De costas à insígnia do dever – em sua paixão havia também compaixão – eliminou o íngreme degrau. Na produção dos últimos meses colocara o prazer acima de outros princípios.
Jamais se curvaria com vergonha do que fizera. Muitos em seu lugar teriam optado pelo contemporâneo insosso e suspeito. O que é arte afinal? Repugnava-o sentir-se obrigado a admirar estilos desagradáveis. Era consciencioso – nenhum pecado até esse ponto.
Longe de representar a totalidade do que é nobre ou bom, relutando entre egoísmo e amor, por mais abjeto que lhe parecesse, seguiu somente o que sentia. O cinismo arruinado pela pouca idade também não foi impeditivo ao mais raro atributo de qualquer homem: o bom senso, a coragem de não ultrajar o que realmente é para si mesmo.
O marchand decepcionou-se. Os críticos o ignoraram. Perguntou-se como pudera ser tão inquestionável em sua agonia emocional. Ali acontecera um crime, cujo corpo desaparecera sem rastros.
Frente ao inevitável não há delírios. Voltou para casa com os pacotes pesando-lhe nos braços. Guardou tudo numa caixa e foi para o sótão. Com a luz indecisa contrariando-o, redescobriu as brumas das imagens. Ultrapassou o triângulo.
No reverso do espelho um rosto antigo lembrava-lhe a irmã e a desordem. A Terra ainda era o planeta que lhe circundava a visão. A Lua continuava ali perfumando os lençóis.
Aprimorou a forma de confrontar o próximo inimigo. Com sua urgência fremente, continuaria a fazer justiça ao arco-íris com a fidelidade das próprias mãos – Wabi-sabi. Sem reparos envelhecidos. Sem sustos. Sem mortes dessa vez.
***
Sub-reptício
Notas de um dia de outono que despertou ainda entregue ao sono porque a vida também é um filho, a mudez dos sargaços, o iphone, a mulher, o indivíduo, utopias de outrora – o ar não pesava quando perfumava a maresia e a profundeza das fontes, nas imagens cruas entregues ao pó, sono e respiração descansadas sobre a estação, para o que havia de desperto, a engrenagem na concha da consciência, singela vigília de avenida no botão do esplendor solar, a sério por outro lado a voz do corpo e a consciência, salut d’amour, num complexo retalhado de penumbra. Estou aqui, pormenor, não continue a evadir entre velar e adormecer abraços.
Que sim. Respondeu-lhe.
Destinos sem vocação, nossos fantoches em praias filosofais, nós, iludidos de não sermos… dilúvio de ilusões, rosas de um rumo lento e voluptuoso.
Sobrava-lhe o olhar de Gioconda, chuvas confusas que prometiam sentidos inesquecíveis, caminhos talhados na estranheza das poças deslizando sobre a alma em seixos ressequidos. “Não imagines oh velha juventude onde hoje caiu-te o senso das tantas que és”.
O disparate estalou a tempestade que coube em si.
Confissão refém da certeza, além daquilo que faria derramar as águas num lugar qualquer, um frasco amargoso de mel, o sonho triunfante em menos um alvor – não o danifique, decifra bem o humor das seivas e dos líquidos – perdia-se no agravo discreto, nítido.
Que não. Retornou-lhe.
Quando coubermos úmidos entre dois instantes de respirações espumantes – entre o enlevo do encontro e a hirteza rutilante da busca por outra realidade sem pausa – somos o que aqui vagueia, só Lua e Sol.
Tere Tavares, escritora e artista plástica, autora de quatro livros publicados “Flor Essência” ( poesia 2004), “Meus Outros” (poesia e prosa 2007), “Entre as Águas” (prosas 2011) e “A linguagem dos Pássaros” (poesia Editora Patuá, 2014). Integra a Academia Cascavelense de Letras.
o amor tem tudo pra dar errado e você descalça, sem sutiãs, de cabelos curtos, exorcizando a luz do sol. o amor tem tudo pra dar errado e seus olhos grandes e persecutórios sobre mim, a cidade e suas febres, seu corpo por cima do meu. o amor tem tudo pra dar errado e você levitando no vapor, sua voz praticando malabares com as proparoxítonas, os sintomas, os sinais e os arrepios da sua língua. o amor tem tudo pra dar errado e você dança no fogo desconstruindo sombras, apagando as coisas ao redor. o amor tem tudo pra dar errado e mesmo assim o salto, o passo no lugar escuro. mesmo assim sopro no seu ouvido minha palavra brutal, seguro sua mão e você sorri e entende o lance.
……
anamnese
estou envolvido com essa doença chamada amor. as corais brancas da vodca, a bola oito na caçapa do meio, bar do paraíba às cinco e meia da madrugada. baladas de simon & garfunkel, o silêncio que sai dos corpos. estou envolvido com essa doença chamada amor. a chuva contra o meu rosto, os demônios da demolição trabalhando duro dentro do peito, o medo nos olhos fixos do anjo de vidro, o tifo epidêmico na pele de gesso. estou envolvido com essa doença chamada amor. o calor da febre na ponta da língua, o torpor nas pontas dos dedos, as flores de plástico dentro do copo com água e açúcar, as pedras dentro da cabeça. estou envolvido com essa doença chamada amor. as espirais de fumaça do cigarro, os medicamentos do entorpecimento, as longas horas diante da geladeira, as paredes. estou envolvido com essa doença chamada amor e não sei se tenho cura ou se escapo dessa com vida.
……
claro enigma
o que existe em você que me entorpece? qual palavra elétrica pronunciar? seu corpo salgado e sem sombras aparece dentro de meus sonhos causando erosões. o que existe em você que me paralisa? onde extrair o veneno? você sairá das águas e me fará voar entre os prédios mais altos? irá gritar meu nome na tempestade? sentirei dor? o que existe em você que me seduz e me faz suar frio? onde encontrar o pote de ouro? ouço seu nome no fundo do mar. você irá morder meu desejo, evaporar minhas tristezas? o que existe em você que perverte os sentidos? deixa mudo meu português caótico, invade e destrói territórios e os ambientes tóxicos? serei morto pelos fabulários? morderei do fruto? serei um outro? o que existe em você que me deixa volátil e lírico? o que existe em você que me apaga o medo, me faz voar entre corvos, sorrir prus que me desprezam? o que existe em você que me acalma o incêndio, ilumina as trevas, desanuvia o domingo e me deixa assim quase feliz?
…….
das necessidades do amor
você precisa de adrenalina e eletricidade pra desobstruir o ar dos pulmões. você precisa mastigar com dentes de fogo a imagem congelada. você precisa sangrar até perder os sentidos e estabelecer paradoxos. você precisa decifrar o gelo e os signos da carnificina. precisa conhecer os homens ocos do t.s elliot. precisa deixar de ser crisálida e virar pássaro em chamas. você precisar deixar de lado os renascentistas de pedra e mergulhar de vez no atlântico. você precisa levar choque térmico nos mamilos adormecidos e acender as luzes do quarto escuro. precisa desligar o automático, entrar em curto-circuito. você precisa virar clave de sol, romper a barreira do espelho, cortar os cabelos, abrir asas e alçar vôo seja lá pra onde for, meu amor.
…….
sim!
se você esfaqueasse o orgulho numa noite fria e saísse correndo nua na tempestade, se você sorrisse na cara do carrasco, se colocasse na boca e comesse o desejo dos pássaros, se você saísse das águas com flores nos cabelos e ressuscitasse os mortos, se você incendiasse o sangue de todos os poemas, se fizesse explodir os bancos e desaparecesse na cidade em chamas, se você tivesse os olhos vazados pela luz magnífica e dançasse de braços abertos na beira do mundo, se você deixasse de lado sua vaidade de mulher má, me estendesse a mão e dissesse venha, eu juro que iria.
Jorge Mendes é formado em história, “quase” pós-graduado em teoria da comunicação pela eca-usp (abandonou o mestrado pra viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de brautigan, amante do vinho e da cachaça, pede pouco e recebe na cara e nunca tem ninguém por perto quando bate a vontade de cortar os pulsos.
A escrita criativa rende bons paralelos. O escritor Rafael Mendes encontra o seu melhor em Hemingway, nas páginas salubres de “O velho e o mar”: “Santiago lutou por dias para pescar o grande peixe. Ele queria pescá-lo para mostrar aos amigos, aos demais pescadores, dizer que havia conseguido. Contudo, depois de ter finalmente pescado, ele já não se preocupa tanto se levará ou não o peixe para a praia, para mostrar para os outros. Com o escritor é da mesma maneira: é melhor se preocupar em fazer um bom texto, com uma linguagem apropriada, personagens bens desenvolvidos, enfim, se preocupar com a pesca em si. Se conseguirá ou não publicar, ou, nessa analogia, levar o livro-peixe até à praia, não é tão importante”.
De peixes também trata seu novo romance, “Fôlego”. Os peixes-fantasma, os peixes-mentira produtos das pescarias de um pai que oculta um segredo. Traduzi-lo ou, de certa forma, exorcizá-lo é o motor que embala o fluxo de consciência do filho, agora adulto, a revisitar a infância marcada por momentos intransitivos de suspeitas e de aflições. O não-dito é o que provoca a ruína familiar. De fato, o desmoronamento inaudito de todos.
Mendes tem, em sua literatura, a simplicidade que significa o trato da pesca. Tal qual o velho Santiago, sabe que fisgar o peixe grande requer paciência e perícia. Levar o tempo necessário para conformar o universo ficcional, esmerar seus detalhes, desenvolver os personagens e suas motivações, escalar a melhor maneira de contar suas histórias. Chegar à praia.
Nesta entrevista, Mendes fala do fazer ficcional, do exercício de procura que cativa seus anseios e objetivos na composição de suas tramas. Mas também de educação, formação de leitores, mercado editorial, primeiro livro, autores contemporâneos e qual escritor convidaria para tomar umas cervejas. Tudo com a lucidez de quem defronta a imensidão do mar e sabe de suas certezas e de seus perigos.
“Ninguém pede pra gente escrever, a gente escreve porque gosta, porque não pode viver sem escrever. Portanto, se é para escrever por paixão, que se faça isso sem pressa, com cuidado e em busca, sempre, da excelência, ainda que ela seja inalcançável. E tem que saber que pode não dar certo, que a carreira por um motivo ou outro pode não vingar”. Embarque nesse papo e deixe que o curso das palavras lhe conduza.
Rafael Mendes / Foto: Arquivo pessoal
DA – Nos contos de “A melhor maneira de comprar sapato”, antologia que marca sua estreia literária, há uma forte presença da infância como um período transformador, de ruptura, e até mesmo de formação precoce. Esse efeito se repete agora em “Fôlego”, romance recém-lançado. A que ponto existe aí o assombramento de elementos factuais? Partindo da premissa de que todo escritor recorre à memória em algum momento do processo criativo, de onde são resgatadas suas histórias?
RAFAEL MENDES – Recorro à memória para escrever, sim, mas não conto ou reconto a minha própria história. Eu diria que é mais uma memória coletiva, da minha geração, dos meus amigos e familiares. Tem muito de mim, obviamente, porque só se escreve sobre aquilo que se conhece, mas não posso dizer que meus textos são autobiográficos. A mim interessa mais as relações humanas, vêm daí as minhas histórias; quando conto um episódio da infância, na verdade eu estou contando as relações das pessoas em torno da criança-personagem: os pais, os amigos, a primeira namorada, os irmãos. Nós não lembramos de toda a nossa infância; lembramos de passagens específicas, que nos são caras por um motivo ou outro. E nessas passagens sempre há uma pessoa querida envolvida. São a essas relações que eu recorro para escrever.
DA – Porém, além da incidência da memória, há um intenso poder de observação nos seus textos, concorda? O conto que dá nome à antologia, por exemplo, em que uma mulher humilde resgata a lembrança de, quando menina, ir com a mãe comprar um sapato soa tão real que se assemelha a um fato acomodado na ficção. O quanto de realidade cabe na sua literatura? Há esse olhar um tanto de cronista no papel de contista?
