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148ª Leva - 03/2022 Galeria

Foto: Gilucci Augusto

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147ª Leva - 02/2022 Ciceroneando

Ciceroneando

Ilustração: Bianca Grassi

 

Temos presenciado dias conturbados em nosso planeta. Não bastasse o inimigo mortal e invisível que nos faz companhia desde o principiar de 2020, vamos colecionando tragédias cotidianamente, todas elas marcadas pela insana aptidão humana para a destruição em seus mais variados níveis. Assim, aniquila-se a natureza no mesmo compasso em que eliminamos os nossos iguais pelo gesto irracional da barbárie. O despertar de uma guerra nos relembra nossas mesquinharias mais comezinhas, truculento desejo de dominar o outro por razões esmaecidas. Questão que se impõe é como faremos para descontaminar o nosso caminhar sobre o mundo, agindo num movimento contrário à perspectiva de desolação que sempre teima em aparecer no horizonte quando as crises se mostram cíclicas e persistentes. Há espaço para a libertação das consciências e, assim, para o cultivo de alternativas otimistas? Por certo, a resposta está em nossas mãos, não necessariamente sob nosso pretenso e inteiriço controle. Quiçá os instrumentos da Arte possam nos guiar nessa tarefa longa de reconstrução e ressignificação da nossa história sobre a Terra. E estamos aqui a falar de Arte como potência criadora que não se aparta em momento algum da realidade, seus matizes políticos, econômicos e sociais. Portanto, autores e artistas não estão dissociados do debate maior sobre o seu tempo, da tentativa de compreensão dos fenômenos que afetam nossas humanidades de forma contundente e inalienável. Não se usa camisa de força para tal, o gesto nos pertence por natureza. Diante de um mundo que nos aplica doses constantes de assombro, é bom testemunharmos, por exemplo, o pensamento de um criador como Alex Simões, poeta e performer que é o nosso entrevistado da vez e cuja obra propõe um diálogo com os temas sensíveis de nossa atualidade. Numa linha semelhante, nos deparamos com as ilustrações de Bianca Grassi, as quais nos fazem companhia por todos os recantos de nossa nova edição. São de Kleber Lima, Clarissa Macedo, Elton Uliana, Manuella Bezerra de Melo e Priscila Branco as janelas poéticas que nos ofertam versos pungentes. Foi também pensando questões atinentes ao mundo que nos perturba que Guilherme Preger escolheu para sua análise o filme romeno “Má sorte no sexo ou pornô acidental”, do diretor Radu Jude. Não foi diferente com Larissa Mendes que, ao trazer à tona sua resenha sobre “Preto Sem Acúcar”, novo disco da banda OQuadro, reflete sobre as marcas raciais entranhadas em nossa sociedade, dentre outros temas. Em seu texto sobre “Os vivos (?) e os mortos”, emblemático livro de poemas de Fernando Monteiro, Sandro Ornellas expõe o delicado testemunho que a memória atroz da ditadura militar brasileira evidencia. Nos contos de Susana Fuentes, Adriano B. Espíndola Santos e Ianê Mello, o traçado sensível da vida insiste em se manifestar. É Vinicius de Oliveira quem nos apresenta “Levante”, livro do poeta Henrique Marques Samyn e que evoca a marcante história do povo negro no diapasão África-Brasil. É com grande satisfação que apresentamos aos nossos leitores a 147ª Leva da Diversos Afins. Boas leituras!

Os Leveiros

 

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147ª Leva - 02/2022 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Elton Uliana

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

ausência

 

o corpo

imperceptível
em sua
palpável
totalidade

ali

esparramado

entre
o que a tela
faz
presente

e

o que
deixa
………………….de lado

 

 

 

***

 

 

 

vazio

 

no som insistente
dos pés

o desejo

delinear
a física solidez
de uma figura
fantasmagórica

andando
sem rumo
para cima
e para baixo

nunca sucedendo
em produzir
um ser de sentido pleno

um ser todo

pendurado
…………….pelas
…………………próprias
…………………….palavras

 

 

 

***

 

 

 

razão insatisfatória

 

…………………….a questão

sobre
o que está envolvido
na leitura
de um poema

conecta-se

com
…………………a questão

…………………………………….central

sobre a qual
este poema
medita

nomeadamente

……………….a questão

 

 

 

***

 

 

 

uma sensação de abismo

 

entre a altura aérea
da torre
e
o pesadelo inconstante do poço

a mesmice incessante dos aeroportos

 

 

 

***

 

 

 

contínuo

 

a narrativa
é o impedimento da morte

tomando refúgio
na fantasia de uma ilha
como uma curva fabular
dentro do tempo comum
da extinção

a narrativa
do fim
da narrativa
é ela própria
fechada
dentro
de uma narrativa

adicional

o fato da aniquilação
mantido no futuro da narração

ou

consignado
ao passado
da sobrevivência

 

 

 

***

 

 

 

realidade bruta

 

esfregando os narizes
no fato de que
aconteça o que acontecer
no poema
acontece
em termos da linguagem

mas
linguagem
assim
carece
de espessura
de textura

separações tempestuosas
colapsos trágicos
conjunto de marcas pretas

palavras enviadas
em uma farra

estendendo-se por meia página

com

becos labirínticos
e
alamedas sintáticas
impulsionando o significado
da passagem
por meio
de cantos gramaticais apertados e
curvas fechadas

 

 

 

***

 

 

 

uma sentença

 

 

uma sentença
de estilo fraturado em sua itinerante tipografia no espaço branco serpenteando em uma névoa de metáforas evitando o verbo com as ferramentas da gramática e do léxico suas consoladoras repetições de som e palavra refletindo sobre a força de produzir imagens e sua frágil linguagem figurativa adulterando os esforços da prosa denotando com suas descrições elusivas e seu tom portentoso e seu registro petulante e suas arritmias sintáticas e seus digressivos complementos permanentemente deslocando-se protelando-se oscilando eternamente entre domínio e acidente até que de repente uma virgula um pivô
um ponto

 

Elton Uliana é escritor, tradutor e crítico literário brasileiro radicado em Londres. Ele é o coeditor do Brazilian Translation Club da University College London (UCL), um projeto criado para a disseminação de escritores brasileiros no mercado literário anglófono. Atualmente trabalha com o Laboratório de Antropologia Multimídia da UCL, desenvolvendo um Museu de Patrimônio Cultural em Realidade Virtual para e junto com os povos Guarani e Kaiowá do Brasil, uma parceria entre a UCL e o Museu Britânico.