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103ª Leva - 06/2015 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

A História da Eternidade. Brasil. 2014.

 

A História da Eternidade

‘Não sei mais o que é amor, só sei o que é desaforo’.
(Personagem Querência)

Em tempos de ascensão do cinema argentino e breve entressafra de bons filmes nacionais, eis que surge um sopro de esperança [ou um oásis] vindo diretamente do sertão nordestino. Com 20 anos de carreira como cineasta e 14 curtas no currículo, A História da Eternidade marca a estreia do pernambucano Camilo Cavalcante na direção de longas-metragens. Apesar do título homônimo de seu curta de 2003 – um falso plano-sequência de 10 minutos que também passeia visceralmente pelos dramas do sertão –, o diretor garante que os enredos não têm correlação imediata. Aqui a trama gira em torno de três mulheres de gerações distintas: Querência (Marcelia Cartaxo), mãe que acaba de perder o filho e vive a dor do luto – e também é alvo do cortejo de Aderaldo (Leonardo França), o sanfoneiro romântico e cego da vila (abre essa porta, deixa o meu amor entrar pra tomar conta de tu, criatura!); Dona Das Dores (Zezita Matos), idosa-religiosa que mora longe da família e vibra com a estadia inesperada do neto Geraldo (Maxwell Nascimento), vindo de São Paulo; e por fim, Alfonsina (Débora Ingrid), adolescente que sonha em conhecer o mar e divide-se entre tratar do austero pai Nataniel (Cláudio Jaborandy) e dos irmãos e admirar o excêntrico tio João (Irandhir Santos), artista que definitivamente destoa do restante do vilarejo.

A História da Eternidade
O sanfoneiro Aderaldo (Leonardo França) em cena de A História da Eternidade / Foto: Divulgação

 

Produção independente – escrita e dirigida por Cavalcante –, financiada por editais e incentivos públicos, A História da Eternidade foi bem aceita por público e crítica. Recebeu mais de uma dezena de prêmios em festivais, entre eles o de melhor filme brasileiro e prêmio do público na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e as principais categorias do 6º Festival de Paulínia, ambos em 2014. Rodado na comunidade de Santa Fé, próximo à Petrolina (PE), cujo único contato com o exterior é de fato o orelhão que aparece no filme, a fotografia árida confere uma atemporalidade ímpar e uma beleza imensurável ao lugar. Apesar de se tratar de um filme feminino em sua essência e com protagonistas que ilustram bem as figuras sertanejas, quem rouba a cena é mesmo Irandhir Santos – vide Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda. Suas declamações e performances são impecáveis, sobretudo quando coloca o toca-discos na frente de casa e dubla a música Fala, dos Secos & Molhados, encarnando uma espécie de Ney Matogrosso dos confins. Vale ressaltar que a trilha sonora é assinada pelo compositor polonês Zibgniew Preisner, conhecido pelos filmes do cineasta Krzysztof Kieslowski em sua trilogia das cores: A Liberdade é Azul (1993), A Igualdade é Branca (1994) e A Fraternidade é Vermelha (1994), e pelo sanfonista Dominguinhos, em um de seus últimos trabalhos.

A História da Eternidade
João (Irandhir Santos) em performance de Fala (Secos & Molhados) / Foto: Divulgação

 

Dividida em três atos circulares (Pé de Galinha, Pé de Bode e Pé de Urubu), A História da Eternidade faz um recorte original de uma região bem peculiar do Brasil, porém opta por focar outras aflições e não o sofrimento oriundo da seca. Apesar do gigantismo da paisagem e do povoado inóspito (o que dizer do televisor e da poltrona quase sempre vazia no meio do nada?), a estética de Cavalcante parece aprisionar os personagens – comumente eles são filmados através de grades de janelas, como se fossem jaulas – numa alusão à ‘eternidade’ do título. O que voa ali são só os pássaros e a imaginação. E ainda assim, não por muito tempo. O amor assume vertentes de romantismo, desejo, saudade, veneração, tentação, penitência e tragédia. Talvez seja o tal ‘amar…esquecer…desamar’, a que João se refere em determinado poema. Assim, de mansinho, como chuva que chega sem avisar, A História da Eternidade entra para o rol dos pequenos clássicos nacionais e acaba de vez com a estiagem do nosso cinema.

 

Larissa Mendes, cidadã-cinéfila, atualmente habita o sertão catarinense.

 

 

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100ª Leva - 03/2015 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Dois dias, uma noite. França/Bélgica/Itália. 2014.

 

Dois dias, uma noite

 

Dois dias, uma noite, dos diretores belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, conta a história de Sandra (vivida pela atriz Marion Cotillard), trabalhadora de um negócio fabril numa pequena cidade da Bélgica, que ao retornar de uma licença médica devida a um problema de depressão, de origem desconhecida, descobre que seus colegas de trabalho votaram pelo seu afastamento definitivo, em troca de trabalhar um pouco mais e receber um bônus de mil euros.   Sabendo que a votação teria sido aberta e que seus colegas foram pressionados pelo gerente, Sandra convence seu empregador a ter mais uma chance com uma nova votação, dessa vez secreta. Assim, ela teria um fim de semana para convencê-los a abrir mão do bônus e obter seu emprego de volta.

Com esta trama simples, como em geral ocorre em seus filmes, os irmãos Dardenne, como são conhecidos, alcançaram uma imediata empatia com o público. Dois dias, uma noite já é o maior sucesso comercial da dupla, com muitos méritos. Seguindo a habitual “câmera na mão” dos diretores, sempre focada na corporeidade de seus atores, os espectadores acompanhamos como num filme de suspense a trajetória de fôlego de Sandra, indo de casa em casa para, face a face com seus colegas, mostrar que já está disposta novamente e que precisa do emprego para garantir o ganha-pão de sua família. O problema é que seus colegas também precisam do dinheiro e se mostram pouco inclinados a abrir mão dele. Na verdade, além de uma suposta solidariedade de classe ou simplesmente de um sentimento de fraternidade, há poucas razões para que abram mão de seu bônus. Afinal, trabalharam alguns meses com um colega a menos e a rotina do trabalho não teria mudado muito, mostrando que a presença de Sandra talvez fosse supérflua…

Na atmosfera crua e fria, sem ornamentos estilísticos e estéticos (que lembra muito, em sua sobriedade os filmes da maior referência dos diretores, o cineasta Robert Bresson, sem, no entanto, o fundo metafísico e religioso deste), somos levados a acompanhar tensos diálogos nos quais os personagens apresentam suas razões de conduta e escolha. A personagem de Sandra está presente em todos os diálogos, inclusive aqueles com seu marido, cujo apoio parece estar muitas vezes no limite da pressão para que ela recupere seu posto. Sandra só pode contar com seu próprio corpo e com suas palavras para defender seu argumento e a sua verdade.

