Eu remo.
Em algum canto hei de chegar.
Meu remo ……….chicote que espanca o mar.
Remo e navio navegam
Sobre um mar que é sem fim.
Remo e navio disputam ………..quem navega mais em mim.
***
Movimentos
Minhas tempestades
não são cerebrais
– são na alma…
chego a sentir
o meu corpo estremecer
todos os dias
a cada disparo do céu!
***
Como Tantos…
Como tantos
luto para aceitar a carne
que recobre o meu espírito.
Como tantos
canto mantras para a Lua
que de longe, silente, me escuta.
Como tantos
vivo entre eus e eu…
e como dói viver
num mundo que não considero meu!…
***
Eva
“Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliar igual a ele.”
Genesis 2,18.22-24
Disse a Ti um dia o sim.
Disseste a mim: tu és mulher!
Bênçãos me deste
e em todo o teste a mim imposto
saí vitoriosa.
Até reinei num paraíso…
Pueril, a todo tempo mostrei riso
e nesse riso me fiz rosa.
Explorei o chão que me foi dado
vi tudo o que ali havia
provei até do que não podia
– não me fora permitido provar.
Tu
Temendo o desabrochar que me possuía
disseste: “pecadora, vai embora,
não serás mais a senhora
do jardim que preparei!”
Aquele momento de queda
eu nomino salvação para as minhas
descendentes, insubmissas, conscientes,
sacerdotisas guardiãs da fábrica da vida
– presente sem medida para o mundo do
amor.
Tua cria – Te louvei
Tua alma habitando em mim.
Me deste o conhecimento
da bondade, da malícia, da perícia em parir.
Não carrego culpa ou dor
dentro ou fora do jardim,
posto que onisciente
me soubeste pura e sã,
e eu Te sei meu conivente
no episódio da maçã.
***
Jogo
Jogo com palavras
e elas comigo
no eterno dos espaços.
Opção:
jogar xadrez
no tabuleiro dos textos.
Quando sonolentas e frágeis
eu nelas …………….– xeque-mate!
Quando tomam vestes guerreiras
me aprisionam
me checam e matam!
Nasci no século passado com fome de palavras e até hoje vivo desse alimento que ainda me sobra para adornar o espírito de quem tem o peito aberto. O teto que me foi dado para viver é dividido com 7 bilhões de pessoas de todas as cores, de todas as falas, de todas as caras, de todos os credos; com todos os que vivem na carne e os que vivem em forma de fluido cósmico universal. Sou feita à imagem e semelhança da humanidade porque dentro de mim cabe a mais doce ou a mais vil das criaturas. Troquei, doei e recebi saberes com estudantes de vida assim com eu. De certa forma ainda vivo assim porque trocar e doar são atributos da generosidade, menos que da justiça. Dentro desse esquema (trocas, doações, recebimentos) escrevo porque na medida em que faço isso me somo e me divido neste mundo que é nosso.
Não seria coerente falar em longevidade quando o assunto aqui é simplesmente um CD, ainda mais se tratando de uma banda de punk rock baiana surgida numa década em que, ao menos para mim, frequentador raso e esporádico da cena, parecia perder seus melhores representantes. A palavra longevidade, quando metida no contexto do que me proponho a fazer agora, poderia ser citada quando falamos de Stones – só para ficar no óbvio terrivelmente ululante. Ou seja: ao falar de rock and roll, e vincular tal palavra ou qualquer um de seus sinônimos a esta resenha, corro o risco de converter tudo em exagero e banalidade.
Mas antes de qualquer coisa, é bom deixar claro que é exatamente nisso que pensava toda vez que tentei escrever (e reescrever) esta resenha: longevidade. Ao falar do mais novo lançamento da Pastel De Miolos, Novas Ideias, Velhos Ideais, é impossível não lembrar meu sentimento nas noites em que acompanhei a banda. Era uma sensação nova e incomum, coisa que de quem está acostumado a observar por hábito – situação reforçada pelo fato de que eu era uma espécie de câmera/roteirista de um documentário abortado; ou seja, eu tinha que absorver tudo ao meu redor.
Minha conclusão, talvez equivocada e muito simplória, foi a de que uma banda se faz com uma mistura de elementos que não são pra qualquer um: vocação artística, paixão, vontade de se expressar, amizades duradouras, muito trabalho e talento. Afinal são 19 anos ININTERRUPTOS e envolvidos numa rotina de ensaios, shows e tudo o mais inserido nesse contexto: plateias ruidosas, casas de show quase desconhecidas ou badaladas, bares, festivais independentes, sessões exaustivas de ensaio, tudo isso desembocando numa recente e merecida turnê por países do velho mundo. Tudo o que uma banda necessita para pensar seriamente num legado consistente e verdadeiro. Na tal longevidade. Como algo possível.
Em seu novo CD, mixado no Canadá e produzido por Jera Cravo, encontramos tudo aquilo que faz parte do que podemos chamar “grande disco”. E antes que algum de vocês perceba a existência de exageros de minha parte, aqui vai a defesa: o que a PDM nos apresenta em seu novo trabalho não é simplesmente uma obra impecável, tecnicamente falando (incluindo aí a parte gráfica do artista carioca Flávio Flock, que também já trabalhou para a Pitty, entre outros), cheia de qualidade e de “pegada”; não são simplesmente letras corrosivas com imenso poder de fogo e reflexão; nem a combinação certeira de guitarra, bateria e baixo: Novas Ideias, Velhos Ideais é o resultado de um trabalho que surge numa sequência de outros, feitos ao longo desses anos, que foram sendo aperfeiçoados em sua produção sem nunca dever nada em seus shows.
Pastel de Miolos / Foto: Júnior Américo
Novas ideias, velhos ideais, a primeira faixa, dentro de sua simplicidade absurda, já nos mostra aonde a coisa pode chegar: a frase repetida, o peso – realçado pela presença do novo baixista, André, que trouxe à banda uma maior aproximação com outros estilos de rock and roll, um peso e uma coesão maior -, tudo, enfim, conspira pra uma grande festa, “como antigamente”. Em Desobediência Civil, cujo clipe presente na internet vale ser assistido, a gente pode pensar em cada momento de nossas vidas em que desistimos de agir com alguma coragem: poderia ser uma pedra arremessada ou simplesmente se recusar a votar em qualquer canalha cujo discurso hábil nos enche a paciência.
Na próxima, Insegurança Masculina, com a presença ilustre de Vital Cavalcante (da banda Jason), o que vale é bater de frente com os machos que escondem sua fragilidade doentia nas atitudes violentas que por vezes surgem nos noticiários. A Ilha traz em si uma série de questionamentos sobre para onde finalmente iremos algum dia (se é que isso será possível). E na faixa Sem Nome E Sem Razão a bola da vez é a destruição gradativa que presenciamos todos os dias ao nosso redor, em nome de um sonho equivocado de progresso. Vou Tentar, composição de Tony Lopes, cujo som desacelera um pouco para dar maior sonoridade a outra letra simples, o que vale é o olhar certeiro e sensível do compositor. Já em Hardcore a ordem é pogar, sem deixar de atentar para a mensagem evidente – afinal em todas as letras existe algo a ser captado. Porcos, em minha opinião, a melhor do disco, contém tudo que um punk rock deve ter: coragem, metáforas corrosivas, peso, veemência, inquietação e fúria. Logo depois Homem Ao Mar, com seu estilo surf music, também parece servir de base para outra daquelas mensagens nada subliminares que fazem de Alisson um compositor de respeito. Quarteto II é na verdade uma junção bem feliz de textos, dentre eles o do grande poeta Lupeu Lacerda, e em Quando A Vítima Se Transforma Em Algoz e A.E.P, sincera homenagem a uma banda paraibana, o que vale é enlouquecer. E admitir que a essa altura não se pode mais achar o caminho de volta. Homem Sério, que conta com a participação de Frango Kaos (Banda Galinha Preta), serve como uma crítica aos que de alguma forma entregaram completamente os pontos. Essa Porcaria Que Me Faz Feliz encerra o CD, como uma espécie de celebração aos que ainda hoje – apesar dos cabelos grisalhos e das barrigas proeminentes -, estouram os próprios tímpanos com aqueles clássicos sem ligar para o resto.
