, um tipo mole demais para repeli-la: aqui (a voz trêmula), aqui era a antiga casa de um industrial, uma construção tão linda (os olhos lacrimosos), datava do período do Imperador. Não, acho que era colonial — e em um átimo, seu corpo feito de éter, um vento noturno, nada.

Do outro lado da rua, as meninas faziam ponto. Equilibravam-se em saltos imensos, desfilando os corpos repletos de lantejoulas pretas, rosas, douradas, coladas no busto ou nas saias curtas. Uma delas viu a velha e cutucou a colega com o cotovelo. Apontou para o outro lado com o queixo.

— Ó lá, alguém largou a vovó no Centro.

— Vai ver se perdeu — disse a outra moça. Não insistiu no assunto: um carro preto se aproximava, e por trás do vidro abaixado um homem musculoso fez uma gracinha. Ela se encostou no vidro, o antebraço roçando entre o do homem, as frases retardadas por um chiclete entre os dentes brancos.

A primeira moça continuou olhando. Chamava-se Daiane. Tinha outro nome, mas não importa. Tinha também uma pele branca emborrachada, como de lagartixa. Assim que chegou, disseram que era pele daquelas lá do interior mesmo, as tabaroas. Pois era mesmo do interior e possuía uma história difícil, acreditaria ser sofrida caso não fosse tão atordoada em relação aos seus próprios acontecimentos particulares — uma história dessas que empurra as mulheres pra zona, enfim. Mais do que loiros, os cabelos eram amarelos, tingidos da cor de gema de ovo, e naquele momento Daiane não acreditou que a mulher fosse atravessar a rua.

Porque, por estranho que fosse uma idosa no centro da cidade àquela hora da madrugada, caminhando seu passinho pequeno que ignorava que tudo ao redor estivesse um ermo; mais estranho ainda seria aquela velha prosseguir até o outro lado, visto que do outro lado havia a zona e mais nada. Entretanto ali estava ela, com seu passo de santa. Talvez fosse uma visão de santa.

Daiane se aproximou de outra moça.

— Tem algum velho aí hoje?

A mulher lhe lançou um olhar desconfiado.

— Que foi?

— A senhorinha tá vindo pra cá — Daiane apontou com o queixo outra vez. — Acho que está procurando o marido. Ou o filho.

— E eu com isso? Suma daqui, vá, você está me atrapalhando.

Daiane abriu caminho e voltou ao trabalho. Houve justiça no fato que, uma vez tendo ganhado a calçada, a velha procurasse seu braço para encaixar a própria mão e dizer, numa voz também tímida:

— Mocinha, onde que eu falo com o dono?

Ela deu um sorriso nervoso. Retesou o corpo. Outro carro se aproximava. Tentou afastar o braço com delicadeza, mas o aperto da velha pareceu se tornar, de repente de ferro.

— Preciso falar com o dono.

— Minha senhora, isso aqui é um puteiro.

E a velha respondeu:

— Eu sei.

Muitos pensamentos podiam ter tomado conta de Daiane ao escutar a afirmativa; prevaleceu, entretanto, o medo pelos clientes que perdia a cada segundo que demorava com a velha. Pior ainda se lhe associassem indelevelmente à figura encolhida da mulher — um dos homens nos carros que passavam já havia gritado uma piadinha obscena: é quanto com a vovó? Daiane prosseguia com seu riso nervoso, um riso que mascava o desconforto até que este se encolhesse e se disfarçasse.

Mas não houve jeito de se livrar da velha. Logo as outras moças se aproximaram sorrateiramente.

— A senhora está se sentindo bem?

— Estou, estou sim. Quero falar com o dono.

O “dono” era um homem negro do pescoço de touro que se chamava Cláudio. Se não era bom, também não era de todo ruim. O fato é que nenhuma das moças tinha vontade de chamar por ele — o que seria um sinal de desordem, e não havia, entre elas, nenhuma que quisesse admitir uma desordem. Desconheciam se Cláudio estava de bom humor ou não: a mesma mão capaz de matar um cliente violento, daqueles que obrigam coisas nojentas e substâncias; essa mesma mão poderia lhes marcar a pele caso se sentisse no direito. Especialmente os assuntos relacionados a dinheiro o transformavam em um bruto.

Foi, por fim, Soraia, uma das mais antigas, que resolveu explicar:

— Dona, aqui a gente não tem chefe, chefe é o cafetão.

— Mas é com ele que eu quero falar, mesmo.

E, porque nenhuma delas se moveu um centímetro sequer, a velha ajeitou o casaco de lã e avançou para a construção.

Uma luz vermelha brilhava ali dentro. Dois quartos tinham as portas fechadas; em um se entrevia uma cama de solteiro, encostada na parede, um espelho, uma cadeira e o que pareciam ser revistas pornográficas em uma cômoda. A velha avançou muito cândida pela sala até dar com um homem calvo, de uns cinquenta anos, que ria de um vídeo qualquer no celular.

Ele levou um solavanco. À sua frente, a velha toda tremia. Usava um casaquinho de lã com um único botão grande, fechado sobre o colo.

— Como posso ajudar a senhora? — perguntou, desconcertado, em uma incerteza entre enxotá-la ou apresentar-se mais polido.

— Estou procurando um homem — disse a velha muito claramente.

Atrás, as moças — cinco das quais não tinham medo de aborrecer Cláudio, ou sentiam que dinheiro algum daquela noite pagava serem testemunha dos acontecimentos — suspenderam a respiração.

A velha prosseguiu, como se aquilo se tratasse de uma entrevista de emprego:

— Me chamo Dita. De Benedita, mas todo mundo sempre chamou assim.