Como muitos de seus filmes anteriores, somos confrontados no cinema a cada diálogo com um dilema ético que muitas vezes parece insolúvel, pois as razões dos personagens são ancoradas em suas necessidades concretas e limitam suas decisões. A obra dos irmãos Dardenne aborda como poucas na contemporaneidade a crise de ética do mundo do trabalho nesses últimos tempos de avanço e crise neoliberais. Os diretores, aliás, começaram sua carreira cinematográfica justamente fazendo documentários sobre a classe trabalhadora belga e a precarização das relações trabalhistas.

 

Marion Cotillard na pele de Sandra / Foto: divulgação

 

A este respeito, é importante observar que, apesar de ter sido aclamado pela crítica em muitos países, o filme dos irmãos Dardenne também recebeu algumas críticas sobre supostas inverossimilhanças do roteiro. Uma das críticas, por exemplo, destacou que em vários países (inclusive no Brasil) há leis que protegem trabalhadores nas condições vulneráveis em que Sandra se acha em função de seu problema psíquico e de sua licença. Outra análise, que justamente partiu de uma abordagem socialista do movimento dos trabalhadores, critica os diretores pelo fato de terem reduzido uma questão política e trabalhista numa questão da ordem ética e moral. Por que afinal Sandra, em vez de se humilhar à frente de seus colegas para recuperar seu posto, não acionou os sindicatos contra seus patrões, que provavelmente perderiam uma ação trabalhista? Por que afinal não resolver seu drama politicamente?

As críticas são pertinentes, mas em defesa da opção dos diretores, é importante destacar que a estrutura narrativa do filme, apresentada como uma parábola alegórica, não estava interessada em compor um retrato realista da sociedade trabalhadora belga (apesar do filme ser livremente baseado numa história real, lida pelos diretores numa matéria de jornal), mas de compor um microcosmo ficcional  despido de referências contextuais e mesmo despido de transcendência para concentrar sua objetiva no fim de semana de uma trabalhadora que poderia ser belga ou não. E com esta escolha, se o filme perdeu em contextualização, ganhou em universalidade, transformando a travessia de Sandra numa pequena odisseia da época do capitalismo terminal.

Pois o universo que os diretores abordam em toda sua obra é justamente o de um mundo do trabalho que perdeu suas referências de luta histórica e suas bases de legitimidade para retornar a um extremo modo de exploração do corpo e da psique dos trabalhadores. Em Rosetta (1999), por exemplo, filme que recebeu a Palma de Ouro em Cannes, acompanhamos a luta de uma adolescente para conseguir seu emprego além de toda moral e a um ponto de sua desumanização. Curiosamente, a repercussão deste filme ajudou a mudar a legislação trabalhista na Bélgica relativa à contratação de menores. Neste caso, portanto, a dissonância do filme com relação à realidade ajudou a transformar esta última.

Em Dois dias, uma noite acompanhamos e torcemos para que Sandra recupere seu emprego e nos angustiamos junto com ela em sua jornada pelo fim de semana. No entanto, mesmo que não saibamos o resultado de seus esforços, paira desde sempre, na personagem e nos espectadores, uma suspeita de que sua batalha já esteja perdida. Afinal, a própria situação já é uma derrota. Que o destino de um colega de trabalho seja decidido numa votação por seus outros colegas, que o sistema coloque uns contra outros (poupando o peso da decisão a seus patrões), que o uso de um instrumento democrático seja utilizado contra os próprios trabalhadores, é sinal de que o sistema já ganhou a batalha, de que a solidariedade já não seja o sustento das relações e de que cada um esteja entregue à própria sorte. Sandra se encontra só num mundo do trabalho esfacelado e a ela só resta, após acordar de um longo sono (a primeira cena do filme é justamente a de seu despertar), fazer a “boa luta”. Pois é na boa luta que ética e política afinal se encontram.

Finalmente, neste filme é preciso louvar o excepcional trabalho cênico de Marion Cotillard. Os irmãos Dardenne são conhecidos por preferirem atores desconhecidos ou mesmo não atores. Sua escolha por Marion como protagonista se deveu ao reconhecimento de seu trabalho no filme Ferrugem e Osso de Jacques Audiard, filme do qual foram produtores.  Em sua compostura física, em seu rosto cruamente melancólico, não sentimental, com suas roupas despojadas e em seu andar entre recuos e avanços, a atriz carrega as angústias da personagem e de nós espectadores. O realismo do filme está nesta vivência compartilhada por muitos do trabalho como uma luta contra a depressão, contra o empobrecimento das relações e contra o egoísmo de um mundo no qual estamos jogados.

 

 

Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de “Capoeiragem” (Ed. 7Letras) e “Extrema Lírica” (Editora Oito e Meio) e também organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro no Rio de Janeiro.

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98ª Leva - 01/2015 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Garota Exemplar (Gone Girl). EUA. 2014.

 

Garota Exemplar

 

‘Quando penso em minha esposa, eu sempre penso na cabeça dela.
Me imagino abrindo seu lindo crânio e desenrolando o cérebro na tentativa
de obter respostas para questões básicas de qualquer casamento:
“No que você está pensando?”
“Como está se sentindo?”
“O que fizemos um ao outro?”’.
(Nick Dunne)

 

David Fincher sabe como ninguém dissecar o que há de mais sórdido no ser humano, que o diga Seven – Os Sete Crimes Capitais (1995), um de seus filmes mais impactantes. Em Garota Exemplar, seu décimo longa-metragem, o cineasta explora a vaidade, o cinismo e a superficialidade da instituição casamento: você entra em um relacionamento tentando fugir de todos os clichês convencionais e no final, encontra-se soterrado por sua própria ruína com alguma dose de exagero, é claro. Para acompanhar a complexa temática matrimonial, o thriller é pontuado cadenciadamente e apresenta um clima de tensão constante, além de uma pitada de sarcasmo. Embora o ritmo de sua primeira parte seja um pouco mais lento, o desenvolvimento do enredo e a apresentação dos protagonistas não ficam comprometidos.