E aí talvez todo esse papo sobre longevidade finalmente não tenha feito sentido algum, apesar de saber que os anos serão generosos com Alisson, André e Wilson; e que a PDM cumprirá com raro louvor seu papel na cena rocker de qualquer lugar do mundo. Mas, sinceramente, pouco importa. A essa altura dos fatos, depois de ouvir o Novas Ideias, Velhos Ideais uma dezena de vezes, o que vale é celebrar. Com algumas cervejas honestas, ou uma dúzia de granadas nos bolsos.
toda a vida contida numa exígua partícula,
– desdobrável de si própria –, equilibrada
sobre a mesma progressão desenfreada; deuses ferveram-na numa caldeira aquecida
ante o clarão do big bang / cozendo-a por milênios,
lenta, nas tripas da mais velha estrela / e lá, aprisionada,
como o maior espetáculo da via láctea, além do limbo
centígrado dos organismos bioquímicos,
replicou-se a enzima de sua fina
(e elástica) matematicidade
// até que […]
***
|( os órgãos internos )|
\ ( persegue as vértebras a massa
dos sangues coligidos / ( dentre os quais
há indício, de que alguns ( mais ou menos
líquidos ) \ cada qual a seu tempo, distintos,
consolidem sacos do caldo biológico,
coagulados \ ( carnes que existem da diferença
entre si de seus tecidos / ( se especializaram
as células, em aparelhos e sistemas ) /
delas monta-se um puzzle cujas lacunas
se completam ) \ o corpo expande,
tanto quanto se destrói ( por escasso o cálcio )
no rígido osso que esfacela / ( conforme
a vida lhe habita, o conjunto luta
sob o mesmo pulso \ ( o mesmo insumo bruto
lhe insufla a labuta / ( plantada já
na samambaia dos nervos \ ( enclausura-lhe
a elástica amarra dos músculos / ( a obstrução
sob medida de uma única fornalha viva
) \ trocam fluidos entre si tantas partes
aparentemente separadas \ ( interno
o mar hemorrágico, apenas visitável numa
viagem fantástica / ( mas quando lhe autopsiam
a frio \ ( sangria & bisturis / ( se mostra,
um monstro sob as próprias ataduras \ (
o frankenstein exposto, que, apenas por medo
do escuro, só morto poderiam demonstrá-lo ) \
***
(| o crânio humano |)
compósito ósseo por sobre cujos orifícios inteiramente
desobstruídos, encaixam-se os módulos dos olhos,
narinas, da boca, e ouvidos; a tampa de louça calcinada
pelo couro (marfim fissurado sob cabelo) um trono
ocupa o topo desta cúpula; uma armadura de juntas,
parcialmente recoberta por ranhuras em cruz, pelas quais,
de sua furna interna (o antro intracraniano), escapam-lhe
tantos juízos – são pássaros em fuga deste recep
táculo craquelado; lacrado sob a caixa manchada do
crânio humano, jaz, moldado aos miolos, à forma de uma
noz que alucina e racionaliza, o gerador unigênito – razão
pela qual congelam o cérebro de um gênio –, de cada
inédita eureka, e de todas as idéias velhas, de séculos,
de décadas, guardadas em antiquíssimas bibliotecas; sob
o palato, escondida, esteve a língua quase retilínea (um
único músculo infatigável para modular todos os dialetos),
a dentição se encaixava, cobrindo-a, esta fila de lanças
fincadas, abaixo das maxilas, e na base da mandíbula.
***
[| a pele |]
homem-bomba vestindo roupa de escafandrista, seu neoprene pressurizado capta estímulos, e por entre
pêlos mínimos, válvulas regulatórias fazem-na suar
ou ressecar, contra as condições do habitat (algo
se interpõe aos poros, ou impermeabiliza as fibras);
seus sensores de calor vigiados de uma
torre de comando, enquanto é mantida viva, (hidratado
adequadamente cada intrincado recanto)
como a máxima peça, de uma alfaiataria das mais
complexas: seria tão errado reduzi-la ao tato costurando
ao tecido apenas um, dos cinco sentidos?
***
mecânica dos fluidos
/ o suor
c a d a p o r o
u m e s c o a d o u r o
p e l o q u a l
c a d a g l â n d u l a
s u d o r í p a r a ………….r e s p i r a
s e r e p e l e
s e u l í q u i d o
s e r e m o v e
s e u v i s g o
é o q u e …….p e r m i t e
q u e a ……..e p i d e r m e
s e l i m p e
e t r a n s p i r e
Alexandre Guarnieri (carioca de 1974) é poeta e historiador da arte. Atualmente pertence ao corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens e integra (desde 2012), com o artista plástico, músico, ator e poeta, Alexandre Dacosta, o espetáculo mutante [versos alexandrinos]. Casa das Máquinas (Editora da Palavra, 2011) é seu livro de estreia e está disponível online (no issuu.com). Publicou poemas em revistas e jornais. Em 2014, participou das antologias “Essas águas” (Org. Vagner Muniz, 2014 [ebook]) e “Hiperconexões: realidade expandida, volume 2” (poemas sobre o pós-humano; Org. Luiz Bras, Patuá). Seu mais recente livro, “Corpo de Festim” (Confraria do Vento) será lançado em breve. Email: alex.guarni@gmail.com.
‘Quando penso em minha esposa, eu sempre penso na cabeça dela. Me imagino abrindo seu lindo crânio e desenrolando o cérebro na tentativa de obter respostas para questões básicas de qualquer casamento: “No que você está pensando?” “Como está se sentindo?” “O que fizemos um ao outro?”’. (Nick Dunne)
David Fincher sabe como ninguém dissecar o que há de mais sórdido no ser humano, que o diga Seven – Os Sete Crimes Capitais (1995), um de seus filmes mais impactantes. Em Garota Exemplar, seu décimo longa-metragem, o cineasta explora a vaidade, o cinismo e a superficialidade da instituição casamento: você entra em um relacionamento tentando fugir de todos os clichês convencionais e no final, encontra-se soterrado por sua própria ruína – com alguma dose de exagero, é claro. Para acompanhar a complexa temática matrimonial, o thriller é pontuado cadenciadamente e apresenta um clima de tensão constante, além de uma pitada de sarcasmo. Embora o ritmo de sua primeira parte seja um pouco mais lento, o desenvolvimento do enredo e a apresentação dos protagonistas não ficam comprometidos.
A garota em questão é Amy Elliot Dunne (Rosamund Pike), bem-sucedida escritora de livros infanto-juvenis que narram as aventuras de AmazingAmy, seu alter ego teen. Jovem, rica e bonita, é bem verdade que no momento ela é uma frustrada dona de casa, que mudou-se para Cape Girardeau, no Missouri, para cuidar da sogra doente. O marido Nick (Ben Affleck), fracassado no ofício da escrita, é sócio do The Bar juntamente com a irmã Margo (Carrie Coon). A vida dos Dunne muda radicalmente quando Amy desaparece em suas bodas de cinco anos de casamento e as suspeitas recaem sob Nick. E qualquer coisa que se diga além disso é passível de spoiller, capaz de estragar as reviravoltas que a trama apresenta, incluindo a crítica sobre a televisão, o sensacionalismo midiático e a manipulação da opinião pública diante de um crime ou sequestro.