— Como que a senhora chegou aqui?

— De condução.

— E tá procurando homem pra que? — perguntou Cláudio, abobadamente.

— Pra fazer amor.

Restou o silêncio. Uma das moças começou então a rir — tentou esconder o riso entre as lantejoulas da roupa, mas este lhe ultrapassou a boca, transformando-se em uma gargalhada que contagiou as outras pouco a pouco. Dita continuava, entretanto, impassível.

— Meu marido morreu faz tempo, estou cansada de ficar sozinha. E, Deus que me perdoe, não era assim tão bom.

— O amor não era bom? — uma das prostitutas perguntou.

— Assim, assim. Mas Deus que dê paz a ele, era um homem justo. Nunca me faltou nada, não.

— Tô vendo que faltou — Soraia respondeu com malícia.

Cláudio fez uma cara feia — estava gostando cada vez menos daquela situação. Bateu as mãos, virando-se ríspido para as moças:

— Bora, circulando. Chega de corpo mole.

A seguir tornou à velha e acrescentou de mau humor:

— Aqui não tem homem nenhum, só mulher.

Esperava com aquilo — não sabia o que esperava. Era inimaginável que a velha fizesse o caminho de volta pelo bairro semi-abandonado àquela hora. Sequer sabiam como ela tinha sido capaz de chegar até ali.

Ficaram assim por um momento, Dita alisando a saia, aprumando o cabelo ralo penteado e perfumado. Estudou as moças uma por uma.

— E mulher? — perguntou, por fim.

Mulheres, haviam; impossível negar. Dita atravessou a todas com o olhar cinzento que lacrimejava. As moças deixaram de enxergar a velha, passaram a ver apenas um corpo nu.

Do centro do grupo, saiu Daiane. Pôs as mãos na cintura.

— A senhora trouxe dinheiro?

Dita agarrou uma bolsinha minúscula.

— Trouxe, tudo aqui.

— Olha que é caro.

Virando-se para Cláudio, acrescentou:

— Acho melhor ela ficar pra dormir, não quero me meter com caso de morte de velha nessa rua.

Tomou Dita pela mão e a levou ao quarto. As moças puderam ouvir a velha falar, antes que a porta se fechasse:

— Deus te abençoe, filha.

Catharina Azevedo é natural de Salvador, Bahia. Em 2020, publicou o conto No Intervalo, presente na antologia “Soteropolitanos” (org. Matheus Peleteiro, edição independente). Seu primeiro livro de poesias, “deixe o bando correr selvagem”, está em pré-venda pela Editora Mormaço.

 

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149ª Leva - 04/2022 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

A febre de Petrov. Rússia/França. 2021.  

 

 

O filme de Kirill Serebrennikov, ainda não lançado nas salas brasileiras ou nas plataformas mais conhecidas, participou do prêmio do festival de Cannes de 2021, na concorrência de filmes incômodos, tendo afinal sido premiada nesse ano a obra Titane da jovem Julia Ducorneau, um filme com o qual A febre de Petrov tem bastante semelhança na radicalidade de seu desconforto estético. Para o mais glamoroso dos festivais de cinema globais, que ocorreu no meio do período pandêmico, esses filmes fazem aflorar sentimentos patológicos para as audiências confinadas e socialmente distanciadas por máscaras cirúrgicas e álcool gel.

Serebrennikov é um diretor russo, de cinema e teatro, bastante premiado e com problemas com a justiça de seu país por suas posições políticas. Ele foi contra a anexação da Crimeia e isso acabou resultando num processo no qual um orçamento público obtido por ele foi contestado judicialmente e o diretor acabou sendo condenado à prisão domiciliar, depois revogada. Porém, suas posições em prol do movimento LGBT e sua condenação à recente invasão militar da Ucrânia acabaram fazendo com que perdesse seu prestigiado cargo de diretor do Teatro Gogol de Moscou. Tudo isso demonstra que, nesses tempos de guerra, é importante assistir à produção russa de seus artistas, verdadeiras antenas irradiantes dos anseios populares.

É difícil resumir o feérico roteiro de A febre de Petrov. Petrov (vivido pelo ator Semyon Serzin) pode ser um mecânico de oficina, ou um cartunista que desenha em HQ a vida de um mecânico, ou pode ser ambos. Ele aparece tossindo e fungando num ônibus na cidade de Yekaterinburg lotado num tempo gelado. A história se passa em algum momento dos anos 90 na Rússia pós-soviética. Os passageiros reclamam da traição de Gorbatchov e Yeltsin. Ao sair do ônibus, revoltosos entregam uma metralhadora na mão de Petrov para atirar em cidadãos burgueses numa espécie de fuzilamento sumário. Não sabemos se essa cena é real ou não. Aliás, essa é uma das características do filme: a completa indeterminação entre o que é ficção ou o que é a imaginação alucinada de Petrov, cujo estado febril o deixa em delírios.  Sabemos que ele está separado de sua mulher bibliotecária (vivida pela atriz Chulpan Khamatova, conhecida por sua participação no filme Adeus, Lênin!), com quem tem um filho que também está febril. Sua mulher sofre de ataques de insanidade e espanca um poeta na biblioteca cujo poema a desagradou. Depois, com os olhos revirados tal uma alienígena persegue outro estranho do ônibus para assassiná-lo com uma faca. Esta assassina serial sente ainda vontade de degolar seu próprio filho, dela com Petrov, porém não o faz. Mas não sabemos se esses instintos assassinos de sua mulher talvez sejam outro delírio de Petrov.