A garota em questão é Amy Elliot Dunne (Rosamund Pike), bem-sucedida escritora de livros infanto-juvenis que narram as aventuras de Amazing Amy, seu alter ego teen. Jovem, rica e bonita, é bem verdade que no momento ela é uma frustrada dona de casa, que mudou-se para Cape Girardeau, no Missouri, para cuidar da sogra doente. O marido Nick (Ben Affleck), fracassado no ofício da escrita, é sócio do The Bar juntamente com a irmã Margo (Carrie Coon). A vida dos Dunne muda radicalmente quando Amy desaparece em suas bodas de cinco anos de casamento e as suspeitas recaem sob Nick. E qualquer coisa que se diga além disso é passível de spoiller, capaz de estragar as reviravoltas que a trama apresenta, incluindo a crítica sobre a televisão, o sensacionalismo midiático e a manipulação da opinião pública diante de um crime ou sequestro.

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Nick (Ben Affleck) na coletiva sobre o desaparecimento de Amy (Rosamund Pike) / Foto: divulgação

 

Apesar da tradução em português soar como título de comédia – é uma pena que Procura-se Amy (1997), de Kevin Smith, já tenha se apropriado de um nome mais oportuno –, Garota Exemplar é um suspense de primeira grandeza que figura entre as listas de melhores do ano e recebeu quatro indicações (Melhor Atriz, Diretor, Roteiro e Trilha Sonora) ao Globo de Ouro, porém não faturou nenhuma estatueta. As duas horas e meia de projeção garantem bons diálogos e personagens não-lineares – marca registrada do cinema de Fincher – vividos com maestria por Rosamund Pike (sua aura “Emily Thorne” está impecável; não por acaso acaba de ser nomeada ao Oscar 2015 como Melhor Atriz, aliás, única indicação do filme na premiação) e Ben Affleck (o papel de marido apático lhe caiu como luva). A propósito, a edição é outro ponto de destaque: a trama é alternada entre o nebuloso presente de Nick, utilizando uma paleta de cores sombrias e um flashback da vida de Amy (fundamentado em seu diário e narrado em off), em tons mais claros.

Baseado no livro homônimo da jornalista americana Gillian Flynn – que também assina o roteiro –, Garota Exemplar é conduzido com a mesma destreza de quem filmou clássicos como Clube da Luta (1999), O Curioso Caso de Benjamin Button (2008), A Rede Social (2010) e Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (2011), todos adaptações literárias. David Fincher continua em grande forma, seja na produção executiva de House of Cards – série de grande sucesso no Netflix, protagonizada por Kevin Spacey –, flertando em outros formatos de mídia ou na velha e boa direção da sétima arte.

 

Larissa Mendes não é uma garota fantástica, tampouco exemplar.

 

 

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97ª Leva - 11/2014 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Bolívar Landi

 

Relatos Selvagens (Relatos Selvajes). Argentina/Espanha. 2014.

 

Relatos Selvagens

 

O cinema argentino tem se mostrado cada vez mais robusto, presenteando os amantes do cinema com excelentes películas nos últimos anos. Filmes como O Segredo dos seus Olhos, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009, O Filho da Noiva, Um Conto Chinês e Medianeras vêm contribuindo para firmar o interesse internacional pelo cinema latino-americano. No recém-lançado Relatos Selvagens (2014), nossos “hermanos”, mais uma vez, acertam a mão e constroem um filme pujante, que tem como grande qualidade o potencial de agradara diferentes tipos de público, dos mais exigentes aos que não buscam nada além de uma boa diversão no fim de semana.Temos, assim, uma exuberante tragicomédia apresentada em seis histórias que não têm nenhuma relação entre si, a não ser a demonstração da ira, intolerância e insanidade humana.

A primeira história já vale o filme: partimos de um encontro casual a bordo de um avião de passageiros que se segue à efusão de estapafúrdias coincidências e culmina em um desfecho surpreendente, que consegue ser tão hilário quanto macabro. Eis um humor de primeira, escrachado, criativo, passando a compor certamente uma das cenas memoráveis do cinema. Após assisti-lo, temos a certeza que fizemos um bom proveito do nosso tempo. Mas isto é apenas o começo, degustamos mais cinco contos urbanos que nos trazem situações cômicas que beiram ao absurdo, mas ao mesmo tempo trágicas, pois nos reconhecemos nelas, e, por mais improváveis que pareçam, sentimos que estão fortemente presentes em nossos dramas cotidianos e afetivos.

A obra percorre os mais inusitados temas, seja uma briga no trânsito, reduzindo os seus condutores a uma situação de selvageria animalesca, ou a burocracia pública que atropela o bom senso, desrespeita a dignidade humana e atenta contra a sanidade até mesmo do mais equilibrado dos cidadãos. A trama flerta, ainda, com o suspense ao explorar de forma precisa o dilema de uma garçonete dividida entre seus valores morais e o indomável instinto de vingança. Em seu episódio menos eloquente, mas não menos engraçado, a farsa para livrar um jovem da responsabilidade de um atropelamento revela, em tons de um cinismo escarnecido, a falência moral e a ganância sem limites do homem. O final se dá de forma frenética, em uma alucinada e angustiante festa de casamento ou, melhor dizendo, “descasamento”, que tira o fôlego e deixam atônitos, e com os olhares perplexos, os expectadores até o apagar das últimas luzes. Estas que poderiam ser chamadas de parábolas modernas trazem à tona sempre alguma mensagem subliminar de fundo moral que nos fazem indagar e refletir sobre a realidade em que vivemos.

 

Ricardo Darín em cena de Relatos Selvagens / Foto: Divulgação

 

A película é uma coprodução espanhola assinada pelos irmãos Augustin e Pedro Almodóvar, mestre do cinema espanhol que se encantou pela pulsante vitalidade da história. Tanto a direção como o roteiro são assinados por Damián Szifron, que, aos 39 anos, dirige o seu terceiro longa. Szifron tem se destacado também à frente de seriados de TV que são veiculados por toda a América Latina. A excelente trilha sonora fica ao encargo de Gustavo Santoalalla, responsável pela sonorização de filmes como Diários de Motocicleta, Amores Brutos e Babel, pelo qual foi premiado com o Oscar em 2005. Embora a imprensa dê grande destaque à participação do astro Ricardo Darín na trama, em uma atuação realmente brilhante como o técnico de implosões soterrado pelos descaminhos burocráticos, o elenco conta com muito mais do que a sua presença, desfilando em cada novo episódio uma constelação de excelentes atores latinos.