Nick (Ben Affleck) na coletiva sobre o desaparecimento de Amy (Rosamund Pike) / Foto: divulgação
Apesar da tradução em português soar como título de comédia – é uma pena que Procura-se Amy (1997), de Kevin Smith, já tenha se apropriado de um nome mais oportuno –, Garota Exemplar é um suspense de primeira grandeza que figura entre as listas de melhores do ano e recebeu quatro indicações (Melhor Atriz, Diretor, Roteiro e Trilha Sonora) ao Globo de Ouro, porém não faturou nenhuma estatueta. As duas horas e meia de projeção garantem bons diálogos e personagens não-lineares – marca registrada do cinema de Fincher – vividos com maestria por Rosamund Pike (sua aura “Emily Thorne” está impecável; não por acaso acaba de ser nomeada ao Oscar 2015 como Melhor Atriz, aliás, única indicação do filme na premiação) e Ben Affleck (o papel de marido apático lhe caiu como luva). A propósito, a edição é outro ponto de destaque: a trama é alternada entre o nebuloso presente de Nick, utilizando uma paleta de cores sombrias e um flashback da vida de Amy (fundamentado em seu diário e narrado em off), em tons mais claros.
Baseado no livro homônimo da jornalista americana Gillian Flynn – que também assina o roteiro –, Garota Exemplar é conduzido com a mesma destreza de quem filmou clássicos como Clube da Luta (1999), O Curioso Caso de Benjamin Button (2008), A Rede Social (2010) e Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (2011), todos adaptações literárias. David Fincher continua em grande forma, seja na produção executiva de House of Cards – série de grande sucesso no Netflix, protagonizada por Kevin Spacey –, flertando em outros formatos de mídia ou na velha e boa direção da sétima arte.
Larissa Mendes não é uma garota fantástica, tampouco exemplar.
Em algum lugar uma coisa se esconde esperando minha mão. Um dia, o acaso me levará para um canto sombrio da casa, onde uma caixa de sapato ou a gaveta de uma antiga cômoda guarda a coisa que me espera. Vago pelas sombras da casa e minha pele eriçada me avisa da proximidade da coisa. Então me afasto até que a pele sossegue e me permita caminhar sem sobressaltos. Mas o caminho oposto também me leva a sombras e novamente sinto o arrepio. A coisa é móvel. Pisca para mim de sombra em sombra. Não sei o que quer de mim nem o que tem para me dar. Sei que me atrai e me repulsa. E é grande o medo que tenho de encontrá-la.
***
Covardia
A única vez que ele mentiu pra mim foi quando disse que não me amava. Amava, sim. Do jeito que amam os covardes. Amava a casa arrumada, a roupa limpa, bem passada, o cheiro dos lençóis. Amava a comida de todos os dias e amava mais o almoço dos domingos. Mas dizer que me amava, nunca disse. Também nunca me chamou de meu amor. Nem mesmo antes ou depois do gozo, muito menos nos meus tempos de agonia. Quem visse de fora, podia pensar que era dureza de macho. Mas eu sabia que era pura covardia. Porque se dissesse que me amava, eu podia querer mais coisas dele. Que se casasse comigo, que me desse filhos, que me pagasse as contas. Mas eu nunca dei esse gosto a ele. Sempre tive meu dinheiro. Costuro pra fora, faço bolos, vendo avon. Ele é que um dia chegou mais calado do que de costume. Tomou banho, jantou, ligou a televisão e ficou ali, um mortovivo. Quando perguntei o que se passava, disse com voz de choro: preciso de dinheiro pra pagar uma dívida de jogo. Era pouco, eu tinha, entreguei a ele dentro de um envelope. Ele pegou o dinheiro, levantou-se do sofá e disse que ia embora e não voltava mais. Eu não te amo, disse. E eu vi nos seus olhos e ouvi na sua voz que ele mentia.
***
Pés
Por muito tempo, meus pés serviram para caminhar. Levar-me pra lá e pra cá, pisar na lama, torrar nas pedras quentes do meio-dia. Sempre tive muitas cócegas nos pés. Você descobriu por acaso e passou a me torturar com os dedos leves. Depois vieram os beijos e depois a língua. Aos poucos, meus pés não queriam mais caminhar. Desejavam a boca que os tinham desviado dos antigos caminhos. Hoje, meu corpo começa pelos pés.
***
O estranho que me visita
Eu sei quando ele chega. Gosta de me pegar distraída dentro de um livro, aparando as unhas ou bordando com meus bastidores. Quando me dou conta, ele já sumiu lá para os fundos do corredor. Nas primeiras vezes, tremia de medo e me distraía ligando a tv, cantando alto, telefonando para qualquer pessoa. Até que ele sumisse.
Mas teve um dia em que criei coragem e fui caçá-lo pela casa. Entrei no quarto, ele deu sinal de estar no banheiro. Abri de um brusco a porta do banheiro, ele mexeu na torneira da cozinha. Acendi a luz da cozinha, ouvi o seu suspiro lá na sala.
Com o tempo, aprendi que ele não queria ser visto. Me acostumei com a sua presença pela casa. Quando ele chega, finjo que não percebo. Continuo presa no livro, na serrinha de unhas ou na agulha que passa de um lado a outro do tecido esticado nos bastidores. Faço falsas poses distraídas, sabendo que ele gosta de me ver assim, vivendo a vida, passando o tempo, pensando coisas. Gosto desse estranho que me quer assim, na mais banal intimidade. Gosto que vasculhe minha casa, que me vasculhe por fora e por dentro. Gosto que me mostre a estrangeira que eu sou dentro do meu próprio território.
Já fui do lar. Hoje faço doces para lares alheios. Faço textos, também. Mas não os envio aos lares. Prefiro que andem pelas ruas e encontrem ao acaso quem os leia. Entreguei vinte e três anos de minha vida a um homem, uma casa e uma filha. Só depois que o homem se foi e a filha se casou, pude ler o que quis, escrever o que quero. E algumas pessoas gostam do que escrevo. Por isso, sou teimosa e vou aos poucos construindo um olhar novo sobre as coisas do mundo. Às vezes dói, mas sempre me dá prazer. Tive alguns textos publicados em Dedo de moça – uma antologia das escritoras suicidas (São Paulo: Terracota Editora, 2009). Já é um bom começo.
Qual a idade do poeta Geraldo Lavigne? Pergunta que fiz a Gustavo Felicíssimo ao receber esses dois livros que se embrincam. Pergunto-me por quê? Talvez por achar necessário alguma intimidade com o autor para quem se aventura a escrever uma orelha de livro. Talvez pela surpresa da promessa.
A poesia atual, em sua vertente mais celebrada pelas mídias do eixo Rio-São Paulo, se embriaga com o concretismo paulistano. Uma poética que brinca com as palavras, poética da forma, poesia da desilusão, do nada, egoísta, despida do deslumbramento.
Já a poesia de Lavigne ―… ―, ele mesmo a define “com alguma sinceridade” ao nos dizer suas meias verdades, já não escondidas atrás de uma máscara. E vai dizendo que “é no âmago que reside a centelha”, na “seiva que corre o motivo do visgo”. Lembra-nos que vivificamos o mito de Sísifo e nos avisa sobre a falácia de quem joga o bilboquê de pedra neste “mito de democracia”. E é enorme a generosidade do poeta ao nos alertar da “tirania maior” – o que nos faz recordar de Montaigne quando disse do medo dos homens que leem sempre um único livro.
Mas o “eu lírico” se percebe diferente, pois ser afeito ao silêncio e a contemplação é ser um transgressor, ser anacrônico, neste Mundo multimidiático. O homem não se irmana na globalização e sim no reconhecimento de que o “normal é diferente”. Compreende leitor?
E que bela imagem, a do coração, palimpsesto de pedra, onde é preciso “muita água da rara fonte dos olhos” para apagar o já escrito. Vejam a seriedade de um poeta jovem que se propõe buscar a síntese, o esmero técnico, sem que para isso necessite prescindir do coração. Um “eu lírico” que mantém a esperança de na busca ilusória do poema definitivo, perpetuar um coração minúsculo onde seja possível se escrever “com diminutas palavras”. Que bela imagem poética!