RAFAEL MENDES – Concordo. A observação é fundamental no meu processo de escrita. É papel do escritor registrar o seu tempo, a sua sociedade, o seu país, embasado no seu olhar. Tchekhov, por exemplo, escrevia essencialmente para o povo russo, sem a preocupação em atingir ou não outras culturas. Vem dessa seara o magnífico conto “Os Mujiques”. A meu modo, tento fazer o mesmo: registrar a minha localidade, as pessoas comuns, gente que encontramos no trem ou até mesmo em uma loja de sapatos. Isto, é claro, aliado aos motes universais da literatura, como o amor, a perda, etc. Nesse aspecto, meus textos estão muito próximos da realidade, pois escrevo sobre fatos corriqueiros e conhecidos de muita gente.
DA – Onde, então, você encontrou os integrantes do núcleo familiar de ‘Fôlego’? Para onde precisou olhar para capturá-los?
RAFAEL MENDES – Olhei ao meu redor. A história da família de “Fôlego” é na verdade um apanhado de histórias de outras famílias, de amigos, de familiares, ou até mesmo de livros, filmes e notícias de jornal. Por isso referi-me a uma espécie de memória coletiva. As nossas histórias, alguns fatos da nossa vida de um modo em geral, tendem a se repetir com outras pessoas, outros lares. O que é narrado em “Fôlego” não é extraordinário: poderia ser a vida de muita gente, inclusive a do leitor. Talvez, por uma suposta empatia do leitor em alguns trechos, para com a família de “Fôlego”, leva-se a pensar que há no texto mais realidade do que ficção. Mas, ao aglutinar diversas histórias em uma única narrativa, e acrescer a essa narrativa uma linguagem e uma estrutura romanesca, o que prevalece é a ficção.
DA – E, ao retratar um núcleo de personagens humildes, pessoas simples, isso acaba por contaminar sua prosa que, diferente da tendência atual da literatura contemporânea, prima pela simplicidade, pela linearidade, pelo narrar cronológico. Essa é uma busca natural ou há uma motivação técnica nesse processo?
RAFAEL MENDES – Se eu busco retratar pessoas sem muitos recursos ou ambições, pessoas simples, é natural que minha literatura também caminhe no sentido da simplicidade, da concisão. Tento escrever como os meus personagens escreveriam, como eles pensam, com um léxico reduzido, sem inovações, mas com o cuidado para não descambar em um preconceito linguístico. Talvez haja a pretensão de que pessoas como as que eu retrato também possam ler o meu texto sem dificuldade. Isto, contudo, de maneira alguma é fácil. É a máxima do Graciliano: “Escrever fácil é difícil”. Assim, além da busca natural, há, também, uma intenção técnica no meu processo de escrita.
DA – Interessante essa mescla de pendor natural e técnica, pois acaba por desvelar um procedimento que oculta uma complexidade dentro de um escopo simples, sem cair na pieguice ou ser simplório. Falando em processo de escrita, conte um pouco da sua rotina. Qual o tempo reservado para sua literatura?
RAFAEL MENDES – Eu penso muito antes de escrever. Só parto para a escrita, propriamente, quando aquilo que quero contar já está pronto na minha mente. Esse processo pode durar meses, até anos. Observo as pessoas e o cenário que quero registrar. Nesse ínterim vou anotando, pesquisando, lendo. Depois parto para a escrita, que é outro processo dispendioso. Sinto-me muito realizado quando consigo escrever um parágrafo decente, em um dia trabalho. Em seguida, tem a reescrita, que é o que mais gosto. O ajuste das palavras, a estrutura dos parágrafos, o labor. Também trabalho com escaletas, plots, resumos. Faço detalhamento dos personagens, traço uma ordem cronológica, uso planilhas. Por fim, faço cortes, aparo as arestas, deleto parágrafos inteiros. Isto pode dar a entender que o processo é puramente técnico, mas às vezes a narrativa segue um caminho contrário ao que eu havia planejado, no início. Em Fôlego, por exemplo, há um personagem que, no meu planejamento, não morreria. No entanto, durante a escrita, entendi que somente a morte dele justificaria aquilo que é narrado, pois o tema principal do livro é a imprevisibilidade da morte e a impotência perante ela. Esses desvios no processo, esses descaminhos, me fascinam. Muitos escritores já disseram que alguns personagens ganham vida própria, enquanto estão sendo criados. É claro que, tratado de modo leviano, parece surreal; mas, analisando atentamente, é isto o que acontece. Qual o tempo reservado para a minha literatura? Eu diria que é todo o tempo.
DA – O cumprimento dessas etapas acaba por desmistificar a ideia que condena o escritor a ser refém de uma luz repentina, o poder etéreo da inspiração. O que há realmente, como bem disse, é labor. Mas existem diferentes tipos de manufaturas? Com uma antologia e um romance lançados, você entende que há uma técnica para se escrever um conto que se distingue daquela utilizada para a construção de uma narrativa longa?
RAFAEL MENDES – A mesma dedicação que despendo em um romance, aplico na construção de um conto. É natural que o tempo necessário para terminar um conto é menor, mas, ao considerar que também penso muito sobre o conto que quero escrever, antes da execução, diria que a manufatura é a mesma que a do romance. Existem aspectos que distinguem um gênero do outro: um conto moderno deve conter duas narrativas, uma aparente e outra oculta, nas entrelinhas, ideia defendida por muitos contistas e que eu corroboro. Fazer isto com precisão, contudo, requer muita disciplina. Já o romance é feito de camadas, a passagem de tempo é maior, os personagens são mais desenvolvidos, há mais de um tema abordado. Conto e romance são gêneros distintos; o autor que se predispõe a investir na escrita dos dois deve dedicar o mesmo esmero tanto a um quanto a outro, considerando as suas respectivas peculiaridades.
DA – No entanto essa passagem do conto para o romance é vista, por muitos editores, como um sinal de amadurecimento. Há uma ideia de que o conto seria uma prévia, um tipo de acúmulo de experiência para se angariar fôlego para a tessitura de um romance. Você se preocupou com isso? Dentro do seu projeto literário, estava programado o lançamento de uma antologia para marcar a sua estreia e, logo em seguida, partir para a narrativa longa?
RAFAEL MENDES – De modo algum eu programei lançar meus contos primeiro. Costumo brincar que os contos foram publicados no susto. Em 2011, eu havia concluído uma das versões de um romance, que permanece inédito, e minha intenção era publicá-lo. Antes disso, porém, eu reuni os meus contos; reli e reescrevi grande parte deles. Como era um volume o suficiente para uma antologia, resolvi enviar para duas ou três editoras. Queria mais testar o mercado, ver como funcionava o processo de submissão de originais. Não pensava que alguma editora fosse querer publicar o meu volume; mas a Karla Melo, da Confraria do Vento, leu e gostou. No ano seguinte, “A Melhor Maneira De Comprar Sapato” foi publicado. Depois disso eu me debrucei na conclusão de “Fôlego”, que acaba de ser lançado. Quanto ao meu outro romance, que a principio gostaria que marcasse a minha estreia, investi em mais um processo de reescrita.
DA – Qual foi a sensação de ter seu primeiro livro em mãos e como o enxerga hoje, depois de alguns anos?
RAFAEL MENDES – A sensação, num primeiro momento, é muito boa. Ter ISBN, o nome na capa, ver o seu texto com um acabamento, um bom projeto gráfico, como são todos os livros da Confraria do Vento, é muito legal. Mas antes de publicar eu já escrevia há alguns anos, vinha me preparando, de modo que sabia que mais cedo ou mais tarde sairia alguma publicação. O escritor inédito costuma se preocupar com isso, em ver o seu livro impresso, para mostrar para os amigos, os pares. Eu também me preocupava. No entanto, depois de publicado, a gente percebe que isso não é tão importante assim. Traço um paralelo com “O velho e o Mar”, do Hemingway: Santiago lutou por dias para pescar o grande peixe. Ele queria pescá-lo para mostrar aos amigos, aos demais pescadores, dizer que havia conseguido. Contudo, depois de ter finalmente pescado, ele já não se preocupa tanto se levará ou não o peixe para a praia, para mostrar para os outros. Com o escritor é da mesma maneira: é melhor se preocupar em fazer um bom texto, com uma linguagem apropriada, personagens bens desenvolvidos, enfim, se preocupar com a pesca em si. Se conseguirá ou não publicar, ou, nessa analogia, levar o livro-peixe até à praia, não é tão importante. “Mais importante é escrever”, disse o escritor paulista João Antônio.
DA – Digo isso porque, um pouco antes, você mencionou que tinha no original da antologia uma peça para testar o mercado editorial. Obviamente que, mesmo às cegas, você foi bem sucedido, com a publicação do seu livro. Mas, deixando isso de lado, qual a impressão geral que teve. Fazendo uma analogia com a visão do abismo, o mercado editorial brasileiro é uma queda tomada pela escuridão mais densa, no qual apenas alguns privilegiados têm o direito de brandir suas lanternas?
RAFAEL MENDES – Não vejo o mercado editorial como um vilão, como um abismo. O mercado é justamente isto, um mercado, que vive de receita. Se o processo está errado, se existem alguns privilegiados, todas as partes da cadeia possuem uma parcela de culpa: as livrarias, as editoras, os autores e até mesmo o leitor. Tem muita gente publicando atualmente. Existe muita oferta para pouca demanda; por isso é admissível que as livrarias exponham os títulos que mais vendem, as tendências do momento. São esses livros que pagarão os salários dos livreiros, dos distribuidores, etc. Da mesma maneira as grandes editoras, que sustentam o mercado, precisam de autores midiáticos, que atrairão público; só assim se paga um investimento em um ou outro autor iniciante, ou em um autor destinado a um público mais restrito. Se os autores que possuem destaque, por algum motivo que não seja a obra em si, são privilegiados? Não sei; talvez eles estejam no lugar certo, na hora certa. O que não é certo, para mim, é o descaso do governo com a educação, que pouco incentiva a leitura. Um autor também deve entender esse cenário, é mais fácil assim. Quem se predispõe a escrever literatura, tem que saber que “é uma arte feita por poucos, e para poucos”, como diria Autran Dourado. É claro que todo escritor quer ser lido pelo máximo de pessoas possível, mas esta não deve ser uma preocupação imediata. Um escritor com entendimento disso, para mim, consegue escrever com mais liberdade.
Rafael Mendes / Foto: Arquivo pessoal
DA – Você cita pontos fundamentais para se entender a literatura brasileira, que vou dividir em duas perguntas. A primeira refere-se ao debute literário. Parece muito difícil, e até presunçoso, convencer um autor não-publicado de que o mais importante é trabalhar sua escrita, lapidá-la, buscar alternativas de publicação em blogs, sites literários, revistas, antes de evidentemente se preocupar em lançar o primeiro livro. Essa postura, inclusive, pode ser associada à inscrição em concursos literários que revelam autores. Preparar um original, visando a exclusiva participação em concursos. Você chegou a mandar algum original para um prêmio literário? O que pensa dessas oportunidades para escritores inéditos?