Relatos Selvagens foi escolhido para realizar a abertura do último Festival de Cannes e ainda da 38ª Mostra Internacional de São Paulo, evidenciando o seu prestígio no circuito internacional. Em seu país de origem, levou mais de três milhões de expectadores às salas de cinema, marca impressionante para os padrões nacionais. A película foi indicada pela Argentina para representá-la na disputa ao Oscar de filme estrangeiro deste ano, possuindo, segundo a crítica especializada, grandes chances de levar a estatueta.

Esta preciosa obra de humor negro se destaca por seu apuro técnico e pelo excelente roteiro, elemento tão caro ao cinema e, por vezes, tão descuidado em nossas produções nacionais. Felizmente este quesito tem se mostrado um dos grandes diferenciais da filmografia argentina, que vem realizando trabalhos coesos, coerentes e dotados de uma enorme originalidade. Um filme para ser assistido com sorrisos soltos e largos, mas, muitas vezes, com o rosto contorcido pelo espanto.

 

 

Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana.

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96ª Leva - 10/2014 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Amantes Eternos (Only lovers left alive). Alemanha/Reino Unido/França/Chipre. 2013.

 

Amantes Eternos

 

Amantes Eternos, de Jim Jarmusch, é um filme típico de vampiros. Neste estão presentes muitos dos clichês e signos icônicos que cercam os sombrios descendentes do conde VladDracul, tais como a vida noturna fugidia da luz solar, a necessidade imperiosa desses misteriosos seres para se alimentar de sangue humano, a vida eterna ou a longa juventude a que só pode dar cabo uma bala de madeira.

Jim Jarmusch sempre trabalhou em seus filmes com clichês pops e referências icônicas da cultura de massas mais sofisticada. Seu desejo nesse filme, claramente, não era fazer um filme de vampiros heterodoxo ou inovador, mas sim compor uma alegoria dos tempos terminais, ou como poderíamos chamar mais apropriadamente, do sistema capitalista “tardio”. É, por assim dizer, um filme de “fim de época”.

Adam e Eva (vividos por Tom Hiddleston e Tilda Swinton) – nomes simbólicos – são vampiros aristocratas, casados centenariamente, que vivem em cidades diferentes separadas por um oceano, Detroit e Tanger. Adam está deprimido e Eva sente necessidade de vir a Detroitr e animá-lo. A reunião amorosa do casal é interrompida, no entanto, pela presença inesperada de Ava (Mia Wasikowska), uma vampira junkie que é irmã de Eva. Após uma confusão causada pelo comportamento adolescente e hedonista de Ava, o casal é obrigado a viajar de volta a Tanger, onde se encontram com o velho poeta Christopher Marlowe (vivido por John Hurt), rival de Shakespeare que, sendo realmente um vampiro, simulou sua própria morte há 500 anos, e em nossos dias jaz moribundo escondido na casa de um comerciante de Marrocos.

Assim descrito, o filme parece ter uma narrativa banal e, de fato, como em muitos outros filmes de Jarmusch, não há quase peripécia a acelerar a trama. Quase todos seus filmes são compostos de deambulações erradias dos personagens, perdidos em divagações tediosas ou melancólicas. Desde seu debut, com o aclamado Strangerthan Paradise, que o diretor novaiorquino é conhecido por enfocar personagens em trânsito, porém paradoxalmente em situações que parecem nunca avançar, numa inércia existencial. Em uma de suas entrevistas, o diretor disse que gosta de “filmar a América com olhos de estrangeiro” e é esse deslocamento que gera um efeito “mais estranho do que o paraíso”.

E ninguém melhor do que vampiros, personagens errantes e estranhos por natureza (ou por anti-natureza) para incorporar esse deslocamento existencial. Remanescentes de uma aristocracia que perdeu seu lugar na história, vampiros, a partir do personagem literário de Bram Stoker, tiveram que vestir os hábitos da burguesia ascendente do período romântico. O vampiro literário seria assim a personificação grotesca do burguês que sobrevive literalmente drenando o sangue da classe trabalhadora, como uma sanguessuga.

Na era burguesa, afinal, a figura do vampiro, como a do fetiche da mercadoria, é sobretudo um signo vazio, errante, que atravessa os tempos devendo sua vida e seu valor à imaginação dos outros, como o Nosferatu para o cinema expressionista representava o fantasma das pestes sociais ainda não assimiladas do cenário do entre-guerras, como o surgimento pavoroso e intuído do nazismo.

E é com esse signo vazio que Jarmusch explora a figura do vampiro trazendo-o para um mundo do capitalismo globalizado, onde os cidadãos burgueses podem se comunicar mesmo em cidades afastadas por oceanos, onde as compras podem ser feitas instantaneamente por cartão de crédito, como as passagens que Eva adquire para viajar aos Estados Unidos, e onde a qualidade do sangue decaiu assustadoramente, por causa de doenças, drogas e alimentos químicos ingeridos à profusão, para desespero dos vampiros.

Os personagens Adam e Eva em cena de Amantes Eternos - Foto - divulgação
Os personagens Adam e Eva em cena de Amantes Eternos / Foto: Divulgação

 

Eva vai aos Estados Unidos reanimar Adam, que está à beira de um ato suicida. O personagem de Hiddleston é músico e poeta e não suporta a decadência do rock e o processo de digitalização sonora. Sua Detroit, por sua vez, é uma cidade em decadência e em processo de esvaziamento, cheia de montadoras de automóveis inutilizadas.Num passeio noturno em um carro antigo, Adam mostra a Eva, com certa nostalgia,as fábricas abandonadas das grandes montadoras. A cidade é o símbolo moderno do desaparecimento do trabalho na era do capitalismo financeiro e da virtualização das relações produtivas e do consumo.

Aristocrata vindo de outras eras, Adam menospreza os mortais humanos a quem chama de Zombies. O Zumbi sempre foi a antítese do vampiro. Zumbis são os mortos-vivos, enquanto um vampiro é o vivo-morto. Vampiros são burgueses que pensam que são aristocratas. Zumbis são proletários que vivem como trabalhadores robotizados, sem autonomia e consciência. Adam tem simpatia, no entanto, por Ian, um típico humano-zumbi que não trabalha, mas vive do tráfico de todo o tipo de artigo do mercado negro. Assim, como não há trabalho nas fábricas de Detroit, seus habitantes são obrigados a se virar em pequenos negócios clandestinos. A aproximação entre Adam e Ian – que venera o vampiro – trai o lado burguês do primeiro.