 

Cena de A febre de Petrov / Foto: divulgação

 

Em outros momentos, Petrov se encontra com um amigo dramaturgo e encena uma de suas peças, depois vai para a casa dele e o ajuda a se suicidar, puxando o gatilho da arma. Depois se encontra com um amigo, que é pai de uma criança na mesma escola do filho de Petrov. Ambos estão numa caminhonete que serve de rabecão. O nome do amigo é Hades, o mesmo do inferno grego. Eles bebem junto na caçamba do carro junto a um caixão onde está um morto. Petrov está sempre muito mal e sentimos angústia por seu estado de saúde. Ele toma uma aspirina antiga, da era soviética que está fora do prazo de validade. Depois vai para casa de sua ex-mulher, a mesma bibliotecária assassina e descobre que seu filho está com a mesma gripe e com febre bastante alta. Porque o filho não acorda ele parte com pressa para um hospital, mas o carro quebra no caminho e desesperado ele pede ajuda a alienígenas que abduzem seu filho e o curam; assim, na manhã seguinte o filho está saudável para ir numa festa de escola com seu pai. E é na festa de escola do filho que, além de reencontrar seu amigo Hades, Petrov tem encontro com a “dama de mão branca”, que lhe lembra sua mãe. Petrov sonha (ou delira) com ela nua fazendo amor com seu pai e depois lhe levando a uma festa na escola, exatamente como ele faz com seu filho. E por aí segue a história, delirantemente.

Este roteiro fantástico e insólito pode às vezes sugerir um novo tipo de surrealismo, mas não é exatamente esta a estética utilizada por Serebrennikov. É antes um filme cheio de ruídos com uma trilha sonora entre o punk e o metal hard core. Há algo exatamente de hard core, do cinema brutal do servo Emir Kusturica. Brutalismo é uma definição melhor para esse filme que envereda por uma coleção de diferentes registros cinematográficos. Há, por exemplo, o farto uso do plano-sequência, uma estética da qual o cinema russo tem vários experimentos extraordinários. Há muitos travellings, câmera na mão com movimentos vertiginosos, cores exuberantes contrastando com sequências em P&B. Há também vários flashbacks e em muitas cenas os espectadores não conseguem reconhecer a temporalidade narrada. E há muitas cenas que se passam dentro do transporte público russo, seja ônibus ou caminhonetes, com a câmera registrando o cotidiano dos cidadãos russos no período imediatamente após a dissolução da URSS.

 

Cena de A febre de Petrov / Foto: divulgação

 

É um filme de dissolução. A dissolução soviética de um lado, mas também a do cotidiano do capitalismo bruto, sem mediação do Estado, que falido então se decompunha. Por outro lado, essa perspectiva “representativa” do filme não deve nos iludir. Lançado em 2021, em meio ao caos pandêmico, a gripe do personagem e seu estado febril nos remetem a outro contexto bem diferente. O paroxismo alucinatório do roteiro ocorre dentro de um ritmo ofegante, “à bout de souffle”, para lembrar o filme de Godard. Há um clima ficcional “asfixiante” e doentio que remete os espectadores ao mundo contemporâneo da pandemia e da guerra. E, embora a invasão da Ucrânia (condenada pelo diretor) seja posterior à realização do filme, o caos da realidade de Petrov parece também prefigurar a situação do povo russo que é levado à guerra por questões históricas que confusamente estão relacionadas ao período de decadência pós-soviética. Questões políticas e sociais não resolvidas emergem na ficção feérica de A febre de Petrov.

O cinema, embora seja a mais mimética das artes, não representa nada além de sua própria realização como imagem e movimento. O que ele propicia, como toda arte, são os meios nos quais os desejos e emoções coletivos, inclusive o medo, podem se figurar. O filme russo é essa trama complexa na qual a diferença entre realidade e fantasia se esgarça na passagem através da doença do protagonista e o estado febril da sociedade. A febre de Petrov é o portal entre a alucinação pessoal doentia e a história coletiva patológica. O mal-estar da civilização é comum a Petrov, a Serebrennikov e a nós espectadores.  E a conclusão é que a “realidade” retratada no filme é ela mesma inteiramente ficcional e não permite nos situar historicamente. Assim, a fronteira entre fake news, teorias conspiratórias e os fatos sociais também é rasurada. E daí os espectadores percebem que não estão vendo um filme sobre a passagem histórica entre a URSS antiga e a Rússia atual, mas sim com uma obra construída com as vibrações nervosas, febris e paranoides da vida contemporânea nas quais estamos todos jogados.

 

 

 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

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149ª Leva - 04/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Marcelo Benini

 

Ilustração: Drika Prates

 

Flores de Kafka

 

As cores sequestradas
Mistificadas em jardins
Ciano, magenta, amarelo e preto
Adesivos, banners, catálogos, prospectos
Brindes, camisetas, painéis
Uniformes anunciam a impossibilidade
De não estar mais dentro daquelas cores
De viver além do azul ou do vermelho
De fugir da identidade
De jogar o corpo fora da escala.

 

 

 

***

 

 

 

Passarinho

 

Só sei fazer poemas com passarinho
Todas as palavras cabem em passarinho
Dor, por exemplo, é uma palavra que
A gente não pensa em passarinho
Mas dor é passarinho
Na palavra gaiola
Saudade é uma palavra passarinho
Que procura terras distantes
Deus é passarinho no mamão
Amor é a palavra passarinho disfarçada
De passarinho.

 

 

 

***

 

 

 

Degredo

 

Deste país nada sei
Nele não respiro
Moro no país das árvores caídas
Dos banheiros sujos
Das escolas que enganam
Tropeço nas manhãs sóbrias
E infames deste lugar
Que não reconheço
Quero as noites sem pátria
Dos copos vazios
Do país de ontem.