RAFAEL MENDES – Para mim, um autor que se convence disso mostra uma postura contrária à presunção. Um escritor deve saber de sua condição. Ninguém pede pra gente escrever, a gente escreve porque gosta, porque não pode viver sem escrever. Portanto, se é para escrever por paixão, que se faça isso sem pressa, com cuidado e em busca, sempre, da excelência, ainda que ela seja inalcançável. E tem que saber que pode não dar certo, que a carreira por um motivo ou outro pode não vingar. João Ubaldo Ribeiro dizia, sobre escritores iniciantes, que um “escritor tem que ter sorte, perseverança e talento. Talento inclusive para assumir, um dia, se necessário for, que não tem talento”. Se um escritor se preocupar em lapidar a sua escrita, buscar alternativas como blogs, revistas, etc., um dia acontecerá a publicação convencional, em livro. Isso é consequência de um trabalho. Eu, particularmente, publico muito pouco em formatos alternativos. Não tenho nada contra, acho válido, mas, como eu disse, não tenho pressa em ver meu texto publicado. Sobre os concursos, eu os considero importantíssimos. É uma forma de balizar uma carreira que está começando, de incentivar. Nunca participei de nenhum concurso porque meus textos costumam não se enquadrar nos formatos que os editais pedem. Normalmente tem que ter um número mínimo de laudas, que meus textos não alcançam. “Fôlego”, por exemplo, é um texto bem reduzido; é um romance, em sua estrutura, “inacabado”. Por isso ele é pequeno. Não faria sentido eu aumentar a narrativa, acrescer algo supérfluo, somente para preparar o texto para um concurso. Então eu estou fora do páreo, não concorro. Os autores que submetem os originais a concursos são lidos por autores e críticos de renome, e vencem, eu os admiro.
DA – A segunda cabe à relação entre leitor e aumento da publicação. Há uma enorme desigualdade aí, não acha? O que me parece é que temos, hoje, uma realidade onde, se muito, autores leem autores. Penso que é uma questão de educação, sim, mas não se resume a isso. Um exemplo é que livros estrangeiros lideram a preferência de leitura e vendem muito bem. O que pensa dessa equação? Por que os autores contemporâneos brasileiros não despertam o interesse dos leitores daqui?
RAFAEL MENDES – O que vende bem no Brasil, salvo exceções, são os romances norte-americanos. Romances que já saem fadados a virar filme, no futuro. São roteiros adaptados, livros feitos nos moldes para atenderem à indústria de entretenimento. Este é o mesmo fenômeno que acontece nos nossos cinemas: raramente se vê um circuito de filme nacional, nas grandes redes, nos shoppings. O que entra em cartaz são os blockbusters. No teatro é a mesma coisa: as peças que recebem os maiores investimentos são as adaptações de musicais da Broadway. Muito se fala em globalização, mas o que é feito com a cultura é uma americanização. Penso que o governo deveria ser mais incisivo quanto a isto; não com normativas, com imposição, mas, insisto, com educação. Temos que formar leitores exigentes. Dois terços da população brasileira são analfabetos funcionais, e isto é uma vergonha. Os autores contemporâneos brasileiros escrevem textos aprofundados, que despertam o pensamento crítico e exigem uma compenetração maior, na leitura. Acontece que a nossa população, em sua maioria, e infelizmente, jamais teve acesso a isto, e prefere uma literatura mais fácil.
DA – Essa é uma discussão muito interessante. Vejo aí também uma influência direta das escolas secundárias que, ainda hoje, exigem que o aluno, no período em que está cultivando sua formação literária, leia os mesmos livros que há 30, 40 anos, estes constituídos por uma linguagem erudita e temáticas estranhas à sua época. Penso que autores como Luiz Vilela, Fernando Sabino, Clarice Lispector, entre tantos outros, seriam muito mais atrativos, mais empáticos do que aqueles cujas leituras são exigidas exclusivamente para a solução de uma prova. Não acha que, depois de cumprida a alfabetização, há aí um outro erro?
RAFAEL MENDES – Sim, há mais erros. A questão não passa somente pela alfabetização. No Brasil dá-se muito valor ao ensino técnico, que é primordial para a construção de um país, mas se esquece um pouco das ciências humanas, nos estudos. Em escola pública quase não se vê mais aula de educação artística, de filosofia, de sociologia. Essas matérias são primordiais para o desenvolvimento do raciocínio de um aluno. É isto que fará com que ele tenha capacidade de compreender um texto constituído de uma linguagem mais apurada, com temas e questões que não são ditas abertamente, mas sim requerem interpretação. Machado de Assis, José de Alencar, e até mesmo Fernando Sabino e Clarice Lispector, são autores para se embrenhar depois de já se ter lido pelo menos uns dez ou quinze livros, e não no período escolar, com o indivíduo ainda em formação. Isto só afasta a leitura e a literatura desse aluno, pois ele não tem, ainda, capacidade de entender. Mas é claro que esta questão passa também por outras esferas, outros campos do ensino; o problema não é uma exclusividade da literatura.
DA – Por falar nisso, como foi sua formação literária? Quais autores seguiram lhe acompanhando até os dias de hoje?
RAFAEL MENDES – Eu ainda estou em formação. Tem muito autor essencial que ainda não li. O que aprendi até o momento se deve aos de sempre, os imprescindíveis para quem quer escrever literatura: Machado, Tolstoi, Faulkner, Dostoiévski, Flaubert. Gosto muito de Mauriac, do Raymond Carver, de Sandor Marai. Dos contemporâneos, gosto do Pamuk, do Coetzze, do Milton Hatoum, do Bernardo Carvalho. A lista é muito grande. Também gosto de ler os caras da minha geração, o Rafael Gallo, o Sérgio Tavares, o Daniel Lopes, o Victor Paes, o Marcelo Nocelli, o Maikel de Abreu, a galera que está viva, que eu posso encontrar de repente no metrô, na mesa de um bar, ou que eu posso trocar mensagens no Facebook.
DA – Agradeço pela menção. É curioso quando fala do autor vivo e disponível, pois somos de uma geração em que o escritor era uma figura inalcançável ou morta, um tipo de entidade. Hoje, o autor é o cara do banco, a moça da padaria, o sujeito que cruza contigo no elevador. Isso acaba por me levar a uma analogia, tomando emprestado a célebre frase do Mário de Andrade: ‘Conto é tudo o que chamamos conto’. Você acredita que literatura é tudo o que chamamos literatura?
RAFAEL MENDES – Literatura é tudo o que chamamos de literatura. O problema é que existe muita literatura ruim.
DA – É mais suportável ler um romance ruim ou um conto ruim?
RAFAEL MENDES – Como leitor, é mais suportável um conto ruim, se pensarmos que esse conto pode estar dentro de uma antologia. De fato é muito difícil acertar um livro inteiro de contos. Com um romance ruim é pior, porque afinal é um livro todo. Mas isso é relativo: às vezes, o conto ou romance pode ser bom, e é o leitor que não o compreendeu, que não era o leitor ideal para aquele texto, naquele momento. Como escritor, a leitura de uma literatura ruim é até benéfica, pois se pode aprender a como não escrever, através dela.
DA – É difícil lidar com literatura ruim de amigo?
RAFAEL MENDES – É difícil lidar com a minha própria literatura. Sou muito autocrítico, não gosto de mostrar nada que escrevi, aos meus amigos, antes de considerar o texto pelo menos legível. Então escolho uns dois ou três colegas, que se predispõem a ler, e peço opinião. Com os amigos que me pedem leitura, costumo fazer o mesmo; se o texto ainda não foi publicado, costumo ser bem rígido, tento apontar algumas falhas pontuais, pois sei que é isso o que meu amigo quer. Se o texto já foi publicado, não digo que é difícil de ler – pode ser que eu apenas não seja o leitor ideal, naquele momento – mas, se eu não gosto do texto, prefiro manter silêncio e esperar pelo próximo trabalho desse amigo.
DA – Há pouco você mencionou a possibilidade de se encontrar com autores da sua geração na mesa de um bar. Se pudesse tomar uma cerveja com um escritor, vivo ou morto, qual seria e sobre o que gostaria de falar?
RAFAEL MENDES – Se pudesse escolher um, seria o William Faulkner. Não sei se ele beberia cerveja comigo, mas eu fumaria cachimbo ao seu lado. Falaríamos sobre Caddy, personagem de “O Som e a Fúria”, sobre a falta de tempo e de estabilidade financeira para escrever, e sobre a sensação – depois de anos, e mesmo recolhido em uma fazenda no sul dos Estados Unidos – de ver o reconhecimento do seu trabalho, com o prêmio Nobel de literatura.
DA – Nesse papo, você falaria também do futuro da sua literatura? O que vem aí, depois de “Fôlego”?
RAFAEL MENDES – Não me atreveria a falar com Faulkner sobre a minha literatura. Além de Fôlego, como disse antes, tem um outro romance que considero pronto, que também trata sobre a perda abrupta de alguém, e as consequências que essa perda acarreta. Esse romance continua o panorama da periferia de São Paulo, iniciado em Fôlego, e o retrato é ainda mais abrangente. O romance é mais social. Um outro romance, que continua a tratar desses temas, está em processo de escrita. E aí eu encerro esses assuntos, com os três livros. Tem muita coisa na minha gaveta, coisa até demais – acho que é isso que vou fazer agora: jogar fora alguns rascunhos guardados na gaveta do meu criado-mudo.
DA – Esse gesto comprova, para você, aquela máxima de que livro nunca fica pronto, o escritor é que se liberta do texto?
RAFAEL MENDES – Sim, comprova. O livro só está pronto se publicado. E, às vezes, até publicado, relendo, dá vontade de reescrever uma frase ou outra.
DA – Se escrever é esse exercício incessante que, mesmo depois de concluído, não parece estar pronto, por que então seguir escrevendo?
RAFAEL MENDES – Escrevo porque não sei fazer outra coisa além disso. Escrevo porque acho que têm algumas histórias que precisam ser contadas, ou recontadas, para dar voz às pessoas que vejo na rua, que escuto falar, que vejo no jornal, e não têm como se expressar. Escrevo para me calar, para não sair gritando por aí, feito um louco. Escrevo para me acalmar. Escrevo porque amo escrever. Reescrevo porque sei de uma infinidade de pares que já escreveram muito melhor do que eu, e eu preciso tentar alcançar esses escritores, ainda que seja impossível. Escrevo por um sentimento de inadequação. Escrevo para viver. Também escrevo para morrer e, quem sabe, um dia, ser lembrado.
Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.
Com os braços debaixo da cabeça, era só ouvidos. Barulhos de passos na escada de madeira, gritos agudos vazando pelas paredes, o grasnar rude da dona das chaves. Motel de terceira – única espelunca que podia pagar. A mulher roncava aquele ronco de vaca saciada de capim verde. O ar era podre, o cheiro era podre, tudo apodrecia. E eu, um porra dum fracassado. Nunca saía do meio. Sempre entre o fundo e a borda do poço. Não servia nem pra chafurdar nas trevas. Levara um par de chifres e só conseguira pegar a primeira puta pra afundar nela toda frustração que rasgava minhas entranhas. Cheguei a pensar no tiro. A bala varando o peito e explodindo no colchão. Cheguei até a ver a cama chupando, sôfrega, o sangue enquanto a pilantra ia-se de olhos arregalados sem acreditar que eu puxara o gatilho. Não suportei a cena. Covarde. Preferi bater a porta e me esconder na escuridão. Agora estava ali, de frente pra minha caída no purgatório – o berço dos canalhas sem culhões. O lugar onde passaria a vida me arrependendo do ato que não saíra da imaginação. Outro ronco alto. Cabelos escuros cobriam o rosto que eu nunca vira. Aquele corpo mexera-se debaixo do meu. Fingida. Gritara como se eu estivesse arrombando o que nem porta tinha. Cuspi nela. De nojo e de raiva. Ela devolveu a cusparada e grudou os dentes em minha boca. Bem na hora em que me livrava do sêmen podre de covardia. E o gosto de sangue invadiu meus sentidos. Lambi o lábio e a ferida se fez novamente viva na ardidura. Raiva. Da mulher, da puta, de mim mesmo. Levantei. O coração estava mordido, espicaçado pelo desprezo da mulher. A noite me olhou. Escura e vazia. As estrelas pareciam esconder-se de mentes castradas – a minha. Saí sem fechar a porta, direto pra mureta. Fiquei ali olhando o rio escuro, sentindo seu cheiro fétido se misturando aos meus pensamentos. Fiquei ali segurando o saco. E pensando, sentindo e pensando na água inundando-me os pulmões. Acordei com dor no peito e tubos no nariz. Nem pra morrer eu nasci.