E o que dizer da ironia em Lavigne ― algo raro e necessário no enfrentamento das verdades ― quando no poema “aturdido” nos diz que “quando a água do chuveiro afaga meu corpo, posso ver, através da densa cortina, a minha vida com você é um filme de Hitchcock”.
Sim, a vida também é feita de perdas, e como emociona – e este é o maior objetivo da poesia – o poeta ao nos dizer da dor, no poema “meu velho”: “Faltam poucos dias para quatro anos nesse tempo dos homens que meu coração não reconhece”. E, consciente diante do absurdo do nada ― “a morte te espreita vereda por vereda” ―, ensaia o renascimento, um retorno mal sucedido ao ventre da inocência, pois já se impregnou com a verdade e se encontra “cheio de dentes e fantasmas”. Ressurge mais forte dessa viagem pela introspecção por ter “o gérmen do verde que brota quando o céu desaba”. Após o processo necessário de desconstrução, entende o silêncio, ergue os braços, toca as nuvens e “conversa com os anjos”.
Já no lúdico poema “Ocaso” Lavigne se questiona: “será que cupins alados pousarão sobre o lastro que me sustenta?”. Mas rebate, agudo, “ talvez seja mais um poente, talvez o ocaso seja o acaso em mim”. E acaba por definir ser o poeta o “tutor das plumas solúveis, que pousou altivo no patronato das aves domesticadas” e atinge a perfeição ao reconhecer que “a gota d´água não se sustenta nas asas do pássaro silvestre”.
Por fim, o poeta desafia os “borbotões de vento” que nos desfolham e nos tombam, ensaiando a transcendência “desafiando a longevidade dos ciprestes milenares”.
Agora, só nos resta tratar das amenidades …
AMENIDADES
O poeta do ameno deixa aqui seus fragmentos luminosos.
Toda singularidade do olhar lançado sobre o cotidiano pessoal traduz seu povo e sua terra.
Poemas imagéticos, sem dúvida; poemas de uma lentidão contemplativa, de saber de sua insignificância relativa e da importância de prosseguir no sem sentido, pois, “perfeição na terra – não há exceto o amor”. Para o ser imperfeito e portador do “fardo da consciência” o amor é “semidivino porque tem um quê de pecado” no lado debaixo do Equador…
O “chegar e partir, são dois lados da mesma viagem” nos diz Bituca, e também o fez Lavigne, autêntico poeta Grapiúna (confesso aqui minha admiração por esse nome e seus poetas) ao apreciar o entardecer neste “paraíso dos anjos”.
Como disse Ildásio Tavares: “Nada penso. Estendo os braços e curvo no meu joelho minha linha do horizonte”. Não será também esta atitude de Geraldo Lavigne nessa Ilhéus onde o céu se abre imenso, idílico, onde o “carvão abraçava a lua. A lua fogo abrasava o céu”?
Dá vontade, poeta, de apreciar esta “primeira claridade da manhã, com sabor de fruta madura, café coado em pano e tapioca”. Ver “as gotas caírem qual sais de banho” e, por saber-se nada, caminhar descalço sobre os seixos na ilha da Pedra Furada. Pois Cipango fica logo ali, onde aportou o sonho, que persiste e “cresce ao redor” e, apesar “do Mundo”.
Sabe, Lavigne, já “bebi menino as águas frias da mata” e meu mundo “era tão curto e tão vasto”… “mas o tempo dissipa as palavras como a aura dissipa a fumaça da lenha”. E por isso, também, sinto saudades de Senô, pois desejo a benção com água de coco, para quem sabe, também tornar-me doce…
É isso, leitor, já que me foi dado o privilégio de recebê-lo, o convido a entrar. O poeta é generoso, lhe oferece duas portas – dois livros: um que diz do homem como objeto refletido e repisado; outro mais ameno e bucólico, impregnado de memórias e imagens da bela região grapiúna.
Jorge Elias Neto é poeta, médico, ensaísta e membro da Academia Capixaba de Letras. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia (Secult – 2013). Recentemente, lançou seu mais novo rebento poético, Glacial (Editora Patuá – 2014).
Aquieta-te,
ainda é tempo de molhar a terra
Das raízes ascender
para desafogar-te
em mar de espera
De pastorar os lobos
que correm em teu peito
Inundar-te do sabor afável
que é esvair-se
De amar-te
como se outra fosse
Apressa-te,
enquanto a água não seca.
***
Percurso
Premido pela falsa couraça do corpo
inutilmente domável
entre labirintos singelos
Prepara incessantemente,
em que pesem os festejos da carne,
o sumo que conduz em fragilidade
o fio da vida
Escorrem-te pelas frestas,
ávidas pelo encontro tardio,
lágrimas tingidas em vermelho ocre
Pois divido contigo o grande fardo
que me trazes a cada ausência vivida
A longa espera do silêncio absoluto
em que te firmas e consome o todo.
***
Sobreviventes
Espesso,
grita o vento a galope
envoltos de orvalho
talvez cinzas
deitamos sobre a terra
nossos sonhos
Noite densa, pungente
corta a carne, estanca a fala
no olho do silêncio
dividimos a escassez
de nós mesmos
O riso, a cólera
e o estatelar dos ossos
contra o mundo
Fomos tanto de nós
Somos outros
Somos os muros
e queremos ser água.
***
Recorte
Como um sopro frio
que se prolonga por tempo demais
Da tua companhia
ficaram os copos vazios, lírios
Os punhos suaves cerrados em prata
estendendo-se timidamente
à noite branda que se inicia
Adivinhamo-nos invisíveis
e cedemos em vertigem
às estrelas
do caos a complacência
da língua a mudez
dos pés o cansaço
da lucidez o desatino
dos olhos caleidoscópios
no canto da memória
giram.
***
Outra e Nada
Debruçada sobre
as águas de vidro,
vejo-me turva
Borrões não
decifrados em traços
Ilusionista, o corpo
Dentro do vazio constrói
a tua casa para desmoroná-la
sem alarde
Restam dezenas de mim,
mas nenhum pedaço
me veste com agrado
Não sou aquela de quem falas,
Não vejo o que vês
Fui lapidada na tua mente
Pluma sobre a água
ou pedra lançada
Que se faça esquecer
a memória de mim.
Meu nome é Mariana Fernandes, tenho 27 anos, nascida em 22/01/1987, na cidade do Rio de Janeiro, onde vivo até hoje. Sou estudante de Direito, graduada em Letras – Português/Inglês, funcionária pública, tradutora e ex-professora de língua inglesa. Escrevo para preencher silêncios, vazios, abafar vozes e enfeitar a realidade.
