Foto: Gilucci Augusto

Temos presenciado dias conturbados em nosso planeta. Não bastasse o inimigo mortal e invisível que nos faz companhia desde o principiar de 2020, vamos colecionando tragédias cotidianamente, todas elas marcadas pela insana aptidão humana para a destruição em seus mais variados níveis. Assim, aniquila-se a natureza no mesmo compasso em que eliminamos os nossos iguais pelo gesto irracional da barbárie. O despertar de uma guerra nos relembra nossas mesquinharias mais comezinhas, truculento desejo de dominar o outro por razões esmaecidas. Questão que se impõe é como faremos para descontaminar o nosso caminhar sobre o mundo, agindo num movimento contrário à perspectiva de desolação que sempre teima em aparecer no horizonte quando as crises se mostram cíclicas e persistentes. Há espaço para a libertação das consciências e, assim, para o cultivo de alternativas otimistas? Por certo, a resposta está em nossas mãos, não necessariamente sob nosso pretenso e inteiriço controle. Quiçá os instrumentos da Arte possam nos guiar nessa tarefa longa de reconstrução e ressignificação da nossa história sobre a Terra. E estamos aqui a falar de Arte como potência criadora que não se aparta em momento algum da realidade, seus matizes políticos, econômicos e sociais. Portanto, autores e artistas não estão dissociados do debate maior sobre o seu tempo, da tentativa de compreensão dos fenômenos que afetam nossas humanidades de forma contundente e inalienável. Não se usa camisa de força para tal, o gesto nos pertence por natureza. Diante de um mundo que nos aplica doses constantes de assombro, é bom testemunharmos, por exemplo, o pensamento de um criador como Alex Simões, poeta e performer que é o nosso entrevistado da vez e cuja obra propõe um diálogo com os temas sensíveis de nossa atualidade. Numa linha semelhante, nos deparamos com as ilustrações de Bianca Grassi, as quais nos fazem companhia por todos os recantos de nossa nova edição. São de Kleber Lima, Clarissa Macedo, Elton Uliana, Manuella Bezerra de Melo e Priscila Branco as janelas poéticas que nos ofertam versos pungentes. Foi também pensando questões atinentes ao mundo que nos perturba que Guilherme Preger escolheu para sua análise o filme romeno “Má sorte no sexo ou pornô acidental”, do diretor Radu Jude. Não foi diferente com Larissa Mendes que, ao trazer à tona sua resenha sobre “Preto Sem Acúcar”, novo disco da banda OQuadro, reflete sobre as marcas raciais entranhadas em nossa sociedade, dentre outros temas. Em seu texto sobre “Os vivos (?) e os mortos”, emblemático livro de poemas de Fernando Monteiro, Sandro Ornellas expõe o delicado testemunho que a memória atroz da ditadura militar brasileira evidencia. Nos contos de Susana Fuentes, Adriano B. Espíndola Santos e Ianê Mello, o traçado sensível da vida insiste em se manifestar. É Vinicius de Oliveira quem nos apresenta “Levante”, livro do poeta Henrique Marques Samyn e que evoca a marcante história do povo negro no diapasão África-Brasil. É com grande satisfação que apresentamos aos nossos leitores a 147ª Leva da Diversos Afins. Boas leituras!
Os Leveiros
Elton Uliana

ausência
o corpo
imperceptível
em sua
palpável
totalidade
ali
esparramado
entre
o que a tela
faz
presente
e
o que
deixa
………………….de lado
***
vazio
no som insistente
dos pés
o desejo
delinear
a física solidez
de uma figura
fantasmagórica
andando
sem rumo
para cima
e para baixo
nunca sucedendo
em produzir
um ser de sentido pleno
um ser todo
pendurado
…………….pelas
…………………próprias
…………………….palavras
***
razão insatisfatória
…………………….a questão
sobre
o que está envolvido
na leitura
de um poema
conecta-se
com
…………………a questão
…………………………………….central
sobre a qual
este poema
medita
nomeadamente
……………….a questão
***
uma sensação de abismo
entre a altura aérea
da torre
e
o pesadelo inconstante do poço
a mesmice incessante dos aeroportos
***
contínuo
a narrativa
é o impedimento da morte
tomando refúgio
na fantasia de uma ilha
como uma curva fabular
dentro do tempo comum
da extinção
a narrativa
do fim
da narrativa
é ela própria
fechada
dentro
de uma narrativa
adicional
o fato da aniquilação
mantido no futuro da narração
ou
consignado
ao passado
da sobrevivência
***
realidade bruta
esfregando os narizes
no fato de que
aconteça o que acontecer
no poema
acontece
em termos da linguagem
mas
linguagem
assim
carece
de espessura
de textura
separações tempestuosas
colapsos trágicos
conjunto de marcas pretas
palavras enviadas
em uma farra
estendendo-se por meia página
com
becos labirínticos
e
alamedas sintáticas
impulsionando o significado
da passagem
por meio
de cantos gramaticais apertados e
curvas fechadas
***
uma sentença
uma sentença
de estilo fraturado em sua itinerante tipografia no espaço branco serpenteando em uma névoa de metáforas evitando o verbo com as ferramentas da gramática e do léxico suas consoladoras repetições de som e palavra refletindo sobre a força de produzir imagens e sua frágil linguagem figurativa adulterando os esforços da prosa denotando com suas descrições elusivas e seu tom portentoso e seu registro petulante e suas arritmias sintáticas e seus digressivos complementos permanentemente deslocando-se protelando-se oscilando eternamente entre domínio e acidente até que de repente uma virgula um pivô
um ponto
Elton Uliana é escritor, tradutor e crítico literário brasileiro radicado em Londres. Ele é o coeditor do Brazilian Translation Club da University College London (UCL), um projeto criado para a disseminação de escritores brasileiros no mercado literário anglófono. Atualmente trabalha com o Laboratório de Antropologia Multimídia da UCL, desenvolvendo um Museu de Patrimônio Cultural em Realidade Virtual para e junto com os povos Guarani e Kaiowá do Brasil, uma parceria entre a UCL e o Museu Britânico.