Eva, vivida por uma magneticamente pálida Tilda Swinton, é uma vampira que não tem outra ocupação a não ser recuperar a energia vital e criativa de seu marido. Há um problema de gênero nessa situação, como se mulheres, vampiras ou não, estivessem destinadas a serem fontes periféricas da criatividade de seus cônjuges. Mais interessante é sua irmã Ava, que tem uma presença passageira, mas decisiva na trama. Odiada por Adam, ela é uma vampira totalmente junkie, consumista, hedonista e ociosa, cujo vício e sede irrefreável acabam por trazer o desastre para o casal e particularmente para Ian.

Adam e Eva retornam a Tanger, uma cidade do terceiro mundo, para recuperar a vitalidade perdida, o que é um paradoxo para vampiros, que vivem eternamente como mortos. Eles presenciam a morte derradeira de Christopher Marlowe, envenenado por sangue contaminado, que representa para eles o fim de toda uma época de fineza e beleza (e ele confessa ser o real autor das peças de Shakespeare). Em muitos filmes do gênero, vampiros desejam ardorosamente a mortalidade de seus amados, pois só em face da finitude é que a vida recebe seu sentido. Mas a decadência espiritual do mundo na banalidade burguesa de nossos dias virtuais elimina toda promessa de sentido.

Numa conversa em um de seus “passeios noturnos”, Adam diz a Eva que 80% do corpo humano é feito de água e pergunta quando terminarão as guerras do petróleo para começarem as guerras pela água. Lutar pela água seria ainda uma luta por algo vital e não mais pela morte e pela banalidade. Num pequeno cabaré de um beco estreito de Tanger, eles ouvem a belíssima canção de uma cantora libanesa (Yasmine Hamdan, cantando “Hal”). A cantora sussurra em árabe que “eu não tenho solução”. Adam dedilha um banjo medieval comprado por Eva com o resto do dinheiro que possuíam e veem um casal marroquino se beijar apaixonadamente. Os filmes de Jim Jarmusch são reconhecidos não apenas pela bela e bem selecionada trilha sonora, mas por serem realizados e idealizados como canções visuais. E este filme-canção diz em algum refrão insistente que não há outra escolha a não ser persistir no amor, pois somente aos amantes será permitido viver e sobreviver.

 

Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de “Capoeiragem” (Ed. 7Letras) e organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro.

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95ª Leva - 09/2014 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Boyhood – Da Infância à Juventude (Boyhood). EUA. 2014.

 

Cartaz Boyhood

“– Sabe quando dizem ‘aproveite o momento’?
Não sei, mas acho que é ao contrário.
Como se o momento nos aproveitasse”.

 

Você recebe um telefonema. O interlocutor pergunta:

“– O que você vai fazer nos próximos 12 anos?”

Se tal questão já seria suficientemente inusitada num diálogo qualquer, saiba que o autor da ligação era o cineasta Richard Linklater convidando a atriz Patricia Arquette para um verdadeiro experimento cinematográfico. O diretor que idealizou rodar um filme por década com o casal Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy), em Antes do Amanhecer (1995), Antes do Pôr-do-Sol (2004) e Antes da Meia-Noite (2013), desta vez propunha algo ainda mais audacioso: acompanhar a vida de um garoto (e de sua família), dos 6 aos 18 anos (ou da infância à juventude, como reitera o redundante subtítulo nacional). O processo – mantido em sigilo – teve início em 2002 e a cada ano os atores se reuniam para alguns dias de filmagem (um total de 39 dias em 12 anos). Apenas o argumento de Linklater já valeria um Oscar, uma Palma, um Urso, porém Boyhood vai além de qualquer premiação plausível.

Durante quase três imperceptíveis horas, acompanhamos cronologicamente o crescimento de Mason Evans Jr. (Ellar Coltrane) e de sua família, formada pela irmã mais velha Samantha (Lorelei Linklater, filha do cineasta e dona de algumas pérolas do filme quando pequena) e pelos pais Olivia (Patricia Arquette) e Mason (novamente Ethan Hawke), que já estão separados desde o início da trama. O garoto precisa lidar com a distância do pai, que tenta reestabelecer o vínculo com os filhos, com os relacionamentos amorosos da mãe (por que diabos escolhemos sempre o mesmo tipo de parceiro?), com as mudanças de cidade e escola, as primeiras paixões, entre outras agruras do viver. É bem verdade que o cabisbaixo Mason não é uma pessoa qualquer, é observador, introspectivo e sensível como poucos. Sua vida é tão comum quanto a minha ou a sua, e é exatamente essa magia da banalidade que Linklater consegue retratar. A narrativa faz uma ode ao tempo, com todos seus pormenores cotidianos e [in]significantes. É a vida como ela é: uma sucessão de dias bons e ruins, com transformações internas e externas, ora sutis, ora arrebatadoras.

Cena do filme Boy Hood
Mason filho (Ellar Coltrane) e Mason pai (Ethan Hawke) / Foto: Divulgação

Com roteiro e direção impecáveis, Linklater constrói uma história universal e de uma simplicidade ímpar, sempre calcada em longos diálogos – sua marca registrada – e atuações seguras e carismáticas. A passagem dos anos se dá de modo natural, pontuada discretamente por um novo corte de cabelo de Mason ou uma canção da época. Aliás, a trilha sonora funciona como um personagem à parte, que vai de Coldplay à Arcade Fire, de Paul McCartney à Family of the Year, assim como referências culturais e políticas, como Harry Potter, Star Wars, Bush e Obama. Boyhood é um daqueles clássicos modernos que visitam memórias e tomam chá com nossa nostalgia. Impossível não esboçar um sorriso ou uma lágrima cúmplice com o protagonista ou qualquer outro personagem. Somos todos da família de Mason – às vezes fazendo escolhas, outras sendo surpreendidos por elas –, narradores desse enigmático acaso chamado viver.

 

 

 

Larissa Mendes deve parte de sua ‘girlhood’ à Linklater e sua trilogia do Antes.

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94ª Leva - 08/2014 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Bolívar Landi

 

O Grande Hotel Budapeste. EUA/Reino Unido/Alemanha. 2014.

 

Grand Budapest

 

Wes Anderson consolida em seu mais novo trabalho, O Grande Hotel Budapeste, o estilo virtuoso e inconfundível de sua direção. Percebemos em cada enquadramento e movimento de câmera, em todo figurino e ambientação o toque minimalista de sua presença. Ele não é apenas o diretor, mas arquiteto, maestro, mágico que materializa um mundo fantástico, ao mesmo tempo onírico e real, povoado por personagens fascinantes.