os carros e os pensamentos passam
tão ilógicos
agora demoro o corpo numa canção do Miles all blues
bebo água viva ………………………………para fluir ………sua presença
escorre pelos órgãos
pelas avenidas
os carros e os pensamentos passam
na contramão
dobrar a esquina exige uma força extraordinária
sentir o tempo, fibra por fibra, muscular a solidão
mas eu pertenço a uma geografia frágil
às modulações de calor dos seus braços
às nuvens, aos orgasmos, ………………………………………….ao húmus, aos ismos
a todas as viscosidades e inconsistências da carne
não defino, não explico,
compartilho
o outro não é meu objeto
aquilo que digo e domino
ao contrário
o outro é o que me expande
que faz outros mundos possíveis kind of blues
têm tons que só existem nos seus olhos:
love: agitation: tremulações do azul
***
bailarina
antes que eu ponha meu exército intelectual
para invadir e sitiar um texto
antes mesmo de capturar e enclausurar o sentido
o próprio texto me envolve
num exercício respiratório e rítmico
como se soltasse pássaros nas minhas artérias
como se elas
as palavras
fossem música
***
diário do silêncio: a palavra
[ ]: penso na primeira vez que alguém disse: palavra. o silêncio seco do seu sopro sussurrando a solidão. o cheiro vermelho do nascimento. havia um abismo pintado sobre um mapa. um espaço infinito aberto pela curva. aos poucos, os pássaros e as crianças ocuparam as praças, as esquinas e uma mulher montada num cavalo negro estilhaçou a vidraça: ¡palavra!:
inventa-me este lugar, esta distância. cria-me o mundo a partir deste vazio: [ ]
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diário do silêncio: a jardinheira
… então o rio. a solidão fluindo no mês de junho, em tudo. eu sei, escrever é isso, este infinito diálogo íntimo. talvez, entre uma sílaba e um desconforto, pudesse sentir suas mãos narrando o silêncio no meu corpo. as digitais desenhando nuvens no mapa da existência. o amor é uma tênue penumbra presente na película da palavra. inventou o rio e noite que molham meus olhos. por onde andávamos antes das margens e o medo indicarem o caminho? agora passam aves e frases no descampado do pensamento. dilatam o tempo, os objetos, os lugares. eu construo janela para estender o olhar e as viagens. é verdade que somos só uma tremura na entranha de deus? noite alta, vejo o vento esvoaçar a saia da madrugada. um relâmpago fugaz fulminar o verso. cato as fuligens vermelhas e deixo as azuis para os vermes. as águas da chuva iniciam seu percurso pela memória do rio.
eu remo rimo regresso, rego as raízes das plantas
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unreal letter
escrever a palavra cansada
o amor em cartas registradas
nos abismos da pele
trago na boca
borboletas e vermes – selados em saliva
numa caligrafia de haver reticências
cartão-postal
rascunho de poesia
viagem pro Nepal
disco do Pixinguinha
tome nota: [nasce um pedaço de eternidade]:
é preciso catar parafusos em noites de chuva
e nem me venha com sombrinha!
sou qualquer, carla, como tantas Carlas que há, filhas de Marias. nasci onde brilham as estrelas de Três Pontas e jorram luz até BH. disse amor e atravessei o Atlântico. hoje habito um Campus Stellae. amo, amo demais duas menininhas de olhos acastanhados, mais brilhantes que o sol. nos feriados solto pipas e escrevo com todos os átomos. nos dias de feira faço um mapa losing steps das heterotopias de Clarice, pra isso que chamam de tese, mas eu chamo mesmo é de saltar no abismo com um verbo infinitivo nos lábios …
São os tais percursos deixados pelo homem. As frontes expostas diante da sinceridade dos dias. As marcas do tempo, os semblantes abrigados num recanto qualquer. Travestidas de rotina, as figuras humanas trapaceiam os efeitos do óbvio, negando-lhe a condição de seres aborrecidos por uma suposta falta de novidade ou pelas marcas da repetição. Mas eis que há, sim, a descoberta do novo ante os fragmentos da realidade. Sentir-se vivo é, antes de mais nada, constatar que a poesia dos instantes não é sufocada por uma espécie de ceticismo universal.
Assim o faz Pedro Alles, quando deixa brotar de suas imagens elementos exaltadores da condição humana. Uma pluralidade de rostos, corpos e lugares encontra abrigo no atento registro do artista. Miramos os caminhos propostos e, na maior brevidade possível, sentimo-nos testemunhas dos cenários. Ao passo que cada captar da luz instaura em nós alguma identificação, percebemos que somos cúmplices ativos de uma realidade abrangente.
As fotografias de Pedro não esperam pela hora mágica. Chamam atenção pelo vigor da simplicidade que permeia nossa trajetória de mortais. As coisas acontecem diante dos nossos olhos sem que para tanto sejam profetizadas de modo apoteótico ou apocalíptico. Não há início, meio e fim. Apenas o puro transcurso do olhar que deseja apresentar epifanias da existência.
Foto: Pedro Alles
Seja uma ponta de mar, uma expressão facial ou o gestual encerrado na rotina dos nossos iguais, tudo carrega em si o emblema dos difusos percursos de vida. Diferentes mundos se intercruzam, compondo histórias de um complexo tecido social. Aí reside a riqueza dos flagrantes do fotógrafo, seu trunfo por trazer à tona o coletivo enquanto agregado de células subjetivas. Nesse fluido de individualidades, estão misturados sonhos, gozos, gestos e algumas poucas certezas.
Pedro Alles fala de suas origens como alguém que sempre buscou aventurar-se pelos caminhos sem pretender verdades universais. Nasceu em Salvador e morou no Rio Grande do Sul, Maranhão e Rio de Janeiro. Fez de tudo um pouco. Foi restaurador de museu, roteirista de quadrinhos, trabalhou com fotografia de moda, publicidade, além de também ter sido editor jornalístico. Escreveu dois livros: um de poemas (Micrices Adestradas, 1993); outro de aforismos (As Mínimas do Marquês do Herval, 1997). Depois de muitas andanças, deixou para trás um mestrado em filosofia para se dedicar a sua pousada no litoral de João Pessoa, na Paraíba.
Por visar a conjunção entre contemplação e reflexão, a arte de Pedro não ignora os desvãos do mundo. Do mesmo modo como sua estética propõe uma abordagem sutilmente crítica das coisas, uma menção à beleza faz alusão a uma tão necessária manutenção da esperança. Mesmo que sejamos reconhecidamente imperfeitos e repetitivos.
Foto: Pedro Alles
* As fotografias de Pedro Alles são parte integrante da galeria e dos textos da 98ª Leva
A escrita criativa rende bons paralelos. O escritor Rafael Mendes encontra o seu melhor em Hemingway, nas páginas salubres de “O velho e o mar”: “Santiago lutou por dias para pescar o grande peixe. Ele queria pescá-lo para mostrar aos amigos, aos demais pescadores, dizer que havia conseguido. Contudo, depois de ter finalmente pescado, ele já não se preocupa tanto se levará ou não o peixe para a praia, para mostrar para os outros. Com o escritor é da mesma maneira: é melhor se preocupar em fazer um bom texto, com uma linguagem apropriada, personagens bens desenvolvidos, enfim, se preocupar com a pesca em si. Se conseguirá ou não publicar, ou, nessa analogia, levar o livro-peixe até à praia, não é tão importante”.
De peixes também trata seu novo romance, “Fôlego”. Os peixes-fantasma, os peixes-mentira produtos das pescarias de um pai que oculta um segredo. Traduzi-lo ou, de certa forma, exorcizá-lo é o motor que embala o fluxo de consciência do filho, agora adulto, a revisitar a infância marcada por momentos intransitivos de suspeitas e de aflições. O não-dito é o que provoca a ruína familiar. De fato, o desmoronamento inaudito de todos.
Mendes tem, em sua literatura, a simplicidade que significa o trato da pesca. Tal qual o velho Santiago, sabe que fisgar o peixe grande requer paciência e perícia. Levar o tempo necessário para conformar o universo ficcional, esmerar seus detalhes, desenvolver os personagens e suas motivações, escalar a melhor maneira de contar suas histórias. Chegar à praia.
Nesta entrevista, Mendes fala do fazer ficcional, do exercício de procura que cativa seus anseios e objetivos na composição de suas tramas. Mas também de educação, formação de leitores, mercado editorial, primeiro livro, autores contemporâneos e qual escritor convidaria para tomar umas cervejas. Tudo com a lucidez de quem defronta a imensidão do mar e sabe de suas certezas e de seus perigos.
“Ninguém pede pra gente escrever, a gente escreve porque gosta, porque não pode viver sem escrever. Portanto, se é para escrever por paixão, que se faça isso sem pressa, com cuidado e em busca, sempre, da excelência, ainda que ela seja inalcançável. E tem que saber que pode não dar certo, que a carreira por um motivo ou outro pode não vingar”. Embarque nesse papo e deixe que o curso das palavras lhe conduza.