 

 

 

***

 

 

 

A visão iletrada

 

Leio meu país
Com a visão iletrada
E o sorriso envergonhado
Faltando dentes

O país onde só as solidões
Grandes podem existir

A dos meninos
Das estatísticas
E a das fronteiras
Distantes
Em territórios vazios
De país

Leio meu país
Com o coração dos que
Nada sabem
Trancados neste lugar
Imaginário

De montanhas para baixo
E cidades desabitadas

Na posta-restante dos extravios humanos
Nasci neste país
Imenso e imerso
Em mim.

 

 

 

***

 

 

 

Palíndromo

 

Encontro sombras nos olhos negros
Sob a copa da árvore
No fundo do rio
Posso sair do rio
Mas estaria sob a copa da árvore
Posso cortar as árvores
Lá estariam os olhos negros
Posso fechar os olhos
Só restariam sombras.

 

 

 

***

 

 

 

Retrato com abelha no cabelo

 

Escrevo o lado oposto de quem me lê
Nunca pensei ser compreendido
Senão por passarinhos e saguis
As frutas me ajudaram mais que os
Dicionários de verbos e regimes
E as gramáticas
As palavras com as quais me importo
Ciscam
O vento que escrevo está nas folhas
Dos buritis
Só faço versos que têm sopro
No coração.

 

Marcelo Benini nasceu em 1970, na cidade de Cataguases, Minas Gerais. Publicou “O Capim Sobre o Coleiro” (poesia/2010/edição do autor); “O Homem Interdito” (crônica/2012/Intermeios); Fazenda de Cacos (poesia/2014/Intermeios); “Currais Concretos” (poesia/2018/Intermeios); “Poemas do Núcleo Rural” (poesia/2022/Penalux). Vive em uma área rural próxima a Brasília/DF.

 

 

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149ª Leva - 04/2022 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Marciel Cordeiro

 

Ilustração: Drika Prates

 

E essa solidão não vai me deixar em paz

 

Ninguém se importa que você esteja escrevendo seu próximo livro. Para eles o mais importante é eleger o novo presidente, ou ir ao show de um cantor sertanejo que cobra cachês exorbitantes. O importante é escrever aquele texto, aquela fala, aquelas linhas. Dizer que o personagem é um maldito esquizofrênico.

Abro a janela. Puxo a persiana e vejo a montanha que protege a cidade. Já não ouço aquela velha canção do Otis que diz, eu espero que você possa entender isso, meu amor. No fundo agora me sinto mais solitário que o Roberto Baggio depois de errar o pênalti. Mas a vida é uma maldita competição sem regras. Você fica perdido num labirinto sem saída.

Volto para aquele bar às margens da avenida. Tenho aquela velha mania de nunca me sentar de costas para a rua. Bebo porque assim a melancolia tem mais sentido. E a garota que amo, diz que fará de tudo para me esquecer. Mas no fundo sou um egoísta, alguém que decepciona no fim.

 

 

 

***

 

 

 

Perdido em São João de Meriti

 

Morei um curto tempo em um quarto de motel, em São João de Meriti.  O motel parecia um prédio velho abandonado. Havia uma luz de néon ofuscada e um estacionamento que funcionava como ponto de usuários de drogas. Ficava próximo aos trilhos da Supervia. Aquele motel atendia as pessoas do submundo. Barato e próximo de uma estação de trem.

Quando passava das dez da noite aquele prédio fervia. Eu saía do meu quarto e ficava dando voltas por ali. Creio, que pensavam que eu poderia ser um cana que trabalhava de segurança nas horas vagas, mas talvez não, eu nunca tive cara de cana. Tinha mais cara de traficante querendo tomar a boca de outro do que qualquer outra coisa.

Certa vez bateu um temporal. Esses temporais de verão que chegam sem avisar. Com direito a raios e trovões. E eu estava debaixo da marquise do motel olhando aquela tempestade. Sou fascinado por tempestade. E de repente veio chegando mendigos, usuários de drogas e travestis. Um aglomerado de pessoas. Ficamos todos ali. Os raios caíam e depois vinha o trovão. Era fantástico. Só que aí chegou a Kombi de abordagem da Assistência Social. Alguns correram, outros fecharam a cara. E eu fiquei na minha. Apareceu uma mulher de óculos com uma prancheta na mão e colhendo os nomes das pessoas. Até que chegou minha vez. Respondi todas as perguntas. Quando a Kombi partiu só havia eu ali debaixo daquela marquise.

Depois um raio atingiu uma torre de telefone. Havia um ponto em comum entre eu e aquelas pessoas. Procurávamos algo. Eu não sabia o que. Muito menos aquela Assistente Social de óculos e com uma prancheta na mão.

 

 

 

***

 

 

 

Sou puro fogo

 

Sou impetuoso. Tenho me controlado. Mas sou filho de Xangô. Tem dias que quero botar fogo no mundo. Então, eu respiro fundo e me controlo, falo comigo, “acalma-se, precisa se livrar desse senso de justiça”. Isso não é bom. A psicóloga diz que preciso descarregar. Desligar o cérebro. Que tenho muita energia acumulada e que isso vai me destruir. Isso me machuca um bocado. Sabe, o filho de Xangô só fica em paz quando a tempestade cai, quando os raios cobrem o céu, quando os trovões estremecem o chão. Temos muitas coisas dos negros africanos que vieram das matas tropicais. Um filho de Xangô não serve para a calmaria. Um pai de santo me disse que devo ter cuidado com os amores, esses amores fugazes e passageiros. Tive várias paixões e não consigo descarregar do que já passou. Parece que estamos amarrados ao outro. O amor parece me socar ferozmente. Fico na lona. Melancólico e deprimido. A melancolia tem gosto de suco gástrico que sai junto ao vômito em dias de ressacas. Tenho me cuidado. Buscado mais espiritualidade, sou muito cético.