***
O voo da mariposa
Ela estava se revirando internamente. Desde que fizera quarenta anos era só um rodopio frente ao espelho. Não compreendia o que lhe acontecia. Os sentidos não chegavam à razão. Sabia apenas que dentro dela algo mudava quase que a cada nascer do sol. E o sol ultimamente estava nascendo de um alaranjado quase vermelho. É que dentro dela tinha um fogo doido e doído. Fogo que adivinhava a chegada do pôrdosol.
Havia uma urgência no ar do banheiro. O espelho mostrava as pequenas rugas que ela ignorava solenemente. Nunca antes se preocupara com o corpo. Agora ele parecia crescer à sua frente. E por detrás dele a imagem do menino. Aconteceu. O menino. Foi um encontro casual, destes que poderiam acontecer a qualquer pessoa. Entrou nela como forças opostas duelando-se. E rompeu a barreira da idade. Deixou-a equilibrando-se à beira do precipício. Porque havia nele uma parte da vida dela. A parte não vivida. E porque havia naquela espécie de loucura a esperança de salvação.
Durante os dias anteriores esteve numa voragem de expectativa. O fogo dentro dela buscava a carta do menino. O gelo lembrava os vinte anos que os separavam. E era o gelo que fazia afundar-se a linha entre as sobrancelhas. Tinha uma vida dentro da vida dela. Uma vida que se escondia. Vida sem causa ou efeito, mas que parecia querer explodir na pele.
Amava tudo à sua volta. O marido, os filhos, o verde das árvores. Ainda assim, sentia-se incompleta. Sabia. Só se completaria com esta vida secreta tão recém descoberta. A vida que faria o eterno transformar-se em intensidade do momento. E esta vida já não era apenas sonho. Tinha um corpo. E boca. E uma tensão que a fazia corda afinada de instrumento musical. Ou mariposa de voo incerto e esfuziante, perseguindo o fogo mesmo sabendo do risco de queimar-se.
Ajeitou os cabelos e foi em busca da bolsa. Ela iria se queimar, sabia. Mas sabia também que precisaria experimentar. Nem que fosse uma única vez. Viver era imperiosamente preciso.
Lourença Bella é mineira das terras vermelhas de Drummond, passou pela academia de onde saiu professora. Foi só o inicio. Pisciana que é, descobriu-se muito mais aprendiz. Abandonou a sala de aula, passando a trocar conhecimentos fora dela. Depois de anos trabalhando com Educação, virou a mesa. Foi aprender as regras do mundo empresarial onde se equilibra até hoje. Da academia guarda ainda a fome de conhecimento. Especialmente de si mesma. Por isso escreve.
Claudio Parreira é um destemido. Ele acaba de lançar um livro influenciado pelo realismo fantástico num país que subestima a literatura de Murilo Rubião e de J. J. Veiga. Um livro de contos, gênero que causa arrepios nas grandes editoras, pois não vende, “salvo se você for um Rubem Fonseca ou um Dalton Trevisan”, como, certa vez, desastrosamente declarou a representante de um selo. Contos estes, em grande maioria, brevíssimos, quando acaba de ser laureado com o Pullitzer um calhamaço de 800 páginas.
Claudio Parreira é, de fato, um artesão. Percorridas as primeiras páginas de “Delirium” (Editora Penalux/2014), é possível reconhecer o lapidar das frases, o tempo gasto para o encontro da consonância entre as palavras, a cultura paciente de um bonsai. Tal processo acaba por cobrir seus contos com um verniz poético que suaviza o estranhamento inerente ao terreno do insólito, porém não o destitui da capacidade de impacto. Há uma fronteira muito estreita entre sonho e pesadelo, entre o cotidiano que nos acomoda e a realidade que dele se mimetiza, na qual prevalece a absurdeza. Parreira a conhece bem e prepara a armadilha para o leitor. A linguagem é a isca.
Nessa entrevista, o escritor e jornalista experiente, com colaborações na Revista Bundas, Caros Amigos Online e O Pasquim 21, aceita o convite de transitar por caminhos dentro e fora do universo literário, mas que se relacionam diretamente à sua ficção. Rotina criativa, formato digital, autores contemporâneos, mercado editorial, o papel do leitor; uma estamparia de temas analisados com destreza e segurança, que ratificam o poder de encarar a vida e a arte, mesmo que de viés. “Não consigo imaginar literatura a favor do vento. Sempre escrevi na contramão. Se os meus temores se concretizarem, estou em plena rota de colisão. Sei disso, e sigo. Não aprendi a voltar”. Venham, caminhem junto.
Claudio Parreira / Foto: Arquivo pessoal
DA – “Delirium”, seu recém-lançado volume de contos, tem influência direta do realismo fantástico, cujos expoentes na literatura brasileira são o mineiro Murilo Rubião e o goiano J. J. Veiga. Na condição de leitor, qual a sua relação com esses autores e por que decidiu transitar por esse gênero ao tecer sua ficção?
CLAUDIO PARREIRA – Só fui conhecer Murilo Rubião e J. J. Veiga lá pela metade dos anos 80, depois de ter lido muito Cortázar, Borges e Gabriel Garcia Márquez. Eu simplesmente não sabia que se produzia realismo fantástico no Brasil. Li pouco de Rubião, apenas “O Pirotécnico Zacarias”, mas esse pequeno livro, por uma razão misteriosa – ou seria fantástica? – ainda se faz presente na minha experiência como leitor. Já o Veiga, esse eu li mais. “Os Cavalinhos de Platiplanto” e “A Estranha Máquina Extraviada”, mas pouco perdura na minha memória afetiva. Quanto ao gênero que pratico na minha ficção, creio que, depois de ler tantos autores nacionais e hispano-americanos de literatura fantástica – ou realismo fantástico, que seja -, sem contar um punhado de europeus e norte-americanos, esse acabaria sendo mesmo o caminho natural. “Delirium” nada mais é que o resultado dessa mistura louca e prazerosa, uma maneira de devolver ao mundo dos livros aquilo que os livros trouxeram pra mim.
DA – Curioso mencionar Cortázar e Borges antecedendo Rubião e Veiga na sua escala de leitura, pois essa parece ser uma via de mão única. Aliás, há muitos leitores e autores que ainda desconhecem o quilate literário desse gênero no Brasil, dando conta de que o realismo fantástico cabe unicamente aos hispo-americanos. Por que acha que o gênero é tão subestimado no Brasil? Por que Rubião e Veiga não detêm a mesma exaltação cultivada por autores cujo extrato, por exemplo, provém do regionalismo?
CLAUDIO PARREIRA – Acho que o gênero ainda não atingiu a popularidade que merecia no Brasil, mas creio que isso está mudando; basta ver a quantidade de autores contemporâneos que de certa forma estão resgatando o realismo fantástico e acrescentando ao gênero curiosas misturas e experiências que vêm sendo muito bem recebidas pelo leitor.
Murilo Rubião e J.J. Veiga deixaram uma literatura que causava — e ainda causa, de certa forma — estranhamento. O leitor brasileiro não conseguia se ver refletido nela. Isso, com certeza, impediu que suas obras fossem apreendidas na devida profundidade e intenção. Mas elas ainda estão aí, cada vez mais, no meio do caminho, do nosso caminho. Acredito que o devido reconhecimento é só uma questão de tempo.
DA – Diante das narrativas de “Delirium”, podemos dizer que “seu caminho” é uma vertente que Italo Calvino, organizador da coletânea “Contos fantásticos do século XIX”, classificou de “fantástico cotidiano”. Perceber por trás da aparência corriqueira um outro mundo, colher do processo criativo o poder de conformar figuras. Empenho semelhante é atribuído à busca por reificar sentimentos, materializar sentidos que deveriam povoar unicamente o plano das abstrações. E isso, penso, só é possível mediante uma forma muito sensível e diferente de observar o que está a nossa volta. Essa percepção, no seu caso, é o mais próximo que se pode chamar de inspiração? Como um jornalista, que trabalha com fatos, quebra essa fronteira e transita por esse universo?
CLAUDIO PARREIRA – Não gosto muito da palavra inspiração. Isso me parece algo bem próximo do clichê do escritor que sofre, sofre e finalmente se redime com um presente da Musa. Eu trabalho com ideias e as transformo em texto, ficção. É um processo bem objetivo. Acredito no fazer literário, na disciplina. Talvez aí esteja a experiência do jornalismo: objetividade, prazos, metas a cumprir. Sou bem isso. A grande diferença é que os fatos com os quais trabalho são de natureza poética.
DA – Por falar em poesia, um dos contos mais singelos e com um verniz retinto de lirismo é o brevíssimo ‘A Flor’. Perceber todas as nuances que o compõem é justamente trazer à tona essa perícia, essa habilidade incansável e quase cirúrgica que significa o exercício da escrita. Como isso funciona para você? Nem sempre o texto mais curto é o mais fácil de se escrever?
CLAUDIO PARREIRA – Como muitos outros autores, comecei escrevendo poemas. Ou algo que eu achava ser isso. Tive a sorte de conhecer Leminski e, por intermédio dele, os haicais de Matsuó Bashô. Achei que aquela forma poética era tudo o que eu queria: dar o meu recado da maneira mais breve possível. E tentei, mas logo percebi que o gênero poesia não era bem a minha praia. Já a forma do poema japonês, a sua concisão, isso ficou presente em mim, tanto que passei a aplicar o que aprendi no microconto — numa época anterior à internet, que acabou por popularizar o gênero no Brasil. Praticando esse formato, foi que aprendi a força de cada palavra, o seu peso, o arranjo harmônico do qual surgem pequenos contos como “A Flor”. E sim, concordo: o texto curto não é o mais fácil de se escrever. Requer, no mínimo, paciência. E um bom conhecimento dos elementos que o compõem.
DA – Esse olhar, que é íntimo e mundano ao mesmo tempo, de certa forma evoca o embate entre a crônica e o conto. Alguns textos de “Delirium” parecem se localizar exatamente nessa fronteira, revelando-se para o leitor uma sala de multiformes espelhos, algo passível de ser concreto e de ser subjetivo. Essa possibilidade de abalar o leitor é uma busca na sua literatura? O quanto a preocupação com aqueles que lerão o seu livro influencia seu processo criativo?
CLAUDIO PARREIRA – Sim, sempre. É ótimo quando um texto causa impacto em quem lê. Significa que a intenção dele alcançou o seu objetivo, que é encantar, ou até mesmo indignar o leitor. Mas a preocupação com quem lê, quando escrevo, só vem depois. No princípio do conto é tudo nublado, uma estrada escorregadia, bifurcada. Esse período de névoa dura horas, dias até. Quando finalmente assumo o controle do conto, aí sim entra a figura do leitor: tudo é feito para ele e por ele. Mesmo que seja uma elaborada armadilha.
DA – O leitor brasileiro é mal formado, mal informado ou mal influenciado?
CLAUDIO PARREIRA – Pergunta complicada essa. E sou levado a crer que é um pouco de tudo isso. O bom é que estatísticas provam que o número de leitores está crescendo. Mas qual tipo de leitores? Creio que o mal influenciado é o que mais se destaca nessa história: simplesmente consome aquilo que a mídia e o mercado lhes enfia goela abaixo. E aí voltamos aos dois primeiros, que são mal informados porque foram mal formados. Mas isso é uma generalização, e toda generalização é perigosa. De qualquer maneira, já podemos falar de leitor brasileiro com mais certezas do que há dez, vinte anos. Já é um progresso.
DA – Digo isso por conta da percepção de que, apesar de termos hoje um número maior de novos autores, não contamos com leitores suficientes para absorver toda essa produção. O que me parece é que são os autores que acabam lendo os autores, e esse rejuvenescimento da literatura contemporânea brasileira passa a ser confinado a um grupo mínimo, algo com uma enxurrada que desemboca num funil. Qual a análise que faz dessa observação? Há livros sendo escritos para nenhum leitor?