Rafael Mendes / Foto: Arquivo pessoal
DA – Nos contos de “A melhor maneira de comprar sapato”, antologia que marca sua estreia literária, há uma forte presença da infância como um período transformador, de ruptura, e até mesmo de formação precoce. Esse efeito se repete agora em “Fôlego”, romance recém-lançado. A que ponto existe aí o assombramento de elementos factuais? Partindo da premissa de que todo escritor recorre à memória em algum momento do processo criativo, de onde são resgatadas suas histórias?
RAFAEL MENDES – Recorro à memória para escrever, sim, mas não conto ou reconto a minha própria história. Eu diria que é mais uma memória coletiva, da minha geração, dos meus amigos e familiares. Tem muito de mim, obviamente, porque só se escreve sobre aquilo que se conhece, mas não posso dizer que meus textos são autobiográficos. A mim interessa mais as relações humanas, vêm daí as minhas histórias; quando conto um episódio da infância, na verdade eu estou contando as relações das pessoas em torno da criança-personagem: os pais, os amigos, a primeira namorada, os irmãos. Nós não lembramos de toda a nossa infância; lembramos de passagens específicas, que nos são caras por um motivo ou outro. E nessas passagens sempre há uma pessoa querida envolvida. São a essas relações que eu recorro para escrever.
DA – Porém, além da incidência da memória, há um intenso poder de observação nos seus textos, concorda? O conto que dá nome à antologia, por exemplo, em que uma mulher humilde resgata a lembrança de, quando menina, ir com a mãe comprar um sapato soa tão real que se assemelha a um fato acomodado na ficção. O quanto de realidade cabe na sua literatura? Há esse olhar um tanto de cronista no papel de contista?
RAFAEL MENDES – Concordo. A observação é fundamental no meu processo de escrita. É papel do escritor registrar o seu tempo, a sua sociedade, o seu país, embasado no seu olhar. Tchekhov, por exemplo, escrevia essencialmente para o povo russo, sem a preocupação em atingir ou não outras culturas. Vem dessa seara o magnífico conto “Os Mujiques”. A meu modo, tento fazer o mesmo: registrar a minha localidade, as pessoas comuns, gente que encontramos no trem ou até mesmo em uma loja de sapatos. Isto, é claro, aliado aos motes universais da literatura, como o amor, a perda, etc. Nesse aspecto, meus textos estão muito próximos da realidade, pois escrevo sobre fatos corriqueiros e conhecidos de muita gente.
DA – Onde, então, você encontrou os integrantes do núcleo familiar de ‘Fôlego’? Para onde precisou olhar para capturá-los?
RAFAEL MENDES – Olhei ao meu redor. A história da família de “Fôlego” é na verdade um apanhado de histórias de outras famílias, de amigos, de familiares, ou até mesmo de livros, filmes e notícias de jornal. Por isso referi-me a uma espécie de memória coletiva. As nossas histórias, alguns fatos da nossa vida de um modo em geral, tendem a se repetir com outras pessoas, outros lares. O que é narrado em “Fôlego” não é extraordinário: poderia ser a vida de muita gente, inclusive a do leitor. Talvez, por uma suposta empatia do leitor em alguns trechos, para com a família de “Fôlego”, leva-se a pensar que há no texto mais realidade do que ficção. Mas, ao aglutinar diversas histórias em uma única narrativa, e acrescer a essa narrativa uma linguagem e uma estrutura romanesca, o que prevalece é a ficção.
DA – E, ao retratar um núcleo de personagens humildes, pessoas simples, isso acaba por contaminar sua prosa que, diferente da tendência atual da literatura contemporânea, prima pela simplicidade, pela linearidade, pelo narrar cronológico. Essa é uma busca natural ou há uma motivação técnica nesse processo?
RAFAEL MENDES – Se eu busco retratar pessoas sem muitos recursos ou ambições, pessoas simples, é natural que minha literatura também caminhe no sentido da simplicidade, da concisão. Tento escrever como os meus personagens escreveriam, como eles pensam, com um léxico reduzido, sem inovações, mas com o cuidado para não descambar em um preconceito linguístico. Talvez haja a pretensão de que pessoas como as que eu retrato também possam ler o meu texto sem dificuldade. Isto, contudo, de maneira alguma é fácil. É a máxima do Graciliano: “Escrever fácil é difícil”. Assim, além da busca natural, há, também, uma intenção técnica no meu processo de escrita.
DA – Interessante essa mescla de pendor natural e técnica, pois acaba por desvelar um procedimento que oculta uma complexidade dentro de um escopo simples, sem cair na pieguice ou ser simplório. Falando em processo de escrita, conte um pouco da sua rotina. Qual o tempo reservado para sua literatura?
RAFAEL MENDES – Eu penso muito antes de escrever. Só parto para a escrita, propriamente, quando aquilo que quero contar já está pronto na minha mente. Esse processo pode durar meses, até anos. Observo as pessoas e o cenário que quero registrar. Nesse ínterim vou anotando, pesquisando, lendo. Depois parto para a escrita, que é outro processo dispendioso. Sinto-me muito realizado quando consigo escrever um parágrafo decente, em um dia trabalho. Em seguida, tem a reescrita, que é o que mais gosto. O ajuste das palavras, a estrutura dos parágrafos, o labor. Também trabalho com escaletas, plots, resumos. Faço detalhamento dos personagens, traço uma ordem cronológica, uso planilhas. Por fim, faço cortes, aparo as arestas, deleto parágrafos inteiros. Isto pode dar a entender que o processo é puramente técnico, mas às vezes a narrativa segue um caminho contrário ao que eu havia planejado, no início. Em Fôlego, por exemplo, há um personagem que, no meu planejamento, não morreria. No entanto, durante a escrita, entendi que somente a morte dele justificaria aquilo que é narrado, pois o tema principal do livro é a imprevisibilidade da morte e a impotência perante ela. Esses desvios no processo, esses descaminhos, me fascinam. Muitos escritores já disseram que alguns personagens ganham vida própria, enquanto estão sendo criados. É claro que, tratado de modo leviano, parece surreal; mas, analisando atentamente, é isto o que acontece. Qual o tempo reservado para a minha literatura? Eu diria que é todo o tempo.
DA – O cumprimento dessas etapas acaba por desmistificar a ideia que condena o escritor a ser refém de uma luz repentina, o poder etéreo da inspiração. O que há realmente, como bem disse, é labor. Mas existem diferentes tipos de manufaturas? Com uma antologia e um romance lançados, você entende que há uma técnica para se escrever um conto que se distingue daquela utilizada para a construção de uma narrativa longa?
RAFAEL MENDES – A mesma dedicação que despendo em um romance, aplico na construção de um conto. É natural que o tempo necessário para terminar um conto é menor, mas, ao considerar que também penso muito sobre o conto que quero escrever, antes da execução, diria que a manufatura é a mesma que a do romance. Existem aspectos que distinguem um gênero do outro: um conto moderno deve conter duas narrativas, uma aparente e outra oculta, nas entrelinhas, ideia defendida por muitos contistas e que eu corroboro. Fazer isto com precisão, contudo, requer muita disciplina. Já o romance é feito de camadas, a passagem de tempo é maior, os personagens são mais desenvolvidos, há mais de um tema abordado. Conto e romance são gêneros distintos; o autor que se predispõe a investir na escrita dos dois deve dedicar o mesmo esmero tanto a um quanto a outro, considerando as suas respectivas peculiaridades.
DA – No entanto essa passagem do conto para o romance é vista, por muitos editores, como um sinal de amadurecimento. Há uma ideia de que o conto seria uma prévia, um tipo de acúmulo de experiência para se angariar fôlego para a tessitura de um romance. Você se preocupou com isso? Dentro do seu projeto literário, estava programado o lançamento de uma antologia para marcar a sua estreia e, logo em seguida, partir para a narrativa longa?