Anderson tem se revelado um excelente contador de histórias. Temos aqui uma história dentro da própria história, deliciosamente relatada pelo enigmático proprietário do Hotel Budapeste. Cria-se um tom de confidência que vai envolvendo os espectadores, cada vez mais atentos e ávidos por desvendar os misteriosos acontecimentos do decadente, e outrora glorioso, Hotel Budapeste e dos excêntricos indivíduos que fizeram parte de sua história.

O filme se passa no período entre as duas grandes Guerras em Zubrowka, uma fictícia república do leste europeu. Ralph Fiennes personifica, de forma impecável, Monsieur Gustave H., o extremamente zeloso gerente do Grande Hotel, responsável por cada mínimo detalhe em seu estabelecimento (neste aspecto, uma espécie de alter ego do próprio diretor). Toda a trama da película gira em torno de um misterioso assassinato e da atribulada disputa por uma vultosa herança.

A produção conta com um elenco admirável, confirmando o prestígio do diretor no meio artístico. Além de Fiennes, Tillda Swinton, Adrien Brody, Jude Law, Owen Wilson, Williem Dafoe, Jeff Goldblum, Harvey Keitel, Léa Seydoux, F. Murray Abraham, entre outros, compõem personagens inesquecíveis. Alguns em pequenas atuações, mas com um desempenho sempre marcante. Edward Norton e Bill Murray, que participaram da última incursão cinematográfica de Anderson, Moonrise Kingdom, aparecem aqui, expondo o apreço do diretor em estabelecer parceria com seus atores preferidos, o que se configura em mais um elemento de identidade de sua obra.

 

Ralph Fiennes e Tony Revolori - Foto - divulgação
Ralph Fiennes e Tony Revolori / Foto: divulgação

 

O instigante e bem elaborado roteiro, coassinado por Hugo Guinness e Wes Anderson, é livremente inspirado na obra do austríaco, de origem judaica, Stefan Zweig, que durante a 2ª Grande Guerra utilizou o Brasil como um dos seus locais de refúgio. O escritor, encantado com a beleza de nosso país e com a miscigenação de nosso povo, foi quem primeiro cunhou a expressão “Brasil, um País do Futuro” (1941). Zweig vem a falecer em Petrópolis (RJ), em 1942, vítima de uma profunda depressão que o levou, conjuntamente a sua esposa, ao suicídio. Os escritos de Zweig e a pompa do Grande Hotel acabam servindo como uma contundente metáfora da própria Europa entre guerras, “um mundo de requinte que estava à beira do desaparecimento”.

A trilha sonora original, composta por Alexandre Desplat, é outro aspecto que merece destaque. Ela se inspira em músicas folclóricas russas e óperas clássicas e se adequa muito bem à proposta do filme, conferindo ritmo e uma grande dinamicidade à película. O filme foi lançado no Festival de Berlim em 2014, onde Anderson foi agraciado com o grande prêmio do júri, o Urso de Prata, por sua direção. A obra vem sendo considerada por uma expressiva parcela da imprensa como um dos melhores filmes do ano, sendo apontada como um dos fortes concorrentes ao Oscar.

Este talvez seja o filme mais popular do diretor. O clima de mistério e o ritmo, bem mais ágil que o verificado em produções anteriores, contribuem para prender a atenção do espectador. Há cenas de perseguição, fuga e tiroteios… Tudo isso embalado por um humor refinado e criativo. As falas são perspicazes e o ambiente, embora fantasioso e exagerado, não tem a intenção de criar meras caricaturas, mas busca captar a dimensão humana sob um novo aspecto.

O estilo de Anderson, entretanto, não é um consenso de público e crítica, não que desmereçam a sua obra, nem poderiam, mas estranham a sua excentricidade e o excessivo esmero que confere à lapidação do seu trabalho. Contudo, não é apenas a história ou os personagens ou o ritmo da trama, mas sim a forma, a estética (alguns falam de simetria) o que encanta o diretor. Para Anderson ela é mais uma linguagem, com seus signos e significados próprios capazes de despertar sensações únicas aos que conseguem apreender a sua mensagem. Isto se traduz em uma forma nova de contar algo, em um enquadramento novo, em diferentes perspectivas… Esta coragem de arriscar e produzir algo que fuja do convencional já seria em si um grande mérito e justificaria que dispensássemos um pouco de nosso tempo para conferir o resultado. Mas a obra vai além, produzindo um conjunto coerente e harmonioso, extremamente saboroso para os sentidos.

 

 

Bolívar Landi é formado em Comunicação Social e História, permanentemente encantado com a capacidade do cinema de reunir em um só espaço múltiplas linguagens e expor confidencialmente as minúcias da alma humana.

 

 

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93ª Leva - 07/2014 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

Era uma vez na Anatólia (Bir Zamanlar Anadolu’da). Turquia. 2011.

 

 

Enquanto esperamos O Sono de Inverno, vencedor do prêmio de Cannes deste ano (2014) estrear em telas brasileiras, é importante revisitar seu filme anterior, Era uma vez na Anatólia, que ganhou o prêmio do Grande Júri neste mesmo festival em 2011.

Ceylan é um diretor de cinema turco. É formado em engenharia elétrica e desenvolveu um gosto pela fotografia que o levou ao cinema. Tornou-se internacionalmente conhecido com o prêmio de melhor diretor em Cannes em 2008, com o filme Os Três Macacos. É conhecido pelas tomadas longas e estáticas, que nos lembram o cinema de Tarkovski, um de seus ídolos, e pelos personagens de vidas monótonas.

Era uma Vez na Anatólia leva ao extremo as características radicais desse diretor. Baseado em fatos reais, o filme se passa nessa região da Turquia, região natal de Ceylan. Um grupo de policiais, um médico legista, um juiz de instrução e coveiros, acompanham dois suspeitos de homicídio, irmãos entre si, em busca do corpo de sua vítima, numa certa noite de vento frio e possibilidade de chuva. A princípio essa busca parece totalmente infrutífera, uma vez que os acusados não parecem se lembrar do sítio da ocultação ou não querem encontrá-lo. Não sabemos das circunstâncias e da motivação do crime. No início do filme, a vítima e seus supostos algozes são vistos conversando amistosamente entre si. Um dos acusados parece ter um problema mental. O outro, seu irmão mais velho, de semblante tragicamente amargurado como um cristo turco, está como a esconder um terrível segredo. Imaginamos que ele esteja assumindo um crime que não cometeu apenas para livrar a responsabilidade de seu irmão menor. Mas isto não é certo.