CLAUDIO PARREIRA – Eu acredito que temos leitores suficientes, sim, para absorver essa nova produção. Mas tudo isso é um processo, um trabalho que ainda não alcançou o leitor. Como dito na pergunta anterior, diversos são os tipos de leitores. O quanto essa nova produção chega até eles, de qual maneira chega? Esse fenômeno, se é que pode ser chamado assim, de autores lendo autores, já é um fato um tanto antigo que continua aí. Errado? Acho que não, uma vez que se pretende que todo autor seja também ele um leitor. Mas é insuficiente. O que falta mesmo, e acho que esse é o grande nó que deve ser desfeito, é a distribuição dessa nova produção. Como ela tem sido feita, por quem, quais são as estratégias? As redes sociais têm facilitado muito esse trabalho, eu mesmo coloco meus livros nas mãos dos leitores através delas – mas isso, só isso, não é o suficiente. Não basta publicar o livro, é preciso fazê-lo circular, chegar às mãos dos verdadeiros leitores e não apenas dos nossos pares. Com raríssimas exceções, somos autores pregando no deserto – escrevendo para ninguém, como você diz. É muito mais fácil publicar hoje do que tempos atrás, mas e daí? Via de regra, as editoras colocam o material no mercado e deixam os autores entregues à própria sorte. Acho que também é papel das editoras divulgar e investir nos seus autores, torná-los visíveis nesse mercado cada vez mais competitivo. Uma parceria mais abrangente. Caso contrário, os livros continuarão sendo escritos para nenhum leitor – e assim perdemos todos nós, hoje e no futuro.
Claudio Parreira / Foto: Mariana Parreira
DA – Esse é um ponto interessante, pois hoje temos uma geração perfeitamente adaptada ao formato digital. Leitores de blogs, e-books, cuja extensão da biblioteca é medida pela capacidade da memória interna do dispositivo eletrônico. Você, embora da geração dos livros físicos, relaciona-se bem com esse universo, disponibilizando seus livros em arquivos digitais e divulgando-os nas redes sociais. De que forma essas mídias têm sido producentes para sua literatura? Lançar livros em formato digital, no Brasil, é uma opção ou a falta dela?
CLAUDIO PARREIRA – Sempre me relacionei bem com os meios de divulgação digital. Uma parte significativa do que escrevo e já escrevi passou por blogs, sites, redes sociais e afins. As redes sociais, por exemplo, são ferramentas que considero fundamentais para a divulgação do que produzo — sejam e-books ou livros físicos. Não tenho nenhum tipo de problema com essas plataformas. Lançar livros digitais é uma opção, sim, no meu entender. Gosto do formato, porque ampliam a visibilidade e não me obrigam a fechar necessariamente um volume de contos ou um romance: costumo lançar contos avulsos, volumes com dois ou mais contos, trechos de romances inacabados. E livros digitais trazem vantagens que eu considero muito importantes: relatórios detalhados nos quais você sabe quanto vendeu, o destino das vendas e o melhor: a remuneração é clara e certa!
DA – Falando em remuneração, o que é mais difícil ser no Brasil: jornalista ou escritor?
CLAUDIO PARREIRA – Os dois. Mas os jornalistas, pelo menos, conseguem encontrar trabalho fixo e, na falta disso, os frilas livram um pouco a cara. Conheço muitos que vivem exclusivamente do seu trabalho. Já escritores, eu não conheço nenhum.
DA – O que acaba por nos levar a uma questão que, a um só tempo, tem inúmeras respostas e nenhuma: por que seguir escrevendo? Cortázar afirmou que escrevia para suprimir seus medos. E você, o que ainda lhe motiva?
CLAUDIO PARREIRA – Costumo dizer que escrever é um ofício de trevas. Sou um cego em busca de luz.
DA – Essa busca, inclusive, é reprisada pelas vozes que comandam alguns dos contos de “Delirium”; personagens que tentam lançar luz sobre um dilema circundado por uma desclaridade multifária. Em ‘A Terceira’, em que um homem inventa mulheres, essa escuridão é o próprio processo de criação, uma metáfora para a incapacidade de transferir integralmente a ideia para o papel. Fale um pouco da tarefa de composição da antologia, da escolha dos contos.
CLAUDIO PARREIRA – “Delirium” é mesmo o que se pode chamar de coletânea de contos, pinçados aqui e ali, cobrindo diversas épocas e formas de escrever. Um inventário, digamos assim, da minha produção recente e mais antiga. “Z”, o conto que abre o livro, por exemplo, é o mais antigo de todos eles: foi escrito em 1989, durante uma dolorosa oficina de texto que fiz com João Silvério Trevisan. Quanto à composição da coletânea, quis que ela contivesse contos escritos num registro diferente dos quais estamos acostumados a ver e ler por aí. Fiz questão mesmo do estranhamento — mas só como superfície. O que me interessava na composição de “Delirium” era a linguagem, a forma de fazer, a maneira como a maioria dos textos foi escrita. Não era a minha intenção juntar apenas continhos bem escritos. Longe disso. Reuni, portanto, uns 40 contos tortos, dos quais escolhi os 29 que integram o volume. Essa tem sido a minha pegada desde sempre. Deixo a literatura bonitinha e bem comportada para os outros.
DA – O estranhamento, que você cita, é uma das nuances mais retintas do gênero fantástico, cujo poder de criar uma nova realidade, a partir da realidade que povoamos, foi a saída encontrada por muitos escritores para canalizar suas críticas. No ápice do movimento, nas décadas de 60 e 70, este tipo de literatura bateu duramente em governos ditatoriais, valendo-se de seus aspectos metafóricos. Hoje a que propósito serve a literatura fantástica? Contra quem ou o que novos escritores podem utilizá-la?
CLAUDIO PARREIRA – Eis aqui uma pergunta curiosa: pra que serve a literatura fantástica, hoje, já que o cotidiano social e político nos surpreende cada vez mais com fatos e comportamentos gritantemente absurdos? Digo que ela serve para gritar e abrir os nossos olhos e sentidos para outra realidade que não esta, insuportável, à qual estamos submetidos. A literatura fantástica continua servindo para dizer Não! E os novos escritores devem utilizar o gênero contra tudo o que ameaçar esse direito.
DA – Diante dessa observação, o que ameaça sua literatura?
CLAUDIO PARREIRA – Não gosto desses tempos que estamos vivendo, e sinto que paira no ar uma ameaça muito perigosa, uma ameaça de silêncio, de pensamento único, um retrocesso em todos os sentidos, diante dos quais os avanços tecnológicos nada significam. Não consigo imaginar literatura a favor do vento. Sempre escrevi na contramão. Se os meus temores se concretizarem, estou em plena rota de colisão. Sei disso, e sigo. Não aprendi a voltar.
DA – E para onde seguirá sua literatura depois de “Delirium”? Há caminhos que apontam para narrativas de longo fôlego?
CLAUDIO PARREIRA – Sim, venho desenvolvendo um romance já há algum tempo. Mais uma vez, não é apenas literatura fantástica: é um grande exercício com diversas vozes, vários focos narrativos, camadas sobre camadas que buscam um resultado surpreendente. Isso, pelo menos, é o que espero.
DA – Na literatura de hoje, ainda existe a possibilidade de resultados surpreendentes?
CLAUDIO PARREIRA – Sim. Acho que é por isso, em busca disso, que escrevemos todos nós.
Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.
Tinha vontade de arreganhar a boca e cravar no outro os dentes. Era a chuva. O barulho dela e os relâmpagos alimentavam o desejo. Desde pequena os temia. Sentia-se acuada, as pernas trêmulas na companhia de fantasmas. Não gostava da escuridão nas noites de tempestade. Perdia o poder de imaginar vaga-lumes.
A chuva era a lembrança da mãe, — “Corra, filha, suba! Esconda-se no armário” —, dos pingos grossos no teto de zinco, da louça quebrada e da voz dele abafada pelos estampidos do gesto. Era o retrato da menina esquálida, no armário. A bexiga apertada, a respiração presa. Era a ausência. O pão dormido na casa da tia distante, os pés descalços, o frio sem cobertor.
E não importava que o telhado agora fosse de barro e que a louça estivesse intacta na cozinha: o barulho da chuva despertava-lhe os demônios. Ouvia os mesmos gritos, sentia o mesmo medo. Queria trancar-se no armário — mas lembrava-se que não tinha um em casa. Tapava os ouvidos na esperança de que o silêncio lhe devolvesse a lucidez. Queria afastar a lembrança, a ira guardada nas entranhas e ouvir apenas o ressonar do marido, que dormia inocente, sem suspeitar dos desejos da mulher. Sem saber que um dia, sem explicação, ela viraria uma cadela enfurecida, rasgaria os lençóis, lhe cortaria as carnes e encheria de sangue, a boca.
Sem imaginar que até lá, em noite de tempestades e na falta do armário, ela enroscava-se na cama. E esquecendo-se dele, cobria-se com a ponta do lençol que restava — cantando para os fantasmas a canção de ninar da mãe: “Boi, boi, boi… boi da cara preta… pega essa menina, que tem medo de careta”.
***
O gato
Um gato histérico arranhou o teto. Estava pendurado pelo rabo, o imponente bichano. E sobre ele refletiam-se as últimas luzes da madrugada – as estrelas caídas de sono, a noite ardendo pela chegada da manhã: Pobre gato! Pobre moça que ficou a olhá-lo no teto, enquanto arranhava o ar procurando por sua existência.
***
O colecionador de moscas
Tudo é uma questão de tempo – ou do que você faz com ele. Aprendi isso na infância, enquanto minha mãe cronometrava os minutos que eu deveria levar para sair da cama, trocar o pijama, escovar os dentes, tomar banho, vestir o uniforme, engolir a comida e entrar no ônibus que me levava à escola.
Todos os dias, a mesma rotina. As frases matinais coladas num aviso de recados imaginário e os sorrisos grudados na face gelada da mulher. Éramos sós – e não me atrevia a perguntar-lhe sobre a ausência do pai. Não que eu não tivesse curiosidade, mas porque imaginava que a interrogação lhe custaria um tempo não previsto na mesmice dos dias.
Ela trabalhava como secretária num escritório no centro da cidade e de noite fazia bicos numa lanchonete. Saía logo depois do jantar, deixando na geladeira e em cima da mesa, uma variedade razoável de doces. Não gostava deles, mas me acostumei a puxar um banco e ficar olhando as moscas que vinham pousar nos glacês e confetes.
O que teriam em comum as moscas e essa mulher?
A pergunta me veio aos 12 anos, enquanto eu assistia à lambança dos insetos no bolo de aniversário que cortamos, comemos e depois ficou no balcão da cozinha para me fazer companhia em mais uma noite de trabalho dela.
Foram anos de observação até conseguir encontrar uma resposta e quando enfim encontrei-a, era suficientemente maduro para intuir que aquele conhecimento me renderia alegrias fortuitas e nenhuma preocupação com as mulheres.
Porque ao contrário do que imaginam os galanteadores de plantão, o segredo para conquistá-las não está em conhecer os melhores vinhos, o cinema de vanguarda, ou alguns poetas e artistas plásticos aclamados pela crítica. Dinheiro? Músculos? Isso também é balela!
As mulheres gostam de abismos e foram treinadas pela genética para acreditar que possuem o dom da salvação. Aí entram as moscas. Foram elas que me ensinaram – em seus sublimes voos para a morte – que é necessário juntar ao doce, um pouco de tristeza, espécie de amargura disfarçada: podem ser lembranças da infância ou mesmo uma fraqueza.
O importante é que elas, as mulheres, sintam-se não só atraídas pela confessa (ainda que mentirosa) angústia, como irremediavelmente presas a ela. Feito isso, voam como as moscas em direção ao abismo.
E por falar em abismo, ia esquecendo o principal: aprendi que as moscas têm vida curta. É uma pena que as mulheres não saibam disso.