RAFAEL MENDES – De modo algum eu programei lançar meus contos primeiro. Costumo brincar que os contos foram publicados no susto. Em 2011, eu havia concluído uma das versões de um romance, que permanece inédito, e minha intenção era publicá-lo. Antes disso, porém, eu reuni os meus contos; reli e reescrevi grande parte deles. Como era um volume o suficiente para uma antologia, resolvi enviar para duas ou três editoras. Queria mais testar o mercado, ver como funcionava o processo de submissão de originais. Não pensava que alguma editora fosse querer publicar o meu volume; mas a Karla Melo, da Confraria do Vento, leu e gostou. No ano seguinte, “A Melhor Maneira De Comprar Sapato” foi publicado. Depois disso eu me debrucei na conclusão de “Fôlego”, que acaba de ser lançado. Quanto ao meu outro romance, que a principio gostaria que marcasse a minha estreia, investi em mais um processo de reescrita.
DA – Qual foi a sensação de ter seu primeiro livro em mãos e como o enxerga hoje, depois de alguns anos?
RAFAEL MENDES – A sensação, num primeiro momento, é muito boa. Ter ISBN, o nome na capa, ver o seu texto com um acabamento, um bom projeto gráfico, como são todos os livros da Confraria do Vento, é muito legal. Mas antes de publicar eu já escrevia há alguns anos, vinha me preparando, de modo que sabia que mais cedo ou mais tarde sairia alguma publicação. O escritor inédito costuma se preocupar com isso, em ver o seu livro impresso, para mostrar para os amigos, os pares. Eu também me preocupava. No entanto, depois de publicado, a gente percebe que isso não é tão importante assim. Traço um paralelo com “O velho e o Mar”, do Hemingway: Santiago lutou por dias para pescar o grande peixe. Ele queria pescá-lo para mostrar aos amigos, aos demais pescadores, dizer que havia conseguido. Contudo, depois de ter finalmente pescado, ele já não se preocupa tanto se levará ou não o peixe para a praia, para mostrar para os outros. Com o escritor é da mesma maneira: é melhor se preocupar em fazer um bom texto, com uma linguagem apropriada, personagens bens desenvolvidos, enfim, se preocupar com a pesca em si. Se conseguirá ou não publicar, ou, nessa analogia, levar o livro-peixe até à praia, não é tão importante. “Mais importante é escrever”, disse o escritor paulista João Antônio.
DA – Digo isso porque, um pouco antes, você mencionou que tinha no original da antologia uma peça para testar o mercado editorial. Obviamente que, mesmo às cegas, você foi bem sucedido, com a publicação do seu livro. Mas, deixando isso de lado, qual a impressão geral que teve. Fazendo uma analogia com a visão do abismo, o mercado editorial brasileiro é uma queda tomada pela escuridão mais densa, no qual apenas alguns privilegiados têm o direito de brandir suas lanternas?
RAFAEL MENDES – Não vejo o mercado editorial como um vilão, como um abismo. O mercado é justamente isto, um mercado, que vive de receita. Se o processo está errado, se existem alguns privilegiados, todas as partes da cadeia possuem uma parcela de culpa: as livrarias, as editoras, os autores e até mesmo o leitor. Tem muita gente publicando atualmente. Existe muita oferta para pouca demanda; por isso é admissível que as livrarias exponham os títulos que mais vendem, as tendências do momento. São esses livros que pagarão os salários dos livreiros, dos distribuidores, etc. Da mesma maneira as grandes editoras, que sustentam o mercado, precisam de autores midiáticos, que atrairão público; só assim se paga um investimento em um ou outro autor iniciante, ou em um autor destinado a um público mais restrito. Se os autores que possuem destaque, por algum motivo que não seja a obra em si, são privilegiados? Não sei; talvez eles estejam no lugar certo, na hora certa. O que não é certo, para mim, é o descaso do governo com a educação, que pouco incentiva a leitura. Um autor também deve entender esse cenário, é mais fácil assim. Quem se predispõe a escrever literatura, tem que saber que “é uma arte feita por poucos, e para poucos”, como diria Autran Dourado. É claro que todo escritor quer ser lido pelo máximo de pessoas possível, mas esta não deve ser uma preocupação imediata. Um escritor com entendimento disso, para mim, consegue escrever com mais liberdade.
Rafael Mendes / Foto: Arquivo pessoal
DA – Você cita pontos fundamentais para se entender a literatura brasileira, que vou dividir em duas perguntas. A primeira refere-se ao debute literário. Parece muito difícil, e até presunçoso, convencer um autor não-publicado de que o mais importante é trabalhar sua escrita, lapidá-la, buscar alternativas de publicação em blogs, sites literários, revistas, antes de evidentemente se preocupar em lançar o primeiro livro. Essa postura, inclusive, pode ser associada à inscrição em concursos literários que revelam autores. Preparar um original, visando a exclusiva participação em concursos. Você chegou a mandar algum original para um prêmio literário? O que pensa dessas oportunidades para escritores inéditos?
RAFAEL MENDES – Para mim, um autor que se convence disso mostra uma postura contrária à presunção. Um escritor deve saber de sua condição. Ninguém pede pra gente escrever, a gente escreve porque gosta, porque não pode viver sem escrever. Portanto, se é para escrever por paixão, que se faça isso sem pressa, com cuidado e em busca, sempre, da excelência, ainda que ela seja inalcançável. E tem que saber que pode não dar certo, que a carreira por um motivo ou outro pode não vingar. João Ubaldo Ribeiro dizia, sobre escritores iniciantes, que um “escritor tem que ter sorte, perseverança e talento. Talento inclusive para assumir, um dia, se necessário for, que não tem talento”. Se um escritor se preocupar em lapidar a sua escrita, buscar alternativas como blogs, revistas, etc., um dia acontecerá a publicação convencional, em livro. Isso é consequência de um trabalho. Eu, particularmente, publico muito pouco em formatos alternativos. Não tenho nada contra, acho válido, mas, como eu disse, não tenho pressa em ver meu texto publicado. Sobre os concursos, eu os considero importantíssimos. É uma forma de balizar uma carreira que está começando, de incentivar. Nunca participei de nenhum concurso porque meus textos costumam não se enquadrar nos formatos que os editais pedem. Normalmente tem que ter um número mínimo de laudas, que meus textos não alcançam. “Fôlego”, por exemplo, é um texto bem reduzido; é um romance, em sua estrutura, “inacabado”. Por isso ele é pequeno. Não faria sentido eu aumentar a narrativa, acrescer algo supérfluo, somente para preparar o texto para um concurso. Então eu estou fora do páreo, não concorro. Os autores que submetem os originais a concursos são lidos por autores e críticos de renome, e vencem, eu os admiro.
DA – A segunda cabe à relação entre leitor e aumento da publicação. Há uma enorme desigualdade aí, não acha? O que me parece é que temos, hoje, uma realidade onde, se muito, autores leem autores. Penso que é uma questão de educação, sim, mas não se resume a isso. Um exemplo é que livros estrangeiros lideram a preferência de leitura e vendem muito bem. O que pensa dessa equação? Por que os autores contemporâneos brasileiros não despertam o interesse dos leitores daqui?
RAFAEL MENDES – O que vende bem no Brasil, salvo exceções, são os romances norte-americanos. Romances que já saem fadados a virar filme, no futuro. São roteiros adaptados, livros feitos nos moldes para atenderem à indústria de entretenimento. Este é o mesmo fenômeno que acontece nos nossos cinemas: raramente se vê um circuito de filme nacional, nas grandes redes, nos shoppings. O que entra em cartaz são os blockbusters. No teatro é a mesma coisa: as peças que recebem os maiores investimentos são as adaptações de musicais da Broadway. Muito se fala em globalização, mas o que é feito com a cultura é uma americanização. Penso que o governo deveria ser mais incisivo quanto a isto; não com normativas, com imposição, mas, insisto, com educação. Temos que formar leitores exigentes. Dois terços da população brasileira são analfabetos funcionais, e isto é uma vergonha. Os autores contemporâneos brasileiros escrevem textos aprofundados, que despertam o pensamento crítico e exigem uma compenetração maior, na leitura. Acontece que a nossa população, em sua maioria, e infelizmente, jamais teve acesso a isto, e prefere uma literatura mais fácil.
DA – Essa é uma discussão muito interessante. Vejo aí também uma influência direta das escolas secundárias que, ainda hoje, exigem que o aluno, no período em que está cultivando sua formação literária, leia os mesmos livros que há 30, 40 anos, estes constituídos por uma linguagem erudita e temáticas estranhas à sua época. Penso que autores como Luiz Vilela, Fernando Sabino, Clarice Lispector, entre tantos outros, seriam muito mais atrativos, mais empáticos do que aqueles cujas leituras são exigidas exclusivamente para a solução de uma prova. Não acha que, depois de cumprida a alfabetização, há aí um outro erro?
RAFAEL MENDES – Sim, há mais erros. A questão não passa somente pela alfabetização. No Brasil dá-se muito valor ao ensino técnico, que é primordial para a construção de um país, mas se esquece um pouco das ciências humanas, nos estudos. Em escola pública quase não se vê mais aula de educação artística, de filosofia, de sociologia. Essas matérias são primordiais para o desenvolvimento do raciocínio de um aluno. É isto que fará com que ele tenha capacidade de compreender um texto constituído de uma linguagem mais apurada, com temas e questões que não são ditas abertamente, mas sim requerem interpretação. Machado de Assis, José de Alencar, e até mesmo Fernando Sabino e Clarice Lispector, são autores para se embrenhar depois de já se ter lido pelo menos uns dez ou quinze livros, e não no período escolar, com o indivíduo ainda em formação. Isto só afasta a leitura e a literatura desse aluno, pois ele não tem, ainda, capacidade de entender. Mas é claro que esta questão passa também por outras esferas, outros campos do ensino; o problema não é uma exclusividade da literatura.
DA – Por falar nisso, como foi sua formação literária? Quais autores seguiram lhe acompanhando até os dias de hoje?
RAFAEL MENDES – Eu ainda estou em formação. Tem muito autor essencial que ainda não li. O que aprendi até o momento se deve aos de sempre, os imprescindíveis para quem quer escrever literatura: Machado, Tolstoi, Faulkner, Dostoiévski, Flaubert. Gosto muito de Mauriac, do Raymond Carver, de Sandor Marai. Dos contemporâneos, gosto do Pamuk, do Coetzze, do Milton Hatoum, do Bernardo Carvalho. A lista é muito grande. Também gosto de ler os caras da minha geração, o Rafael Gallo, o Sérgio Tavares, o Daniel Lopes, o Victor Paes, o Marcelo Nocelli, o Maikel de Abreu, a galera que está viva, que eu posso encontrar de repente no metrô, na mesa de um bar, ou que eu posso trocar mensagens no Facebook.
DA – Agradeço pela menção. É curioso quando fala do autor vivo e disponível, pois somos de uma geração em que o escritor era uma figura inalcançável ou morta, um tipo de entidade. Hoje, o autor é o cara do banco, a moça da padaria, o sujeito que cruza contigo no elevador. Isso acaba por me levar a uma analogia, tomando emprestado a célebre frase do Mário de Andrade: ‘Conto é tudo o que chamamos conto’. Você acredita que literatura é tudo o que chamamos literatura?
RAFAEL MENDES – Literatura é tudo o que chamamos de literatura. O problema é que existe muita literatura ruim.
DA – É mais suportável ler um romance ruim ou um conto ruim?
RAFAEL MENDES – Como leitor, é mais suportável um conto ruim, se pensarmos que esse conto pode estar dentro de uma antologia. De fato é muito difícil acertar um livro inteiro de contos. Com um romance ruim é pior, porque afinal é um livro todo. Mas isso é relativo: às vezes, o conto ou romance pode ser bom, e é o leitor que não o compreendeu, que não era o leitor ideal para aquele texto, naquele momento. Como escritor, a leitura de uma literatura ruim é até benéfica, pois se pode aprender a como não escrever, através dela.
DA – É difícil lidar com literatura ruim de amigo?
RAFAEL MENDES – É difícil lidar com a minha própria literatura. Sou muito autocrítico, não gosto de mostrar nada que escrevi, aos meus amigos, antes de considerar o texto pelo menos legível. Então escolho uns dois ou três colegas, que se predispõem a ler, e peço opinião. Com os amigos que me pedem leitura, costumo fazer o mesmo; se o texto ainda não foi publicado, costumo ser bem rígido, tento apontar algumas falhas pontuais, pois sei que é isso o que meu amigo quer. Se o texto já foi publicado, não digo que é difícil de ler – pode ser que eu apenas não seja o leitor ideal, naquele momento – mas, se eu não gosto do texto, prefiro manter silêncio e esperar pelo próximo trabalho desse amigo.
DA – Há pouco você mencionou a possibilidade de se encontrar com autores da sua geração na mesa de um bar. Se pudesse tomar uma cerveja com um escritor, vivo ou morto, qual seria e sobre o que gostaria de falar?
RAFAEL MENDES – Se pudesse escolher um, seria o William Faulkner. Não sei se ele beberia cerveja comigo, mas eu fumaria cachimbo ao seu lado. Falaríamos sobre Caddy, personagem de “O Som e a Fúria”, sobre a falta de tempo e de estabilidade financeira para escrever, e sobre a sensação – depois de anos, e mesmo recolhido em uma fazenda no sul dos Estados Unidos – de ver o reconhecimento do seu trabalho, com o prêmio Nobel de literatura.
DA – Nesse papo, você falaria também do futuro da sua literatura? O que vem aí, depois de “Fôlego”?
RAFAEL MENDES – Não me atreveria a falar com Faulkner sobre a minha literatura. Além de Fôlego, como disse antes, tem um outro romance que considero pronto, que também trata sobre a perda abrupta de alguém, e as consequências que essa perda acarreta. Esse romance continua o panorama da periferia de São Paulo, iniciado em Fôlego, e o retrato é ainda mais abrangente. O romance é mais social. Um outro romance, que continua a tratar desses temas, está em processo de escrita. E aí eu encerro esses assuntos, com os três livros. Tem muita coisa na minha gaveta, coisa até demais – acho que é isso que vou fazer agora: jogar fora alguns rascunhos guardados na gaveta do meu criado-mudo.
DA – Esse gesto comprova, para você, aquela máxima de que livro nunca fica pronto, o escritor é que se liberta do texto?
RAFAEL MENDES – Sim, comprova. O livro só está pronto se publicado. E, às vezes, até publicado, relendo, dá vontade de reescrever uma frase ou outra.
DA – Se escrever é esse exercício incessante que, mesmo depois de concluído, não parece estar pronto, por que então seguir escrevendo?
RAFAEL MENDES – Escrevo porque não sei fazer outra coisa além disso. Escrevo porque acho que têm algumas histórias que precisam ser contadas, ou recontadas, para dar voz às pessoas que vejo na rua, que escuto falar, que vejo no jornal, e não têm como se expressar. Escrevo para me calar, para não sair gritando por aí, feito um louco. Escrevo para me acalmar. Escrevo porque amo escrever. Reescrevo porque sei de uma infinidade de pares que já escreveram muito melhor do que eu, e eu preciso tentar alcançar esses escritores, ainda que seja impossível. Escrevo por um sentimento de inadequação. Escrevo para viver. Também escrevo para morrer e, quem sabe, um dia, ser lembrado.
Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.