E hoje pela manhã comprei uma briga com um velho que estava colocando dois galos para brigar. Tenho pavor aos maus tratos com animais. O velho falou que aquilo era hobby, que era a única coisa que tinha pra fazer. Eu não me importei com a solidão dele. Eu também preciso cuidar de minha solidão. Por fim voltei para casa e liguei o rádio. O locutor entrevistava uma advogada com especialização na área econômica. Falava que algo precisaria ser feito para salvar a economia. Eu fico triste todas as vezes que ouço esse papo furado.

Tenho que fazer um banho de descarrego. Cuidar do santo. Preciso deixar de pulverizar raiva pelos poros. Vou ao banheiro e me masturbo. Isso me deixa leve por alguns minutos.

 

 

 

***

 

 

 

Eu gosto de me sentir forte e importante. Acho que todos nós. Ninguém nasce fadado ao fracasso. No entanto, há um sistema que não conhecemos que tenta nos deixar para baixo. Quando criança você sonha, quer ser algo importante quando estiver adulto. Eu quis ser um monte de coisas, por fim me restaram duas opções. Vagabundo e escritor. Na verdade, acho que sou os dois. Um vagabundo é um intelectual pobre, fica ali garimpando o que todos acham que não presta e o escritor é um vagabundo oportunista. Passa tudo para o papel. Nesses momentos de crise há muita matéria-prima para um escritor. Somos como os banqueiros. Mas os banqueiros querem grana. Lucro. E só. Já um escritor escreve por egoísmo, para dar sentido à vida, ou nem sabe ao certo por que escreve.

Às vezes ficamos improdutivos. Não há nada para escrever. Sentamos frente ao computador e não conseguimos. Tento escrever sobre o amor, esse amor comercial do sistema capitalista, escrever de coisas fúteis que parecem importantes para muitas pessoas. Ou uma crítica pesada à política. Não. Isso não é legal. Uns falam que para escrever precisamos de técnica, outros falam em coisas espirituais. Comigo não funciona. É como sexo. Eu escrevo como se fosse uma boa transa. Uma foda. Eu gosto da palavra foda. É mais subversiva.

Nesses últimos dias tenho ficado inquieto. Ando impaciente pela casa. Falo sozinho e recito uns poemas em voz alta. Canto canções que invento. Eu nunca lembro uma canção por inteiro. Sou péssimo para cantar. Mas é isso. Hoje o dia está lindo. Sol, céu azul e algumas poucas nuvens brancas.

 

Marciel Cordeiro é baiano, reside no Espírito Santo. Graduado em Serviço Social. Publicou alguns contos e poemas em antologias.  É o autor dos livros “Caminho para Texas”, publicado pela editora Cousa, em 2019, e “Essa coisa louca chamada amor”, 2021, também pela editora Cousa.

 

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149ª Leva - 04/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Leonardo Bachiega

 

Ilustração: Drika Prates

 

Nua

 

nada sabe esgotar
que este mistério de corpo
em volta de mim
beijado
inicia

um texto
de inseparáveis linguagens

 

 

 

***

 

 

 

Tatuagem

 

nos descosturamos
para fazer a água dos mares
a razão dos lugares
por explorar
e hipnotizar o mundo
dando nossos avisos

eu me divido
entre suas penínsulas desertas
e suas praias
desenhados por sereias

 

 

 

***

 

 

 

pequenas jornadas

 

1.

ninguém sofrerá tanto quanto uma mãe
a separar-se de sua terra

tarde ela busca alfazemas
que ora se desfaz

para desmanchar-se em vida como um dente-de-leão num sopro

2.

deito esperando debruçar-me
como uma criança desajeitada
dormindo numa nuvem improvisada

3.

remendando a túnica
meia-lua
a folhas de bananeira

no que a sua sombra
engolia o deserto
fazia um novo filho
na alba
uma mulher

4.

a palavra ajoelha-se no leito
como fora um amigo
como se um rio passasse no pensamento

5.

nos perguntamos sempre próximos
dos nossos povos o que vocês são
mesmo que nossos povos
não sejam mais que pedra

6.

está o homem parado
pelo agreste que o atravessa
nessa carne sol
nos dias quando celebra a solidão igual a uma amante
as voltas das folhagens são assim as mais nuas

7.

a mulher procurou uma clareira para beber
como se definhasse palavra por palavra
largou o corpo na primeira esquina
deitou-se como numa pintura de schiele
entendia o espaço
como o carinho de um ser amado

8.

vivi em outro tempo longe
acordava com a planura da mulher
e cantigas de uma ave
era outro o que em mim curvava
como a madrugada do itálico de uma letra
hoje ajudo o silêncio
para me desfazer lentamente

9.

o que é a cólera
perguntou certa vez o monge

são as campas oferecidas
que segredam às mães…
separação

10.

um pouco triste
levo meu pensamento
num caminho cercado
por relíquias amorosas

que monge fez da terra crucifixo
para a alma
criar um agricultor
prestes a plantar orações

 

Leonardo Bachiega é arquiteto, urbanista e escritor, nascido em São Paulo, hoje reside na cidade de Carapicuíba. É autor de alguns livros de poesia e um de dramaturgia e no momento se dedica a um livro de contos e mais uma peça. Possui poemas publicados em diversas revistas literárias do Brasil e Portugal, e também possui poemas em diversas antologias, entre elas a antologia da off flip. É criador do podcast “Proximidades do Acaso”, onde recita poemas. Essa leva faz parte do livro “ A cidade é o céu”.