***
Descoberta
Ela acordou e descobriu que estava sem rosto. A cabeça estava no lugar. Mas havia algo de morto na face, nos olhos e mesmo no nariz, que antes achava arrebitado. Olhava-se no espelho e não encontrava as rugas nem as mancha escuras que trazia desde a infância. A imagem provocou uma sensação nova, um desespero sem dor. E quanto mais a olhava, mais sentia a inutilidade das coisas. Por que, afinal, os seus choros? E onde estavam agora, se não os via marcados na pele fina e alva? Lembrou-se da cicatriz do último acidente e levou a mão na altura dos cílios. Estavam inteiros, negros e sem nenhum sinal que denotasse o ocorrido: o natural seria que a expressão da face se contraísse e que a boca, por instinto, se mantivesse aberta por alguns segundos. Mas nenhum músculo mexeu-se. E como também não era mais possível denotar naquele rosto o espanto, deixou-se ficar olhando o espelho como quem assiste – sem crer – a um milagre.
Vássia Silveira é inquieta, mas por hábito diz que é jornalista e escritora. Já plantou árvores e fez filhas. É autora de Febre Terçã (poesias; Selo Off Flip,2013), Indagações de Ameixas (crônicas; Multifoco,2011); e dos infantis Quem tem medo do Mapinguari? (Letras Brasileiras, 2008) e Braboletas e Ciuminsetos (Letras Brasileiras, 2007).
Para Pedro, que das baforadas de seu cachimbo tantas vezes aqueceu minha enregelada existência
Deixei-me deitar na irregular sarjeta dos muitos pés. Deleitava-me dissipar vagarosamente no delicado ar citadino. Punha-me a devanear sobre os incontáveis dedos que me pus a passar. Incontáveis delgados e cilíndricos enleados pelas mãos de tantos e tantos formatos. Tessituras, marcas e cicatrizes. Eu que estive em tantos e tão diversos lugares, a auscultar o mundo. A provar buquês de timbres tão variegados na boca impregnados. Caminhei nas mãos da jovem. Soerguia-me como troféu pueril. Empertigava-se toda. Esticava as costas. Balançava os cabelos e punha-se a desenhar arabescos no espaço tendo-me por pincel — Não sabia que você fumava, Luciana … Não? Comecei faz pouco tempo, gosto do cheiro desde criança, mas não tinha idade, e tem meus pais também, sabe como é… Em seus lábios punha-me fazendo bico. Tragava-me enojada pelo gosto. Soltava-me pelas narinas maravilhada com as formas que a parte de mim transubstanciada em seus pulmões tomava. Olhava ao redor na expectativa de me apresentar para um amigo, ou despertar a curiosidade de um andarilho qualquer. Evolava teto acima em cinzas graduados, densos e assimétricos. Ali ficava eu a pairar nas lembranças. A preencher os sulcos da face envelhecida. Companheiro inestimável nas noites de solidão. Dedos experientes a me afagar em seus secos lábios. Era-me também parte de si. Um dedo. Dedo de se fumar — Onde minha velha há de estar? Foi e me deixou aqui. Penso que deveria era ter dado um sopapo naquele padreco: até que a morte os separe o quê, deixa disso. Não está essa minha velha chata a ralhar em todos os cômodos mesmo depois de morta? Seu cheiro não está por toda parte? Ora essa, há mais dela aqui estando morta do que eu aqui, vivo estando. Pousado ficava no cinzeiro outrora de ambos. Ali acolhido crispava. Chamuscava no algodão. Dava-lhe relevo. Argamassa em tela, levemente ia passando. Marcando. Escurecendo — Não mãe, por favor, foi sem querer. Para mãe, para, por favor, para, não faz isso pelo amor de deus, dói muito. E lá ia eu vincando, marcando, abrindo caminho em braço alheio. Creio que nesses lábios não tocarei. Não hei de ser tragado, a não ser em seu corpo.
***
Campinas
Beatriz: viva por uma cidade inteira
Acordou cedo sem nem bem ter dormido. Prolongava a noite no arroxeado de suas pálpebras carregadas. Lavou o rosto com a pressa de quem pouco tem a fazer e por isso adianta-se à espera do compromisso que não vem. Ouvia ele na escada os passos da novidade. Parecia poder tocá-la por detrás da porta. Não era nada. Ele só morava em Campinas. Lugar difícil. Metrópole que guarda nostalgia do interior solapado sob o acre cheiro de urina da praça da matriz. Ainda pior. Cidade rápida quanto mais parada é. Desprovida de estrelas para se observar. Campina que se suicidou em asfalto escaldante. Escapamento sufocante. Íris lacrimejante da manhã ainda a desabrochar. Lépido, jogou o casaco em seu corpo esguio. Nem bem escovara os dentes. Sabia que tinha todo tempo. Entretanto, o fluxo das ruas atulhadas de gente desprovida de gente falava-lhe o contrário. Seguiu os passos de um rapaz. Entrou inopinadamente no velório. Não conhecia o defunto. Nem aquelas pessoas iguais, todas de preto por respeito. Curioso, olhou de esguelha. Despreocupadamente, observou o produto daquela embalagem de madeira. Um velho. Acho que já passado do prazo de validade. Bigodes curtos. Acinzentados tal qual a rala cabeleira. Fios espalhados na morena cabeça. Nariz mal entalhado. Lasca de toco cortado sem cuidado. Grossas mãos inchadas da enxada soada em grama seca. Queria fugir aquele terno do peito do homem. Creio que se fosse dado como à Sansão um último fôlego ao senhor imóvel, teria ele rasgado aquela pompa ao meio. Colocado para correr aquelas lombrigas que jamais tomaram leite de vaca. Só da caixa. Todos esses parentes estranhos. Próximos distantes. Ecos de seu sangue repisado. Teria ele chamado as galinhas. Porcos. Cavalos. Vacas. Insetos variegados. Tão mais gente que essa gente. Desinteressados. Tristes por não mais compartilharem o silêncio desse matuto. Nada de herança. Fazenda. Divisão de bens enquanto o presunto ainda nem endureceu. Queimaria as rosas do caixão com seu cigarro de palha. Enchê-lo-ia de capim molhado de sereno. Sem ter o que fazer, seguiu Azazel no tédio alarmante da eternidade sem lembrança. Pensava ele: — Mataram a morte.
Caio Russo estuda História na Faculdade de Ciências e Letras – UNESP – Campus de Assis. Atualmente pesquisa História da Arte e Estética, com enfoque em Nova Música do Século XX e o conceito de Feio na Teoria Estética de Theodor W. Adorno. Dedica-se à prosa, com predileção pelo conto. Escafandrista de nascença, põe-se a relatar sobre os microscópicos animais, objetos e resíduos, que decantam do fundo do lago, a pairar no vidro do capacete um instante antes de nunca mais serem vistos nas turvas águas dos dias. Escreve para não afogar-se em si mesmo.
Um escritor e a força de sua obra. Nada melhor do que a conjunção desses dois componentes para conferir sentido a qualquer tentativa de desferir linhas a respeito de um criador. E não há dúvida de que o motor da leitura é a gênese de todo o processo criativo, bem sabemos. No caso de Anderson Fonseca, o que ousamos denominar por propriedade narrativa vem dotado dessa noção primeira de que um autor, em matéria de escrita, é parte integrante e viva daquilo que lê. Mas eis que isso não basta e, no caso específico de Anderson, um aspecto chama atenção em especial: o domínio sobre a condução das histórias.
Como todo percurso autoral impõe sabermos de suas epifanias, nada melhor do que abordarmos alguma essência que perfaz obras. Com o vigor de quem cria mundos paralelos, reforçando dimensões possíveis do humano, Anderson Fonseca estreia em livro com os arremates densos de “Notas de Pensamentos Incomuns”. Naquele instante, fica claro para quem lê que o território complexo e instigante do realismo fantástico irá marcar a trajetória do autor com pungência. Nesse primeiro momento, além de vislumbrar dimensões paralelas ao mundo tangível, Anderson mergulha de cabeça na vastidão de mistérios que nos atravessam. Mais tarde, a capacidade inventiva e o controle sobre as estratégias narrativas vêm somar esforços e, ainda com o encantamento proporcionado pelos ímpetos do fantástico, surge “Sr. Bergier & Outras Histórias”, livro cujo tom confessional e quiçá epistolar envolve o leitor e o conduz como testemunha dos acontecimentos minuciosamente relatados.
Hoje, o momento que marca essa entrevista feita com Anderson aponta para uma outra faceta importante do escritor, qual seja a de não passar impune sobre os imperativos de seu tempo. E ele o faz, impregnado de lucidez e sensibilidade, quando oferta ao mundo seu mais novo rebento, “O que eu disse ao General”. Os contos presentes ali encerram uma atmosfera de resistência e poesia, através da qual a voz do autor se insurge contra a tirania universal, que não se restringe àquela associada a determinados personagens da história do mundo, confinados a contextos geopolíticos, mas sobretudo aos pequenos grandes delitos do cotidiano que protagonizamos. Diante desse rico painel de constatações, esse carioca que hoje reside em Brejo Santo (Ceará), expõe um pouco de si numa conversa regada fundamentalmente aos sabores proporcionados pela Literatura.
Anderson Fonseca / Foto: Arquivo pessoal
DA – “O que eu disse ao General” é uma obra que, fazendo alusão a figuras e situações históricas, rompe barreiras e se situa num plano bastante amplo, capaz de dialogar com práticas cotidianas tão nossas. Diria que o livro pode ser também entendido como um levante contra a tirania sob as suas mais variadas formas?
ANDERSON FONSECA – Eu diria que sim. Mas a questão central em relação à tirania é a opressão do Estado sobre o indivíduo. O indivíduo, ao abrir mão de seu poder e doá-lo a outro, permite que este, seja quem ele for, oprima sua liberdade, seu desejo, seu erotismo. Quando o Estado decide e age em vista de reforçar essa liberdade (o erótico, a fruição do corpo movente no espaço), estabelece-se uma harmonia. Quando não, surge a opressão do poder e a morte. A realização do indivíduo está associada intimamente à Vida em sua plenitude Erótica. Os conflitos que assisto pela TV são uma negação do erótico, da afirmação da vida.
DA – A frágil liberdade que gozamos, sobretudo numa era de abundante informação, faz parte de um ciclo transitório ou dificilmente seremos livres para conjugar pensamento e ação?
ANDERSON FONSECA – Enquanto o homem tiver certeza, ele será escravo de qualquer ideologia, sofisma, dogma. É necessário, para que haja uma liberdade efetiva, de forma pragmática e não conceitual, que a dúvida se torne um exercício do pensamento. Para ser mais claro, o homem é escravo de suas certezas, porque estar certo de algo é mais confortável ao espírito. Entretanto, quando a incerteza emerge no pensamento, o homem com todas as suas forças, temendo a verdade, ergue contra este terrível “monstro” as mais fortes muralhas dogmáticas, as quais são reforçadas com novos dogmas. Não ter certeza, contudo, seria a plena liberdade, pois a incerteza em sua essência abarca qualquer afirmação autoconsistente, ela não rejeita e não invalida, apenas desconfia. Entretanto, para que a dúvida se torne pragmática, a mudança deve partir da educação presente nos sistemas de ensino, deve partir de sua principal base, o professor. O mestre, hoje presente nas escolas, ou defende sua fé religiosa, ou seu ateísmo, e ambos levam como fundamento de suas certezas os livros sagrados ou a ciência. O mestre, antes, deveria exercer a dúvida para que o aluno escolha seu caminho e, em sua jornada, respeite outros caminhos. Hoje, além da religião e ateísmo, em que seus defensores tomam como referência livros de autores cujas culturas e visões são reféns do tempo, surgem os fiéis da mídia. Vejo muitos crentes da internet e que a usam como meio de propagação do ódio, intolerância, preconceito contra a diferença. Eles não têm dúvida. Não tenho fé e nem por isso não tenho paz de espírito. Meu pensamento é uma porta aberta para outros pensamentos. Busco exercer a dúvida como uma forma de abertura para outras percepções. E, enquanto houver crentes a defenderem com armas seus dogmas, haverá guerras e massacres. Enfim,acho que a dúvida é chave para a tolerância e a liberdade.