Tudo é incerto neste filme, como em outros de Nuri Bilge. Não se trata da ambiguidade do roteiro, mas sim do efeito de indeterminação gerado por uma concepção radical da parcialidade de todo julgamento, incapaz de abranger a totalidade de uma situação. Era uma vez… nos conta a história da busca por um cadáver numa noite perdida em Anatólia, mas essa busca, narrada em quadros exasperadamente lentos, dá oportunidade a digressões variadas, algo aleatórias, como conversas cotidianas, banais, entre os personagens, cuja importância escapa ao espectador. A busca parece não encontrar resolução e não ter fim, porque talvez a caça pelo cadáver não seja a mais importante e haja outra procura ainda mais essencial, porém enigmática e indefinida.

 

Cena do filme / Foto: divulgação

 

O roteiro se sucede em passos lentos e o espectador fica algum tempo sem saber exatamente qual é o protagonista da história, pois o foco da objetiva varia entre os personagens que conversam e divagam banalmente, apesar da seriedade de sua busca. Ceylan é conhecido por tomadas pelas costas dos personagens quando se manifestam, de modo que ouvimos suas vozes, mas não vemos seus rostos. Ouvimos suas falas, mas não sabemos se são diálogos ou são monólogos interiores. O diretor afirmou que desejava fazer um filme sobre sua terra o mais realista possível, abordando as pessoas que lá vivem e utilizando não atores e até mesmo pessoas de sua própria família, como seu pai. E entre diálogos comuns que vão vagarosamente abrindo a perspectiva dos personagens, inseriu trechos de peças e diálogos de TcheKov.

Como nos dramas de TcheKov, os personagens de Ceylan parecem estar sobrecarregados de uma inércia profunda e agem sempre depois de muita hesitação ou não agem. É nesta inatividade essencial que se abrem espiritualmente. Aos poucos sua humanidade se revela na tela a partir de uma estranheza fundamental, como um deslocamento na narrativa que resiste a ela, que resiste afinal a formar uma história, a criar um encadeamento entre um começo, um meio e um fim. A humanidade deles é exatamente essa resistência à linearidade da fábula, da anedota, do enredo, da história.   Era uma vez... é um misto de road movie turco com uma narrativa policial, mas é um road movie sem destino e insolitamente sem passagem e é uma história policial sem heróis e com bandidos intensamente humanos.

Aos poucos aprendemos que o suspense dessa história policial é a resolução de uma busca que não tem objeto e que, portanto, não pode ter fim. Paradoxalmente, a busca está ao mesmo tempo suspensa e em prosseguimento. Um dos personagens fala de um filho problemático, outro de um suicídio que poderia ter sido evitado. Um dos acusados chora amarguradamente. O outro diz coisas sem sentido. Todos são personagens ao mesmo tempo coadjuvantes e protagonistas. Porém, com dificuldade entendemos que o protagonista verdadeiro é o médico legista que está inserido neste mesmo mundo com os demais personagens, impregnado dessa mesma atmosfera pegajosa, inercial e que compartilha com eles, ao menos nessa noite, do extremo estupor e da imobilidade.

As incrivelmente belas imagens noturnas das estepes turcas reforçam o sentimento de estranheza e deslocamento de todos os personagens que inseridos passivamente no roteiro do filme, parecem seguir outras narrativas que não vislumbramos.   Nuri Bilge Ceylan admitiu que este roteiro foi baseado em fatos da realidade e que escreveu a história junto com um dos seus participantes, justamente o protagonista. A ele, o médico legista, caberá um gesto, uma decisão que afinal representa um corte, uma interrupção que suspende a passividade ante o desenvolvimento da narrativa, como se essa fosse um destino além de toda escolha. Sua decisão tem um fundo ético, mas a razão desta, sua justificativa, permanece uma incógnita, um mistério para os espectadores. Sabemos que o médico decidiu se transferir para a pequena cidade em Anatólia apenas para facilitar sua aposentadoria. Mas o que esta informação nos diz sobre sua decisão? Talvez seu gesto tenha um lado humano de poupar o sofrimento de terceiros, talvez seja apenas devido a um cálculo egoísta para não atrapalhar sua trajetória profissional. Nessa indecidibilidade, o filme se recusa a determinar as razões e preserva assim uma abertura de significados que transfere para cada espectador a reflexão e a justificativa do gesto do legista. Talvez a função da fábula seja essa mesma de recriar os fatos da realidade e impedir as interpretações fechadas e as ações precipitadas como a de uma turba querendo linchar suspeitos de um crime antes de qualquer julgamento…

 

 

Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de “Capoeiragem” (Ed. 7Letras) e organizador do Clube da Leitura da Baratos da Ribeiro.

 

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88ª Leva - 02/2014 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte II

Por Larissa Mendes

 

Nebraska (Nebraska). EUA. 2013.

 

 

“— Seu pai tem Alzheimer?
— Não. Ele acredita no que as pessoas dizem”.

 

E se você confiasse que aquela mensagem de sua operadora de celular, de fato, lhe premiou com um automóvel 0 km? Em Nebraska, o idoso desmiolado Woody Grant (Bruce Dern, pai da atriz Laura Dern) foi mais longe. Ele crê que a mala-direta de uma editora de revistas o fez ganhador de 1 milhão de dólares e, para tanto, precisa ir até Lincoln, estado de Nebraska, para retirar o prêmio. O detalhe é que Billings, cidadezinha onde mora, localizada em Montana, meio-oeste americano, fica distante mais de mil quilômetros da sede da editora. Escondido da esposa Kate (June Squibb), Woody tenta algumas vezes, sem sucesso, ir a pé até seu destino, até que o filho David (Will Forte), um pacato vendedor de eletrônicos, decide embarcar na sandice do pai e levá-lo de carro, afinal ‘não se trata de dinheiro, mas de quanto tempo ele ainda vai viver’. Assim, pai e filho embarcam em uma desventura pelas planícies norte-americanas.

Durante o percurso, Woody tem um pequeno acidente e David decide desviar o caminho para fazer uma visita aos parentes que vivem em Hawthorne. Neste momento, Kate e Ross (Bob Odenkirk), o outro filho do casal, juntam-se à dupla. O boato que o velho está milionário se espalha rapidamente pelo lugarejo, provocando inveja e cobiça: há aqueles que tentam cobrar dívidas passadas e tirar vantagem de qualquer espécie. Como diria Kate, em determinado ponto: “Normalmente, a pessoa tem que morrer antes de os abutres circularem a sua volta”.