 

 

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149ª Leva - 04/2022 Gramofone

Gramofone

Por Gustavo Rios

 

ANDRÉ LISSONGER – CANÇÕES DEMO SESSIONS 2

 

 

Apesar de ter sido feito durante a terrível situação da pandemia, CANÇÕES Demo Sessions 2, novo trabalho do músico André Lissonger, passa longe de ser um álbum sombrio e tristonho. Ou mesmo uma reunião de anêmicas bravatas “roquenrol” contra o establishment que matou mais de meio milhão.

Com uma bela capa criada pelo próprio, também artista plástico, CANÇÕES Demo Sessions 2, lançado pelo bravíssimo selo Trinca de Selos no começo de 2022, é composto por um apanhado de músicas sensíveis, cativantes e melódicas que elevam ao extremo as composições nela inseridas. Cheio de efeitos que emprestam ao trabalho aquela característica classuda e etérea (scratches instigantes, loops certeiros, vozes dobradas e ruídos meio “outonais”), as 11 faixas do álbum sofrem influência de muitos gêneros, com destaque para o Trip Hop, oscilando numa boa entre os londrinos do Morcheeba e a moçada arrasa-quarteirão da portuária e multirracial Bristol (Tricky, Massive Attack, Portishead; só para ficar na turma dos anos noventa).

Valendo-se também da onda Lo-fi, com sua mistureba relaxante de hip hop, música eletrônica e jazz, André nos surpreende tendo como princípio o espírito “demo” da coisa; espírito que pressupõe arrojo, genuína disposição para experimentar e uma boa dose de liberdade nas escolhas em geral (a vinheta “Olha, Mas Não Mexa” é um exemplo, pela “incitação” a “Girl From Ipanema” de Anitta).

André Lissonger, figura tarimbada no panorama musical baiano, com participações em diversos projetos e bandas, se trancou em casa com seu “estúdio de bolso” (nada menos que o celular pessoal da artista com uns aplicativos geniais) e decidiu viajar. Viajar para dentro – apesar da pompa do release sobre “um olhar sob a tempestade do ‘status quo’ do consumismo e sua quintessência”, ainda defendo a tese do intimismo; mais pertinente, na moral. Da necessidade de criar arranjos para as belas composições de gente como o irrequieto Tony Lopes e do também artista gráfico Joniel Franco (sem falar no “poeta das coisas simples”, Mário Quintana), esse carioca-baiano conseguiu o que, para mim, tem jeitão de proeza: converter imperfeição (basicamente a ideia de um “demo” feito num celular) em música de indubitável qualidade.

 

André Lissonger / Foto: divulgação

 

Explico: hora ou outra, o ouvinte se depara com uma voz que parece desafinar, ou mesmo com letras aparentemente ingênuas e mal trabalhadas – noções para lá de equivocadas. Entretanto, e curiosamente, foi esse combo inusitado e inteligente que me chamou a atenção logo de cara. Lissonger me fisgou pela visão do todo, pelo talento na criação e na execução das músicas, pela consciência do resultado de seu labor (a voz que supostamente desafina tem um motivo, é fruto de uma escolha, de uma concepção) e pelo já citado incomum, fatores que me fizeram pensar a obra inicialmente em termos de experimentalismo.

As letras (ou poemas) se encaixam perfeitamente nos arranjos e vice-versa, numa simbiose merecedora de elogios – e que só o fazer musical proporciona. Temos o hermetismo poético em “Topázios”, passando pela extasiante “Flutuando Sonhos”, do Tony Lopes (“A rua ruge os seus barulhos / Acalenta saudades / Ela livre apenas ri / Com os olhos no Louvre / Sinuosas linhas / Sombras / Com um sol a se opor / A solidão / Quatro paredes / Portas e janelas / Abertas / Como o sorriso / Da Mona Lisa”).

Em “Leblon” percebemos a cadência charm com um piano, enquanto na adaptação musical do texto de Mário Quintana, “Canção do Primeiro do Ano”, a batidinha meio downtempo (considerando o conceito dos 120 bpm’s; aqui bateu 82, 83, de boa) segue abrindo caminho para a complexidade do baixo e para os efeitos de uma guitarrinha wah wah, não na maneira usada no rock e no blues, por exemplo: aqui, a guitarra surge como textura e reforço à atmosfera do som.

Dessa forma, ainda que o baiano-carioca (a ordem dos fatores não altera o produto) André Lissonger não tenha pensado em experimentalismos no decorrer de seu projeto (conceitos e abstrações que só nos levam a labirintos chatos e falsamente intelectuais; o lance é fazer boa música e pronto!), o resultado de seu trabalho me causou aquele tipo de sentimento em que a gente se vê diante de algo novo, mesmo conduzido por elementos já conhecidos – a ideia de um artista em seu estúdio (celular, no caso) criando novos sons sob o método conhecido como bricollage, ou bricolagem, me agradou bastante.

Assim, mesmo que minhas ideias sobre pandemia e experimentos musicais pareçam forçar um pouco a barra na tentativa de explicar CANÇÕES Demo Sessions 2 sugiro que você, querido leitor, escute o cara. E o conheça. Quem sabe você, assim como eu, acerte as contas com a história musical, já que Lissonger está por aí há décadas. Fazendo coisas que valem demais a pena.

Torço pela longevidade dele. E de sua boa música também.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.

 

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149ª Leva - 04/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

CONTEMPORÂNEA PELO AVESSO

Por Sandro Ornellas

 

 

Acabo de ler Danny, narrativa escrita por Maria Elvira Brito Campos, publicada em 2022, em bonita edição de bolso pela piauiense Cancioneiro. Novela lírica, melancólica e, de certa forma, geracional, o que me tocou particularmente. Como diz Antonio Candido em famoso prefácio a Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Hollanda: “a certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço do passado sem cair na autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna registro de muitos”. E a narrativa de Maria Elvira, sem ser propriamente seu testemunho, possui algo do teor testemunhal que diz de uma experiência geracional, mesmo quando ficcionalizada. A própria prefaciadora, Katia Borges, diz que o personagem título “se parece muito com os melhores amigos que tive”.

E do que trata Danny em seus 45 pequenos capítulos, quase fragmentos, vários com um único parágrafo? Da errância melancólica do seu protagonista ao longo dos dias, encarando uma grave doença – nomeada apenas como “a bola cinza” no interior da sua cabeça –, da fiel amizade de Laura, das paixões e amores fugidios e irrealizáveis de ambos, de suas solidões, compartilhadas ou não, do seu confinamento e da consciência do envelhecimento. Embora pudessem ser tratados de modo independente, todos esses “temas”, digamos assim, vão e vem ao sabor do humor dos personagens no fluxo narrativo, pois a autora investiga a experiência de ambos, não os “temas” em si.

São personagens que possuem, por um lado, traços relativamente específicos. Danny é artista plástico e Laura, tradutora. Mas não é isso que está em questão na história, cujo foco varia de um para o outro, com ênfase sempre maior na expectativa de Danny com a cirurgia e em seu cotidiano entorpecido à base de remédios, mesmo depois de livre da “bola cinza”. Ele vive com dois gatos; ela com um cachorro. E formam um retrato cuja melhor definição ao longo das páginas me aparece no capítulo 26:

 

“Laura estava triste. Foi até a sacada, pensou em Danny. Um sobrevivente. Tão pouco e tudo. Pássaros na garganta. Ela sabia que não estava preparada para nada disso de novo.

Janelas abertas. Coisa boa é morar no primeiro andar. Laura sorriu para as crianças na rua e voltou para a sala. Sentou-se no sofá, seu cantinho gostoso, medicou os dedos, Johnny lhe fez um afago, quando o telefone tocou: Hey, sugar, take a walk on the wild side.

Danny sempre a salvava!”

 

É assim, acompanhados pela trilha sonora de Lou Reed, somos conduzidos por uma narrativa cheia de desvãos afetivos e líricos e de certa forma cúmplice dos dois personagens sobreviventes do último quarto do século XX. É essa cumplicidade que cria, por outro lado, o aspecto geracional que sublinho na narrativa, seja pelas referências explícitas, seja pelas implícitas.

Há algo de selvagem e inocente na história escrita por Maria Elvira. Selvagem e inocente como a canção de Lou Reed e as histórias dos que não sobreviveram àquele quarto de século: Caio F., Ana C., Leonilson, Cazuza, Renato Russo, dentre tantos outros que se pareceriam com Danny e Laura, se tivessem vencido o fato de crescerem durante a ditadura, a mesma que levou muitos à loucura, ao suicídio e, de certa forma, se prolongou matando outros através da epidemia do HIV. Sobreviventes, selvagens e inocentes, Danny e Laura vestem a melancolia de uma geração que chegou à segunda década do século XXI fragilmente equilibrando solidão e amizade, tesão fugaz e esperanças de amor, lucidez e entorpecimento, juventude e envelhecimento, vida e morte. O eixo que sustenta esses pratos na história é a melancolia que os personagens carregam, embalados por canções daquele quarto de século, que parece não os ter abandonado e lhes dá uma aura de tristeza, que, todavia, traz muito da beleza narrativa de Danny.

Na minha leitura, apenas em dois momentos percebi tratar-se na verdade de uma história do século XXI. Quando Danny, flertando imaginariamente com Bruno, pensa nas diferentes referências entre ambos: “Em tempos de aplicativo, Bruno não iria compreender essa referência tão Satellitie of love, tão David Bowie em Marte, tão fora daquele mundo…”; e quando, depois de repentinas descrições do silêncio e vazio das ruas, Laura obriga Danny a se mudar para sua casa, manda-o tomar banho seguindo “protocolos” e fala-se em “confinamento”, em menção cifrada à pandemia da Covid-19.

Talvez haja mais indicativos dessas duas primeiras décadas do atual XXI, mas a extemporaneidade da narrativa e dos dois personagens, seu descolamento subjetivo em relação ao mundo social e as referências musicais citadas ao longo do texto não deixam dúvida tratar-se de “sobreviventes”. Eu diria mesmo que a narrativa de Maria Elvira é uma narrativa sobrevivente, pois lança mão de uma atmosfera pop até certo ponto datada, em relação ao que passou a se escrever no século XXI. E aí está muito do charme dessa história. Se a profecia de Andy Warhol sobre a cultura pop foi de que todos teriam direito a quinze minutos de fama, para depois cair no ostracismo, esses quinze minutos acabam funcionando como referências histórico-geracionais. Se a cultura pop vive da descartabilidade, ela também permite entender muito da segunda metade do século XX através, por exemplo, da trilha sonora, como é o caso, em Danny, de Lou Reed, Gracie Jones, Patti Smith e David Bowie rondando todo o tempo a vida dos personagens. E é muito com o espírito de Lou Reed que a narrativa se constrói, transformando Danny e Laura em alguns dos personagens do álbum Transformer, de 1972, do compositor novaiorquino.

Se há um pop alegre e festivo, registre-se que o pop de Danny, no entanto, é triste e sombrio. E é justo aí que percebo sua maior contemporaneidade. A contradição do pop, desde as ampliações fotorrealistas de acidentes fatais feitas por Warhol, hoje estão mais visíveis do que nunca. Ídolos teen do pop coreano (e não só eles) se suicidam em série, mostrando os limites tóxicos da felicidade e esperança vendidas pela indústria do entretenimento. Já a melancolia e solidão de Danny e Laura, se inicialmente faz sentido serem lidas como de uma geração que envelheceu, também tem muito a ensinar à geração que cresce sob as tecnomaravilhas virtuais do neoliberalismo e que sofre igualmente, ou talvez ainda mais cedo, do que quem chegou à pandemia com pouco mais de cinquenta anos.

Danny, portanto, possui o que um pensador disse tratar-se da definição do contemporâneo: o obscuro, o invisível, o solitário, o sombrio e desatualizado, em um mundo no qual tudo e todos buscam ser visíveis, alegres, festivos, produtivos e estar no fluxo e na moda. Concluo a leitura assim, com a sensação de que Danny é uma narrativa contemporânea pelo avesso, conseguindo falar daquilo que todos sabem estar à espreita, mas a que ninguém se refere por estar fora de moda.

 

Sandro Ornellas é poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Dói-me este mundo de violentas esperanças (Patuá, 2021), Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.

 

 

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149ª Leva - 04/2022 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

A INCORPORAÇÃO NA POESIA DE ROBERTA TOSTES DANIEL

Por Lorraine Ramos Assis

 

 

O corpo humano é um amontado formado por células. Suas estruturas, das mais simples às mais complexas encaixam-se em células, tecidos, órgãos, sistemas e organismo. E cada uma desempenha um papel dentro de um todo hierárquico, dialético. Ao movimentar-se, essa mesma estrutura tem a função de sobreviver a um determinado espaço ou a explorá-lo.

Deparar-se com a imagem corpórea, as deslocações geográficas e a própria natureza é o quadro a se caracterizar a poesia sinestésica presente na obra “Ainda ancora o infinito” (Moinhos/2019) da poeta Roberta Tostes Daniel, em que o lugar assegurado na poesia lírica é tensionado pela memória do sujeito.

 

Escreve
hei de dizer a fome
que me devora a boca;
hei de dizer a boca
(novena de silêncios

intifada
ante-fome
fome)

 

Nos trechos do poema que se apresenta, temos a inversão em “devorar a boca” na sucessão da diferença de retornar ao ato habitual da função do órgão. Nos é demonstrado como o registro da linguagem está a consumir o indivíduo. Nas mudanças dos termos da procura ante a fome, esfomeada de palavras a serem produzidas na inscrição poemática, a dicotomia entre o silêncio e o desespero é proferida nos versos construídos sob a espacialidade gráfica da página. O corpo do poema, portanto, torna-se corpo do sujeito. Corpo memória.

Outra característica corporal de Roberta é o recurso a combinar deslocamentos espaços temporais com sensações imediatas a serem apercebidas pelo leitor viajante. Se a transitividade é transposta por vinculações nacionais, a mobilidade do sentimento-sensação não é estático, restrito a uma só voz que aspira a englobar um tópico, mas sim lembranças.

 

Sábado
céu consolidado
trilhas ao redor do Rio.
Dizer sim ao não
saber outros meios
de chegar
molhando os pés
da areia.
(…)
hoje, toda palavra
é terra

 

A depuração do agir urbano como movimento de desejo e contrariedade (dizer sim ao não) é entendido como um processo de elaborações de expansões contínuas. Se há outras formas de se locomover, aterrar em determinado espaço, é porque existe uma quantidade de matéria falada, uma elasticidade do escrito poético, tendo em vista que “hoje, toda palavra é terra”.

Não é pela instauração do local árido que a poesia de Tostes representa, mas sim a instauração do processo sem fim do registro linguístico pela localidade. O construtivo do tratamento da fala é conformado pela experiência de se trilhar novos caminhos. E isso se dá pela noção da realidade física e psicológica.

Adiante com o trânsito entre os variados impulsos das cadências, a musicalidade não está somente nos aspectos formais das estrofes da escritora, mas circunda temas que se envolvem com os demais.

 

Sim, a música. Como tudo, também tem som de chuva hoje.
Janelas molhadas. A tarde que segue suave, mas maciça como uma nuvem escura. E nesse breu que não é a noite, deposito meus olhos. De ouvir tanto. Forma-se a imagem, música incidental. Memória que ainda. Não vivi.

 

A partir da emocionalidade do texto, nota-se a cronologia dos fatos em linhas de fragmento, pontuadas como a escolha da recursividade desta vez. As implicações da noção da imagem narrativa dos fenômenos da natureza exprimem a metáfora sonora, musicalizada na voz autoral ao presenciar “tarde que segue suave mas maciça como uma nuvem escura”. Um traçamento de seleções tonais, de tonalidades a serem descortinadas (como uma janela molhada) a quem visualiza os desdobramentos em volta da estrutura sintática de Roberta.

Um livro que, por ser constituído de membros elásticos, da mobilidade sem fim até o imaginário de seus ouvintes na amplitude temporal, marca o pensamento de um corpo. Corpo este que, de acordo com Merleau-Ponty,  “Eu não estou diante de meu corpo, estou em meu corpo, ou antes, sou meu corpo”.

 

Publicada em 12 revistas digitais ao longo de dois anos e meio, tais como Ruído Manifesto, Mallarmargens, Vício Velho e Aboio, Lorraine Ramos Assis, em seus 25 anos, é uma artesã do caos. É estudante de Sociologia, na UFF. Integrou a antologia Ruínas, da editora Patuá, e a antologia LiteraturaBr. Concedeu duas entrevistas no canal “como eu escrevo”. Colabora com o portal Faziapoesia.