DA – O cenário de tensões presente em “O que eu disse ao General” vem também revestido por um manto poético. Nessa perspectiva, o exercício da subjetividade entra em cena e conduz as narrativas num contraponto às situações extremas ali relatadas. O que dizer desse tão vigoroso recurso?
ANDERSON FONSECA –Escrevi essa obra mergulhado em um insondável silêncio, durante a noite,para ouvir apenas as palavras que sussurrariam em minha mente. A poesia, segundo Bachelard, “é um olhar silencioso que suprime o mundo para fazer calar seus ruídos”. A guerra é um ruído em nossa realidade, a melhor forma de entendê-lo é silenciando sua voz para que as imagens sobressaiam. Se o ruído fosse permitido a invadir as letras, as palavras não se fariam ouvir. Bachelard ainda escreve que a poesia “deixa vivo, sob as imagens, o silêncio atento”. O silêncio emergiu no instante em que, vendo as imagens da guerra, não poderia ser narrado como era diante dos olhos, mas de outro modo, como um símbolo do homem, de sua decadência moral, metafísica e política.
Eu poderia ter escolhido outra forma, mas essa forma não corresponderia à necessidade que a minha alma buscava.A linguagem escolhida é um reflexo dos conflitos internos que eu sofria naquele momento. Essa mesma linguagem não é somente um reflexo, mas a expressão máxima de meu espírito. Eu deveria dizer daquele modo, porque de outro, estaria me traindo.
DA – De algum modo, escrever é um ato de redenção?
ANDERSON FONSECA – Sinto certa repulsa com palavras cujo significado é teológico. A palavra redenção inevitavelmente me remete ao mito messiânico da religião judaico-cristã. Quando termos como esse são aplicados à Literatura, fico apreensivo. Não consigo ver a Literatura com uma ótica teológica e evito termos que carreguem esse sentido. Creio que o escrever não é a expressão do pensamento, mas seu construtor. Acho equivocada aquela frase do Descartes: “penso, logo existo”. Descartes não faria tal afirmação se não fosse pela linguagem, ou seja, a linguagem constitui o pensamento, o elabora. Em seu lugar, eu diria: “escrevo/falo, logo existo”. Portanto, no instante em que me debruço sobre o papel, pego a caneta (não tenho o costume de escrever primeiro no computador) e traço a primeira frase, estou aprimorando meu pensamento, estou o construindo.
DA – Em “Sr. Bergier & Outras Histórias” você transita pelo instigante e complexo território do realismo fantástico. Que desafios engendram essa sua vertente criativa?
ANDERSON FONSECA –Creio que o realismo fantástico não seja tão fácil para trabalhar, porque é preciso distorcer a realidade para revelar sua natureza oculta. Penso em Murilo Rubião, que obsessivamente revisava seus contos até a exaustão, penso em Ivan Bunin, outro obsessivo pela revisão de suas obras, e Buzzati, mais um obsessivo. Nunca me sinto satisfeito com o texto, e confesso que me sinto mais feliz enquanto estou escrevendo, mas, depois que o conto é publicado, fico melancólico e frustrado, pois passo a pensar que poderia estar melhor, e aí começo a revisar. O maior desafio é encontrar o argumento adequado para a ideia, e nem sempre é fácil. Depois se inicia a luta com a palavra até o ajuste final. É claro, tudo feito com bastante humor. Lembro que Flaubert escreveu: “eis o que a prosa tem de diabólico, ela nunca está terminada”. Flaubert foi outro autor obsessivo na tentativa de conciliar o significado que a palavra carrega a uma forma proporcionada pela literatura. Acho que é a luta de todo autor.
DA – Essa, digamos assim, angústia criativa é capaz de impactar radicalmente as suas convicções de autor?
ANDERSON FONSECA –Sobre esta questão colocada, eu diria que se trata da história de uma ideia. A ideia que tenho para um conto não surge do nada, mas contém em si uma história, ou seja, uma relação com outras ideias apanhadas de diversas leituras, essa história que a ideia carrega consigo, que a estrutura, eu não posso negar, mas admiti-la. O que acontece comigo é que esta ideia será reformulada, assumirá um novo sentido em outro contexto (forma). Nesse sentido, eu reinvento a cadeia de ideias que construíram esta última, quando atribuo a ela um novo formato, o qual é a narrativa em que ela se reflete. A dúvida, portanto, de se estou sendo original ou não, não me preocupa. Acho importante o diálogo de uma obra com outra, até porque a própria história em si é uma sucessão de ideias.
Quando se escolhe ser escritor, trazemos conosco a glória e a miséria. Depois de sermos escritores, apenas o texto carrega nossa glória e felicidade, tudo demais se torna miserável. Tornamo-nos miseráveis financeiramente, no amor, na amizade, na vida e na saúde. A certeza que temos é que a obra viverá. Eis a condição que assumimos: sacrificamos as demais coisas (efêmeras)pela perenidade da palavra, e então nos tornamos miseráveis. É como um deus que assume a forma humana, despindo-se de sua glória para sofrer as vicissitudes do tempo. Ele se torna miserável para que sua palavra dure pelos séculos vindouros. Não há glória em ser escritor, a glória pertence ao texto.Por isso, a humildade diante do Mundo e do Verbo, o qual veneramos.
Anderson Fonseca / Foto: Arquivo pessoal
DA – Partindo da ideia de que tudo sempre esteve no mundo, o que confere mais propriedade à obra de um autor?
ANDERSON FONSECA –Se tudo sempre esteve no mundo, se tudo é eterno, se a existência é simultânea ao espaço e ao tempo, o que resta ao autor?As imagens, porque elas surgiram quando o homem surgiu, pois são o fruto de uma relação sujeito/matéria. Lembro-me de uma parábola do profeta/poeta Jeremias. Um dia, Jeremias desceu as escadas da casa e viu o jarro de um vaso quebrado. O oleiro pegou o vaso quebrado, trabalhou o barro, e reconstruiu o vaso. O vaso já estava ali (a forma), assim como o barro (a matéria); foi necessária, contudo, a visão (ideia) de um artista para (re)modelar o barro e dar-lhe a forma imaginada. A matéria preexiste, mas o artista a destrói (destrói seu signo), refaz (atribui-lhe outro significado) e doa-lhe a forma que lhe “parece bem aos olhos” (Jeremias 18:4).
Se tudo já existe, se a matéria sempre existiu, a propriedade do autor encontra-se no modo como ele trabalha as imagens, como ele atribui a elas um conteúdo, uma relação de sentido. Este molde é um reflexo do sujeito criador, do indivíduo.
DA – O modo como você articula as imagens é fundamental na percepção de um livro como “Sr. Bergier &Outras Histórias”, algo que promove aproximações com a linguagem cinematográfica. A sétima arte é um universo de referências que lhe atrai conscientemente?
ANDERSON FONSECA –Não, sou atraído mais pelas histórias em quadrinhos como as da editora Vertigo e DC Comics. O que me atrai nelas é a ciência vista como uma fantasia humana. Além disso, o enquadramento e a sequência de ação e diálogo me chamam bastante a atenção. Nos últimos meses, por exemplo, tenho lido Planetary e O Inescrito, duas revistas esplêndidas.
DA – O quanto a sua feição de educador reflete no seu olhar sobre a literatura? Você busca pontos de convergência?
ANDERSON FONSECA –Ser um educador é um imenso desafio.Diariamente, nos confrontamos com realidades mais absurdas que a ficção, realidades que nos põem a indagar sobre a estupidez humana, como também sobre sua graça e beleza. Estou em confronto com a realidade a todo instante. Minha literatura é uma forma de devolver o soco que recebo. Quando estou em sala de aula, além de ensinar a língua e sua poética, busco apresentar o campo de batalha que é a vida. Saio com a vontade de socar o mundo, e aí a palavra carrega em sua força o soco devolvido. Meus alunos sentem a mesma vontade, mas é através da escrita que eles, como boxeadores, nocauteiam o mundo que os aflige.
DA – Somos um país de potenciais leitores subestimados?
ANDERSON FONSECA –Somos um país de leitores e autores subestimados. Vivemos ainda a velha frase de Lautréamont: só os poetas leem poetas. Só escritores brasileiros leem escritores brasileiros, ou só os escritores brasileiros se leem. Esta frase necessita sofrer drásticas mudanças, porque ainda hoje, embora se veja uma grande produção de livros de autores nacionais, não existe projeto de distribuição desses livros para atingir os leitores brasileiros, de forma a disputar de igual para igual com autores estrangeiros. Percebo a juventude brasileira cultuar estes autores estrangeiros, e menosprezar alguns autores nacionais (nem todos, há quem escape). Isso precisa mudar.
DA – Na sua opinião, de que forma podemos alterar esse cenário?
ANDERSON FONSECA –Não sei como alterar esse cenário, sinceramente. Trata-se de algo enraizado em nossa cultura. Talvez devêssemos começar pela educação, atualizando os professores a respeito dos autores brasileiros da geração 00 até os mais recentes. O professor é o canal certo para atingir leitores jovens e famintos de obras boas, mas se eles não estiverem atualizados e propensos a conhecer o cenário atual, os alunos muito menos estarão.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
ANDERSON FONSECA –A questão “pós-modernidade” é ambígua.Quando a ouço, sinto-me lançado contra a frase de Rimbaud: “é preciso ser absolutamente moderno”. Ter uma posição a respeito da pós-modernidade deixa-me estranho, pois não sei claramente o que é. Mas quando se fala em mercantilização da arte, penso isso ser necessário, porque a arte é uma forma de mercadoria. Nessa ótica, o livro é um produto que deve ser vendido. Entretanto, o artista não pode se despersonalizar e se tornar ele uma mercadoria, isso leva a uma descaracterização de si mesmo, de sua obra e arte. Não endosso, portanto, que escritores que hoje assumem uma postura diante de sua obra e arte, amanhã, depois da fama, mudem essa postura. A crítica deve desvincular-se um pouco do jornalismo que, em geral, direciona o discurso a favor de certas obras de duvidoso mérito. O artista deve abandonar a República, porque ela não o quer dentro de seus muros.
DA – “Notas de Pensamentos Incomuns” marca sua estreia em livro. Depois disso, vieram os outros dois que mencionamos anteriormente por aqui. Diante desses percursos, quem é hoje Anderson Fonseca e quais marcas traz consigo?
ANDERSON FONSECA –Sou um homem mais paciente graças à palavra. E graças à literatura conservo alguns sonhos, mas percebi, ao olhar para o mundo, que todo bem só existe em sua relação com o mal e, diante disso, não há utopia, tenho que aceitar a realidade como ela é.Valorizo, hoje, a simplicidade, a beleza e a elegância das palavras e das coisas. O universo é deslumbrante e fico pasmo ao olhá-lo. Desde o momento em que passei a olhar o universo com os olhos do poeta, deixei o medo para trás e comecei a ter esperança.
Quer saber? Eu quero mesmo é um tigre pra me comer. Valente, potente, crescente, varando a noite da cidade com seu brilho de tigreperigoso, feroz e desabrido, mas também mavioso.
Cheguei a vê-lo sábado, no parque, pela manhã. Coincidentemente, ou nem tanto assim, nos encontramos lá, eu e o tigre. Abobalhados que ficamos, mal conversamos. Não pude decifrar com as sutilezas necessárias os seus rugidos e balbucios. Acho até fui grossa. Raiva de ele ter dado pra trás, recuado, desistido.
Por isso agora quero outro, outro tigre, mais valente, mais feroz, mais impetuoso. Mais estrondoso e mais doce. De pelo estonteante, pra me lanhar o rosto e os calcanhares. Caninos fortes, incisivos, pra me deixar marcada da posse.
De papel? Sim, pode ser um tigre de papel, não há restrições quanto a isso. O fundamental é que desempenhe bem seu papel. E que faça surgir flores e bichos onde (aqui dentro) só há ausência. Podem ser bichos peçonhentos, venenosos pra valer, não importa. Mas que sejam bichos vivos, esvoaçantes, com movimentos leves e rápidos, intrépidos. É isso que eu quero.