 

Família Grant reunida em cena de Nebraska / Foto: divulgação

 

A complexidade dos personagens talvez seja o grande trunfo do filme. Eles são cativantes, introspectivos e singulares em toda sua normalidade. Woody (provavelmente o melhor desempenho de toda a carreira de Dern) sempre foi um pai ausente, alcóolatra, que nunca sequer discutiu com a esposa o desejo de ter ou não filhos. Aliás, somente na viagem, David fica sabendo, por intermédio de uma antiga namorada do pai, que ele esteve na Guerra da Coreia e ficou profundamente marcado pela experiência. Kate é uma verborrágica e despudorada senhora, que tece os comentários mais ásperos acerca da família (só a cena do cemitério já valeria à June Squibb o Oscar de coadjuvante). O tenro David (o comediante do Saturday Night Live empresta uma comedida carga dramática ao personagem) encarna a figura do fracasso e talvez projete no pai seu próprio futuro. Seu contraponto é representado pelo irmão mais velho, Ross (o Saul Goodman, de Breaking Bad), um ambicioso apresentador de telejornal local.

Nebraska é um road movie familiar, singelo e de humor refinado. A fotografia em preto-e-branco e a bela trilha instrumental garantem um sentimento melancólico e atemporal à película, como se aquelas vidas fossem monótonas e sem cor, como um dia nublado. O sétimo longa de Alexander Payne, diretor dos premiados Sideways (2004) e Os Descendentes (2011) que pela primeira vez não assina o roteiro, deixando o cargo ao estreante Bob Nelson é um filme de pormenores: é tanta delicadeza, tanta sutileza, que é impossível não sair da sala do cinema com um sorriso recompensador no rosto.

Talvez por falta de jeito ou de comunicação dos personagens, a narrativa carrega nas entrelinhas uma infinidade de sentimentos contidos, amores não-declarados, afetos reprimidos que saltam à tela e aos olhos. Sua temática aborda a passagem do tempo, o comodismo, a ganância e a força dos mal-entendidos nos núcleos familiares. A jornada pessoal de Woody é um pouco a marcha da vida de nós todos (exceto pelo “compressor de ar”): uma visita às raízes e o eterno [des/re]estruturar do ser. E a lição, de que, no final, o que vale na vida é ter algo em que se acreditar. Nebraska concorreu ao Oscar 2014 nas categorias de Melhor Filme, Diretor, Ator (Bruce Dern, vencedor em Cannes), Atriz Coadjuvante (June Squibb), Roteiro Original e Fotografia.

 

 

Larissa Mendes não mora em Nebraska, mas também espera pela ‘good life’.

 

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87ª Leva - 01/2014 Destaques Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Ela (Her). EUA. 2013.

 

“O passado é só uma história que nos contamos”.

 

No poema Não Deixe, o escritor Charles Bukowski adverte:

‘Não deixe as pessoas serem
seu alicerce.
(…)
Elas são uma aposta ruim,
a pior aposta que você pode fazer.
(…)
Qualquer coisa
comparada às pessoas,
é um alicerce melhor a se procurar.
Qualquer coisa’.

Influenciado ou não pelo conselho do velho safado, o homem tem procurado na tecnologia seu firmamento. São jogos, gadgets, aplicativos. Redes sociais que, ao clonar nossa melhor versão, expõem nossas maiores fragilidades. É da mente fecunda do cineasta Spike Jonze – responsável por obras como Quero Ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002) – que surge um dos mais instigantes filmes sobre a era digital. Com estreia prevista nas salas brasileiras no próximo dia 14 de fevereiro, Ela analisa de maneira bastante peculiar a mecânica das relações humanas estabelecidas a partir dos avanços tecnológicos.

Em uma futurista Los Angeles retrô, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) é um introspectivo escritor que trabalha na agência “cartasescritasamao.com”, redigindo correspondências de pessoas com dificuldade em expressar seus sentimentos. Separado da esposa Catherine (Rooney Mara) há quase um ano, ele ainda se culpa pelo que possa ter minado a relação com seu amor de adolescência. Certo dia, movido por curiosidade e carência, Theodore adquire um revolucionário sistema operacional com inteligência artificial, cuja tecnologia permite que o software evolua e se adapte conforme sua interação com seres humanos. O OS1 apresenta-se como “uma consciência que promete ouvir, entender e conhecer” seu operador.

E assim nasce sua relação com Samantha (Scarlett Johansson), uma entidade intuitiva de voz suave, espirituosa e inteligente (quem mais conseguiria ler um livro ou compor uma canção em frações de segundos?) que se encanta com o mundo e faz com que o autor recupere seu entusiasmo pela vida. Tal encantamento transforma-se no mais legítimo afeto. Porém, estabelecer uma relação amorosa com “alguém” tecnicamente perfeito e ao mesmo tempo limitado pela ausência de um corpo físico, é de fato criar um vínculo real?

 

Theodore (Joaquin Phoenix) em seu contato inicial com o OS1

 

A delicadeza com que o diretor trata o assunto e a sintonia entre “o casal” é tão grande que em nenhum momento Theodore soa bizarro por apaixonar-se por uma máquina. Ao contrário, a impressão é que qualquer um poderia ser cativado pela voz (e é somente este seu recurso cênico) de Scarlett Johansson. Aliás, como diria a vizinha Amy (Amy Adams) em determinado ponto: “qualquer pessoa que se apaixone é uma aberração”. Escrito e dirigido por Spike Jonze e vencedor do Globo de Ouro como Melhor Roteiro, Ela concorre ao Oscar 2014 em cinco categorias: Melhor Filme, Roteiro Original, Trilha Sonora (executada pela banda canadense Arcade Fire), Canção Original (The Moon Song, composta por Karen O, do Yeah Yeah Yeahs e interpretada pela própria Scarlett, acompanhada por Joaquin no ukulele) e Direção de Arte.

Apesar da atmosfera científico-ficcional e da crítica ao cativeiro tecnológico do qual o homem se faz refém, Ela foge do lugar-comum para contar uma história genuinamente de amor. O filme apresenta um romance em seu estado mais puro e com toda a complexidade que o sentimento compreende. Sensível até em sua paleta de cores, o longa alia de forma genial passado e futuro, confrontando uma das mais primitivas formas de comunicação – a carta – com o que há de mais avançado em um computador. Certamente Samantha seria a destinatária da mais bela carta de amor já publicada por Theodore. E quanto ao poema de Bukowski, um adendo: Não deixe… de assistir esta pequena obra-prima do século XXI.

 

 

 

 

Larissa Mendes também quer um OS1 para chamá-lo de Him.