Um tigre que plante em mim a vida que não tenho mais. Que faça a seiva do sonho me preencher de energia nova, e que eu abandone de vez o melodioso chamado da sacada doce, a rua profunda lá embaixo me acenando, oferecida.
Um tigre que não seja um tigre de verdade. Seja só o desejo do tigre, o enigma do tigre, a imagem do tigre. Signo oco mas fecundo, pleno. Carregado por dois ou até três homens mascarados, atores, que o façam se movimentar pelas ruas e avenidas. Eu quero é isso mesmo. Atores. Que finjam com emoção pungente e suficiente para me envolver, me enlaçar, me aprisionar e assim quem sabe me libertar do feitiço do tigre primeiro, menino do parque, com sua juba que mais parece de leão e que cravou fundo em mim suas garras, rasgando-me o peito, deflorando-me a carne, deformando meus olhos, inchados e atordoados do espanto de tanto chorar.
Tigre ator, ainda por cima. Por isso quero outro. Não igual, mas mais avassalador, mais ator, e que não me leve para os abismos e penhascos da alma dolorida nem da natureza ressequida, e sim projete em mim o brilho luminoso dos painéis e dos carrosséis meninos, onde eu possa sentar nos cavalinhos e girar sob o olhar de sua proteção. E vez em quando um elefante branco…
Tigre ator, ordeiro, atroz. Desestabilizador das certezas que a angústia obsessiva da parede de pedra procurava evitar fossem vistas. O sintoma: toctoctoc. Mas com você não há toc, só que também não há mais toque. Eu quis te beijar, falei: Posso? E você: Ai, parece uma criança pedindo posso, mas não, não pode não. Por quê? Não quero mais, somos amigos a partir de agora, nada mais, mas eu gosto de você, tigresa, gosto sim. Não me chame assim que é vulgar. Ué, você não gosta da música do velho moço baiano? Gosto, mas ele estava apaixonado por ela, e aqui, se pode haver um paralelo, é o inverso.
Quero, quero sim, um tigre de bocarra. Nada de doçura, nem fragilidade. Quero a posse literalmente animal, que não quer saber de mais nada a não ser do desejo dos corpos, desejo das almas-bocas que se procuram e se querem unidas, sem saber do amanhã, mas inteiras no hoje da natureza como ela é.
Cíclica.
E por isso, meu tigre, fique em paz que amanhã tudo recomeça, ou depois de amanhã. E você virá, eu irei, e nós iremos. E vez em quando um elefante branco…
***
Comilança
A Marcelino Freire, que me fez olhar melhor para o título do livro de Francine Prose (Para ler como um escritor), o que acabou originando esta brincadeira, e a Francine Prose, autora desta obra deliciosa.
Para ler, como um escritor. Ou uma escritora.
Às vezes dois ou três ao mesmo tempo. Mas um de cada vez costuma ser mais saborido saboroso gostoso demais.
De lambedela em lambedela, me lambujo, cravo os dentes. Mordo pedaço por pedaço, degluto, engulo ele inteiro. Pasto e repasto.
Pelos, cabelos, axilas, umbigo e cotovelos. Mas também pés, costas, nuca, espáduas, olhos e nádegas. Nariz, coxas, batata da perna, canela.
Neurônios em movimento, remastigo cada uma de suas sinapses sentimentos, adentro suave sua mente e nela me faço hóspede por algumas horas, dias, anos. Às vezes, quando a comilança é boa pra valer, por uma vida inteira.
Contamino-me por ele, deixo que me coma também, de dentro pra fora e de fora pra dentro, como quiser, que essa inundação fertiliza minhas águas, que rebentam abençoadas, venturosas, integradas e sempre mais esperançosas de haver guardado em meu útero-flor uma sementinha, pequena que seja, dos olhos do escritor. De sua mirada para o mundo e para as palavras, seu namoro com o mundo que se faz pelas palavras, estas suas palavras que são o seu meu nosso mundo.
E saio satisfeita, plena, devassa, dormida, encontrada, recriada, desfigurada, para o próximo banquete amor.
Marina Ruivo é doutora em Letras pela USP, professora da Unimonte (Santos/SP) e colaboradora freelancer de várias editoras. Escreve ficção desde a adolescência, mas por muitos anos tentou se convencer de que deveria ficar somente no terreno da crítica. Como o desejo da escrita não morria, resolveu voltar à prática e vem participando de diversas oficinas de criação literária. Seu conto “Riozinho” fará parte do número 6 da Revista Sexus. É mãe do Pedro, um menino de 5 anos que ainda não sabe ler, mas é amante de histórias e livros.
Cidade do México, 1968. Tomando as ruas, centenas de estudantes protestam contra o presidente Díaz Ordaz e seu governo autoritário. Avançam, compassados e compactos, uma parede viva que entoa palavras de revolta. Na praça Tlateloco, ocorre uma cilada. Soldados do exército bloqueiam todas as saídas e, armados com tanques e metralhadoras, atacam parte do grupo. Trezentos são mortos, covardemente. Horas depois, o escritor José Revueltas, preso tantas vezes por conta de seus discursos e manifestos, denuncia os donos do poder que acabaram de patrocinar uma carnificina, rasgar em partes jovens desarmados. “Os senhores do governo estão mortos”, acusa. “Por isso matam”.
O relato acima poderia facilmente ter sido extraído de uma página de jornal arquivada nos porões da história. Contudo, faz parte de ‘O século do vento’, último livro da trilogia ‘Memória do fogo’, do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Recorrendo a fatos e figuras de diversas naturezas e relevâncias para retratar as transformações e os conflitos que moldaram o continente sul-americano a partir dos anos 1900, o autor promove uma espécie de colagem verbal onde a verdade latente se sobrepõe à historiografia oficial. A memória passa a ser a sua guia e, justamente por revisitar o tempo coletivo através de pequenos momentos filtrados por um olhar particular, realidade e ficção se estreitam de maneira indistinguível. Um efeito utilizado com semelhante destreza em ‘O que eu disse ao General’ (Oitava Rima Editora, 68 pgs.), antologia recém-lançada de Anderson Fonseca.
O que é verdadeiro, o que é inventado? O que pode ser revisto em favor da literatura? O escritor carioca, radicado no Ceará, parece não se preocupar com o formato, mas com os temas, suas implicações e seus alvos; e, neste caso, não resta dúvida quem são. Grande parte dos 36 textos, que podem ser rotulados de contos, ou vinhetas, ou aforismos, é dedicada a um senhor de estado, de um ditador genocida a um governador fluminense, de Alvaro Uribe a Hosni Mubaraki, de Saddam Hussein a Sérgio Cabral. Perpetradores da barbárie, da fome, da guerra e da injustiça. A coletânea, de fato, salta da criação imaginária para fazer denúncia, criticar o mal do tempo, as mazelas que não mais nos afligem escudados pelo tubo da tevê, mesmo quando diante da dor dos outros.
Autor de ‘Sr. Bergier & outras histórias’, volume alimentado umbilicalmente pelo realismo fantástico, Fonseca agora tem em mãos os fatos, ainda que provenientes de um cotidiano infiltrado por uma outra tonalidade de absurdo, episódios de clara virulência que conseguem mapear o contexto de onde foram capturados. Um exemplo é a narrativa ‘O tanque’: “A cidade está tranquila. A manhã é calma. Uns meninos jogam pião”, chega então o general e sua tropa de guerra; “A cidade permanece tranquila. Tudo é o mesmo, só que agora se acrescenta à imagem os tanques”. O mesmo ocorre em ‘Festa’: “Havia uma festa na cidade. Havia sol e alegria”, de repente, surgem homens com armas e máscaras; “Sim, era uma festa, era a festa dos homens que chegaram”. A normalidade nunca é demolida com brusquidão, mas minada de maneira furtiva por uma ação indelével, à surdina, um tipo de gás tóxico que só é notado quando já se dobra nos últimos suspiros. “A verdade é sempre outra”, alerta. A que vemos tarde demais.
E, por ser incontornável, o único caminho de resistência é reinventar o mundo com o bisel das palavras. Fonseca trabalha muito bem a linguagem, quando recorre a metáforas e parábolas a fim de amortecer o impacto sumário da perversidade e da vilania. Assim é em ‘Ratos’: “Os ratos invadiram a cidade”, que traz à memória ‘Maus’, de Art Spiegelman, e em ‘Davi e Golias’: “Havia um menino e um soldado. O menino segurava um livro (…) O menino atirou o livro com força acertando o soldado que, em seguida, caiu morto”. Por outro lado, quando se escora na fabulação, alcança um efeito inverso, potencializando a gravidade das ocorrências naquilo que não é tão aparente. É o caso de ‘Como o poder se conserva’, que traz a história de um rei dormente traído por um ministro, que manda matá-lo e assume o poder. No trono, este inclui o filho no ministério, garantindo a futura transferência do cargo, numa alusão ao governo Kirchner, marcado pela perpetuação de um revezamento familiar. “Ai de quem buscar quebrar o ciclo, a pena é a morte”. A violência que serve para destruir igualmente serve para inovar. Tudo depende da capacidade de encontrar o ângulo em que a narrativa submersa se revele do tecido social.
Não por menos, os registros em que o lirismo desloca esse olhar para o plano das subjetividades é onde o autor encontra seu arroubo estético. Fonseca é detentor de uma prosa fina, lapidada, e textos da estirpe de ‘Dos que voltam da guerra’, ‘A tarde’ e ‘Sinfonia’ incomodam por provocar fascínio ao tratar de situações tormentosas. “Posso imaginar que as balas são gaivotas de papel deslizando na superfície do vento. Posso imaginar que são borboletas e o bater das asas acalme as dores que sinto. Posso imaginar que habito o silêncio e o silêncio me habita. Posso negar que as balas rasgam o espaço, mas não posso negar que o espaço também me rasga”. E: “O terror e o medo são iguais ao sonho e a morte habitando-nos involuntariamente, e, por mais que desejemos o refrigério de uma nova vida, a memória permanece como uma coluna de pedra com nomes gravados”.
A morte nasce conosco, morremos a cada dia, temos medo, mas não conseguimos padecer ao presenciarmos a morte alheia. As narrativas examinam este vazio, a cavidade de sentimentos preenchida por um senso de alívio, por existir algo divino que nos protege de todos os males. Vendas que permitem obliterar os erros fatais, descarregar o impacto do choque nas ações de destruição que parecem distantes, mas que também compreendem a nossa história. O que remete novamente a Galeano e seus pequenos momentos extraordinários, listados agora no formidável ‘O livro dos abraços’, num episódio intitulado ‘A linguagem da arte’:
“Chinolope vendia jornais e engraxava sapatos em Havana. Para deixar de ser pobre, foi-se embora para Nova Iorque.
Lá, alguém deu de presente a ele uma máquina de fotografia. Chinolope nunca tinha segurado uma câmara nas mãos, mas disseram a ele que era fácil:
— Você olha por aqui e aperta ali.
E ele começou a andar pelas ruas. Tinha andado pouco quando escutou tiros e se meteu num barbeiro e levantou a câmara e olhou por aqui e apertou ali.
Na barbearia tinham baleado o gângster Joe Anastasia, que estava fazendo a barba, e aquela foi a primeira foto da vida profissional de Chinolope.
Pagaram uma fortuna por ela. A foto era uma façanha. Chinolope tinha conseguido fotografar a morte. A morte estava ali: não no morto, nem no matador. A morte estava na cara do barbeiro que a viu”.
Do mesmo modo, ‘O que eu disse ao General’ expõe instantâneos de nosso tempo, a barbárie de cada dia que, de uma forma ou de outra, será capturada pelo nosso campo de visão. É claro que há sempre a opção de se fechar os olhos. Mas nunca a de ficar indiferente.
Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Tem textos publicados em jornais, revistas e sites literários nacionais e internacionais. “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012), sua obra mais recente, foi finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura.